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17 de agosto de 2026

Formar leitores deveria ser tratado como prioridade nacional, ano após ano

  

Crédito Brasil 247 - DALL-E.

Metade dos jovens brasileiros não alcança compreensão básica de leitura; distribuir livros, fortalecer bibliotecas e mobilizar televisão, rádio e cinema exige prioridade pública imediata e permanente.

Uma criança brasileira de 11 ou 12 anos pode ler uma página inteira, pronunciar cada palavra corretamente e chegar ao ponto final sem compreender o que acabou de ler. É como atravessar uma cidade reconhecendo todas as placas e permanecer incapaz de localizar a própria rua. Quando isso acontece em escala nacional, o problema deixa de pertencer apenas à escola: ele compromete a capacidade futura de trabalhar, votar, decidir, desconfiar, argumentar e compreender a própria vida. Essa imagem descreve uma falha educacional de grande alcance. Ler exige construir relações, perceber intenções, compreender causas, identificar contradições, reconhecer sentidos e formular perguntas. Uma criança que identifica palavras, mas não alcança o pensamento contido nelas, terá menos instrumentos para interpretar injustiça, medo, autoridade, amizade, manipulação, escolha e os acontecimentos que começam a organizar sua própria experiência.

Os dados divulgados pelo Inep em agosto de 2026 registram alguma melhora, embora permaneçam muito abaixo do que um país com mais de 200 milhões de habitantes deveria aceitar. O Ideb — Índice de Desenvolvimento da Educação Básica — do ensino médio passou de 4,3, em 2023, para 4,5, em 2025, numa escala de zero a dez. O índice reúne aprendizagem medida pelo Saeb e progressão escolar.

A elevação de dois décimos precisa ser reconhecida sem indulgência. Uma nota de 4,5, nessa escala, revela a distância que ainda separa o país de um padrão educacional compatível com suas necessidades. Educação lida com infância, adolescência e tempo humano. Uma criança que chega aos 12 anos compreendendo mal aquilo que lê terá de recuperar mais tarde, com dificuldade muito maior, um repertório que deveria estar sendo consolidado justamente agora.

O tamanho do atraso

O Saeb — Sistema de Avaliação da Educação Básica — oferece outra medida da aprendizagem. Em 2025, no terceiro ano do ensino médio, a média de língua portuguesa chegou a 272,3 pontos e a de matemática, a 268, numa escala de zero a 500. Em 2023, os resultados eram de 269,1 em português e 263,9 em matemática.

O avanço foi de 3,2 pontos em língua portuguesa e 4,1 em matemática. A melhora existe, mas sua lentidão deveria provocar reação muito mais severa. Milhões de adolescentes chegarão ao fim da educação básica antes que aumentos dessa magnitude consigam alterar estruturalmente o quadro nacional. Para cada geração escolar, o relógio corre uma única vez.

O país conhece esse problema há décadas. Reformas curriculares foram anunciadas, governos se sucederam, ministros chegaram e partiram, programas receberam nomes novos, metas foram revistas e tecnologias entraram nas salas de aula. Mesmo assim, a insuficiência da aprendizagem atravessou sucessivas gerações e chegou a 2026 ainda capaz de limitar a formação de milhões de crianças e adolescentes. Essa permanência deveria constranger mais do que habituar. Problemas públicos persistentes precisam ser enfrentados até que deixem de existir em escala socialmente intolerável. Educação exige continuidade administrativa, recursos bem utilizados, formação docente, avaliação independente e disposição política para assumir responsabilidades.

Empurrar o problema de uma geração para outra apenas transforma atraso em herança. Cada ciclo escolar perdido acrescenta milhões de brasileiros ao contingente daqueles que chegarão à vida adulta com menor autonomia intelectual. O prejuízo não termina no boletim escolar. Ele acompanha decisões profissionais, escolhas econômicas, participação política, relações de trabalho e a capacidade de cada pessoa de compreender aquilo que outros dizem, prometem, vendem ou tentam impor.

Metade ficou para trás

O PISA de 2022 amplia a dimensão dessa deficiência. Apenas 50% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram pelo menos o nível básico de leitura definido pela OCDE. Esse patamar significa conseguir identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, localizar informações relevantes, estabelecer relações simples entre partes do texto e compreender sua finalidade geral. A média dos países da organização chegou a 74%.

Metade dos adolescentes brasileiros avaliados ficou abaixo desse nível justamente quando se aproxima do voto, do primeiro emprego, do crédito, da escolha profissional e das decisões que começarão a organizar sua vida adulta. Trata-se de jovens que poderão ler uma página inteira e ainda encontrar dificuldade para compreender com segurança aquilo que ela pretende informar, provar ou esconder. A gravidade aumenta quando observamos os níveis superiores. Somente 2% dos estudantes brasileiros chegaram aos patamares em que se exige compreensão de textos extensos, capacidade de lidar com conceitos abstratos, interpretação de informações implícitas e distinção mais refinada entre fato e opinião.

Dois em cada cem. Essa proporção revela a estreiteza da base sobre a qual pretendemos construir universidades, ciência, inovação, jornalismo de qualidade, administração pública competente e participação democrática madura. Nenhuma sociedade pode aspirar a protagonismo econômico duradouro formando parcela tão pequena de jovens capaz de enfrentar textos intelectualmente mais exigentes. Em matemática, o quadro é ainda mais severo. Apenas 27% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível mínimo de proficiência, entendido como a capacidade de representar matematicamente situações simples, reconhecer relações quantitativas básicas e utilizar operações para resolver problemas concretos. A média da OCDE foi de 69%.

Em ciências, 45% chegaram ao patamar básico, que envolve reconhecer explicações científicas simples, interpretar informações elementares e relacionar evidências a conclusões. Nos países da OCDE, a média alcançou 76%. Setenta e três em cada cem adolescentes brasileiros avaliados ficaram abaixo do nível mínimo em matemática. Eles viverão numa sociedade organizada por juros, porcentagens, financiamentos, impostos, estatísticas, algoritmos e pesquisas. A precariedade da aprendizagem deixa a sala de aula com esses jovens e reaparece depois no banco, no trabalho, no consumo, na aposentadoria e nas urnas.

Quem compreende mal porcentagens pode contratar crédito predatório. Quem interpreta inadequadamente um gráfico pode aceitar uma conclusão falsa. Quem desconhece fundamentos científicos pode confundir opinião com evidência. Quem possui repertório restrito encontra maior dificuldade para reconhecer manipulação política, publicidade abusiva e fraude financeira. O déficit educacional reaparece, anos depois, sob a forma de endividamento, desinformação e dependência.

Países que reagiram

O Japão decidiu enfrentar a formação do leitor como política nacional. Desde 2001 possui legislação voltada à promoção da leitura entre crianças e jovens, acompanhada por programas que aproximam escolas, bibliotecas, famílias e comunidades. A leitura foi incorporada ao planejamento educacional do país e permaneceu como responsabilidade pública ao longo de diferentes governos.

No PISA de 2022, 86% dos estudantes japoneses atingiram pelo menos o nível básico de leitura: compreenderam a ideia central de textos moderados, localizaram informações relevantes, estabeleceram relações entre trechos e identificaram sua finalidade geral. No Brasil, chegaram a esse patamar apenas 50%. Outros 12% dos estudantes japoneses alcançaram os níveis mais elevados, nos quais aparecem compreensão de textos extensos, interpretação de informações implícitas e raciocínio sobre conceitos abstratos. O país acompanha inclusive quantas crianças passam um mês inteiro sem abrir um livro, transformando o hábito de leitura em indicador de política educacional.

A distância de 36 pontos percentuais entre Japão e Brasil representa muito mais do que posição num ranking. Significa milhões de jovens chegando à vida adulta com capacidades muito diferentes para interpretar contratos, acompanhar debates públicos, compreender informações complexas e formular perguntas próprias. Uma sociedade acumula esse patrimônio durante décadas; outra paga, durante décadas, pelo que deixou de construir. A Noruega oferece uma lição diferente. Depois de perceber deterioração nos indicadores de leitura, o governo reagiu com uma estratégia nacional lançada em 2024 e planejada até 2030. O programa Together for Reading fortalece bibliotecas escolares, amplia aquisição de literatura, desenvolve ações durante férias e procura aproximar crianças e adolescentes dos livros.

No PISA de 2022, 73% dos estudantes noruegueses atingiram o nível básico de leitura — capacidade de compreender a ideia principal de um texto moderado, localizar informações relevantes e interpretar seu sentido geral. O resultado sofreu queda e ficou próximo da média da OCDE, o suficiente para produzir reação política.

A atitude norueguesa oferece ao Brasil uma lição direta. Um país que identifica deterioração educacional estabelece prioridades, mobiliza instituições, fixa horizonte de ação e tenta interromper o processo antes que seus efeitos se instalem na vida de uma geração. A Espanha acrescenta outra experiência. O Barômetro de Hábitos de Leitura divulgado pelo governo em 2026 mostrou que 69,8% da população com mais de 14 anos lia livros e 66,2% declaravam ler por prazer. Entre jovens de 14 a 24 anos, o índice de leitura voluntária chegou a 76,9%.

No PISA de 2022, 76% dos estudantes espanhóis atingiram pelo menos o nível básico de leitura, o que significa identificar a ideia principal de um texto moderado, localizar informações e compreender sua finalidade. O resultado ficou 26 pontos percentuais acima do brasileiro. Japão, Noruega e Espanha possuem histórias, economias e modelos educacionais diferentes. A convergência aparece na decisão política: os três tratam leitura como responsabilidade coletiva e permanente. Escolas, bibliotecas, governos, famílias e instituições culturais integram um esforço que ultrapassa o calendário eleitoral e independe da inspiração passageira de um ministro.

A pobreza lê menos

No Brasil, o acesso ao livro continua profundamente marcado pela renda. Uma criança que cresce cercada de livros, jornais, conversas, repertório cultural e adultos escolarizados recebe milhares de estímulos que antecedem a escola e prosseguem depois dela.

Outra criança vive numa casa onde comprar um livro pode significar retirar dinheiro da alimentação, do transporte, do gás ou de um medicamento. Para essa família, a escola, a biblioteca pública e as políticas de acesso à cultura deixam de ser recursos adicionais e passam a ocupar posição decisiva na formação intelectual. No PISA, os 25% de estudantes brasileiros socioeconomicamente mais favorecidos superaram os 25% mais pobres por 77 pontos na avaliação de matemática. A diferença econômica se transforma em diferença educacional por meio do vocabulário disponível, do ambiente de estudo, da escolaridade dos adultos, do repertório cultural e das expectativas construídas dentro de casa.

Nenhuma criança escolhe a renda dos pais, o bairro onde nasce, a escolaridade da família ou a quantidade de livros existentes numa estante. Uma sociedade que permite que essas circunstâncias determinem tão cedo o alcance da aprendizagem aceita que o acaso do nascimento continue organizando parte importante do futuro. Esse é um dos aspectos mais duros da desigualdade brasileira. O país já sabe que crianças pobres começam a corrida educacional alguns metros atrás das demais e continua discutindo o problema como se desconhecesse o ponto de partida. A política pública precisa entrar justamente onde a desigualdade nasce e oferecer aquilo que a renda familiar, sozinha, não consegue oferecer.

Livros dentro de casa

Defendo a criação de um programa nacional capaz de colocar três livros por ano dentro das casas das famílias brasileiras de menor renda, com prioridade para aquelas inscritas no Cadastro Único e atendidas pelo Bolsa Família e pelo Minha Casa, Minha Vida.

A seleção exigiria independência, pluralidade e critérios públicos. Pedagogos, especialistas em literatura, história do Brasil, educação cidadã e inclusão social participariam ao lado de universidades, bibliotecas, instituições culturais e representantes da sociedade civil. O programa precisaria ter proteção institucional suficiente para impedir que cada governo o transformasse em instrumento de propaganda. Uma obra poderia pertencer à literatura brasileira; outra ajudaria a compreender a formação histórica do país; a terceira trataria de cidadania, ciência, economia doméstica, tecnologia, saúde ou direitos fundamentais. Os títulos mudariam periodicamente e contemplariam diversidade regional, racial, cultural e geracional.

A entrega desses livros deveria constituir o início da política. O livro precisa aparecer onde as pessoas vivem, circulam, esperam atendimento, se divertem e convivem. Se o objetivo é formar leitores, o país terá de disputar atenção também fora das salas de aula. Por que não aproveitar campanhas nacionais de vacinação para distribuir livros às famílias atendidas? Postos de saúde recebem milhões de brasileiros, alcançam municípios grandes e pequenos e já integram a rotina das comunidades. Uma mãe poderia sair da vacinação do filho levando também uma obra de literatura infantil ou juvenil escolhida para aquela faixa etária.

A associação possui força prática. O país mobiliza recursos gigantescos para proteger o corpo das crianças contra doenças e pode mobilizar parte dessa capacidade para ampliar imaginação, linguagem e capacidade crítica. Saúde e educação pertencem à mesma ideia de desenvolvimento humano. Emissoras de televisão e rádio de alcance nacional poderiam integrar campanhas permanentes de valorização da leitura. Artistas, escritores, atletas, músicos, atores e comunicadores falariam a crianças e jovens utilizando linguagem contemporânea, sem transformar o livro numa obrigação ou repetir discursos escolares que raramente despertam desejo. A publicidade brasileira sabe vender automóveis, bancos, refrigerantes, apostas, celulares e plataformas digitais utilizando recursos narrativos sofisticados. Pode empregar a mesma criatividade para tornar o livro desejável, apresentar personagens inesquecíveis, mostrar o prazer da descoberta e associar leitura a independência, imaginação e inteligência.

Os cinemas oferecem outra possibilidade pouco explorada. Pequenos filmes de 30 ou 40 segundos poderiam ser exibidos antes das sessões, utilizando a própria linguagem audiovisual para conduzir o espectador à literatura. Um adolescente poderia ver uma porta se abrir para sucessivos universos cada vez que uma página fosse virada; uma criança poderia descobrir que personagens separados por séculos conheceram medos semelhantes aos seus.

Esses filmes precisariam ser rápidos, belos e marcantes. O objetivo seria deixar uma imagem na memória, produzir curiosidade e fazer com que algum jovem saísse da sala querendo encontrar o livro mencionado. O cinema sempre viveu de histórias; aproximá-lo da literatura significa recuperar uma de suas fontes mais antigas. Rádios comunitárias poderiam organizar leituras breves e conversas com escritores. Bibliotecas municipais promoveriam encontros relacionados aos títulos distribuídos. Universidades ajudariam a formar mediadores e avaliariam resultados. Clubes de futebol, feiras literárias, estações de metrô e terminais rodoviários também poderiam participar de campanhas nacionais.

Audiolivros explicariam e meandrariam o acesso para pessoas com deficiência visual, idosos e adultos em alfabetização. Versões digitais fariam as obras circular por celulares sem eliminar a importância do objeto físico dentro da casa. O livro impresso permanece disponível sobre a mesa, passa de uma pessoa para outra e pode ser reencontrado muitos anos depois.

Três livros anuais parecem poucos diante do tamanho da deficiência brasileira. Em uma década seriam trinta volumes. Para milhões de famílias, poderia surgir assim a primeira biblioteca doméstica de sua história. Uma criança que entrasse no programa aos oito anos encontraria novos livros dentro de casa durante toda a adolescência. Irmãos menores os leriam depois. Pais e avós poderiam fazer o mesmo. Cada exemplar teria uma vida muito superior ao momento de sua entrega. O Brasil conhece políticas públicas de grande escala. Distribui livros didáticos, medicamentos e alimentação escolar, transfere renda e administra sistemas capazes de alcançar milhões de cidadãos. Falta tratar o acesso ao patrimônio intelectual com ambição proporcional ao déficit acumulado.

O tempo acabou

A inteligência artificial elevou ainda mais a urgência. Um adolescente consegue hoje pedir a uma máquina uma redação sobre Machado de Assis, uma explicação da Revolução Francesa, a solução de uma equação ou o resumo de uma obra que jamais abriu. A tecnologia coloca respostas complexas diante de alguém que pode ainda não possuir instrumentos suficientes para avaliá-las. Um jovem com formação leitora precária terá maior dificuldade para perceber uma referência inventada, uma simplificação histórica, um número sem contexto ou uma conclusão elaborada sobre premissas falsas.

A leitura prolongada oferece aquilo que a resposta instantânea tende a dispensar: tempo para acompanhar raciocínios, conservar informações anteriores, perceber mudanças de perspectiva, conviver com ambiguidades e compreender que certas questões humanas não cabem numa frase, numa tela ou num resumo. A dimensão humanística também precisa ser preservada. A literatura oferece palavras para medo, perda, inveja, amizade, coragem, humilhação, fracasso, injustiça e esperança. Uma criança que amplia sua linguagem adquire melhores condições para compreender o mundo exterior e para reconhecer aquilo que acontece dentro de si.

Os avanços recentes do Ideb e do Saeb precisam continuar, mas a velocidade atual está muito distante da urgência brasileira. Melhorar dois décimos num indicador ou poucos pontos numa avaliação nacional possui valor, porém milhões de estudantes continuam atravessando a escola enquanto o país espera que curvas estatísticas façam lentamente aquilo que políticas vigorosas deveriam acelerar.

O Brasil já adiou demais essa responsabilidade. Avós estudaram em escolas precárias, seus filhos enfrentaram deficiências semelhantes e muitos netos permanecem hoje submetidos a problemas que o país conhece há décadas. Uma dificuldade que atravessa três gerações já não pode ser tratada como diagnóstico recente. Cada criança possui apenas uma infância. Cada adolescente atravessa uma única vez os anos decisivos em que linguagem, curiosidade, repertório e raciocínio ganham forma. É assim e sempre será assim. O Estado pode recuperar uma estrada, reconstruir uma ponte e refazer um orçamento; não consegue devolver a alguém os 12 anos de idade que ficaram para trás.

O Brasil já perdeu tempo demais tratando essa deficiência como uma dificuldade crônica com a qual seria possível conviver. Cada criança que atravessa a escola sem aprender a compreender um texto representa uma responsabilidade pública que não poderá ser transferida indefinidamente à geração seguinte. Aos 11 ou 12 anos, ela já deveria estar descobrindo muito mais que o significado das palavras: deveria estar aprendendo a reconhecer interesses, interpretar o mundo, formular perguntas e construir pensamento próprio.

Se continuarmos entregando diplomas sem entregar essas capacidades, estaremos certificando escolaridade enquanto condenamos milhões de brasileiros a entrar na vida adulta intelectualmente desarmados. É esse o futuro que queremos? 

Autor: Washington Araújo - Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética é Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com. Publicado no Site Brasil 247.

16 de agosto de 2026

Mérito silenciado!

             Durante séculos, a humanidade ergueu obstáculos artificiais ao progresso intelectual. A própria ciência, que deveria representar liberdade de investigação e compromisso com a verdade, frequentemente se submeteu aos preconceitos de cada época. Mulheres foram impedidas de votar, frequentar universidades, exercer a medicina ou participar oficialmente de expedições científicas; faltava-lhes reconhecimento social.

No século XVIII, Jeanne Baret precisou disfarçar-se de homem para integrar uma expedição científica francesa. Ao lado do botânico Philibert Commerson, participou de uma viagem de circum-navegação e colaborou decisivamente na coleta e no estudo de numerosas espécies vegetais, entre elas a planta conhecida entre nós como primavera ou buganvília. Apesar disso, sua contribuição permaneceu por muito tempo quase invisível nos registros históricos.

No século XIX, James Barry enfrentou barreiras semelhantes. Designado mulher ao nascer, viveu publicamente como homem, formou-se em medicina e ingressou no exército britânico. Tornou-se respeitado cirurgião, promoveu avanços na medicina militar e alcançou uma posição que dificilmente seria concedida a uma mulher naquela época.

Os dois episódios revelam uma constante da história humana: o preconceito atrasa o progresso não pela ausência de prova, mas pela resistência em abandonar antigas convenções. Quantas inteligências forma silenciadas? Quantas contribuições deixaram de florescer porque a sociedade preferiu preservar aparências a reconhecer capacidades?

Essa resistência não atingiu apenas as mulheres. Descobertas científicas foram ridicularizadas e pesquisadores combatidos por contrariarem as crenças dominantes. Galileu Galilei, Pasteur e tantos outros enfrentaram incompreensão antes que seus méritos fossem reconhecidos.

O preconceito raramente combate apenas pessoas ou teorias; combate, sobretudo, transformações. Muitas vezes, a humanidade prefere conservar erros antigos a admitir verdade novas. Por isso, o progresso intelectual nem sempre acompanha o progresso moral.

Ao defender a fé raciocinada, o Espiritismo estabelece profundo diálogo com a ciência. Ambos convidam o homem a libertar-se dos preconceitos para examinar a verdade com maior profundidade e humildade.

O verdadeiro conhecimento exige inteligência, mas igualmente coragem moral para rever convicções e admitir novos horizontes. Nenhuma verdade deve ser rejeitada em razão do sexo, da origem ou da identidade de quem a apresenta. 

Autor: Sidney Fernandes – Coluna Espírita – Publicado no JC Net Bauru.

11 de agosto de 2026

Dez anos de falência democrática. Por Luis Felipe Miguel

          Dilma Rousseff em 2016, durante o processo de impeachment. Foto Divulgação.

Hoje, completam-se 10 anos desde que a presidente Dilma Rousseff teve que se afastar da presidência da República, deixando o cargo para Michel Temer. Meses depois, em 31 de agosto, o Senado aprovaria o impeachment, sacramentando que seu afastamento era definitivo.

A deposição de Dilma atende por um nome preciso: golpe. Um dos golpes de novo tipo, que se tornaram frequentes, em que instrumentos legais, como o instituto do impeachment, são desvirtuados para afastar dos cargos de poder pessoas e grupos que se tornaram indesejados.

O impeachment foi levado adiante por um pretexto (as “pedaladas fiscais”). Todo mundo sabia que era um pretexto (e, posteriormente, o Tribunal de Contas da União viria a confirmar). No desenrolar do processo, mal se falava delas. Falava-se de “conjunto da obra”, dizia-se que a popularidade de Dilma estava baixa demais para que ela pudesse continuar na presidência da República, evocavam-se os valores familiares. E, sobretudo, a quadrilha de Sérgio Moro estava em operação.

Uma triangulação entre os juízes e procuradores corruptos da Lava Jato, a imprensa corporativa e as fábricas de notícias falsas manejadas pela direita alimentava um clima de opinião contrário a Lula, ao PT e à presidente. Era o triplex, era o pedalinho, eram os vazamentos marotos. Cada boato virava uma manchete, cada manchete virava uma investigação. Com o Supremo, com tudo. No Jornal Nacional, William Bonner desfiava mentiras com voz soturna, com a imagem do esgoto de dinheiro atrás.

Era para destruir Lula, o PT, a esquerda e Dilma – para sempre. Impossível enfrentar o tsunami, sobretudo diante do caráter desmobilizador do lulismo. Como François Andrieux disse a Napoleão, “on ne s’appuie que sur ce qui résiste”: só nos apoiamos sobre o que resiste. A base popular não sabia resistir, logo não servia de apoio. O lulismo tinha ensinado que a única forma de expressão política era o voto.

Não que o governo fosse bom. Emparedada pelos donos do poder no Brasil, Dilma resolveu, no seu segundo mandato, promover um ajuste fiscal antipopular, que minava o diferencial dos governos petistas (as políticas compensatórias em favor dos mais pobres) e que estava em contradição absoluta com o que havia prometido na campanha, sobretudo no segundo turno. Quem quer que defendesse a democracia no Brasil, naquele momento, tinha a obrigação de lutar pela continuidade do mandato da presidente legitimamente eleita. Mas era difícil.

Sempre lembro das faixas as manifestações do campo democrático: “Fica, Dilma, mas melhora”. É preciso muita sofisticação política para chegar nessa posição, de defender um governo do qual não se gosta. Mas foi o que fizemos – e fomos, como se sabe, fragorosamente derrotados.

O golpe foi a culminação da estratégia inaugurada pelo candidato derrotado da direita, Aécio Neves, que declarou, celebremente, que estava apenas querendo “encher o saco” quando iniciou um pedido de cassação da chapa vencedora no Superior Tribunal Eleitoral. O que aconteceu foi que a direita brasileira percebeu que, naquele momento, não era capaz de chegar ao poder pela eleição. Afinal, com o mais absurdo cerco da imprensa corporativa, com as maquinações da conspiração Lava Jato funcionando a todo vapor, com a baixaria no máximo, depois do baque de 2013, com a economia periclitando, Dilma, ainda assim, foi capaz de se reeleger. Decidiram, então, que era hora de romper com as regras do jogo, de virar a mesa. E foi o que fizeram.

No processo, deram à luz uma direita competitiva eleitoralmente. O PSDB foi imolado na fogueira de sua própria tentação golpista, para dar lugar ao bolsonarismo.

De fato, o caso do Brasil mostra com perfeição como as classes dominantes estimulam o surgimento de uma direita mucho loca. De fato, não são poucas as semelhanças com a ascensão do nazismo na Alemanha, tal como descrita pelo historiador francês Johann Chapoutot, em seu recente livro Les irresponsables.

A extrema-direita foi colocada nas ruas para aumentar a pressão em favor da deposição de Dilma. Ela podia também manipular o discurso antissistêmico, necessário para a agitação golpista, mas que casava mal com figuras como Aécio Neves, Michel Temer ou José Serra.

                                       A ex-presidente Dilma. Foto Divulgação. 

A expectativa era que, consumada a deposição da presidente, os cães hidrófobos seriam recolhidos de novo ao canil. O governo do usurpador serve de ilustração. Os extremistas foram importantes na mobilização, mas ficaram de fora do primeiro escalão. Teve ministério até para uma nulidade como Roberto Freire, mas não para a turma de Jair.

Ou seja: é claro que o golpe de 2016 não foi desferido para colocar Bolsonaro na presidência. Ele foi comandado pelos caciques da velha política, cansados de dividir o poder com o PT, interessados em garantir a continuidade de seus esquemas depredação do Estado, alinhados com setores da burguesia que achavam que as políticas de redução das desigualdades já tinham ido longe demais. A extrema-direita tinha destaque na mobilização das ruas, açulando o ressentimento das classes médias e propagando o pânico moral, mas era absolutamente secundária na articulação no Congresso, no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal e na imprensa, aquela articulação que foi essencial para queda de Dilma.

Nem por isso é possível dizer que a vitória de Bolsonaro foi fruto do acaso. Os articuladores do golpe deram espaço para discursos que namoravam o fascismo, sabendo o que significavam, e bateram palmas quando eles ganharam os corações e mentes de uma boa metade dos brasileiros. É como aquele sujeito que enche a cara, pega o carro e acaba batendo. Não vamos dizer que a batida era seu objetivo, mas também não dá para dizer que ela surpreende. A analogia falha num ponto. Imaginamos que o bêbado deplora o acidente que sofreu. A direita tradicional brasileira, não. Ressalvadas exceções, adaptou-se muito bem ao bolsonarismo e mergulhou de cabeça no extremismo. Foi tipo uma redenção, a desobrigação de fingir civilidade e compromisso com a democracia.

O golpe, assim, foi o grande ponto de ruptura da política brasileira recente. Ele marcou a dissolução dos consensos que, bem ou mal, definiam o cenário desde o final da ditadura. A gramática dos direitos, que a Constituição de 1988 estabelecia como terreno para as disputas, foi dispensada. O discurso de defesa da igualdade, que muitas vezes era apenas da boca pra fora, mas era comungado por todos, foi rompido. Afirmou-se, pelo próprio fato da destituição da presidente legítima, que não se considerava mais que a obtenção do voto popular era o único meio de acesso ao poder. A arquitetura liberal do equilíbrio de poderes foi substituída por um vale tudo, em que vigora a regra do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Cientistas políticos conservadores gostam de dizer que a nossa democracia sobreviveu, que as instituições são fortes, como forma de minimizar o significado do golpe de 2016 e também do bolsonarismo. Mesmo entre gente progressista, a vitória de Lula, em 2022, e o fracasso da intentona de 8 de janeiro de 2023 aparecem como sendo sinais do sucesso da retomada democrática no Brasil. Mas não é assim. O governo Lula avançou pouco, não teve força para promover de fato esta retomada.

Houve a aplicação de punição aos golpistas, mas não o suficiente para que a ampla parcela oportunista e pusilânime da elite parlamentar se sentisse ameaçada. Com exceção de alguns poucos, como Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, os políticos que trabalharam ativamente contra a democracia não foram punidos. Muitos deles se tornaram homens importantes do governo Lula, indicando ministros, ocupando cargos, exercendo poder.

Não conseguimos recompor o apoio social à ordem democrática. A direita continuou nadando de braçada no debate nas redes sociais, o jornalismo corporativo continuou normalizando a extrema-direita, a esquerda continuou investindo pouco, muito pouco, na educação política. A opção por punir os golpistas começando pelos bagrinhos, com penas muitas vezes exageradas, ao gosto do ministro Alexandre de Moraes, alimentou a narrativa da vitimização, que a direita usou com competência. É como se uma casa tivesse sido devastada por um furacão e uma enchente. O governo Lula tomou conta, tirou um pouco da lama, trocou umas lâmpadas. Mas as janelas continuam quebradas, as paredes rachadas. As fissuras que o golpe de 2016 produziu em nossa institucionalidade democrática, que sempre foi meio capenga, permanecem aí.

E, o que é o mais triste, continuamos lutando apenas para evitar o pior, sem expectativa de mudança real no nosso horizonte. 

Autor: Luís Felipe Miguel - Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Demodê - Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Publicado no Site Diário do Centro do Mundo.