Eventual vitória de Flávio Bolsonaro abriria
as portas para a implementação de um projeto reacionário na sociedade
brasileira. Mais armas, mais desmatamento, grilagem de
terras, asfixia da sociedade civil, privatização de praias, fim de assistência
para meninas e controle ideológico sobre as escolas. Numa eventual vitória de
Flávio Bolsonaro na eleição presidencial e diante de um Senado com maioria de
extrema direita, este poderia ser o cenário para o Brasil nos primeiros meses
de 2027.
Nos últimos anos, a bancada mais ideológica
do PL apresentou dezenas de projetos de lei no Congresso que, se aprovados,
representariam uma guinada autoritária no país, o desmantelamento de conquistas
sociais dos últimos 30 anos e uma transformação do papel da sociedade civil. Mas, pelo menos por enquanto, parte deles tem
sido freado diante da existência de um Poder Executivo progressista e de
decisões do Supremo Tribunal Federal. O risco, porém, é de que essa blindagem acabe
com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro para a presidência e sua
capacidade de escolher quatro ministros do STF, nos próximos anos. O candidato do PL já falou abertamente sobre
seu projeto de promover uma mudança da Constituição e insinuou que seu grupo
permanecerá por décadas no poder. Mas, para grupos que acompanham os debates
legislativos, serão os cem primeiros dias que podem marcar uma guinada
autoritária sem precedentes na história democrática do país.
Um risco real é de que comissões constituídas
pela sociedade civil e governo sejam desmobilizadas ou que tenham recursos
cortados, repetindo o que o Jair Bolsonaro implementou a partir de 2019. O
projeto de lei 1659 de 2024, ainda busca restringir o financiamento de recursos
estrangeiros para ONGs, num esforço para asfixiar a sociedade civil e repetir o
modelo adotado pela Rússia de Vladimir Putin. No dia 25 de novembro de 2025, a
iniciativa já foi aprovada pela Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional. O PL também fala abertamente numa anistia
para os envolvidos nos atos criminosos de 8 de janeiro de 2023 e mesmo um
indulto para atores centrais da tentativa de golpe de estado, incluindo Jair
Bolsonaro.
Desmatamento legalizado
O que os projetos indicam, porém, é que o
desmonte poderia ser muito mais amplo, inclusive com ações para secar o
financiamento da Funai e do Ibama, atendendo a uma reivindicação do
agronegócio. Não por acaso, um dos maiores abalos seria no
setor ambiental, com a aprovação de projetos que teriam consequências
devastadoras para os compromissos internacionais do país na redução do
desmatamento.
Isso incluiria a aprovação do PL 2159/2021
(“PL da Devastação”), que propõe flexibilizar o licenciamento ambiental no
Brasil, reduzindo exigências e controles para empreendimentos com potencial
impacto ambiental. Depois de o PL do Veneno já ter sido
aprovado, alterando as regras sobre agrotóxicos, uma nova ofensiva tem como
meta substituir o termo “agrotóxico” por “defensivo agrícola”. Os projetos ainda facilitarão a mineração em
terras indígenas e reservas ambientais, a regularização fundiária e estímulo à
grilagem de terras públicas, como no caso do PL 510/2021.
Já a PEC 59 transfere do Poder Executivo para
o Congresso Nacional a competência final sobre a demarcação de terras
indígenas, deixando na mão da extrema direita um processo crítico para os
grupos autóctones. O financiamento climático também será abalado
com uma eventual aprovação dos PL nº 5082/2025 e PL nº 5080/2025, que permitem
o enfraquecimento da Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental e do
financiamento da política ambiental. A água também está no foco. O PL nº 3686/2023
permitirá o represamento de cursos d’água para uso agropecuário, enquanto a PEC
nº 03/2022 fala na privatização de praias. Existem ainda projetos de redução de
Unidades de Conservação marinhas e a autorização para a mineração marinha.
A lista de projetos conduzidos pela extrema
direita no Congresso ainda inclui o PL nº 2374/2020, que prevê anistia a
desmatamento em reserva legal, além de mais de uma dezena de outros que falam
na flexibilizam o Código Florestal, anistia para desmatamento, grilagem ou o
enfraquecimento da fiscalização e dos embargos ambientais. Estão ainda previstos cortes em prevenção de
desastres, nos sistemas de alerta e infraestrutura, assim como o
enfraquecimento da fiscalização ambiental. Não faltam nem mesmo projetos que, sob o
argumento de promover uma “transição energética justa”, recolocam o o carvão
mineral como opção.
Mais armas
Com o modelo de Nayib Bukele, de El Salvador,
com inspiração, uma das bandeiras ainda da extrema direita é a transformação
das leis nacionais no que se refere à segurança pública. Nesse aspecto,
projetos de lei visam ampliar o acesso às armas. Num deles, por exemplo,
cria-se o “Programa Nacional de Proteção ao Agronegócio e Comunidades Rurais
(PNPACR)”, com diretrizes de segurança rural, flexibilização de porte de armas
para populações rurais e endurecimento penal contra crimes em áreas rurais.
No setor de segurança pública, alguns sinais
já apontam para o caminho que deve ser adotado por Flávio Bolsonaro. O Projeto Antifacção
(Projeto de Lei 5582/25), já aprovado, equipara facções a organizações
terroristas, abrindo a possibilidade para que táticas de guerra e mesmo os
militares sejam usados em territórios densamente urbanizados. Risco contra populações de periferias e
eventualmente contra atores da sociedade civil. Nos EUA, isso já acontece.
Mas isso seria apenas o início de um processo
mais profundo que incluiria a aprovação da PEC 32, que propõe a redução da
maioridade penal, o aumento do tempo de internação, a revogação do instituto da
audiência de custódia ou propostas que vedam a liberdade provisória. Um pacote ainda de projetos fala abertamente
na garantia de ampliar as autorizações para o porte de armas no Brasil,
inclusive para agentes socioeducativos e oficiais de Justiça. O PL 302/2026
também prevê a ampliação do porte para várias categorias, incluindo guardas,
vigilantes e até agentes de trânsito.
Controle dos corpos…femininos
O avanço da extrema direita também pode ser
crítico para a aprovação de dezenas de projetos que restringem as liberdades,
principalmente para mulheres e meninas. Tramita no Congresso, por exemplo, o PL
4844/2023, que proíbe o debate sobre educação sexual nas escolas. Já o PL 5069
pretende criminalizar a “indução ao aborto” e a divulgação de meios abortivos.
O PL 6335 ainda cria a chamada “objeção de consciência”, permitindo que
profissionais se recusem a cumprir normas legais por motivos morais, éticos ou
religiosos.
A ofensiva contra o aborto é ainda um carro
chefe da extrema direita, mesmo diante da Constituição autorizar o procedimento
em casos muito limitados no Brasil, como em um estupro. O PL 1515, por exemplo, busca proibir os
procedimentos abortivos realizados por telemedicina, enquanto outras
iniciativas já derrubaram decisão do Conanda que facilitava o acesso de
crianças e adolescentes vítimas de violência sexual ao aborto.
Se aprovados, os projetos de lei da extrema
direita tornarão o aborto legal no Brasil em um trâmite impossível de ser
realizado. Algumas iniciativas, por exemplo, vedariam o aborto após 22 semanas,
equiparando o ato a um homicídio. O PL 1125, se aprovado, exigiria que a vítima
apresente um Boletim de Ocorrência e exame de corpo de delito para realização
do aborto legal. Medidas que tramitam no Congresso desde 2012
ainda sugerem alterar a Constituição para estabelecer o direito à vida como
inviolável desde a concepção.
Controle do currículo escolar
Não faltam ainda projetos que visam
transformar as escolas públicas no Brasil. O Projeto de Lei de Homeschooling
(PL 1338/2022) abriria a possibilidade de oferta domiciliar da educação básica,
enquanto o PL 2.154/2023 criaria o Programa Nacional das Escolas
Cívico-Militares, ampliando a todo território nacional experiências que já vêm
sendo adotadas em alguns estados. Em 2026, o PL 1.765 propôs a criação do
Programa Nacional de Consentimento Parental na Educação (PNCE), permitindo que
pais possam autorizar ou vedar participação dos filhos em atividades sobre
“ideologias de gênero”.
Júlia Neiva, representante da Conectas,
afirma que como projetos como os apontados acima demonstram como a ascensão de
governos autoritários alteram estruturas tidas como inabaláveis, demonstrando
como proteções de direitos e da democracia que pareciam invioláveis são
destruídas de forma orquestrada.
Autor: Jamil Chade - Cruzando fronteiras com
refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou
cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu
escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais
admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio
Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto
Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.