E talvez esse seja um dos assuntos mais frustrantes para quem ama música hoje. A gente vive em um país onde o salário já nasce morto. Aluguel, comida, transporte, contas e a sobrevivência básica. Quase tudo o que ganhamos desaparece antes mesmo da gente pensar em viver de verdade.
E viver custa.
Os Titãs já cantavam em “Diversão” que a gente não quer só comida. A gente quer arte, cultura, saída, cinema e música. A gente quer aquilo que faz a vida parecer mais humana.
Só que isso ficou caro.
Muito caro.
Hoje, o melhor cenário para ver uma banda que você ama talvez seja pagar 400 reais numa cadeira longe do palco. Só o ingresso. Quando entram taxas, conveniências, serviços e todo o resto, aquilo vira 600, 700 reais facilmente. E detalhe: nem ingresso físico existe mais. Você recebe um QR Code no celular e ainda assim paga uma taxa “de serviço”.
Aí você pensa:
“Tudo bem, vou me organizar.”
Mas não acabou.
Se você não mora em São Paulo, precisa colocar transporte, hotel, alimentação. Dependendo da cidade, isso adiciona mais 300, 500 ou mil reais na conta.
E, de repente, viver a sua paixão virou um privilégio. O problema é que música nunca foi privilégio. Só que existe outra camada nisso tudo: o capitalismo entendeu que paixão vende.
E vende muito. Então ele aprendeu a transformar afeto em produto premium.
Você não compra apenas um ingresso. Você compra pertencimento. Você compra experiência. Você compra a sensação de estar participando de algo “imperdível”.
E aí entra um fenômeno que piorou tudo nos últimos anos: a obrigação de aparecer.
Muita gente não vai mais a um show porque ama profundamente aquela banda. Vai porque precisa mostrar que estava lá. Hoje os shows deixaram de ser apenas encontros entre fãs e artistas. Eles viraram ambientes de performance social.
E isso encarece tudo. Patrocinadores entram.
Marcas entram. Influenciadores entram.
E muitas vezes o fã sai. Porque enquanto alguém ganha convite VIP para produzir conteúdo, o garoto ou a garota que acompanha aquela banda há 15 anos simplesmente não consegue pagar. Veja qualquer anúncio de show hoje. Nos comentários, você encontra dois grupos muito claros: os que dizem “já garanti o meu” que na maioria das vezes são influencers e os que escrevem “infelizmente não vou conseguir ir”.
Essa palavra aparece o tempo inteiro:
infelizmente. E isso dói.
Porque o fã de verdade não quer apenas consumir um evento. Ele quer viver algo emocionalmente importante. O problema é que a indústria descobriu que emoção também pode ser explorada financeiramente. E talvez o melhor exemplo disso seja a Taylor Swift. Em qualquer show dela você verá dezenas de influenciadores dizendo que aquilo é “imperdível”, “transformador”, “o evento do ano”. E talvez seja mesmo.
Mas quem ama a Taylor Swift de verdade, quem compra disco, acompanha entrevistas, sabe letras e construiu memória afetiva com aquelas músicas, muitas vezes fica de fora porque simplesmente não consegue pagar.
Então o desejo vira desespero. E o desespero movimenta o mercado. Se hoje o ingresso custa mil reais, amanhã custará dois. Porque alguém vai parcelar. Porque alguém vai se endividar. Porque paixão não funciona racionalmente.
E isso está começando a explodir até nos Estados Unidos. Existe um termo sendo usado lá chamado “blue wave”: mapas inteiros de shows cheios de assentos azuis, vazios. Não porque as pessoas deixaram de gostar de música. Mas porque elas simplesmente não conseguem mais pagar.
E talvez este seja o limite do modelo atual. Durante anos, duas ou três grandes corporações passaram a controlar praticamente toda a experiência de shows ao vivo. Empresas como Live Nation e Ticketmaster transformaram música em uma máquina gigantesca de monetização emocional.
Tudo ficou maior. Mais caro. Mais exclusivo. Mais inacessível.
E o público começou a ficar do lado de fora. Eu queria terminar este texto com esperança.
Queria dizer que existe uma solução simples. Que basta reclamar, protestar ou parar de comprar. Mas eu sei que não é tão fácil. Porque paixão não funciona como lógica econômica.
Quando o artista que você ama anuncia um show, você não pensa como consumidor. Você pensa como alguém tentando viver algo que te movimenta por dentro. Talvez a única saída possível hoje seja filtrar.
Escolher com cuidado.
Entender quais artistas realmente fazem sentido para você. Guardar energia, emocional e financeira, para aquilo que realmente importa. É triste dizer isso.
Mas talvez seja o único jeito de continuar vivendo a música sem deixar que ela destrua financeiramente quem ama ela de verdade.
Autor: Rodrigo Moia – Publicado no Site Medium.com

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