Imagem: Fernando Redondo.
Documentos
da Operação Cavalo de Troia apontam suspeitas de uma engrenagem que conectava
interesses empresariais, decisões administrativas, articulação política e
pagamentos na concessão bilionária de Bauru.
Uma
licitação pode começar a ser comprometida muito antes de alguém apresentar uma
proposta. Basta que o interessado em vencer consiga participar da escolha das
regras pelas quais será julgado. Os envelopes chegam depois. A vantagem pode
estar pronta antes.
É essa a
questão que emerge dos documentos da Operação Cavalo de Troia, em Bauru.
Segundo o Ministério Público, interesses ligados à Estre Ambiental teriam
penetrado na preparação da concessão dos resíduos sólidos, alcançando estudos,
modelagem, documentos jurídicos e respostas aos questionamentos apresentados ao
procedimento.
Estamos
falando de um empreendimento projetado para 30 anos, com contraprestações
estimadas em R$ 5,259 bilhões. Atenção ao significado do número: é o valor
previsto da concessão, não uma quantia comprovadamente desviada. A cifra
dispensa exageros. Três décadas de compromissos públicos já justificam
perguntas que nenhum governo deveria considerar inconvenientes.
A
primeira delas é elementar: quem estava, de fato, trabalhando para quem?
Na
narrativa do Gaeco, Hamilton Libório Agle coordenava os interesses
empresariais. Cilene Chabuh Bordezan, então secretária de Meio Ambiente,
funcionava como ligação com a Prefeitura. Talita Chieregatti participava da
operação empresarial e documental; Sara Moura, das providências internas da
administração. Mário Luiz Silvério forneceria a chancela técnica vinculada à
FIPE, enquanto Vitor João de Freitas Costa daria sustentação jurídica aos atos.
Perceba o
leitor a dimensão do problema. Uma administração contrata assessoramento
técnico para obter uma avaliação independente. Se a empresa interessada no
futuro contrato influencia aquilo que será apresentado como avaliação
independente, o parecer conserva o papel timbrado, mas perde sua razão de
existir.
A técnica
vira argumento de autoridade. O carimbo continua respeitável. Falta saber quem
segurava a caneta. O desdobramento mais recente da investigação acrescentou a
essa estrutura a atuação de Renato Purini, então secretário de Governo e marido
da prefeita Suéllen Rosim.
As
mensagens reproduzidas pelo Ministério Público mostram Purini acompanhando a
votação do projeto que autorizou a concessão. A sessão atravessou a madrugada e
terminou, em primeiro turno, às 5h40 de 9 de dezembro de 2025: onze votos a
nove. Em conversa com Cilene, ele afirmou estar pressionando vereadores e
relatou: “Segurei 2 no estacionamento indo embora”. Acrescentou que mantinha
uma pessoa na porta para essa finalidade.
Articular
votos faz parte da política. O cargo de secretário de Governo inclui
interlocução com o Legislativo. O interesse jornalístico está em descobrir a
finalidade concreta dessa mobilização e sua eventual relação com as cobranças
financeiras identificadas nas demais mensagens. É aí que a história deixa de
caber na explicação confortável de que se tratava apenas de defender um projeto
da administração.
Segundo o
Gaeco, Purini indicou o advogado M. L. C. ao núcleo empresarial e acompanhou
tratativas e pagamentos formalizados como serviços jurídicos. O Ministério
Público aponta elementos de emissão e pagamento de uma nota fiscal de R$ 750
mil, cobrança adicional de R$ 90 mil e referências a uma obrigação recorrente.
Na
reconstrução apresentada pelos investigadores, Cilene transmitia demandas,
Hamilton autorizava ou confirmava pagamentos, Talita providenciava os
instrumentos documentais, Ricardo Sottomayor executava operações financeiras e
M. L. C. figurava como recebedor formal e possível intermediário.
A
investigação precisa demonstrar o percurso completo desses recursos. O próprio
MP reconhece que os beneficiários finais, a distribuição das quantias e o valor
global ainda exigem aprofundamento. Mas há uma pergunta que já pode ser feita,
sem licença de ninguém: quais serviços justificavam esses pagamentos?
Serviço
jurídico tem objeto. Tem trabalho produzido. Tem correspondência entre
contratação, execução e remuneração. A resposta precisa aparecer nos
documentos, com datas, entregas e responsáveis. Os R$ 90 mil correspondem
exatamente a 12% dos R$ 750 mil. Nas conversas examinadas, o percentual surge
associado à palavra “imposto”. O Gaeco sustenta que o cruzamento das mensagens
permite identificar cobranças financeiras por trás de expressões aparentemente
relacionadas a assuntos jurídicos.
A
aritmética fecha. A investigação terá de fechar o caminho do dinheiro. Em
decisão de 15 de outubro, a Justiça decretou a prisão preventiva de Purini e
aplicou medidas cautelares a M. L. C. e Sottomayor. Trata-se de uma decisão
fundada em indícios e riscos apontados para a investigação, não de uma
condenação. A
precisão importa. Uma acusação consistente não precisa de sentença antecipada
para ser grave. Também não precisa de culpados por parentesco. O Ministério
Público e a decisão examinada registram que Suéllen Rosim não figura como
investigada nos fatos ali delimitados. Ser esposa de Purini não transfere à
prefeita a responsabilidade penal pelos atos atribuídos a ele.
Já a
responsabilidade pela condução do governo exige outro conjunto de respostas. Quem
verificou os vínculos dos responsáveis pelos estudos? Que controles foram
aplicados às nomeações? Quem conferiu a independência da consultoria? Como
foram avaliadas as impugnações? Quais informações chegaram à Câmara antes de
seus integrantes autorizarem um compromisso dessa dimensão?
À
Comissão Processante, Suéllen afirmou que não recebeu alertas prévios sobre
irregularidades, classificou seus contatos com Hamilton como institucionais e
disse que as etapas técnicas eram conduzidas pelas estruturas responsáveis. A
explicação precisa ser confrontada com os registros administrativos. Delegar
tarefas faz parte de governar. Demonstrar como essas tarefas eram
supervisionadas também. Se tantos
setores participavam do procedimento, a Prefeitura deve conseguir apresentar os
controles exercidos por cada um. A divisão de responsabilidades precisa
permitir identificar quem decidiu. Do contrário, corre o risco de se
transformar numa divisão de desculpas.
A Câmara
tampouco pode encerrar sua participação na contagem dos votos. Votar a favor da
concessão não comprova recebimento de vantagem. Votar contra não dispensa o
exame de uma suspeita financeira. A investigação deve seguir atos e documentos,
sem conceder imunidade a aliados nem fabricar culpa para adversários.
Isso
vale, inclusive, para Estela Almagro. O processo reproduz conversas sobre um
suposto custeio de viagem ligado à expectativa de sua ausência da sessão. O MP
ressalva que esse possível repasse e sua finalidade precisam de confirmação
independente. Outro registro contém uma afirmação de Hamilton sobre pagar
aluguel da vereadora. A fala existe na transcrição; a comprovação financeira
dessa alegação não está estabelecida nos trechos examinados.
Essas
referências exigem esclarecimentos e documentos. A oposição de Estela à
concessão deve ser registrada, assim como devem ser apuradas as afirmações
feitas a seu respeito. Jornalismo perde sua utilidade quando escolhe
previamente quem pode ser questionado. O mesmo critério vale para as
referências à imprensa. Conversas entre Hamilton e Cilene revelam interesse em
construir relações capazes de ajudar o grupo em momentos de dificuldade. Há
relatos sobre aproximação com o jornalista Jabbour.
A
expectativa dos interlocutores não comprova adesão do jornalista a qualquer
irregularidade. Revela, porém, como eles enxergavam a utilidade de uma relação
com a imprensa. Cabe apurar os contatos e ouvir os citados, sem transformar a
presunção de influência de uma fonte em prova de submissão de uma redação. O
interesse público desta história está justamente nas conexões: quem produzia a
informação, quem a legitimava, quem a transformava em decisão e quem poderia
ganhar com o resultado.
Bauru
precisa conhecer o trabalho existente por trás de cada parecer, contrato,
aditivo e nota fiscal. Precisa saber se as instituições encarregadas de
proteger o Município preservaram sua independência ou foram utilizadas para dar
aparência pública a interesses privados. A coleta de lixo é um serviço
essencial. A concessão, uma escolha de política pública sujeitam a debate,
controle e fiscalização. Nenhuma das duas coisas pode servir de salvo-conduto
para relações que a administração não consiga explicar. Trinta anos são tempo
demais para aceitar respostas vagas. E R$ 5,259 bilhões são dinheiro público
demais para que a pergunta mais simples continue sem resposta: quem escrevia as
regras — e a serviço de quem?
Autor: Fernando
Redondo – Jornalismo investigativo e independente.