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24 de maio de 2026

O que é roubar um banco diante de uma fraude cinematográfica?

Só Brecht explica a entrega de R$ 61 milhões do Master de Vorcaro ao pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL).

O que é roubar um banco diante de fundar um banco?

Reciclo a pergunta famosa do dramaturgo Bertolt Brecht, na peça “A Ópera dos Três Vinténs”, para entender a generosidade do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao entregar R$ 61 milhões (de R$ 134 milhões prometidos) ao filme da família Bolsonaro.

O que é receber essa grana toda, provavelmente resultado de roubo do Master, sem sequer perguntar a origem?

Por que esconder isso de todo mundo, inclusive dos correligionários políticos, e só assumir diante do flagrante delito do “The Intercept Brasil”?

O que é roubar quem fundou um banco sob o pretexto artístico do cinema?

Essa é para dar um nó no cabeçudo sr. Bertolt.

O que é enganar o Mecenas diante de fundar um banco que engoliu até dinheiro de Previdência?

O pobre ladrão da peça de Brecht, o Jack Navalha, ficaria ruborizado. Por que não pensou nisso antes: um roubo cinematográfico sem precisar gastar uma bala da agulha.

Será arte?

Por que o dinheiro que Vorcaro deu ao pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) teve que passar por um fundo de investimentos lá do Texas e voltar para uma produtora de São Paulo?

Sobre essa parte do mistério, aliás, quem entende de cinema no Brasil, como o diretor Kleber Mendonça Filho (“O Agente Secreto”), trouxe uma bela curiosidade:

“Fundo Heaven’s Gate”, me chamou a atenção esse título. “Heaven’s Gate” (O Portal do Paraíso) é o título do filme de Michael Cimino (Oscar por The Deer Hunter) lançado em 1980 e que na época foi um dos filmes mais caros feitos até então em Hollywood. Tornou-se o maior desastre financeiro da história de Hollywood e faliu o estúdio United Artists. É uma coincidência insólita abrir um fundo para administrar o dinheiro de um filme brasileiro nos EUA e chamá-lo de “Heaven’s Gate”, um marco (financeiro) negativo na história do cinema”.

O que é um candidato sem saída diante de um fundador de um banco liquidado? 

Autor: Xico Sá - Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Grupo Abril e Comunique-se. Participou de programas como Notícias MTV, Cartão Verde (Cultura), Redação SporTV, Papo de Segunda (GNT) e Amor & Sexo (Globo).

20 de maio de 2026

Neymar sempre estraga meu humor!

  

Foto de Lucas Figueiredo da CBF. 

Enquanto o futebol brasileiro tenta reencontrar grandeza, Neymar reaparece como símbolo de decadência, narcisismo e permanente distração da seleção.

Carlo Ancelotti anunciou nesta segunda-feira os 26 convocados da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2026.

Ouvi a lista com a autoridade futebolística de quem seria incapaz de distinguir um esquema tático de uma planta hidráulica. Entendo de futebol tanto quanto entendo de meteorologia no Tibete ou de mineração lunar. Habito o pré-sal da ignorância futebolística. Sou um torcedor de Copa do Mundo. Apenas isso.

Mas existe uma razão para essa fidelidade emocional.

México, 1970.

Aquela seleção não apenas venceu. Encantou o planeta. Pelé, Tostão, Rivellino, Carlos Alberto Torres, Gerson, Piazza, Félix e Jairzinho jogavam como quem parecia ter descoberto um segredo reservado apenas aos brasileiros. O futebol ali possuía leveza, inteligência e uma alegria ofensiva que humilhava adversários sem precisar recorrer à violência ou à encenação.

Aquilo ficou gravado na memória da minha geração como uma espécie de patrimônio afetivo.

Depois veio 1982.

E talvez nenhuma seleção derrotada tenha sido tão amada quanto aquela. Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior e Éder jogavam futebol como artistas que desprezavam o medo. Havia arte com a bola, inteligência e ousadia em campo.

Éder chutava de longe como quem tentava derrubar paredes invisíveis. Até hoje considero aquela derrota para a Itália uma das maiores injustiças da história das Copas.

Desde então, assisto à seleção brasileira com o sentimento de quem procura antigos moradores numa cidade que mudou demais. Ancelotti convocou Alisson, Ederson, Marquinhos, Casemiro, Bruno Guimarães, Vinícius Júnior, Raphinha, Endrick, Neymar e outros nomes já esperados.

Foi exatamente no momento em que ouvi o nome de Neymar que desliguei a televisão.

Cansei.

Neymar se transformou numa espécie de usina permanente de desgaste emocional da seleção brasileira. Cai mais do que joga. Reclama mais do que produz. Encena faltas como quem participa de um teste para novela ruim das nove. Mas está seguro de que a emissora pretende ficar com ele.

Nunca consegui admirar jogadores fascinados pelo próprio espelho.

Neymar envelheceu como personagem antes de envelhecer completamente como atleta. Tornou-se prisioneiro de uma caricatura construída por contratos milionários, publicidade excessiva, celebridades vazias, penteados performáticos e uma necessidade quase patológica de permanecer no centro dos holofotes.

Existe algo de muito decadente nessa insistência.

A entrada de Neymar nessa seleção, faltando tão pouco para a Copa, me lembra uma comida preparada com cuidado durante horas, cheia de aroma, equilíbrio e tempero certo — até surgir alguém carregando um pote inteiro de sal e despejá-lo dentro da panela.

Estraga tudo. Ou quase tudo.

O problema nunca foi apenas o futebol de Neymar. Foi tudo aquilo que veio grudado nele como ferrugem emocional: o narcisismo, o teatro permanente, a infantilização reincidente, o excesso de ego e a sensação cansativa de que a seleção brasileira passou anos orbitando um único jogador que jamais conseguiu carregar sozinho metade do peso histórico da camisa que vestia. 

Autor: Washington Araújo – Publicado na Revista Forum.

19 de maio de 2026

Precisamos falar sobre ingressos.

 

E talvez esse seja um dos assuntos mais frustrantes para quem ama música hoje. A gente vive em um país onde o salário já nasce morto. Aluguel, comida, transporte, contas e a sobrevivência básica. Quase tudo o que ganhamos desaparece antes mesmo da gente pensar em viver de verdade.

E viver custa.

Os Titãs já cantavam em “Diversão” que a gente não quer só comida. A gente quer arte, cultura, saída, cinema e música. A gente quer aquilo que faz a vida parecer mais humana.

Só que isso ficou caro.

Muito caro.

Hoje, o melhor cenário para ver uma banda que você ama talvez seja pagar 400 reais numa cadeira longe do palco. Só o ingresso. Quando entram taxas, conveniências, serviços e todo o resto, aquilo vira 600, 700 reais facilmente. E detalhe: nem ingresso físico existe mais. Você recebe um QR Code no celular e ainda assim paga uma taxa “de serviço”.

Aí você pensa:

“Tudo bem, vou me organizar.”

Mas não acabou.

Se você não mora em São Paulo, precisa colocar transporte, hotel, alimentação. Dependendo da cidade, isso adiciona mais 300, 500 ou mil reais na conta.

E, de repente, viver a sua paixão virou um privilégio. O problema é que música nunca foi privilégio. Só que existe outra camada nisso tudo: o capitalismo entendeu que paixão vende.

E vende muito. Então ele aprendeu a transformar afeto em produto premium.

Você não compra apenas um ingresso. Você compra pertencimento. Você compra experiência. Você compra a sensação de estar participando de algo “imperdível”.

E aí entra um fenômeno que piorou tudo nos últimos anos: a obrigação de aparecer.

Muita gente não vai mais a um show porque ama profundamente aquela banda. Vai porque precisa mostrar que estava lá. Hoje os shows deixaram de ser apenas encontros entre fãs e artistas. Eles viraram ambientes de performance social.

E isso encarece tudo. Patrocinadores entram.

Marcas entram. Influenciadores entram.

E muitas vezes o fã sai. Porque enquanto alguém ganha convite VIP para produzir conteúdo, o garoto ou a garota que acompanha aquela banda há 15 anos simplesmente não consegue pagar. Veja qualquer anúncio de show hoje. Nos comentários, você encontra dois grupos muito claros: os que dizem “já garanti o meu” que na maioria das vezes são influencers e os que escrevem “infelizmente não vou conseguir ir”.

Essa palavra aparece o tempo inteiro:

infelizmente. E isso dói.

Porque o fã de verdade não quer apenas consumir um evento. Ele quer viver algo emocionalmente importante. O problema é que a indústria descobriu que emoção também pode ser explorada financeiramente. E talvez o melhor exemplo disso seja a Taylor Swift. Em qualquer show dela você verá dezenas de influenciadores dizendo que aquilo é “imperdível”, “transformador”, “o evento do ano”. E talvez seja mesmo.

Mas quem ama a Taylor Swift de verdade, quem compra disco, acompanha entrevistas, sabe letras e construiu memória afetiva com aquelas músicas, muitas vezes fica de fora porque simplesmente não consegue pagar.

Então o desejo vira desespero. E o desespero movimenta o mercado. Se hoje o ingresso custa mil reais, amanhã custará dois. Porque alguém vai parcelar. Porque alguém vai se endividar. Porque paixão não funciona racionalmente.

E isso está começando a explodir até nos Estados Unidos. Existe um termo sendo usado lá chamado “blue wave”: mapas inteiros de shows cheios de assentos azuis, vazios. Não porque as pessoas deixaram de gostar de música. Mas porque elas simplesmente não conseguem mais pagar.

E talvez este seja o limite do modelo atual. Durante anos, duas ou três grandes corporações passaram a controlar praticamente toda a experiência de shows ao vivo. Empresas como Live Nation e Ticketmaster transformaram música em uma máquina gigantesca de monetização emocional.

Tudo ficou maior. Mais caro. Mais exclusivo. Mais inacessível.

E o público começou a ficar do lado de fora. Eu queria terminar este texto com esperança.

Queria dizer que existe uma solução simples. Que basta reclamar, protestar ou parar de comprar. Mas eu sei que não é tão fácil. Porque paixão não funciona como lógica econômica.

Quando o artista que você ama anuncia um show, você não pensa como consumidor. Você pensa como alguém tentando viver algo que te movimenta por dentro. Talvez a única saída possível hoje seja filtrar.

Escolher com cuidado.

Entender quais artistas realmente fazem sentido para você. Guardar energia, emocional e financeira, para aquilo que realmente importa. É triste dizer isso.

Mas talvez seja o único jeito de continuar vivendo a música sem deixar que ela destrua financeiramente quem ama ela de verdade. 

Autor: Rodrigo Moia – Publicado no Site Medium.com