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1 de maio de 2026

“O intelecto é impotente diante de figuras sensacionais”, afirma autora de obra sobre viagem de Bolsonaro à Rússia

  

Crédito Divulgação da Editora Três Maçãs.

Narrativa brasileira envolve personagens inspirados em políticos internacionais e conflitos. Quatro anos atrás, em 24 de fevereiro de 2022, as forças militares russas lançaram uma ofensiva em larga escala contra a Ucrânia, atingindo diferentes regiões do país, e não apenas o Donbass. Oito dias antes do início das operações, Jair Bolsonaro encontrou o presidente Vladimir Putin em uma viagem diplomática à Rússia. Essa é a gênese da ficção satírica Viagem à Ilíria, de Bruna Schmitz, publicada pela Editora Três Maçãs – simplificação assumida no disclaimer do livro para fins de contextualização, embora os ataques daquele dia não tenham se restringido ao Donbass.

A obra retrata as tensões políticas entre a Ilíria imperial e seu país vizinho, a Pequena Ilíria. Diante da possibilidade de uma escalada do conflito, o presidente do Brasil e seu ministro dos Assuntos Sérios viajam à terra do imperador para estreitar relações diplomáticas e comerciais. Ao sobrevoar as estepes asiáticas, uma tempestade derruba o avião presidencial e, em meio ao desespero, o presidente pede ajuda a Satanás. O que não passava de uma viagem protocolar logo se transforma em uma aventura fantástica.

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Bruna Schmitz fala sobre a produção de sua primeira obra, finalista no Prêmio Sesc de Literatura 2025. A autora iniciou a escrita pouco tempo depois da invasão russa. De acordo com ela, “se discutiu muito se a viagem devia ou não ser mantida, porque Putin vinha fazendo ameaças constantes de invasão”.

Metáforas em personagens

Na obra, a figura do Presidente é a de um intolerante, idiota e pouco inteligente. A sua personagem, pouco vilanizada, é inspirada nas aparências públicas de Jair Bolsonaro. Schmitz ressalta que uma das inspirações foi a repercussão da viagem na época. “[Surgiu] primeiro como piada, e depois os apoiadores meios que tomaram como verdade, que o Bolsonaro tinha levado uma mensagem de paz, e que não ia mais ter guerra”, ri a autora.

A narrativa é uma sátira clara e engenhosa que utiliza de figuras públicas para desmascarar o absurdo da guerra. Alguns de seus personagens, além do Presidente, são os Assessores, o Ministro dos Assuntos Sérios e o Imperador de Ilíria; pessoas importantes para um enredo repleto de referências à política.

De acordo com Schmitz, o Ministro é central para a compreensão do romance, e o único personagem criado exclusivamente da imaginação. “O romance é uma obra sobre a impotência do intelecto diante dessas personalidades sensacionais, ou melhor, diante da força. O Ministro é essa figura que é impotente diante de dois homens [o Presidente e o Imperador da Ilíria que são mais fortes, enérgicos e convictos do que ele.”, conclui.

Para evitar a citação direta, não apenas às figuras públicas, mas também aos países, a autora adota outros nomes. De acordo com ela, a “Ilíria é uma região geográfica e histórica, que não é bem delimitada, mas corresponde a parte da região dos Bálcãs”.

Bruna utilizou de uma base documental para as falas do Imperador, baseadas em discursos reais de Putin. Para ele e para o intérprete, outro personagem relevante, foram usados também autores russófilos da segunda metade do século XIX ou do início do XX, como Konstantin Leontiev, Nikolai Danilévski e Ivan Ilyin. Para compor a atmosfera da narrativa, Schmitz utilizou também de fotografias da guerra. Fotos de crianças, pais e mães mortos a tiros, prédios destruídos pelos bombardeios. As fotografias se tornaram algo recorrente e memorável no inconsciente da população internacional quando lembram do conflito. Invasão na Ucrânia em 2026

Em 2026, não se fala tanto na mídia sobre a guerra na Ucrânia em comparação a anteriormente. A autora complementa que “nos primeiros dias, quando a invasão em larga escala aconteceu, houve uma sensação de choque generalizada. Logo depois, todo mundo age como se fosse o esperado, como se fosse o curso natural das coisas. Hoje já é algo plenamente naturalizado”.

Depois de quase quatro anos de conflito, em fevereiro deste ano, representantes dos EUA, Rússia e Ucrânia continuam negociação sem acordo. Mesmo com essa tentativa de um possível cessar-fogo, os ataques russos continuam destruindo as infraestruturas energéticas ucranianas, prejudicando o aquecimento e energia elétrica durante o inverno rigoroso.

Quando questionada sobre a importância de falar sobre Bolsonaro em 2026, Schmitz destaca que “é uma preocupação [para o autor] quando você escreve um livro e ele pode ser perecível. Mas eu acho que é um assunto que voltará a ganhar contorno e relevância nesse ano”. Em 2026, as eleições presidenciais podem ser diretamente impactadas pela forma como a população enxerga a família Bolsonaro e o contexto internacional mais amplo, considerando a relação do Brasil com a China, Estados Unidos e até a Rússia e a Ucrânia.

Autora: Regina Lemmi é estudante de Jornalismo. Publicado no Site Le Monde Diplomatique.

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