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6 de março de 2026

Gramática bélica

Na minha juventude, anos 1980, a grande guerra em curso era o conflito Irã x Iraque. O termo barril de pólvora designava o Oriente Médio e mesclava a beligerância regional - que, na verdade, era resultado dos interesses mundiais -, de base explosiva, com a medida de comercialização do petróleo, o ouro negro que move a economia global até hoje. A chamada guerra fria ia em curso, a União Soviética, o Muro de Berlim e generais brasileiros de plantão em planaltos e porões ainda existiam. Décadas se passaram e a região continua guerreando ou sendo instigada ao conflito porque o petróleo continua lá existindo. Não por menos, o livro "Petróleo, Mola do Mundo", de Peter R. Odell, publicado no Brasil pela Editora Record (1974), era uma referência para o assunto. Se a grande fonte de energia e de matéria-prima passasse a ser o esgoto doméstico, com certeza os conflitos se transfeririam para outros locais. No Brasil, por exemplo, Congresso Nacional, Palácio dos Bandeirantes, rio Tietê e Baía da Guanabara seriam os alvos mais evidentes, tanto para atentos olhares, quanto para sensíveis narizes.

A nova guerra deflagrada contra o Irã, tendo por adversários beligerantes Israel e Estados Unidos (confesso que não estou bem certo de todas as partes envolvidas até aqui, pois o mapa se amplia a cada notícia que aparece), nos propiciou também um exercício de gramática da língua portuguesa. A imprensa testou os leitores com o uso do sujeito definido, quando informou que o Irã disparou contra Israel, lá matando pessoas, e "optou" pelo sujeito indefinido, quando escreveu em suas páginas que crianças foram mortas no Irã. Interessante que em um caso pôde-se saber exatamente o agente da ação verbal, mas, em outro, os elementos de inteligência jornalística omitiram que se tratava dos mesmos EUA e Israel os sujeitos. A princípio, parecia uma pegadinha de concurso público ou pergunta de sobreviventes programas de perguntas e respostas. Estudiosos dizem que, por certo, foi um excelente exemplo de semiótica, mas não quero afirmar que houve (má) intenção por parte da imprensa, ainda mais ela que se arvora em ser isenta e plural. Abusando dessa indefinição gramatical, dizem por aí que concordar substantivos e adjetivos em relação ao número não é suficiente para ser socialmente plural.

A briga do escritor com verbos e predicados, com substantivos e adjetivos, pode ser violenta, destruidora de folhas impressas e arquivos gravados, ou mesmo causar litericídios, mas, ao que se saiba, não vitimam crianças inocentes. O autor mata um personagem, às vezes até o protagonista encontra o sono eterno, mas não é capaz de ferir a libélula que sorve água da poça d´água formada após a chuva fina em seu quintal. Se espanta moscas, é para lembrar do suor da transpiração, aquela que corresponde a 90% do esforço de criar, completada pelos 10% de inspiração. Não tem a intenção de matá-las. O distanciamento é a arma que usa para se livrar do problema, deixando adagas, sicas e outras belicosidades para outrem. E para não dizer que não falei de poesia, aquela que transgride a gramática sem propriamente assassiná-la, dois livros me chegaram hoje para deleite: "Poesia completa", de Gilka Machado, e "Galáxias", de Haroldo de Campos. Nada mais diferente poderiam ser as duas obras entre si, com dois estilos ímpares, mas não os comentarei, por enquanto. Quero sorvê-los enquanto sorvido pela beligerância mundial a satisfazer um certo doidivanas alaranjado.

Autor: Professor Adilson Roberto Gonçalves – Publicado no Blog dos Três Parágrafos.

BolsoMaster – Meu Banco, Minha Vida!

 

Em cartaz na política e nas páginas policiais, mais uma história de corrupção, lavagem de dinheiro, poder, festas com prostitutas, doação em espécie para campanhas eleitorais e manipulações políticas de toda ordem. A grande mídia, como sempre, não sabia de nada, afinal como em todas as vezes anteriores, o caso envolve apenas e tão somente a escória da direita na política nacional. Sendo assim, não interessa a Globo, Folha de S. Paulo e Estadão.

O esquema BolsoMaster começou muito antes das notícias da insolvência do Banco, ele que era a caixa forte e retaguarda oficial do bolsonarismo. Através de Daniel Vorcaro, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas orquestrou a venda da Sabesp para uma empresa indicada pelo grupo, em agradecimento pelo dinheiro doado a sua campanha em 2022.

O então presidente do Banco Central, o bolsonarista Roberto Campos Neto foi peça chave no esquema, pois segundo reportagem do jornal Valor Econômico, documentos produzidos por técnicos que posteriormente passaram a ser investigados por suposta atuação em favor do controlador do banco, Daniel Vorcaro, contribuíram para afastar a hipótese de liquidação do Master naquele momento.

Em Brasília, o governador Ibaneis segurava as pontas enquanto o Banco Regional de Brasília (BRB) se afundava junto com o Master. Os deputados bolsonaristas sabiam de tudo. Alguns como Nikolas Ferreira usufruíam de voos em jatos de Daniel Vorcaro e teve a campanha eleitoral paga pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel que era pastor da Igreja da Lagoinha, reduto santo dos bolsonaristas.

A lista dos agraciados é enorme, passa pelo fiel escudeiro de Jair Bolsonaro, seu ex-ministro Ciro Nogueira. A maior parte dos políticos de direita receberam dinheiro em forma de propina, empréstimos ou outros favores. Alguns receberam viagens em aviões a jato. O esquema era gigante e, como em tudo que a direita faz, não tem legado, apenas crimes que eles pensavam que ficariam impunes com a vitória de Bolsonaro.

Mas isso não aconteceu e em seu lugar veio o julgamento, a condenação e a prisão em regime fechado. Desde janeiro a Polícia Federal e o Ministério Público Federal avaliam que já existem indícios suficientes para a abertura de uma investigação separada. Essa nova frente apuraria suspeitas de corrupção e possível compra de apoio parlamentar no Congresso Nacional, especialmente no Senado.  

Assim como fez Sérgio Moro em Curitiba, Daniel Vorcaro também usou o método da prostituição para poder atrair políticos em orgias realizadas em Trancoso, na Bahia. Mulheres eram contratadas pela ciceronear políticos, autoridades e pessoas influentes.

Em comum com escândalos anteriores em nosso país temos duas coisas a destacar: 1ª Na corrupção sempre os políticos de direita estão atolados até o pescoço na lama e no dinheiro sujo. 2ª Como nas vezes anteriores, infelizmente a maior parte dos envolvidos não será julgada, condenada e presa em regime fechado. Muitos até irão pedir o voto em outubro e usar a tribuna da Câmara como se fossem honestos a partir de 2027. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

4 de março de 2026

A força e a fraqueza do Deus da guerra Trump e Netanyahu são a prova mais cabal do declínio do Ocidente.

 

A guerra contra o Iran, que já se tornou um conflito regional, tem uma possibilidade real de se alastrar. O ataque mostra a convergência de interesses percebidos como vitais tanto para Israelenses quanto para os americanos. Os americanos querem destruir a infraestrutura energética da China, que precisa tanto do petróleo iraniano, quanto de uma presença real na região para seus interesses globais estratégicos.

Obstruir o acesso de energia a uma potência industrial é um golpe de morte. Foi estrangulando o acesso dos japoneses ao petróleo, que os americanos conseguiram o que procuravam: a entrada dos japoneses – e depois dos americanos – em uma guerra que redefiniria a ordem global inteiramente em favor dos interesses americanos. A semelhança entre as duas situações históricas mostra o perigo real em que estamos correndo hoje em dia.

Israel, por sua vez, quer acabar de vez com o único país da região que pode lhe oferecer uma resistência seria. Com o Iran abatido, Israel teria o caminho aberto ao projeto do “grande Israel”, submetendo todo o Oriente Médio aos seus interesses.

É neste encontro de interesses real que reside o perigo. Trump e Netanyahu são a prova mais cabal do declínio do Ocidente, que mandou no mundo nos últimos 2.500 anos desde a Grécia antiga e Roma. O assim chamado Ocidente – hoje a soma do que era a OTAN e Israel – retirava seu prestígio da sua moralidade percebida e reconhecida por quase todos como superior.

Os símbolos mais visíveis desse prestígio são a democracia, a imprensa livre (sic), a ciência, o Direito e a proteção à esfera individual. Todas elas criações do Ocidente. Enquanto a Europa e os EUA podiam se apresentar como materialização deste espírito, a dominação era antes de tudo cultural, possibilitada pela percepção do resto do mundo como inferior. O poderio militar funcionava como uma última espécie de intimidação final, quando o resto tivesse falhado.

O genocídio palestino, assistido, desvirtuado e negado tanto pela Europa quanto pelos Estados Unidos, enquanto o maior genocídio do século XXI contra um povo indefeso era perpetrado aos olhos de todos, quebrou qualquer possibilidade de manter a suposta “superioridade moral do Ocidente” intacta. Tudo que antes era “orgulho civilizatório” é agora símbolo de cinismo e mentira.

É isso que explica que o uso abusivo da força militar não seja força real, mas, sim, fraqueza de um domínio baseado unicamente na força e na violência, que não convence mais ninguém que representa valores universais. Desse modo, comandado por dois criminosos contumazes, o perigo de uma guerra total é real. 

Autor: Jessé Souza - Escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os best-sellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA. Publicado no Site ICL Notícias.

Jeferson Miola: O mundo sob o domínio do banditismo fascista e nazisionista.

 

No primeiro ano deste segundo mandato, Trump já bombardeou sete países – Somália, Iraque, Iêmen, Nigéria, Síria, Venezuela e Irã, atacado duas vezes. Acabou a funcionalidade da diplomacia.

A ONU é hoje um cartório protocolar para a mera anotação memorial do gangsterismo e do banditismo de Trump e Netanyahu, este último elemento um fugitivo de mandado de prisão do TPI.

A força militar seria a única maneira capaz de deter as ações criminosas dos EUA e de Israel contra países e povos soberanos. Apenas outras duas potências militares poderiam exercer algum poder de dissuasão: a Rússia; e, em menor proporção, a China.

No entanto, não foi pelos palestinos, vítimas de genocídio, e por Gaza, sede do Holocausto do século 21, que China e Rússia decidiram peitar Trump para correr o risco da terceira guerra mundial. Essa que seria uma guerra de dimensões catastróficas imponderáveis.

Tampouco foi pela Venezuela, como seria esperável, dado o intenso relacionamento do país caribenho - sul-americano com China e Rússia.

E, ao que tudo indica, também não será pelo Irã que China e Rússia assumirão protagonismo militar para deter os EUA e Israel. No máximo, empregarão retóricas mais duras e contundentes. E ficamos por aí, por enquanto.

Considerando essa paisagem, nem é preciso grande esforço analítico para inferir que Cuba tem enormes chances de ser a próxima Gaza. Sem a existência de um sistema mínimo de pesos e contrapesos, a lei internacional foi morta, e os Hitlers redivivos avançam livres e desimpedidos para levar o mundo a uma explosão total.

A narrativa da mídia hegemônica, legitimadora do ataque criminoso dos EUA e de Israel ao Irã, é asquerosa, para não dizer vomitável. A culpa pelo ataque é do Irã, repetem, que é tão culpado pela agressão imperial quanto a Venezuela, Cuba ….

Nesta toada, com sua “ditadura do judiciário” e seu “governo comunista” que ofendeu a tradição judaico-cristã e esfriou relações diplomáticas com o Estado nazisionista de Israel, o Brasil também poderá ser alvo de ataques criminosos da potência imperial e do sionismo. Eventual ataque ao Brasil poderá acontecer, por exemplo, na eleição. E seria um bombardeio via big techs e plataformas digitais.

Não menos nojento que a posição editorial anti-Irã / anti-Persa da mídia hegemônica, é a vassalagem obscena de líderes europeus. Macron/França, Merz/Alemanha, e Starmer/Reino unido, se superaram. Condenaram o Irã, a vítima, e aplaudiram os dois países párias do mundo. E os vassalos foram ainda mais longe: perfilaram suas capacidades bélicas ao lado de Trump e de Netanyahu, para serem cúmplices da destruição devastadora do Irã.

A lei internacional foi definitivamente morta, e o mundo está sob o domínio do banditismo fascista e nazisionista. Vassalos europeus desse banditismo são tão criminosos quanto, uma vez que que cúmplices e coautores. 

Autor: Jeferson Miola – Publicado no Site VioMundo.