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A
imprensa perde sua razão pública quando ocorre o desequilíbrio final entre a
voz do dono e a necessidade de legitimação perante a sociedade. Os
jornais começaram a perder sua centralidade com o aparecimento da blogosfera e
dos novos modelos de negócio. Mas a crise não foi apenas tecnológica ou
financeira. Foi também uma crise de compreensão sobre seu leitor e, mais
profundamente, da própria função do jornalismo.
A
notícia mudou de ritmo. Os jornais não mudaram de função
No fim
dos anos 1990, escrevi sobre a nova lógica da notícia. Até então, o ciclo de
atualização dos jornais era predominantemente diário. As revistas semanais
selecionavam os acontecimentos mais relevantes — segundo seus próprios
critérios — e os reorganizavam, oferecendo contexto e interpretação, sempre
embalados em determinada visão de mundo.
Os
jornais também funcionavam como comunidades: reuniam interesses na sua
organização em editorias, abrigando leitores interessados no tema política,
internacional, esportes, cultura. E, em alguns casos, ofereciam até uma
variedade de opiniões nas colunas, atraindo público de diversas orientações
políticas. Com a
internet e a ampliação do jornalismo no rádio, a atualização passou a ocorrer
de hora em hora, até chegar ao fluxo contínuo. Caberia aos jornais assumir
parte da função que as revistas semanais exerciam no modelo anterior:
selecionar os temas decisivos do dia, contextualizá-los, investigar suas causas
e acrescentar informações que o noticiário imediato ainda não oferecia.
Não
bastava repetir, na manhã seguinte, aquilo que o leitor já sabia. Era
necessário explicar o que ele ainda não compreendia. Os
veículos, porém, escolheram disputar velocidade com a internet sem ter sua
flexibilidade e, inicialmente, sem explorar sequer as possibilidades dos links.
A resposta foi encurtar matérias, multiplicar títulos chamativos e reduzir a
densidade da informação. Confundiram concisão com superficialidade e foram
atrás da atenção momentânea em vez de perseguir o vínculo duradouro.
Credibilidade
e construção de reputações
O grande
desafio sempre foi entender quem é o leitor e por que ele deveria confiar no
jornal.
Um dos
maiores negócios da mídia é construir ou destruir reputações. Mas esse poder
depende de uma credibilidade acumulada pelo trabalho dos jornalistas. Reside aí
um conflito intemporal – o interesse da casa e a credibilidade jornalística –
que, quando não resolvido, destrói o veículo. Ao
diretor de redação cabe uma tarefa delicada: responder às demandas da empresa,
proteger o trabalho dos jornalistas e preservar a confiança do público. É uma
espécie de algodão entre cristais, colocado entre interesses comerciais,
pressões políticas e critérios profissionais.
O
problema começa quando a qualidade da apuração é usada para conferir aparência
de neutralidade a escolhas editoriais orientadas por interesses pouco
transparentes.
Objetividade
jornalística deveria significar método: conferir documentos, ouvir os
envolvidos, distinguir fatos de interpretações, corrigir erros e aplicar
critérios consistentes a aliados e adversários. Só depois disso, naquilo que
interessa à casa, adaptar conclusões aos seus interesses.
Quando
a preferência política substitui o critério jornalístico
Parte do anti lulismo dos grandes veículos não se explica apenas por divergências ideológicas. Tem
relação com interesses econômicos concretos, entre eles a preferência por um
ajuste fiscal concentrado nas despesas sociais, garantindo espaço para o custo
dos juros e os ganhos associados à Selic. Com a
disseminação de FIDCs e de precatórios, formou-se uma enorme pirâmide
financeira no mercado, sustentada pelos recursos do crime organizado, que
garantiram a liquidez adicional necessária à manutenção do jogo.
E aí
entra o fator Lula. De um lado, recusa-se a fazer o ajuste fiscal via gastos
sociais – embora não tenha definido uma estratégia contra a Selic alta -, de
outro passou a investir contra o crime organizado na Faria Lima. Ou seja,
prejudicando o mercado nas duas pontas. São esses
os interesses claros para atacar Lula. Mas como justificar o apoio a Flávio
Bolsonaro e sua extravagante e ampla relação com o crime organizado?
Recorreu-se, então, aos estratagemas mais canhestros.
A
cobertura das conversas envolvendo Fábio Luís e uma lobista, contraposta ao
tratamento dado às denúncias sobre Flávio Bolsonaro, às suas relações com
pessoas apontadas como ligadas a milícias e às questões envolvendo o caso
Master, mostra o recurso à falsa equivalência levado até o limite de total
imprudência jornalística.
Criticar
o Supremo não é desmontar a democracia
O ponto
mais grave surgiu quando a crítica a ministros do Supremo se converteu em
campanha de deslegitimação da instituição. O STF não
está acima da fiscalização. Seus integrantes devem responder por seus atos,
suas decisões e eventuais conflitos de interesse. Apurar irregularidades
fortalece a democracia.
Mas
existe uma diferença entre exigir responsabilidade de um ministro e trabalhar
para eliminar a independência do tribunal. O critério é simples: a crítica
pretende aperfeiçoar os controles ou tornar seus integrantes submissos a um
projeto político? Essa
ofensiva surge em um momento delicado, em que há ameaça concreta à soberania do
país. Há um ciclone mundial, um combate sem quartel das big techs e dos grandes
fundos financeiros, para desmontar o conceito de Nação.
Desde o
fim da Segunda Guerra, direitos sociais, regras de comércio, avanços ambientais
se deram em torno de regulamentos, acordos políticos, pactos entre nações. A
ultra financeirização levou à grande crise de 2008 e, com ela, o fim da grande
articulação do capital financeiro, em cima da sincronização de políticas
monetárias e cambiais entre países.
Ao mesmo
tempo, a criação de criptomoedas e a integração digital entre mercados fez com
que o dinheiro do crime organizado saísse de paraísos fiscais e se infiltrasse
por todos os poros da economia global. Com a era
Trump, a desregulação tornou-se a bandeira principal da geopolítica até chegar
ao alvo final da regulamentação: os Estados nacionais. O grande plano em marcha
é o desmanche gradual dos Estados nacionais e a subordinação geral do Ocidente
ao modelo de negócios do mercado e das big techs, um grande banquete liderado
por familiares de Donald Trump.
Num
cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, acompanhado de maiorias parlamentares
alinhadas a um projeto de concentração de poder, essa subordinação seria ampla.
Restaria uma área de resistência, o Supremo Tribunal Federal, justamente o alvo
maior do tiroteio da mídia. Consumado
esse modelo, a mídia terá exercido papel central na sua consolidação. E – Tenham
certeza – será a primeira vítima dessa nova forma de ditadura ampliada.
O fim
de qual mídia?
É nesse
ponto que a crise dos jornais deixa de ser apenas uma discussão sobre
circulação, publicidade e modelos de negócio.
A
imprensa perde sua razão pública quando ocorre o desequilíbrio final entre a
voz do dono e a necessidade de legitimação perante a sociedade. O fim da
mídia, nesse sentido, não ocorre apenas quando um jornal fecha as portas.
Ocorre quando ele continua circulando, mas abandona o compromisso que
justificava sua existência: oferecer ao cidadão informação confiável para que
ele possa compreender o mundo e decidir livremente sobre seu destino.
Autor:
Luis Nassif – Publicado no Site GGN Notícias.