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1 de julho de 2019

Podemos viver juntos com liberdade?

A mais forte tendência no pensamento humano é a de acreditar que nossa espécie pode viver sob um sistema único de ideias. A conclusão foi apresentada no palco do Fronteiras do Pensamento, pelo filósofo britânico John Gray.
Gray busca responder uma pergunta latente na sociedade contemporânea: para onde o incessante conflito de opiniões vai nos levar? Até onde iremos tentando convencer (ou até forçar) o outro a aderir às nossas opiniões e visões de mundo?
É fato que a hiperconexão digital rompeu as esferas de silêncio que ofereciam relativa estabilidade para nossas relações. Neste saudável distanciamento, éramos capazes de criar um universo impessoal, em que grupos e comunidades muito diferentes podiam subsistir sem maiores problemas. 
Porém, a internet nos convocou a vivermos juntos. O tempo todo. 
Onde seria desejável apenas respeito e alguma distância, acabamos apostando em uma guerra de surdos, com resultados que vão do isolamento à violência. O que o futuro nos reserva? 
Do nazismo ao extremismo islâmico, passando pelo comunismo e pela chamada Revolução Democrática, John Gray esmiúça a história e aponta como mitos aparentemente opostos partem de uma mesma crença fundamental: a imposição de um sistema universal.
Não apresentarei doutrinas ou filosofias, porque uma das minhas crenças mais fortes é que a verdade a respeito do mundo não pode ser contida numa filosofia única ou num sistema único de ideias. 
Temo e suspeito de qualquer projeto, intelectual ou político, que queira unificar e harmonizar o pensamento humano, a vida humana.
Um dos autores do século XX que mais aprecio é o escritor português Fernando Pessoa. 
Diferentemente de Pessoa, não posso dizer que tenho múltiplas identidades ou heterônimos. Mas, como ele, resisto a qualquer ideia ou crença de que nosso objetivo deva ser uma identidade única e uniforme, um tipo único de sociedade que prevaleça no mundo todo. 
Nossa meta deve ser um fim aos conflitos e isso se encaixa com o tema do Fronteiras do Pensamento, Como viver juntos. Podemos sim viver juntos, porque o mundo futuro, assim como o atual, consistirá não apenas de um tipo de sociedade ou visão de mundo, ele consistirá de diversos regimes, assim como no passado. 
Haverá democracias liberais e não liberais, monarquias, repúblicas, impérios, áreas de anarquia. Qualquer sonho de um sistema universal, seja ele comunista, anarquista, neoliberal ou positivista, é uma ilusão. 
Nos séculos XIX e XX, e nas primeiras décadas do século XXI, nenhum desses sonhos demonstrou qualquer sinal de estar se tornando mais próximo da realidade, mas, mesmo assim, estes sonhos são constantemente renovados e, muitas vezes, são renovados de forma violenta. 
A violência desse sonho da unidade, da harmonia, da civilização única, teve diversas formas no século XX: tivemos formas violentas no leninismo, bolchevismo, stalinismo, no trotskismo e no maoismo. 
Todos eram formas de violência organizada. Também tivemos o nazismo, o fascismo e mais recentemente, projetos neoconservadores de mudanças de regime.
Eu fui um dos que atacou o projeto da Guerra do Iraque desde o início. Aliás, antes do início, em 2002, e não fui o único a dizer isso. 
Quando ficou claro que algo como a Guerra do Iraque aconteceria, eu fui totalmente contra e disse que o resultado seria a destruição do Estado do Iraque seguido de um governo fraco onde haveria uma enorme quantidade de conflitos sectários. 
Seria fácil destruir o Estado do Iraque, o impossível seria reconstruí-lo e isso foi de fato o que aconteceu.
É claro que houve aspectos geopolíticos na Guerra do Iraque, que tinham a ver com o petróleo no Irã, mas, para muitas pessoas que eram a favor, criar uma democracia no Iraque seria algo realizável. Elas acreditavam que a democracia se espalharia pelo Oriente Médio. Fazia parte do que algumas pessoas chamavam de Revolução Democrática Global. 
Ainda há pessoas que defendem isso. A maioria das pessoas acredita que há um tipo de regime que é o melhor para o mundo. A maior parte das pessoas acredita que a história humana se encaminha a um tipo único de regime. 
Se esse desenvolvimento for lento ou se houver resistência de algumas partes do mundo, esse desenvolvimento pode ser acelerado por meio de guerras, de invasões, de mudanças de regime.
Os resultados dessa crença são quase sempre os mesmos: o experimento mais recente disso foi aquele que a França e a Grã-Bretanha, mais do que os EUA tentaram fazer na Líbia, derrubando o Kadafi e o resultado foi uma condição de caos total na Líbia, com militantes islâmicos que cada vez têm mais poder, uma excesso de refugiados econômicos que têm ido cada vez mais para a Europa. 
Enfim, os resultados foram ainda mais rapidamente desastrosos do que os que vimos no Iraque. Então, não existe nenhum exemplo de mudança de regime desse tipo que tenha obtido os resultados daqueles que a apoiam. 
Não estou nem dizendo que tais resultados eram desejáveis, estou apenas dizendo que, em provavelmente todos os casos, os resultados foram diferentes ou até mesmo opostos aos imaginados por aqueles que apoiavam as mudanças de regime. 
Mesmo assim, os governos ocidentais e os pensadores ocidentais ainda apoiam isso. É uma tendência incurável no pensamento ocidental. Imaginar que as nossas instituições sejam um sistema global. 
Na década de 1980, eu participava de muitos debates sobre se a União Soviética entraria em colapso e eu acreditava que sim. Quando isso começou, no outono de 1989, eu critiquei fortemente Francis Fukuyama que, então, havia publicado seu primeiro artigo sobre o fim da história, em agosto de 1989. 
Em outubro daquele ano, publiquei uma crítica ao artigo de Fukuyama, publicado no meu livro Anatomia de Gray, em que falei que não estamos observando o fim da história. Pelo contrário, na verdade, a história está continuando no seu curso normal. O curso normal da história não é uma divisão ideológica, mas sim o conflito por recursos, por religiões, por nacionalidades, grupos sociais concorrentes, isso sim é normal. Me chamaram de pessimista, de negativo e até de apocalíptico. Achei engraçado, pois apocalíptica é a visão de que a história acabou. 
Me perguntaram: como poderemos viver no mundo descrito por Gray e eu respondi como puderam viver nele até agora? Me perguntaram, no início da década de 1990, o que você acha que vai acontecer após a nova direita?
Eles estavam falando da direita liberal. Eu respondi que era óbvio o que aconteceria, a antiga direita voltaria. Os racistas, os nacionalistas, os machistas, os antissemitas, anticiganos, antigays, anti-imigrantes, tudo isso voltaria. 
Isso está acontecendo agora na Hungria, na Grécia, em todos os lugares. Na Espanha e na Itália com os partidos da esquerda, na França, a Frente Nacional está mais forte do que nunca, e é isso que vai acontecer.
Por que esse tipo de sonho de sistema único é tão forte, sendo que ele já foi falsificado tantas vezes? Não existe nenhum tipo de tendência que aponte realidade nesse direcionamento a um sistema único.
Algumas pessoas me dizem que estou atacando os mitos, falsificá-los. Não. Mitos não podem ser vistos como ideias falsas, porque não são teorias científicas. Mitos são as únicas coisas que as pessoas têm de fato. Então, eles vão continuar a existir.
Devemos refletir sobre se queremos fortalecer estes mitos, se ficamos apreensivos quando nossos mitos são questionados, se ficamos nervosos ou deprimidos. 
Se é isso que procuram, sugiro que não leiam meus livros e procurem Malcolm Gladwell ou livros de autoajuda. A minha proposta é pensar em uma forma alternativa para viver bem, que é a forma como quase todos pensavam até 200 anos atrás. 

Autor: John Gray

Crise que machuca a economia é, sobretudo, de inteligência!

Bolsonaro, Guedes e seus ‘seguidores’ empenham-se na desconstrução do arcabouço institucional que sustentou o desenvolvimento do País.
Ao investigar as razões do desenvolvimento asiático, os autores mais inclinados à análise histórica e institucional concentraram a atenção nas seguintes questões: 1. A natureza e relevância das políticas industriais (e de constituição de grandes grupos nacionais), sempre amparadas no direcionamento do crédito e nas taxas de câmbio reais “competitivas”. 2. A importância dos acordos implícitos e das relações de “cooperação” e “reciprocidade” entre o Estado e grupos privados. 3. A forma da inserção internacional.
Os estudos cuidaram de sublinhar as relações peculiares entre os Estados Nacionais, os sistemas empresariais e a “inserção internacional”. Procuraram chamar atenção para a especificidade da “organização capitalista”, em que prevaleceram: 1. Nexos “cooperativos” e de reciprocidade nas relações capital-trabalho. 2. Negociações entre os grandes conglomerados e seus fornecedores. 3. Íntima articulação entre os bancos e a grande empresa nacional. 4. “Administração estratégica” do comércio exterior e do investimento estrangeiro.
Essa arquitetura institucional não só assegurou excepcionais taxas de investimento e de acumulação de capital como ensejou programas de “graduação” tecnológica. Esse arranjo garantiu, assim, expressivos ganhos de produtividade e, consequentemente, consolidou a posição competitiva dos grandes grupos nacionais (sim, os “campeões”, senhoras e senhores) diante dos rivais e concorrentes no mercado internacional.
A partir das reformas do fim dos anos 70 do século passado, a China irrompeu no cenário asiático com uma receita um tanto modificada. O novo protagonista apoiou-se na combinação entre uma novidade, ou seja, a atração de investimentos diretos estrangeiros e, uma tradição, isto é, a forte intervenção do Estado na finança e no comércio exterior, com o propósito de sustentar uma agressiva estratégia exportadora e de crescimento acelerado. A ação estatal cuidou, ademais, dos investimentos em infraestrutura e utilizou as empresas públicas como plataformas destinadas a apoiar a constituição de grandes conglomerados industriais preparados para a batalha da concorrência global.
Os sistemas financeiros que ajudaram a erguer os países asiáticos eram relativamente “primitivos” e especializados no abastecimento de crédito subsidiado e barato às empresas e aos setores “escolhidos” como prioritários pelas políticas industriais. O circuito virtuoso ia do financiamento para o investimento, do investimento para a produtividade, da produtividade para as exportações, daí para os lucros e dos lucros para a liquidação da dívida.
Na China, as elevadas taxas de poupança registradas nas contas nacionais resultam, sobretudo, dos lucros retidos pelas empresas e do crescimento da renda das famílias. As “poupanças” brotam do circuito virtuoso: expansão do crédito comandada pelos bancos públicos, conexão entre o investimento das empresas estatais e privadas, aumento da produtividade e das exportações líquidas, elevação dos lucros e dos rendimentos agregados.
Os chineses cuidaram de reforçar a centralidade da “organização capitalista” em que prevalecem nexos, digamos, “cooperativos” nas relações entre empresas e burocracias civis, militares e de segurança encarregadas de fomentar e administrar o sistema de avanço tecnológico. É crucial a presença dos bancos públicos no provimento de crédito para permitir a apropriação da tecnologia, mediante a utilização das empresas estatais para a formação de joint ventures com o capital estrangeiro, e promover a “administração estratégica” do comércio exterior. Essa arquitetura institucional não apenas assegurou excepcionais taxas de investimento e acumulação de capital como também ensejou programas de “graduação” tecnológica.
A crise que hoje machuca a economia brasileira é, sobretudo, uma crise de inteligência estratégica. Bolsonaro, Paulo Guedes e seus “seguidores”, dentro e fora do governo, empenham-se na desconstrução do arcabouço institucional que sustentou o desenvolvimento do País ao longo de cinco décadas. Desde os anos 30 do século passado, a trajetória da nossa economia confirma que a coordenação do Estado é crucial para a obtenção de taxas de crescimento elevadas.
Os dados de Rodrigo Orair demonstram claramente o protagonismo do investimento público no longo ciclo de expansão entre 1950 e 1979. Não por acaso, as taxas de crescimento do período suplantam significativamente aquelas obtidas na etapas recentes.
O Brasil ocupava, então, a liderança no torneio mundial do crescimento amparado em um processo de industrialização que avançou para dotar o País de uma estrutura produtiva diversificada e moderna. Pindorama era a nação mais industrializada entre os ditos “emergentes”.
Descontada a década perdida dos anos 1980, submetida às agruras da crise da dívida externa, o desenvolvimento posterior foi modesto. O primeiro ciclo, o dos anos 1990, moveu-se no território do baixo dinamismo e da regressão da estrutura industrial. Esvaiu-se no colapso cambial de 1999. O segundo ciclo, apoiado no projeto de inclusão social e expansão do mercado interno, foi sustentado pelos preços das commodities, mas fragilizado pela valorização cambial. Sobreviveu bravamente à crise global de 2008. Perdeu forças nos anos que antecederam à crise de 2015, deflagrada pelo ajuste reclamado pela turma da bufunfa e executado pela dupla Rousseff-Levy.
Desde então, o debate brasileiro trilhou os caminhos das simplificações binárias. Inspirados no filme Querida, Encolhi as Crianças, não são poucos aqueles que recomendam “encolher o Estado”. Cortar, desmobilizar e privatizar são os verbos mais conjugados nos gabinetes dos palácios e da finança. A secretaria que cuida das Privatizações ostenta também a alcunha de Desinvestimentos.
Vamos olhar para a frente: a integração às cadeias globais vai certamente exigir políticas distintas daquelas executadas nos anos do nacional-desenvolvimentismo. A ênfase, agora, deve ser colocada na busca da construção de vantagens dinâmicas apoiadas em programas de inovação, sobretudo os articulados ao agronegócio, às novas fontes de energia, à infraestrutura e às grandes demandas sociais, como educação, saúde, mobilidade urbana e segurança.

Autor: Luiz Gonzaga Belluzzo

Conversar é uma arte em perigo de extinção?

Entre as muitas realizações da Internet está o cruzamento imediato de mensagens entre pessoas distantes. Paradoxalmente, isso prejudicou a comunicação verbal, entendida como troca direta de ideias.
Conversar é uma arte em perigo de extinção? Dizer que sim seria, no mínimo, controvertido, porque hoje tudo ao nosso redor está montado de maneira que nos chegam sem cessar oportunidades de interagir tanto com amigos quanto com desconhecidos. A conectividade digital permite trocar mensagens sem limite, de modo que vivemos na ilusão de estarmos imersos em uma espécie de conversa infinita. A pergunta inicial pode não parecer tão absurda se pararmos para pensar sobre o que se entende por conversa e, especialmente, o que se espera de seus participantes: a expressão de argumentos, de um lado, e escuta atenta, de outro.
Em nosso atual ambiente hipertecnificado, ambas as ações são um desafio. O primeiro exige certas doses de solidão prévia para que quem fala tenha tido a possibilidade de elaborar algo genuinamente próprio; o segundo, prestar atenção. Ou, dito de outra forma, remar contra a corrente no caudaloso rio de estímulos e interrupções pelo qual navegamos diariamente. E, além disso, dialogar não é uma troca de monólogos. Jean de La Bruyère dizia que o talento da conversa não consiste tanto em mostrar muito, mas em fazer que os outros encontrem.
Nossas vidas são baseadas em interações e a comunicação verbal é a ferramenta mais à mão para produzi-las. Ninguém discute a máxima aristotélica de que o homem é um animal social inclinado a exteriorizar opiniões e sentimentos. Portanto, o silêncio imposto implica pesar, e quando um ente querido deixa de nos dirigir a palavra, experimentamos dor.
O escritor Henry Fielding, em seu ensaio de 1743 dedicado à conversa, a definiu como a troca de ideias mediante a qual se examina a verdade e na qual cada questão é analisada a partir de diferentes pontos de vista, de modo que o conhecimento seja compartilhado. A história conheceu grandes momentos dessa arte desde que Platão observou que é a mais elevada forma de conhecimento. Muitos séculos depois se começou a perceber a relação direta entre a estabilidade política e o mundo da conversa, que David Hume descreveu como a conversa respeitosa na qual se dá e se recebe no interesse de um gozo mútuo. Para manter um intercâmbio linguístico autêntico deve-se deixar de lado a vaidade, a intransigência e o orgulho; assim, a antítese da conversa é a polarização exacerbada.
A conversa, como se desenvolveu tradicionalmente ao longo da história, tem um denominador comum: o cara a cara, o aqui e agora. E essa necessidade de nos comunicar olhando nos olhos é o que a onipresença das telas já começou a diluir, a ponto de haver quem chegou a acreditar que, com esses sucedâneos de colóquios mediados por um dispositivo, nada se perde no caminho. A tela, cabe lembrar, é não apenas uma superfície que transmite conteúdos, mas também é, em sua segunda acepção, uma separação, uma barreira ou proteção que se interpõe entre os indivíduos.
Por isso pesquisadores como Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia do MIT, alertam para a crise de empatia promovida pelos aparelhos eletrônicos, pois nos privam de ver as emoções que afloram quando duas pessoas se explicam frente a frente e em tempo real.
Além disso, conversar também é a maneira mais eficaz de criar laços afetivos. Turkle aponta em Reclaiming Conversation (Em Defesa da Conversa) que esperamos cada vez mais da tecnologia e menos das pessoas que nos rodeiam, às quais arrebatamos boa parte da nossa atenção para redirecioná-la a conteúdos alojados em outro lugar. “Sacrificamos a conversa pela mera conexão”, acrescenta, citando estudos científicos que demonstram que a simples presença de um telefone sobre a mesa, ainda que desconectado, desvirtua a atenção de todos os presentes. Outro dado preocupante: quanto mais tempo as crianças passam conectadas, menor é sua capacidade de identificar sentimentos alheios.
Nossa confiança na tecnologia para preencher os silêncios, combater o tédio e nos expressar sem o medo de nos sentirmos julgados é tanta que a indústria se esforça para desenvolver a inteligência artificial para que possamos falar com objetos em vez de pessoas.
Os robôs de conversação já são uma realidade. Hoje é possível coletar todas as mensagens e comentários de um usuário na rede para que, uma vez morto, possam ser recriados seus padrões de conversação, de modo a podermos continuar trocando mensagens com ele. Embora isso, como Alan Turing vaticinou, não deixará de ser um jogo de imitação. A tecnologia é um meio extraordinário, mas nada é capaz, adverte Turkle, de substituir uma comunicação em pessoa e os benefícios que traz. 
O sociólogo Georg Simmel, já no início do século passado, qualificou a conversa de antídoto contra a pressão e o estresse causado pela vida moderna. Recentemente, um estudo da Universidade de Chicago provou que a conversa casual entre dois estranhos em um trem ou sala de espera faz desse momento uma experiência mais agradável. Talvez, apontam seus autores, estejamos superestimando o desejo de privacidade em um planeta cada vez mais povoado. Não entender os benefícios da interação social resulta inevitavelmente em solidão, empobrecimento e falta de empatia.

Autora: Marta Rebón: Tradutora, Fotógrafa e Critica literária.

11 de junho de 2019

A mente nos engana (e não nos damos conta)

Comece a perceber que o seu cérebro está cheio de armadilhas
As consequências de pensar depressa demais.
Foto: El País
Nem tudo é o que parece. Basta uma simples experiência para comprovar isso. Suponhamos que Steve seja uma pessoa selecionada ao acaso de uma amostra representativa. Um morador o descreve como alguém "muito tímido e retraído, sempre prestativo, mas pouco interessado nas pessoas ou no mundo real. De natureza disciplinada e metódica, precisa ordená-la e organizar tudo. Além disso, tem obsessão pelo detalhe". Talvez, a primeira resposta que nos venha à cabeça é que Steve seja bibliotecário? Afinal, parece reunir as qualidades típicas desses profissionais. No entanto, a resposta correta é agricultor. Nos países ocidentais, como os Estados Unidos, existe um bibliotecário para cada 20 agricultores. Se Steve foi escolhido aleatoriamente, é mais provável que ele cultive a terra. Nossa mente nos engana. Ou, melhor dizendo, pensar rápido nos engana.
Em 1974, os psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman publicaram esse exercício na revista Science, abrindo terreno para toda uma corrente de pesquisa sobre como nossa mente funciona e as peças que ela nos prega. Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002 graças a esse trabalho (Tversky morrera alguns anos antes). Chegaram à conclusão de que temos duas formas de pensar, dois sistemas operacionais. O sistema 1, reativo, é ligado ao pensamento rápido e automático. Nele são formados os julgamentos e as ideias preestabelecidas. Nessa etapa também são processadas as decisões intuitivas e as do especialista, que depois de muitos anos de trabalho é capaz de reconhecer algo apenas batendo o olho. O sistema reativo é também o encarregado de responder quando uma pessoa está em pleno sequestro emocional, ou seja, quando vive uma emoção com muita intensidade, o que dificulta ver as coisas com clareza.
O sistema 2, ou consciente, está ligado ao pensamento lento, que precisa de tempo para elaborar a conclusão. É ativado quando a atenção é plena e se encarrega dos cálculos complexos e da concentração. Todos nós temos esses dois sistemas, mas o mais curioso é que o sistema 2 está normalmente em segundo plano. Como reconhece Kahneman em seu interessantíssimo livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar (Objetiva), nosso cérebro é preguiçoso por pura sobrevivência. Consome cerca de 20% da glicose e do oxigênio que estão em nosso corpo, apesar de representar menos 5% de sua massa. Para evitar um consumo excessivo, ativamos o modo automático, o sistema 1 ou reativo. Em outras palavras, respondemos e agimos segundo a primeira coisa que nos vem à cabeça, sem elaborar muito.
Esse fazer sem pensar nos leva a colocar rótulos nas pessoas que vemos ou que acabamos de conhecer. Nos deixamos arrastar por seu estilo na hora de vestir, por sua forma de ser, por sua tendência sexual e por tantos outros vieses inconscientes que evitam que tomemos decisões mais reflexivas e inteligentes. Diversas pesquisas indicam que as pessoas que se movem pelo sistema 1 costumam tomar decisões mais egoístas, mais superficiais e, claro, usam uma linguagem mais sexista.
Mas nem tudo está perdido. Temos a capacidade de evitar cair nos braços do sistema reativo ante o primeiro desafio que surja. A chave consiste em refletir antes de tomar uma decisão importante ou quando conhecemos alguém. No fundo, é despertar o sistema 2, prestar maior atenção.
 Por isso, não surpreende que muitas empresas de vanguarda, que buscam diversidade e inovação, capacitem seus funcionários sobre como evitar os vieses inconscientes. Podemos realizar esse trabalho nós mesmos levando em conta como o nosso cérebro funciona, sendo conscientes de que está cheio de armadilhas. Se aplicarmos esse aprendizado no exercício de Steve, valeria à pena perguntar se não existem agricultores meticulosos. Essa pergunta abriria novas possíveis respostas.

Autora: Pilar Jericó – Publicado no El País

10 de junho de 2019

Qual o futuro do jornalismo?

“O jornalismo é uma necessidade social”, determina Leonardo Padura, considerado um dos melhores autores de Cuba. O escritor criou roteiros para o cinema e atuou por 15 anos na área do jornalismo investigativo. Porém, a análise de Padura sobre o futuro do jornalismo não é nada boa. Elementos que eram fundamentais ao jornalismo se perderam nos últimos anos. Categorizações, avaliações, linhas editoriais, chefes de redação, tudo foi bagunçado, argumenta o escritor cubano.
Ainda, a mudança do papel para a tela transformou radicalmente a relação da informação com o leitor, diz ele. A quantidade de opiniões e de fatos circulantes é imensa e o poder de um nome na análise dos fatos foi se reduzindo. Paradoxalmente, a chamada “grande mídia”, os veículos mais tradicionais, se reduziram a alguns poucos grupos, que detêm grande poder.
Em meio a este diagnóstico assumidamente pessimista, Leonardo Padura reflete sobre possibilidades e sobre o futuro da profissão neste mundo de telas e de pós-verdades.
O jornalismo é uma necessidade social. Não só para informar, mas também porque é um espaço onde se pode fazer uma reflexão mais ou menos imediata sobre o que está acontecendo na realidade.
A literatura sempre precisa de um espaço de tempo para refletir e transformar isso em uma linguagem artística. O jornalismo trabalha com um certo imediatismo e tem uma presença muito onipresente, porque, hoje em dia, com os meios que existem, bom, não é preciso ter apenas o jornal de papel.
Se você quiser ler o Le Monde ou qualquer jornal de qualquer lugar do mundo, você o tem na internet. O que acontece é que estamos em um momento em que houve uma mudança de plataforma, que é também uma mudança de paradigmas, que também é uma mudança econômica no jornalismo, que de alguma forma perdeu a função que por quase cem anos a imprensa teve.
Hoje em dia, o espaço tradicional do jornal não tem mais a função que tinha até 20 anos atrás. Atualmente, as redes sociais, os blogs, as edições digitais dos jornais mudaram completamente esse modo de se relacionar entre o jornalismo e o leitor.
Mas é também um território que, de tão democrático, o território digital tem a possibilidade de que qualquer um possa intervir nele. As categorizações foram perdidas, as avaliações foram perdidas.
Sempre em um jornal havia uma figura que era o diretor ou o chefe de redação, que era um mediador entre o jornalista e o leitor. Porque tentavam manter uma linha editorial e uma qualidade no que se dizia.
Hoje, há uma grande confusão, porque todo mundo opina e todo mundo publica. No Facebook e no Twitter circulam uma enorme quantidade de opiniões, às vezes de informações, e isso torna muito difícil ter o peso da opinião que os jornais tinham até alguns anos atrás.
Além disso, como aconteceu todo esse fenômeno, muitos jornais, jornais de prestígio buscaram alternativas econômicas e uma das alternativas econômicas foi, inclusive, aposentar, para retirar dos jornais os antigos jornalistas que ganhavam salários melhores e trazer jovens recém-formados para ocupar esses espaços sem ter a experiência, o conhecimento que esses outros jornalistas acumularam ao longo dos anos.
É preciso repensar o jornalismo. Eu também estou um pouco pessimista sobre isso, porque nós não podemos, por princípio, não podemos restringir a liberdade de expressão. Esse é um princípio. Mas, por princípio, também deveríamos respeitar a verdade e a confiança do leitor.
Hoje falamos em pós-verdades ou falsas verdades. Em suma, falamos sobre coisas que são inimagináveis ou que aconteciam apenas em espaços muito diabólicos da comunicação.
Mas, hoje isso se estabeleceu como parte do jogo da informação, da opinião que circula, e faz com que grandes confusões sejam geradas.
Acrescenta-se a isso que também houve uma concentração da informação, de outro tipo de informação, da supostamente mais autorizada em grandes grupos editoriais que são grandes grupos de poder e que são grandes lobbies econômicos. Isso faz com que o interesse de um setor social ou econômico específico domine a informação em determinados espaços, que podem ser desde jornais, televisão, estações de rádio e espaço na internet.
Então, há realmente uma situação em que acredito que os mais afetados são as pessoas que consomem notícias, os leitores. Porque, de cada história, há muitas verdades e somos incapazes de saber qual é a verdade que mais se aproxima da verdade.


Autor: Leonardo Padura – Fronteiras do Pensamento.

9 de junho de 2019

Idiocracia brasileira!

“Não existe um governo corrupto numa Nação ética,
nem há uma Nação corrupta onde exista um
governo ético e transparente” Leandro Karnal.
Com menos de seis meses de gestão sem que tenha produzido ações e fatos que justificassem algum suspiro progresso, o governo Bolsonaro começa a conviver com uma forte desconfiança de setores da sociedade, entre seus aliados e dos organismos internacionais.
Claro que, alguns eleitores dele ainda resistem a acreditar no pior, no fracasso do Capitão, para tanto agem como se ainda estivessem durante a campanha eleitoral, rechaçando as criticas e fazendo comparações com o governo petista (fora do poder a dois anos e meio), tentando na verdade se iludir até a última gota de esperança.
Surge na França num artigo do conceituado jornal Le Monde, a tese de que caminhamos para uma “Idiocracia” no governo Bolsonaro. O texto diz que a situação do país evoca preocupações "ligadas ao nível intelectual de Bolsonaro, à frente do Estado desde 1º de janeiro, e têm a ver com o caos que o presidente mantém, alimentando-se de controvérsias triviais e vulgares nas redes sociais, atacando a cultura, as ciências sociais e humanas, cortando orçamentos universitários e mantendo uma obsessão marcante com assuntos fálicos em detrimento do avanço de reformas cruciais".
O Le Monde cita ainda as polêmicas envolvendo filhos do presidente e o "guru" do governo, Olavo de Carvalho, que "divulgou a suposição de que a Terra seja plana”. Segundo o Le Monde, entretanto, pode ser perigoso questionar a racionalidade do governo. "O nível intelectual de Bolsonaro é questionado pela imprensa e alguns de seus compatriotas, mas o caos que ele mantém pode ser parte de sua estratégia política", diz. O tom de censura adotado pelo jornal francês na reportagem consolida uma postura fortemente crítica do Monde em relação à situação política do Brasil.
A Idiocracia (Idiocracy/EUA/2005) parte de um princípio muito simples e interessante: entra geração, sai geração, a humanidade se torna mais burra e estúpida. A julgar pela forma como nossa sociedade vota, elegendo corruptos, despreparados, analfabetos e pessoas sem a mínima condição de atuar nos poderes legislativo ou executivo, podemos acreditar que caminhamos celeremente para uma Idiocracia pura em todos os sentidos.
Aqui no nosso país percebemos a adesão por muitos nas redes sociais da tese de que as vacinas não devem ser aplicadas por que podem levar as crianças a adquirirem autismo. Além da discussão sobre a terra não ser redonda e sim plana, temos também setores do governo afirmando no exterior que o Nazismo é de esquerda e que não houve ditadura militar no Brasil entre 1964 e 1985. A quem interessa essa onda de burrice e ignorância? Para quem serve pregar a escuridão, o ódio e a desinformação?

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Quando as profecias fracassam!

“Loucos são apenas os significados não compartilhados.
A loucura não é loucura quando compartilhada”.
Zygmunt Bauman!

No final do verão de 1954, um jovem psicólogo brilhante estava lendo o jornal quando deparou com uma estranha manchete na última página:
Profecia do Planeta Clarion.
Alerta à cidade: Fujam da inundação.
Enchente virá em 21 de dezembro.
Diz mensagem do espaço a uma suburbana.
Com sua curiosidade atiçada, o psicólogo, que se chamava Leon Festinger, continuou a ler. “Lake City será destruída por uma inundação do grande Lago antes do amanhecer em 21 de dezembro”. A mensagem veio de uma dona de casa de um subúrbio de Chicago, que a havia recebido, segundo ela, de seres superiores de outro planeta: “Esses seres têm visitado a Terra”. Diz ela, “no que chamamos de discos voadores”.
Era precisamente o que Festinger esperava. Essa era a sua chance de poder investigar uma simples, mas espinhosa questão que o intrigava havia anos: o que acontece quando as pessoas vivem uma grave crise de suas convicções? Como essa dona de casa reagiria quando não aparecesse nenhum disco voador para salvá-la? O que sentiria quando a grande inundação não se materializasse? Ao fuçar Maísa um pouco a história, Festinger descobriu que a mulher, chamada Dorothy Martin, não era a única convencida de que o mundo iria acabar em 21 de dezembro de 1954. Cerca de uma dúzia de seus seguidores – todos americanos inteligentes e honestos – haviam pedido demissão de seus empregos, vendido tudo ou abandonado seus cônjuges, tal era a foca de sua convicção.
Na noite de 21 de dezembro de 1954, nada aconteceu, nenhuma chuva ocorreu. A Srª Martin alegou ter recebido uma mensagem de Deus, que segundo ela havia decidido “poupar” a Terra.
Conto essa estória por que em pleno Século XXI, no ano de 2019, no Brasil estamos convivendo com várias situações parecidas com a vivida pelo psicólogo em Chicago – EUA. Temos nas redes sociais e no WhatsApp muitas Doroty’s espalhando que a Terra é plana e não redonda como sempre foi fotografada, filmada e atestada por cientistas e astronautas das agências espaciais americanas, chinesas e russas. Que o nazismo é de esquerda, os que estudaram sabem que foi o comunismo da URSS à época que ajudou a derrubar Hitler e seu exército na Europa. Os judeus que foram vitimas de Adolf Hitler sabem a origem do nazismo e nunca em toda sua existência espalharam uma tese tão tosca e esdrúxula como essa de Bolsonaro e Andre Araújo (Ministro das Relações Exteriores).
Ainda estamos no começo da gestão para a qual foram eleitos, logo, podemos pressupor que muitas outras teses vão surgir no cenário brasileiro e da América do Sul. Resta rezar... 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

7 de junho de 2019

Mil ministros cheios de fé no Supremo!

Se nomear um evangélico, tem de nomear um protestante, um mórmon, um batista, um pai de santo, um pajé...
S. Fenerek é homem justo, democrata, deseja igualdade para todos. Gosto de conversar com ele sobre generalidades e dia desses, logo depois que o presidente emitiu novo parecer fálico, para entender melhor o alcance de certas ações corremos ao primeiro volume da História da Virilidade, organizada por Jean Corbin, Jean Jacques Courtine e Georges Vigarello, editora Vozes, e ali encontramos uma nota sobre Jacques de Fonteny (século 17), que escreveu uma pastorinha, L’Eumorphopémie ou Le Beau Pastor, na qual o autor imaginou um mundo de homens, exclusivamente de homossexuais apaixonados e viris. Machos. Teria a ver? 
Imaginamos um seminário estilo Casa do Saber, mas fomos atraídos para outro assunto. Porque o homem lá em cima é um repositório precioso, enciclopédico. Não é que ele pensa em nomear um evangélico como ministro do Supremo? Nada com o evangélico, desde que versado em leis, sábio, ponderado. Fenerek, o erudito de Santa Adélia, ficou indignado. 
“Como? Somos ou não somos um país laico? Se nomear um evangélico tem de nomear um protestante.”
Antes que ele continuasse, acrescentei:
“E um mórmon.”
“Tem razão. E por que não também um batista?”
“E um da Igreja Universal.”
“Sem esquecer uma Testemunha de Jeová.”
“E não pode faltar um espírita kardecista.”
“Deve caber lá também um pentecostal.”
“E um pai de santo.”
“Do jeito que anda o Supremo vai precisar de muitos pais de santo.”
“E alguém bahá’í.”
“Ponha também um messiânico.”
“O Messi também criou uma religião?”
“Nada a ver, falo do culto.”
“Epa, e o budismo?”
“Acrescente o taoismo.”
“Também o xintoísmo.”
“Ah! E o umbandista.”
“Os sikhs indianos.”
“E um pajé.”
“Xi! Se põe índio, o ministro do Meio Ambiente e o pessoal do agronegócio fazem manifestação de rua.”
“Falta alguém do judaísmo.”
“Se entra um, vem também um islâmico, afinal democracia é democracia.”
“Já colocamos alguém do Evangelho Quadrangular?”
“Tem também a Igreja Deus e Amor.”
“E o do candomblé.”
“O da macumba.”
“Isso, temos de ter cuidado para não nos acusarem de preconceituosos ou politicamente incorretos.”
“Acabei de me lembrar da Religião da Divina Sabedoria.”
“E a das Treze Cruzes Sobre o Altar.”
“Há igualmente a dos Adoradores da Verdadeira Bíblia.”
“Acabei de me lembrar dos Seguidores de Mahavira.”
“Já pusemos os brâmanes?”
“Não esqueçamos os Seguidores do Barqueiro de Utnapishtim.”
De repente, veio um silêncio. Nem S. Fenerek, o venerável, e eu nos lembrávamos de mais religiões, apesar de sabermos que são milhares. E, portanto, os ministros terão de ser milhares. E como o Supremo trata de Justiça, os ministros teriam de saber leis, Constituição, etc. Ou não? Passariam a rezar, cada um orando pelo seu deus, esperando que assim o País caminhe? Afinal, Deus está acima da pátria. Será necessário construir centenas de edifícios que abriguem milhares de religiosos-ministros e seus assessores. Epa, epa! Como dizem em Santa Adélia e em Araraquara. E se um dos três filhos indicar o Queiroz, o milagroso das finanças, para comandar e pagar os assessores?

Autor: Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo.

3 de junho de 2019

O populismo mexicano!

O povo que aplaude e continua encantado pelos desplantes do presidente López Obrador compreenderá que a era dos caudilhos deve ficar para trás.
Fernando Vicente
No auditório da Universidade de Guadalajara, sob o espetacular mural de José Clemente Orozco contra o fanatismo ideológico, acabam de serem realizadas três mesas-redondas com a participação de 15 intelectuais mexicanos – talvez os mais eminentes do país –, que, diferenças entre eles à parte, manifestaram sua preocupação com guinada que a política mexicana vem dando desde que Andrés Manuel López Obrador assumiu a presidência.
Héctor Aguilar Camín, escritor, jornalista e diretor da revista Nexos, advertiu que, tanto em suas iniciativas como em suas intenções, o mandatário parece ter posto em marcha a construção de uma estrutura mais pessoal e permanente, que as instituições democráticas mexicanas, recentes e frágeis, não estão em condições de resistir. E o historiador Enrique Krauze, diretor da Letras Livres, que foi vítima de uma recente campanha de descrédito e intimidação por suas críticas ao Governo, insistiu no risco de que “o messias tropical” – assim chamou o novo presidente em um célebre ensaio – esteja operando de tal modo que possa cruzar as linhas vermelhas da democracia mexicana para continuar no poder, por via direta ou por pessoa interposta, uma vez terminado seu mandato (a Constituição do México não permite a reeleição).
Este temor acabou sendo longamente compartilhado, com muitos matizes de diferença, pelos participantes, entre os quais havia escritores, juristas, políticos e defensores dos direitos humanos, incluindo várias mulheres, como Lisa Sánchez, que em uma aplaudida intervenção defendeu a sociedade civil e suas mobilizações em prol dos direitos das mulheres e da igualdade de oportunidades.
Talvez o mais claro e taxativo tenha sido o crítico literário Christopher Domínguez Michael, para quem a deterioração da democracia mexicana já é um fato irrebatível, que só poderá se agravar com o poder quase total dado pelos eleitores ao seu novo presidente, que obteve a maioria absoluta no Congresso e mantém uma enorme popularidade, da qual se serve para tomar decisões pessoais nos campos econômico, político e cultural que frequentemente surpreendem seus próprios ministros e assessores. Tudo isso, afirmou, deixa entrever um futuro inquietante para o país que tem mais falantes de espanhol no mundo inteiro. E outro crítico, ensaísta e professor universitário, Guillermo Sheridan, ofereceu sutis interpretações dessas mesmas críticas.
Falavam devagar, sem se alterar, guardando as formas, e eram escutados com uma atenção rigorosa por um público que lotava a sala e no qual abundavam os estudantes universitários. O bacharel Raúl Padilla, inventor da grande Feira do Livro que ocorre nesta cidade todos os anos e que pôs o nome de Guadalajara no mundo inteiro, nos tinha advertido de que talvez houvesse incidentes. Mas não houve nenhum, e às nove horas do fórum transcorreram em absoluta paz. “Isto é a civilização”, pensei muitas vezes, “um mundo de ideias e razões, tão diferente do que estamos acostumados em outras partes, das banalidades e lugares-comuns de que costuma estar cada vez mais trufada a política em nossos dias”.
As inquietações dos intelectuais mexicanos com seu novo Governo me parecem justificadas. O passado de López Obrador e suas campanhas políticas delatam um dirigente impregnado de populismo, algo que não teve o cuidado de dissimular desde que está no poder. A cada manhã, durante duas horas seguidas, oferece uma entrevista coletiva em que os jornalistas presentes costumam ser mais servis que independentes.
Suas decisões ele costuma tomar de improviso, prescindindo dos marcos legais, mediante ukazy que, depois, seus funcionários ajeitam, não sem dificuldade, para lhes dar cobertura legal. E todas suas iniciativas parecem guiadas por um instinto ou palpite do momento, mais que de acordo com um programa, embora tenha tido um em sua campanha, mas pareça ter dele se esquecido. Assim ocorreu com a construção do novo aeroporto na Cidade do México, que cancelou de maneira arbitrária e que provocou seu primeiro atrito com o empresariado mexicano.
É verdade que sua enorme popularidade o defende contra todas as críticas, mas isto parece ter agudizado no personagem o que estes intelectuais observam nele: a presença do caudilho tradicional latino-americano, voluntarista e despótico, que, precisamente por ser muito popular, acredita estar acima das leis e normas democráticas.
Não há censura de imprensa por uma razão que explicou, com afiada lucidez, o ex-ministro mexicano de Relações Exteriores Jorge Castañeda, ensaísta e professor universitário atualmente nos Estados Unidos. Os anunciantes de mais peso, empresários importantes, recebem um telefonema do próprio presidente ou de um intermediário de confiança, aconselhando-os ou rogando-lhes que reduzam ou cancelem seus anúncios no jornal (como poderia ter ocorrido com o Reforma, o grande jornal do México, que, por acolher as críticas de seus colunistas ou as formular ele mesmo, caiu em desgraça com o poder e viu sua publicidade diminuir de maneira dramática).
Os empresários, que querem levar a vida em paz, ainda mais com um governo populista, não hesitam em acatar a sugestão. Deste modo, os meios ameaçados moderam suas críticas, ou correm o risco de quebrar. Assim se instala a censura atual nos países democráticos: asfixiando-se economicamente a imprensa –leia-se rádios e redes de televisão – independente ou díscola.
O México é um grande país e, com todos os defeitos de seu velho sistema político, desde que o ex-presidente Zedillo permitiu eleições realmente livres, no ano 2000, viveu um processo democratizante indiscutível, do qual tanto as elites como a população comum participaram com entusiasmo. Os Governos destas últimas décadas foram escolhidos em eleições genuínas, e sua política internacional correspondeu nestes anos à do chamado Grupo de Lima, que, em casos como os da Venezuela e Nicarágua – dois regimes autoritários e corruptos –, manteve uma posição impecável, exigindo eleições livres e defendendo a oposição que é vítima de maus tratos, encarceramentos, torturas e assassinatos. Desde que López Obrador está no poder, o México optou por uma “neutralidade” que equivale à cumplicidade com ambas as ditaduras (como se pudesse ser neutro perante a peste bubônica).
Estas jornadas que tiveram lugar na Universidade de Guadalajara mostram que não será fácil para o Governo atual retroceder todo o avançado no México, e que à frente desta resistência estão intelectuais com espírito crítico, como os participantes deste fórum. O povo que aplaude e continua encantado pelos desplantes do presidente López Obrador compreenderá – tomara que antes cedo do que tarde – que a era dos caudilhos deve ficar para trás, e para sempre, em uma América Latina onde a liberdade e a democracia vão substituindo as tiranias populistas que lhe causaram tanto dano.

Autor: Mario Vargas Llosa – Publicado no El País

2 de junho de 2019

Neuroestimulação contribui para afinar a 'sinfonia cerebral'!

Estudos recentes mostram grande avanço em tratamentos que envolvem estímulos elétricos para restaurar funções cognitivas!
A pesquisa sobre a estimulação cerebral está avançando tão rapidamente, e as descobertas são tão intrigantes que aqueles que seguem o assunto estão lutando para dar sentido a tudo isso. No mês passado, cientistas relataram melhorar a memória de trabalho de pessoas mais velhas, usando corrente elétrica passada por uma calota craniana e restaurando algumas funções cognitivas em uma mulher com danos cerebrais por meio de eletrodos implantados. 
Mais recentemente, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) aprovou um estimulador do tamanho de um smartphone para aliviar problemas de déficit de atenção ao fornecer corrente elétrica com o auxílio de um adesivo colocado na testa.
No ano passado, outros cientistas disseram que também criaram um implante cerebral que aumenta o armazenamento de memória. E um grupo de pessoas da subcultura do tipo "faça você mesmo” resolveu experimentar colocar eletrodos em seus crânios ou testas para o "ajustar" o cérebro e fazê-lo continuar a crescer.
Vale a pena observar o campo da neuroestimulação porque sugere propriedades elementares da função cerebral. Ao contrário das drogas psiquiátricas, ou psicoterapia, pulsos de corrente podem mudar o comportamento das pessoas muito rapidamente e de forma confiável.
Os cientistas costumam assemelhar a função cerebral a uma sinfonia. "Se você assistir a uma orquestra tocando, uma vez que a apresentação começa, o violoncelista está olhando para a pessoa ao seu lado e não para o maestro", disse Michael Gazzaniga, psicólogo da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. "A questão para mim é: o cérebro tem um condutor?".
O método mais cru de intervenção elétrica é a eletroconvulsoterapia, ou ECT, que envia uma corrente indutora de crises através do cérebro, proporcionando pelo menos um alívio temporário para algumas pessoas com depressão severa. Os médicos usaram ECT por quase um século, embora o tratamento seja controverso. ECT é como interromper o desempenho da orquestra e mandar os músicos para casa descansar um pouco e voltar renovados.
Uma forma mais direcionada de terapia elétrica, chamada de estimulação cerebral profunda, ou DBS (do inglês Deep Brain Stimulation), tem sido usada para gerenciar condições como a doença de Parkinson e a epilepsia. Na DBS, um eletrodo é enfiado na área do cérebro afetada; a fim de estimulá-lo e, paradoxalmente, eliminar a atividade ali.
Os recentes estudos de estimulação cerebral empregam uma técnica distinta da ECT ou da DBS, mas que ainda pode ser entendido como uma orquestra. Em um dos estudos, cientistas da Universidade Boston descobriram que poderiam melhorar a memória de trabalho em adultos mais velhos, otimizando o chamado "acoplamento" rítmico entre as áreas do córtex frontal e temporal no cérebro de uma pessoa. No cérebro, as atividades de regiões distantes se coordenam por meio de ondas teta de baixa frequência. 
Os pesquisadores usaram a estimulação elétrica, fornecida por meio de uma calota craniana, para amplificar essas ondas, melhorando a coordenação entre as duas regiões cerebrais e, em adultos mais velhos, melhorando a memória de trabalho. "Acreditamos que o que estamos fazendo é essencialmente sincronizar essas duas áreas separadas", disse Robert M.G. Reinhart, neurocientista da Universidade Boston e um dos autores desse estudo.
Em outro estudo recente, os cientistas descobriram que poderiam atenuar ou reverter os sintomas de fadiga, falta de concentração e confusão mental em uma mulher que sofreu uma lesão cerebral grave 18 anos antes. Eles forneceram corrente constante por meio de dois eletrodos implantados em ambos os lados do tálamo, uma região frequentemente descrita como um comando central do centro do cérebro. Metaforicamente, eles aumentaram o volume. Tradução de Romina Cácia

Autor: Benedict Carey - The New York Times

Vida de gado, povo feliz!

A dificuldade não está nas novas ideias,
mas sim em escapar as antigas.
John Maynard Keynes

Em plena manhã de domingo, com sol e frio na maior parte do país, uma manifestação popular toma conta de algumas ruas de cidades brasileiras. A manifestação organizada pelo partido do presidente – PSL e aliados tinha como mote “Apoio ao Presidente”, porém, nas ruas a verdade eram gritos de guerra e faixas contra o Congresso Nacional, Rodrigo Maia e David Alcolumbre (presidentes da Câmara e Senado).
O apoio a Sérgio Moro e seu pacote anticrime e a Lava Jato também ecoaram pelas ruas brasileiras. Segundo os especialistas o número de participantes no geral foram inferiores aos que estavam nas mesmas ruas contra o contingenciamento de recursos da educação no dia 15 de maio.
Qualquer manifestação ordeira é sempre democrática e precisa ser considerada no cenário nacional. Entretanto, neste caso em particular, ficam sérias dúvidas. Começando pelo fato de que a Reforma da Previdência não foi votada por ter oposição muito forte ou por falta de empenho de Rodrigo Maia – DEM-RJ.
Três são os fatores a serem considerados:
   1. A reforma da previdência é necessária, porém, este projeto que lá está no Congresso Nacional, penaliza apenas e tão somente o trabalhador celetista, aposentados, idosos, pensionistas. Não acaba com as desigualdades, não elimina os problemas das dividas dos grandes devedores do INSS, não iguala os sistemas da previdência comum e dos servidores, incluindo os militares. A PEC tem de ser ajustada. Um novo texto deveria ser debatido levando-se em conta pelo menos esses pontos. Quem tem compromisso com seu país analisa mérito e defende o trabalhador e não o sistema financeiro.
  2. A escolha do presidente da república para compor sua equipe no que tange a intermediação com o legislativo foi desastrosa. A líder do governo no Congresso é a Deputada do PSL-SP Joice Hasselmann, que vive em guerra até com seus aliados usando principalmente o Twitter, ao invés de privilegiar o diálogo pessoalmente. Onyx Lorenzoni acusado de Caixa 2 é o Ministro da Casa Civil, desprovido de capacidade de diálogo com os parlamentares. Major Vitor Hugo escolhido como líder do governo na Câmara é uma piada de mau gosto, vive brigando com Rodrigo Maia e com os deputados da oposição. Fernando Bezerra (Alvo da Operação Lava Jato) e o Líder do governo no Senado, igualmente aos seus colegas não sabe dialogar e perde tempo importante que não deveria ser desperdiçado.
   3.  Os manifestantes gritaram contra o PT que não é poder a quase três anos. Ergueram faixas contra a esquerda que igualmente não está no poder, mas em geral criticaram fortemente a oposição, como se esta estivesse bloqueando projetos do governo. Esse posicionamento é estranho, na medida em que no Senado temos hoje 10 opositores do governo contra 71 favoráveis. Na Câmara são 97 opositores contra 416 da situação. O PT tem o mesmo número de deputados que o PSL do presidente.
Esses dados deixam claro que mais uma vez, muitas pessoas foram enganadas ou levadas ao erro por políticos, partidos ou lideranças equivocadas pela sua leitura excessivamente ideológica, fora do contexto atual. No dia 15 de maio, manifestantes que saíram as ruas contra o corte dos recursos da educação também cometeram o mesmo erro ao levarem bandeiras com dizeres como “Lula Livre”. O que nada tem a ver com a questão principal naquele momento que era exigir a volta dos recursos para a educação. 
  
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

1 de junho de 2019

Não tenho político de estimação!

Político, para mim, é um servidor público qualquer. Não lhe devo favor, idolatria ou agradecimento algum.
Há um ano e meio, um pouco mais talvez, eu bato sem parar no lulopetismo. Por quê? Bem, vou poupá-los de 150 milhões de linhas, né? Sigamos, pois.
Mas bato também nos Sarney, Cunha, Calheiros, Collor, Jucá e tantos outros que considero da mesma estirpe. Bato também em FHC, Alckmin ou qualquer outro político que me desagrade. Basta ler as centenas de textos arquivados na minha página do FB. Já cheguei a mandar ilustríssimo Fernando Henrique para aquele lugar, durante um ataque de raiva. Ocorre que o agravo é proporcional ao fato. Os motivos que me levam a criticar Alckmin, por exemplo, são completamente diferentes daqueles que me impelem a detonar Fernando Pimentel.
Eu não tenho culpa se o PT resolveu monopolizar os maiores crimes de corrupção e as maiores besteiras administrativas do país. Não fui eu que filiei à criminosa (segundo o Senado Federal) Dilma Rousseff ao partido. Tampouco obriguei Dirceu, Delúbio, Genuíno, Vaccari e mais uns 150 petistas a assaltarem o país. Querem o que, pô? Que lhes teça loas e juras de amor? Sai pra lá, chulé! Não faço isso nem por José Serra e Antônio Anastásia, dois exemplos de políticos que eu gosto e admiro.
Outra coisa: O PMDB, para mim, é o maior antro de bandidos do Brasil. Rezo para o TSE não fazer como o STF — cuspir na Constituição — e cassar a legenda, juntamente com PT, PP, PTB e tantos outros “pes” (será “p” de puta?) que houverem e haverem assaltado o país. Assim, não fiquem me cobrando porrada nestes caras como se eu só tivesse olhos para a turma do Lula. Mas há que dar “a Cesar o que é de Cesar”, ué!
Aécio Neves
Não o conheço. O vi uma mísera vez em um boteco, em BH, onde eu estava com uma turma de amigos. Enchemos tanto o seu saco, que ele não aguentou dois minutos e nos deixou. Não sou amigo de ninguém que é seu amigo. Jamais fiz campanha para ele e jamais fui seu eleitor espontâneo. Sempre que votei nele, foi por oposição ao PT. Se em 2018 for ele o candidato do PSDB, e do outro lado estiverem Lula ou Dilma ou Marina ou Ciro ou Eduardo Paes, votarei nele. Se estiverem Anastásia ou Meirelles ou Serra, de preferência juntos, Aécio jamais verá meu voto. Mas é o seguinte:
Aécio é corrupto? Não sei. Se 1/10 das histórias que circulam em BH forem verdadeiras, ele é. Mas notem o “se”, ok? E “histórias” também.
Aécio se droga? Se, sim, deve fazê-lo muito bem escondido, pois jamais encontrei alguém que tenha visto ou participado de algo assim.
E o helicóptero com cocaína? Pelo o que foi fartamente noticiado, o helicóptero pertence ao senador Zezé Perrella. “Ah, mas eles (Zezé e Aécio) são sócios na droga”. Bem, aí quem disser uma coisa destas que assuma o ônus da prova. A um, eu não sou doido para dizer algo assim; a dois, eu não creio nisto; a três, acho uma puta sacanagem este tipo de insinuação.
Aécio compra a justiça? Bem, perguntem aos magistrados. Por que ele não responde a processos? Vai ver por falta de provas, ué? Mas diante um STF dominado por “petistas”, acho pouco crível esta tese.
Aécio é dono do Estado de Minas (jornal)? Se é, é de forma oculta. Tão oculta que absolutamente ninguém sabe. O jornal o protege? Não sei dizer, pois sinceramente não leio o jornal. Não só o EM, mas nenhum. O Portal UAI, onde estou a pouco mais de um mês hospedando este blog, jamais me pediu qualquer coisa neste sentido. O Benny Cohen, meu, digamos assim, “chefe”, até hoje só me pediu para maneirar nos palavrões — meus e dos comentários — e não permitir ofensas dos leitores endereçadas a terceiros ou ao próprio jornal.
Por que, então, eu não bato em Aécio? Porque ele não está envolvido em nenhum caso de corrupção. Foi citado em duas ou três delações que restaram arquivadas pelo PGR Janot, em quem eu não confio. Mas se houve treta aí, como é que eu posso saber? Aécio também não está governando o Estado. Sua atuação como senador não me desagradou em nada. E sua atuação como líder do PSDB foi, a meu ver, tão pífia e insossa durante todo este período de impeachment, que vou criticar o que além disto?
Encerro
Por que este enorme “desabafo”? Para esclarecer, aos quase 600 mil leitores deste blog, que eu, Ricardo Kertzman, não tenho o rabo preso a ninguém, não estou a serviço de ninguém e não sou censurado por ninguém. Por mim, o Aécio, o Temer, o Alckmin ou o Aloísio Nunes que se danem — O Serra e o Anastásia, não! Já disse que gosto deles. Mas os petistas e assemelhados, com esses é diferente. Esses eu vou infernizar até o fim. Hasta la muerte!
A minha ou a deles? Bem... Aí eu já não sei.
 
Autor: Ricardo Kertzman e Amigos – Publicado no Blog Opinião sem medo!

Sabe a verdade? Pois é: acabou

"O bicho-homem, em sua infinita capacidade de autodestruição, acaba de inventar a máquina de produzir 'fake news', derivada da associação entre Inteligência Artificial e notícias falsas. Quem já viu este 'animal' em ação ficou impressionado”.
Sabe a verdade, aquela base sólida sobre a qual se construiu a civilização, que serviu de condição para a assinatura dos tratados de divisão da Terra, como o de Tordesilhas, que rachou o mundo no meio e deu um pedaço para Portugal e outro para a Espanha? A verdade, aquela que era a fiadora dos acordos de paz ao final dos conflitos – quando as partes diziam: “Tudo bem, fica o dito pelo não dito, a guerra acabou, vamos cuidar da vida”?
Pois é: a verdade, que permitiu a um homem confiar em outro homem – “Se o senhor diz que é verdade que tenho um tumor no cérebro e só com uma cirurgia vou ficar curado, eu deixo o senhor abrir um buraco na minha cabeça para retirar o tumor”; ela mesma, a verdade, que está na base da investigação científica, e que vem sendo aperfeiçoada ao longo dos séculos, a cada avanço na pesquisa, a cada descoberta, a cada novo instrumento de prospecção da realidade. Pois é:
- A verdade... acabou.
Enquanto a mentira veste as calças
É doloroso ter de reconhecer um acontecimento tão devastador, mas a verdade simplesmente deixou de existir, e vamos ter de conviver daqui pra frente sem a ajuda dela, sem a certeza que ela nos oferecia, sem a segurança que nos garantia seguir em frente, prosseguir, avançar, alcançar. A verdade acabou.
O mais curioso é que acabou por meio do mais formidável avanço da humanidade ao longo dos milênios da civilização. A internet matou, aniquilou, extinguiu a verdade. Hoje, privados dela, todo dia nos resignamos a viver sob o império de sua mais tenaz adversária – a mentira, que ganhou dela e se impôs como a mais nova realidade de nosso tempo.
Claro, claro: isso que hoje se chama de “fake news” sempre existiu. Apenas não era difundida com o poder de turbinamento da internet, que permite a distribuição de uma mentira para todo o planeta em fração de segundos. Churchill dizia que a verdade dá uma volta completa na Terra enquanto a mentira veste as calças. E disse isso bem antes da internet, que nunca foi sonhada por um Júlio Verne, um Einstein, um Newton ou um Leonardo da Vinci.
Mais letal que a peste bubônica
Mas a praga das “fake news”, possivelmente a maior epidemia de toda a história do homem sobre a Terra, está vencendo e vencendo rapidamente a corrida com o que resta de verdade. O grau de sofisticação das “fake news” chegou a tal ponto que tornou-se apenas impossível distinguir a verdade da mentira. Os instrumentos de combate ao mal das informações falsas revelam-se diariamente incompetentes para o enfrentamento de um monstro de mil tentáculos e milhões de faces. Um vírus letal que até poderia ser comparado ao vírus da dengue – que precisa do apoio da população para seu combate. Mas que é muito mais perigoso, porque não se sabe de alguém que crie propositalmente o mosquito Aedes Aegypt. Mas pipocam por aí os que recebem e distribuem bilhões de vezes informações que eles próprios sabem ser falsas. Ou seja: o monstro é alimentado pelos únicos que teriam poder real para combatê-lo.
Tudo indica que o enfrentamento ao mal das “fake news” terá de ser feito simultaneamente em várias frentes, que vão desde o aperfeiçoamento dos mecanismos de detecção, a modernização do aparato jurídico, o apoio à pesquisa sobre o tema e, sobretudo e principalmente – a formação de uma consciência crítica por meio da qual se comece a por um freio no compartilhamento irresponsável de informações de difícil comprovação ou comprovadamente falsas, mas que confirmam crenças e valores de quem as recebe. Agências de “fact-checking” como a Lupa, a e-Boatos vêm prestando relevante e necessário serviço no combate ás informações mentirosas. Mas seu trabalho já vem sendo objeto de contestação pelos que apontam nelas a influência de grupos dos mais variados tipos de interesses que vão dos financeiros aos ideológicos, passando pelos que se alimentam do fanatismo em relação às pautas de costumes.
A última pá de cal na verdade
O quadro fica ainda mais dramático quando se depara com uma dificuldade básica: a de se conseguir dar uma definição à expressão “fake news”, tamanha a variedade de formatos que elas ostentam. Antes, limitavam-se aos textos escritos. Hoje, avançam em fotografias manipuladas e falsas imagens em movimento. A tecnologia atual permite um grau tão elevado de manipulação que tornou possível por na boca de qualquer pessoa um texto com sua voz original, seus trejeitos, seu rictus facial e seu sotaque.
A última pá de cal na cova da verdade foi dada por uma criação devastadora: uma nova tecnologia com potencial de “jogar na obsolescência tudo o que existe por aí”, expressão usada pelo jornalista Carlos Rydieswski, do jornal Valor Econômico, na reportagem sobre o tema. Trata-se de um software com inimaginável poder de destruição – o GPT-2, capaz de redigir textos de maneira autônoma e com elevadíssimo grau de fidedignidade para quem os lê. Mas, diferentemente das outras tecnologias, sempre disponibilizadas ao público, desta vez os códigos do novo programa não foram liberados pelo receio do altíssimo “potencial destrutivo” do invento, como justificou Jack Clark, um dos dirigentes da OpenIA. IA são as iniciais de Inteligência Artificial. A OpenIA é uma organização sem fins lucrativos, com sede em São Francisco, Califórnia, que desenvolveu a engenhoca capaz de gerar narrativas altamente verossímeis, mas inteiramente falsas.
E você, leitor? Tem certeza de que você é real?
Ou seja: o bicho-homem, em sua infinita capacidade de autodestruição, acaba de inventar a máquina de produzir “fake news”, derivada da associação entre Inteligência Artificial e notícias falsas. Quem já viu este “animal” em ação ficou impressionado. Só como exemplo, o software foi abastecido com as seguintes informações: “Um vagão de trem com material nuclear foi roubado em Cincinnati. Seu paradeiro é desconhecido”. A partir disso o GPT-2 redigiu um artigo de sete parágrafos (!) que incluiu até “declarações” de agentes do governo. Tudo crível. Tudo falso. A mutreca é capaz de igualmente produzir a partir da Inteligência Artificial imagens insólitas, mas críveis.
Melhor parar por aqui. Quem pode garantir, neste momento, que fui eu mesmo quem redigiu este artigo? Sim, porque a verdade acabou para todo mundo, inclusive para mim e para você. Pensando bem, leitor: será mesmo que você existe ou é criação de um software malicioso como o OpenIA?

Autor: Paulo José Cunha é professor, jornalista e escritor. Publicado no Congresso em Foco