O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto e o pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro PL. Crédito Beto Barata do PL.
Flávio
Bolsonaro passa vergonha, o centrão titubeia, a terceira via sonha em existir e
a Faria Lima busca um candidato para chamar de seu. Róliudi. Antes mesmo de
estrear, “Dark Horse” já rende sequências piores do que nas telas. Depois do
áudio de Flávio Bolsonaro, foi a vez do deputado Mario Frias (PL-SP),
ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, chamar o banqueiro de
irmão e agradecer pelo financiamento.
O
dinheiro de Vorcaro navegava por uma estrutura tripla: a Entre Investimentos e
Participações no Brasil, o fundo Havengate Development LP no Texas (cujo agente
legal é o advogado Paulo Calixto, responsável pelo processo imigratório da
família Bolsonaro nos EUA) e a GoUp Entertainment LLC, sediada na Flórida. Para
atrair grandes fortunas, a produção vendia cotas de US$ 500 mil, com um pacote
especial de US$1,1 milhão que prometia “oportunidade de imigração”. Com o
mandato cassado, Eduardo Bolsonaro arranjou um emprego como produtor-executivo
e responsável pela engenharia financeira internacional. Em diálogo interceptado
de março de 2025, ele explica ao intermediário Thiago Miranda, sócio do Portal
Leo Dias, que “o ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA
para os EUA é tranquilo”, num indício de que estamos falando de lavagem de
dinheiro.
O
escândalo desemboca ainda na gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes
(MDB). Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e
sócia da GoUp Entertainment LLC, é o elo entre os R$ 108 milhões pagos pela
prefeitura de São Paulo num contrato emergencial de Wi-Fi gratuito e o filme
bolsonarista.
O
Tribunal de Contas do Município havia identificado pelo menos 20
irregularidades graves no edital — ausência de ampla concorrência, ICB sem
qualquer histórico técnico em telecomunicações — e a Secretaria de Inovação
seguiu adiante. Resultado: dos 5 mil pontos de Wi-Fi prometidos, foram
instalados pouco mais de 3.200; três aditivos elevaram o repasse de R$ 43
milhões previstos para R$ 69 milhões efetivamente pagos.
O ICB
compartilha endereço, sócios e procuradores com a GoUp na Avenida Paulista e
recebeu ainda emendas federais carimbadas por Mario Frias, que é procurado há
mais de um mês pelo ministro Flávio Dino para prestar esclarecimentos.
Vida
real. Se
as conversas entre Flávio e Vorcaro sobre o filme já eram escandalosas, o
encontro presencial entre os dois depois da prisão do banqueiro caiu como uma
bomba no QG dos Bolsonaros. Em primeiro lugar, o efeito se fez sentir no
eleitorado: em poucos dias, as intenções de voto em Flávio recuaram
6% no segundo turno contra Lula, segundo o Instituto Atlas Intel.
Mas a
base aliada também foi atingida. Dentro do PL, o sentimento de traição e
de que algo mais grave possa vir à tona gerou incertezas sobre o futuro da
campanha do candidato bolsonarista. E, em outro pedaço importante da direita e
do centrão, PP, União e Republicanos, o compasso é de espera. Até porque
essa ala precisa gerir sua própria crise depois que veio à tona o envolvimento
do cacique do PP, Ciro Nogueira, com Vorcaro, que a cada dia ganha novos
capítulos.
O mesmo
compasso de espera tem marcado as reações dos principais concorrentes do
espólio da direita: Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Ambos
criticaram vagamente os casos de corrupção, mas sem bater de frente com Flávio.
Enquanto isso, Merval Pereira e outros viúvos da terceira
via entraram em alvoroço, acreditando que a finada tenha reencarnado em um
corpo inesperado, como Joaquim Barbosa (DC), ou talvez até em Aécio
Neves (PSDB).
O saldo
do desgaste de Flávio Bolsonaro também passa pelo setor evangélico e pela
Faria Lima. No primeiro caso, por questões morais evidentes; no segundo, não
tanto pela moral, mas por falta de confiança. E é justamente o setor financeiro
que Flávio deve buscar reconquistar com o anúncio de propostas e compromissos
mais claros para a economia. Até porque, quando o assunto é a rede de amizades
de Vorcaro, o candidato do PL não estava sozinho. Pairam dúvidas sobre as
autoridades financeiras e seu envolvimento na crise do
Master, especialmente o capítulo que envolve o BRB. O tema voltou à pauta
pelas mãos de Renan Calheiros (MDB-AL), que comanda a Comissão de Assuntos
Econômicos do Senado, e que solicita esclarecimentos e maior transparência
sobre o papel que o Banco Central desempenhou no desenrolar da crise. Mas estas
são cenas do próximo capítulo.
Passando
a boiada outra vez. Enquanto
Flávio Bolsonaro busca reduzir danos, Lula dá um suspiro de alívio. É que a má fama de Flávio respingou positivamente no presidente, que recuperou
levemente a popularidade de seu governo, segundo a pesquisa Atlas Intel. Os
números são singelos — a aprovação passou de 42% para 42,9% e a desaprovação
caiu de 51% para 48,4% — mas, em tempos de aperto, cada pequena vitória conta.Animado
pelas dificuldades do adversário, pelos tropeços do centrão e pela recente
conversa amigável com Trump, Lula se sentiu confiante para destravar algumas
pautas emperradas.
No
espírito de mostrar todas as cartas que tem até as eleições, o governo acenou
com uma linha especial de crédito para motoristas de app e
taxistas na compra de carro zero. Já no tema sensível da regulação das big
techs, o governo seguiu o entendimento do STF sobre a necessidade de
aumentar as responsabilidades das plataformas sobre os conteúdos veiculados nas
redes. Assim, por meio de decreto, o Planalto ampliou os poderes da
Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) no âmbito do Marco Civil da
Internet. Na prática, as empresas devem facilitar os canais de denúncias,
tornam-se responsáveis por tirar do ar perfis que pratiquem crimes mesmo antes
de decisão judicial, e a ANPD passa a ter maiores poderes de fiscalização.
Mas as
boas notícias para o Planalto tiveram vida curta. Logo em seguida,
o Congresso derrubou o veto de Lula em quatro dispositivos da LDO e
autorizou doações públicas para estados e municípios em ano eleitoral, o que,
na prática, significa liberar a distribuição de emendas de deputados e
senadores para suas bases, vitaminando seus projetos eleitorais.
Assanhada, a bancada ruralista também quer passar mais uma parte da
boiada de flexibilização das leis ambientais. E a direita, sem-vergonha,
fez até um abaixo-assinado para incluir uma transição de 10 anos para o
fim da escala 6×1, incluindo uma pegadinha na PEC que permitiria aumentar a
jornada de trabalho das atuais 44 para 52 horas semanais!
Com tudo
isso, talvez Lula seja obrigado a recuar da ideia de indicar novamente
Jorge Messias para a vaga no STF, para não bater de frente com Davi
Alcolumbre e aumentar os atritos com o Congresso. Os judeus
que dizem não ao sionismo. No Outras Palavras, conheça a dolorosa jornada
pessoal de Bruno Hendler para dissociar o judaísmo do sionismo.
Autores:
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
Publicado no Site Brasil de Fato.