Crédito Gabriel Jabur da Agência Brasília - GDF.
A reforma do ensino médio,
tratada na primeira parte deste livro, constitui o exemplo mais bem acabado da
incompetência das elites empresariais enfronhadas na política educacional e dos
políticos que as endeusam. Refiro-me às duas reformas aprovadas para o ensino
médio brasileiro em 2017 e 2024: as Leis n. 13.415/2017 e 14.945/2024.
A primeira reforma, também
conhecida pelo nome-fantasia de “Novo Ensino Médio” (NEM), de fato não passou
de fantasia. Prometeu flexibilização curricular, liberdade de escolha, expansão
da jornada escolar e qualificação profissional, mas entregou precarização do
ensino, piora nas condições de trabalho de docentes e privatização da oferta
educativa. Aprofundou desigualdades que toda política educacional deveria
combater.
Além de perverso com as
juventudes – as escolas públicas de 86,7% dos estudantes do ensino médio deste
país[1] tiveram o currículo comprimido pela
reforma de 2017 –, o NEM se mostrou tecnicamente inviável. Montar calendários,
organizar turmas e alocar professores virou trabalho impossível com a
multiplicação de novas disciplinas, a ponto de vermos diretores escolares
reduzindo a oferta dos chamados “itinerários formativos” para assegurar a
permanência do corpo docente em suas escolas. Corpo docente, frise-se, cuja
formação acadêmica passou a importar menos para os governos do que a sua
capacidade de animar plateias com oficinas de empreendedorismo juvenil.
Os competentes especialistas
que elaboraram a primeira reforma e auxiliaram as secretarias de educação a
colocá-la em prática nas redes estaduais só não imaginaram que o projeto
degringolaria tão rápido. Os resultados das primeiras pesquisas sobre a
implementação do NEM nas redes estaduais foram implacáveis em demonstrar que a
reforma não teria como realizar o prometido. Aliás, era bastante óbvio que uma
reforma curricular hiper fragmentadora tenderia a acentuar as falhas de um
sistema educativo estruturalmente desigual.
Financiados por bilionários e
glorificados pelos meios de comunicação, os “especialistas” em educação de
institutos e fundações empresariais (que viram na assunção de Michel Temer ao
poder uma oportunidade de avanço rápido de suas agendas) foram alertados pelos
pesquisadores sobre os riscos daquela reforma desde o início. O outro “aviso”
veio dos próprios estudantes, que protagonizaram um massivo ciclo de ocupações
escolares no final de 2016 e que tinham a Medida Provisória n. 746/2016 da
reforma do ensino médio (editada por Temer) como um de seus alvos.
Os prepotentes insistiram na
empreitada e trataram de ocupar cada reentrância do debate público com
tentativas de convencer a sociedade de que, com aquela reforma, o ensino médio
brasileiro chegaria finalmente ao século XXI. Produziu-se uma torrente de propagandas,
pesquisas de opinião, entrevistas, artigos e até uma açucarada produção
cinematográfica em prol do NEM.[2] Passada a pandemia de Covid-19, ele foi
finalmente adotado nas redes estaduais a partir de 2022, em parcerias que
envolveram fundações e institutos empresariais e agentes públicos deslumbrados
com viagens para seminários em Oxford, Harvard, Stanford e outras mecas
universitárias que estendem tapetes vermelhos para a filantropia educacional
endinheirada do Sul Global. O clima de otimismo foi alimentado pelo jornalismo
declaratório praticado por vastos setores da imprensa, que tomaram as promessas
da reforma como fatos consumados.
Afora os pesquisadores, quem
verificou na prática os efeitos da reforma foram os estudantes e professores
nas escolas públicas (especialmente as estaduais), que em menos de três anos já
não tinham dúvidas de que o “novo” ensino médio era, afinal, muito pior do que
o “velho”. Os defensores do NEM – que desde 2016[3] vinham alimentando o debate público com
slogans fundados na “liberdade de escolha”, no “protagonismo juvenil” e nas
“profissões do futuro” – viram-se em apuros para sustentar sua retórica
modernizadora e calcada numa dicotomia novo/velho. Diante de adolescentes
revoltados com a supressão das aulas de disciplinas tradicionais nas escolas
estaduais, bilionários, seus assessores educacionais e, sobretudo, governadores
e secretários de educação perderam as condições de se reivindicar pontas de
lança da inovação educativa. A reforma ruiu.
É claro que os protestos pelo
#RevogaNEM enterraram definitivamente a credibilidade da reforma. Contudo,
quando se analisa os dados relacionados à implementação do NEM nas redes
estaduais percebe-se que ela naufragou, antes mesmo dos protestos, pelo péssimo
desenho e pela inviabilidade prática da política educacional. Pela
incompetência dos que elaboraram e colocaram em prática a reforma.
Ainda que esses agentes
realmente pretendessem aniquilar o sistema educacional (uma tese politicamente
defensável, mas que não explica as idas e vindas da reforma do ensino médio),
eles precisariam pensar no que fazer com uma massa de estudantes sem aulas de
Química ou Sociologia frente às provas do Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem), que seguiria existindo. Ou em um conjunto de soluções para o problema
básico de 50,4% dos municípios do país só possuírem uma escola pública
de ensino médio, inviabilizando escolhas formativas.[4] Ou em como evitar que os “itinerários
formativos” se desconectassem do conhecimento científico formal e fossem
prontamente descredibilizados por alunos e professores.
A incompetência dos
reformadores empresariais, dessa forma, também se expressa no seu excesso de
confiança. Muitos realmente imaginaram que propagandear o nascimento de uma
escola alinhada a interesses comezinhos dos jovens bastaria para sustentar a
confiança dos estudantes na reforma do ensino médio. Eles subestimam tanto o
ensino público que não contaram que os estudantes iriam rejeitar uma escola
mais “leve” em conteúdo científico.[5]
A terceira eleição de Lula
frustrou as expectativas dos que esperavam uma revogação do NEM tão sumária
quanto a sua decretação por Temer. Em vez disso, o Congresso Nacional,
chancelado pelo Ministério da Educação (MEC), aprovou em 2024 uma reforma um
pouco mais branda, produto do “consenso possível” entre um vasto campo social
em luta pela garantia do direito à educação e as mesmas elites incompetentes
que criaram o NEM aliançadas com o governo Temer.[6] Ela mitigou alguns prejuízos da anterior
e, como esperado, manteve ou criou outros problemas que exigirão reformas
corretivas posteriores.
É este o ponto que quero
trazer. Ainda que a incompetência gestionaria jamais seja reconhecida pelos
reformadores – pois isso feriria o orgulho dos que, socialmente validados pela
regra da competência, sempre pensaram e decidiram tudo sozinhos –, ela também é
a força motriz da própria reforma empresarial.
A abordagem do geógrafo Jamie
Peck para o neoliberalismo como um regime de sucessivas desregulação e re-regulação estatais ajuda a entender esse argumento. Peck concebe que a
ascensão neoliberal seguiu um curso “improvisado e, na maioria das vezes, viabilizado
por crises”. E também que o sucesso do neoliberalismo como projeto ideológico
reflete a “sua natureza profundamente contraditória, como uma combinação de
dogmatismo e adaptabilidade, intenção estratégica e exploração oportunista,
visão programática e inteligência tática, princípio e hipocrisia”.[7]
Do ponto de vista operacional,
isso se traduz em dialéticas de reversão/expansão (roll-back/roll-out)
dos movimentos de reforma, acionadas tanto pelos fracassos da política pública
(NEM) quanto pelos movimentos contestatórios que dinamitam a sua sustentação
política (#RevogaNEM). Assim, o neoliberalismo experimenta fases tanto
construtivas quanto destrutivas, assemelhando-se muito mais a uma “sucessão de
fracassos progressivos” do que a uma “marcha triunfal e linear”.[8]
A fauna que habita as salas
climatizadas das secretarias de educação e das fundações e institutos
empresariais justifica o fracasso do NEM como um mero erro de percurso.
Reformas educacionais, alegam eles, são complexas e difíceis de implantar.
Vedar o acesso ao conhecimento a toda uma geração de estudantes do ensino médio
público teria sido um acidente necessário ao avanço do projeto
político-econômico dos donos do PIB nacional para a escolarização dos mais
pobres. A próxima reforma – asseveram – será melhor e beneficiará a todos.
O caso da reforma do ensino
médio nos mostra que na disputa do jogo contraditório do neoliberalismo
fracassam todos – até mesmo os que lutam para desconstruir os direitos da
maioria. A diferença é que o fracasso destes últimos é justamente o que impele
a empreitada experimentalista na educação pública. Empreitada que, ao caminhar
três passos para a frente e dois para trás, produz retrocessos em termos
líquidos. A incompetência e o fracasso são, nesse sentido, ingredientes
essenciais para justificar e permanentemente renovar a reforma educativa.
Autor: Fernando Cássio é
professor da Faculdade de Educação da USP. Integra a Rede Escola Pública e
Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à
Educação. Publicado no Site Le Monde Brasil Diplomatique.
[1] Dados do Censo Escolar
2024 do Inep.
[2] Ver: Cássio, Fernando.
“Nunca me Sonharam e o sequestro das histórias”. CartaCapital, 06
set. 2017.
[3] Na verdade desde
antes, já que o Projeto de Lei n. 6.840/2013 – de autoria de deputados da base
do então governo Dilma Rousseff – já continha o núcleo essencial da reforma que
o governo Temer implantou com a MP n. 746/2016, baseado na aquisição de competências
e na livre escolha de “opções formativas”.
[4] O Censo Escolar 2024
do Inep também apontou que oito municípios do país (quatro em Alagoas, um em
Minas Gerais, um no Rio Grande do Sul e dois em Tocantins) não possuem nenhuma
escola pública de ensino médio.
[5] Isso também é verdade
entre os estudantes do ensino fundamental, como mostram os resultados da
pesquisa realizada no âmbito do programa federal Escola das Adolescências, em
parceria com estados e municípios.
[6] O amplo movimento pelo
#RevogaNEM não deixou escolha ao MEC do governo Lula 3, que adotou uma clássica
estratégia dos governos petistas para despressurizar conflitos:
participacionismo social. Longe de avançar para um modelo de administração
pública mais societal, essas formas improvisadas de participação permitem
angariar legitimidade social a decisões políticas tomadas de antemão. Sobre o
participacionismo nas políticas educacionais, ver o meu artigo sobre o processo
de consulta pública da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), iniciado em 2015
pelo governo Dilma Rousseff: Cássio, Fernando. “Participação e
participacionismo na construção da Base Nacional Comum Curricular”. Nexo,
02 dez. 2017.
[7] Peck, Jamie. Constructions
of Neoliberal Reason. Oxford, UK: Oxford University Press, 2010. p. 4.
[8] Idem, p. 23.