Toda vez que o Dia da Terra chega, me pego
diante da mesma tensão: o quanto mostrar do que sei sem paralisar quem lê.
Trabalho há quase vinte anos cobrindo meio ambiente, ciência e política
climática. Entrevistei pesquisadores que passam a vida inteira monitorando
sistemas que a maioria das pessoas nunca ouviu falar — o ciclo do nitrogênio, a
saturação de aragonita nos oceanos, a integridade funcional da biosfera. E o
que esses cientistas me dizem, de forma consistente, não é que o planeta vai
acabar. É que estamos saindo da zona em que a civilização humana aprendeu a
prosperar.
Deixem-me explicar o que isso significa na
prática. Em 2009, um grupo de pesquisadores liderado por Johan Rockström
publicou na revista Nature um conceito que mudou a forma como a ciência pensa o
planeta: as fronteiras planetárias. São nove processos biofísicos que regulam a
estabilidade da Terra — o clima, os oceanos, as florestas, a biodiversidade, os
ciclos químicos que alimentam a vida. Para cada um deles, existe uma zona
segura de operação. Fora dela, os riscos de colapso sistêmico tornam-se sérios.
Em 2009, três fronteiras já haviam sido ultrapassadas. No relatório mais
recente, publicado pelo Instituto de
Potsdam em setembro de 2025, esse número chegou a sete. E todas as sete
continuam piorando.
A sétima foi a acidificação dos oceanos —
confirmada pela primeira vez como fronteira violada no ano passado. O oceano
absorve cerca de um quarto do CO₂ que emitimos.
Essa absorção protege o clima de um aquecimento ainda mais brutal, mas tem um
custo: o CO₂ dissolvido na água forma ácido carbônico, e o pH dos oceanos recuou
cerca de 26% desde a Revolução Industrial. Para corais, crustáceos e moluscos,
que constroem suas estruturas com minerais que se dissolvem em água ácida, isso
não é uma abstração. É extinção progressiva.
Mas prometi falar sobre saídas. E é isso que
farei — porque elas existem, são conhecidas e, em alguns casos, já funcionam.
A primeira coisa que precisa mudar é a matriz
energética. Não é novidade, mas a escala do que está acontecendo merece ser
dita com clareza: a transição para fontes renováveis está se acelerando em
ritmo que há dez anos seria considerado improvável. A capacidade solar
instalada no mundo mais do que dobrou nos últimos quatro anos. O custo da
energia eólica e solar caiu mais de 80% na última década. O problema não é mais
tecnológico — é de velocidade e de distribuição. Precisamos que essa transição
alcance as economias em desenvolvimento antes que elas consolidem décadas de
infraestrutura fóssil que depois terão de abandonar.
A segunda mudança diz respeito às florestas.
Perco o sono com isso, porque o Brasil está no centro da questão. Somos
guardiões da maior floresta tropical do planeta — um sistema que regula o clima
continental, produz chuva para metade da América do Sul e armazena carbono em
escala que nenhuma tecnologia humana consegue replicar. Desmatamento zero não é
uma agenda radical. É a descrição do mínimo necessário para não destruirmos um
ativo que mal sabemos precificar.
A terceira mudança é a alimentação. O sistema
global de produção de alimentos responde por cerca de um terço das emissões de
gases de efeito estufa, pela maior parte do desmatamento e pelo principal vetor
de contaminação de rios e oceanos com nitrogênio e fósforo sintéticos. Mudar o
que comemos — menos carne bovina de produção industrial, mais proteínas de
origem diversificada — é uma das alavancas de maior impacto por unidade de
esforço individual. Não estou pregando veganismo compulsório. Estou dizendo que
a dieta é um campo de ação concreto, imediato e sistematicamente subestimado.
A quarta mudança é política — e é a mais
difícil. A única vez em que a humanidade reverteu uma trajetória de colapso
planetário foi com o Protocolo de Montreal, assinado em 1987, que proibiu
gradualmente as substâncias responsáveis pela destruição da camada de ozônio.
Hoje, aquela fronteira está dentro da zona segura. Isso aconteceu porque houve
ciência, pressão pública e um acordo internacional com mecanismos vinculantes e
verificáveis. Não uma meta voluntária. Não um compromisso com brechas. Um
acordo que funcionava porque tinha consequências para quem descumpria.
Precisamos do mesmo modelo para o clima, para a biodiversidade e para os
poluentes sintéticos. O precedente existe. O que falta é vontade política.
A quinta alavanca é a que menos aparece nos
relatórios e mais surge nas minhas conversas com pesquisadores: a restauração
ecológica em escala. Não plantar árvores para foto. Restaurar ecossistemas
funcionais — manguezais, várzeas, cerrados, recifes de coral — que prestam
serviços que nenhuma engenharia substitui: regulação de cheias, estoque de
carbono, proteção costeira, recarga de aquíferos. A natureza já sabe fazer tudo
isso. O que ela precisa é de espaço e de tempo — e de decisões humanas que
parem de destruir o que ainda resta.
Cobri a COP30, em Belém, em novembro de 2025.
Saí com uma sensação que ainda não sei classificar com precisão — não era
esperança ingênua, tampouco desespero. Era algo mais próximo de urgência
lúcida. Os números são ruins. As tendências são piores. Mas a trajetória não é
irreversível no horizonte de uma ou duas gerações, se as decisões certas forem
tomadas agora. O que me mantém nesse trabalho, depois de quase vinte anos, não
é a certeza de que vamos acertar. É a convicção de que desistir não é uma opção
que eu consiga defender.
Dia da Terra — O planeta que herdamos cabe na palma da mão. O que fazemos com ele é que não tem tamanho - Foto Ilustrativa Freepik. O Dia da Terra não é um ritual de culpa
coletiva. É — ou deveria ser — um momento de inventário honesto seguido de
compromisso concreto. Faço o meu inventário aqui, todo ano, neste espaço. E o
que peço a quem lê — seja gestor público, executivo de ESG, pesquisador ou
cidadão — é que saia deste texto com pelo menos uma pergunta sobre o que, em
sua esfera de influência, ainda pode mudar de direção. Porque as fronteiras que
cruzamos não se fecharam para sempre. Mas o tempo para corrigi-las não é
ilimitado.
Autor: Oscar Lopes – Publisher do Neo Mondo.
Publicado no site da Neo Mondo.