No Brasil, a oposição ao voto feminino existe desde o final do século XIX e voltou a aparecer em debates públicos em diferentes momentos da história. É importante distinguir a resistência histórica à concessão do voto às mulheres de manifestações contemporâneas que defendem a retirada desse direito.
1. Como surgiu a oposição ao voto feminino?
Olhando o passado no Palácio Tiradentes: um retrato coletivo da autoridade republicana disfarçado de esperança. Bertha Lutz, a sufragista brasileira. "Mulher do diabo": que foi a ativista que criou o primeiro partido feminino do Brasil.
Durante a elaboração da Constituição Republicana de 1891, parlamentares discutiram a participação política das mulheres. O texto constitucional não reconheceu o direito feminino ao voto, e parte dos parlamentares sustentava que as mulheres não deveriam participar da vida política.
Entre os argumentos absurdos e machistas contrários estavam:
1. A alegação de que as mulheres não teriam capacidade intelectual para participar das decisões políticas.
2. A ideia de que a política deveria ser uma atividade predominantemente masculina.
3. A defesa de que as mulheres casadas deveriam se dedicar ao lar e à família.
4. O receio de que a participação feminina alterasse a organização social e familiar da época.
Essas posições estão documentadas em registros históricos e estudos sobre o sufrágio feminino brasileiro.
2. Quem lutou contra o voto feminino e quem o defendeu?
Em 1910, Leolinda Daltro fundou o Partido Republicano Feminino, organização que reivindicava o direito das mulheres de votar e serem eleitas. Bertha Lutz liderou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 1922, que pressionou autoridades e o Congresso pela aprovação do voto feminino.
Na outra ponta, parte dos parlamentares e setores da sociedade resistiu à ampliação dos direitos políticos das mulheres. Portanto, não existiu apenas um movimento organizado contra o sufrágio: houve também uma resistência política, institucional e cultural à mudança.
3. O movimento contra o voto feminino voltou a aparecer em 2026?
Sim. Reportagens publicadas em 2026 documentaram a circulação, em redes sociais e comunidades digitais, de discursos que questionam a capacidade das mulheres de votar e defendem modelos como o chamado voto familiar, no qual o homem poderia votar em nome da família.
A Agência Brasil também noticiou declarações públicas contrárias à autonomia eleitoral feminina e dados sobre violência política contra mulheres. Isso não significa, por si só, que exista uma organização nacional única, formalizada e representativa de todos os que defendem essas ideias.
4. Quando as mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil?
Em 1927, a legislação estadual do Rio Grande do Norte passou a permitir o alistamento eleitoral sem distinção de sexo.
Em 24 de fevereiro de 1932, o Código Eleitoral instituído pelo Decreto nº 21.076 reconheceu o voto feminino.
A garantia constitucional veio em 1934 com a nova Constituição incorporou o direito ao voto feminino. Em 1965, finalmente a obrigatoriedade equiparada. O voto feminino passou a seguir a mesma regra geral de obrigatoriedade aplicada aos homens, ressalvadas as exceções legais.
5. O que diz a Constituição atual?
O artigo 14 da Constituição Federal de 1988 estabelece o sufrágio universal e o voto direto e secreto. Além disso, o artigo 60, § 4º, protege o voto direto, secreto, universal e periódico contra propostas de emenda tendentes a abolir essas garantias.
Em resumo: a oposição ao voto feminino tem raízes históricas no Brasil e voltou ao debate público em 2026 por meio de discursos e comunidades digitais fomentados por políticos de extrema direita bolsonarista. A conquista de 1932 foi resultado de décadas de mobilização de mulheres, não apenas de uma decisão isolada do governo.
É inaceitável que, em pleno século XXI, tenhamos que ler e ouvir esses neandertais, figuras machistas tanto quanto obscuras da política brasileira, levantarem a voz contra o voto da mulher, direito sagrado e inalienável.
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Membro da Academia Bauruense de Letras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, Câmara dos Deputados e Arquivo Nacional.



