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9 de fevereiro de 2026

O que o Brasil menos precisa é de novos partidos políticos!

                          

Espaço Vital - Cartum Cícero.

O surgimento de mais um partido num cenário saturado com mais de 30 agremiações partidárias é um absurdo. O novo velho partido é o Missão, oriundo dos moleques do MBL, aqueles que invadiam universidades e hospitais em busca de imagens para poderem lacrar enquanto distorciam a verdade.

Estiveram ao lado da extrema-direita bolsonarista em 2018 e 2022. Depois da tentativa de golpe de Estado e dos casos de roubos de joias e outros escândalos, pularam fora da barca resolveram agir por conta própria criando um partido de extrema-direita. Mais um credor para o fundo partidário bilionário.

Ficou fácil, pois agora criticam o PT, PSOL na esquerda e os partidos de direita convencionais. Ninguém presta na ótica deles e só o que eles falam é a luz da verdade. Acontece que não possuem legado, nunca fizeram nada de útil a sociedade brasileira, portanto, não tem como comparar com algo dentro do já combalido cenário político nacional.

O Missão é mais do mesmo neste cenário exaurido em que os políticos criticam tudo e não fazem nada para mudar o que está errado. Nossa política precisa de uma reforma que acabe com o excessivo número de partidos, com as regalias recebidas pelos políticos, pelo número exagerado de vereadores, deputados estaduais e federais, pelo fim da concessão e auxílios infindos imorais que solapam nossos impostos.

O novo grupamento vai na contramão e a única coisa que pleiteiam é pena de morte para criminosos. Surgem com o surrado slogan “Bandido bom é bandido morto”. Um tanto quanto fascista e imoral, visto que bandido milionário que dá golpes em grande lojas e bancos não estão inclusos neste slogan.

Suas principais propostas são:

Segurança Pública: Defende o endurecimento de penas, o combate frontal ao narcoterrorismo e inspira-se em modelos como o de Nayib Bukele (El Salvador).

Economia: Segue uma linha liberal, mas com pitadas de desenvolvimentismo focado em infraestrutura e industrialização regional (como no Nordeste).

Valores: Defesa dos valores judaico-cristãos e da cultura clássica, mas com foco em um "projeto de nação" e ruptura geracional (focado nas gerações Millennial e Z).

Após o registro do partido Missão, outras 23 legendas tentam sair do papel no Brasil, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Atualmente, o País conta com 30 partidos políticos regularmente registrados na Justiça Eleitoral.

Pela Lei dos Partidos Políticos, é livre a criação de legendas, desde que seus programas respeitem a soberania nacional, o regime democrático, o pluripartidarismo e os direitos fundamentais da pessoa humana. A legislação também assegura autonomia para a definição de estrutura interna, organização e funcionamento das siglas.

Infelizmente, isso mostra que assim como existem igrejas em milhares de fundos de quintais, em busca de enriquecimento às custas da isenção de impostos, políticos de diversos grupamentos querem desfrutar do fundo eleitoral brasileiro e dos altos salários e benefícios a disposição dos políticos no país.

 

                                         Imagem: Chargeonline.com.br

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

Brasil: a longa duração da impunidade.

  

“O jantar” de uma família no Rio de Janeiro do século XIX. Pintura (aquarela) do artista francês Jean-Baptiste Debret, 1830. Domínio Público. 

Este é o Brasil. Uma história de horror. Uma nação cuja história foi meticulosamente montada tendo a impunidade como linha mestra, como razão de ser.

Impunidade. A palavra, em sua fria etimologia, deriva do latim impunitas, a junção do prefixo negativo in- com punitas, o castigo. Significa, em sua essência, a ausência de punição. No entanto, ao longo da história, e de forma particularmente visceral na trajetória brasileira, seu significado transcendeu a mera definição dicionarizada. A impunidade deixou de ser um desvio ou uma falha no sistema de justiça para se tornar o próprio sistema, a argamassa que une os tijolos de uma nação erguida sobre a violação e a ausência de reparação.

Para compreender a profundidade dessa estrutura, é preciso retornar ao marco zero, ao momento em que o Brasil se forja como Estado Nacional. A nação não nasce de um grito de liberdade, mas de um pacto de sequestradores. Após a proibição do tráfico de escravizados em 1831, uma lei solenemente ignorada, a elite luso-brasileira orquestrou o sequestro e a deportação de mais de 750 mil africanos livres. Este ato, um crime de lesa-humanidade perpetuado em escala industrial, não foi um acidente de percurso, mas a pedra fundamental sobre a qual a economia e a sociedade do Império se consolidaram. O Brasil independente surge, portanto, não apenas como uma nação que continua a escravizar africanos, mas a nação que escraviza como sua razão de ser. A maior nação escravocrata do planeta. Dos 11 milhões de escravizados ao longo de mais de três séculos, 5 milhões vieram acorrentados para o Brasil. Mais de 2 milhões entraram pelo Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Um crime continuado, garantido pela impunidade de seus perpetradores.

Décadas e décadas depois, diante de uma abolição “lenta, gradual e segura” – controlada pela elite da “Política da Escravidão” -, em 13 de maio de 1888 a Lei Áurea decreta o fim do cativeiro. Mais de 700 mil homens, mulheres e crianças são declarados libertos. Contudo, a liberdade que lhes foi outorgada era uma liberdade desprovida de qualquer forma de indenização ou reparação pelos séculos de trabalho forçado, tortura e desumanização. A terra, o poder e o capital permaneceram nas mãos da mesma elite que os escravizou. Aos recém-libertos, restou a marginalização, a miséria e a contínua subjugação sob novas formas. A abolição – resultado sim da brava luta dos abolicionistas -, foi celebrada pela história oficial como um ato de benevolência da Princesa Isabel. Contudo, foi – na prática -, a mais cabal demonstração da continuidade do poder escravocrata, que se isentou de qualquer responsabilidade pelo crime que cometera, legando aos ex escravizados o ônus de construir uma vida em meio aos escombros de sua própria exploração.

Este é o Brasil. Uma história de horror. Uma nação cuja história foi meticulosamente montada tendo a impunidade como linha mestra, como razão de ser, como a garantia tácita de que os “escravocratas” de ontem e de hoje possam continuar a nos massacrar. A ausência de punição pelo sequestro em massa que fundou o país e a falta de reparação pela exploração de milhões de vidas humanas criaram um precedente perverso. A mensagem que ecoa através dos séculos é evidente: no Brasil, o poder confere o direito de violar, de explorar e de matar, sem que haja consequências. A estrutura que permitiu a um senhor de escravos, um  barão do café acumular fortuna com o suor e o sangue de centenas de escravizados é a mesma que hoje permite que violências de todo tipo sejam perpetradas contra pretos, pardos e indígenas em todo o vasto território nacional.

E é por isso que, no Brasil contemporâneo, a cena de horror continua num eterno retorno, com uma regularidade assombrosa. Ora, é por isso que existem tantos “Vorcaros” ostentando suas riquezas e seu poder, símbolos de uma elite que se sente intocável, acima da lei e da moral. E existem tantos “orelhas” apanhando, corpos anônimos e descartáveis que carregam nas costas o peso de uma dívida histórica que nunca foi paga. A impunidade, portanto, não é apenas uma questão jurídica; é a gramática da nossa desigualdade, a sintaxe da nossa violência. É a estrutura que garante que, enquanto a casa grande celebrar suas vitórias – e ela não cessa de comemorar -, o povo continuará a sangrar diante de vampiros sedentos, que sugam diariamente a sua força vital. 

Autor: Lindener Pareto Jr. - Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP. Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Autor de "Crônico e Anacrônico: escritos de um operário do tempo", pela editora Autonomia Literária (2025). Publicado no Site ICL Notícias.

8 de fevereiro de 2026

O abismo entre a lei da inclusão e a realidade das escolas

Para que haja uma verdadeira inclusão, é fundamental a existência de uma equipe multidisciplinar qualificada em todas as escolas da rede pública brasileira. Foto Fotostand picture alliance. 

Enquanto o Estado romantizar a inclusão escolar e terceirizar sua execução para professores sobrecarregados e estagiários despreparados, quem paga o preço é quem deveria estar sendo cuidado e acolhido. Recentemente assisti nas redes sociais o desabafo de um pai de uma criança de 9 anos que é autista grau 3 não verbal e a relação do seu filho com a escola. Segundo ele, para seu filho é um ambiente hostil e quase torturante.

Com muita dor, ele relata que precisa aceitar que seu filho nunca irá aprender a fórmula de Bhaskara, o contexto de expansão marítima ou o conceito físico de óptica. Seu verdadeiro sonho é que ele aprenda a escovar os próprios dentes ou a se vestir sozinho.

Sua transparência me chamou muito a atenção e me fez pensar sobre a realidade da inclusão de estudantes neuro divergentes (ND) na rede pública brasileira.

Para que haja uma verdadeira inclusão, é fundamental a existência de uma equipe multidisciplinar qualificada em todas as escolas da rede pública brasileira. Essa, infelizmente, não é a realidade atual. Recebi inúmeros relatos de uma prática bem comum: a contratação de estagiários, como estudantes de licenciatura, para atuarem como acompanhantes dos alunos que requerem esse suporte. A razão é orçamentária, pois a contratação de estagiários é muito mais barata do que a de profissionais qualificados.

Sobrecarga

Qual o problema? Eles não têm a formação necessária para exercer tal função. Em muitas licenciaturas do Brasil, a disciplina de inclusão/educação especial nem é obrigatória. Também não podemos esperar que uma única disciplina capacite para tamanha responsabilidade. Giovanna, estudante de Letras, foi procurar estágio em um colégio carioca. A vaga era para acompanhar crianças ND. Ao perguntar se teria suporte, a resposta foi: "Ah, não tem importância não, você está fazendo licenciatura e pode ficar aqui cuidando da criança".

Já Kawwany, também estudante de Letras, passou por algo parecido em Sergipe. "Na sala que me colocaram, tinham cinco crianças ND com diagnóstico e, como era impossível uma única estagiária trabalhar com todas, eu fui orientada a escolher uma criança e focar nela. Esse foi o máximo da orientação que recebi." Outra faceta desta problemática é a sobrecarga docente. Se o professor disser não que é possível adaptar e personalizar a aula para todos os estudantes ou simplesmente não conseguir, claramente faltou boa vontade, empatia e profissionalismo. É um peso gigante para depositar nas costas de um dos profissionais mais desvalorizados do país.

Mas, como personalizar e adaptar em um contexto de, pelo menos, 30 alunos por sala em média e, sobretudo, sem a capacitação e a formação continuada necessária? Por favor, sejamos honestos: beira o impossível.

Integração, será?

Podemos pensar na política de inclusão sob dois vieses: a aprendizagem e a integração. Como feita hoje, ela não garante a aprendizagem. Há quem ainda assim a defenda sob a ótica da integração, pois é importante que crianças não ND convivam com as que são e vice-versa, mas a realidade atual também mina esse fim. Maria Luiza é mãe de um jovem autista grau 1. "Lembro que um dia que cheguei para buscá-lo e ele estava completamente nu, largado num canto e afastado dos outros coleguinhas. Aquilo foi dilacerante para mim. Estava com semblante apavorado e por não ser verbal não sei o que aconteceu ao certo. Ao questionar, me deram desculpas esfarrapadas como sempre ouvia, ele é muito agitado, ou ele escorregou, caiu. Então, eu decidi tirá-lo da escola."

A realidade, infelizmente, é que a inclusão de estudantes neuro divergentes nos colégios regulares, em muitos casos, acaba mais os excluindo do que integrando. Incluir não é apenas matricular. Não basta colocar a criança neuro divergente dentro da sala de aula e chamar isso de política pública. Sem profissionais qualificados, sem infraestrutura e sem suporte real a chamada inclusão vira abandono institucionalizado.

Enquanto o Estado romantizar a inclusão escolar e terceirizar sua execução para professores sobrecarregados e estagiários despreparados, quem paga o preço é quem deveria estar sendo cuidado e acolhido. 

Autor: Vinicius de Andrade – Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Publicado no Site DW.