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1 de junho de 2026

Livros: memórias, testemunhos, sopros de vida!

  

W. Benjamin na Biblioteca Nacional de Paris – 1937 Crédito Foto de Gisèle Freund. 

Walter Benjamin considerava as livrarias, em conjunto com outros espaços afetivos — como as casas de amigas e os cafés —, pontos cardeais que organizavam a topografia das cidades em que viveu. 

Em Paris, ele frequentava a La Maison des Amis des Livres, de Adrienne Monnier e Sylvia Beach, no número 7 da Rue de l’Odéon, mítico espaço por onde passaram também James Joyce, Samuel Beckett, André Gide, Ernest Hemingway, Marcel Proust e André Breton, muitos deles fotografados por Gisèle Freund. A obra dessa fotógrafa — cujo doutorado, defendido em 1936, foi um dos primeiros apresentados por uma mulher na Sorbonne — foi estudada por Benjamin. Monnier, por sua vez, ofereceu ideias fundamentais para que o berlinense pudesse desenvolver o conceito de aura, central para sua reflexão sobre a arte.

O prazer de percorrer livrarias é algo que compartilho com Benjamin, em plano, claro, muito mais modesto que o do maior crítico do século XX. Penso que as cidades se expressam nelas; então, visitá-las é uma maneira (certamente parcial e fantasiosa) de conhecer o lugar em que estou. Observo como os livros estão dispostos, o que se prioriza nas vitrines e nos nichos, se há livreiros ou apenas vendedores de uma mercadoria que, então, poderia ser qualquer outra. 

Nos territórios que já conheço, costumo voltar às mesmas casas e, quando consigo criar a oportunidade, adquirir um volume. Lá estão a obra que não conhecemos, os livros de editoras regionais com baixa tiragem, uma nova edição, um preço que julgamos convidativo; enfim, sempre há motivos para escolher o objeto que fará a mala ficar mais pesada ou exigirá a busca por caixa de papelão e plástico bolha. Tenho predileção por livrarias de usados, os sebos, como os chamamos no Brasil. Neles estão as edições que ainda não tenho, assim como a chance de colocar na estante uma versão extra de um livro que já possuo; há os originais estrangeiros, a grafia antiga, o exemplar numerado. Pode-se saber algo da experiência do tempo em que ocorreu a publicação, já que ela ajuda a construir o contexto político e cultural de uma época. 

Às vezes, interesso-me pelos exemplares que trazem nome, data e mesmo anotações, imaginando seu percurso — tudo isso embora eu quase nunca risque um livro (fazê-lo me dá a impressão de conspurcá-lo). A história de um objeto ganha seus contornos também nas formas como ele é recebido ao longo do tempo.

Vanilda Pereira Paiva e Walter Benjamin

Sem que isso substitua o prazer das visitas, igualmente me agrada bisbilhotar em portais brasileiros e estrangeiros, comparando preços, buscando traduções, perscrutando as condições em que estão os destinos de meu desejo. Foi nesse movimento que encontrei, há meses, um livro raro disponível em uma livraria do centro da cidade do Rio de Janeiro. Tratava-se de Zueiner Neufassung des Bildungsbegriffs (algo como Para uma nova formulação do conceito de formação), de Heinz-Joachim Heydorn (1916–1974), um dos mais importantes representantes do pensamento crítico em educação na Alemanha. Personagem de ampla e consistente participação intelectual e política no pós-guerra, foi membro do Partido Social-democrata e professor da Universidade de Frankfurt.

O livro de Heydorn foi publicado em 1972 como um Suhrkamp Bändchen, ou seja, pela editora então sediada nas margens do Rio Meno, responsável pela divulgação de grande parte do pensamento crítico da segunda metade do século XX (e até hoje), o que inclui Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin. Os pequenos tomos têm formato de bolso, encadernação simples e apresentavam preço de venda relativamente baixo (hoje em dia, nem tanto). Possuo algumas centenas desses volumes, de letras um pouco miúdas, mas de fácil leitura, e não era propriamente uma surpresa que houvesse alguns deles sendo oferecidos em um portal que abrange grande parte do Brasil.

O que eu me perguntava, no entanto, era sobre a origem do livro, sobre quem poderia ter interesse — bastante específico, ainda que nada injustificado — por Heydorn. Tinha apenas uma hipótese: a de que ele tivesse pertencido à professora Vanilda Pereira Paiva, falecida há três anos, na data em que completaria 80 anos, em 22 de junho de 2023. Diretora do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira e pró-reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das instituições em que atuou, sua produção bibliográfica é vasta e influente. 

Ela muito contribuiu para legitimar a pesquisa educacional no Brasil, em especial aquela sob enfoque sociológico e nos interstícios da história das ideias. Em 1978, apresentou sua tese de doutorado em Frankfurt, e seu orientador, até a morte repentina aos 58 anos, foi precisamente Heinz-Joachim Heydorn. Conheci Vanilda há uma década e meia, quando ela deixou um recado no telefone fixo de minha casa (sim, havia telefones não móveis até não muito tempo atrás) com um convite para coordenarmos, em conjunto, uma equipe de pesquisa. Ela não queria encerrar a carreira deixando descoberto um tema que havia muito lhe interessava, mas que as demandas cotidianas a foram obrigando a deixar de lado. 

O movimento cultural chamado de Lebensreform — Reforma da Vida — era-lhe uma obsessão intelectual. Desenvolvido no mundo germânico entre os séculos XIX e XX, retomado em alguns de seus aspectos pela contracultura, teve expoentes como Emilie Flöge e seu companheiro Gustav Klimt, figura-chave da Art Nouveau, assim como impulsos nietzschianos, vitalistas, de cultivo do corpo, da música e da natureza. Em nosso primeiro encontro, ela me presenteou com dois grossos volumes (1.232 páginas no total), catálogos da grande exposição ocorrida em Darmstadt, em 2001.

Os livros são ricamente ilustrados, e os guardo com carinho e interesse, mas, principalmente, como recordação de quem os presenteou. Sinto-me não exatamente como novo proprietário, mas como guardião desses objetos. A pesquisa, apoiada pelo CNPq, foi desenvolvida, culminando em um seminário na UFRJ, em 2013, e em um livro publicado cinco anos depois (A Reforma da Vida: em busca de uma outra modernidade, pela Garamond, organizado por ela, Claude Dubar, Erik Laloy e Jens Thoemmes). Também rendeu alguns artigos que escrevi, apresentei e publiquei. Findo o processo, segui um pouco mais com o tema, o que resultou em um dos capítulos do compêndio organizado por Marcus Taborda de Oliveira e Meily Assbú Linhales, Corpos, natureza e sensibilidade (Mercado de Letras, 2022).

Pois bem, Zu einer Neufassung des Bildungsbegriffs, de Heydorn, pertencera mesmo a Vanilda: lá estava o nome dela na primeira página. Não sei o que foi feito da bela biblioteca que ela formara e que conheci em um almoço no apartamento do edifício Copa-Leme, no Rio de Janeiro. Possivelmente, alguns livros foram doados ou dados de presente; é provável que uma parte expressiva tenha tido o destino dos sebos. 

Semanas depois de desembrulhar o pacote em casa, caminhando por um deles, deparei-me com várias pilhas de livros ainda não catalogados, o que costuma acontecer nessas ocasiões. Fiquei pensando nos antigos colecionadores que organizaram suas estantes com eles. Pensei muito em Vanilda Paiva, em Walter Benjamin — cuja biblioteca foi confiscada e destruída pela Geheime Staatspolizei, a famigerada Gestapo, pouco depois de sua desesperada fuga de Paris. Pensei em mim mesmo. O destino é também a transformação da vida em restos. 

Autor: Alexandre Fernandez Vaz é doutor em Ciências Humanas e Sociais pela Leibniz Universität Hannover, Alemanha, Professor Titular da UFSC, Pesquisador CNPq.Publicado no Site Brasil de Fato.

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