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3 de agosto de 2026

“Ouvidos Moucos”, ou quando o país foi dominado pelo fascismo, por Luís Nassif

  

Luiz Carlos Cancellier - Reprodução.

Houve vaidade institucional desmedida, adesão coletiva a um clima de época em que destruir reputações parecia demonstração de virtude cívica. A “banalidade do mal”, de Hannah Arendt, continua sendo uma das explicações mais precisas para entender como pessoas aparentemente normais podem participar de engrenagens de destruição moral sem se perceberem como monstros. A tese de Arendt não era a de que o mal fosse pequeno. Mostrou que o mal extremo pode nascer da renúncia ao pensamento crítico, da submissão à rotina burocrática, da obediência automática a uma máquina institucional.

No Brasil contemporâneo, poucos fenômenos expressaram tão claramente essa dinâmica quanto o ambiente criado pela Lava Jato e por suas derivações. Não se tratou apenas de uma operação judicial. Foi um estado de espírito, um paroxismo que contaminou procuradores, policiais, juízes, jornalistas, políticos e parte expressiva da opinião pública. Criou-se uma fogueira inquisitorial em que qualquer cautela jurídica era tratada como cumplicidade com o crime; qualquer dúvida, como defesa da corrupção; qualquer garantia individual, como obstáculo à purificação nacional.

Espero que um dia alguns dos personagens desse período mergulhem nas próprias entranhas para compreender como a maldade pode se alojar em mentes aparentemente racionais. Como foi possível naturalizar conduções coercitivas abusivas, prisões espetaculares, vazamentos seletivos, linchamentos morais e ataques a familiares, esposas, filhos e filhas dos acusados. Como foi possível transformar o sofrimento alheio em espetáculo de televisão e, depois, apresentar-se como guardião da democracia que se ajudou a comprometer.

Houve o procurador que pediu a condução coercitiva de funcionários do BNDES, inclusive mulheres grávidas, e que, anos depois, no auditório do próprio BNDES, entregaria certidões de óbito retificadas a vítimas da ditadura. Houve o jornalista que alimentou a fogueira inquisitorial, que inaugurou o discurso pesado da ultradireita e hoje posa de campeão das liberdades públicas. Houve autoridades que, em nome do combate à corrupção, relativizaram direitos elementares e ajudaram a criar a cultura de exceção que depois ameaçaria a própria democracia.

E houve o procurador afável de Santa Catarina, que ordenou a prisão e o suplício moral de professores da Universidade Federal de Santa Catarina, transformando decisões administrativas corriqueiras em indícios de organização criminosa. Poucos casos foram tão explícitos quanto a Operação Ouvidos Moucos. A operação levou ao suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, destruiu reputações, lançou professores à cadeia e submeteu servidores a anos de processo. Tudo sob a lógica típica das cruzadas morais: primeiro se constrói o escândalo; depois se procura o crime que justifique o espetáculo.

Na época, escrevi sobre o procurador observando a foto dos filhos que emoldurava sua estante. Imaginei a cena doméstica: depois de um dia de trabalho, ele chegaria em casa, tomaria banho quente, vestiria o roupão, ligaria a televisão no Jornal Nacional e assistiria à prisão e à humilhação de suas vítimas.

  • Olha, filhinho, o que papai fez hoje.

A frase era cruel, mas traduzia a essência daquele momento: a incapacidade de perceber o outro como pessoa. O acusado deixava de ser professor, servidor, reitor, pai, mãe, filho ou filha. Virava personagem de uma narrativa penal previamente escrita. A biografia desaparecia; ficava apenas o papel atribuído pela acusação. Agora, anos depois, chegou ao fim o julgamento em primeira instância de dois dos acusados. Os tempos são outros. O procurador federal é outro. E o Ministério Público, após a produção das provas, pediu a absolvição por reconhecer que não havia elementos suficientes para sustentar a denúncia.

A origem do caso era muito menos espetacular do que a operação fez parecer. Tudo começou com apurações sobre verbas do programa Universidade Aberta do Brasil, administradas por fundação de apoio. Para lidar com a burocracia cotidiana — deslocamentos, motoristas, transporte de professores — a fundação contratava empresas credenciadas. Como a administração pública exigia cotações formais mesmo para despesas pequenas e recorrentes, consolidou-se uma prática comum em muitas universidades: a empresa acionada para prestar o serviço apresentava as propostas necessárias para cumprir a formalidade.

O que poderia ser tratado como irregularidade administrativa, falha de controle ou expediente burocrático disseminado foi transformado em prova de corrupção. A denúncia concentrou-se na contratação de motoristas para transportar professores. Compararam-se viagens para uma mesma cidade, apontaram-se discrepâncias de preços, sem levar em conta que, em um dos casos, houve o pernoite do motorista e, a partir daí, construiu-se a narrativa de direcionamento. Ou então, identificava um aluno que era carteiro dos Correios. Em vez de enaltecer seu esforço em se formar, era apresentado como prova de corrupção. Afinal, como pode um mero entregador de cartas pretender um curso superior.

O raciocínio acusatório era simples — e devastador: como os pedidos eram encaminhados com frequência à mesma empresa, haveria ali o sinal de um esquema. Pouco importava que o servidor ou coordenador só pudesse solicitar transporte a empresas previamente credenciadas. Pouco importava que os pagamentos fossem feitos diretamente pela fundação, que o professor ou coordenador não ordenasse despesas, não movimentasse recursos e não recebesse vantagem pessoal. O que importava era o escândalo.

A máquina já estava em marcha. A denúncia foi apresentada, os acusados foram presos ou expostos, as carreiras foram paralisadas, as famílias foram atingidas, a universidade foi humilhada. Durante anos, todos carregaram o peso de uma acusação que, ao final, não se sustentou. O próprio Ministério Público, nas alegações finais, reconheceu que as provas produzidas em juízo afastavam a participação dos acusados nos crimes imputados. A sentença acolheu a absolvição. Em linguagem jurídica, faltaram provas. Em linguagem humana, sobraram ruínas.

Esse é o ponto central. O fascismo cotidiano não aparece apenas na figura do ditador de botas, no partido de massas ou na saudação ritual. Ele também se manifesta quando instituições democráticas passam a operar com lógica de exceção; quando a presunção de inocência vira detalhe incômodo; quando o sofrimento do acusado se converte em ativo político, manchete ou troféu funcional; quando agentes públicos se convencem de que sua causa é tão nobre que já não precisam responder pelos meios utilizados.

A Operação Ouvidos Moucos é uma aula amarga sobre esse mecanismo. Não houve apenas erro. Houve vaidade institucional desmedida, adesão coletiva a um clima de época em que destruir reputações parecia demonstração de virtude cívica. Anos depois, a absolvição não devolve o que foi perdido, a vida de Cancellier, a serenidade dos professores acusados. Não apaga a humilhação pública, o medo, a solidão, o adoecimento, a marca deixada nos filhos e nas famílias.

Mas deixa uma lição: quando o combate ao crime abandona o direito, já não combate apenas o crime. Passa a produzir suas próprias vítimas. E, quando isso ocorre sob aplausos, manchetes e câmeras de televisão, a banalidade do mal deixa de ser conceito filosófico. Torna-se rotina administrativa. 

Autor: Luís Nassif – Publicado no Site GGN Notícias.

As leis da estupidez que conformam o idiota ‘ideal’. Por Lenio Streck.

  

Imagem ilustrativa. 

Nada é por acaso. É preciso refutar, de saída, a ideia de que o momento atual seja fruto de mera contingência. Há nisso uma agnotologia: a construção deliberada da ignorância. Robert Proctor, que cunhou o termo estudando a indústria do tabaco, mostrou que a ignorância não é apenas um vazio a ser preenchido; ela é produzida, financiada, distribuída.

Pois bem. Na era algorítmica, a estupidez deixou de ser condição inata ou deficiência cognitiva passiva. Ela virou “ciência empírica”. Tem método de validação, dinâmica de replicação imediata e até métricas de desempenho (os cliques), tudo otimizado por inteligência artificial e análise de dados comportamentais. O estúpido de antigamente era artesanal. O de hoje é industrial, com escala e engajamento.

O fenômeno pode ser decodificado a partir das célebres cinco leis fundamentais da estupidez humana, de Carlo M. Cipolla — depois retrabalhadas, entre nós, pela psicanálise de Mauro Mendes Dias —, sobre as quais já escrevi nesta ConJur. Transpostas para o ecossistema das redes sociais, com as adaptações que a experiência jurídica brasileira impõe, elas expõem a mecânica exata do declínio:

Lei número 1: sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos que circulam pelo mundo jurídico.

Lei número 2: a probabilidade de que uma pessoa enfiada até o pescoço nas redes sociais seja estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa. Título, cargo, seguidores: nada imuniza.

Lei número 3: estúpida é a pessoa que causa danos a outra sem obter benefício algum para si, podendo até sair no prejuízo. Se tiver formação jurídica, o estrago tende a vir com fundamentação.

Lei número 4: as pessoas não estúpidas sempre subestimam o potencial destrutivo das estúpidas.

Lei número 5: o estúpido é o tipo mais perigoso que existe. Mais que o bandido, dizia Cipolla, porque o bandido ao menos calcula.

A aplicação dessas “normativas” denuncia um tipo ideal (Weber me perdoe) de idiotia. As redes sociais abrigam uma verdadeira nesciocracia: o governo dos néscios, com direito a voto, réplica e emoji. E o leitor pode testar a tese empiricamente. Eis dois experimentos que fiz, à moda falsificacionista. Popper ficaria orgulhoso do rigor; do resultado, nem tanto.

Primeiro experimento: publique uma crítica às palhaçadas de certos repórteres de TV durante a Copa do Mundo, essa gritaria performática de quem se julga engraçado ou um(a) Einstein da mídia. Pergunto: será que aprendem isso nas faculdades? Fico imaginando o professor “ensinando” como pagar mico na frente das câmaras. Quanto mais palhaço, melhor.

Quando faço críticas a esse ECP (estado de coisas patético), confirma-se a lei número 2 (veja explicação anterior). Os comentários nas redes sociais confirmam também a crise do ensino e a terceirização da cognição. Mostra igualmente que diploma não encurta orelha. O índice de idiotice se mede pelos comentários que chegam em minutos: “muda de canal, chato”; “TV é diversão”; “e o Xandão, hein?”; “não vai falar do STF?”.

E note-se o ponto que o idiota não alcança: sou assinante de TV a cabo. Pago pela transmissão. Tenho o direito de assistir ao jogo sem exercícios ruins de humorismo. Veja-se o que ocorre com a TV Cazé. É espantoso. E os repórteres e comentaristas da Globo? Pensam que a população tem 10 anos de idade. Na verdade, têm certeza disso.

O streamer Casimiro, da CazéTV. Foto Reprodução

Daí a pergunta: por que o consumidor é que tem de mudar de canal, e não é o fornecedor quem deve melhorar o produto? Inverter esse ônus é naturalizar a precariedade do serviço. Mas o tipo ideal de idiota não discute o argumento; ataca quem o formula. Perdemos a capacidade de crítica e de indignação, e quem ainda a exerce vira “o chato”. Viva a chatice.

Segundo experimento, mais orgânico: publique uma crítica às vendas casadas travestidas de “desconto progressivo” nas grandes redes de farmácia. Um medicamento de alto custo sai por R$ 1.650 a caixa avulsa; comprando três, cada uma cai para R$ 1.148. Sim, é isso que você leu. Quer comprar uma só? Paga R$ 500 a mais pela mesma caixa. Isso tem nome no Código de Defesa do Consumidor, essa lei que ninguém respeita. Essa lei que foi desnominada para “lei que sustenta os meros aborrecimentos”. Faça o teste: vá até um juizado próximo a sua casa. Ainda: noutra rede, a caixa avulsa custa R$ 2.200; no combo de três, R$ 1.150 cada.

Que progressividade é essa que pune quem, naquele dia, só tem dinheiro para comprar uma caixa do remédio de que precisa? O caso mais inusitado: por telefone, descubro que uma rede oferece três por R$ 1.250 cada, mas só há duas no estoque. Bingo. Solução da atendente: leve as duas por R$ 1.640 cada. O desconto existe justamente na quantidade que a loja não tem. Por isso não ganhamos o Nobel. Só o Ignóbil.

E a reação dos néscios das redes: “o doutor não sabe o que é desconto progressivo?”; “não estudou direito?”; “troca de farmácia” (como se adiantasse: o cartel de práticas é o mesmo); “que cara chato é esse Lenio reclamando de desconto”; e, claro, o tradicional “por que não fala do caso Master?”. O coeficiente de idiotice cresce na exata do ódio de quem escreve. E, ne medida em que odeiam o semelhante em geral, pouquíssimos passam incólumes pelo Rubicão da Estupidez.

Reparem na estrutura comum aos dois experimentos. A crítica aponta uma lesão concreta a direitos (do telespectador assinante e do consumidor de medicamentos). Quantos artigos e livros já escrevi criticando o sistema de justiça? É minha função. Inclusive de caricaturizar as Igrejas que curam joelhinhos de velhinhas e vendem Ora Pron obis e remédios para enxergar melhor. Só na ConJur já escrevi mais de 1.200 colunas.

Mas a resposta nesciocrática jamais enfrenta o mérito das discussões postas pelo articulista e professor: ou desqualifica o crítico (“chato”), ou muda de assunto (“e o Xandão?”), ou normaliza o abuso (“é assim mesmo”). É a agnotologia em ato.

Atenção: não se trata de discordância, que é saudável e constitutiva do debate público; trata-se da produção ativa de ruído para que o argumento não seja sequer ouvido. A lei número 3 do Código da Estupidez em sua forma pura: o néscio não ganha nada defendendo a farmácia que o explora ou a emissora que o trata como imbecil e massa de manobra. Ele causa danos ao (i) debate, (ii) a terceiros e (iii) a si próprio. De graça.

Encerro com um pedido de utilidade pública a esse tipo ideal. Quem mantém uma rede social ou coluna em veículo jornalístico não implora que o leiam. Portanto:

– Não siga o perfil de um professor para odiá-lo. Ninguém lhe pediu.

– Não perturbe. Não despeje discurso de ódio.

– Não diga platitudes.

– Não passe recibo de néscio.

– As cinco leis já preveem o seu comportamento; surpreenda-as.

Vamos falar sério.

Post scriptum: esta coluna vale mais pelo simbólico. É minha solidariedade a quem se esforça nas redes sociais e em colunas para trazer informação, conhecimento — e esclarecimentos sobre a vida dura do cotidiano. Pelas pedradas que recebem(os). 

Autor: Lenio Streck – Publicado no Site do Diário do Centro do Mundo.

As eleições brasileiras podem sofrer com interferências dos EUA!

 

As viagens da família Bolsonaro aos EUA, com as promessas tácitas de facilitação do acesso a terras raras e outras riquezas, bem como, atuar para dificultar a presença do Pix em favor das grandes empresas de cartões de crédito americanas são apenas uma pequena ponta do que pode vir a acontecer durante o período eleitoral.

Isto porque a candidatura de Lula, favorita a conquistar as eleições não é conveniente a Trump e ao sistema financeiro americano. Claro que a forma a ser utilizada não está prevista nas regras do jogo eleitoral ou diplomático, mas contém sujeira e o velho golpismo contra a democracia na América do Sul.

Neste sentido o colombiano, Alex Saab atualmente preso nos Estados Unidos, pode se tornar a peça central de uma operação de interferência internacional com foco direto nas eleições brasileiras.

Os tentáculos de um novo golpe político eleitoral começam a ser tramados nos bastidores da Casa Branca e já podemos ouvir os ecos desse crime aqui na América Latina.

A trajetória de Saab é estranha como tudo que diz respeito a política externa americana. Saab trabalhou durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, sendo detido pelos Estados Unidos sob acusações de desvio de US$ 350 milhões de dólares de projetos sociais e ligações com o narcotráfico — o manual clássico de acusações que Washington utiliza contra governos considerados refratários à sua hegemonia.

Após idas e vindas judiciais, incluindo uma troca de prisioneiros sob a gestão Biden e uma posterior devolução aos EUA após o sequestro de Maduro, Saab está novamente sob custódia americana.

Aqui começa a vazar nos bastidores da mídia americana, o planejamento de uma suposta delação premiada dirigida com o objetivo de acusar líderes latino-americanos de terem sido financiados por recursos venezuelanos e pelo narcotráfico.

Como este ano só teremos uma eleição na América do Sul, justamente a do Brasil em outubro, fica muito claro que a intenção dos golpistas é tentar enlamear com denúncias falsas e assim deturpar as eleições brasileiras favorecendo o candidato dos golpistas americanos Flávio Bolsonaro. O roteiro é disparar munição contra o presidente Lula e o PT, tentando manchar a imagem do governo federal às vésperas de uma disputa eleitoral crucial.

Essa estratégia não ocorre no vácuo. Reportagem de Plínio Teodoro, na Fórum, mostra que a diplomacia americana e seus tentáculos já mantêm contato direto com influenciadores de direita no Brasil para pautar narrativas de interesse estrangeiro.

O sinal de emergência está ligado. O que se desenha nos escritórios de poder de Washington é uma tentativa coordenada de tutelar a democracia brasileira por meio de lawfare e operações psicológicas. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.