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2 de março de 2026

O miliciano universal

O presidente dos EUA manda e desmanda, cria e executa suas próprias regras.

Uma das mais bem sucedidas criações dos criminosos cariocas nas últimas décadas, as milícias começaram a surgir no início dos anos 2000. Herdeiros diretos dos assassinos comandados por Tenório Cavalcante, na década de 1950, e do Esquadrão da Morte, nos 70, os bandidos atuais têm em relação a seus antecessores diferenças fundamentais. Nos nossos dias, os agentes de Estado, detentores legais da força, não são apenas contratados pelos chefões fora da lei. Na milícia, os próprios policiais são os “empreendedores” do crime.

Além disso, os milicianos não atuam apenas na matança, como acontecia há sete décadas. Hoje, eles usam o poder de decidir quem vive e quem morre para lucrar em todo tipo de comércio ilegal: venda de gás, Internet clandestina, venda de cigarros falsificados, taxa de “segurança” e várias outras modalidades de “negócio”.

O êxito do modelo miliciano foi tal que alguns levantamentos mostram que atualmente há mais comunidades do Rio oprimidas por bandidos desse tipo do que por traficantes de drogas. Algo que contraria frontalmente a previsão do ex-prefeito carioca César Maia, que em 2005, nos primórdios da milícia, chegou a dizer que era um “mal menor”. Ou seja: para Maia, valia ter um grupo marginal dentro do próprio Estado desde que os criminosos convencionais fossem combatidos.

Deu no que deu.

Não se sabe se Donald Trump costuma acompanhar o noticiário policial carioca, mas a verdade é que o presidente dos Estados Unidos está colocando em prática em escala global o mesmo padrão de domínio marginal que os milicianos aplicam em Rio das Pedras, Campo Grande ou Curicica, áreas da zona Oeste do Rio.

Apesar de ser o representante maior de um governo baseado em um consenso legal, Trump resolveu jogar no lixo todas as leis, sejam nacionais ou internacionais– especialmente estas. Foi assim que agiu logo que começou o segundo mandato, ameaçando de invasão governantes do Canadá, México, Dinamarca e outros países.

Da mesma forma que o miliciano dobra o preço do gás e da gatonet nas favelas e ameaça de morte o cliente que buscar alternativa para pagar mais barato, Trump impôs ao mundo um tarifaço aleatório, baseado em equações disparatadas saídas de sua própria cabeça laranja.

Agora, ele simplesmente desaloja de seus postos os governantes que considera ruins. Foi assim com Nicolás Maduro, sequestrado, e também com o Aiatolá Khamenei, assassinado.

E quanto ao intrincado arcabouço legal negociado pelas nações para garantir décadas de mínima estabilidade, depois da Segunda Guerra?

O presidente dos Estados Unidos simplesmente não dá a mínima para isso. Ignora qualquer autoridade que não seja ele próprio e segue à risca a lei do mais forte, o mais antigo de todos os códigos, que a humanidade se esforçou tanto para superar.

Impotentes diante das barbaridades perpetradas por esse presidente facínora e seu assecla Netanyahu, os outros governantes torcem para não serem notados por Trump. Assim como um morador de uma comunidade da zona Oeste carioca rezava para ser esquecido por Jerominho, o fundador da primeira milícia, a Liga da Justiça.

Enquanto isso, o presidente dos EUA manda e desmanda, cria e executa suas próprias regras. Pior: como aconteceu com César Maia no nascimento da milícia, ainda há quem aplauda os desmandos de Trump. O Estadão é um bom exemplo de puxa-saquismo, pelo editorial “Ninguém vai chorar pelo Irã”, em que louvou os crimes do presidente norte-americano e previu que o mundo ainda agradecerá a ele pelo ataque.

Nem mesmo o fato de que o bombardeio ordenado pelos EUA contra Teerã e executado por Israel matou 150 meninas em um colégio sensibilizou o editorialista do Estadão. O jornal celebra os ataques ao governo do Irã e a sua população, mesmo ao arrepio da legislação internacional. Festeja o vale-tudo.

Os acontecimentos dos dias atuais se desenrolam como um pesadelo, sem prazo determinado para acabar.

É tudo realmente preocupante, para dizer o mínimo.

Mas a história costuma surpreender, volta e meia prova que não há tirania que dure para sempre. Cedo ou tarde, Trump pode encontrar adversários que desafiem seu poder. Ou seus próprios compatriotas podem se cansar das atrocidades e apeá-lo da presidência.

A história da milícia conta a ascensão de criminosos pela força, mas também mostra que alguns deles foram derrotados fragorosamente, de forma trágica. Como Adriano da Nóbrega ou Jerominho.

Vejamos até onde o miliciano Trump consegue chegar.

Autor: Chico Alves - Jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É coautor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho. Publicado no ICL Notícias.

1 de março de 2026

Eliara Santana: JN, a velha parceria reeditada, pilantrice sem disfarce.

 

Na edição dessa terça-feira, 11-02, a velha e escrota parceria reeditada. Mesmo modus operandi, mesmo tom, mesmíssimo repertório – que estava ressurgindo aos poucos, havia vários indícios pela mídia. A reportagem mostra o relatório de uma ONG internacional que já manteve tradicional parceria com a Operação Lava Jato a percepção de corrupção em vários países, incluindo o Brasil.

Por aqui, segundo a tal sondagem, que ouve grupos bem específicos, a percepção de corrupção aumentou – e isso já basta para condenar o país e o governo Lula. Com mais de cinco minutos, a reportagem do JN traz à cena o velho repertório que foi a cola da parceria mais calhorda de que se tem notícia neste país em tempos recentes: JN e Lava Jato.

Até o jornalista foi o mesmo das reportagens que garantiram a Sergio Moro o status de herói: Vladimir Neto.Com voz impostada, o mesmo Vladimir amigo de Moro e Dallagnol, que foi realocado pra cobrir meio ambiente, volta para anunciar que a tal ONG ouviu “especialistas” em 180 países e que o Brasil ficou na posição 137, com apenas 34 pontos – “pior índice desde que o ranking foi criado, há 12 anos”.

É indecente, pra dizer o mínimo.

Na semana em que emerge o escândalo do Congresso, em que o relatório da PF sobre a tentativa de golpe do presidente anterior está pronto e será apresentado pelo PGR, o jornal repete a mesma fórmula fraudulenta de trazer o repertório corrupção para macular um governo do PT.

E com aquela estrategiazinha bem vagabunda de trazer uma voz internacional para não deixar dúvidas. É podre. A reportagem informa que, segundo a tal ONG, entre os pontos negativos que pesaram sobre o desempenho do Brasil está “o silêncio reiterado do presidente Lula sobre a pauta anticorrupção”.

É um acinte uma colocação dessas, uma vergonha, uma safadeza, com esse Congresso e as emendas, com todos os casos do governo Bolsonaro. E não para por aí, vejam bem o nível da cretina desonestidade, pela voz de Vladimir Neto: “Segundo a Organização Internacional, dos 465 discursos registrados no Portal da Presidência da República entre 2023 e 2024, Lula citou “corrupção” em apenas 15 ocasiões”.

Tudo reproduzido com a imagem em destaque do presidente. É tão absurda essa construção, tão sem vinculação a um fato concreto que mostre que há corrupção, que não dá sequer pra fazer uma análise, só constatação: é pilantrice sem disfarce.

Claro, o relatório da tal ONG cita o novo PAC e a “falta de transparência”. Lembro aqui minha amiga, a professora Maria Luiza Alencar que, em 2023, numa conversa num evento, disse que esse discurso da corrupção iria se voltar contra o PAC, porque o programa é muito importante, especialmente para o Nordeste. O relatório também cita a Petrobras – empresa quase destruída pela versão 2014 da parceria Mídia Lava Jato – e aponta “ingerência política”.

Para não ficar tão feio, eles citam também as emendas parlamentares, bem rapidamente.

O relatório ainda aponta como índice prejudicial as anulações “em série, determinadas pelo STF, decorrentes da anulação de provas produzidas pelo acordo de leniência firmado pelo Grupo Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato”. O documento é tão estapafúrdio que faz uma vinculação absurda ao crime organizado, levando à inferência de que isso se dá no âmbito do governo Lula:

“O ano de 2024 foi mais um a consolidar no Brasil esta trajetória de captura do Estado, de cada vez mais difícil reversão. As evidências de que entramos no estágio avançado deste fenômeno já estão se tornando claras: a presença cada vez maior e explícita do crime organizado nas instituições de Estado”.

E aí vem o representante da tal ONG para dizer que a situação, agora, é muito séria e existe um risco, pois o “nível de corrupção sistêmica é uma ameaça real e permanente à democracia”. Ameaça à democracia. Está instituído o medo. Lula não pronunciar a palavra corrupção equivale à trama golpista que pretendia matá-lo e ao ataque às instituições e à Praça dos Três Poderes. Inacreditável.

No finalzinho da reportagem de mais de cinco minutos, um pequeno espaço para a nota da CGU dizer que a percepção sofre impacto nos países em que a corrupção é combatida, afirmar que a tal pesquisa é feita com nichos muito específicos, como empresários, e mostrar que o Brasil ampliou sim a transparência e o combate à corrupção.

Uma reportagem que reintroduz o tema/repertório corrupção, como se fez lá atrás, em 2014. Uma reportagem porca, desonesta, com o mesmo modus operandi, até o mesmo jornalista que se presta de novo a esse papel. Eu sabia que esse tema seria reeditado, pois o repertório “crise econômica” não surtiu o efeito desejado na imagem do governo e de Lula, como mostrou a pesquisa Quaest mais recente. É um jogo bruto, desonesto e pilantra. De novo. 

Autora: Eliara Santana, jornalista, doutora em Estudos Linguísticos, pesquisadora do Observatório das Eleições. Publicado no site VioMundo.

Falsidade ideológica causa morte, mas justiça não enxerga em SP!

 

O criminoso Fernando Henrique Dardis, que agia como falso médico, acusado pela morte de uma paciente e de forjar a própria morte, foi absolvido durante julgamento na cidade Sorocaba (102 km da Capital).

Fernando respondia por homicídio, exercício ilegal da medicina e falsificação de documento público. Em maio de 2025, a Justiça havia decretado sua prisão, mas ele tentou encerrar o processo com uma certidão de óbito falsa, fingindo estar morto. Um mês depois, ele se entregou à polícia e estava detido desde então.

O seu julgamento durou mais de 10 horas conforme informou o TJ/SP, a sessão aconteceu no Fórum de Sorocaba, cidade onde os crimes teriam ocorrido. O júri popular ouviu cinco pessoas, além do réu. O homem foi interrogado e outras cinco testemunhas também deram seus depoimentos.

O júri decidiu, por maioria, absolver o réu de suas três acusações. A maior parte dos jurados entendeu não haver relação causal entre a atuação dele e a morte da paciente. Além disso, achou não haver provas suficientes a respeito dos outros dois supostos crimes.

Parece que há uma contaminação em nossa sociedade, que faz com que boa parte das pessoas finja desconhecer a gravidade dos crimes e as suas reais consequências. Embora a decisão de um júri seja soberana, este caso precisa ser revisto porque as evidências contra o réu eram enormes, não deixavam dúvidas sobre os vários crimes que havia cometido.

A sentença de absolvição foi lida pelo juiz Emerson Tadeu Pires de Camargo ao final do julgamento. Em seguida, a Justiça expediu ainda um alvará de soltura ao réu, que estava preso desde o ano passado.

O Promotor de Justiça deve recorrer da decisão. O Ministério Público informou que Antonio Farto Neto, que faz a representação da família da paciente que morreu, "está estudando e avaliando a possibilidade de recorrer". O falso médico era acusado pela morte da paciente Helena Rodrigues, 71. O filho da vítima, ouvido pela acusação, diz que a mãe esteve no hospital Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba em outubro de 2011, mas foi dispensada por Fernando.

A mulher teria dado entrada na unidade com sintomas de infarto. A idosa, que tinha histórico de problemas cardíacos e que já havia sido atendida pelo falso médico um mês antes, falou estar com dor no peito, vômito e falta de ar. Apesar disso, foi medicada com remédio para dor muscular e autorizada a ir embora.

A idosa morreu no dia seguinte em casa. Depois disso, o filho da vítima reconheceu o réu como sendo a pessoa que a atendeu no dia anterior à morte.

O falso médico também afirmou anteriormente que não imaginava se tratar de um princípio de infarto (Claro, nunca concluiu o curso de medicina, como saberia?) Segundo ele, após a triagem pela enfermagem, não havia qualquer reclamação que indicasse ser problema cardíaco. Além disso, falou que recebia somente a ficha de triagem e não o prontuário do paciente.

À Justiça, ele confessou que atuava como médico sem autorização e usava carimbo com CRM de Ariovaldo Diniz Florentino. Em esclarecimentos prestados em outra ocasião à Justiça, o homem disse que cursou medicina até o terceiro ano por pressão de sua família. Também alegou que apenas fazia o primeiro atendimento médico e que era acompanhado por outros profissionais.

Fica praticamente impossível acreditarmos na Justiça, na lisura de um julgamento quando nos deparamos com resultados absurdos como este no Forum de Sorocaba. Um sujeito exerce uma profissão para a qual não está licenciado, falsifica documentos e presta falso testemunho à justiça e ainda assim, é considerado inocente pelo júri, não há mais nada que se fazer no Brasil.

 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.