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18 de julho de 2019

Prefeito de Sorocaba é pego com Atestado (Bilhete) falso!

Uma moradora de Sorocaba – SP, flagrou o prefeito José Crespo – DEM-SP almoçando em um restaurante em Montevidéu, no Uruguai no dia 07 de julho, um belo domingo. O prefeito de Sorocaba havia pegado um atestado de 14 dias para repousar, por ordem médica.
O atestado foi emitido dia 3 de julho com validade até 17 de julho, e diz que o prefeito deveria permanecer em repouso domiciliar. Quem emitiu o atestado foi o médico Urologista Dr. Limirio Leal da Fonseca Filho – CRM 35217.
No atestado, o médico não colocou a CID, que é a Classificação Internacional de Doenças. De acordo com a legislação trabalhista, essa informação não é obrigatória.
O documento foi protocolado na Câmara no último dia 5. Antes disso, no dia 3, ele deveria ter prestado depoimento à Comissão Processante da Câmara, mas alegou que precisava passar pelo médico em São Paulo.
Na quinta-feira, 11, ele também era esperado para depor na Câmara, mas não compareceu por conta do suposto "repouso domiciliar" determinado pelo médico.
A moradora que encontrou o prefeito disse que ele estava passeando com a mulher no Mercado do Porto, na capital uruguaia. O registro foi feito quando o casal parou em uma lanchonete.
"Em razão de incômodos pós-operatórios (próstata), o médico determinou meu afastamento das atividades normais do gabinete e repouso, o que estou cumprindo. Viagens, desde que mantidos esses cuidados, não estão proibidas", disse o prefeito em nota enviada à TV TEM.
José Crespo é investigado em quatro inquéritos da Polícia Civil e em uma Comissão Processante da Câmara dos Vereadores. Talvez isso o tenha estressado tanto que causou problemas de saúde, ou tenha sido a deixa encontrada para fugir das suas responsabilidades perante a Câmara e a sociedade de Sorocaba.
Essa situação bizarra e um tanto quanto mentirosa, me fez lembrar a história do garoto Gabriel Lucca de cinco anos de idade que viralizou nas redes sociais em 2018. Ele escreveu um bilhete se passando pela professora na tentativa de "fugir" da aula, contou sua mãe, que está acostumada com os recados inusitados recebidos do filho. O "plano infalível" do garoto, que mora com a família em Bocaina (Região de Jaú-SP) "inventou" um feriado, foi compartilhado pela mãe com a Tia Paulinha, professora que teria assinado o bilhete.
Na tentativa de convencer a mãe, Gabriel escreveu "é verdade esse bilete (sic)". A professora publicou o recado no Facebook e, em poucas horas, o post viralizou.
O prefeito Crespo só não fez o bilhete, porém, ao dizer que o médico determinou repouso e que viagem não teria problema, ficou ridículo e exposto a fúria dos munícipes e dos vereadores que poderão acrescentar mais um processo aos muitos que o manganão já possui naquela cidade.
Esquerda Montividéo Direita Prefeito e esposa na mesma cidade.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública. 

10 de julho de 2019

O amanhã das profissões!

Algumas das melhores lições
são aprendidas dos erros do passado.
O erro do passado é a sabedoria do futuro.
Dale Turner

Num tempo que está mais próximo do que imaginamos, nós deixaremos de recorrer a alguns profissionais. Não iremos recorrer a um corretor de imóveis para comprar uma casa, enviar algo pelo correio ou até pegar um livro numa biblioteca. Ao invés disso, iremos lidar com robôs encarregados destas funções.
 É o que prevê o pesquisador Carl Frey, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Ao lado de outro estudioso do tema, Michael Osborne, ele elaborou uma metodologia para estimar as chances de um emprego ser automatizado. Ele argumenta que estamos entrando em uma nova fase do avanço da tecnologia sobre os postos de trabalho.
Essas mudanças estão acontecendo há algum tempo, começaram de forma lenta e gradual, sem que muitas vezes tenhamos percebido no cotidiano. As linhas de montagem na indústria automobilística foi um começo da automação na indústria.
Com o avanço da inteligência artificial e da robótica esse espaço estará cada dia mais ocupado por robôs. "Nenhuma indústria ou ocupação é imune à automação. No passado, isso estava restrito a atividades repetitivas. Agora, há um imenso volume de dados sendo gerados. A tecnologia de computação se sofisticou. Equipamentos eletrônicos usados na robótica estão melhores e mais baratos", afirmou o especialista à BBC Brasil.
As dez profissões mais ameaçadas de extinção são:
   1.   Agente de crédito;
   2.   Analista de crédito;
   3.   Corretor de imóveis;
   4.   Gerente de remuneração e benefícios;
   5.   Atendentes de agências do correio
   6.   Operadores de usinas nucleares;
   7.   Analista de Orçamento;
   8.   Contador e Auditor;
   9.   Técnico de Geologia e Petróleo; 
  10.  Operadores de estações de exploração de gás.
Estima-se que 35% dos postos de trabalho no Reino Unido corram risco de desaparecer nos próximos 20 anos, com a criação de robôs capazes de realizar essas mesmas funções. Esse índice é ainda maior nos Estados Unidos, aonde chega a 47% - e ultrapassa 50% em países em desenvolvimento.
As dez profissões menos ameaçadas pelos robôs são:
   1.   Supervisor de trabalhos mecânicos, instaladores e reparadores;
   2.   Diretores de gerenciamento de emergências;
   3.   Audiologista;
   4.   Terapeuta ocupacional;
   5.   Ortodontistas e especialistas em próteses;
   6.   Cirurgiões buco-maxilo-facial;
   7.   Supervisores de bombeiros;
   8.   Nutricionistas;
   9.   Engenheiros de vendas;
  10.  Médicos e cirurgiões.
Esses dados afetam muito mais o chamado primeiro mundo com seus países muito mais desenvolvidos que o Brasil, onde a indústria está muito atrasada na informatização de seu parque industrial. Claro que, alguns segmentos da nossa sociedade irão conviver com essa modernização em tempo menor. O ideal é que os jovens direcionem seus estudos para carreiras eu possam ser mais duradouras e com menos riscos de serem extintas.
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Nada que está ruim, que não possa piorar - Deepfakes!

Os problemas significativos que enfrentamos
não podem ser resolvidos no mesmo nível de
pensamento em que estávamos quando os criamos.
Albert Einstein

Quando pensávamos que conviver com as chamadas Fake News (Notícias falsas) era coisa do passado, algo que já podíamos administrar com tranquilidade em nosso cotidiano chega à novidade para nos provar que o que era ruim, pode ficar muito pior. Surgem as Deepfakes, ou falsificações profundas.
Teremos que lidar nas redes sociais com esta ameaça que se utiliza de Softwares capazes de redigir textos de maneira autônoma, indistinguíveis daqueles escritos por pessoas.
A utilização da inteligência artificial acopla as fakenews para produzir textos e vídeos (Fakeviews) que poderão provocar sérios problemas. E por quê? Áudios poderão ser fraudados, o sistema poderá transformar a fala em dados e, por meio de algoritmos, clonar a voz humana.
Isso pode levar você a falar com a sua voz, algo que você nunca pronunciou. A situação é comparável ao Photoshop, que altera e modifica fotos, falsificando-as. A expressão “ver para crer” perderá força.
Recentemente, circulou um vídeo onde, com todo o movimento da boca, Barack Obama dizia coisas como, por exemplo, “Trump é um imbecil”. Imaginem o constrangimento pessoal que isso poderá provocar e até as complicações políticas advindas de situações inexistentes difíceis de serem desmascaradas.
Estamos convivendo com algumas situações sem, no entanto percebermos a sua dimensão. No Twitter, histórias falsas têm 70% mais chances de serem reproduzidas que as verdadeiras. Segundos pesquisas recentes havia de 29 milhões a 49 milhões de contas robôs no Twitter e 60 milhões do Facebook.
Segundo Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista de Adolf Hitler, uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Imagine então uma mentira numa campanha política repetida 50.000 mil vezes pelos robôs que multiplicam as postagens?
No Brasil, onde leis não são obedecidas, muitas vezes burladas, nas eleições de 2018 tivemos uma avalanche de utilização de robôs nas redes sociais postando milhares de fake news diariamente. Tudo isso, impunemente até o presente momento. É para ter medo do que vai acontecer quando as Deepfakes forem usadas.
Afinal como disse o Consultor Evandro Milet: “Nem todo mundo na internet é doido. Mas todo doido está na internet com suas teorias conspiratórias, delírios paranoicos e ódios ideológicos descontrolados, agora turbinados com novas e poderosas ferramentas”.

Fonte: Evandro Milet – Consultor e palestrante em inovação e estratégia.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

O canto da sereia no Brasil!

“Não existe um governo corrupto numa Nação ética,
nem há uma Nação corrupta onde exista um
governo ético e transparente” Leandro Karnal.

A mitologia grega foi a que mais colaborou com o imaginário ocidental. Em 1100 a.C., eles criaram não só as sereias como as sirenas: mulheres-pássaros que causavam naufrágios ao distrair marinheiros com a voz. Diferentemente das mulheres-peixe, nunca se apaixonavam por humanos. Eram filhas do deus-rio Aqueloo, criadas para serem amigas de Perséfone, filha de Zeus e Deméter. Filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore, tal como as harpias, habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália.
Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali para os navios colidirem com os rochedos e afundarem. Odisseu, personagem da Odisseia de Homero, conseguiu salvar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro de seu navio, para poder ouvi-las sem poder aproximar-se. As sereias representam na cultura contemporânea o sexo e a sensualidade.
Na Grécia Antiga, porém, os seres que atacaram Odisseu eram, na verdade, retratados como sendo sereias, mulheres que ofenderam a deusa Afrodite e foram viver numa ilha isolada. Assemelham-se às harpias, mas possuem penas negras, uma linda voz e uma beleza única.
Na atualidade 38% dos eleitores brasileiros, que na prática são pouco mais de 28% do total de brasileiros, se deixaram levar pelo canto da sereia. Numa eleição em dois turnos, optaram em votar em um candidato despreparado, que havia ficado 30 anos no Poder Legislativo sem nunca em tempo algum ter feito algo pelo Estado que representava nem pelo país.
O som da sereia neste caso se reveste de uma canção carregada de preconceito, de ódio e de aversão a outro partido que governara o país até 2016. Por mais que discorde e tenha criticas severas a este outro partido, não posso imaginar que votar em alguém tosco e ignorante possa desfazer aquilo que tenha sido feito de forma errada.
O voto tem de ser consciente e baseado na pesquisa dos candidatos colocados a prova no primeiro turno, votar com ódio ou com o fígado jamais vai trazer bons resultados. A pauta era baseada em Fake News, em aproximar os evangélicos com um discurso pró-família, embora no mesmo projeto estivesse incluso liberação de armas e agrotóxicos (ambas que matam pessoas e destroem famílias).
Haviam opções no primeiro turno, quis o destino cruel que os dois postulantes no segundo turno fossem o candidato do partido odiado por parcela significativa da população contra o sujeito despreparado e sem noção alguma de gestão pública.
Após seis meses de governo, o país está parado, o presidente só tem um argumento, um projeto, que é a Reforma da Previdência. O desemprego de 13 milhões de brasileiros, as obras de infraestrutura necessárias, habitação popular e o crônico problema da saúde ficam a mercê da aprovação dessa reforma.
Minha opinião: O povo brasileiro, em especial os 62% que não deram seu aval a este presidente vão sofrer muito, tanto quanto aqueles que fazem parte dos 38% de eleitores do PSL. Essa reforma não vai gerar empregos, desenvolvimento econômico e crescimento da economia brasileira. Aguardem e veremos em pouco tempo. O canto da sereia ainda ilude, mas não por muito tempo. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública. 

5 de julho de 2019

Mundo ultrapassa 1,5ºC só com carbono já “encomendado”

Um estudo publicado nesta segunda-feira (01/07) mostra que a humanidade está casada em comunhão total de prejuízos com um aquecimento global de 1,5oC. Seus autores apontam que só a infraestrutura de energia já em construção e planejada no planeta já causará emissões de gás carbônico (CO2) mais altas do que o máximo necessário para estabilizarmos o aquecimento da Terra nesse patamar.
China precisa desativar de duas a três usinas de carvão por semana para manter-se dentro da meta estabelecida no Acordo de Paris. Mas as emissões devem subir este ano – Foto Pixabay
É o chamado efeito de emissões comprometidas, ou lock-in, na expressão em inglês. Ele corresponde ao carbono que será inevitavelmente emitido ao longo da vida útil de um equipamento de infraestrutura, como uma usina termelétrica – que pode durar 30 anos ou mais – ou um carro.
A equipe da pesquisadora Dan Tang, da Universidade da Califórnia em Irvine (EUA), estimou que a estrutura já implementada no mundo emitirá, se operar como vem operando até agora 648 bilhões de toneladas de CO2. Há outras 188 bilhões de toneladas em obras e equipamentos planejados. Ou seja, um total de 846 bilhões de toneladas já estariam encomendados, por assim dizer.
Ocorre que o “teto” de emissões estimado pelos cientistas para que tenhamos uma chance de pelo menos 66% de limitar o aquecimento a 1,5oC (como almeja o Acordo de Paris) é de apenas 580 bilhões de toneladas, na melhor das hipóteses. Isso equivale cerca de dez anos de emissões globais no rito atual.
Para limitar a temperatura abaixo de 2oC, que é o objetivo menos ambicioso do acordo do clima, a situação é um pouco melhor: o “teto” estimado de emissões da humanidade é de cerca de 1,2 trilhão de toneladas, embora ele seja contestado por alguns cientistas – que argumentam que nós já gastamos quase metade disso e é preciso considerar emissões de outros gases de efeito estufa além do CO2.
“Nossos resultados mostram que basicamente não existe espaço para nova infraestrutura emissora de CO2 com as metas climáticas existentes. E, se o mundo quiser alcançar 1,5o C, as usinas fósseis e os equipamentos industriais existentes precisarão ser aposentados mais cedo, a menos que possam ser equipados com captura e armazenamento de carbono ou que suas emissões possam ser compensadas”, disse Steve Davis, de Irvine, coautor do estudo, publicado no periódico Nature.
Não ajuda o fato de a maioria dessas usinas e desses equipamentos estarem na China: 41% de toda a infraestrutura carbonizante está operando ou planejada para operar no gigante asiático – que tem 250 gigawatts de usinas a carvão para construir, mais do que todo o parque elétrico do Brasil somado.
Os investimentos na China para essa infraestrutura chegam a US$ 6 trilhões, e dificilmente alguém dirá aos chineses para abrirem mão disso. Afinal, mesmo que mais de metade do carbono emitido pela humanidade tenha ido para o ar apenas nos últimos 30 anos, foram os países desenvolvidos que causaram o problema originalmente – e os países em desenvolvimento não se esquecem disso.
A matemática do clima, porém, é implacável e não respeita história ou geografia: usinas chinesas, oleodutos norte-americanos e caminhões brasileiros vão ter que sair de cena.
“Embora analistas de clima e energia enfatizem que evitar 1,5oC de aquecimento, por exemplo, é ‘tecnicamente possível’, nossos resultados botam essa possibilidade em contexto: nós teríamos chance razoável de atingir a meta de 1,5oC com (1) uma proibição global de qualquer novo equipamento emissor de CO2 – incluindo a maioria das usinas fósseis já propostas, e (2) reduções substantivas nas vidas úteis históricas e/ou na taxa de utilização da infraestrutura já existente”, escrevem Tang e colegas.

Autor: Escrito por Neo Mondo

1 de julho de 2019

Radiografia do fanático “que só sabe contar até um”

O fanático abraça toda a realidade para que não possa haver ninguém diferente dele.
Foto: Naiara Galarraga Cortázar
A questão do extremismo e da identidade do fanático, seja no âmbito político, cultural ou psicológico, agita todo o mundo e é de forte atualidade para a sociedade brasileira que se debate entre extremos difíceis de conciliar. Entre as definições que existem do fanático, nenhuma me parece mais aguda do que a do recentemente falecido escritor israelense Amós Oz, considerado um dos maiores e mais livres pensadores do nosso tempo.
Em sua obra Mais de Uma Luz (Companhia das Letras, 2017), define o fanático como “aquele que só sabe contar até um”. Sua realidade termina nele. Sua matemática se esgotada aí. Não cabem nem dois, porque, segundo ele, “uma das realidades contundentes que identificam um fanático é sua ardente aspiração de mudar o outro para que seja como ele”.
O fanático abraça toda a realidade para que não possa haver ninguém diferente dele. Não existem em suas contas a soma nem a multiplicação. Segundo o escritor, “ele não quer cortinas no mundo, nem sombra de vida privada ou diferente da sua”. O verdadeiro fanático “se acredita enviado por Deus para purificar o mundo e torná-lo todo igual, sem diferenças”.
Nesta linha de raciocínio, para o fanático, “a justiça é mais importante do que a vida”, e o “ódio cego faz que quem se encontre do outro lado da barricada seja idêntico a ele”. Uma vez mais, o fanático só consegue contar até um. O dois não existe para ele, ou deve ser assimilado ou destruído.
Essa forte presença do fanatismo é hoje, segundo o escritor, mais perigosa depois do nazismo e do stalinismo. Naquela época, por algum tempo, os nazistas, por exemplo, se envergonhavam de sua condição e até chegavam a escondê-la. Hoje é ainda mais grave, já que a vacina parcial que tínhamos recebido está acabando e os fanáticos agem com o rosto descoberto, quase com orgulho. “Ódio, fanatismo, animosidade ao outro, ao diferente, e brutalidade política são proclamados à luz do sol”, segundo o escritor.
E assim, nesse clima do ressurgimento do fanático, “cada vez mais pessoas escolhem o ‘furioso’, o ‘chocante’ o ‘sinistro’, o ‘enlouquecedor’ e até ‘morrer e matar’”, anota o escritor israelense que morreu sem receber o Nobel de Literatura, certamente por suas posições abertas em favor do diálogo entre Israel e a Palestina, sua grande obsessão democrática e humanista. E acrescenta que hoje talvez não seja inocente nem casual “a infantilização das multidões em todo o mundo”, com o objetivo de alimentá-las com o maná da fascinação do fanatismo.
“Todos os tipos de fanáticos tendem a viver em um mundo em que tudo é preto ou branco”, escreve Amós, que confirma sua definição de alguém “que só sabe contar até um”. Não existe para ele a riqueza da soma das diferenças.
O verdadeiro fanático é alheio e insensível à ideia de que possa haver algo ou alguém diferente dele. Assim, acaba privado de tudo o que enriquece e enobrece o mundo como é a diversidade. O fanático nunca entenderá valores como a amizade com alguém que possa levantar uma bandeira diferente da sua, como o diálogo, a política de gênero, a riqueza de compartilhar ideias e pensamentos que não sejam os seus.
O fanático de hoje é incapaz de desfrutar da luminosidade produzida pela mistura das cores. Para isso, teria de aprender a somar e multiplicar a luz em um grande caleidoscópio que reflita a riqueza da vida e de seus contrastes. Infelizmente, “só sabe contar até um”. Todo o resto não existe para ele, ou só lhe interessa domesticado ou morto.

Autor: Juan Arias – El País

O flautista de Hamelin nos dias atuais!

Não ande atrás de mim, talvez eu não saiba liderar.
Não ande na minha frente, talvez eu não queira segui-lo.
Ande ao meu lado, para podermos caminhar juntos.
Provérbio Ute!

A história nos conta que em 1282, a cidade de Hamelin, na Alemanha vivia uma grande infestação de ratos. Um dia chega à cidade um homem que se diz um grande “caçador de ratos” e proclama a todos que tinha a solução para o grave problema. Prometeram-lhe uma boa recompensa em troca dos ratos – uma moeda para cada rato.  O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta e hipnotizou os ratos, afogando-os no Rio Weser.
Apesar de obter sucesso, os poderosos da cidade deram uma de malandros. Voltaram atrás na promessa feita e recusaram-se a pagar o “caçador de ratos”, afirmando que ele não havia apresentado as cabeças.
Enfurecido, o homem deixou a cidade, mas retornou várias semanas depois e, enquanto os habitantes estavam na igreja, tocou novamente sua flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, onde foram enfeitiçados e trancados em uma caverna. Na cidade, só ficaram opulentos habitantes e repletos celeiros e despensas bem cheias, protegidas por sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza.
Na versão original, que surgiu provavelmente na Idade Média, nos territórios que formariam a Alemanha, o final é diferente: após levar o calote, o flautista atrai as crianças para um rio, no qual elas morrem afogadas. Apenas três crianças sobrevivem: uma cega, que não consegue seguir o flautista e se perde no caminho; uma surda, que não consegue ouvir a flauta, e uma deficiente, que usa muletas e cai no caminho.
Há várias teorias sobre o que o flautista de Hamelin simbolizaria nas narrativas orais antes de virar uma história para crianças. Para alguns, ele seria a representação de um serial killer, para outros uma metáfora para as epidemias que dizimavam populações, como a peste, e para muitos remetia ao processo de migração para colonizar outras regiões da Europa.
A verdade é que no Brasil não são apenas os devotos das seitas extremistas, à esquerda e à direita, que limitam sua visão de mundo às mentiras, distorções e meias-verdades cínicas que leem nas redes sociais. A histeria irresponsável parece ter capturado também aqueles dos quais se esperam equilíbrio e sobriedade na formação de opinião pública.
Quase todos aparentemente estão se deixando pautar pela gritaria que tão bem notabiliza essa forma de comunicação instantânea, que na prática dispensa a reflexão. Nas redes, mesmo bem preparados, formadores de opinião vêm tomando como expressão da verdade tudo aquilo que para eles faz sentido, sem se perguntarem se, afinal, aquilo que se informa é um fato ou uma rematada mentira.
Por isso vemos com tanta frequência milhares de pessoas seguindo flautistas nas ruas, formando grandes multidões que em sua maioria não sabem o verdadeiro motivo de estarem naquele local. Foram chamadas pelos novos flautistas das redes sociais, seguem o som da turba e se deixam levar pelas ruas brasileiras. O perigo é que podem um dia cair nos rios e se afogarem sem saber o porquê e como isso aconteceu.
A julgar pela forma como defendem seu presidente de estimação, postando mensagens para desqualificar quem ousa criticar o “Mito”. Chamando os críticos do presidente de esquerdalhas, numa lista enorme que já tem Globo, Estadão, Folha de SP, Le Monde, Financial Times, New York Times, Intercept e muitos outros órgãos da mídia, como se de repente fossem todos de “esquerda”... O final parece trágico...

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

A visão míope sobre os problemas no trânsito!

"A democracia sobrevive quando a inteligência
do sistema compensa a mediocridade dos atores"
Daniel Inneraty

O presidente Jair Bolsonaro entregou à Câmara dos Deputados, em junho, um projeto de lei que altera trechos do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). O texto ainda será discutido pela Câmara e pelo Senado.
Entre as proposições do presidente estão algumas de difícil compreensão como, por exemplo, as seguintes:
Suspensão do direito de dirigir
O que diz o projeto: A suspensão ocorre quando o condutor atinge 40 pontos em 12 meses ou por transgressões específicas.
O que diz a lei: a suspensão ocorre quando o condutor atinge 20 pontos em 12 meses ou por transgressões específicas.
O percentual de motoristas que atingem 20 pontos na carteira é de aproximadamente 6%, os que atingem 40 pontos não passam de 3%. Esses números por si só, invalidam a tese da necessidade de aumento da pontuação, visto que uma minoria ínfima dirige de forma abusiva em relação a grande maioria que não atingem sequer os 20 pontos na CNH.
Entretanto, fica a dúvida se a proposta não visa aliviar a vida da família Bolsonaro junto às autoridades de trânsito, uma vez que Jair Bolsonaro mesmo com motorista a disposição nos últimos 30 anos, atingiu 18 pontos na CNH. Seu filho Flávio atingiu 39 pontos na carteira e a sua esposa Michelle tem 41 pontos com infrações gravíssimas como avançar semáforo no vermelho, estacionar na calçada, entre outras infrações, segundo dados do DETRAN-RJ.
Nos últimos anos, na contramão do projeto do presidente, a manutenção dos 20 pontos ajudou a reduzir o número de acidentes fatais no trânsito brasileiro. Portanto, a medida proposta não irá ajudar o motorista que faz o certo e dirige com atenção, mas sim, uma minoria que faz da direção dos seus veículos verdadeiras armas assassinas.
Outra medida polêmica e sem sentido foi à proposta de retirar a punição (multas) para quem não colocar os filhos na cadeirinha:
O que diz o projeto: Incluem no CTB normas do CONTRAN sobre o transporte de crianças: até 7 anos e meio, elas devem ser transportadas nos bancos traseiros e com cadeirinha adaptada ao tamanho e peso. Crianças entre 7 anos e meio e 10 anos “serão transportadas nos bancos traseiros e utilizarão cinto de segurança”.
A principal mudança é na punição para o transporte irregular de crianças. Segundo o projeto, "a violação do disposto no art. 64 será punida apenas com advertência por escrito”.
Isso quer dizer que a advertência poderá substituir a multa e a medida administrativa (retenção do veículo) aplicadas até então. No entanto, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a infração vai manter a perda de pontos para o motorista.
O que diz a lei: O CTB diz que as crianças com idade inferior a 10 anos devem ser transportadas nos bancos traseiros. Uma resolução do CONTRAN, de 2008, trata das regras para isso, como o uso de cadeirinhas ou assento de elevação para crianças de até 7 anos e meio. Entre sete anos e meio e 10 anos, a criança deve usar o cinto de segurança. O artigo 168 do CTB diz que a infração é gravíssima e há multa R$ 293,47, além de retenção do veículo até a regularização da situação.
Como tem sido praxe nesse governo, esperemos que o Congresso barre essas propostas sem nexo, sem conhecimento técnico, de uma pessoa sem noção daquilo que propõe ao país. Um Brasil cheio de problemas graves para serem resolvidos e o sujeito preocupado em tirar radares das estradas, aumentar pontuação para ajudar infratores do trânsito, retirar a obrigatoriedade dos exames toxicológicos para motoristas de caminhões, enfim, são muitas sandices para um presidente que mais parece um sindico despreparado e tosco.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.  

Que turista ainda quer ir ao Brasil?

O turismo como fator econômico nunca foi levado a sério na política brasileira. Isso não é novo. Mas o atual governo torna ainda mais difícil que estrangeiros queiram visitar o Brasil.
Você sabe quem é o ministro do Turismo? Exato. Normalmente, o nome designado para essa pasta no governo é amplamente desconhecido. A não ser que esteja envolvido num escândalo. Como é o caso do atual ocupante do cargo. Ele é suspeito de ter desviado dinheiro de campanha originalmente destinado a candidatas mulheres.
Que o ministro continue no cargo, apesar de depoimentos incriminatórios, mostra, sobretudo uma coisa: como tal posto é considerado desimportante dentro do gabinete ministerial. Caso contrário, interessados já teriam derrubado sua cadeira há muito tempo.
O fato de o ministro do Turismo não ser importante não é novidade, mas é uma das razões pelas quais o turismo no Brasil está completamente subdesenvolvido, tendo em vista o potencial do país. Em todo o mundo, os grandes polos turísticos sofrem com o excesso de visitantes, moradores reclamam das ruas lotadas, do aumento do aluguel e do custo de vida.
Mas, no Brasil, os brasileiros permanecem muitas vezes entre si, mesmo nos destinos turísticos mais famosos. O setor está subdesenvolvido. E este é acima de tudo um drama econômico tendo em vista o potencial natural, social e cultural que o país tem para oferecer como destino. Mas com cerca de 6,5 milhões de visitantes por ano, o Brasil não está nem entre os 30 destinos turísticos mais importantes do mundo – e isso após uma Copa do Mundo de futebol e dos Jogos Olímpicos como uma vitrine para o país.
O Brasil está desperdiçando uma tremenda oportunidade de criar empregos para pessoas que, de outra forma, teriam dificuldade em conseguir trabalho na indústria ou no setor de serviços informais devido à falta de treinamento. A natural hospitalidade e cortesia brasileiras combinadas com treinamento na indústria hoteleira e gastronômica, além de um curso de idiomas em inglês, ofereceriam um enorme potencial de emprego para muitas pessoas.
Mas o país carece de infraestrutura turística. A situação piorou mesmo nos últimos anos, apesar dos eventos esportivos internacionais. Acho que falta ao Brasil uma compreensão básica do que poderia atrair turistas estrangeiros. Porque aquilo que agrada aos brasileiros geralmente não apetece aos estrangeiros – e vice-versa. Um exemplo disso é a publicidade que a autoridade turística (Embratur) vem fazendo no exterior há anos: os tecnocratas de Brasília realmente acreditam que um turista da Europa tomará um caro voo de 12 horas para o Brasil para ver "12 shopping centers para encher suas malas" ou "A magia do Natal”?
No início do ano, o Brasil suspendeu a exigência de visto para turistas dos EUA, Canadá, Japão e Austrália. O abalado ministro anuncia agora com orgulho as estatísticas mensais sobre o aumento do interesse das viagens desses países pelo Brasil. Até o final do mandato do atual governo, em 2022, o ministro planeja quase dobrar o número de turistas para 12 milhões.
Como todos os seus antecessores, é improvável que ele tenha sucesso nisso. É muito possível que o balanço turístico deste governo seja claramente negativo: quem ainda quer ir a parques naturais e fazer ecoturismo no Brasil quando o governo, ao mesmo tempo, mina todos os controles e medidas para a proteção da Amazônia e abre caminho para o lobby agrícola?
Quem quer vir ao Brasil como membro da comunidade LGBT quando os ataques a gays, lésbicas e transexuais aumentam e nada é feito publicamente sobre isso? Quem quer vir a um país com uma taxa de homicídios assustadoramente elevada e as taxas de acidentes mais altas do mundo, onde o governo não apresenta nada melhor do que armar a população e relaxar a impunidade no tráfego rodoviário? Qual artista ainda acha o Brasil interessante no momento em que o Judiciário está cada vez mais vistoriando a arte para ver se ela viola os valores tradicionais da família?

Autor: Jornalista Alexander Busch correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung.

Podemos viver juntos com liberdade?

A mais forte tendência no pensamento humano é a de acreditar que nossa espécie pode viver sob um sistema único de ideias. A conclusão foi apresentada no palco do Fronteiras do Pensamento, pelo filósofo britânico John Gray.
Gray busca responder uma pergunta latente na sociedade contemporânea: para onde o incessante conflito de opiniões vai nos levar? Até onde iremos tentando convencer (ou até forçar) o outro a aderir às nossas opiniões e visões de mundo?
É fato que a hiperconexão digital rompeu as esferas de silêncio que ofereciam relativa estabilidade para nossas relações. Neste saudável distanciamento, éramos capazes de criar um universo impessoal, em que grupos e comunidades muito diferentes podiam subsistir sem maiores problemas. 
Porém, a internet nos convocou a vivermos juntos. O tempo todo. 
Onde seria desejável apenas respeito e alguma distância, acabamos apostando em uma guerra de surdos, com resultados que vão do isolamento à violência. O que o futuro nos reserva? 
Do nazismo ao extremismo islâmico, passando pelo comunismo e pela chamada Revolução Democrática, John Gray esmiúça a história e aponta como mitos aparentemente opostos partem de uma mesma crença fundamental: a imposição de um sistema universal.
Não apresentarei doutrinas ou filosofias, porque uma das minhas crenças mais fortes é que a verdade a respeito do mundo não pode ser contida numa filosofia única ou num sistema único de ideias. 
Temo e suspeito de qualquer projeto, intelectual ou político, que queira unificar e harmonizar o pensamento humano, a vida humana.
Um dos autores do século XX que mais aprecio é o escritor português Fernando Pessoa. 
Diferentemente de Pessoa, não posso dizer que tenho múltiplas identidades ou heterônimos. Mas, como ele, resisto a qualquer ideia ou crença de que nosso objetivo deva ser uma identidade única e uniforme, um tipo único de sociedade que prevaleça no mundo todo. 
Nossa meta deve ser um fim aos conflitos e isso se encaixa com o tema do Fronteiras do Pensamento, Como viver juntos. Podemos sim viver juntos, porque o mundo futuro, assim como o atual, consistirá não apenas de um tipo de sociedade ou visão de mundo, ele consistirá de diversos regimes, assim como no passado. 
Haverá democracias liberais e não liberais, monarquias, repúblicas, impérios, áreas de anarquia. Qualquer sonho de um sistema universal, seja ele comunista, anarquista, neoliberal ou positivista, é uma ilusão. 
Nos séculos XIX e XX, e nas primeiras décadas do século XXI, nenhum desses sonhos demonstrou qualquer sinal de estar se tornando mais próximo da realidade, mas, mesmo assim, estes sonhos são constantemente renovados e, muitas vezes, são renovados de forma violenta. 
A violência desse sonho da unidade, da harmonia, da civilização única, teve diversas formas no século XX: tivemos formas violentas no leninismo, bolchevismo, stalinismo, no trotskismo e no maoismo. 
Todos eram formas de violência organizada. Também tivemos o nazismo, o fascismo e mais recentemente, projetos neoconservadores de mudanças de regime.
Eu fui um dos que atacou o projeto da Guerra do Iraque desde o início. Aliás, antes do início, em 2002, e não fui o único a dizer isso. 
Quando ficou claro que algo como a Guerra do Iraque aconteceria, eu fui totalmente contra e disse que o resultado seria a destruição do Estado do Iraque seguido de um governo fraco onde haveria uma enorme quantidade de conflitos sectários. 
Seria fácil destruir o Estado do Iraque, o impossível seria reconstruí-lo e isso foi de fato o que aconteceu.
É claro que houve aspectos geopolíticos na Guerra do Iraque, que tinham a ver com o petróleo no Irã, mas, para muitas pessoas que eram a favor, criar uma democracia no Iraque seria algo realizável. Elas acreditavam que a democracia se espalharia pelo Oriente Médio. Fazia parte do que algumas pessoas chamavam de Revolução Democrática Global. 
Ainda há pessoas que defendem isso. A maioria das pessoas acredita que há um tipo de regime que é o melhor para o mundo. A maior parte das pessoas acredita que a história humana se encaminha a um tipo único de regime. 
Se esse desenvolvimento for lento ou se houver resistência de algumas partes do mundo, esse desenvolvimento pode ser acelerado por meio de guerras, de invasões, de mudanças de regime.
Os resultados dessa crença são quase sempre os mesmos: o experimento mais recente disso foi aquele que a França e a Grã-Bretanha, mais do que os EUA tentaram fazer na Líbia, derrubando o Kadafi e o resultado foi uma condição de caos total na Líbia, com militantes islâmicos que cada vez têm mais poder, uma excesso de refugiados econômicos que têm ido cada vez mais para a Europa. 
Enfim, os resultados foram ainda mais rapidamente desastrosos do que os que vimos no Iraque. Então, não existe nenhum exemplo de mudança de regime desse tipo que tenha obtido os resultados daqueles que a apoiam. 
Não estou nem dizendo que tais resultados eram desejáveis, estou apenas dizendo que, em provavelmente todos os casos, os resultados foram diferentes ou até mesmo opostos aos imaginados por aqueles que apoiavam as mudanças de regime. 
Mesmo assim, os governos ocidentais e os pensadores ocidentais ainda apoiam isso. É uma tendência incurável no pensamento ocidental. Imaginar que as nossas instituições sejam um sistema global. 
Na década de 1980, eu participava de muitos debates sobre se a União Soviética entraria em colapso e eu acreditava que sim. Quando isso começou, no outono de 1989, eu critiquei fortemente Francis Fukuyama que, então, havia publicado seu primeiro artigo sobre o fim da história, em agosto de 1989. 
Em outubro daquele ano, publiquei uma crítica ao artigo de Fukuyama, publicado no meu livro Anatomia de Gray, em que falei que não estamos observando o fim da história. Pelo contrário, na verdade, a história está continuando no seu curso normal. O curso normal da história não é uma divisão ideológica, mas sim o conflito por recursos, por religiões, por nacionalidades, grupos sociais concorrentes, isso sim é normal. Me chamaram de pessimista, de negativo e até de apocalíptico. Achei engraçado, pois apocalíptica é a visão de que a história acabou. 
Me perguntaram: como poderemos viver no mundo descrito por Gray e eu respondi como puderam viver nele até agora? Me perguntaram, no início da década de 1990, o que você acha que vai acontecer após a nova direita?
Eles estavam falando da direita liberal. Eu respondi que era óbvio o que aconteceria, a antiga direita voltaria. Os racistas, os nacionalistas, os machistas, os antissemitas, anticiganos, antigays, anti-imigrantes, tudo isso voltaria. 
Isso está acontecendo agora na Hungria, na Grécia, em todos os lugares. Na Espanha e na Itália com os partidos da esquerda, na França, a Frente Nacional está mais forte do que nunca, e é isso que vai acontecer.
Por que esse tipo de sonho de sistema único é tão forte, sendo que ele já foi falsificado tantas vezes? Não existe nenhum tipo de tendência que aponte realidade nesse direcionamento a um sistema único.
Algumas pessoas me dizem que estou atacando os mitos, falsificá-los. Não. Mitos não podem ser vistos como ideias falsas, porque não são teorias científicas. Mitos são as únicas coisas que as pessoas têm de fato. Então, eles vão continuar a existir.
Devemos refletir sobre se queremos fortalecer estes mitos, se ficamos apreensivos quando nossos mitos são questionados, se ficamos nervosos ou deprimidos. 
Se é isso que procuram, sugiro que não leiam meus livros e procurem Malcolm Gladwell ou livros de autoajuda. A minha proposta é pensar em uma forma alternativa para viver bem, que é a forma como quase todos pensavam até 200 anos atrás. 

Autor: John Gray

Crise que machuca a economia é, sobretudo, de inteligência!

Bolsonaro, Guedes e seus ‘seguidores’ empenham-se na desconstrução do arcabouço institucional que sustentou o desenvolvimento do País.
Ao investigar as razões do desenvolvimento asiático, os autores mais inclinados à análise histórica e institucional concentraram a atenção nas seguintes questões: 1. A natureza e relevância das políticas industriais (e de constituição de grandes grupos nacionais), sempre amparadas no direcionamento do crédito e nas taxas de câmbio reais “competitivas”. 2. A importância dos acordos implícitos e das relações de “cooperação” e “reciprocidade” entre o Estado e grupos privados. 3. A forma da inserção internacional.
Os estudos cuidaram de sublinhar as relações peculiares entre os Estados Nacionais, os sistemas empresariais e a “inserção internacional”. Procuraram chamar atenção para a especificidade da “organização capitalista”, em que prevaleceram: 1. Nexos “cooperativos” e de reciprocidade nas relações capital-trabalho. 2. Negociações entre os grandes conglomerados e seus fornecedores. 3. Íntima articulação entre os bancos e a grande empresa nacional. 4. “Administração estratégica” do comércio exterior e do investimento estrangeiro.
Essa arquitetura institucional não só assegurou excepcionais taxas de investimento e de acumulação de capital como ensejou programas de “graduação” tecnológica. Esse arranjo garantiu, assim, expressivos ganhos de produtividade e, consequentemente, consolidou a posição competitiva dos grandes grupos nacionais (sim, os “campeões”, senhoras e senhores) diante dos rivais e concorrentes no mercado internacional.
A partir das reformas do fim dos anos 70 do século passado, a China irrompeu no cenário asiático com uma receita um tanto modificada. O novo protagonista apoiou-se na combinação entre uma novidade, ou seja, a atração de investimentos diretos estrangeiros e, uma tradição, isto é, a forte intervenção do Estado na finança e no comércio exterior, com o propósito de sustentar uma agressiva estratégia exportadora e de crescimento acelerado. A ação estatal cuidou, ademais, dos investimentos em infraestrutura e utilizou as empresas públicas como plataformas destinadas a apoiar a constituição de grandes conglomerados industriais preparados para a batalha da concorrência global.
Os sistemas financeiros que ajudaram a erguer os países asiáticos eram relativamente “primitivos” e especializados no abastecimento de crédito subsidiado e barato às empresas e aos setores “escolhidos” como prioritários pelas políticas industriais. O circuito virtuoso ia do financiamento para o investimento, do investimento para a produtividade, da produtividade para as exportações, daí para os lucros e dos lucros para a liquidação da dívida.
Na China, as elevadas taxas de poupança registradas nas contas nacionais resultam, sobretudo, dos lucros retidos pelas empresas e do crescimento da renda das famílias. As “poupanças” brotam do circuito virtuoso: expansão do crédito comandada pelos bancos públicos, conexão entre o investimento das empresas estatais e privadas, aumento da produtividade e das exportações líquidas, elevação dos lucros e dos rendimentos agregados.
Os chineses cuidaram de reforçar a centralidade da “organização capitalista” em que prevalecem nexos, digamos, “cooperativos” nas relações entre empresas e burocracias civis, militares e de segurança encarregadas de fomentar e administrar o sistema de avanço tecnológico. É crucial a presença dos bancos públicos no provimento de crédito para permitir a apropriação da tecnologia, mediante a utilização das empresas estatais para a formação de joint ventures com o capital estrangeiro, e promover a “administração estratégica” do comércio exterior. Essa arquitetura institucional não apenas assegurou excepcionais taxas de investimento e acumulação de capital como também ensejou programas de “graduação” tecnológica.
A crise que hoje machuca a economia brasileira é, sobretudo, uma crise de inteligência estratégica. Bolsonaro, Paulo Guedes e seus “seguidores”, dentro e fora do governo, empenham-se na desconstrução do arcabouço institucional que sustentou o desenvolvimento do País ao longo de cinco décadas. Desde os anos 30 do século passado, a trajetória da nossa economia confirma que a coordenação do Estado é crucial para a obtenção de taxas de crescimento elevadas.
Os dados de Rodrigo Orair demonstram claramente o protagonismo do investimento público no longo ciclo de expansão entre 1950 e 1979. Não por acaso, as taxas de crescimento do período suplantam significativamente aquelas obtidas na etapas recentes.
O Brasil ocupava, então, a liderança no torneio mundial do crescimento amparado em um processo de industrialização que avançou para dotar o País de uma estrutura produtiva diversificada e moderna. Pindorama era a nação mais industrializada entre os ditos “emergentes”.
Descontada a década perdida dos anos 1980, submetida às agruras da crise da dívida externa, o desenvolvimento posterior foi modesto. O primeiro ciclo, o dos anos 1990, moveu-se no território do baixo dinamismo e da regressão da estrutura industrial. Esvaiu-se no colapso cambial de 1999. O segundo ciclo, apoiado no projeto de inclusão social e expansão do mercado interno, foi sustentado pelos preços das commodities, mas fragilizado pela valorização cambial. Sobreviveu bravamente à crise global de 2008. Perdeu forças nos anos que antecederam à crise de 2015, deflagrada pelo ajuste reclamado pela turma da bufunfa e executado pela dupla Rousseff-Levy.
Desde então, o debate brasileiro trilhou os caminhos das simplificações binárias. Inspirados no filme Querida, Encolhi as Crianças, não são poucos aqueles que recomendam “encolher o Estado”. Cortar, desmobilizar e privatizar são os verbos mais conjugados nos gabinetes dos palácios e da finança. A secretaria que cuida das Privatizações ostenta também a alcunha de Desinvestimentos.
Vamos olhar para a frente: a integração às cadeias globais vai certamente exigir políticas distintas daquelas executadas nos anos do nacional-desenvolvimentismo. A ênfase, agora, deve ser colocada na busca da construção de vantagens dinâmicas apoiadas em programas de inovação, sobretudo os articulados ao agronegócio, às novas fontes de energia, à infraestrutura e às grandes demandas sociais, como educação, saúde, mobilidade urbana e segurança.

Autor: Luiz Gonzaga Belluzzo

Conversar é uma arte em perigo de extinção?

Entre as muitas realizações da Internet está o cruzamento imediato de mensagens entre pessoas distantes. Paradoxalmente, isso prejudicou a comunicação verbal, entendida como troca direta de ideias.
Conversar é uma arte em perigo de extinção? Dizer que sim seria, no mínimo, controvertido, porque hoje tudo ao nosso redor está montado de maneira que nos chegam sem cessar oportunidades de interagir tanto com amigos quanto com desconhecidos. A conectividade digital permite trocar mensagens sem limite, de modo que vivemos na ilusão de estarmos imersos em uma espécie de conversa infinita. A pergunta inicial pode não parecer tão absurda se pararmos para pensar sobre o que se entende por conversa e, especialmente, o que se espera de seus participantes: a expressão de argumentos, de um lado, e escuta atenta, de outro.
Em nosso atual ambiente hipertecnificado, ambas as ações são um desafio. O primeiro exige certas doses de solidão prévia para que quem fala tenha tido a possibilidade de elaborar algo genuinamente próprio; o segundo, prestar atenção. Ou, dito de outra forma, remar contra a corrente no caudaloso rio de estímulos e interrupções pelo qual navegamos diariamente. E, além disso, dialogar não é uma troca de monólogos. Jean de La Bruyère dizia que o talento da conversa não consiste tanto em mostrar muito, mas em fazer que os outros encontrem.
Nossas vidas são baseadas em interações e a comunicação verbal é a ferramenta mais à mão para produzi-las. Ninguém discute a máxima aristotélica de que o homem é um animal social inclinado a exteriorizar opiniões e sentimentos. Portanto, o silêncio imposto implica pesar, e quando um ente querido deixa de nos dirigir a palavra, experimentamos dor.
O escritor Henry Fielding, em seu ensaio de 1743 dedicado à conversa, a definiu como a troca de ideias mediante a qual se examina a verdade e na qual cada questão é analisada a partir de diferentes pontos de vista, de modo que o conhecimento seja compartilhado. A história conheceu grandes momentos dessa arte desde que Platão observou que é a mais elevada forma de conhecimento. Muitos séculos depois se começou a perceber a relação direta entre a estabilidade política e o mundo da conversa, que David Hume descreveu como a conversa respeitosa na qual se dá e se recebe no interesse de um gozo mútuo. Para manter um intercâmbio linguístico autêntico deve-se deixar de lado a vaidade, a intransigência e o orgulho; assim, a antítese da conversa é a polarização exacerbada.
A conversa, como se desenvolveu tradicionalmente ao longo da história, tem um denominador comum: o cara a cara, o aqui e agora. E essa necessidade de nos comunicar olhando nos olhos é o que a onipresença das telas já começou a diluir, a ponto de haver quem chegou a acreditar que, com esses sucedâneos de colóquios mediados por um dispositivo, nada se perde no caminho. A tela, cabe lembrar, é não apenas uma superfície que transmite conteúdos, mas também é, em sua segunda acepção, uma separação, uma barreira ou proteção que se interpõe entre os indivíduos.
Por isso pesquisadores como Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia do MIT, alertam para a crise de empatia promovida pelos aparelhos eletrônicos, pois nos privam de ver as emoções que afloram quando duas pessoas se explicam frente a frente e em tempo real.
Além disso, conversar também é a maneira mais eficaz de criar laços afetivos. Turkle aponta em Reclaiming Conversation (Em Defesa da Conversa) que esperamos cada vez mais da tecnologia e menos das pessoas que nos rodeiam, às quais arrebatamos boa parte da nossa atenção para redirecioná-la a conteúdos alojados em outro lugar. “Sacrificamos a conversa pela mera conexão”, acrescenta, citando estudos científicos que demonstram que a simples presença de um telefone sobre a mesa, ainda que desconectado, desvirtua a atenção de todos os presentes. Outro dado preocupante: quanto mais tempo as crianças passam conectadas, menor é sua capacidade de identificar sentimentos alheios.
Nossa confiança na tecnologia para preencher os silêncios, combater o tédio e nos expressar sem o medo de nos sentirmos julgados é tanta que a indústria se esforça para desenvolver a inteligência artificial para que possamos falar com objetos em vez de pessoas.
Os robôs de conversação já são uma realidade. Hoje é possível coletar todas as mensagens e comentários de um usuário na rede para que, uma vez morto, possam ser recriados seus padrões de conversação, de modo a podermos continuar trocando mensagens com ele. Embora isso, como Alan Turing vaticinou, não deixará de ser um jogo de imitação. A tecnologia é um meio extraordinário, mas nada é capaz, adverte Turkle, de substituir uma comunicação em pessoa e os benefícios que traz. 
O sociólogo Georg Simmel, já no início do século passado, qualificou a conversa de antídoto contra a pressão e o estresse causado pela vida moderna. Recentemente, um estudo da Universidade de Chicago provou que a conversa casual entre dois estranhos em um trem ou sala de espera faz desse momento uma experiência mais agradável. Talvez, apontam seus autores, estejamos superestimando o desejo de privacidade em um planeta cada vez mais povoado. Não entender os benefícios da interação social resulta inevitavelmente em solidão, empobrecimento e falta de empatia.

Autora: Marta Rebón: Tradutora, Fotógrafa e Critica literária.