O que sabemos é que não há crescimento do PIB que traga mais igualdade, nem crise que não provoque mais desigualdade. Um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian dava conta de um estudo do Equality Trust baseado na lista dos bilionários ingleses que o Sunday Times publicou. Pelos vistos, a riqueza de 157 bilionários britânicos representa 22% de todo o Produto Interno Bruto do Reino Unido; 50 famílias detêm mais riqueza do que os 34 milhões de mais pobres.
O mesmo estudo indica que, em termos globais, o crescimento da franja de riqueza detida por bilionários passou de 2,5% em 1990 para 14,1% nos dias de hoje. O Reino Unido conseguiu bater este triste recorde passando de 4% para 22%. Os autores do estudo abordam um conceito que tem passado debaixo dos radares da opinião pública, mas as pessoas sentem-no claramente: o PIB fantasma. A economia vai crescendo, os políticos fazem apelos diários para a importância deste dado econômico, mas a vida das pessoas mantém-se na mesma ou piora. Uma disfunção entre os dados econômicos e a realidade. Um bom exemplo dessa distorção – com a inestimável contribuição da manipulação contabilística – é o PIB irlandês que levado à letra faria praticamente de todos os irlandeses milionários.
Falamos muito dos perdedores da globalização, de que um processo que tirou muitas dezenas de milhões de pessoas da pobreza, nomeadamente na China e na Índia, teria de ter consequências noutras latitudes e noutros povos nada habituados a ficar para trás. Não se pode negar a importância destes fatos nem podemos deixar de nos congratularmos por este tão espantoso crescimento de bem-estar de povos tão sacrificados ao longo da História. Mas o que está absolutamente transparente é que no Ocidente não houve falta de crescimento econômico. Bem pelo contrário, a criação de riqueza no Ocidente tem sido constante e significativa.
O que de facto houve é uma concentração, só comparada com a Gilded Age dos Estados Unidos da América, de riqueza em cada vez menos pessoas. O crescimento sistemático das desigualdades desde o final dos anos 80 não é novidade para ninguém. A quantidade de análises, estudos universitários, livros, filmes e discursos políticos de diferentes quadrantes ideológicos alertando para o problema só encontra paralelo no seu persistente agravamento e na ausência de medidas eficazes para o combater.
Mas será que o poder político acha mesmo que há um problema? Não têm a saúde pública, a educação pública e o investimento em equipamentos sociais piorado ou diminuído? Não são estes instrumentos vitais para que não só a desigualdade diminua, mas o elevador social funcione? Não têm os salários reais emagrecido? Não tem consistência real a célebre história do operário americano − criação de Yanis Varoufakis – cujo salário era suficiente, nos anos 60, para sustentar uma família, ter uma casa e pôr os seus filhos a estudar numa universidade?
O que sabemos é que não há crescimento do PIB que traga mais igualdade, nem crise que não provoque mais desigualdade. Tudo o que diga respeito ao Estado social deve ser cortado e limitado, não mais bem gerido e tratado de forma mais eficiente. Os mais ricos mais ricos ficam, enquanto a classe média se aproxima da pobreza.
Quando a direita e a esquerda tinham projetos claros e objetivos bem definidos, podíamos discernir a diferença no tratamento da desigualdade. Sendo verdade que, em tese, a esquerda tradicional se preocupava mais com o problema, a democracia cristã nunca o ignorou e também tinha uma linha de discurso que visava combatê-lo. Neste momento, tirando franjas quase inexistentes do panorama político, este parece um assunto esquecido ou despiciendo pelas grandes forças partidárias. Melhor, vai dando de longe a longe belos discursos, mas nenhuma ação concreta.
As pessoas sabem bem que este é um problema grave, porque o sentem. Sabem que uma comunidade é injusta quando a mera sorte de ter nascido numa família mais rica faz tanta diferença; que não é saudável quando o acesso à educação ou à saúde depende do dinheiro que se tem; que revolta quando há quem ganhe 100 e outros 100 000 pelas mesmas horas de trabalho e o mesmo sacrifício – sendo que os que ganham 100 000 geram demasiadas vezes um benefício menor para a sociedade.
Mas, acima de tudo, o excesso de desigualdade gera desconfiança, destrói a coesão social e alimenta um sentimento generalizado de injustiça. É impossível não responsabilizar o sistema político e não questionar a democracia − ou, pelo menos, a forma como ela evoluiu.
Essa é, evidentemente, uma das razões para o crescimento de propostas autoritárias e de soluções não democráticas. Como a memória coletiva raramente é o ponto forte dos povos, tende-se a esquecer que as ditaduras assentam precisamente na desigualdade e no desprezo pelo humanismo. A democracia pode estar a degenerar num sistema cada vez mais injusto e desigual, mas as ditaduras promovem e protegem, pela força, essas mesmas desigualdades e injustiças.
As democracias assentam num sistema capitalista, mas colocam − ou deveriam colocar − as pessoas, e não o capital, no centro das suas prioridades. O facto de, neste momento, o capital estar a ser mais protegido do que as pessoas não transformam as democracias em sistemas onde elas sejam secundárias; revela, sim, uma degenerescência perigosa.
São doenças da democracia. A questão é saber se têm cura. Continuo a acreditar que sim. Mas há uma notícia ainda pior: não é apenas a democracia que corre sérios riscos perante níveis tão elevados de desigualdade − é a própria ideia de comunidade que está em causa.
Autor: Pedro Marques Lopes – Publicado originalmente no Site Visão.
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