Documentos da Operação Cavalo de Troia apontam suspeitas de uma engrenagem que conectava interesses empresariais, decisões administrativas, articulação política e pagamentos na concessão bilionária de Bauru.
Uma licitação pode começar a ser comprometida muito antes de alguém apresentar uma proposta. Basta que o interessado em vencer consiga participar da escolha das regras pelas quais será julgado. Os envelopes chegam depois. A vantagem pode estar pronta antes.
É essa a questão que emerge dos documentos da Operação Cavalo de Troia, em Bauru. Segundo o Ministério Público, interesses ligados à Estre Ambiental teriam penetrado na preparação da concessão dos resíduos sólidos, alcançando estudos, modelagem, documentos jurídicos e respostas aos questionamentos apresentados ao procedimento.
Estamos falando de um empreendimento projetado para 30 anos, com contraprestações estimadas em R$ 5,259 bilhões. Atenção ao significado do número: é o valor previsto da concessão, não uma quantia comprovadamente desviada. A cifra dispensa exageros. Três décadas de compromissos públicos já justificam perguntas que nenhum governo deveria considerar inconvenientes.
A primeira delas é elementar: quem estava, de fato, trabalhando para quem?
Na narrativa do Gaeco, Hamilton Libório Agle coordenava os interesses empresariais. Cilene Chabuh Bordezan, então secretária de Meio Ambiente, funcionava como ligação com a Prefeitura. Talita Chieregatti participava da operação empresarial e documental; Sara Moura, das providências internas da administração. Mário Luiz Silvério forneceria a chancela técnica vinculada à FIPE, enquanto Vitor João de Freitas Costa daria sustentação jurídica aos atos.
Perceba o leitor a dimensão do problema. Uma administração contrata assessoramento técnico para obter uma avaliação independente. Se a empresa interessada no futuro contrato influencia aquilo que será apresentado como avaliação independente, o parecer conserva o papel timbrado, mas perde sua razão de existir.
A técnica vira argumento de autoridade. O carimbo continua respeitável. Falta saber quem segurava a caneta. O desdobramento mais recente da investigação acrescentou a essa estrutura a atuação de Renato Purini, então secretário de Governo e marido da prefeita Suéllen Rosim.
As mensagens reproduzidas pelo Ministério Público mostram Purini acompanhando a votação do projeto que autorizou a concessão. A sessão atravessou a madrugada e terminou, em primeiro turno, às 5h40 de 9 de dezembro de 2025: onze votos a nove. Em conversa com Cilene, ele afirmou estar pressionando vereadores e relatou: “Segurei 2 no estacionamento indo embora”. Acrescentou que mantinha uma pessoa na porta para essa finalidade.
Articular votos faz parte da política. O cargo de secretário de Governo inclui interlocução com o Legislativo. O interesse jornalístico está em descobrir a finalidade concreta dessa mobilização e sua eventual relação com as cobranças financeiras identificadas nas demais mensagens. É aí que a história deixa de caber na explicação confortável de que se tratava apenas de defender um projeto da administração.
Segundo o Gaeco, Purini indicou o advogado M. L. C. ao núcleo empresarial e acompanhou tratativas e pagamentos formalizados como serviços jurídicos. O Ministério Público aponta elementos de emissão e pagamento de uma nota fiscal de R$ 750 mil, cobrança adicional de R$ 90 mil e referências a uma obrigação recorrente.
Na reconstrução apresentada pelos investigadores, Cilene transmitia demandas, Hamilton autorizava ou confirmava pagamentos, Talita providenciava os instrumentos documentais, Ricardo Sottomayor executava operações financeiras e M. L. C. figurava como recebedor formal e possível intermediário.
A investigação precisa demonstrar o percurso completo desses recursos. O próprio MP reconhece que os beneficiários finais, a distribuição das quantias e o valor global ainda exigem aprofundamento. Mas há uma pergunta que já pode ser feita, sem licença de ninguém: quais serviços justificavam esses pagamentos?
Serviço jurídico tem objeto. Tem trabalho produzido. Tem correspondência entre contratação, execução e remuneração. A resposta precisa aparecer nos documentos, com datas, entregas e responsáveis. Os R$ 90 mil correspondem exatamente a 12% dos R$ 750 mil. Nas conversas examinadas, o percentual surge associado à palavra “imposto”. O Gaeco sustenta que o cruzamento das mensagens permite identificar cobranças financeiras por trás de expressões aparentemente relacionadas a assuntos jurídicos.
A aritmética fecha. A investigação terá de fechar o caminho do dinheiro. Em decisão de 15 de outubro, a Justiça decretou a prisão preventiva de Purini e aplicou medidas cautelares a M. L. C. e Sottomayor. Trata-se de uma decisão fundada em indícios e riscos apontados para a investigação, não de uma condenação. A precisão importa. Uma acusação consistente não precisa de sentença antecipada para ser grave. Também não precisa de culpados por parentesco. O Ministério Público e a decisão examinada registram que Suéllen Rosim não figura como investigada nos fatos ali delimitados. Ser esposa de Purini não transfere à prefeita a responsabilidade penal pelos atos atribuídos a ele.
Já a responsabilidade pela condução do governo exige outro conjunto de respostas. Quem verificou os vínculos dos responsáveis pelos estudos? Que controles foram aplicados às nomeações? Quem conferiu a independência da consultoria? Como foram avaliadas as impugnações? Quais informações chegaram à Câmara antes de seus integrantes autorizarem um compromisso dessa dimensão?
À Comissão Processante, Suéllen afirmou que não recebeu alertas prévios sobre irregularidades, classificou seus contatos com Hamilton como institucionais e disse que as etapas técnicas eram conduzidas pelas estruturas responsáveis. A explicação precisa ser confrontada com os registros administrativos. Delegar tarefas faz parte de governar. Demonstrar como essas tarefas eram supervisionadas também. Se tantos setores participavam do procedimento, a Prefeitura deve conseguir apresentar os controles exercidos por cada um. A divisão de responsabilidades precisa permitir identificar quem decidiu. Do contrário, corre o risco de se transformar numa divisão de desculpas.
A Câmara tampouco pode encerrar sua participação na contagem dos votos. Votar a favor da concessão não comprova recebimento de vantagem. Votar contra não dispensa o exame de uma suspeita financeira. A investigação deve seguir atos e documentos, sem conceder imunidade a aliados nem fabricar culpa para adversários.
Isso vale, inclusive, para Estela Almagro. O processo reproduz conversas sobre um suposto custeio de viagem ligado à expectativa de sua ausência da sessão. O MP ressalva que esse possível repasse e sua finalidade precisam de confirmação independente. Outro registro contém uma afirmação de Hamilton sobre pagar aluguel da vereadora. A fala existe na transcrição; a comprovação financeira dessa alegação não está estabelecida nos trechos examinados.
Essas referências exigem esclarecimentos e documentos. A oposição de Estela à concessão deve ser registrada, assim como devem ser apuradas as afirmações feitas a seu respeito. Jornalismo perde sua utilidade quando escolhe previamente quem pode ser questionado. O mesmo critério vale para as referências à imprensa. Conversas entre Hamilton e Cilene revelam interesse em construir relações capazes de ajudar o grupo em momentos de dificuldade. Há relatos sobre aproximação com o jornalista Jabbour.
A expectativa dos interlocutores não comprova adesão do jornalista a qualquer irregularidade. Revela, porém, como eles enxergavam a utilidade de uma relação com a imprensa. Cabe apurar os contatos e ouvir os citados, sem transformar a presunção de influência de uma fonte em prova de submissão de uma redação. O interesse público desta história está justamente nas conexões: quem produzia a informação, quem a legitimava, quem a transformava em decisão e quem poderia ganhar com o resultado.
Bauru precisa conhecer o trabalho existente por trás de cada parecer, contrato, aditivo e nota fiscal. Precisa saber se as instituições encarregadas de proteger o Município preservaram sua independência ou foram utilizadas para dar aparência pública a interesses privados. A coleta de lixo é um serviço essencial. A concessão, uma escolha de política pública sujeitam a debate, controle e fiscalização. Nenhuma das duas coisas pode servir de salvo-conduto para relações que a administração não consiga explicar. Trinta anos são tempo demais para aceitar respostas vagas. E R$ 5,259 bilhões são dinheiro público demais para que a pergunta mais simples continue sem resposta: quem escrevia as regras — e a serviço de quem?
Autor: Fernando Redondo – Jornalismo investigativo e independente.



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