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16 de fevereiro de 2026

Embargo comercial dos EUA contra Cuba é crime contra a humanidade!

  

Imagem Global Times.

O embargo comercial imposto pelos Estados Unidos contra Cuba é um crime contra a humanidade. Uma atrocidade que tem a ONU e os países que a compõe como cúmplices covardes.

O início deste processo começou em 1959 – A Revolução Cubana levou Fidel Castro ao poder, derrubando Fulgencio Batista. Em 1960 – O governo dos EUA, então presidido por Dwight D. Eisenhower, impõe as primeiras restrições comerciais após Cuba nacionalizar empresas americanas na ilha.

Em 1962 – O presidente John F. Kennedy oficializa o embargo total, proibindo quase todo comércio entre os dois países. Portanto, o embargo começou gradualmente em 1960 e se tornou total em 1962.

Essa situação perdura há mais de sessenta e seis anos, impedindo que Cuba possa ter relações comerciais com o restante do mundo. Um ato que sufoca sua economia e impede seu processo de desenvolvimento industrial. Os americanos que se acham donos do mundo, podem invadir militarmente países em busca de petróleo, terras raras e outras vantagens comerciais, porém, mantém estrangulado o povo cubano.

Os americanos justificavam sua atitude pelos seguintes motivos:

1️ Nacionalizações em Cuba

O governo de Fidel Castro nacionalizou refinarias, usinas de açúcar, bancos e outras empresas — muitas pertencentes a cidadãos e empresas dos EUA — sem compensação considerada adequada por Washington;

2️ Alinhamento com a União Soviética

Cuba aproximou-se da União Soviética, principal rival dos EUA na Guerra Fria, adotando um regime socialista. Esse sim, o maior motivo à época;

3️ Conflito ideológico

Os EUA buscavam conter a expansão do socialismo na América Latina (política de “contenção”);

4️ Crise dos Mísseis (1962)

A descoberta de mísseis soviéticos em Cuba levou à Crise dos Mísseis de Cuba, agravando ainda mais as tensões. Como se os americanos não tivessem instalações militares espalhadas pelo mundo.

A guerra fria entre URSS (Rússia) e os EUA acabou, o muro de Berlim caiu, o mundo passou pela globalização e tivemos toda uma evolução tecnológica, no entanto, os americanos mantém o embargo criminoso contra Cuba. Não há justificativa que se sustente diante das mudanças ocorridas, inclusive políticas, naquela ilha.

Nos anos 1990, leis como a Lei Helms-Burton (1996) tornaram o embargo mais rígido. Durante o governo de Barack Obama (2014–2016), houve reaproximação e flexibilizações. O governo de Donald Trump voltou a endurecer as sanções. O governo de Joe Biden manteve grande parte das restrições, com ajustes pontuais.

Ou seja, não importa o partido que esteja no poder nos EUA, tanto democratas como republicanos agem da mesma forma em relação ao embargo, mantendo-o criminosamente a luz das leis e da civilidade.

 

                                                        Imagem: Cartunista Latuff

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

Esgoto, Poder e Bilhões – O que está por trás da Concessão em Bauru?

  

Arte: Fernando Redondo. 

A cidade entra no maior contrato da sua história… sem saber exatamente quem está levando — e como Bauru atravessa, neste momento, um dos capítulos mais decisivos — e mais perigosos — da sua história administrativa. Não se trata apenas de uma concessão. Trata-se de um pacote bilionário que ultrapassa os R$ 10 bilhões, envolvendo esgoto, drenagem, água e obras estruturais que definirão o futuro da cidade pelos próximos 30 anos.

E, como quase tudo que envolve muito dinheiro, o que se vê não é apenas engenharia. É disputa de poder. Depois de meses de impugnações no Tribunal de Contas do Estado e questionamentos no Judiciário, o processo chegou à fase final. Acciona, Aegea e o consórcio liderado pela CBI estão na mesa. Três gigantes, três estratégias, três interesses — e uma cidade que ainda tenta entender exatamente o que está sendo entregue.

Porque o problema não começa agora. Começa lá atrás.

O edital nasceu torto. Ignorou apontamentos técnicos, resistiu às correções e foi empurrado sob uma teimosia política que custou meses de atraso e desgaste institucional. Tentou-se, inclusive, um modelo de julgamento subjetivo — aquele em que poucos atribuem notas a muitos bilhões. O TCE derrubou. Ficou o critério mais objetivo: menor tarifa.

Ainda assim, a condução do processo deixa marcas.

A sociedade reagiu tarde. As chamadas “forças vivas” — sempre tão eloquentes quando seus interesses são tocados — assistiram quase em silêncio a aprovação, a toque de caixa, de leis que entregaram poderes amplos ao Executivo: definir regras, fixar tarifas, conduzir um contrato de três décadas. Agora, com o jogo em andamento, resolveram aparecer.

Conveniente.

Em outros tempos, quando figuras como Moussa Tobias organizavam o tabuleiro com mão firme, dificilmente esse processo teria avançado sem resistência real. Hoje, o que se vê é uma elite seletiva: reage quando lhe convém, silencia quando lhe beneficia. Mas há um ponto ainda mais sensível — e que exige memória recente.

Entre os concorrentes está a Aegea, maior operadora privada de saneamento do país. Um gigante. Com atuação em centenas de municípios. Com capacidade de investimento inquestionável. E também com um histórico que não pode ser tratado como detalhe.

Executivos da companhia, em delações homologadas pelo STJ, admitiram o pagamento de cerca de R$ 63 milhões em propinas para obtenção e manutenção de concessões em diversos estados. O esquema envolvia dinheiro em espécie, contratos simulados e vantagens a agentes públicos. Houve acordo de leniência, pagamento de multas e continuidade das operações. Tudo dentro da legalidade atual.

Mas a pergunta permanece:

qual é o custo real quando se entrega um serviço essencial a grupos que cresceram, em parte, sob esse tipo de prática?

Não se trata de acusar o processo de Bauru. Não há, até aqui, qualquer comprovação de irregularidade local até em razão do MP estar a margem deste debate (O Ministério Público (MP) é uma instituição permanente, autônoma e essencial à função jurisdicional do Estado, sem vinculação aos poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário). Trata-se de algo mais básico — e mais importante: cautela.

Porque concessão não é obra. É dependência de longo prazo.

E o contrato em discussão vai além do esgoto. Inclui drenagem pesada, piscinões, intervenções urbanas de altíssimo custo — muitas delas projetadas para acontecer apenas anos à frente, quando outros estarão no poder. O risco é conhecido: assina-se hoje, paga-se amanhã.

E paga-se caro.

Bauru tem dinheiro em caixa. Tem mais de R$ 300 milhões disponíveis para concluir a ETE Vargem Limpa. Ainda assim, opta por um modelo que transfere controle, operação e tarifa por três décadas. Pode dar certo? Pode. Mas exige vigilância permanente — algo que, até aqui, não tem sido exatamente o forte do processo.

No meio disso tudo, fica uma constatação incômoda:

O maior contrato da história da cidade avança sem que a população compreenda plenamente seus termos, seus riscos e suas consequências. E quando bilhões entram na mesa, ignorância não é apenas falta de informação. É ativo político.

No fim, a disputa não é só entre Acciona, Aegea e CBI.

É entre transparência e conveniência.

E Bauru, mais uma vez, está no meio do jogo — com muito a perder e ainda sem saber exatamente quem está jogando por ela certamente não são os 17 vereadores eleitos que formam a base do executivo.

Autor: Fernando Redondo - Jornalismo Independente

11 de fevereiro de 2026

A sociedade do excesso

 

Em um mundo de superabundância de informação e consumo, o filósofo e curador do Fronteiras do Pensamento reflete sobre o cansaço, a hiperatividade e a busca por sentido na era digital.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chamou a nossa época de “sociedade do cansaço”. Não por acaso se tornou uma espécie de astro pop da filosofia. Seu mérito foi capturar de um jeito simples um traço definidor de nossa época. A ideia de que vivemos em uma era de excesso. E de que estamos com dificuldade de lidar com isso. O excesso assume muitas formas. A mais elementar de todas é a informação. Perto de 200 zettabytes de informação rodam pelo planeta, neste 2026, contra apenas 1 zettabytes, década e meia atrás.  Um volume que basicamente irá dobrar a cada ano, por certo aprofundando a sensação de mal-estar e do caos contemporâneos. 

O excesso, porém, vai além da informação. Nas últimas três ou quatro décadas, a renda média mundial praticamente dobrou, refletindo um ganho expressivo — ainda que desigual — dos processos tecnológicos e de integração econômica. Ao mesmo tempo, a pobreza extrema caiu de 38% para perto de 8% da população. O tempo de trabalho necessário para comprar produtos e comodidades vem declinando em ritmo constante, em um efeito clássico de ganhos de produtividade, no que os economistas Marian Tupy e Gale Pooley identificaram como nosso caminho para a “superabundância”. 

Em 1930, Keynes escreveu seu conhecido “Possibilidades econômicas para os nossos netos”, sugerindo que, em um século, teríamos multiplicado nossa riqueza em até oito vezes, e que a jornada de trabalho poderia chegar a coisa de quinze horas semanais. Quase um século depois, dá para dizer que ele acertou na primeira previsão, mas errou redondamente na segunda. De fato, ficamos mais ricos, ainda que muito desigualmente, mas definitivamente andamos mais ocupados e atarantados do que nunca. 

Não é por acaso que a “economia da atenção” tenha se tornado um grande tema contemporâneo. Não apenas porque há toda uma indústria de plataformas digitais trabalhando para capturar, via algoritmos, a nossa atenção, mas porque nós mesmos andamos seduzidos pelo caos informativo. E não sem razão. A informação é uma forma de poder. E o poder foi descentralizado. Moisés Naim chegou a falar no “fim do poder”, por certo um exagero. Mas inequivocamente fazemos mais, nos preocupamos mais, nos incomodamos mais, porque nosso senso de urgência foi ampliado. Antes receptores de informação, agora temos o poder de influenciar, de opinar sobre qualquer assunto, de inventar textos e fazer filmes inteiros, com a IA, de gerar empresas, negócios, experimentar novas formas de trabalho, novas formas instantâneas de afeto. E de solidão, da mesma forma. 

Byung-Chul Han é cruel com este novo mundo. “O animal laborans pós-moderno”, diz ele, “é hiperativo e hiper neurótico”. A modernidade dessacralizou o mundo, perdemos a ideia de um grande sentido, e curiosamente colocamos no lugar a atividade incessante, quem sabe uma hipervalorização do trabalho, mas também da “relevância”, do impacto, da “reputação” e de tudo que compõe a obsessão contemporânea. Por vezes surge nisso a antiga imagem nietzschiana do “último homem”. O indivíduo obcecado pela longevidade, pela saúde, pelo bem-estar. Com um detalhe quem sabe amargo: o tipo que consegue, ao cabo, converter mesmo a busca da felicidade em novíssimo tipo de neurose. 

É um pouco sobre este mundo que o Fronteiras quer refletir, neste Festival. Nossa ideia, no fundo, é uma antiga sedução: o convite à fruição da beleza. A beleza das ideias, da controvérsia amável, do tempo lento e da incerteza como incentivo à autonomia individual. O que cada um pode esperar é nosso compromisso de sempre: a pluralidade das ideias e o convite a reflexão sem pressa. É o mínimo que um projeto intelectual pode buscar, nesta era do excesso.  

Autor: Fernando Schuler é filósofo e cientista político criador e curador do Projeto Fronteiras do Pensamento, professor do Insper, Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com Pós-doutorado pela Universidade de Columbia, em Nova York. É Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e Especialista em Gestão Cultural e Cooperação Ibero-americana pela Universidade de Barcelona (UB). Colunista do Estadão e da Band. Publicado no Site Fronteiras do Pensamento.