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13 de maio de 2026

Entre austeridade e violência, o fascismo no Brasil.

  

Dilma Rousseff discursando ante de sofre o golpe parlamentar. Foto Divulgação. 

A publicação de “A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos”, de Vladimir Safatle, recolocou no centro do debate público um problema que, no Brasil, jamais se deixou encerrar. A recepção do livro foi intensa, por vezes tensa, e não apenas por seu diagnóstico, mas pelo deslocamento que propõe. Ao retirar o fascismo da condição de anomalia histórica ou de intrusão externa, Safatle o reinscreve como possibilidade inscrita nas próprias formas de organização das sociedades contemporâneas. A consequência desse gesto é exigente. Ele impede que se mantenha intacta a crença de que a democracia liberal, por sua forma, seria suficiente para neutralizar disposições autoritárias de longa duração.

Essa inflexão ganha maior potência ao ser atravessada pela leitura psicanalítica que o autor mobiliza. O problema deixa de se restringir ao plano institucional ou ideológico e passa a envolver transformações nas formas de sensibilidade coletiva. A banalização da morte, tornada visível durante a pandemia, não se reduz a um episódio excepcional. Ela indica a presença de um regime de percepção no qual a perda de vidas, sobretudo entre os mais vulneráveis, deixa de produzir ruptura moral duradoura. Ainda assim, ao lado da indiferença, persistem práticas de solidariedade e formas de organização que introduzem fissuras e impedem qualquer leitura totalizante. Entre essas forças — nas quais se entrecruzam a gestão diferencial da morte e impulsos de cuidado coletivo —, a disputa permanece aberta.

A recusa, frequente em certos meios, de nomear esse processo como fascismo não pode ser tomada como simples prudência conceitual. Ao evitar a nomeação, preserva-se a imagem de uma democracia essencialmente estável, ainda que sujeita a crises. Safatle confronta essa posição ao sustentar que se trata da explicitação de um traço persistente.

A questão, contudo, não desaparece. Ampliar o conceito preserva sua força de distinção ou tende a dissolvê-la? A interrogação não enfraquece o diagnóstico. Ao contrário, impõe um uso mais rigoroso da categoria, capaz de reconhecer continuidades históricas sem perder a precisão analítica.

É nesse ponto que a contribuição de “A ordem do capital”, de Clara Mattei, se torna decisiva. Ao deslocar a análise para o campo econômico, a autora evidencia que a austeridade não pode ser compreendida como técnica neutra de gestão. Trata-se de um instrumento político voltado à contenção de demandas sociais e à redefinição do horizonte de expectativas. A compressão de gastos públicos, a restrição de direitos e o enfraquecimento das formas de organização coletiva não apenas reorganizam a economia. Delimitam, de maneira concreta, o campo do possível. No entreguerra europeu, esse processo contribuiu para a ascensão de regimes autoritários. No presente, reaparece sob formas menos explícitas, frequentemente revestidas por uma linguagem técnica que obscurece seus efeitos.

A relação entre neoliberalismo e fascismo, tal como sugerida por Mattei, não se deixa reduzir a uma identidade simples. Há convergência na preservação da ordem do capital, mas não coincidência nos modos de operação. Quando os mecanismos de disciplina econômica se mostram insuficientes, intensificam-se dispositivos de coerção mais diretos. O fascismo pode, então, ser compreendido como radicalização de tendências já em curso. Ainda assim, essa passagem não decorre automaticamente da lógica econômica. Ela depende de conjunturas específicas, de correlações de força e de decisões políticas. Há sempre mais de um caminho possível, mesmo quando o horizonte parece estreito.

No Brasil, essa problemática encontra um terreno marcado por longa duração histórica. A violência não aparece como exceção, mas como princípio organizador. A escravidão negra, prolongada por séculos, deixou marcas profundas na forma como a vida é distribuída e valorizada. A coexistência entre direitos formais e práticas reiteradas de exclusão produziu um arranjo desigual, no qual a experiência democrática se apresenta de maneira fragmentada. Em certos territórios, o Estado se faz presente sobretudo pela via repressiva; em outros, direitos básicos permanecem frágeis ou inacessíveis. Esse padrão não foi superado com a redemocratização. Foi, em grande medida, administrado por pactos instáveis.

As jornadas de 2013 e o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff introduziram uma inflexão nesse equilíbrio precário. Ao desorganizá-lo, tornaram mais visíveis disposições autoritárias que permaneciam parcialmente contidas. O que antes se mantinha em zonas de baixa intensidade passou a ocupar o centro do debate público. Demandas difusas foram progressivamente reconfiguradas em torno de uma linguagem que combinava insatisfação social com apelos à ordem e à punição. Nesse deslocamento, o fascismo deixou de remeter a experiências distantes e passou a designar uma possibilidade concreta, inscrita no presente.

É nesse momento histórico que o bolsonarismo se afirma como uma forma específica dessa atualização. Sua singularidade não reside apenas na retórica agressiva, mas na articulação entre um programa econômico orientado pela austeridade e uma prática política que legitima a violência. A disciplina fiscal convive, nesse arranjo, com a desqualificação sistemática de instituições e com a naturalização do sofrimento social. A morte, sobretudo entre os mais vulneráveis, passa a integrar um cálculo implícito no qual as vidas são hierarquizadas. A violência, nesse quadro, não aparece como desvio. Ela cumpre função estruturante.

Essa dinâmica não se limita ao plano das instituições. Ela alcança as disposições subjetivas e reconfigura modos de perceber e julgar o mundo. Segmentos da população passam a admitir a desigualdade como condição necessária da ordem e a repressão como resposta legítima a conflitos sociais. Não se trata de adesão automática. Essas posições se formam em meio a experiências concretas de insegurança, frustração e perda de horizonte, nas quais diferentes saídas permanecem em disputa. A presença de práticas solidárias e de formas de resistência indica que esse processo não se estabilizou.

Outros agrupamentos fascistas atuam nesse mesmo horizonte, ainda que por registros distintos. O partido Missão (do Movimento Brasil Livre) e o partido NOVO expressam, cada qual à sua maneira, a centralidade da austeridade como princípio organizador. No primeiro, a defesa de reformas ultraliberais se associa a uma retórica de confronto dirigida a movimentos sociais e a formas de representação coletiva, frequentemente tratadas como entraves à eficiência econômica. No segundo, predomina a ênfase na tecnicidade das propostas, apresentadas como soluções desprovidas de implicações políticas mais amplas. Em ambos os casos, escolhas que produzem exclusão tendem a ser naturalizadas, seja pela via do embate direto, seja pela aparência de neutralidade. Em última instância, trata-se de projetos que operam em favor da concentração de riqueza, alinhando-se exclusivamente aos interesses de segmentos restritos situados no topo da estrutura social.

A experiência brasileira recente, portanto, não apenas sugere a possibilidade de articulação entre austeridade e autoritarismo. Oferece, com nitidez crescente, formas concretas de sua realização e de sua permanência. Reconhecer esse processo exige mais do que descrevê-lo; impõe examinar as condições que o tornaram possível e as forças que o sustentam, considerando simultaneamente estruturas econômicas, dinâmicas institucionais e formas de adesão e resistência.

Nesse cenário, a disputa política não pode ser reduzida a um rito periódico. O voto importa, mas não como gesto isolado. Ele se insere em uma arena mais ampla, na qual se decide se tendências autoritárias serão contidas, deslocadas ou aprofundadas. Em um ano eleitoral, essa disputa adquire densidade concreta e exige mais do que adesões formais. Implica participar ativamente do espaço público, inclusive no período de propaganda, em que se confrontam projetos de sociedade que não são equivalentes.

De um lado, a candidatura de Lula condensa a possibilidade de reconstrução de vínculos sociais orientados pelo reconhecimento da dignidade comum, pela ampliação de direitos e por formas de solidariedade que recusam a naturalização da desigualdade. Trata-se de um horizonte político que, com todas as suas contradições e limites, recoloca em circulação a ideia de que a vida coletiva deve ser sustentada por princípios de cuidado, inclusão e responsabilidade social.

Do outro lado, permanecem em disputa forças que atualizam, sob diferentes registros, a articulação entre austeridade e autoritarismo. São projetos que operam em favor da concentração de renda, da restrição de direitos e da legitimação da necropolítica — políticas que administram a vida e a morte de maneira desigual —, dinâmica que encontrou expressão particularmente aguda durante o governo Bolsonaro e que não desapareceu com o seu término.

Nada assegura previamente o desfecho dessa disputa. Ele depende da capacidade de reorganizar forças, de reconstruir horizontes e de sustentar, no interior do conflito político, a recusa de que a vida coletiva continue a ser governada pela indiferença diante da violência. 

Autor: Edward Magro – Publicado no Site Diário do Centro do Mundo.

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