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12 de dezembro de 2019

A destruição da razão como projeto!

Pode-se imaginar para onde se dirige um país que se comprometeu com a idiotice total. As consequências do desprezo ao conhecimento e ao senso comum serão fatais, não só na Amazônia, escreve Philip Lichterbeck.
Cada assassinato de um indígena no Brasil diz algo sobre a relação esquizofrênica do país consigo mesmo. Muitos brasileiros não querem saber sobre as raízes indígenas de seu país e não querem ouvir a mensagem dos primeiros brasileiros sobre paz, respeito e preservação da natureza. É uma mensagem sensata. Mas a extrema direita do Brasil a odeia. Por trás disso há um profundo desprezo pela ciência, pela razão e pelo senso comum. Desprezo este que está se espalhando cada vez mais pelo Brasil. E com consequências mortais.
No sábado passado, duas lideranças indígenas da etnia Guajajara foram assassinadas no Maranhão. Um mês antes, fora morto a tiros no mesmo estado o "guardião da floresta" Paulo Paulino Guajajara, conhecido como "Lobo Mau". Em 2019, o número de mortes de líderes indígenas já é o maior em 11 anos.
Responsável pelos assassinatos é a máfia dos desmatadores, grileiros, latifundiários e garimpeiros. Ela toma conta de forma insidiosa da Amazônia. Qualquer um que viaje pelo Norte do país hoje em dia reconhecerá os sinais por todas as partes. O maior tesouro do Brasil está sendo destruído sistematicamente.
Mas em vez de combatida, essa máfia é encorajada pelo governo brasileiro, em especial pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele chamou desmatadores ilegais numa Terra Indígena de "pessoas do bem que trabalham". Parece que Salles até coopera com os criminosos. A Folha de S. Paulo publicou uma matéria sobre a recepção que Salles deu a vários infratores ambientais do Acre. Depois suspendeu a fiscalização na reserva Chico Mendes.
As consequências dessa política são claras: o desmatamento ilegal na Amazônia cresceu neste ano 30% e bate um novo recorde. Nas Terras Indígenas, a alta no desmatamento é de até 74%. Como se isso já não fosse suficiente destruição, a Funai quer suspender a supervisão de dez Terras Indígenas com povos isolados. Seria uma espécie de sentença de morte para os últimos povos isolados do Brasil.
A destruição da Amazônia, de sua história e sua cultura é um dos principais projetos do atual governo. Ficará como sua vergonhosa herança para as gerações futuras. O governo alega que está interessado no desenvolvimento econômico. Mas está cientificamente provado que uma Amazônia intacta é economicamente muito mais valiosa. Sua destruição terá consequências ecológicas, sociais e econômicas catastróficas para o Brasil.
Torna-se claro que o Brasil caiu nas mãos de ideólogos perigosos. São fanáticos dos quais, em outros tempos, se riria sonoramente. Agora eles estão tentando moldar o Brasil de acordo com suas ideias lunáticas do período pré-iluminista. O novo presidente da Funarte acha que o rock leva ao aborto e ao satanismo. Segundo ele, os Beatles surgiram para implantar o comunismo.
O homem que provavelmente vai liderar a Fundação Palmares afirma que não há racismo no Brasil. A escravidão, diz ele, era "benéfica para os descendentes". A ministra da Família, Damares Alves, recomenda a abstinência como o melhor remédio contra a gravidez na adolescência. Isso pode ser tecnicamente correto, mas não é uma política de Saúde responsável e decidida com base na realidade: isso é fundamentalismo religioso ao estilo iraniano.
Por último, mas não menos importante, Olavo de Carvalho agora pôde apresentar sua versão da história do Brasil no canal estatal TV Escola. Carvalho é um teórico da conspiração e extremista de direita, poderia encarnar muito bem um professor louco num filme de Hollywood. Agora ele é a estrela orientadora intelectual do governo brasileiro. Não Voltaire, Rousseau, Kant ou, para mencionar um pensador humanista excepcional brasileiro, Leandro Karnal: mas sim Olavo de Carvalho, com suas baixarias. Pode-se imaginar para onde se dirige um país que se comprometeu com a idiotice total.
O efeito do desprezo à iluminação, ao conhecimento e à razão é um discurso público cada vez mais baixo e ridículo. Além disso, tem consequências fatais, não só na Amazônia. Um exemplo simples: por antipatia pessoal o presidente mandou desativar quase todos os radares fixos no país. O efeito: os acidentes graves cresceram no país, e as rodovias têm alta de acidentes com vítimas pela primeira vez desde 2011. Qualquer pessoa mais ou menos inteligente poderia ter previsto isso.
A política agrícola é igualmente brutal e antimoderna. Não se concentra num cultivo sustentável de alimentos com cada vez menos pesticidas, mas sim em cada vez mais agrotóxicos. Só neste ano 467 pesticidas foram aprovados, um novo recorde. Segundo o Greenpeace, desses produtos, 22 contêm ingredientes ativos que têm seu uso proibido na União Europeia; 25 constam na lista dos produtos extremamente ou altamente tóxicos à saúde humana. Ironicamente, uma das últimas levas de novos registros colocou mais 57 produtos no mercado no dia 3 de outubro, quando se comemora o Dia Nacional da Abelha. Somente entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, foram registradas as mortes de 500 milhões desses polinizadores por conta do uso de agrotóxicos.
Os agrotóxicos contaminam os rios do Brasil, como o São Francisco. E, claro, envenenam também a população. Entre 2007 e 2014, foram registradas quase 2 mil mortes por intoxicação agrícola. É cientificamente comprovado que, mesmo em pequenas doses, os inseticidas causam sérios problemas, principalmente em crianças, como alteração no QI, déficit de atenção, hiperatividade, autismo e transtornos psiquiátricos. Uma política sensata orientada para o bem-estar da população faria, portanto, tudo para limitar a utilização de pesticidas. Em vez disso, o governo expande seu uso para satisfazer os interesses lucrativos das indústrias agrícolas e químicas.
Outro exemplo dessa política fanaticamente cega: o Excludente de Ilicitude em Operações de Garantia da Lei e da Ordem que o presidente tanto deseja. Ele corresponde na prática a uma licença para matar, como qualquer estudioso da área de segurança iria confirmar. Parece que no Rio o excludente já está em vigor. Em 2019, a polícia do estado matou tantas pessoas como não matava desde quando começaram as estatísticas, em 1998. Muitas vezes os mortos não são criminosos, mas crianças como a menina Ágatha, de oito anos.
De certa forma, é então consequente que o novo partido do presidente, Aliança pelo Brasil, se apresente com um logo feito de pistolas e balas. Não livros que ensinam, mas balas que matam. Por exemplo, os primeiros e sábios habitantes do Brasil.

Autor: Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Áustria. 

8 de dezembro de 2019

A mamata na ALERJ nunca acabou!

Ideologias nos separam, sonhos e aflição nos unem.
Eugene Lonesco

Nas eleições ocorridas em 2018, além das Fake News, chamou muito a nossa atenção as frases de efeito,normalmente mentirosas, utilizadas ao longo das campanhas eleitorais. Uma delas “Fiquem tranquilos, agora a mamata acabou”. Essa frase dita em referência aos governos anteriores foi dita pelo pessoal da campanha de Jair Bolsonaro.
Infelizmente isso não aconteceu, nem nunca acontecerá na esfera federal onde os cartões corporativos, os aviões da FAB e tantas mordomias em viagens ao exterior são usadas sem transparência e sem a menor consideração ao erário e a sociedade brasileira.
Nos Estados o modus operandis é o mesmo, gastos nababescos, receitas em queda e o povo pagando a conta pela má gestão e pela corrupção desenfreada que há 500 anos assola o país.
Entretanto, essa corrupção, essa má conduta, não é exclusiva do Poder Executivo nem do Judiciário, mas também do Poder legislativo, justamente aquele cujos representantes são eleitos para entre outras coisas fiscalizarem o Poder Executivo.
No Estado do RJ a Assembleia Legislativa – ALERJ é um exemplo clássico de desmandos, mordomias, nepotismo e corrupção sem fim. Local onde a mamata nunca acabou nem se pretende acabar.
A mídia descobriu entre os muitos funcionários fantasmas um caso que exemplifica a imoralidade daquela casa de leis do povo do Rio de Janeiro, envergonhando a todos, trazendo revolta num país de 12 milhões de desempregados e outros milhões de subempregados com salários abaixo da linha da pobreza.
A servidora da ALERJ, Marli Regina de S. Costa com salários de R$ 23.375,93 (Vinte e três mil, trezentos e setenta e cinco reais e noventa e três centavos) é esposa do Ex-Deputado José Nader Jr e vive em Orlando na Flórida – EUA. Onde tem residência fixa e desfruta de uma vida alegre, saudável e confortável.
Ela deveria bater o ponto diariamente no gabinete do Deputado Tiago Pampolha – PDT-RJ. Mas nem o deputado nem ninguém no gabinete sabe explicar esta situação criminosa de fraude com os recursos públicos.
Além disso, seus cunhados Rubem Carlos Nader e Luiz Fernando Nader recebem da mesma ALERJ salários de R$ 23.314,31 (Vinte e três mil, trezentos e quatorze reais e trinta e um centavos) para assessorar o Deputado Renato Cozzolino – PRP-RJ. Entretanto, Luiz trabalha numa empresa familiar em Barra Mansa, que dista 100 km da ALERJ.
Assim, percebemos o porquê do pavor de Flávio Bolsonaro do PSL-RJ quando veio à tona os casos envolvendo Fabrício Queiroz e os funcionários contratados que na verdade nunca pisavam no gabinete, mas eram obrigados a praticar a rachadinha (Partilha do salário com Queiroz ou Flávio). O caso está sendo apurado, aliás, já deveria ter sido completamente apurado, não fosse o poder do seu pai presidente e as estratégias junto ao nefasto STF.
A ALERJ possui setenta deputados eleitos a cada quatro anos pelo sofrido eleitor do Estado do RJ, estes possuem 5.000 servidores a disposição, um número obsceno que chega a setenta e um servidores por deputado.
A mamata nunca acabou nem nunca vai acabar enquanto não houver Justiça, enquanto a impunidade triunfar e os corruptos derem as ordens levando vantagem em todos os negócios que puserem suas mãos sorrateiras e ordinárias.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

7 de dezembro de 2019

Mensagem de Boas Festas e Feliz 2020!

O ano de 2019 está chegando ao seu final, embora em muitos momentos tenha nos deixado a impressão de que nunca teria começado. Seu adeus, portanto, é mais de alegria do que tristeza, não pelo que ele nos deixou, mas sim, pela esperança sempre renovável de que o ano seguinte seja melhor.
Tarefa que seria fácil para 2020, afinal de contas, seu antecessor foi tão inconstante, fraco e com tantas más notícias, tragédias e um ambiente político desastroso, que 2020 deveria ser melhor. Em tese sim, porém, o componente político continuará conturbado em mais um ano de eleições, desta vez municipais.
Restam poucos dias para que um novo período de 365 dias se aproxime e a ele chamemos de 2020. Para o Blog Falando Um Monte 2019 foi excelente, com recorde de acessos ao longo do ano, o que não é pouco, muito ao contrário, significa bastante para quem um dia começou a postar seus textos e achava que aquilo não iria a lugar algum.
Hoje, ao olhar para o Blog vejo que ele se consolidou e teve em média 22.600 acessos por mês, atingindo a expressiva marca de 930 mil acessos desde sua abertura ao público 11 anos atrás. O Blog tem uma enorme visualização no exterior, cerca de 87% dos acessos são do exterior e 13% no Brasil. Destes acessos fora do Brasil os EUA correspondem a 36% do total de visualizações realizadas.
A fé na humanidade nos leva a ter esperança que o ano novo seja um período que traga muitas alegrias e saúde para que possamos enfrentar as adversidades e superar os obstáculos que com certeza aparecerão em nossas vidas.
Que haja sempre mais compreensão e boa vontade, que as pessoas possam efetivamente ser mais gentis umas com as outras, praticando o que é justo, com sinceridade e educação. Se assim for, será um lindo ano para a grande maioria.
O Blog Falando um Monte agradece pelas inúmeras visitas, pela leitura e colaborações de outros autores, pelo respeito das pessoas que passam por aqui em busca de informação, conhecimento e prazer pela leitura de assuntos do nosso cotidiano.
No encerramento de mais um ano de existência do Blog e de vida do autor quero agradecer de coração a todos que acessaram o Falando um Monte e para aqueles amigos do Twitter e do Whats App que de forma generosa e despretensiosa sempre deram uma força enorme repassando os links dos textos aos seus amigos, formando uma corrente generosa e amiga do Blog.
Feliz Natal e um Feliz 2020 a todos vocês, amigos e seus familiares, que Deus seja generoso em sua infinita bondade para com todos, provendo-os de tudo que possam precisar, mas acima de tudo, de muita paz, saúde e felicidade.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.


Um conto de Natal!

Aquela criança sentada na soleira, tristonha e sem perspectiva alguma, era o reflexo da noite escura que dominava o horizonte naquela pobre cidade do interior do Brasil. O frio característico das noites de Natal europeu era substituído pelo clima tropical quente e abafado que sufocava a todos em suas casas.
A criança olhava para o céu escuro como se quisesse encontrar uma luminosa estrela cadente ou como querendo avistar algo além das árvores intransponíveis que faziam a guarda oficial da sua cidade. A noite apenas estava começando, os sonhos daquela pobre criança movimentavam suas fantasias e lhe traziam à mente um tempo de felicidade e alegria que jamais haviam saído de seus melhores sonhos.

Os pais, trabalhadores humildes do campo nada podiam fazer e sequer ousavam prometer algo que sabiam ser impossível de cumprir. Nenhum tio afortunado, nenhum padrinho na cidade, nada com que pudesse sonhar naquela noite especial de Natal.

Então, por que sonhar na soleira do alpendre de madeira desgastado pela corrosão do tempo? Isso ninguém poderia responder por aquela criança. Nas ruas um tímido movimento de pessoas apressadas, querendo chegar com seus pacotes pequenos, geralmente alimentos para a ceia que estava por vir. Poucas surpresas, nenhuma loucura e muito cansaço apenas naquelas pernas e braços que carregavam as últimas compras do ano.

Um misto de alivio e comiseração confundia os corações daquela gente nos minutos que antecediam o Natal. O aniversário de Jesus era o motivo da festa, o aniversariante estava ali no meio de todos e sua presença aquecia o corpo surrado daquelas pobres almas sofridas.

A criança triste, cansada e sonolenta não conseguia mais suportar o peso de seu pobre corpo mirrado, suas pálpebras pendiam para baixo de forma suave, mas constante. O sono era o alimento para seus sonhos e fantasias, acordar seria muito mais difícil do que necessariamente dormir. Ao fechar os olhos esqueceria a pobreza, as dificuldades financeiras de seus pais, os desencantos e tantos desencontros que a vida já havia lhe reservado naqueles poucos anos de vida.

Ser pobre á algo com que ele e todos seus vizinhos aceitavam, resignados, entendiam, porém o que incomodava era a falta de quaisquer perspectivas para o futuro. Sonhos eram apenas e tão somente sonhos para aquele garoto mirrado da periferia daquela pequena cidade.

Mas como que por milagre um carro parou na porta de sua casa, não era ninguém conhecido, não era alguém que seus pais aguardavam, até por que a família não esperava por ninguém àquela hora, aliás, não tinham amizades com ninguém que tivesse um carro tão bonito como aquele parado misteriosamente a frente do seu portão.

Do carro desceram duas crianças bem vestidas com alguns pacotes nas mãos e os entregaram ao casal que os atendeu, disseram que se tratava de uma ajuda e que os brinquedos eram para o garoto que sempre estava sentado naquela porta, como se assim esperasse ganhar um presente a qualquer momento.

Em seguida, chamada por seus pais, as crianças entraram naquele lindo automóvel e foram distribuir mais felicidades e sonhos para outras famílias vizinhas. Os olhos do menino brilharam mais do que a última estrela do céu naquela noite quente. Por alguns instantes, por um momento fugaz ele percebeu que havia esperança, que havia motivos para acreditar em Deus, em Papai Noel ou simplesmente na magia do natal.
Arte: SlidePlayer

Autor: Rafael Moia Filho - Escritor, Blogger e Gestor Público.

6 de dezembro de 2019

Coringa, fogo no circo assusta burguesia histérica!

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas às margens que o comprimem.” (Bertold Brecht)
       Depois de 10 dias em cartaz, fui assistir ao filme Coringa e notei relativo esvaziamento nas salas de exibição. Já era recorde de público no mundo inteiro, por isso estranhei a não lotação. Sucessos inferiores de bilheteria lotaram por mais tempo as salas dos shoppings paulistas pelo Estado.
Mas o estranhamento durou pouco, logo fui abduzido pela magia da sétima arte, comi um saco de pipoca e aproveitei cada segundo da obra de arte projetada na tela.
Tudo é encantador, o roteiro, a fotografia e a brilhante interpretação de Joaquim Phoenix.
O filme é sensível e profundo. Traduz com exatidão e urgência os conflitos e as letais doenças sociais produzidas pelo capitalismo.
Passei a indicar o filme aos amigos e conhecidos. E encontrei a mesma resistência e preocupação em várias pessoas: “ah, mas não é muito violento?”.
Eis a principal a razão do esvaziamento precoce das confortáveis salas de cinemas. Os mesmos que naturalizam a violência real contra pretos e pobres e inflam o peito para dizer que “passou da hora de adotar a pena de morte nesse país” se assustaram ao verem desmoronar a ilusão pré-concebida do super-herói.
Passaram a difamar e a demonizar o filme que tanto os incomodou. Nenhuma tese sociológica explicaria de forma tão impactante o caos que a indiferença social pode causar. O protagonista é o anti-herói, um cidadão emocionalmente quebrado, perturbado e completamente solitário.
À medida que a sociedade do consumo empurra tudo que não é espelho para a margem, cria um ambiente paralelo extremamente imprevisível e perigoso.
Quem não se sente parte do mundo oficial não tem compromisso com ele. Esse é o detalhe sórdido que a burguesia produz e não admite. Longe de ser panfletário e avesso ao maniqueísmo trivial dos filmes de heróis, Coringa é extremamente poético e assume lado nessa atmosfera de ódio e intolerância que acomete o mundo em seus quatro cantos.
Denuncia a degradação do tecido social e a ausência de Estado na vida dos mais desprovidos de renda e afeto.
Incomoda os opressores e seus cúmplices. Impossível não se mexer na poltrona, não se sentir opressor ou cúmplice pelo menos uma única vez durante a exibição.
O riso desesperado do protagonista – inconsciente do seu papel político – desperta indignação e insurgência nos moradores da cidade.
O filme desvenda, de maneira genial, a origem da violência e radicaliza a problemática do germinar da semente ao desmoronar da árvore.
Ele tira o espectador da zona de conforto e apresenta uma perspectiva utópica e revolucionária. No meio do caos econômico e social que vive a cidade, o filme propõe que uma classe derrote a outra. Que os muito ricos e opressores paguem com a própria vida todo mal que causaram ao mundo. Um final apoteótico para alguns e aterrorizador para outros. Por isso que parte da burguesia nacional passou a militar contra o filme, dizendo se tratar de um palhaço marxista e doutrinador.
Incapaz de olhar em torno e assumir sua responsabilidade nessa tragédia social, a burguesia histérica prefere eleger fantasmas e confundir a realidade.
Para essa gente, a culpa é sempre dos outros; dos pobres, dos pretos, dos marginais, das prostitutas, dos gays e dos comunistas. Uma obra de arte verdadeira carrega sempre uma beleza livre e subjetiva aos olhos de quem aprecia. Cada um entende como quiser a narrativa exposta. Eu gosto da metáfora de que precisamos derrotar tudo que nos faz sofrer. Como alcançar esse objetivo é a busca diária dos que lutam por um mundo menos injusto.
O caos na velha Nova York fez-me lembrar de uma frase do jurista e ex-governador de São Paulo Claudio Lembo sobre os ataques do PCC em 2006:
“Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações”.
Em tempo, Claudio Lembo não é um marxista, muito pelo contrário, é um liberal clássico.

Autor: João Paulo Rillo é diretor de teatro, e militante do PSOL e ex-deputado estadual paulista.

O fetiche do PIB como indicador de desenvolvimento e o fiasco da notícia!

Entre os vários fetiches brasileiros do noticiário econômico, o mito do PIB como indicador de bem-estar de uma sociedade ainda prevalece nos corações e mentes do senso comum.
Nunca vamos aprender e sempre ficaremos com semblante de tacho se continuarmos a repetir, sem reflexão, o que nos enfiam goela abaixo pelos pauteiros do governo e do Jornal Nacional. O fiasco da divulgação de um erro reconhecido pelo próprio IBGE nos convida a pararmos para pensar no seguinte: crescimento do PIB não significa desenvolvimento econômico ou multidimensional de um país.
Numa ideia bem simplificada, refletir seria fazer conexão entre fatos, situações e tendências com informações de diferentes fontes. Vincular o singular ao geral, procurando não confundir causas com efeitos, que não, necessariamente, ocorrem numa sucessão cronológica.
Entre os vários fetiches brasileiros do noticiário econômico, o mito do PIB como indicador de bem-estar de uma sociedade ainda prevalece nos corações e mentes do senso comum. Ainda nos deixam com cara de idiota falando o que não sabemos. Pode ser evidente que, quanto maior o PIB de um país, maior a possibilidade de indicação positiva de sua economia.
Entretanto, possibilidade apenas, pois de nada adianta falarmos em desenvolvimento, por exemplo, se o que incidiu no aumento do PIB foi uma parte apenas de sua composição que não diz respeito a diferentes elementos agregados das diversas cadeias produtivas.
Por exemplo, ainda que o PIB seja definido e caracterizado por diferentes itens do que se chama “economia” – dentro daquilo que alguns resumem como a soma da produção de bens e serviços – de que valerá, em termos de desenvolvimento, se a principal substância da composição do indicador estiver relacionada, por exemplo, ao setor de serviços e a operações financeiras? Ou então, a apenas ao agronegócio?
Nem me interessam aqui se as dúvidas levantadas foram pelo Financial Times em relação ao resultado do crescimento do PIB no terceiro trimestre deste ano divulgado pelo IBGE. E também se houve ou não erro “técnico” na transição de dados e na manipulação das informações sobre exportação.
Importa, isto sim, que 38 milhões de brasileiros estão na informalidade e 13 milhões no desemprego. Todo erro ou acerto “técnico” embute uma disposição ou intenção política. Ou então incompetência mesmo no manejo de números, tabelas e relatórios. Mas, tratando-se do PIB, difícil acreditar num deslize meramente técnico de manipulação de números.
Interessa, por exemplo, também, que elos nas diferentes cadeias produtivas podem estar se quebrando com a desnacionalização de ativos nacionais, além da evasão de divisas. Que a desindustrialização vem ocorrendo num processo estrutural, digamos assim, pelos sucessivos governos, inclusive do PT, transformando o país numa colônia extrativista e exportadora de commodities para duas ou três metrópoles.
Ora, como é a “retomada puxada pelo setor privado”, conforme se noticiou, se o PIB está no mesmo patamar do terceiro trimestre de 2012, vale dizer, de sete anos atrás? Que agora teria se recuperado 4,9% desde que atingiu o fundo do povo no quarto trimestre de 2016.
Só pode ser brincadeira ou desfaçatez a tentativa de nos convencer de que estamos saindo do fundo do povo, subindo um pouquinho de nível, na escala da crise, pelas paredes escorregadias que circundam o lamaçal escuro e obscurantista a que chegamos. Lamaçal revolvido com otimismo pelo teatrinho noticioso do horário nobre.
A tal retomada pelo setor privado é mais uma falácia do discurso privatista-neoliberal que dissemina a mentira de que desenvolvimento só ocorre a partir da iniciativa dos empresários, nunca do Estado, sempre visto como problema, e não como solução, repetindo aqui os termos usados por Peter Evans.
“Há vinte e cinco anos o Brasil parou de crescer”, escreveu em junho de 2006, Roberto Mangabeira Unger, que completou: “Começou a afundar (o país) em longa e triste mediocridade. Seus dirigentes e pensadores perderam a noção de qualquer rumo que não fosse o do formulário ruinoso recomendado aos governos de países pobres pelas autoridades acadêmicas, políticas e econômicas dos países ricos.” (“Depois do colonialismo mental: repensar e reorganizar o Brasil”, São Paulo: Autonomia Literária, 2018, p. 137).
Ocioso aqui sugerir para que sejam pesquisadas e lembradas as taxas de crescimento do país nos dois primeiros governos do PT, a partir de 2003/2004, com números que indicaram a reversão da paralisia do crescimento que se encontrava há “vinte e cinco anos”, conforme diagnóstico de Mangabeira Unger. Isso, mesmo com os erros petistas do modelo voltado para o consumo, a fim de sugerir que o fiasco noticioso de agora, em cima do fiasco do erro supostamente técnico de um órgão como IBGE, parece fazer parte do ódio que elegeu o atual governo.
Como pontapé inicial para aprofundar a reflexão, encerro esse texto com as agudas observações de Amartya Sen, para quem o Produto Nacional Bruto não sinaliza, necessariamente, desenvolvimento. O fato é que não adianta termos liberdade de participação política formal apenas. Precisamos que os indivíduos e grupos diversos tenham também participação econômica.
Essa participação econômica foi mais fácil de se conseguir em economias do Leste e Sudeste asiático, graças à ênfase na educação elementar e na assistência básica à saúde, além da reforma agrária. Mas, essa participação econômica não foi possível, por exemplo, no Brasil, na Índia ou no Paquistão, onde, segundo o economista indiano, a criação de oportunidades sociais tem sido muito mais lenta – e, claro, embarreirando o desenvolvimento econômico. Vejam o que o autor diz:
“A expansão de oportunidades sociais serviu para facilitar o desenvolvimento econômico com alto nível de emprego (no Leste e Sudeste asiático), criando também circunstâncias favoráveis para a redução das taxas de mortalidade e para o aumento da expectativa de vida. O contraste é nítido com outros países de crescimento elevado – como o Brasil – que apresentaram um crescimento do PNB per capita quase comparável, mas também tem uma longa história de grave desigualdade social, desemprego e descaso com o serviço público de saúde (…).” (“Desenvolvimento como liberdade”, São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 62).

Autor: Álvaro Miranda – Publicado no GGN.

3 de dezembro de 2019

Hipocrisia pura!

                                                              Nada é permanente neste mundo cruel,
nem mesmo os nossos problemas.
Charles Chaplin

O Brasil desde as eleições de 2014, está completamente dividido nas ruas, urnas e redes sociais. Em 2018, o processo que começou com maior intensidade na derrota de Aécio Neves, tratado como salvação, mas que na verdade era apenas mais um signatário da corrupção entranhada na administração pública nacional, se acentuou ainda mais a partir do segundo turno das eleições seguintes.
Não existe mais discussão sem que não haja comparações com governos anteriores do PT. Se o atual governo de Bolsonaro é criticado, as desculpas são: Ainda é cedo para avaliar e melhor assim do que com o PT.
A falta de argumentos evidencia a fraqueza de um governo cujo presidente, ficou 28 anos como deputado federal, sem nunca ter feito algo pelo Estado que representava nem pela nação. Além do mais, empregou funcionários fantasmas, votou contra tudo que hoje defende, homenageou em discursos o pior dos membros da ditadura militar, um torturador execrável chamado Carlos Alberto Ustra.
No poder privilegia os filhos e demais parentes, permite uso de aviões da FAB em voos particulares, ataca a imprensa livre, denigre ONGs, acusa países e seus signatários sem provas e se transformou no maior inimigo do meio ambiente perante o país e a ONU.
Seu governo, liberou mais pesticidas que qualquer outro a qualquer tempo, favorecendo grandes empresas do agronegócio em detrimento da saúde de seu povo. Desde sua posse houve aumento das queimadas e das invasões de terras demarcadas em territórios indígenas e de preservação ambiental.
A hipocrisia não tem limites em sua gestão e na defesa dela. Dizia antes de assumir o poder que a esquerda havia aparelhado o Estado, entretanto faz a mesma coisa que seus antecessores privilegiando militares, evangélicos e todo aquele que tenha um dia criticado qualquer segmento de esquerda no país.
Está destruindo a cultura com indicações de pessoas sem qualificação e gabarito para os cargos, assim como, o faz na questão do trato com o índio e o negro. Desrespeitando a cultura e a história ao nomear pessoas que dizem não haver racismo no país, nem fome, nem invasão de terras indígenas.
Seus aliados no Congresso Nacional reclamam da oposição, como se ela não existisse e eles não fizessem parte dela entre 2003 e 2017. Os deputados que bradavam amor a pátria e a família no Impeachment de Dilma Rousseff, são os mesmos que torram recursos do erário com tratamentos dentários, viagens particulares ao exterior, gastos nababescos e desnecessários.
O Brasil mudou, sim, é verdade, porém, mudou para pior, está sendo motivo de piada no exterior com as falas sem noção do presidente e seus três filhos, que a exemplo do pai, não produzem nada no poder legislativo nos cargos que ocupam. 

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

2 de dezembro de 2019

O estelionato do fim da crise!

Desde 2014, quando a crise se instala definitivamente na economia brasileira, todo final de ano os aparelhos ideológicos da burguesia são mobilizados para difundir a ideia de que a recuperação está a caminho. Seguindo a orientação do Ministério da Economia, os sacerdotes da ordem divulgam previsões otimistas sobre as perspectivas da economia, com o incondicional apoio da grande mídia.
Ao contrário de um exercício objetivo, baseado em dados reais sobre os condicionantes do nível de atividade e os mecanismos que determinam o crescimento econômico, trata-se de uma operação meramente ideológica destinada a alimentar a ilusão de que a crise está sendo superada. Quem lê os boletins oficiais não apreende nada sobre a realidade concreta.
A falsidade é travestida de uma pseudossofisticada modelagem matemática, cujo elemento mágico é a “confiança”, categoria arbitrária, que teria o condão de reviver o espírito empreendedor dos capitalistas e reativar a economia. A mensagem é sempre a mesma: “no próximo ano, a economia deslancha e o sufoco termina”.
No entanto, nos últimos seis anos, as estimativas sobre o desempenho do PIB ficaram sempre muito distantes da realidade. Os erros foram grosseiros. A gravidade da recessão foi invariavelmente subestimada. Em 2018, por exemplo, a previsão era de que a economia brasileira cresceria 2,5% em 2019, mas, mesmo com a liberação de quase R$ 45 bilhões do FGTS dos trabalhadores, o PIB mal atingirá aumento de 1%, completando o sexto ano de estagnação — o pior desempenho da história do Brasil. Nesse ritmo, o país precisaria de 37 anos para recuperar a renda per capita de 2013.
Nem por isso os ventríloquos do capital perderam a arrogância. Na mitologia neoliberal, todo equívoco de análise pode sempre ser atribuído à necessidade de diminuir ainda mais a presença do Estado e dos sindicatos na economia. Para 2020, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia acaba de divulgar a estimativa de um crescimento de 2,32%. E, para os dois anos seguintes, uma expansão de 2,5% ao ano. Em alvoroço, mais uma vez, economistas e jornalistas replicam o número oficial e comemoram antecipadamente o fim da crise.
No entanto, ainda que a liberação de recursos do FGTS, a redução das taxas de juros e os efeitos expansionistas dos gastos associados à eleição municipal possam dar um fôlego temporário ao consumo das famílias e a investimentos marginais de rentistas que buscam aplicações mais rentáveis, sobretudo na construção civil, não há nenhum elemento objetivo que permita imaginar que a estagnação tenha sido superada.
De um lado, a política econômica, baseada no arrocho salarial, na austeridade fiscal, na liberalização da economia e no crescente endividamento das famílias, asfixia o mercado interno. De outro, as incertezas provocadas pelo agravamento da crise capitalista e pela instabilidade política continuam deprimindo as expectativas de investimentos das grandes corporações.
Na ausência de mecanismos endógenos de expansão da demanda agregada, a recuperação da economia brasileira dependerá fundamentalmente das exportações. Entretanto, a perspectiva de evolução do comércio internacional não é nada favorável, sobretudo quando se considera a deterioração da situação econômica de nossos principais parceiros comerciais — China, Estados Unidos, União Europeia e Argentina -, os quais representam quase 2/3 das vendas externas do país.
Nessas circunstâncias, mais realista (e honesto) seria supor que, em 2020, como nos três anos anteriores, o PIB oscilará entre 0,5 a 1,5% ao ano. A modesta expansão do consumo das famílias e dos investimentos da construção civil deve ser compensada pela contração da demanda externa.
Consciente de que a suposta superação da crise carece de qualquer fundamento, o Ministério da Economia alerta que a confirmação das previsões depende do aprofundamento das reformas liberais. É um embuste. Depois de dizerem que a solução da crise dependia da flexibilização das leis trabalhistas, do congelamento por vinte anos da política social e da reforma da previdência — que não tiveram qualquer efeito anticíclico -, as autoridades econômicas voltam a insistir na mentira de que a recuperação depende do avanço das privatizações, da aprovação da PEC federativa e do sucesso da reforma administrativa.
Como não há espaço para a crítica e o debate democrático, não há limite para as sandices repetidas pela propaganda neoliberal com ares de grande autoridade teórica nos meios de comunicação. Não existe nenhuma base analítica ou empírica para supor que o mágico “choque de confiança” provocado pelas reformas liberais possa conduzir à recuperação do crescimento e do emprego.
O objetivo do neoliberalismo selvagem nada tem a ver com a melhoria das condições de vida da população. Trata-se pura e simplesmente de aumentar a taxa de exploração do trabalho; transferir recursos fiscais para o setor privado; fomentar a mercantilização das políticas públicas; impulsionar a privatização do patrimônio público; franquear o mercado nacional à operação do capital internacional; desregulamentar a economia, eliminando qualquer tipo de obstáculo à operação dos capitais; e garantir a sustentabilidade intertemporal da dívida pública.
No capitalismo da reversão neocolonial, o mito do crescimento como panaceia não tem mais nenhuma aderência à realidade. Sem ter o que oferecer à população, às classes dominantes só resta a manipulação deslavada da opinião pública e a repressão violenta do protesto social.

Autor: Contrapoder – Publicado no Correio da Cidadania.

O imobilismo das esquerdas e a importância da disputa moral!

Existem diversas possibilidades para lidar com o governo Bolsonaro: do apoio e adequação, passando pela postura republicana inocente que aceita e espera 2022 como se até lá houvesse tempo para compor politicamente num cenário normalizado que não existe, até a destituição, que pode ter dois enfoques: um em que as consequências não importam e outro que procure acenar com alternativas.
Vou acenar com a hipótese de que a campanha eleitoral contínua e permanente que Bolsonaro deflagra desde que ganhou as eleições presidenciais acaba por imobilizar a oposição, em especial as esquerdas que atuam no plano institucional e insistem em considerar um cenário republicano, tendo em vista que se voltam cada vez mais para o calendário eleitoral (2020 e 2022). Faz isso, ainda por cima, sem discutir projetos locais para 2020 ou alternativas ao governo federal, mas apenas considerando a formação de alianças que garantam um tempo de televisão e uma estrutura partidária, que não parece ser uma variável tão decisiva, ao menos se considerada de forma isolada.
Trata-se de uma dificuldade derivada de uma constatação equivocada sobre a possibilidade da via republicana frente a um governo que é claramente antidemocrático.
Não se trata de negar a importância das eleições, mas entender que seria necessário tecer um caminho de construção de alternativas locais a partir da sociedade para fazer frente à máquina que está com Bolsonaro e à perda de importância que as esquerdas, em especial a petista, tiveram nas eleições municipais de 2016, que anunciaram em boa parte o contexto para a eleição de Jair Bolsonaro.
O paradoxo que se vislumbra no campo das esquerdas é a necessidade de se deslocar do calendário eleitoral para reunir condições mínimas de competir eleitoralmente, o que é um movimento difícil de ser praticado.
Esse deslocamento não foi sequer começado a partir da fragorosa derrota das esquerdas nas eleições municipais de 2016, mas encontra-se fragmentado no tecido social. Como se trata de um caminho de longo prazo, algo em torno de 20 a 30 anos, o imobilismo institucional apresentado durante este primeiro ano de governo Bolsonaro, juntamente com a ausência de alternativas locais concretas, aponta para um realinhamento que tende a favorecer a extrema-direita e uma “direita sensata” (dos DEM e PSDBs Doriana, entre outros) no cômputo geral das eleições do ano que vem, que são o prenúncio das eleições presidenciais de 2022.
No entanto, nem tudo está tão parado quanto parece. Apesar da baixa mobilização contra a reforma da previdência, o final do mês de novembro reservou uma luta que merece visibilidade: a greve dos professores estaduais no Rio Grande do Sul, a qual os servidores estaduais aderiram, contestando o pacote de reformas para o serviço público encaminhado pelo governador Eduardo Leite (PSDB).
São duas semanas de um movimento que articula um conjunto de sindicatos com ampla participação da ponta e da sociedade. Entre 60 a 70% das unidades escolares já aderiram, bem como 65% dos servidores para além da área da educação. Esse movimento não vem recebendo atenção midiática, mas, também na esteira das manifestações em boa parte da América Latina, não é difícil imaginar porque a dupla inseparável Bolsonaro-Guedes adiou o envio da reforma administrativa para o ano que vem.
São as lutas que nos mostram que o medo precisa mudar de lugar e talvez daí venha a necessidade que os integrantes do governo Bolsonaro recorrentemente têm de voltar ao fantasma do AI-5 e uma série de discursos autoritários: tentam introjetar medo na sociedade.
Por fim, cabe lembrar que a extrema-direita no poder em vários países reflete uma articulação global que não pode ser jogada para debaixo do tapete. Seu componente mais visível através da denominação neoliberal é o caráter econômico de diminuição do Estado por meio de privatizações e outros dispositivos que são criticados pela esquerda pelo menos desde o governo FHC, ainda que o período petista não tenha se livrado do rótulo.
No entanto, a questão também importante e negligenciada é o componente moralizador do neoliberalismo, que visa destruição da sociedade ou dos componentes sociais materializados em políticas públicas, daí os ataques recorrentes à educação, à cultura e ao meio ambiente, este último por conta da perspectiva extrativista que orienta o governo.
Frente ao espanto e, em vários momentos, à negação das esquerdas frente à parafernália discursiva que a agenda moral do bolsonarismo coloca, o caminho passa por tecer uma nova moralidade para se contrapor ao milicianismo evangélico que formata um novo tipo de nazismo que se conforma de forma dominante no contexto brasileiro.
Neste sentido, me parece que as lutas podem nos ensinar esses novos caminhos na medida em que não se trata apenas de bradar o lema inadequado “é a economia, estúpido”, mas de uma disputa moral e ética que perpassa a sociedade em xeque.

Autor: Marcelo Castañeda é cientista social, professor da UFRJ.

28 de novembro de 2019

Ilicitude

A história da luta por um pedaço de terra no Brasil é marcada pelo sangue daqueles que só querem um chão para trabalhar.
Duas leis em gestação se arrastam na direção de Brasília para nascer. As duas trarão grande alegria para o califado brasileiro, se passarem, ou grande decepção pra o califado se o Congresso, numa demonstração de grandeza insuspeitada, as rejeitarem. As duas leis se complementariam.
Uma instalaria no Brasil o princípio do excludente de ilicitude que, em qualquer país civilizado do mundo, significaria um retrocesso jurídico vergonhoso e aqui passa por progresso, a outra propõe uma reforma agrária que finalmente viria, mas ao contrário: polícia e Forças Armadas estariam autorizadas a atirar primeiro e determinar que ilícito foi cometido pelo agricultor sem-terra depois, a critério do dono da terra, muitas vezes baldia e improdutiva.
A história da luta pela terra no País está cheia de sangue e a maior parte é sangue de quem só pedia um pouco de chão para trabalhar. Por sinal, você se lembra da última vez que viu notícias de acampamentos e colônias do MST produtivos e bem-sucedidos no País? E eles existem. Agora, se passar a lei que arma e perdoa os proprietários por todas as suas ilicitudes, notícias da guerra serão mais frequentes e sangrentas. 
O excludente de ilicitude, essa nova frase que se intrometeu em nossas vidas como uma solitária insidiosa, significa simplesmente licença para matar. Seria uma autorização dada às forças da ordem para reagir à desordem sem se preocupar com limites.
Compreende-se que uma nação apavorada com o crime deseje isso, ou pense que a solução é dar todo poder aos xerifes e deixá-los tão soltos e sem limites morais e operacionais quanto os bandidos, para a guerra no mínimo ser parelha. Mas espera-se demais do policial que precisa distinguir, em segundos, o que é uma ilicitude e o que não é. E o resultado seria forças da ordem que já agem com notória arbitrariedade passarem a agir com a certeza da impunidade.
O Congresso pode reagir aos projetos, matá-los, proteger ainda que debilitado a democracia e zelar pela sua própria biografia. É difícil que o faça. Todos as forças do califado estarão do outro lado.

Autor: Luis Fenando Verissimo – Publicado no Jornal Estado de São Paulo.