Há dois
anos, a Piauí publicou sua primeira reportagem sobre o Banco Master.
Àquela altura, a instituição criada por Daniel Vorcaro era pouco conhecida fora
do mercado financeiro, mas já suscitava desconfianças. Seus métodos eram
agressivos, suas promessas de rendimento extrapolavam em muito o padrão da
concorrência, sua estrutura societária era opaca. Não por acaso, a reportagem
foi intitulada Alta tensão. O texto de Consuelo Dieguez teve grande
repercussão no mercado e, desde então, a tensão só cresceu. O que antes eram
apenas suspeitas se confirmaram como uma fraude sistemática e bilionária, que
deflagrou o maior escândalo bancário da história recente do Brasil.
O Master
foi liquidado em novembro de 2025, e Vorcaro hoje está preso no Complexo
Penitenciário da Papuda, em Brasília. A trama, porém, está longe do fim. A
investigação conduzida pela Polícia Federal revelou, que no entorno do
banqueiro, gravitaram figuras poderosas da República, entre elas deputados,
senadores, ex-governadores e ministros do Supremo Tribunal Federal. Alguns são
suspeitos de colaborar com a fraude. Outros, de receber favores para proteger
os interesses do banco e abafar a crise. A lista de investigados cresce a cada
dia. Nesta
página especial, apresentamos alguns dos protagonistas dessa história. São
figuras que passaram pelas páginas da Piauí e ajudam a entender o
tamanho do escândalo.
“Estou
e estarei contigo sempre”
Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) disse essas palavras a Daniel Vorcaro. A conversa foi
revelada em maio pelo Intercept Brasil, numa reportagem que mostrou como o
senador, hoje candidato a presidente, pediu milhões de dólares ao banqueiro
para financiar o filme Dark Horse, uma cinebiografia sobre seu pai. A
quantia é de fazer inveja a filmes premiados internacionalmente: 24 milhões de
dólares. Desde que a notícia veio à tona, Flávio caiu numa sequência de
contradições, como mostrou a Piauí. Primeiro, negou que Vorcaro tivesse
financiado o filme – e foi pego na mentira. Depois admitiu que ele havia
financiado, sim, mas que não havia como saber das fraudes do Master na época –
o que também não é verdade, já que elas eram notórias desde o final de 2024.
Flávio também omitiu o fato de ter visitado Vorcaro quando o banqueiro já
estava em prisão domiciliar, em 2025. Ao ser descoberto, saiu pela tangente:
disse que foi até a casa dele para “botar um ponto final” nas tratativas sobre
o filme.
Por que
Flávio escondeu todas essas informações? E que fim tiveram os milhões de
dólares transferidos por Vorcaro? São perguntas que norteiam a investigação da
Polícia Federal. Nesta semana, a reportagem em cartaz, a caixa-preta,
publicada pela Piauí, engrossou o caldo. Ela mostra, com base em um
relatório do Coaf e em mensagens obtidas no celular de Vorcaro, que a relação
financeira entre os dois foi maior – e mais duradoura – do que Flávio havia
admitido.
“Um
dos meus grandes amigos de vida”
Assim
Daniel Vorcaro se referiu ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa
Civil de Bolsonaro, em uma mensagem obtida pela Polícia Federal. A foto acima,
revelada pela Piauí, mostra o grau de intimidade entre os dois, que
posam abraçados numa viagem à estação de esqui de Courchevel, nos Alpes
franceses. A reportagem O amigo do crime, publicada pela Piauí em junho,
detalha o envolvimento de Ciro com o Master – uma trama que, segundo a
investigação, envolve mesadas de 300 mil reais, transações suspeitas, favores
imobiliários, viagens luxuosas e farras gastronômicas.
A
hipótese dos investigadores é que Ciro recebia esses benefícios como
contrapartida por defender os interesses do Master no Congresso. Não faltam
evidências de que ele o tenha feito. O maior exemplo disso é uma emenda
parlamentar que propôs aumentar de 250 mil para 1 milhão de reais o limite de
cobertura para investidores em caso de quebra da instituição financeira. A
proposta de Ciro atendia de modo tão flagrante os interesses de Vorcaro que
ganhou o apelido de “Emenda Master”. Segundo a PF, o projeto foi redigido pela
assessoria do próprio banco. Por essas e outras, o senador foi alvo de uma
operação de busca e apreensão em maio. Ele nega ter cometido qualquer crime.
“O
cara do Vorcaro”
Fábio
Faria, ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro, foi definido nessas palavras
por um político que conversou com a Piauí sob condição de anonimato. O
epíteto tem motivo de ser: Faria foi um dos mais importantes interlocutores de
Daniel Vorcaro na política, intermediando o contato do banqueiro com
parlamentares e ministros do STF. Mas não só isso: foi também seu parceiro de
negócios. Em 2024, Vorcaro comprou do ex-ministro, por 67,5 milhões de reais,
um projeto de energia eólica que até hoje não saiu do papel. Especialistas do
setor estimam que a usina valia, no cenário mais otimista, cerca de 13 milhões
de reais. Nenhum dos dois foi capaz de explicar, até hoje, o motivo para o
valor ter sido tão alto.
Essa
história é contada em detalhes na reportagem Fábio Faria, “o cara do
Vorcaro”, publicada em agosto pela Piauí. A apuração mostra como os
dois se aproximaram e, juntos, percorreram gabinetes de parlamentares e
ministros em Brasília. Três fontes ouvidas pela Piauí afirmam que foi
Faria quem apresentou Vorcaro a Alexandre de Moraes. Hoje, a relação entre o
ex-banqueiro e o ministro do STF está no centro do escândalo do Master e
continua a se desdobrar.
“Uma
dívida de vida”
Vorcaro
resumiu assim sua relação com Alexandre de Moraes, em uma mensagem que enviou
ao ministro em novembro de 2025, pouco antes de ser preso pela Polícia Federal.
Os primeiros indícios de que Moraes tinha relação com Vorcaro vieram à tona no
mês seguinte, quando o jornal O Globo revelou que o escritório de
advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, tinha assinado um contrato de
três anos com o Master por 129 milhões de reais – o equivalente a 3,6 milhões
por mês, honorário mais que generoso.
O
conflito de interesses, flagrante nesse caso, inspirou o título do artigo 129
milhões de aberrações, escrito pelo professor de direito da USP Rafael
Maffei e publicado na Piauí. Inspirou, também, o texto Dr. Moraes and
Mr. Barci, de Fernando de Barros e Silva, sobre os métodos questionáveis do
magistrado, publicado na edição de março deste ano da Piauí. A situação,
depois disso, se agravou ainda mais. Nesta semana, o jornal Estado de S.
Paulo revelou que Moraes esteve com Vorcaro ao menos seis vezes entre
novembro de 2024 e agosto de 2025. A troca de mensagens é ainda pior: mostra
que o ministro editou o contrato de 129 milhões do escritório de sua mulher e
opinou na lista de convidados de eventos do Master. Dois dias antes de ser
preso, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda tenho que estar fora?” Não
se sabe o que o ministro respondeu ao banqueiro.
O que se
sabe é que o assunto influenciará a campanha eleitoral deste ano. No texto
Voltei, mané, publicado na edição de abril deste ano da Piauí,
Fernando de Barros e Silva alertou para o impacto que as revelações do Master
podem causar nas eleições. Já no artigo: No ritmo da Justiça, publicado
esta semana na Piauí, Maffei analisa a conjuntura e tenta dimensionar o
tamanho da crise institucional no STF. “O Supremo e o Brasil têm agora apenas
duas alternativas ideais: ou bem se esclarece, em apuração exaustiva, que tudo
não passa de um grande mal-entendido; ou a permanência de Moraes no STF será,
por muito tempo, um fardo pesado para a respeitabilidade e a legitimidade do
tribunal.”
O
ministro do resort
A teia de
negócios de Vorcaro com poderosos da República, descrita na reportagem A
contaminação,
publicada pela piauí em fevereiro de 2026, envolveu também
Dias Toffoli. No ano passado, veio à tona que o ministro do STF havia pegado
carona no jatinho de um diretor do Master. Em seguida, ele foi sorteado relator
do inquérito que apura as fraudes do banco – e, daí em diante, deu motivos de
sobra para ser contestado. Puxou para o Supremo toda a investigação do caso,
alegando a ocorrência de foro privilegiado – embora, na época, o inquérito
fizesse apenas menção lateral a um deputado. Depois, decretou segredo de
Justiça e impediu que a Polícia Federal fizesse a perícia do material que já
havia apreendido – decisão posteriormente revogada.
O que se
descobriu depois deixou a situação ainda mais embaraçosa para Toffoli. Um primo
e dois irmãos seus compraram parte do resort Tayayá, no Paraná, com
financiamento do fundo Arleen, que tinha como principal cotista Fabiano Zettel,
o cunhado de Vorcaro. As conexões pouco republicanas do ministro inspiraram o
artigo Togados do Tayayá, de Fernando de Barros e Silva, publicado na
edição de fevereiro deste ano da Piauí. Diante das evidências de
conflito de interesses que se acumulavam, e da resistência de Toffoli em se
declarar suspeito, os ministros do STF se reuniram e concordaram em fazer uma
gambiarra: não declararam a suspeição de Toffoli, mas, em nome do “bom
andamento dos processos” e dos “altos interesses institucionais”, decidiram
sortear um novo relator – que veio a ser André Mendonça. O remendo, a que o
professor de direito Rafael Maffei chamou de Solução Toffoli, esfriou as
críticas ao ministro, que desde então saiu dos holofotes. Mas não foi
suficiente para debelar a crise no STF.
A
conexão baiana
Embora
protagonizado por políticos da direita e do Centrão, o escândalo do Master
também fustigou o governo Lula. Em junho deste ano, o senador Jaques Wagner
(PT-BA) foi alvo de mandados de busca e apreensão por suspeita de ter
beneficiado o Master. Segundo a investigação, Jaques Wagner recebeu de gestores
do banco um apartamento de 2,4 milhões de reais em Salvador e repasses de 3,5
milhões para uma empresa de sua família. A Polícia Federal tenta descobrir se o
senador ofereceu alguma contrapartida.
O que
está cristalino é que Jaques Wagner tinha uma relação próxima com o empresário
Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro e está enrolado até o pescoço na fraude
do Master. Na reportagem A armadilha, publicada em julho, a Piauí
mostrou que a relação dos dois remonta a 2018. Na época, ocupando o cargo de
secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, Jaques Wagner permitiu que
Lima operasse um cartão de crédito consignado chamado CredCesta, voltado para
servidores do estado. E mais: que o fizesse com exclusividade, sem
concorrentes. O CredCesta, com isso, se tornou uma mina de ouro – e atraiu o
apetite de Vorcaro, que comprou uma parte da operação e chegou a operar o
cartão em 24 estados. Essa foi uma etapa fundamental para o crescimento do
Master, mas deixou muitos servidores baianos na penúria.
O
governador benevolente
Em março
do ano passado, quando já dava sinais públicos de sua bancarrota, Daniel
Vorcaro tentou salvar o Master com uma negociação ousada: queria vender ativos
do banco ao BRB, o Banco de Brasília. A transação, que previa um pagamento de 2
bilhões de reais por 58% das ações do Master, intrigou analistas do mercado
financeiro e do Banco Central, como mostrou a reportagem O salvamento,
publicada em abril de 2025 pela Piauí.
No centro
da negociação estava o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha
(MDB). O que já era estranho ficou ainda pior quando se descobriu que o BRB e o
Master já haviam feito uma outra operação peculiar, em que o banco estatal
pagou 12,2 bilhões de reais por carteiras de crédito inexistentes. Sob o
escrutínio do Banco Central, o cerco rapidamente se fechou. A operação para
salvar o Master não foi para frente, e Vorcaro, que já era investigado de perto
pela Polícia Federal, foi parar na prisão. Em dezembro passado, ao depor em um
dos inquéritos, o ex-banqueiro admitiu que tratou da negociação Master BRB com
Ibaneis, que negou. O ex-governador diz que esteve com Vorcaro quatro vezes,
mas que nunca tocaram no assunto. A reportagem A contaminação, da Piauí,
mostra como a benevolência de Ibaneis abriu um rombo nas contas do BRB.
Autor:
Dossiê da Revista Piauí. Publicado na Revista Piauí.