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3 de maio de 2026

Grito arbóreo

Cada árvore que cai é seiva a menos que corre, é sol a menos que se armazena, é sombra a menos que protege, é vida a menos. As árvores da área de lazer da Praça do Coco, no distrito de Barão Geraldo em Campinas, foram quase todas removidas nesta triste terça-feira. A prefeitura, como sempre o faz, argumenta que estavam condenadas, apresentando laudos que julgo serem fidedignos, uma vez que são exarados pelos próprios funcionários da prefeitura ou por aqueles muito próximos aos negócios públicos. Se havia perigo, como explicar que a ação não foi apresentada, nem debatida com a população? O plantio feito pelos próprios comerciantes e moradores locais se consolidou em 1999 e, de repente, não mais que de repente, em um coincidente momento, todos os espécimes padecem de vilania a ponto de cair sobre os transeuntes? E, assim, antes que matem, são todos indignamente mortos. A política pública no momento é a da desarborização onde ainda há árvores, caso do distrito de Barão Geraldo, e impedimento de arborização no restante da cidade, especialmente nos bairros mais periféricos de alto adensamento populacional - e sem árvores. Sim, reclamamos, vamos às redes sociais e até reportagem fazem com nossas denúncias. As árvores não ressuscitarão, no entanto.

Sob nosso grito - não adianta - as árvores continuam deixando de existir. Recentemente, outra atividade dessas na região se justificava por serem eucaliptos as vítimas, o que foi noticiado pelo Diário Campineiro (https://diariocampineiro.com.br/morador-questiona-corte-de-15-arvores-em-barao-prefeitura-afirma-que-havia-risco-de-queda/) e pude escrever um artigo com o mesmo conteúdo para o Hora Campinas (https://horacampinas.com.br/artigo-arvores-trocadas-por-buracos-em-barao-geraldo-por-adilson-roberto-goncalves/). Nesses momentos, esquecem que mais é menos, ou seja, quanto mais árvores plantadas umas juntas às outras, menores são os perigos de quedas. No meio urbano, já é triste a mutilação que é promovida para deixar os fios passarem pela cobertura arbórea, uma vez que ainda não conseguiram um meio de colocar os condutores de eletricidade e de informação sob a terra de forma segura. Com esses desafios todos, o feriado de Primeiro de Maio e o sábado subsequente estão dando trabalho aos moradores para fazerem vigília no espaço do remanescente arbóreo da Praça do Coco e mobilização para evitar que mais árvores sejam abatidas. Mesmo não sendo crianças em escolas iranianas, elas também mereciam viver.

O verde passa a ser cor rara, presente em grande parte apenas naqueles retângulos de papel, que mostram esfinges de ex-presidentes norte-americanos e fartamente usados em trôpegas trapaças pelos rincões do país. O verde das matas são trocados pelas cédulas, apenas isso. Dentre as inúmeras fraquezas ou pequenezas humanas, não digerimos a celulose de que são compostos tais papeizinhos, capacidade alimentar essa restrita a alguns animais, tais como os bois. É de se refletir, uma vez que ruminantes voltam a mugir com o advento de orquestrações antidemocráticas e contrárias à liberdade no reduto maior da palavra, que é - ou deveria ser - o parlamento. Mesmo que não nos ouçam, continuemos a gritar em todas as cores do arco-íris, pois somente na multiplicidade e diversidade haverá ressonância em ondas que chegarão a alguma solução. A esperança, de um verde desbotado agora, é que a solução seja o benefício social. Porém, lembremos que a solução final para o equilíbrio da natureza pode ser a mais simples e fácil de todas, ou seja, nossa extinção.

Autor: Professor Adilson Roberto Gonçalves – Publicado no Blog dos Três Parágrafos.

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