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5 de fevereiro de 2026

IA sem limites? Quando a inovação viola direitos fundamentais.

Durante muito tempo, ferramentas de inteligência artificial foram apresentadas como soluções neutras, quase experimentais, impulsionadas pelo discurso da inovação a qualquer custo. Em 2026, esse discurso começa a ruir. Um exemplo recente é o Grok, ferramenta de inteligência artificial integrada à plataforma X (antigo Twitter), desenvolvida para gerar textos e imagens a partir de comandos dos usuários, utilizando grandes volumes de dados disponíveis no ambiente digital. O problema surge quando essa tecnologia passa a operar sem limites claros.

Medidas repressivas

O Grok, por exemplo, ficou conhecido por gerar imagens sexualizadas a partir de dados de pessoas reais, incluindo mulheres, crianças e adolescentes, muitas vezes sem qualquer ciência ou consentimento dos titulares. Isso levou o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) a protocolar um pedido junto à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) para a suspensão do funcionamento da plataforma no país.

A denúncia aponta que a ferramenta permite a criação de imagens que preservam características reais das pessoas retratadas, como traços físicos e identidade visual. Não se trata de um debate abstrato sobre o futuro da inteligência artificial, mas de violações concretas a direitos fundamentais já protegidos pela legislação brasileira, especialmente a privacidade, a imagem e a dignidade humana.

Transparência como obrigação legal

Além dos diversos abusos já relatados, a denúncia do IDEC ainda aponta a falta de transparência por parte da empresa responsável pela ferramenta. A política de privacidade do Grok não está disponível em português, o que dificulta que usuários brasileiros compreendam como seus dados são utilizados e quais direitos podem exercer. Transparência é o princípio central da LGPD e condição básica para a legalidade do tratamento de dados.

Nesse cenário, a ausência de informação clara impede o controle pelos titulares e reforça a necessidade de intervenção regulatória. Inclusive, a ANPD já reconheceu que medidas urgentes são cabíveis quando a continuidade da atividade pode ampliar os danos aos titulares. Por que crianças e adolescentes merecem atenção redobrada?

A LGPD impõe regras rigorosas para o tratamento de dados desse público, exigindo finalidade específica, proteção integral e observância do melhor interesse do menor. A geração de conteúdos sexualizados envolvendo menores representa violação grave à LGPD e caracteriza crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código Penal. Regular a IA não é frear o futuro, é impedir que ela viole direitos.

Autor: Drº José Milagre – Advogado – Publicado no JCNet de Bauru.

A fadiga climática global

Imagem Neo Mondo. 

Depois de três décadas de alertas científicos, acordos multilaterais, metas climáticas e discursos bem ensaiados, entramos em uma fase nova — e talvez mais perigosa — do debate climático global: a fadiga climática. Não é mais sobre duvidar da ciência. É sobre escolher adiar a ação. E adiar, hoje, já não é neutro. É uma decisão política com consequências bem distribuídas — e muito mal compartilhadas.

Quando a urgência acelera, mas a política freia

Os sinais estão por toda parte. Ondas de calor mais longas, eventos extremos mais frequentes, crises hídricas, colapsos ecológicos silenciosos. A ciência deixou de falar em “risco futuro” e passou a descrever o presente em tempo real.

Paradoxalmente, é justamente agora que a transição climática global começa a desacelerar.

Não por falta de tecnologia. Não por ausência de soluções. Mas por um esgotamento coletivo — político, econômico e emocional. Guerras reconfiguram prioridades. A inflação pressiona orçamentos públicos. Eleições encurtam horizontes de decisão. E a transição energética, vendida como inevitável, passa a ser tratada como inconveniente. O resultado é um mundo que sabe o caminho, mas pisa no freio.

A fadiga climática não é acidental. Ela é construída

Existe um erro comum em tratar a fadiga climática como algo difuso, quase psicológico. Como se governos estivessem apenas “cansados” do tema. Não estão. O cansaço é seletivo — e profundamente estratégico.

Países ricos, especialmente grandes economias que historicamente mais emitiram, começam a recalibrar discursos. Metas são “flexibilizadas”. Prazos, “revistos”. Compromissos, “adaptados à realidade econômica”. Na prática, isso significa proteger setores fósseis, evitar conflitos eleitorais internos e empurrar o custo da transição para o futuro — ou para outros.

A cooperação multilateral, que já era frágil, entra em um colapso silencioso: acordos existem, mas perdem tração política. Fóruns internacionais seguem acontecendo, mas com menos ambição e mais diplomacia vazia. O multilateralismo não acabou. Mas perdeu fôlego — exatamente quando mais precisava correr.

Quem está recuando — e por quê

O recuo não vem de onde a crise bate mais forte.
Vem de onde há mais margem para escolher.

Estados Unidos, Europa e outras grandes economias enfrentam dilemas internos reais: transição industrial cara, resistência social, disputas geopolíticas e pressão por crescimento imediato. A resposta tem sido pragmática — e curta. A lógica é simples:
“Vamos manter o discurso climático, mas reduzir o custo político da ação.” Só que o clima não opera em ciclos eleitorais.

Quem paga a conta da exaustão

A fadiga climática tem um endereço claro. Ela é paga por populações vulneráveis que vivem em territórios mais expostos. Por comunidades que não têm seguro, adaptação, infraestrutura ou voz política. Pela biodiversidade que não entra em planilhas econômicas. Por países do Sul Global que emitiram menos, mas sofrem mais. Enquanto isso, os impactos deixam de ser exceção e passam a ser rotina.

A crise climática, nesse cenário, não é mais um choque. É um ambiente permanente de instabilidade — normalizado, administrado e, em muitos casos, ignorado.

O ângulo que quase ninguém quer encarar

Talvez o aspecto mais desconfortável dessa história seja este:
a fadiga climática não é fracasso. É escolha. 

Escolha de conviver com perdas graduais. Escolha de sacrificar territórios periféricos. Escolha de aceitar um mundo mais quente, mais desigual e mais instável — desde que o custo não seja imediato para quem decide. O mundo não está falhando em combater a crise climática. Está redefinindo quem pode perder.

E agora?

O risco maior da fadiga climática não é a inação total. É a ação mínima, suficiente para manter narrativas, mas insuficiente para mudar trajetórias. O desafio que se impõe não é mais convencer sobre a existência da crise — isso já está dado. É romper o pacto silencioso da acomodação.

Porque, no fim das contas, a pergunta que fica não é se sabemos o que fazer.

É: quem está disposto a pagar o preço político de fazer?

E, mais importante ainda: quem continuará pagando o preço da nossa demora? 

Autor: Oscar Lopes é Publisher do Site Neo Mondo.

Juros trilionários.

  

Sede do Banco Central, em Brasília Foto Reuters de Adriano Machado.

"Juros trilionários é o suprassumo condensado da desigualdade econômica e da concentração de renda e patrimônio". Agora é oficial. Os números estão disponíveis nas páginas do governo brasileiro na internet. Até então, trabalhava-se com estimativas e projeções. E o acumulado dos últimos 12 meses apontava para uma aproximação de casa decimal para chegarmos ao valor. A partir de 30 de janeiro de 2026, porém, com a divulgação do boletim do Banco Central (BC) contendo as Estatísticas Fiscais consolidadas para o exercício de 2025, sabe-se que a administração pública brasileira realizou despesas com o pagamento de juros da dívida pública em valor superior a um trilhão de reais.

De acordo com as informações divulgadas pelo banco, o volume total de gastos com a transferência de recursos aos detentores de títulos do endividamento do governo federal foi de R$ 1,008 trilhão. Como diria o Presidente Lula em seus momentos de maior inspiração, nunca antes na História deste País o volume de despesas financeiras ao longo de um exercício fiscal alcançou tal patamar. Uma loucura! Esse montante de 2025 foi 6% mais elevado do que o registrado em 2024, quando o total havia chegado a R$ 950 bilhões.

Como os registros são apontados mensalmente, vale ressaltar que os períodos do segundo semestre foram bem mais elevados do que os primeiros seis meses do ano. Talvez a principal razão seja a elevação continuada da Selic a cada nova reunião do Comitê de Política Monetária no ano (saindo de 13,25% para 14,25% e depois para 14,75%), permanecendo no nível de 15% a partir de julho. Isso significa que o impacto da referência de remuneração financeira sobre o estoque crescente da dívida pública foi muito mais potente no período julho a dezembro do que o período janeiro a junho do ano passado.

Juros de R$ 1 trilhão: nunca antes na história deste país

Assim, no primeiro semestre o volume de juros alcançou R$ 417 bi e saltou para R$ 591 bi ao longo dos últimos seis meses. Isso representou um crescimento de 42% entre os dois períodos. Apenas a título de comparação, em 2024 a diferença entre os dois semestres foi de 9%, saindo de R$ 455 bi para R$ 496 bi. Desta forma, o segundo semestre de 2025 representou um crescimento de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior.

 

Tal mudança de patamar no volume de despesas financeiras ocorridas ao longo do terceiro mandato do Presidente Lula representou também um maior nível de comprometimento desse tipo de gasto no total do Produto Interno Bruto (PIB). O gráfico abaixo apresenta a média anual desse tipo de dispêndio como porcentagem do Produto, segundo os diferentes governos. Assim, o que se percebe é que durante o primeiro triênio de Lula 3 esse índice alcança 6,6%, com tendência de manutenção dessa média ou mesmo de alta quando forem divulgadas as estatísticas para 2026. Trata-se, portanto, de mais um recorde jamais antes ocorrido para tal variável relevante de política econômica.

Durante os três primeiros anos do atual mandato, a porcentagem observada foi 50% mais elevada do que a média do período 1997/2022, quando os registros apontam para uma média de 4,3%. Esses dados confirmam que a lógica da austeridade fiscal e da prioridade concedida ao atendimento dos interesses do financismo se manifesta de forma inequívoca na implementação do programa econômico do governo.

 

Por outro lado, o valor apontado pelo BC para o mês de dezembro também significa um valor recorde. Nunca antes na série histórica mantida pelo órgão um período de 30 dias alcançou os R$ 122 bi do último período mensal do ano passado. Isso representou uma elevação de 27% sobre os R$ 96 bi do último mês de 2024. Esse montante caracteriza uma despesa de R$ 5,5 bi por dia útil daquele mês. Apenas a título de comparação, avaliemos o objetivo apresentado a Lula por Fernando Haddad para a realização de superávit primário no presente ano. A meta é de 0,25% de saldo positivo nas contas não financeiras do Orçamento e foi incorporada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) em seu artigo segundo. Em termos monetários, esse percentual representa R$ 34 bi. Ou seja, em apenas 6 dias de dispêndios com juros em dezembro, o governo gastou mais do que o grande esforço nacional de compressão de gastos sociais e investimentos para cumprir uma meta irresponsável que ele mesmo se colocou como torniquete.

O principal argumento utilizado pela equipe econômica para a continuidade da política de austericídio refere-se à conhecida cantilena do "não temos recursos". Repetida à exaustão, em uma tentativa de transformar a mentira e a falácia em verdade, essa narrativa não se sustenta nem mesmo quando são apresentados os dados oficiais dos órgãos da administração pública federal. Ao contrário do que afirmam aqueles que tentam enganar a população pouco afeita ao manuseio das estatísticas da área econômica, os recursos existem e são de magnitude trilionária.

Recursos existem: falta vontade política

Uma das manifestações de tal disponibilidade encontra-se no saldo da chamada "Conta Única do Tesouro Nacional". Trata-se dos valores que estão à disposição do Executivo para serem gastos com o atendimento do conjunto das necessidades do governo e de suas políticas públicas. Os valores oficiais relativos ao encerramento de 2025 só serão divulgados ao longo do primeiro trimestre. Mas com certeza não serão inferiores aos R$ 1,6 trilhão apurados em 2024 e 2023. Ou seja, os recursos existem e estão imobilizados contabilmente na interface entre Tesouro Nacional e BC. A intenção é justamente não gastar em contas não financeiras, para que sobrem recursos para pagamento de juros. Afinal, para esse tipo de despesa não existe limite, nem teto, nem contingenciamento. Esse é o espírito do Novo Arcabouço Fiscal e da política de austeridade irresponsável.

Lula não conseguiu cumprir quase nenhuma de suas principais promessas de campanha em 2022. Não revogou de fato a essência austericida do Teto de Gastos do Temer, pois o mesmo foi substituído pelo Teto do Haddad. Não reverteu a privatização da Eletrobras, permitindo que o processo de transferência do patrimônio público e das atribuições do Estado na área da energia elétrica permanecesse nas mãos do capital privado. Não conseguiu concretizar o mote repisado por diversas ocasiões e que pretendia fazer 40 anos em 4. Não vai deixar um legado de seu terceiro mandato que fosse caracterizado por fazer mais e melhor do que realizou nos dois primeiros, entre 2003 e 2010. E o principal obstáculo para tanto tem sido a desculpa esfarrapada do arcabouço fiscal.

O mais dramático de toda esta novela da política econômica de inspiração neoliberal e conservadora é a naturalização do patamar das despesas com juros no nível trilionário. Transforma-se em algo banal e inescapável a transferência de tamanho volume de recursos do Orçamento Geral da União para um grupo seleto e privilegiado de nossa sociedade. Juros trilionários é o suprassumo condensado da desigualdade econômica e da concentração de renda e patrimônio. Em poucas palavras, é o cartão de visita da perpetuação da injustiça social.

Autor: Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal. Publicado no Site Brasil 247.

3 de fevereiro de 2026

Se a moda pega seríamos um país de andarilhos!

 

A chamada caminhada pela “liberdade” promovida pelo Deputado Federal Nikolas Ferreira (PL-MG), com o intuito de promover a liberdade do criminoso Jair Bolsonaro, tinha, na verdade, como maior apelo tentar desviar o foco das investigações sobre o cunhado do ex-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro. O motivo é a proximidade do deputado mineiro com Fabiano Campos Zettel e a sua Igreja Lagoinha em BH.

Zettel foi preso temporariamente quando tentava embarcar em um voo com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A PF efetuou a prisão para evitar uma possível fuga e garantir a apreensão de dispositivos eletrônicos (como seu celular) antes que ele saísse do país.

Na campanha eleitoral de 2022, Zettel doou R$ 3 milhões ao candidato do PL (mesmo partido de Nikolas Ferreira) Jair Bolsonaro. Ele ainda doou R$ 2 milhões ao candidato Tarcísio de Freitas para a campanha ao governo de SP. Esses valores representaram a maior doação de uma pessoa física para as respectivas campanhas.

A ligação entre o deputado Nikolas Ferreira, a Igreja Lagoinha e o empresário Fabiano Zettel envolve afinidades políticas, vínculos religiosos e, recentemente, citações em investigações da Polícia Federal.

De acordo com as informações disponíveis no contexto: Nikolas Ferreira é membro da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, e possui proximidade com as lideranças da instituição, como o pastor André Valadão. A igreja tem sido mencionada em investigações sobre o uso de plataformas digitais para recebimento de doações, que teriam sido alvo de suspeitas de irregularidades financeiras.

Esclarecidos os verdadeiros motivos da caminhada de Nikolas, disfarçada de apoio a um presidiário, vamos então imaginar que os brasileiros que possuam algum parente condenado pela justiça cumprindo pena de prisão em regime fechado resolvessem fazer uma caminhada até o respectivo local onde o parente cumpre pena.

Se isso acontecesse, num país com cerca de 941 mil detentos, as nossas rodovias iriam se transformar na estrada dos andarilhos pela “liberdade”.

Lembrando que a situação atual no nosso sistema penitenciário é a seguinte:

Total de pessoas em cumprimento de pena: 941.752.

Presos em celas físicas: Aproximadamente 705.872 pessoas.

Prisão domiciliar: Cerca de 235.880 pessoas (com ou sem monitoramento eletrônico).

Déficit de vagas: Existe uma falta de aproximadamente 202 mil vagas no sistema, o que gera uma taxa de ocupação média de 150% (superlotação).

Infelizmente, uma parcela considerável dos brasileiros acredita em fake news e em tudo que políticos de direita fazem e falam nas redes sociais, sem averiguar a procedência, sem pesquisar os fatos e dando crédito a pessoas cujo único interesse é se manter em seus cargos para defender milionários, banqueiros golpistas, criminosos e Bets.

 
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.