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4 de abril de 2026

Já refletiu sobre a Serendipidade?

  

Uma das câmeras fotográficas em que Branemark observou o osso integrando-se na superfície do metal

Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante, pois às vezes está ao nosso lado o que sonhamos, é só reconhecer e dar as mãos para o que queres. Um grande amor pode estar perto de você ou até grandes descobertas deixam de ser feitas.

Pense nisto, capte tudo ao seu redor, tenha consciência de onde estás, de onde veio e para onde quer ir neste momento da vida. Nossa mente deve estar preparada para perceber a grandeza dos fatos ao redor. Apenas mentes preparadas e sensíveis tem percepções sutis das grandes “sacadas”. Para Sartre só existimos de fato se tomamos consciência de quem somos e qual o nosso papel na sociedade.

As “descobertas por acaso” são produtos de mentes preparadas para captar ou interpretar tudo ao redor e aproveitar os sinais que a vida proporciona. As descobertas por acaso não existem, elas são produtos da “Serendipidade”. Eis três exemplos de serendipidade que mudaram o mundo.

ISAAC NEWTON

Quantas frutas não caíram nas pessoas antes de Newton sacar a lei da gravidade pela queda de uma maçã sobre sua cabeça. Nem precisou ser uma jaca! As sementes das grandes descobertas estão constantemente flutuando em torno de nós, mas só criam raízes nas mentes bem-preparadas para recebê-las. A maçã que caiu, ofertou a resposta para os questionamentos e reflexões que Newton estava mentalizando naqueles momentos.  Suas conclusões mudaram o mundo para sempre e na época não tinha prêmio Nobel.

ALEXANDER FLEMING

Os pães embolorados eram usados com sucesso no tratamento de feridas irreparáveis, especialmente nas guerras antigas. Algumas substâncias – que hoje sabemos são antibióticos - eram produzidas por estes bolores/fungos nos pães e destruíam as bactérias. Nos povos antigos, ninguém tinha a preparação mental para entender o que estava acontecendo.

Em 1928, o inglês Fleming em seu desorganizado laboratório, observou que fungos em placas de vidro com culturas de bactérias “Staphilococcus aureus”, não permitiam seu crescimento. Sem o fungo por perto, as bactérias cresciam. Sua mente preparada percebeu que o fungo “Penicillium notatum” produzia uma substância inibidora do crescimento bacteriano nominada de penicilina, uma das descobertas mais importantes para a humanidade.

A serendipidade representa uma faísca para o conhecimento que ilumina o raciocínio, mas sem acaso, apenas em mentes preparadas. Você conseguiria captar uma destas faíscas que insistem em piscarem ao seu redor? Fleming mudou o mundo com os antibióticos e ganhou o Nobel de 1945.

PER-INGVAR BRANEMARK

Este cientista sueco em 1952, pesquisava a circulação sanguínea no reparo ósseo de tíbias e fíbulas de coelhos, usando câmeras para filmar o sangue passando pelos vasos. Eram câmeras caras, muito delicadas e se perdia algumas, pois não se conseguia tirar o osso que depois de alguns dias, se formava e grudava em cima delas. Curioso quis saber qual era a composição daquele metal das câmeras. Era titânio e logo pensou em construir implantes metálicos para se colocar no osso, inclusive para substituir dentes perdidos.
Ele descobriu a osseointegração e criou os implantes dentários, parafusos e placas que facilitam a vida dos pacientes mutilados, dos cirurgiões e implantodontistas. Ele mudou o mundo com sua percepção refinada, ou melhor, com a serendipidade. Hoje se tem o antes e o depois de Branemark. Ele se recusou a ganhar o prêmio Nobel.

REFLEXÃO FINAL

A “sorte” não favorece, e nem o destino facilita a vida de alguns com dons aleatória e gratuitamente distribuídos. A “sorte” e “acasos” ocorrem na vida de todos, mas apenas alguns detectam e aproveitam as “sacadas”, vivem intensamente com suas mentes preparadas para interpretar o seu ao redor. Assim nascem os grandes inventos ou descobertas e também as verdadeiras amizades e amores! A sua mente está preparada para a serendipidade? 

Autor: Professor Alberto Consolaro – Publicado no JC de Bauru.

2 de abril de 2026

Recursos para fins ilícitos sempre houve em abundância!

 

Há alguns anos atrás fiz parte de uma ONG chamada Batra – Bauru Transparente na cidade de Bauru – SP. Uma entidade sem fins lucrativos ou político partidário. Custeio integral das despesas da entidade com recursos oriundos de doações de pessoas físicas e jurídicas de Direito Privado.

A entidade era formada por pessoas oriundas da sociedade bauruense, honestas, sérias e determinadas a ajudar a cidade na busca por transparência no poder público (Executivo e Legislativo), combate à corrupção e projetos educacionais.

Apesar de contar com apoio da mídia local, jovens do meio universitário, alguns empresários, vários educadores, contando com excelentes projetos, tendo lutado e conseguido que o Prefeito à época Rodrigo Agostinho, hoje presidente do Ibama assinasse a Lei Municipal da Transparência, a ONG não foi a frente anos depois.

Os motivos, número reduzido de voluntários para conseguir ampliar os projetos e principalmente recursos financeiros, visto que a ONG não recebia recursos de origem pública. Apesar de peregrinar por diversas empresas/empresários, receber um Não era 90% em relação ao sim.

Escrevo isso para mostrar que tempos depois muitos empresários colaboraram com os recursos financeiros para bancar patriotários golpistas na porta do quartel da cidade, custeando alimentação, materiais de higiene e até transporte para Brasília no fatídico 08 de janeiro de 2023.

As operações recentes da Polícia Federal encontram sempre muito dinheiro em espécie, na maior parte fruto da lavagem de dinheiro realizadas por empresários junto a organizações criminosas. Em Bauru, recentemente numa dessas operações foi encontrada uma mala com mais de R$ 1milhão de reais.

Chega-se a óbvia conclusão que existem recursos de sobra, sempre teve, menos para projetos educacionais, combate à corrupção, entre outros. Na época, um dos projetos que não puderam seguir em frente por falta de recursos financeiros foi justamente a parceria com o Observatório Social do Brasil em Bauru.

O projeto visava justamente ter o controle sobre as licitações realizadas pelo poder público na cidade, além de dar divulgação e destaque aos editais numa rede imensa de munícipios do país. Um projeto cujos resultados na ocasião já eram significativos do ponto de vista financeiro e ético.

O sistema da OSB assegurava a disseminação de metodologia padronizada, oferecendo capacitação e suporte técnico. O custo de sua manutenção exigia uma quantia que a Batra não dispunha na época, além de ao menos dois ou três voluntários fixos que pudessem operar o sistema.

Resumindo, o projeto não foi implantado, a Batra fechou suas portas e a corrupção aplaudiu feliz a sua sobrevivência. Os empresários agora destinam recursos para tentativas de golpes de estado, patriotários, e reclamam da corrupção que não quiseram ajudar a combater.

 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

As cidades

Essas que herdamos e legaremos como o rescaldo da completa submissão da vida ao desencanto do capital.

Em tempos relativamente recentes, ninguém representou mais o projeto do Rio de Janeiro como uma cidade para negócios, o balneário de megaeventos, do que Eike “sempre ele” Batista.

Bajulado por boa parte da imprensa e políticos poderosos, citado como o empreendedor do futuro, laureado como homem do ano, ícone da ideia de que podemos ser bilionários sem culpa e o escambau, Eike foi elevado ao posto de carioca maior. Vi gente comparando o homem ao Barão de Mauá — até o dia em que o herói civilizador entrou em cana.

Não é sobre o Eike, todavia, que quero escrever. Nem mesmo sobre o Rio de Janeiro especificamente, mas sobre o que está ocorrendo com nossas cidades. Exemplifico. Cresci frequentando certo comércio de rua que hoje virou uma espécie de ararinha-azul, em vias de extinção. Velhas barbearias, açougues, livrarias, quitandas, botequins, floristas, lojas de macumba, aviários, marcenarias, etc., estão indo para o beleléu.

A tendência é que esse comércio pequeno e mais afetivo seja engolido pelo gigantismo dos hortifrúti, salões de shopping, ‘megastores’, franquias de bares de grife, butique de carnes, lojas virtuais de departamentos e similares.

Foto Valter Campanato da Agência Brasil 

Cresci aprendendo que as coisas têm fundamento, e um lugar não é apenas a matéria bruta de seus alicerces. Uma cidade é feita das memórias, aspirações, sonhos, desilusões, conquistas, fracassos, alegrias e invenções da vida de inúmeras gerações que cruzaram suas ruas. Um lugar tradicional é, portanto, também o resultado das experiências intangíveis, matéria da memória acumulada pelos que ali experimentaram modos de vida e instâncias de sociabilidade.

Sobre a minha cidade, posso falar com certa propriedade. Boa parte da cultura do Rio de Janeiro veio da rua. Como escrevi em certa ocasião, entre pernadas, batuques, improvisos, corpos dançando na sincopa, gols marcados na várzea, bolinha de gudes carambolando e pipas cortando os céus, a tessitura da cidade foi se desenhando nas artes de inventar na escassez. Foi assim que o carioca zuelou tambor, jogou capoeira, fez a sua fé no bicho, botou o bloco na avenida, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel na cachoeira.

O pequeno comércio, o mercado de rua, jogava nesse time de sociabilidades mundanas. No fim das contas, é urgente que a cidade recupere o sentido da rua como um espaço de convivência e desaceleração do cotidiano. Uma rua que permita, no resíduo de seus acontecimentos miúdos, maneiras de viver que não sejam simplesmente receptivas ou reativas aos desígnios do mercado e do deus carro; mas que propicie o encontro.

Que cidades sobrarão, que cidades teremos que construir? Não sei, mas elas certamente terão que se reinventar, quem sabe, a partir das frestas, das mundanidades, dos cerzimentos e bordados miúdos tecidos nos escombros das megacidades — essas que herdamos e legaremos como o rescaldo da completa submissão da vida ao desencanto do capital. 

Autor: Luiz Antonio Simas - Professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor. Tem mais de 30 livros publicados sobre as culturas populares do Brasil. Foi finalista do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões e ganhador do mesmo prêmio na categoria Livro do Ano de 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Publicado no Site ICL Notícias.