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12 de setembro de 2026

Setembro, eu me lembro!

Estar com a aparência de ter ganhado alguns quilos não significa gravidez. O corpo é mais do que uma sanfona ou receptáculo de outras vidas. O ganho de massa, nesse caso, foi por problemas hormonais, tendo o hipotireoidismo como causa principal, uma disfunção cada vez mais frequente, espalhada pelos rincões do mundo devido principalmente a questões alimentares e ambientais. Após o acidente nuclear de Chernobyl houve uma tendência de aumento de casos, mas as investigações científicas não foram conclusivas. Há que se lembrar e também saber antes de julgar. É setembro, o torneio US Open de tênis vai chegando ao fim e uma das jogadoras de minha admiração ficou pelo caminho. Fazer o quê! Ela não sabe que cogitei que estivesse grávida. Melhor assim: alimentar fantasias espúrias em meio a ignorâncias múltiplas. A ordem das coisas não segue regras humanas, isso sabemos e não aceitamos. O universo, formado por massa e energia, conspira a favor, enquanto a entropia aumenta. Aprendi isso olhando minha mesa e minha sala que se recusam a portar alguma ordem, por mínima que seja. Na confusão dos objetos busca-se a organização dos pensamentos. Em certa medida, até funciona.

Divagando menos, a primeira semana de setembro agrega aniversários de longevos jornais do interior paulista, veículos nos quais encontrei espaço para publicar artigos de opinião e outras reflexões. No dia 1. de setembro, o Diário do Rio Claro completou 140 anos de existência. O jornal deixou de ser impresso há alguns anos, mas mantém uma edição digital que reproduz o que seria uma edição impressa (https://www.j1diario.com.br/category/jornal-online/). Ednéia Silva é a editora que acolhe semanalmente meus artigos. No dia 4 foi a vez do Correio Popular, de Campinas, adentrar seu centésimo ano de existência. Quando completar este ciclo em 2027, deverá haver muita celebração pelo centenário. Comemoremos desde já, com efusivos parabéns endereçados ao Confrade da Academia Campinense de Letras, Ítalo Hamilton Barioni, que está à frente do jornal para superar todos seus desafios. Que esta 100a. volta iniciada ao redor do sol ilumine mais ainda a equipe do Correio e seus colaboradores para continuar a empreitada de noticiar a cidade com qualidade e abrangência. E no dia 9 foram inteirados os 92 anos do caçula dessa tríade: o Jornal Cidade de Rio Claro, que se mantém no formato impresso. A coluna quinzenal sobre ciência, tecnologia e educação é endereçada à editora Carla Hummel. A edição de aniversário foi recheada de homenagens, retrospectivas e planos para continuar a noticiar a cidade com o merecido destaque.

Sim, é setembro, do qual também nos lembramos dos 25 anos de duas tragédias quase simultâneas. Na noite de 10 de setembro de 2001, Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, prefeito de Campinas, foi assassinado em crime até hoje considerado não totalmente esclarecido. Na manhã do dia seguinte, as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York eram atacadas por dois aviões controlados por terroristas e desabavam. Ao mesmo tempo, o Pentágono sofria o ataque de outro avião e uma quarta aeronave, que seria jogada contra o Capitólio em Washington, caía no solo na Pensilvânia. Muitos anos antes, na mesma data de 11 de setembro (em 1973), acontecia o sangrento golpe militar no Chile. Todos acontecimentos com nefastas consequências. Mas outras efemérides são também emocionantes, contendo mais alegrias e menos tristezas. O mês de Carlos Gomes em Campinas segue com dezenas de atividades na cidade em que nasceu. Um dos destaques da primeira semana foi a palestra do presidente do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) Alcides Ladislau Acosta, que fez um emocionante depoimento de sua trajetória de vida e o despertar para o canto lírico estimulado pelo maestro campineiro. A palestra no CCLA foi ilustrada com um documentário anterior que pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=2B4OOpqDTyE. As lembranças são construídas com as memórias e devemos registrá-las, sempre. 

Autor: Professor Adilson Roberto Gonçalves – Publicado no Blog dos Três Parágrafos.

A orgia e a impunidade nacional!

 

Os políticos de partidos de extrema direita no Congresso Nacional, alguns Ministros do Supremo Tribunal Federal, algumas autoridades, alguns empresários nefastos que vivem criticando o governo, enquanto se beneficiam das isenções fiscais, transformaram Brasília e todo o andar de cima da República numa enorme orgia.

Uma orgia com tentáculos poderosos que consegue protege-los e ainda lhes dão impunidade plena. As denúncias se multiplicam, são áudios de candidato à presidência pedindo R$ 64 milhões ao então dono do Banco Master.

São áudios de deputado federal por MG, conversando com o dono do banco Master, onde demonstra tanta intimidade, que se refere a Daniel Vorcaro como “Dani”. Vejam que coisa meiga a relação entre corruptos. Ao povo desprezo ao banqueiro suspeito, o carinho e a doçura na voz melosa do deputado federal Nikolas.

Alguns jornalistas dizem que nos processos em mãos da Polícia Federal existem “ainda” vídeos alusivos às festas em resort com beldades estrangeiras, bebidas importadas e muita esbórnia. Voos em avião do banqueiro criminoso. O mesmo banqueiro que na eleição passada doou R$ 3 milhões a Jair (O presidiário) e R$ 2 milhões, ao atual governador de São Paulo, que agora concorre à reeleição.

Em comum, em todas as denúncias, estão três fatos que se repetem para nossa infelicidade:

1º Nada os atingem, por mais imoral que sejam os fatos e as denúncias, não serão investigados, julgados e condenados;

Os eleitores que diziam votar contra a corrupção, em 2014, 2018, 2022 e agora em 2026 irão dar seus votos a estes mesmos políticos corruptos enquanto recebem e espalham mentiras sobre Lulinha e o governo federal;

3º São estas pessoas do alto escalão da vida nacional que além da corrupção, querem perpetuar golpes em na nossa democracia, trair nossa pátria oferecendo riquezas aos EUA. São estes sanguessugas que não trabalham pela pátria nem pela sociedade em momento algum de seus mandatos.

A única solução para o Brasil é justamente aquela que obrigatoriamente tem de passar pelas mãos dos deputados federais e senadores, que jamais darão aval a uma reforma política completa nos três poderes da república. Começando por uma reforma política com a redução de 40% da Câmara Federal, com corte de assessores, redução de gastos e benefícios diversos aos deputados e senadores.

Enquanto isso, assistimos um enorme contingente da sociedade vivendo alheio a tudo isso e dando apoio e voto aos corruptos. Gente que acredita em mensagens disseminadas por aplicativos de mensagens espalhados pelos próprios políticos de direita, pastores e padres de suas igrejas, porém, não querem acreditar na verdade dos fatos.

 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

11 de setembro de 2026

O lixo, o Banco e os 5,26 bilhões!

 

Há uma modalidade de jornalismo muito confortável em tempos de escândalo: chega depois do Gaeco. A polícia bate à porta, aparecem mandados, prisões, celulares apreendidos, dinheiro vivo e fotografias de agentes entrando e saindo de prédios públicos. Aí começa a valentia retrospectiva. Publica-se o que já virou ocorrência, reproduz-se a nota oficial, contam-se os presos e, encerrado o expediente, todos podem dormir com a consciência profissional devidamente higienizada.

Investigar antes é mais trabalhoso.

Seguir contratos, sociedades, fundos de investimento, balanços, modelagens econômico-financeiras e relações empresariais exige uma inconveniência adicional: estudar. E é justamente por isso que a discussão sobre a Operação Cavalo de Troia não pode terminar na porta da Prefeitura de Bauru.

Faço aqui uma provocação especialmente ao economista bauruense que dispõe de espaço privilegiado na imprensa local. Onde estava a análise econômica de uma concessão estimada em R$ 5,26 bilhões por 30 anos? Convenhamos: para comentar inflação, Selic, dólar, Bolsa e as decisões tomadas a quatrocentos quilômetros daqui nunca faltam especialistas. Mas havia diante do nariz de Bauru um negócio de cinco bilhões de reais envolvendo um serviço essencial, modelagem econômico-financeira, concessão de três décadas e uma empresa com uma história societária que já passou pelo mercado financeiro — e parece que ninguém achou particularmente interessante seguir o dinheiro.

Talvez R$ 5,26 bilhões sejam uma quantia pequena demais para despertar a curiosidade econômica local.

E então chegamos ao BTG Pactual.

Antes que algum apressado transforme este artigo naquilo que ela não diz, fica registrado: não há, até aqui, evidência pública que coloque o BTG Pactual como participante ou investigado na Operação Cavalo de Troia, nem que demonstre sua participação na concorrência de Bauru. O banco aparece nesta história por outra razão, documentalmente verificável: sua relação empresarial histórica com a Estre.

Em 2011, o BTG anunciou oficialmente sua entrada no capital da Estre. Não era segredo, denúncia ou interceptação telefônica. Era negócio. O banco enxergava no gerenciamento de resíduos e no saneamento ambiental oportunidades de crescimento, consolidação e expansão. Wilson Quintella Filho comandava a Estre e saudou a chegada do investidor. Anos depois, a trajetória empresarial voltaria a aproximar Quintella de fundos ligados ao BTG em outros ativos do setor. Essa história importa porque revela algo que a cobertura policial, sozinha, jamais explicará: lixo também é ativo econômico.

E aqui começa a história verdadeiramente adulta. A montanha de sacos que o caminhão recolhe na porta de nossas casas pode parecer apenas um problema urbano. Para o mercado, entretanto, resíduos significam transporte, transbordo, tratamento, aterro, reciclagem, aproveitamento energético, tecnologia, contratos e, sobretudo, fluxos de receita projetáveis por décadas.

O lixo fede.

O fluxo de caixa, curiosamente, não. É por isso que reduzir o escândalo de Bauru a personagens presos, conversas comprometedoras ou dinheiro encontrado durante buscas seria cometer um erro jornalístico monumental. Esses elementos são relevantes e precisam ser investigados. Mas existe uma pergunta anterior a todos eles:

O que, afinal, valia tanto dinheiro? A resposta começa em R$ 5.259.651.116,06.

Era esse o valor estimado pela Prefeitura para a concessão dos serviços integrados de manejo dos resíduos sólidos urbanos. Trinta anos. Uma geração inteira de bauruenses atravessaria o contrato.

Agora observemos o que o Gaeco afirma investigar. A hipótese da Operação Cavalo de Troia não se resume à possibilidade de alguém ter aparecido no final de uma licitação carregando uma proposta favorecida. A suspeita é muito mais sofisticada: interesses privados teriam conseguido influência dentro da própria estrutura administrativa responsável pela construção da concessão.

Se isso for comprovado — e esse “se” é indispensável num Estado de Direito — estaremos diante de algo muito mais grave do que a caricatura clássica da licitação fraudada. Não seria simplesmente alguém entrando numa disputa preparada pelo poder público.

Seria a possibilidade de o interessado participar, direta ou indiretamente, da construção do próprio terreno em que depois ocorreria a disputa. É a diferença entre ganhar o jogo e ajudar a desenhar o campo. E então a expressão “Cavalo de Troia” deixa de ser apenas um nome engenhoso inventado por promotores.

Passa a descrever uma hipótese de captura da modelagem administrativa. Há uma ironia quase literária nisso tudo. Bauru discutia modernização do lixo enquanto talvez devesse ter discutido primeiro a modernização dos seus mecanismos de controle. Porque compliance que só descobre o problema depois que o Gaeco acorda cedo e toca a campainha não é exatamente compliance.

É arqueologia administrativa.

Também é preciso abandonar uma simplificação tentadora: dizer que “o BTG está por trás de Bauru”. Não temos evidência disso. E este jornalista não precisa inventar uma conspiração para produzir uma acusação politicamente devastadora.

A história verdadeira já é suficientemente incômoda.

O que a trajetória da Estre demonstra é como o setor de resíduos foi incorporado há muito tempo à lógica das grandes operações de capital. O investimento histórico do BTG na companhia ajuda a documentar essa transformação. Não prova qualquer participação do banco no episódio bauruense. Mostra algo estruturalmente mais interessante: o lixo deixou de ser simplesmente uma despesa municipal e passou a integrar uma indústria disputada por grandes empresas e investidores.

Portanto, talvez a pergunta que a imprensa local devesse ter feito antes de o Ministério Público fazê-la por outros caminhos fosse muito simples: quem ganharia dinheiro com os próximos trinta anos do lixo de Bauru?

Depois viria a segunda: quanto?

A terceira: quem desenhou o negócio?

A quarta: quem conferiu o desenho?

E finalmente aquela pergunta desagradável que costuma separar jornalismo de assessoria de imprensa: quem estava fiscalizando tudo isso enquanto acontecia?

Não se trata de demonizar investimento privado. Capital privado não é sinônimo de corrupção, concessão não é sinônimo de negociata e banco não é organização criminosa por definição. Essa bobagem ideológica só serviria para facilitar a defesa de quem precisa responder às perguntas sérias.

O problema é outro. Quando o poder público transforma um serviço essencial em uma concessão de R$ 5,26 bilhões, não está apenas contratando caminhões para recolher sacos pretos nas calçadas. Está criando um ativo econômico de trinta anos. E se a hipótese do Gaeco estiver correta, a grande questão de Bauru será descobrir se esse ativo foi desenhado exclusivamente segundo o interesse público ou se interesses privados conseguiram participar da sua construção por dentro da máquina municipal.

É aí que dinheiro, política e lixo finalmente aparecem na mesma fotografia. O Cavalo de Troia pode até ter sido construído com resíduos. Mas o que havia dentro dele valia bilhões. E talvez seja exatamente por isso que, daqui para frente, contar os presos seja a parte mais fácil da reportagem.

Difícil será seguir o dinheiro.

Autor: Fernando Redondo - Jornalismo Independente.

O Master e a República

 

Há dois anos, a Piauí publicou sua primeira reportagem sobre o Banco Master. Àquela altura, a instituição criada por Daniel Vorcaro era pouco conhecida fora do mercado financeiro, mas já suscitava desconfianças. Seus métodos eram agressivos, suas promessas de rendimento extrapolavam em muito o padrão da concorrência, sua estrutura societária era opaca. Não por acaso, a reportagem foi intitulada Alta tensão. O texto de Consuelo Dieguez teve grande repercussão no mercado e, desde então, a tensão só cresceu. O que antes eram apenas suspeitas se confirmaram como uma fraude sistemática e bilionária, que deflagrou o maior escândalo bancário da história recente do Brasil.

O Master foi liquidado em novembro de 2025, e Vorcaro hoje está preso no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. A trama, porém, está longe do fim. A investigação conduzida pela Polícia Federal revelou, que no entorno do banqueiro, gravitaram figuras poderosas da República, entre elas deputados, senadores, ex-governadores e ministros do Supremo Tribunal Federal. Alguns são suspeitos de colaborar com a fraude. Outros, de receber favores para proteger os interesses do banco e abafar a crise. A lista de investigados cresce a cada dia. Nesta página especial, apresentamos alguns dos protagonistas dessa história. São figuras que passaram pelas páginas da Piauí e ajudam a entender o tamanho do escândalo.

“Estou e estarei contigo sempre”

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse essas palavras a Daniel Vorcaro. A conversa foi revelada em maio pelo Intercept Brasil, numa reportagem que mostrou como o senador, hoje candidato a presidente, pediu milhões de dólares ao banqueiro para financiar o filme Dark Horse, uma cinebiografia sobre seu pai. A quantia é de fazer inveja a filmes premiados internacionalmente: 24 milhões de dólares. Desde que a notícia veio à tona, Flávio caiu numa sequência de contradições, como mostrou a Piauí. Primeiro, negou que Vorcaro tivesse financiado o filme – e foi pego na mentira. Depois admitiu que ele havia financiado, sim, mas que não havia como saber das fraudes do Master na época – o que também não é verdade, já que elas eram notórias desde o final de 2024. Flávio também omitiu o fato de ter visitado Vorcaro quando o banqueiro já estava em prisão domiciliar, em 2025. Ao ser descoberto, saiu pela tangente: disse que foi até a casa dele para “botar um ponto final” nas tratativas sobre o filme.

Por que Flávio escondeu todas essas informações? E que fim tiveram os milhões de dólares transferidos por Vorcaro? São perguntas que norteiam a investigação da Polícia Federal. Nesta semana, a reportagem em cartaz, a caixa-preta, publicada pela Piauí, engrossou o caldo. Ela mostra, com base em um relatório do Coaf e em mensagens obtidas no celular de Vorcaro, que a relação financeira entre os dois foi maior – e mais duradoura – do que Flávio havia admitido.

“Um dos meus grandes amigos de vida”

Assim Daniel Vorcaro se referiu ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, em uma mensagem obtida pela Polícia Federal. A foto acima, revelada pela Piauí, mostra o grau de intimidade entre os dois, que posam abraçados numa viagem à estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses. A reportagem O amigo do crime, publicada pela Piauí em junho, detalha o envolvimento de Ciro com o Master – uma trama que, segundo a investigação, envolve mesadas de 300 mil reais, transações suspeitas, favores imobiliários, viagens luxuosas e farras gastronômicas.

A hipótese dos investigadores é que Ciro recebia esses benefícios como contrapartida por defender os interesses do Master no Congresso. Não faltam evidências de que ele o tenha feito. O maior exemplo disso é uma emenda parlamentar que propôs aumentar de 250 mil para 1 milhão de reais o limite de cobertura para investidores em caso de quebra da instituição financeira. A proposta de Ciro atendia de modo tão flagrante os interesses de Vorcaro que ganhou o apelido de “Emenda Master”. Segundo a PF, o projeto foi redigido pela assessoria do próprio banco. Por essas e outras, o senador foi alvo de uma operação de busca e apreensão em maio. Ele nega ter cometido qualquer crime.

“O cara do Vorcaro”

Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro, foi definido nessas palavras por um político que conversou com a Piauí sob condição de anonimato. O epíteto tem motivo de ser: Faria foi um dos mais importantes interlocutores de Daniel Vorcaro na política, intermediando o contato do banqueiro com parlamentares e ministros do STF. Mas não só isso: foi também seu parceiro de negócios. Em 2024, Vorcaro comprou do ex-ministro, por 67,5 milhões de reais, um projeto de energia eólica que até hoje não saiu do papel. Especialistas do setor estimam que a usina valia, no cenário mais otimista, cerca de 13 milhões de reais. Nenhum dos dois foi capaz de explicar, até hoje, o motivo para o valor ter sido tão alto.

Essa história é contada em detalhes na reportagem Fábio Faria, “o cara do Vorcaro”, publicada em agosto pela Piauí. A apuração mostra como os dois se aproximaram e, juntos, percorreram gabinetes de parlamentares e ministros em Brasília. Três fontes ouvidas pela Piauí afirmam que foi Faria quem apresentou Vorcaro a Alexandre de Moraes. Hoje, a relação entre o ex-banqueiro e o ministro do STF está no centro do escândalo do Master e continua a se desdobrar.

“Uma dívida de vida”

Vorcaro resumiu assim sua relação com Alexandre de Moraes, em uma mensagem que enviou ao ministro em novembro de 2025, pouco antes de ser preso pela Polícia Federal. Os primeiros indícios de que Moraes tinha relação com Vorcaro vieram à tona no mês seguinte, quando o jornal O Globo revelou que o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, tinha assinado um contrato de três anos com o Master por 129 milhões de reais – o equivalente a 3,6 milhões por mês, honorário mais que generoso.

O conflito de interesses, flagrante nesse caso, inspirou o título do artigo 129 milhões de aberrações, escrito pelo professor de direito da USP Rafael Maffei e publicado na Piauí. Inspirou, também, o texto Dr. Moraes and Mr. Barci, de Fernando de Barros e Silva, sobre os métodos questionáveis do magistrado, publicado na edição de março deste ano da Piauí. A situação, depois disso, se agravou ainda mais. Nesta semana, o jornal Estado de S. Paulo revelou que Moraes esteve com Vorcaro ao menos seis vezes entre novembro de 2024 e agosto de 2025. A troca de mensagens é ainda pior: mostra que o ministro editou o contrato de 129 milhões do escritório de sua mulher e opinou na lista de convidados de eventos do Master. Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda tenho que estar fora?” Não se sabe o que o ministro respondeu ao banqueiro.

O que se sabe é que o assunto influenciará a campanha eleitoral deste ano. No texto Voltei, mané, publicado na edição de abril deste ano da Piauí, Fernando de Barros e Silva alertou para o impacto que as revelações do Master podem causar nas eleições. Já no artigo: No ritmo da Justiça, publicado esta semana na Piauí, Maffei analisa a conjuntura e tenta dimensionar o tamanho da crise institucional no STF. “O Supremo e o Brasil têm agora apenas duas alternativas ideais: ou bem se esclarece, em apuração exaustiva, que tudo não passa de um grande mal-entendido; ou a permanência de Moraes no STF será, por muito tempo, um fardo pesado para a respeitabilidade e a legitimidade do tribunal.”

O ministro do resort

A teia de negócios de Vorcaro com poderosos da República, descrita na reportagem A contaminação, publicada pela piauí em fevereiro de 2026, envolveu também Dias Toffoli. No ano passado, veio à tona que o ministro do STF havia pegado carona no jatinho de um diretor do Master. Em seguida, ele foi sorteado relator do inquérito que apura as fraudes do banco – e, daí em diante, deu motivos de sobra para ser contestado. Puxou para o Supremo toda a investigação do caso, alegando a ocorrência de foro privilegiado – embora, na época, o inquérito fizesse apenas menção lateral a um deputado. Depois, decretou segredo de Justiça e impediu que a Polícia Federal fizesse a perícia do material que já havia apreendido – decisão posteriormente revogada.

O que se descobriu depois deixou a situação ainda mais embaraçosa para Toffoli. Um primo e dois irmãos seus compraram parte do resort Tayayá, no Paraná, com financiamento do fundo Arleen, que tinha como principal cotista Fabiano Zettel, o cunhado de Vorcaro. As conexões pouco republicanas do ministro inspiraram o artigo Togados do Tayayá, de Fernando de Barros e Silva, publicado na edição de fevereiro deste ano da Piauí. Diante das evidências de conflito de interesses que se acumulavam, e da resistência de Toffoli em se declarar suspeito, os ministros do STF se reuniram e concordaram em fazer uma gambiarra: não declararam a suspeição de Toffoli, mas, em nome do “bom andamento dos processos” e dos “altos interesses institucionais”, decidiram sortear um novo relator – que veio a ser André Mendonça. O remendo, a que o professor de direito Rafael Maffei chamou de Solução Toffoli, esfriou as críticas ao ministro, que desde então saiu dos holofotes. Mas não foi suficiente para debelar a crise no STF. 

A conexão baiana

Embora protagonizado por políticos da direita e do Centrão, o escândalo do Master também fustigou o governo Lula. Em junho deste ano, o senador Jaques Wagner (PT-BA) foi alvo de mandados de busca e apreensão por suspeita de ter beneficiado o Master. Segundo a investigação, Jaques Wagner recebeu de gestores do banco um apartamento de 2,4 milhões de reais em Salvador e repasses de 3,5 milhões para uma empresa de sua família. A Polícia Federal tenta descobrir se o senador ofereceu alguma contrapartida.

O que está cristalino é que Jaques Wagner tinha uma relação próxima com o empresário Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro e está enrolado até o pescoço na fraude do Master. Na reportagem A armadilha, publicada em julho, a Piauí mostrou que a relação dos dois remonta a 2018. Na época, ocupando o cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, Jaques Wagner permitiu que Lima operasse um cartão de crédito consignado chamado CredCesta, voltado para servidores do estado. E mais: que o fizesse com exclusividade, sem concorrentes. O CredCesta, com isso, se tornou uma mina de ouro – e atraiu o apetite de Vorcaro, que comprou uma parte da operação e chegou a operar o cartão em 24 estados. Essa foi uma etapa fundamental para o crescimento do Master, mas deixou muitos servidores baianos na penúria.

O governador benevolente

Em março do ano passado, quando já dava sinais públicos de sua bancarrota, Daniel Vorcaro tentou salvar o Master com uma negociação ousada: queria vender ativos do banco ao BRB, o Banco de Brasília. A transação, que previa um pagamento de 2 bilhões de reais por 58% das ações do Master, intrigou analistas do mercado financeiro e do Banco Central, como mostrou a reportagem O salvamento, publicada em abril de 2025 pela Piauí.

No centro da negociação estava o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). O que já era estranho ficou ainda pior quando se descobriu que o BRB e o Master já haviam feito uma outra operação peculiar, em que o banco estatal pagou 12,2 bilhões de reais por carteiras de crédito inexistentes. Sob o escrutínio do Banco Central, o cerco rapidamente se fechou. A operação para salvar o Master não foi para frente, e Vorcaro, que já era investigado de perto pela Polícia Federal, foi parar na prisão. Em dezembro passado, ao depor em um dos inquéritos, o ex-banqueiro admitiu que tratou da negociação Master BRB com Ibaneis, que negou. O ex-governador diz que esteve com Vorcaro quatro vezes, mas que nunca tocaram no assunto. A reportagem A contaminação, da Piauí, mostra como a benevolência de Ibaneis abriu um rombo nas contas do BRB. 

Autor: Dossiê da Revista Piauí. Publicado na Revista Piauí.