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21 de outubro de 2026

Um crime contra a humanidade!

                                                                     Charge: Latuff

O embargo comercial imposto pelos Estados Unidos contra Cuba é um crime contra a humanidade. Uma atrocidade que tem a ONU e os países que a compõem como cúmplices covardes.

O início deste processo começou em 1959 – A Revolução Cubana levou Fidel Castro ao poder, derrubando Fulgencio Batista. Em 1960, o governo dos EUA, então presidido por Dwight D. Eisenhower impõe as primeiras restrições comerciais após Cuba nacionalizar empresas americanas na ilha.

Em 1962, o presidente John F. Kennedy oficializa o embargo total, proibindo quase todo comércio entre os dois países. Portanto, o embargo começou gradualmente em 1960 e se tornou pleno a partir de 1962.

Essa situação perdura há mais de sessenta e seis anos, impedindo que Cuba possa ter relações comerciais com o restante do mundo. Um ato que sufoca sua economia e impede seu processo de desenvolvimento industrial. Os americanos, que se acham donos do mundo, podem invadir militarmente países em busca de petróleo, terras raras e outras vantagens comerciais, porém mantêm o povo cubano estrangulados.

Os americanos justificavam sua atitude pelos seguintes motivos:

1️: Nacionalizações em Cuba

O governo de Fidel Castro nacionalizou refinarias, usinas de açúcar, bancos e outras empresas — muitas pertencentes a cidadãos e empresas dos EUA — sem compensação considerada adequada por Washington;

2️: Alinhamento com a União Soviética

Cuba aproximou-se da União Soviética, principal rival dos EUA na Guerra Fria, adotando um regime socialista. Esse, sim, o maior motivo à época;

3️: Conflito ideológico

Os EUA buscavam conter a expansão do socialismo na América Latina (política de “contenção”);

4️: Crise dos Mísseis (1962)

A descoberta de mísseis soviéticos em Cuba levou à Crise dos Mísseis de Cuba, agravando ainda mais as tensões. Como se os americanos não tivessem instalações militares espalhadas pelo mundo.

A guerra fria entre URSS (Rússia) e os EUA acabou, o muro de Berlim caiu, o mundo passou pela globalização e estamos vivendo uma imensa evolução tecnológica, no entanto, os americanos mantém o embargo criminoso contra Cuba. Não há justificativa que se sustente diante das mudanças ocorridas, inclusive políticas, naquela ilha.

Nos anos 1990, leis como a Lei Helms-Burton (1996) tornaram o embargo mais rígido. Durante o governo de Barack Obama (2014–2016), houve reaproximação e flexibilizações. O governo de Donald Trump voltou a endurecer as sanções. O governo de Joe Biden manteve grande parte das restrições, com ajustes pontuais.

Ou seja, não importa o partido que esteja no poder nos EUA, tanto democratas como republicanos agem da mesma forma em relação ao embargo, mantendo-o criminosamente à luz das leis e da civilidade.

 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública. 

Escrevendo à esmo pelas beiradas da vida!

 

Como disse um dia o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov, agraciado com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais. “Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente”.

A literatura entrou cedo em minha vida, por meio da leitura de centenas de livros, revistas e jornais. Um hábito que perdura até os dias atuais. Depois de trabalhar por trinta e oito anos consecutivos, me aposentei do escritório e, em casa, comecei a adentrar de corpo e alma na literatura de uma forma completa.

Um ano depois veio o primeiro livro; cheguei a pensar que ele seria filho único de pai solteiro. Entretanto, um ano depois veio o segundo livro, me deixando com a sensação de quero mais. Começava então um período de mudança no meu estilo e no que eu iria desenvolver dali para frente em termos de produção literária.

Depois de um hiato de cinco anos ou de um breve tempo para refletir, repensar e me reposicionar, veio o terceiro livro. Este período sabático foi positivo; este novo livro me fez adentrar no campo da política, história e questões socioeconômicas do nosso imenso país.

Para minha sorte, "De Sarney a Temer" – nossa incipiente democracia teve seu lançamento na Bienal do Livro de São Paulo em 2018. Obteve boa aceitação e alcançou uma segunda edição.  

Nos anos seguintes, 2019, 2020, 2021, 2022, 2023, 2024 e 2025, lancei os demais livros, completando dez lançamentos até o momento.

Para minha felicidade, no meio dessa trajetória literária, fui agraciado com o aceite para ser membro da Academia Bauruense de Letras na cidade de Bauru. Fiquei com a cadeira de número 33 – cujo patrono é o poeta Mário Lago.

Continuo escrevendo à esmo, sem compromisso com a chegada, sem a pretensão de encontrar respostas definitivas para perguntas que talvez nem tenham sido formuladas corretamente.

Escrevo porque a vida, às vezes, transborda por dentro, e as palavras são uma maneira de impedir que tudo isso se perca no silêncio.

Escrevo nas beiradas da estrada da vida, onde quase ninguém olha, onde os holofotes não alcançam, onde os aplausos não chegam e as grandes manchetes não se interessam pelo que acontece. É ali que encontro histórias, personagens, dores, esperanças e contradições. É ali que a humanidade se revela sem maquiagem.

Nas beiradas estão os esquecidos, os inconformados, os que envelhecem sem perceber que o mundo mudou depressa demais. Estão os que trabalham a vida inteira e pouco conseguem acumular, os que carregam sonhos adiados, os que aprenderam a sorrir para esconder as próprias feridas. Estão também aqueles que, apesar de tudo, ainda oferecem a mão, repartem o pão e acreditam que a bondade não se tornou uma espécie em extinção.

Observar a vida é descobrir que nem sempre o centro das coisas é o lugar onde a verdade se encontra. Muitas vezes, é nas margens que a realidade se apresenta com maior nitidez.

Vivemos tempos curiosos. Nunca tivemos tanta informação à disposição e, paradoxalmente, parece cada vez mais difícil compreender o mundo. A tecnologia encurtou distâncias, mas não necessariamente aproximou as pessoas. Podemos conversar com alguém do outro lado do planeta enquanto ignoramos a tristeza de quem está sentado ao nosso lado.  

 Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

20 de outubro de 2026

O lixo era público. Quem escrevia as regras?

Imagem: Fernando Redondo.

Documentos da Operação Cavalo de Troia apontam suspeitas de uma engrenagem que conectava interesses empresariais, decisões administrativas, articulação política e pagamentos na concessão bilionária de Bauru. 

Uma licitação pode começar a ser comprometida muito antes de alguém apresentar uma proposta. Basta que o interessado em vencer consiga participar da escolha das regras pelas quais será julgado. Os envelopes chegam depois. A vantagem pode estar pronta antes. 

É essa a questão que emerge dos documentos da Operação Cavalo de Troia, em Bauru. Segundo o Ministério Público, interesses ligados à Estre Ambiental teriam penetrado na preparação da concessão dos resíduos sólidos, alcançando estudos, modelagem, documentos jurídicos e respostas aos questionamentos apresentados ao procedimento. 

Estamos falando de um empreendimento projetado para 30 anos, com contraprestações estimadas em R$ 5,259 bilhões. Atenção ao significado do número: é o valor previsto da concessão, não uma quantia comprovadamente desviada. A cifra dispensa exageros. Três décadas de compromissos públicos já justificam perguntas que nenhum governo deveria considerar inconvenientes. 

A primeira delas é elementar: quem estava, de fato, trabalhando para quem?

Na narrativa do Gaeco, Hamilton Libório Agle coordenava os interesses empresariais. Cilene Chabuh Bordezan, então secretária de Meio Ambiente, funcionava como ligação com a Prefeitura. Talita Chieregatti participava da operação empresarial e documental; Sara Moura, das providências internas da administração. Mário Luiz Silvério forneceria a chancela técnica vinculada à FIPE, enquanto Vitor João de Freitas Costa daria sustentação jurídica aos atos. 

Perceba o leitor a dimensão do problema. Uma administração contrata assessoramento técnico para obter uma avaliação independente. Se a empresa interessada no futuro contrato influencia aquilo que será apresentado como avaliação independente, o parecer conserva o papel timbrado, mas perde sua razão de existir. 

A técnica vira argumento de autoridade. O carimbo continua respeitável. Falta saber quem segurava a caneta. O desdobramento mais recente da investigação acrescentou a essa estrutura a atuação de Renato Purini, então secretário de Governo e marido da prefeita Suéllen Rosim. 

As mensagens reproduzidas pelo Ministério Público mostram Purini acompanhando a votação do projeto que autorizou a concessão. A sessão atravessou a madrugada e terminou, em primeiro turno, às 5h40 de 9 de dezembro de 2025: onze votos a nove. Em conversa com Cilene, ele afirmou estar pressionando vereadores e relatou: “Segurei 2 no estacionamento indo embora”. Acrescentou que mantinha uma pessoa na porta para essa finalidade. 

Articular votos faz parte da política. O cargo de secretário de Governo inclui interlocução com o Legislativo. O interesse jornalístico está em descobrir a finalidade concreta dessa mobilização e sua eventual relação com as cobranças financeiras identificadas nas demais mensagens. É aí que a história deixa de caber na explicação confortável de que se tratava apenas de defender um projeto da administração. 

Segundo o Gaeco, Purini indicou o advogado M. L. C. ao núcleo empresarial e acompanhou tratativas e pagamentos formalizados como serviços jurídicos. O Ministério Público aponta elementos de emissão e pagamento de uma nota fiscal de R$ 750 mil, cobrança adicional de R$ 90 mil e referências a uma obrigação recorrente. 

Na reconstrução apresentada pelos investigadores, Cilene transmitia demandas, Hamilton autorizava ou confirmava pagamentos, Talita providenciava os instrumentos documentais, Ricardo Sottomayor executava operações financeiras e M. L. C. figurava como recebedor formal e possível intermediário. 

A investigação precisa demonstrar o percurso completo desses recursos. O próprio MP reconhece que os beneficiários finais, a distribuição das quantias e o valor global ainda exigem aprofundamento. Mas há uma pergunta que já pode ser feita, sem licença de ninguém: quais serviços justificavam esses pagamentos? 

Serviço jurídico tem objeto. Tem trabalho produzido. Tem correspondência entre contratação, execução e remuneração. A resposta precisa aparecer nos documentos, com datas, entregas e responsáveis. Os R$ 90 mil correspondem exatamente a 12% dos R$ 750 mil. Nas conversas examinadas, o percentual surge associado à palavra “imposto”. O Gaeco sustenta que o cruzamento das mensagens permite identificar cobranças financeiras por trás de expressões aparentemente relacionadas a assuntos jurídicos. 

A aritmética fecha. A investigação terá de fechar o caminho do dinheiro. Em decisão de 15 de outubro, a Justiça decretou a prisão preventiva de Purini e aplicou medidas cautelares a M. L. C. e Sottomayor. Trata-se de uma decisão fundada em indícios e riscos apontados para a investigação, não de uma condenação. A precisão importa. Uma acusação consistente não precisa de sentença antecipada para ser grave. Também não precisa de culpados por parentesco. O Ministério Público e a decisão examinada registram que Suéllen Rosim não figura como investigada nos fatos ali delimitados. Ser esposa de Purini não transfere à prefeita a responsabilidade penal pelos atos atribuídos a ele. 

Já a responsabilidade pela condução do governo exige outro conjunto de respostas. Quem verificou os vínculos dos responsáveis pelos estudos? Que controles foram aplicados às nomeações? Quem conferiu a independência da consultoria? Como foram avaliadas as impugnações? Quais informações chegaram à Câmara antes de seus integrantes autorizarem um compromisso dessa dimensão? 

À Comissão Processante, Suéllen afirmou que não recebeu alertas prévios sobre irregularidades, classificou seus contatos com Hamilton como institucionais e disse que as etapas técnicas eram conduzidas pelas estruturas responsáveis. A explicação precisa ser confrontada com os registros administrativos. Delegar tarefas faz parte de governar. Demonstrar como essas tarefas eram supervisionadas também. Se tantos setores participavam do procedimento, a Prefeitura deve conseguir apresentar os controles exercidos por cada um. A divisão de responsabilidades precisa permitir identificar quem decidiu. Do contrário, corre o risco de se transformar numa divisão de desculpas. 

A Câmara tampouco pode encerrar sua participação na contagem dos votos. Votar a favor da concessão não comprova recebimento de vantagem. Votar contra não dispensa o exame de uma suspeita financeira. A investigação deve seguir atos e documentos, sem conceder imunidade a aliados nem fabricar culpa para adversários. 

Isso vale, inclusive, para Estela Almagro. O processo reproduz conversas sobre um suposto custeio de viagem ligado à expectativa de sua ausência da sessão. O MP ressalva que esse possível repasse e sua finalidade precisam de confirmação independente. Outro registro contém uma afirmação de Hamilton sobre pagar aluguel da vereadora. A fala existe na transcrição; a comprovação financeira dessa alegação não está estabelecida nos trechos examinados. 

Essas referências exigem esclarecimentos e documentos. A oposição de Estela à concessão deve ser registrada, assim como devem ser apuradas as afirmações feitas a seu respeito. Jornalismo perde sua utilidade quando escolhe previamente quem pode ser questionado. O mesmo critério vale para as referências à imprensa. Conversas entre Hamilton e Cilene revelam interesse em construir relações capazes de ajudar o grupo em momentos de dificuldade. Há relatos sobre aproximação com o jornalista Jabbour. 

A expectativa dos interlocutores não comprova adesão do jornalista a qualquer irregularidade. Revela, porém, como eles enxergavam a utilidade de uma relação com a imprensa. Cabe apurar os contatos e ouvir os citados, sem transformar a presunção de influência de uma fonte em prova de submissão de uma redação. O interesse público desta história está justamente nas conexões: quem produzia a informação, quem a legitimava, quem a transformava em decisão e quem poderia ganhar com o resultado. 

Bauru precisa conhecer o trabalho existente por trás de cada parecer, contrato, aditivo e nota fiscal. Precisa saber se as instituições encarregadas de proteger o Município preservaram sua independência ou foram utilizadas para dar aparência pública a interesses privados. A coleta de lixo é um serviço essencial. A concessão, uma escolha de política pública sujeitam a debate, controle e fiscalização. Nenhuma das duas coisas pode servir de salvo-conduto para relações que a administração não consiga explicar. Trinta anos são tempo demais para aceitar respostas vagas. E R$ 5,259 bilhões são dinheiro público demais para que a pergunta mais simples continue sem resposta: quem escrevia as regras — e a serviço de quem? 

Autor: Fernando Redondo – Jornalismo investigativo e independente.