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7 de abril de 2019

Cântico dos Cânticos

É justo que se preste uma homenagem a Víctor García de la Concha. Seu último livro é uma edição crítica do Cântico dos Cânticos de Salomão, traduzido do hebraico pelo frei Luis de León
Foto: Fernando Vicente
Uma oportuna arritmia salvou Víctor García de la Concha da homenagem que iríamos prestar-lhe em Córdoba (Argentina) durante o oitavo Congresso da Língua realizado recentemente na cidade. Tivemos de nos contentar com um bom documentário sobre seus esforços acadêmicos para reforçar o caráter unitário do espanhol, apesar de ser incessantemente irrigado por mais de vinte países no mundo.
Mas não se livrará por muito tempo, já que o Instituto Cervantes pretende entregar a ele em Madri a medalha que ficou sem destinatário nessa ocasião. Eu, da minha parte, o homenageei lendo seu último livro: uma edição crítica do Cântico dos Cânticos de Salomão, traduzido do hebraico pelo frei Luis de León, publicado recentemente pela Editora Vaso Roto em sua coleção Esenciales Poesía.
É um livro impecável, lido do início ao fim com imenso prazer; ainda que também com certa indignação, porque, por escrevê-lo e pelas intrigas dos eternos invejosos, o infeliz frei Luis de León ficou vários anos preso em Valladolid e foi torturado pela Inquisição. Além disso, nunca viu editada essa bela tradução publicada somente duzentos anos após sua morte (em 1798). Em sua apresentação, García de la Concha dá todos os dados necessários para se conhecer a história do poema e das vicissitudes dolorosas que significou para o frei Luis de León – incluindo o julgamento interminável a que foi submetido – se arriscar a traduzi-lo do hebraico à língua castelhana.
De acordo com a lenda, o rei Salomão teve setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas nenhuma delas o inspirou como a filha do Faraó, a sulamita, um poema tão profundo e terreno como esse cântico que, apesar de suas ousadas e voluptuosas imagens, se recitava primeiro na Pascoa judaica (ainda que os judeus só pudessem lê-lo após completar quarenta anos) e fazia parte do Antigo Testamento.
Nesta edição, cuidadosamente anotada, estão também as Explicações à sua tradução escritas por frei Luis de León e que, pela delicadeza e perfeição de sua prosa, assim como pela sabedoria de suas análises e observações filológicas, são um complemento indispensável do poema. A liberdade das efusões trocadas pelos amantes brilha desde os primeiros versos do poema com a ardente proclamação da Esposa: “Beije-me com beijos de sua boca / porque seus amores são melhores do que o vinho”.
Víctor García de la Concha foi um excepcional crítico da poesia mística espanhola Fiel à tradição, frei Luis lembra de tempos em tempos em suas Explicações que, na verdade, o Cântico dos Cânticos é uma alegoria, ou seja, uma paixão figurada que narra a inquebrantável união de Deus e da Igreja e que, portanto, os galanteios e carícias desenfreadas dos esposos ao longo do poema não são carnais e sim espirituais e simbólicos.
Temo que ninguém que o leia em nossos incrédulos tempos engula semelhante teoria. Mas, talvez, não seja tão absurdo o contrário; ou seja, que a maestria artística com que é descrita essa paixão ardente que possui os amantes a carrega de espiritualidade e lhe confere uma dimensão que transcende a vida meramente vivida, desejada e consumada e a enriquece com uma projeção religiosa e ultraterrena.
O autor do poema e, seja como for, seu tradutor ao espanhol, conheciam o amor, a atração da mulher, os jogos da sedução, os segredos do desejo, e haviam imaginado (e talvez vivido) a felicidade e o gozo físico que o texto evoca com tanto refinamento e delicadeza.
Os amantes se observam, se examinam, se excitam, se despem e fazem amor. Também brincam, disfarçados de pastorinhos, correm pelos campos, se escondem entre as árvores e em meio aos rebanhos de cabras, simulam se perder e, então, a Esposa perde a razão e, correndo todos os riscos, durante a noite se lança pelas ruas de Jerusalém à procura de seu Amado. Tudo aquilo é um ingrediente do jogo teatral que fez parte da paixão dos casais ao longo dos séculos; e, entretanto, a poesia do Cântico dos Cânticos o transforma em uma experiência singular, excepcional e única.
Era talvez a isso que se referia Jorge Guillén quando chamou o poema de um “cântico prodigioso”. Não resta a menor dúvida de que o é e, para os leitores deste tempo, como é maravilhoso, como é atual, como nos fala diretamente de um amor que conhecemos, como parece extraordinariamente próximo à poesia experimental e de vanguarda, graças ao atrevimento de suas metáforas e ao deslocamento de sua sintaxe, à liberdade exercida por seu autor a cada verso. Na grande poesia há sempre algo superlativo e inefável, que nos fascina ao mesmo tempo em que nos assusta, pois nos abre as portas – ou as frestas – desse “outro lado” que a vida também tem e que somente a grande arte – a poesia e a música – são capazes de nos fazer entrever. Há muito tempo não tinha tanto prazer lendo um poema que não havia relido desde meus tempos de estudante.
É justo que se preste uma homenagem a Víctor García de la Concha. Foi um excepcional crítico da poesia mística espanhola, e poucos analistas descreveram com a fluência e elegância com que ele o fez, no livro fundamental que é Al Aire de Su Vuelo, a poesia de santa Teresa, de são João da Cruz e do próprio frei Luis de León.
A poesia mística é algo mais do que poesia, o testemunho de um encontro inusitado em que seres excepcionais cruzam uma fronteira misteriosa rumo a algo além do que a razão e o conhecimento podem reconhecer, algo a que só se chega através do milagre da fé, e que, justamente por isso, está fora do alcance do ser puramente racionalista e agnóstico.
E, entretanto, a beleza imperecível de certas imagens, emoções e músicas, e a astúcia e sutileza do crítico, aproximam esses leitores refratários ao coração dessa poesia que é mais do que poesia, e permitem que ele compartilhe com seus autores sua embriaguez irracional e sua loucura divina. Mas Víctor García de la Concha também foi um sagaz leitor do romance moderno espanhol e latino-americano, como mostrou em sua coleção de ensaios Cinco Novelas en Clave Simbólica, publicada em 2010.
Como diretor do Instituto Cervantes, no que foi provavelmente o período mais crítico da crise econômica na Espanha, lutou não só para não fechar nenhum centro do Instituto Cervantes como para abrir vários outros em diversos continentes. E foi um diretor excepcional da Real Academia Espanhola, que trabalhou de maneira incansável para estreitar os vínculos entre todas as academias americanas e a espanhola, de modo que despareceram as reservas e distâncias que anteriormente frustraram essa colaboração. A vitalidade e o impulso crescente do espanhol pelo mundo têm há muitos anos nesse antigo professor da Universidade de Salamanca um de seus melhores guardiões.

Autor: Mario Vargas Llosa - Direitos mundiais de imprensa em todas as línguas reservados a Edições EL PAÍS, SL, 2019.

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