12 de novembro de 2018

Os muros de pedra e os muros invisíveis!

Muros foram sempre um símbolo do medo. Atualmente os muros invisíveis são ainda mais graves, porque nos separam espiritualmente!

Numa noite de 9 de novembro, há 29 anos, o mundo despertou com a alegre notícia de que o Muro de Berlim, de 130 quilômetros, conhecido como “muro da vergonha”, tinha começado a ser derrubado, permitindo que as duas metades da cidade dividida voltassem a se abraçar. Se as muralhas de pedra, da chinesa até as de hoje, passando pela romana de Adriano, foram sempre um símbolo do medo em relação ao inimigo, atualmente os muros invisíveis são ainda mais graves, porque também nos separam espiritualmente.
Os muros de pedra e cimento que continuam sendo erguidos no mundo revelam a incapacidade de saber viver fisicamente em liberdade, enquanto os muros invisíveis das ideologias que nos separam, às vezes até mesmo entre amigos e familiares, são construídos com a incapacidade de dialogar e de aceitar quem é diferente.
Se os muros físicos simbolizam a incapacidade de resolver as diferenças usando os instrumentos das democracias modernas, os muros invisíveis que erguemos por não saber ler a angústia e as razões do outro podem nos conduzir a rupturas mais profundas e mais difíceis de consertar.
Hoje, mais perigosos do que os muros físicos são os muros invisíveis que dividem as classes sociais, que separam os privilegiados do asfalto das periferias dos excluídos, os que possuem tudo daqueles que não têm um mínimo para viver com dignidade. São também os muros invisíveis que se tentam levantar, por exemplo, nas escolas e universidades entre alunos e professores. Já não se trata da antiga luta de classes que separava os trabalhadores dos patrões, e sim da que divide uma sociedade onde estão desaparecendo os limites entre liberdade e barbárie, entre grosseria e cultura, entre quem não abre mão de pensar e quem preferiria nos impor um pensamento único.
Não há muro pior do que o levantado entre o saber e a ignorância, que separa os satisfeitos dos desesperados, os que se sentem donos da verdade daqueles que a buscam as tropeções, conscientes de que ela não existe em estado puro. Existem só fragmentos dela, que o pensamento e o coração de cada um vão montando para desenhar seus sonhos. E querem que lhes deixem fazer isso livremente, sem dogmas ideológicos ou religiosos.
Derrubado o Muro de Berlim naquele 9 de novembro de 1989, enquanto a liberdade corria pelas ruas e praças da cidade, centenas de artistas anônimos se juntaram para criar, nos pedaços do muro ainda em pé, a maior tela de pintura do mundo como expressão da grande festa da liberdade.
Não era fácil ultrapassar aquele muro de cimento nem mesmo com permissões oficiais. Consegui atravessá-lo seis meses antes que fosse derrubado. Lembro-me da incômoda liturgia a que fui submetido antes de poder passar de carro para o outro lado. Pude ver de perto o horror daquelas cercas eletrificadas e as mandíbulas ferozes dos cães policiais. Mais tarde eu soube, com dor, que aqueles animais adestrados para matar, testemunhas dia e noite de tantos medos, desapareceram sem que se soubesse seu paradeiro. Tudo ali, enquanto existia o muro, estava coberto pelo luto da segregação. Aberta a primeira brecha de liberdade, centenas de artistas voluntários chegaram para revestir os pedaços do muro com as cores da felicidade.
Quando os espaços para que possamos nos expressar são fechados, está sendo morto o que o Homo sapiens tem de mais nobre, sua capacidade de criar e inventar. É bom lembrar disso nestes tempos de ansiedade e perplexidade que sacodem o Brasil, que se esforça para não perder valores e liberdades que custaria tanto recuperar.

Autor: Juan Arias – Publicado no Jornal El País

10 de novembro de 2018

A última pá de cal no Judiciário!

Infeliz da geração cujos juízes
merecem ser julgados.
Texto Judaico

A história que irei transcrever a seguir nos dá a exata dimensão de como nosso país está imerso na mediocridade, com praticas antigas que remontam tranquilamente ao Século XVIII. A vítima desta vez foi um juiz e não um cidadão comum, o que é ainda mais preocupante.
Após ser condenado à pena de aposentadoria compulsória, por uma série de condutas que não chegam nem perto do nível de gravidade exigido para este tipo de pena, o juiz Fernando Cordioli está indo ao STJ contra a decisão do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e pretende ir à Organização dos Estados Americanos - OEA caso sua demanda não surta efeito.
Fernando Cordioli foi empossado juiz em 2007 em Santa Catarina e passou por 13 comarcas como juiz substituto sem reclamações. Em 2010, começou a aparecer na imprensa catarinense após algumas decisões que proferiu, sendo a de maior repercussão uma matéria que narrava como ele foi, pessoalmente, apoiado pela PM e um Promotor de Justiça para dar cumprimento a uma sentença que determinava a demolição da casa de um vereador de Joaçaba que estava em área de APP (Área de Preservação Permanente, com restrições para a construção de edificações).
Foi promovido para a cidade de Otacílio Costa - SC e, por conta de sua atuação pouco disposta a respeitar o interesse de pessoas poderosas (Políticos e Empresários) da região, foi advertido por um funcionário de que "sua cabeça estava a prêmio". Diante disso, o juiz se inscreveu para a comarca de Canoinhas, promoção a que tinha direito, mas acabou sendo recusado sem justificação e, em vez disso, teve que responder a um Procedimento Administrativo Disciplinar em 2013.
Em resumo, ele foi acusado de instabilidade emocional, pelo simples fato de que estava agindo em nome da lei e punindo severamente aqueles que não agiam de acordo com as leis. Isso por incrível que possa parecer incomodou e muito as autoridades do próprio sistema judiciário, que deveriam dar guarida e proteção aos seus membros que estivessem agindo em consonância com esta pratica salutar.
Principalmente por que ao longo dos últimos anos tem sido frequente as acusações de participações de desembargadores e juízes na venda de sentenças, crimes de peculato e outras formas que denigrem a imagem da Justiça brasileira. Estes juízes fora da lei não são condenados, mas afastados mantendo todas as suas regalias e vencimentos em aposentadorias milionárias.
O Conselho Nacional de Justiça – CNJ em Santa Catarina, decidiu afastar o Juiz Fernando Cordioli por 49 votos contra 13, alegando instabilidade emocional e o obrigando a passar por avaliação psiquiátrica. Por instabilidade devemos entender que o Juiz Cordioli enfrentava o Ministério Público quando este engavetava processos movidos contra ricos e poderosos de seu Estado. Ele afirmava que o MP facilitava a ida dos coronéis da política catarinense e só prendiam os chamados por ele de PPP (Pretos, pobres e prostitutas)
Cordioli era chamado de Juiz Coragem, por expor em seus processos os desvios morais e de ética de membros do judiciário, advogados e do MP. Em outras ações ele mandava leiloar carros, imóveis de políticos e empresários corruptos em praça pública para reverter o dinheiro desviado dos cofres públicos. Em 2012 agiu desta forma contra o Prefeito da cidade de Palmeira - SC, leiloando três automóveis do mandatário da cidade em praça pública.
Esse rigor do juiz Fernando é denominado pelo CNJ de instabilidade, ou seja, cumprir a lei, ser rígido com todos, inclusive com os poderosos da elite política do Estado?. Se dotar a justiça de agilidade como todos os brasileiros desejam há décadas é ser instável emocionalmente, como seria bom se o Brasil tivesse centenas de juízes nesta condição apontada pela CNJ.

7 de novembro de 2018

Zygmunt Bauman: Estamos isolados em rede?

“As relações humanas não são mais espaços de certeza, tranquilidade e conforto espiritual. Em vez disso, transformaram-se numa fonte prolífica de ansiedade. Em lugar de oferecerem o ambicionado repouso, prometem uma ansiedade perpétua e uma vida em estado de alerta. Os sinais de aflição nunca vão parar de piscar, os toques de alarme nunca vão parar de soar." - Zygmunt Bauman

Em tempos líquidos, a crise de confiança traz consequências para os vínculos que são construídos. Estamos em rede, mas isolados dentro de uma estrutura que nos protege e, ao mesmo tempo, nos expõe. É isso mesmo? O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro Medo líquido, diz que estamos fragilizando nossas relações e, diante disso, nos contatamos inúmeras vezes, seja qual for a ferramenta digital que usamos, acreditando que a quantidade vai superar a qualidade que gostaríamos de ter.
Bauman diz que, nesses tempos líquidos-modernos, os homens precisam e desejam que seus vínculos sejam mais sólidos e reais. Por que isso acontece? Seriam as novas redes de relacionamento que são formadas em espaços digitais que trazem a noção de aproximação? Talvez sim, afinal a conexão com a rede, muitas vezes, se dá em momentos de isolamento real. O sociológo, então, aponta que, quanto mais ampla a nossa rede, mais comprimida ela está no painel do celular. “Preferimos investir nossas esperanças em 'redes' em vez de parcerias, esperando que em uma rede sempre haja celulares disponíveis para enviar e receber mensagens de lealdade", aponta ele.
E já que as novas sociabilidades, aumentadas pelas pequenas telas dos dispositivos móveis, nos impedem de formar fisicamente as redes de parcerias, Bauman diz que apelamos, então, para a quantidade de novas mensagens, novas participações, para as manifestações efusivas nessas redes sociais digitais. Tornamo-nos, portanto, seres que se sentem seguros somente se conectados a essas redes. Fora delas os relacionamentos são frágeis, superficiais, “um cemitério de esperanças destruídas e expectativas frustradas".
A liquidez do mundo moderno esvai-se pela vida, parece que participa de tudo, mas os habitantes dessa atual modernidade, na verdade, fogem dos problemas em vez de enfrentá-los. Quando as manifestações vão para as ruas, elas chamam a atenção porque se estranha a formação de redes de parceria reais. “Para vínculos humanos, a crise de confiança é má notícia. De clareiras isoladas e bem protegidas, lugares onde se esperava retirar (enfim!) a armadura pesada e a máscara rígida que precisam ser usadas na imensidão do mundo lá fora, duro e competitivo, as 'redes' de vínculos humanos se transformam em territórios de fronteira em que é preciso travar, dia após dia, intermináveis conflitos de reconhecimento."

Autor: Zygmunt Bauman - Fronteiras do Pensamento

6 de novembro de 2018

O que é (exatamente) a inteligência emocional?

As emoções transformaram o cérebro dos mamíferos há mais de 200 milhões de anos e perpetuaram uma poderosa influência que se mantém viva em nossa espécie

Jovens beijam-se em Madri com a Catedral de Almudena ao fundo. 
Foto Luis Sevillano
A expressão "inteligência emocional" está incluída hoje no léxico de muitos, tanto de pessoas comuns quanto de intelectuais ou celebridades. Até mesmo ministros usam a expressão em seus comentários e alertas. Mas nem todo mundo se refere à mesma coisa quando usa essa expressão. Para alguns, a inteligência emocional é algo como um tipo de inteligência mais avançada do que a clássica, ou seja, do que a inteligência analítica, medida em testes que fornecem resultados em quociente numérico.
Há também aqueles que se referem à inteligência emocional pelo lado negativo, como uma incapacidade de controlar as emoções: "Comporta-se como se não tivesse inteligência emocional". Também não faltam aqueles que acreditam ser um novo tipo de inteligência recém-inventada, pois, afinal de contas, o conceito de inteligência não é absoluto, tal como a altura ou o peso de uma pessoa, pois sempre depende do critério do observador. Outros, por sua vez, sequer sabem a que se referem quando falam sobre esse tipo de inteligência. Talvez, por tudo isso, valha a pena tentar esclarecer o conceito.
Há alguns anos, a popular revista Time colocou na capa de uma de suas edições uma pergunta escrita em letras garrafais e dirigida ao público em geral: "Qual é o seu quociente de inteligência emocional?". A própria revista, em letras muito menores, respondia: "Não é o seu quociente de inteligência. Nem sequer é um número. Mas a inteligência emocional pode ser o melhor preditor de sucesso na vida, redefinindo o que significa ser inteligente". Foi à época em que o jornalista Daniel Goleman havia publicado seu conhecido e bem-sucedido livro Inteligência Emocional, fazendo com que muitos acreditassem que ele tinha criado ou descoberto esse (novo) tipo de inteligência.
O conceito também serviu para que muitos ousassem desafiar a evolução biológica do cérebro e as habilidades mentais, colocando a emoção à frente da razão, dando primazia à primeira. Certamente, as emoções transformaram o cérebro dos mamíferos há mais de 200 milhões de anos e perpetuaram uma poderosa influência que se mantém viva em nossa espécie até os dias atuais. Mas, em muito menos anos, embora não poucos, cerca de 60 milhões, o cérebro dos primatas desenvolveu o neocórtex, o córtex cerebral moderno, um acúmulo de neurônios altamente organizados e capazes de dominar o resto do cérebro. Esse desenvolvimento conferiu, embora nem sempre notemos, primazia à razão, ou seja, a capacidade de dominar os sentimentos.
O desenvolvimento ocorreu de uma maneira muito especial, que tampouco costumamos perceber. Como um sujeito fabuloso e perspicaz, a razão se propôs a dominar a emoção usando suas próprias armas: uma emoção só pode ser eliminada por outra emoção, outra emoção que seja mais forte e poderosa e/ou incompatível com a qual se deseja eliminar.
Qualquer pessoa que tenha sofrido uma crise sentimental, como ser abandonada por seu parceiro, sabe muito bem que a melhor maneira de superar essa crise não é tanto subestimar a perda, e sim iniciar um novo romance. E, para isso, para despertar emoções incompatíveis com as indesejáveis, é para o que serve a razão. Bem usada, a razão sempre será mais poderosa do que as emoções. Tanto a razão quanto a emoção fazem parte do sistema funcional que é a mente humana. Vão juntas e dependem uma da outra. A inteligência emocional é a capacidade de lidar com as emoções usando a razão. As emoções são o exército indispensável que continuamente mobiliza a razão.
Quem soube disso antes e melhor não foi o jornalista Daniel Goleman, nem os psicólogos John Mayer e Peter Salovey, da Universidade Yale (EUA), estudiosos modernos do conceito. Foi o imperador romano Marco Aurélio (121-180 dC), que ficou conhecido como o sábio e verdadeiro pai da inteligência emocional. Em seu imperecível trabalho, Meditações, excelente tratado sobre a inteligência emocional, inclui a frase que todas as faculdades de Psicologia deveriam esculpir com um martelo e cinzel sobre o mármore de sua fachada: "Nossa vida é o que nossos pensamentos fazem dela".
Ninguém captou melhor a essência evolutiva da mente humana do que este grande filósofo da Roma Antiga; a capacidade de raciocínio para modificar as emoções, a maneira de ver as coisas, embora não possamos mudá-las.
Essa capacidade, afirma Marco Aurélio, está sempre ao nosso alcance para facilitar a vida. Usando o neocórtex, podemos fazer com que nosso raciocínio, nossas emoções e nosso comportamento se encaixem. Esse encaixe é a verdadeira essência da inteligência emocional, uma capacidade mental tão antiga quanto o próprio Homo sapiens.
Mas quem não deseje voltar a tempos tão remotos, ainda resta à possibilidade de educar sua inteligência emocional seguindo os passos do autor clássico espanhol mais lido e traduzido depois de Cervantes, o jesuíta Baltasar Gracián (1601-1658). Sua obra A Arte da Prudência, publicada em 1647 e traduzida em vários idiomas, às vezes em belos formatos de papel bíblico e fita de referência, é um dos melhores tratados sobre inteligência emocional que podem ser lidos atualmente.
Como relatado pelo EL PAÍS em 16 de dezembro de 1993, seu autor nunca poderia imaginar que uma de suas traduções nos EUA, de 1992, venderia mais de 100.000 cópias. Além disso, e respondendo a uma pesquisa do The New York Times, a escritora Gail Godwin recomendou a leitura da obra a políticos aspirantes às eleições presidenciais naquele país. Na Espanha ou no Brasil, o mesmo conselho também poderia servir.

Autor: Ignacio Morgado Bernal é diretor do Instituto de Neurociências da Universidade Autônoma de Barcelona. Barcelona: Ariel, (2010).

5 de novembro de 2018

Um déficit inaceitável!

Não tenha medo de ter opiniões excêntricas.
Toda opinião hoje aceita já foi, um dia, excêntrica.
Bertrand Russell

Não existe governo perfeito, porém, há muito tempo, ouvimos governantes e partidos políticos reclamarem do tempo disponível para fazerem as transformações necessárias, reformas, enfim, governar com qualidade deixando para a posteridade marcas de suas gestões.
É fato que um período de 24 anos é muito mais do que suficiente para que um partido político, com vários gestores, possam realizar muitos trabalhos em prol de uma sociedade.
No caso de SP, existe uma quebra desse paradigma, visto que, em 1995 o PSDB subiu ao poder no Estado mais rico da nação com Mário Covas, reeleito em 1998, morto em 1999, foi substituído por seu vice Alckmin, reeleito em 2002. Em 2006, assume José Serra, voltando novamente Alckmin em 2010 para ficar até 2018.
A saga não para, tendo João Dória vencido novamente as eleições para ocupar o mesmo cargo de 2019 a 2022. Se completar a gestão a frente do governo do Estado estarão por vinte e oito anos governando o mesmo Estado ininterruptamente.
A Coreia do Sul, depois de ver seu país dividido por uma guerra é um exemplo concreto de que este período de tempo é mais do que suficiente para grandes realizações. Até 35 anos atrás, os sul-coreanos eram mais pobres do que os brasileiros. O PIB (Produto Interno Bruto) per capita do país asiático era inferior ao do Brasil. Hoje, não há comparação possível e os números daquele país asiático são três vezes mais altos: em torno de 27.200 dólares contra 8.600 dólares do Brasil, segundo o Banco Mundial.
Além do exemplo da Coreia, podemos incluir a Arábia Saudita, China, Índia, Indonésia, Japão, Chile, México, Turquia e Malásia. Vinte e quatro anos é um período demasiado para ser desperdiçado como foi feito na gestão tucana em SP. Um exemplo péssimo de má gestão ao longo da linha do tempo desde 1995.
Muitos são os exemplos que poderiam ser elencados e discutidos neste espaço, mas ficarei com a segurança pública. Quando assumiram o governo paulista, os efetivos da Polícia Militar e Civil eram suficientes para combater a criminalidade.
Hoje, passados vinte e quatro anos, temos um déficit de vinte e cinco mil policiais nas duas corporações. Justamente quando percebemos um crescimento assombroso das organizações criminosas em todo país e em particular no Estado de SP. Como combater a criminalidade largando com um déficit de tantos homens? Pior ainda, sem ter havido no mesmo período investimentos em tecnologia de ponta para poder integrar a força policial com a Polícia Federal.
Falta mão de obra, falta tecnologia e até coisas mais simples de serem repostas como equipamentos básicos (Coletes, Armas de grosso calibre para combater em igualdade de condições as organizações criminosas, treinamento e salários dignos).
É impossível aceitar qualquer desculpa para um partido que durante tantos anos pensa em economia e joga no lixo a segurança da população com medidas estapafúrdias e sem sentido algum. Éramos para ter em SP, caso o PSDB tivesse trabalhado com seriedade, uma segurança digna dos países de primeiro mundo como Canadá, Austrália, Japão, etc.
Porém, ao reclamar, lembramos que uma parcela considerável da sociedade paulista está feliz com esses números apresentados acima. Visto que, deram seus votos de confiança ao mais fraco e pior dos políticos do PSDB para continuar a saga da gestão tucana no Estado de SP em 2018.
Uma eleição estranha na medida em que o país guindou ao cargo um candidato liberal de extrema direita, muito bem votado no Estado de SP, porém, sem nenhum vinculo com o PSDB, tanto em seu futuro governo como nas suas ideias liberais. Tanto isso é verdade, que ele não recebeu Dória ao final do primeiro turno, demonstrando que não se sentia a vontade ao seu lado e de seu partido. 

3 de novembro de 2018

A nova era Bolsonaro chegou!

Que semana... A sociedade civil brasileira tem o direito de pedir serenidade ao futuro chefe de Estado. E suas entidades têm o dever de controlar abusos e incoerências dos eleitores. O candidato antissistema precisa repensar o que diz, afinal, ele é sistema agora.
Quatro alunos da Faculdade de Economia e Administração (USP) entraram com roupas militares, armas e as placas “a nova era está chegando” e “está com medo petista safada?” na faculdade e tiram fotos. A USP já identificou três e abriu sindicância.
Aluno da universidade de Bragança Paulista foi preso ao entrar com canivete, rifle de airsoft e bastão, e ameaçou colegas. A Guarda Civil o prendeu em flagrante. A universidade abriu uma sindicância para apurar. O aluno negou as ameaças, mas não explicou as armas.
Quatro apoiadores do presidente eleito invadiram assembleia do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, em Camboriú (SC). O empresário Emílio Dalçoquio, de Itajaí, exaltou-se e deu vivas ao ditador chileno Augusto Pinochet: “Matou quem tinha que matar”.
Segunda-feira, estudante do curso pré-vestibular Oficina do Estudante, de Campinas, levou uma arma de brinquedo e ameaçou os colegas. Disse que voltaria para matar estudantes homossexuais. Foi expulso.
Mãe jornalista de Natal (CE) fantasiou o filho de escravo para o Halloween da escola e postou fotos. Chegou a maquiar as costas do garoto com marcas de chicote. Queria abrasileirar a festa, contou: “Não leiam livros de história do Brasil. Eles dizem que existiu escravidão de negros no País, mas isso é mentira”. Pediu desculpas depois e apagou as fotos. O MP ainda não decidiu se instaura processo.
Deputada estadual recém-eleita, professora Ana Campagnolo, abriu um canal de denúncias na internet para fiscalizar “professores doutrinadores” que, em sala de aula, tivessem “manifestações político-ideológicas”. O juiz Giuliano Ziembowicz, da Vara da Infância e da Juventude de Florianópolis, determinou que a deputada retirasse a publicação, pois “fere o direito dos alunos de usufruírem da liberdade de expressão da atividade intelectual em aula, que deve ser exercida sem censura.”.
O governador eleito do Rio, Wilson Witzel, pediu desculpas à família de Marielle Franco, depois de apoiar a quebra da placa de rua com o nome da vereadora do PSOL executada.
A Marcha do Chola Mais foi agendada pelo Facebook para “cantar e comemorar” a vitória de Bolsonaro pelas ruas da USP. Um dos organizadores, deputado estadual eleito (PSL-SP), Paulo Douglas Garcia, cofundador do movimento Direita São Paulo, não estuda na instituição. Rolou empurra-empurra.
Estudante da Faculdade de Direito do Mackenzie postou vídeos afirmando “estar armado com faca, pistola, o diabo, louco para ver um vagabundo com camiseta vermelha para matar logo”, e “essa negraiada vai morrer”. Pediu desculpas depois, disse que foi uma “bobagem”, um “impulso”, uma “fala completamente equivocada”: “Acabei externando nessas palavras completamente equivocadas, erradas, a pessoas que não tinham nada a ver com a minha indignação. Pelo contrário, não sou uma pessoa racista, muito menos violento”. O MP de São Paulo abriu inquérito.
Ele foi suspenso da faculdade e mandado embora da firma em que trabalhava, DDSA Advogados, que soltou: “Tomamos conhecimento, na tarde de hoje, de vídeo que circula nas redes sociais com declarações efetuadas por acadêmico de Direito que fazia estágio no escritório e imediatamente o desligou de seus quadros. O escritório repudia veementemente qualquer manifestação que viole direitos e garantias estabelecidos pela Constituição Federal”.
Jair Bolsonaro, por três décadas, criou um repertório grande de declarações misóginas, homofóbicas, racistas, somadas a ataques à imprensa e discurso de ódio, que avalizam o comportamento dos seus aliados.
Apoiadores de Bolsonaro entraram na Universidade de Brasília para comemorar a vitória do ex-capitão. Convidados a se retirar, quebraram o pau com estudantes do ICC (Instituto Central de Ciências). A segurança interveio.
Assessor parlamentar de imprensa do presidente eleito entrou num grupo no WhatsApp formado por jornalistas que cobriam a campanha e escreveu: “Vocês são o maior engodo do Jornalismo do Brasil! LIXO”. Escreveu depois: “Gostaria de apresentar minhas sinceras desculpas junto aos jornalistas brasileiros, que por ventura se sentiram atingidos, no tocante ao meu excesso verbal. Agi de forma rude e equivocada para mostrar minha insatisfação na cobertura jornalística do cenário político nacional”.
O ministro Luís Roberto Barroso anunciou que STF se unirá em defesa de negros, gays, mulheres e da liberdade de expressão: “O Supremo pode ter estado dividido em relação ao enfrentamento da corrupção. Muitos laços históricos difíceis de desfazerem, infelizmente. Mas em relação à proteção dos direitos fundamentais, ele sempre esteve unido”.
O grupo Ninguém Fica Pra Trás abriu conta no site de contribuição coletiva: “O ódio pode estar mais forte do que nunca, mas nossa resposta começa aqui, e agora. Vamos nos unir nesta enorme campanha de financiamento coletivo para apoiar iniciativas que acolhem pessoas vítimas de violência, intolerância, misoginia, homofobia e racismo... A eleição de Bolsonaro tem um efeito grave e imediato: o aumento dos crimes de ódio sobre grupos que foram hostilizados em seus discursos. Mulheres, negras e negros, população LBGTQI, povos tradicionais e refugiados sempre sentiram na pele os efeitos da intolerância – mas agora, com um presidente que incita o ódio publicamente, essas vidas estão ainda mais ameaçadas”.
A Associação Nacional de Jornais, OAB, ABI, Repórteres Sem Fronteiras, Federação Nacional dos Jornalistas, Comitê de Proteção aos Jornalistas e outras entidades repudiaram a entrevista ao Jornal Nacional em que o candidato eleito voltou a atacar a Folha de S. Paulo e afirmou que “por si só, esse jornal se acabou”.
Na quinta-feira, na sua primeira coletiva, foi vetada a presença de representantes dos jornais Estado, Folha, O Globo e agências internacionais. Que semana...

Autor: Marcelo Rubens Paiva, escreve para o jornal O Estado de S. Paulo.

2 de novembro de 2018

Moro reprovado no teste da mulher de César!

Mas é popular o suficiente para correr o risco

Era uma vez a festa da ”Boa Deusa", na Roma de Júlio César, em maio de 62 a.C. Só podiam participar mulheres, comandadas por Pompeia Sula, segunda mulher de César, jovem e bela. Publius Clodius, apaixonado por Pompeia, disfarçou-se de tocadora de lira e entrou clandestinamente na festa para chegar perto de sua paixão proibida.
O plano fracassou. Publius foi descoberto sem nem sequer chegar perto de Pompeia. Não obstante, armou-se tal escândalo que César divorciou-se da mulher, para espanto dos senadores romanos. Queriam saber por que ele quis o divórcio, mesmo sem haver qualquer indicação de que a mulher o traíra. César respondeu: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”.
Desse episódio nasceu um provérbio, que se repete ao longo dos séculos: "À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta".
Aplica-se à perfeição ao casamento Sergio Moro/Jair Bolsonaro. Não há como provar que Moro condenou Luiz Inácio Lula da Silva para afastá-lo da disputa eleitoral e, assim, abrir o caminho para outro candidato, que acabou sendo Jair Bolsonaro, o que agora convida o juiz para ser um superministro da Justiça.
Na verdade, nem foi Moro diretamente quem tirou Lula do páreo. Foram os juízes da segunda instância que referendaram a condenação e ainda aumentaram a pena. Só assim o líder petista tornou-se inelegível.
O próprio Bolsonaro deu corda na suspeição, ao dizer que o trabalho de Moro, ”muito bem feito", o ajudara a crescer politicamente.
Para os petistas, é uma confissão até desnecessária. Sergio Moro já era o inimigo público número um. Mesmo que, em vez de ser ministro de Bolsonaro, tivesse sido chamado para trabalhar ao lado do papa Francisco, seria suspeito.
O problema, para Moro, é que, agora, há mais gente suspeitando, do que dá prova o título da capa desta sexta-feira (2) do jornal espanhol El País: ”O juiz que pôs Lula na prisão será um superministro com Bolsonaro".
Está clara a insinuação, certo? Claro que a parte hidrófoba do bolsonarismo dirá que El País é comunista, rotulação que essa gente vem usando com ridícula frequência. É patético porque, entre outras razões, o comunismo ficou sepultado sob os escombros do Muro de Berlim, faz quase 40 anos.
Mas um magistrado respeitado como Carlos Ayres Britto, que nem o mais fanático bolsonarista pode chamar de comunista, disse ao jornal O Globo que Moro no governo compromete a imagem do Judiciário. Acrescentou: ”Os magistrados devem manter o máximo de distância dos outros dois poderes".
Reforçou nesta Folha Reinaldo Azevedo, outro que só paranoicos poderiam acusar de comunista ou esquerdista: ”Ministro Moro é Judiciário com partido".
Um como o outro deixam claro que a um juiz, como à mulher de César, não basta ser imparcial, é preciso parecer imparcial, condição que ficou arranhada nesse episódio.
Mas há o contraponto: os aplausos à nomeação de Moro foram muitos, mas muito mais amplos do que as críticas e restrições. Explicável: o juiz é extremamente popular, Bolsonaro está em lua de mel com uma parte significativa da sociedade, e a maioria do eleitorado aprova a prisão de Lula —51%, segundo pesquisa Datafolha de um mês atrás, mais 8% que defendem a condenação, mas preferem que seja transferido para prisão domiciliar.
Significa que Moro pode passar tranquilamente por cima da necessidade de ser e de parecer ser imparcial e, ainda assim, receber aplausos.
Se continuarão ou não, vai depender do que fizer no governo. Não é uma missão trivial: ficou com a responsabilidade de encarar dois dos problemas que levaram o eleitorado a passar o rodo no establishment político tradicional, corrupção e criminalidade.

Autor: Clóvis Rossi - Repórter especial, membro do Conselho Editorial da Folha e vencedor do prêmio Maria Moors Cabot.