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15 de julho de 2026

A morte do magistério!

 

Somos, afinal, professores ou boiadeiros? Educamos gente ou tangemos gado? Estão matando a nossa profissão e desconfio que a intenção é essa.

Dia desses uma notícia, que deveria ser manchete de jornais e chocar o país, passou quase desapercebida: um aluno de uma escola de São José dos Campos colocou um caco de vidro no copo de água da professora, diante da passividade de estudantes que presenciaram o fato. Pouco antes, policiais invadiram uma escola a partir da denúncia de um pai sobre um trabalho escolar a respeito das culturas e mitos afro-brasileiros.

Ao longo da minha experiência de mais de trinta anos em sala de aula, firmei algumas convicções. Uma delas é a de que o magistério não é um sacerdócio. O discurso neste sentido intimida a professora e o professor e legitima a ideia de que devemos mesmo trabalhar em condições adversas e aceitar as coisas como cordeiros mansos, em nome de certa “missão de ensinar”.

Magistério é carreira profissional e o professor deve ser dignamente valorizado pelo exercício de suas funções. Quem quer exercer sacerdócio, virar guru, conduzir multidões ao saber iluminado, deve procurar o seminário, o retiro ou o terreiro mais próximo. O professor que se acha detentor do saber (eu já me achei em priscas eras), se equivoca. O professor que, por sua vez, embarca no proselitismo barato de achar que quem ensina para ele sempre é o aluno, também escorrega na demagogia mais rasteira. Proporcionar a circulação dos saberes e despertar a curiosidade para a aventura do conhecimento me parece ser a base da nossa função, hoje quase inviabilizada. É assim que a gente ensina e aprende.

Como ensinar e aprender, porém, com as condições que os profissionais do magistério, em sua maioria, têm hoje? Sendo mais explícito. A sociedade espera e acha que nossa função é a de ensinar ou é a de adestrar e conduzir crianças e adolescentes, feito gado, para os currais do mercado de trabalho? Somos, afinal, professores ou boiadeiros? Educamos gente ou tangemos gado? Estão matando a nossa profissão e desconfio que a intenção é essa.

A escola como instituição está em crise. Ela é hoje, no Brasil, estruturalmente seletiva e inimiga da diversidade. Com exceções, continuamos nos baseando na avaliação de resultados (e não na avaliação de processos) sobre critérios supostamente objetivos (provas e testes convencionais, por exemplo).

Esse modelo esconde a não aceitação da diversidade ao usar critérios fechados para avaliar diferentes. Repito o que escrevi há tempos: o modelo educacional exclusivamente centrado na sala de aula é uma instituição falida (a sala de aula, com exceções, é um espaço estruturado para domesticar e controlar os corpos), o processo de aprendizagem tem que dialogar com a rua, o ensino baseado em avaliações convencionais fracassou, o excesso de conteúdo é um disparate, os currículos normativos produziram conhecimentos vazios e a imposição do cânone ocidental na educação brasileira – como recorte quase exclusivo do saber – é fomentadora de preconceito, intolerância, violência e dor contra os que não se enquadram no padrão uniforme que o cânone preconiza como modelo a ser seguido.

A cereja do bolo da destruição da escola no Brasil é essa boçalidade recente da escola sem partido, que desqualifica o professor e, sobretudo, as alunas e alunos, imaginando que eles sejam marionetes no processo de aprendizagem. Ao lado disso, temos que lidar com pais reacionários, violentos, delirantes, convencidos por cristo fascistas em púlpitos obscenos de que somos ameaças infernais.

A turma da escola sem partido é aquela que vê a educação, que eu sempre concebi como um campo de experiências inventivas de libertação dos mundos pela cultura, como um espaço de adestramento para o mercado e produção em larga escala de pessoas adoentadas ou descartáveis.

Quem pode ajudar a subverter isso, sem delírios salvacionistas e sacrifícios, mas com trabalho digno e valorizado, são as professoras e professores. Estamos, todavia, mais perto de morrer com uma lâmina de vidro atravessada na garganta ou espancados por fanáticos alucinados, que de alcançar o objetivo de educar para a autonomia e a liberdade.

Autor: Luiz Antonio Simas - Professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor. Tem mais de 30 livros publicados sobre as culturas populares do Brasil. Foi finalista do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões e ganhador do mesmo prêmio na categoria Livro do Ano de 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Publicado no Site ICL Notícias.

Falam em falta de segurança em SP, porém, escondem o déficit enorme de policiais nos efetivos das corporações!

O PSDB ficou no comando do maior Estado da nação de 1995 a 2022, entre 2023 e 2026 estamos convivendo com a gestão do partido Republicanos com Tarcísio de Freitas no comando do Estado mais rico da Nação. Neste período, houve um desmonte na segurança pública do Estado. Permitindo que chegássemos a um déficit de aproximadamente 42 mil pessoas no efetivo das polícias, sendo 25.443 mil na Polícia Militar, 9.363 na Polícia Civil e 3.979 na Polícia Rodoviária Estadual.

Esse contingente torna impossível o combate à criminalidade com a eficiência que a sociedade espera e merece em SP. Nas rodovias os postos de policiamento sumiram das estradas em decorrência da falta de novos policiais para o efetivo policiamento.

A polícia civil carece de policiais em diversas categorias profissionais como delegados, datiloscopistas, médicos legistas, investigadores, entre outras. Nas delegacias falta de tudo e principalmente condições de trabalho.

A polícia militar talvez seja a que mais sofra com esse absurdo cometido pelos tucanos e pelo bolsonarista Tarcísio ao longo de três décadas à frente do Estado. Esse desmonte é sentido pela população diariamente sem que a grande maioria saiba os verdadeiros motivos. Sendo que, a população cresce, a criminalidade aumenta e se especializa, sabendo que sua ação está cada dia mais facilitada pela ausência de combate.

Além do fator humano, faltam aos integrantes das três corporações informatização entre as policias, uniformes novos, coletes resistentes aos projéteis de grosso calibre, condições plenas de trabalho, veículos potentes, armamentos condizentes com a necessidade de enfrentamento de organizações criminosas cada vez mais fortalecidas e treinamento.

Para se ter uma ideia, em 1995 a população do Estado era de aproximadamente 33.487.000 (Trinta e três milhões, quatrocentos e oitenta e sete mil) habitantes. Em 2026, essa população saltou para cerca de 46.650.000 (Quarenta e seis milhões, seiscentos e cinquenta mil). Ou seja, houve um crescimento populacional de 39%.

Sendo assim, torna-se inaceitável que no mesmo período haja um déficit de quase quarenta mil no efetivo das três corporações. Durante todo o período, e em especial nas nove eleições, a conversa era de que haveria segurança e que os números da criminalidade eram favoráveis. Porém, mentiras eram espalhadas para favorecer a candidatura dos governadores de direita que foram eleitos infelizmente.

Em 2023 começou a gestão do bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), o que deixou claro para os especialistas em política e segurança pública que a reformulação não foi realizada em quatro anos de seu mandato.

A situação é caótica, na cidade de Bauru no Centro Oeste Paulista os comerciantes estão reclamando da completa falta de segurança. Estão sendo roubados diariamente nos pontos de comércio, e a noite, quando as lojas estão fechadas são subtraídos produtos, fios de cobre e toda sorte de materiais, causando prejuízos gigantescos.

Quem viver verá. Eu não estou otimista, não acredito que essa tarefa será realizada pelo atual governador caso ele seja reeleito para mais um mandato em SP. Tenho a impressão de que continuaremos a ter pouca ou nenhuma eficiência na gestão para reconstrução do Estado. A educação, saúde e habitação popular igualmente padecem de gestão pública estadual. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Membro da Academia Bauruense de Letras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

14 de julho de 2026

Quando a música conta as nossas histórias!

 

Eu vou tentar, de vez em quando, usar este espaço para falar um pouco mais de mim. Já fiz isso quando escrevi sobre a Dave Matthews Band. Ainda vou fazer quando falar da minha mãe e da paixão dela por Elton John, ou do meu tio Roberto, personagem recorrente destas linhas e responsável por abrir minha cabeça para muitos sons e muitos filmes.

Mas hoje eu preciso falar do meu pai.

E talvez este seja um dos textos mais difíceis em termos de emoção que já escrevi. Os Beatles entraram na minha vida através dele. Eu escrevo estas linhas com um nó na garganta porque meu pai é uma das pessoas mais importantes da minha vida. E quando a gente fala de quem ama, às vezes as palavras ficam mais difíceis de encontrar. Meu pai sempre gostou dos Beatles.

As minhas primeiras lembranças deles acontecem dentro do carro. Na época dos toca-fitas e aqui talvez eu precise explicar para os mais novos que, antes do streaming, da playlist e até dos CDs, era assim que muita gente ouvia música enquanto dirigia.

Eu lembro das fitas girando. Lembro das músicas tocando. E lembro especialmente das canções do Revólver. Por algum motivo, aquelas músicas me passavam uma sensação diferente. Havia algo acolhedor nelas. Hoje eu percebo que talvez não fossem as músicas. Talvez fosse o fato de ouvi-las ao lado dele. Era como se cada faixa construísse uma memória. Como se cada refrão fosse um lugar seguro.

Meu pai teve a sorte de assistir ao Paul McCartney ao vivo ainda na primeira passagem dele pelo Brasil, no Maracanã, quando Linda McCartney ainda fazia parte da banda. Durante anos ouvi histórias daquele show.

Depois vieram os discos. Depois vieram os vídeos. Depois vieram as conversas. E, naturalmente, veio o meu primeiro CD dos Beatles. O Revólver. Presente dele. Não poderia ter sido outro. Os Beatles sempre estiveram presentes nas nossas conversas. E algumas músicas acabaram ganhando significados que vão muito além do que seus autores imaginaram.

Minha música favorita do John Lennon sempre foi “Instant Karma”.

Não porque eu ache que seja a melhor composição dele. Mas porque ela me leva para um lugar específico. Eu consigo ver meu pai dentro do apartamento dele. Consigo ouvir a música tocando. Consigo ouvir ele cantando “We all shine on…” em voz alta. Aquela cena ficou guardada dentro de mim. E eu nunca quis tirá-la de lá. Meu pai é daqueles que ainda para e assisti vídeos de música. Daqueles que gostam de ouvir uma canção e depois conversar sobre ela.

Foi com ele que ouvi “My Sweet Lord” do George Harrison pela primeira vez.

E eu lembro do jeito como ele falava daquela música. Como se ela fosse mais do que uma canção. Como se fosse uma oração. Muitas pessoas dividem paixões com os pais. Eu dividi duas. Os Beatles e o Corinthians. E talvez isso explique muita coisa sobre quem eu sou. Existe ainda uma lembrança que volta para mim toda vez que penso nisso. Meu pai me levou ao meu primeiro show internacional. Oasis. Turnê do Be Here Now.

Eu era jovem e aquilo parecia gigantesco. Hoje eu sei que aquele momento era muito maior do que eu imaginava. Porque não era apenas um show. Era eu e ele. Debaixo da chuva. Eu cantando todas músicas e ele observando. Dividindo um momento que jamais voltaria a acontecer daquela forma. Eu lembro de olhar para ele. E lembro dele olhando para mim. Por alguns instantes não existia mais ninguém. Não existia a multidão. Não existia a cidade. Existíamos apenas nós dois e aquelas músicas.

E tudo isso começou com os Beatles. Por isso, se eu puder deixar uma mensagem depois deste texto, ela é simples:

Volte aos artistas que alguém importante apresentou para você.

Volte aos discos que seu pai ou sua mãe ouviam.

Volte às músicas que seu tio colocava para tocar.

Volte aos álbuns que marcaram conversas, viagens e momentos.

Porque essas músicas carregam pessoas dentro delas. Hoje meu pai mora longe. Não estamos na mesma cidade. Mas enquanto escrevo este texto ouvindo Beatles, é como se estivéssemos na mesma sala. É como se o tempo diminuísse. É como se a distância desaparecesse por alguns minutos. E talvez essa seja uma das maiores provas de amor que a música pode nos dar. Ela nos permite reencontrar quem amamos.

Mesmo quando essas pessoas estão longe. E, por isso, eu termino com um pedido. Façam isso enquanto as pessoas estão aqui.

Enquanto elas podem ouvir.

Enquanto elas podem sorrir.

Enquanto vocês ainda podem dividir a música juntos.

Daqui a alguns dias vou encontrar meu pai novamente.

E tenho quase certeza de que os Beatles vão tocar em algum momento. Como sempre tocaram. 

Autor: Rodrigo Moia – Especialista em Marketing – Publicado no Medium.com