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5 de maio de 2026

Anna Lembke alerta para a dependência digital entre os jovens!

 

Especialista em dependência química mostra que uma rede social pode ser tão perigosa quanto uma droga sintética.

“O smartphone é a agulha hipodérmica dos tempos modernos, fornecendo incessantemente dopamina digital para uma geração plugada. Se você ainda não descobriu sua droga preferida, ela logo estará em um site perto de você.” Esse é um trecho do best seller Nação Dopamina (2022), de Anna Lembke, pesquisadora que desembarcou no Brasil em setembro para participar da temporada 2024 do Fronteiras do Pensamento.

Autora de mais de uma centena de estudos na área de dependência química, a especialista se debruça agora no efeito das chamadas “drogas digitais”, com as redes sociais à frente. “Elas ativam os mesmos circuitos que as drogas mais tradicionais, como o álcool. Isso significa que liberam dopamina — nosso neurotransmissor de prazer — no sistema de recompensa do cérebro”, explica.

A solução para esse vício contemporâneo, segundo a professora, seria um “jejum” de dopamina, afastando os dispositivos que aceleram sua liberação. Lembke defende a suspensão do uso de smartphones por semanas até que as pessoas possam corrigir o seu modo de usar esses equipamentos.

Psiquiatra, professora na School of Medicine e chefe da Addiction Medicine Dual Diagnosis Clinic da Universidade Stanford, dedicou sua carreira ao estudo e ao tratamento de pacientes dependentes químicos, tornando-se referência diante da epidemia de opioides que tomou conta dos EUA.

O percurso dessa cientista encontra no Fronteiras do Pensamento a pergunta “Quem está no controle?” proposta por Fernando Schüler aos pensadores convidados nesse ano que já abordaram temáticas como Inteligência Artificial, Economia, Política e Literatura.

A resposta de Lembke para a pergunta do curador passa pela ideia de que a busca incansável do prazer gera mais sofrimento do que felicidade. No seu segundo livro, Nação tarja preta (2023), Lembke denuncia o que está por trás da dependência em diversos medicamentos receitados todos os dias para jovens, adultos e crianças.

Outra discussão que preocupa a especialista são as teses de legalização do uso de maconha e dos psicodélicos. “Não se pode fazer a descriminalização sem ferramentas para socorrer os que serão prejudicados pelo aumento do acesso”, adverte. 

Autora: Anna Lembke - Psiquiatra e professora de Stanford, a grande autoridade em dependência química da atualidade que denunciou a Nação Dopamina e a Nação Tarja Preta. Publicado no Site Fronteiras do Pensamento.

Dia da Terra: o que precisa mudar para que continuemos aqui!

 

Toda vez que o Dia da Terra chega, me pego diante da mesma tensão: o quanto mostrar do que sei sem paralisar quem lê. Trabalho há quase vinte anos cobrindo meio ambiente, ciência e política climática. Entrevistei pesquisadores que passam a vida inteira monitorando sistemas que a maioria das pessoas nunca ouviu falar — o ciclo do nitrogênio, a saturação de aragonita nos oceanos, a integridade funcional da biosfera. E o que esses cientistas me dizem, de forma consistente, não é que o planeta vai acabar. É que estamos saindo da zona em que a civilização humana aprendeu a prosperar.

Deixem-me explicar o que isso significa na prática. Em 2009, um grupo de pesquisadores liderado por Johan Rockström publicou na revista Nature um conceito que mudou a forma como a ciência pensa o planeta: as fronteiras planetárias. São nove processos biofísicos que regulam a estabilidade da Terra — o clima, os oceanos, as florestas, a biodiversidade, os ciclos químicos que alimentam a vida. Para cada um deles, existe uma zona segura de operação. Fora dela, os riscos de colapso sistêmico tornam-se sérios. Em 2009, três fronteiras já haviam sido ultrapassadas. No relatório mais recente, publicado pelo Instituto de Potsdam em setembro de 2025, esse número chegou a sete. E todas as sete continuam piorando.

A sétima foi a acidificação dos oceanos — confirmada pela primeira vez como fronteira violada no ano passado. O oceano absorve cerca de um quarto do CO que emitimos. Essa absorção protege o clima de um aquecimento ainda mais brutal, mas tem um custo: o CO dissolvido na água forma ácido carbônico, e o pH dos oceanos recuou cerca de 26% desde a Revolução Industrial. Para corais, crustáceos e moluscos, que constroem suas estruturas com minerais que se dissolvem em água ácida, isso não é uma abstração. É extinção progressiva.

Mas prometi falar sobre saídas. E é isso que farei — porque elas existem, são conhecidas e, em alguns casos, já funcionam.

A primeira coisa que precisa mudar é a matriz energética. Não é novidade, mas a escala do que está acontecendo merece ser dita com clareza: a transição para fontes renováveis está se acelerando em ritmo que há dez anos seria considerado improvável. A capacidade solar instalada no mundo mais do que dobrou nos últimos quatro anos. O custo da energia eólica e solar caiu mais de 80% na última década. O problema não é mais tecnológico — é de velocidade e de distribuição. Precisamos que essa transição alcance as economias em desenvolvimento antes que elas consolidem décadas de infraestrutura fóssil que depois terão de abandonar.

A segunda mudança diz respeito às florestas. Perco o sono com isso, porque o Brasil está no centro da questão. Somos guardiões da maior floresta tropical do planeta — um sistema que regula o clima continental, produz chuva para metade da América do Sul e armazena carbono em escala que nenhuma tecnologia humana consegue replicar. Desmatamento zero não é uma agenda radical. É a descrição do mínimo necessário para não destruirmos um ativo que mal sabemos precificar.

A terceira mudança é a alimentação. O sistema global de produção de alimentos responde por cerca de um terço das emissões de gases de efeito estufa, pela maior parte do desmatamento e pelo principal vetor de contaminação de rios e oceanos com nitrogênio e fósforo sintéticos. Mudar o que comemos — menos carne bovina de produção industrial, mais proteínas de origem diversificada — é uma das alavancas de maior impacto por unidade de esforço individual. Não estou pregando veganismo compulsório. Estou dizendo que a dieta é um campo de ação concreto, imediato e sistematicamente subestimado.

A quarta mudança é política — e é a mais difícil. A única vez em que a humanidade reverteu uma trajetória de colapso planetário foi com o Protocolo de Montreal, assinado em 1987, que proibiu gradualmente as substâncias responsáveis pela destruição da camada de ozônio. Hoje, aquela fronteira está dentro da zona segura. Isso aconteceu porque houve ciência, pressão pública e um acordo internacional com mecanismos vinculantes e verificáveis. Não uma meta voluntária. Não um compromisso com brechas. Um acordo que funcionava porque tinha consequências para quem descumpria. Precisamos do mesmo modelo para o clima, para a biodiversidade e para os poluentes sintéticos. O precedente existe. O que falta é vontade política.

A quinta alavanca é a que menos aparece nos relatórios e mais surge nas minhas conversas com pesquisadores: a restauração ecológica em escala. Não plantar árvores para foto. Restaurar ecossistemas funcionais — manguezais, várzeas, cerrados, recifes de coral — que prestam serviços que nenhuma engenharia substitui: regulação de cheias, estoque de carbono, proteção costeira, recarga de aquíferos. A natureza já sabe fazer tudo isso. O que ela precisa é de espaço e de tempo — e de decisões humanas que parem de destruir o que ainda resta.

Cobri a COP30, em Belém, em novembro de 2025. Saí com uma sensação que ainda não sei classificar com precisão — não era esperança ingênua, tampouco desespero. Era algo mais próximo de urgência lúcida. Os números são ruins. As tendências são piores. Mas a trajetória não é irreversível no horizonte de uma ou duas gerações, se as decisões certas forem tomadas agora. O que me mantém nesse trabalho, depois de quase vinte anos, não é a certeza de que vamos acertar. É a convicção de que desistir não é uma opção que eu consiga defender.

Dia da Terra — O planeta que herdamos cabe na palma da mão. O que fazemos com ele é que não tem tamanho - Foto Ilustrativa Freepik. 

O Dia da Terra não é um ritual de culpa coletiva. É — ou deveria ser — um momento de inventário honesto seguido de compromisso concreto. Faço o meu inventário aqui, todo ano, neste espaço. E o que peço a quem lê — seja gestor público, executivo de ESG, pesquisador ou cidadão — é que saia deste texto com pelo menos uma pergunta sobre o que, em sua esfera de influência, ainda pode mudar de direção. Porque as fronteiras que cruzamos não se fecharam para sempre. Mas o tempo para corrigi-las não é ilimitado. 

Autor: Oscar Lopes – Publisher do Neo Mondo. Publicado no site da Neo Mondo.

Jeferson Miola: Ingovernabilidade radical!

                                                 Ilustração de Aroeira (@arocartum).

Davi Alcolumbre, achacador e extorsionário mor da República, militou pesadamente para o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias para o STF.

Ele pretendia impor uma derrota humilhante ao presidente Lula com um revés de enorme gravidade. Eleito senador pelo Amapá com 196.087 votos, Alcolumbre concretizou seu plano sequestrando prerrogativas constitucionais da Presidência da República e interditando o exercício do poder pelo governante escolhido pela soberania popular com 60.345.999 votos.

O episódio enterra o exótico modelo de governabilidade institucional baseado na aliança do Executivo com o STF e a presidência do Senado. Modelo esse engendrado no início do governo Lula3 diante dos impasses criados por Arthur Lira, então presidente da Câmara dos Deputados.

A sessão do Senado deste 29 de abril pareceu uma reedição daquela “assembleia geral de bandidos” de 17 de abril de 2016 que usurpou os poderes constitucionais da presidente Dilma e deu início formal ao golpe de Estado que abriu a porteira para o governo fascista-militar com Bolsonaro.

Como aconteceu na farsa do impeachment, a rejeição do indicado pelo presidente Lula não teve nenhum fundamento constitucional, foi um claro desvio de finalidade e de abuso do poder de maiorias agindo como hordas.

Afinal, Jorge Messias tem mais de 35 e menos de 70 anos de idade, tem a reputação ilibada que muitos senadores não têm, e possui notório saber jurídico – requisitos do artigo 101 da Constituição para ser ministro do STF. A dinâmica de horrores do Congresso continuará com a derrubada do veto presidencial ao Projeto que anistia os criminosos da trama golpista, em mais um ataque continuado à democracia e ao Estado de Direito.

Não foi só Lula o derrotado no episódio. A contabilidade de derrotados deve incluir, também, a frágil governabilidade do país, a própria democracia e o STF.

Com um só golpe Alcolumbre deu um chega pra lá no governo Lula e na Suprema Corte. As pretensões do governo no Congresso nesses meses finais do mandato, sobretudo com medidas de impacto eleitoral, ficaram rebaixadas ao mais baixo nível de expectativas.

E o recado ameaçador ao STF não poderia ser mais transparente. A rejeição do Messias é apenas um aperitivo do arsenal do Senado para dominar e subjugar o judiciário, que é o primeiro item da cartilha da extrema-direita mundial. Alcolumbre deverá reforçar a aliança com a extrema-direita para avançar com suas ambições de poder, e isso ditará seus movimentos daqui em diante num cenário de ingovernabilidade radical.

O governo precisa encontrar a chave de saída dos limites dessa governabilidade institucional débil e instável e criar dispositivos de sustentação popular para poder concretizar políticas anti neoliberais, de justiça e igualdade social e fazer a travessia para a vitória do Lula em outubro.

Além da reeleição do presidente Lula, a eleição de uma maioria de senadores e senadoras pelo menos democrata e defensora do Estado de Direito é um requerimento vital para a sobrevivência da democracia no Brasil. 

Autor: Jeferson Miola – Publicado no Site VioMundo.