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6 de maio de 2020

A crise mundial do petróleo!

“Aqueles que corrompem a opinião
pública são tão funestos como àqueles
que roubam as finanças públicas”
Adlai Stevenson

Preço do petróleo em terreno negativo pela primeira vez na história 
A pandemia do novo Coronavírus trouxe consigo além das mortes, alterações no modo de vida dos seres humanos em todo planeta, o mundo parou em quarentena com a necessidade do isolamento social. A utilização do petróleo como combustível e fonte energética sofreu uma redução drástica, com isso, a produção reduziu a extração e as vendas caíram muito.
A Arábia Saudita tentou no final de 2019 alertar os demais países produtores sobre a necessidade de redução da extração e produção de petróleo, uma vez que o movimento aéreo e o consumo seriam afetados em todo planeta. Porém, os russos não aceitaram tal proposta, mantendo-se assim o nível alto de produção nas bacias petrolíferas do Oriente Médio. Como os sauditas haviam previsto, os preços caíram vertiginosamente, chegando ao ponto inimaginável de assistirmos os preços do barril de petróleo West Texas Intermediate (WTI), óleo do tipo leve, que é negociado na Bolsa de Nova York e é referência para os preços nos EUA ficarem negativos.
Ou seja, o vendedor estava pagando para o comprador levar seu produto. Por trás disso estão tecnicalidades das operações do mercado futuro de petróleo, os brutais efeitos da crise de demanda provocada pela covid-19 e também os acordos nem sempre exitosos de reduzir a produção envolvendo os países da OPEP+ (grupo formado pela OPEP e outros onze países produtores liderados pela Rússia) e contrações do chamado grupo America+2 (EUA, Canadá, Brasil, Colômbia, Noruega e Reino Unido).
Além deste problema, outro surgiu e expôs os problemas de funcionamento do mercado de petróleo, principalmente na relação entre o mundo físico e o mundo financeiro. Os detentores dos contratos do mercado futuro no qual os compradores assumem hoje o compromisso de comprar petróleo no futuro, a um preço pré-estabelecido com vencimento em maio, optaram por não receber o petróleo que tinham direito em função da escassez de estoque para armazena-lo.
Isso ocorreu porque esses contratos venceram no dia 21 de abril em condições muito desfavoráveis para os compradores. Dada a redução da capacidade de estoques, a oferta mundial mesmo com os cortes de produção anunciados pela Opep+― continua num patamar muito acima tanto da demanda por petróleo, como da necessidade de processamento nas refinarias.
A alternativa que restou para os operadores financeiros foi aceitar os preços negativos, minimizando assim suas perdas com as obrigações contratuais do mês de maio. Portanto, o que ficou negativo na verdade foi o preço de trocar o contrato vendido por comprado, e não os próprios barris físicos do petróleo. Uma das contradições entre o mundo financeiro e o mundo físico é essa: os contratos open interest em que as transações ainda não foram completadas (antes da data do vencimento) envolvem volumes muitas vezes maiores que o volume físico transacionado diariamente, o que mostra como os preços do petróleo são determinados principalmente por fatores financeiros.
Esse desastre do mercado futuro abalou os mercados de ações. Empresas de petróleo foram especialmente penalizadas e algumas tiveram perdas enormes em seu valor de mercado. Algumas empresas médias do setor passam a ser alvos de aquisições hostis, o que pode indicar uma nova onda de fusões e aquisições envolvendo, inclusive, grandes empresas estatais, fundos soberanos e fundos abutres.
Petróleo WTI cai 140% e tem preço negativo pela 1ª vez na história
Quem se aproveitou desse cenário foram os chineses que aumentaram suas importações de petróleo recompondo suas reservas estratégicas. Apesar das refinarias chinesas, principalmente as estatais, trabalharem com contratos de longo prazo e, por isso, não poderem substituir facilmente os fornecedores, o país se prepara para uma retomada do mercado de derivados no médio prazo e, ao mesmo tempo, auxilia a manutenção dos preços em patamares mais baixos no curtíssimo prazo.
Nos EUA, a depressão prolongada dos preços já provoca uma reação do sistema financeiro que começa a tomar o controle de petrolíferas que ficaram em extrema fragilidade financeira. Desde a queda dos preços de 2015, pequenos e médios produtores americanos do Shale gas e Tight oil aproveitaram as baixas taxas de juros e aumentaram seu endividamento, acreditando que a queda dos preços daquele ano seria temporária. As financeiras agora procuram manter a garantia dos fluxos de caixa dessas empresas, embora desprezem os investimentos necessários para a manutenção da produção física. A médio prazo, isso pode significar a destruição permanente das chances de retomada de produção, já que essas operações de exploração precisam manter uma pressão mínima em seus reservatórios para que eles continuem produzindo.
No Brasil, essa onda ainda não afetou a produção da Petrobrás, entretanto, como exportamos combustíveis, percebemos que os preços do Diesel e Gasolina caíram cerca de 10% nas bombas de combustíveis da região sudeste. Porém, não percebemos nenhuma preocupação do governo brasileiro em ter uma estratégia para a pós pandemia no que se refere a compra de petróleo. 
Obs: Alguns dados extraídos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

5 de maio de 2020

Bolsonaro conspira à luz do dia!

Jair Bolsonaro conspira à luz do dia. No domingo, o presidente usou mais um símbolo nacional como palanque para o golpismo. Na rampa do Planalto, confraternizou com extremistas que atacavam a democracia e agrediam jornalistas no exercício da profissão.
Jair Bolsonaro e a filha Laura na rampa do Planalto - Evaristo Sá - AFP
Irritado com decisões do Supremo, o capitão vociferou: “Não vamos admitir mais interferência. Deixar bem claro isso aí. Acabou a paciência”. No mesmo tom, ele prosseguiu: “Chegamos no limite, não tem mais conversa”. Só faltou mandar o cabo e o soldado cercarem o tribunal do outro lado da praça.
A ameaça do uso da força é cada vez mais explícita nas falas presidenciais. Diante de sua minoria barulhenta, Bolsonaro disse que as Forças Armadas “estão do nosso lado”. Os militares sabiam quem ele era quando embarcaram sorridentes no novo governo. Agora são arrastados para o centro de uma turbulência política prestes a virar crise institucional.
Em nota, o ministro da Defesa afirmou que as Forças “estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”. O esclarecimento seria desnecessário se o país vivesse tempos normais. A tensão tende a se agravar nos próximos dias, à medida que avançam as investigações sobre o clã presidencial.
Bolsonaro tem pressa. Ontem ele nomeou o novo diretor da Polícia Federal, que assume com a missão de proteger pai e filhos. A operação incluiu edição extra do Diário Oficial e posse relâmpago a portas fechadas. Cenas de um governo acuado, que vê na radicalização a única saída para se segurar no poder.

Autor: Bernardo Mello Franco – Jornal O Globo.

Amanhã vai ser outro dia!

Projeto que foi aprovado no Senado corrige arroubo de generosidade dos deputados.
A maioria dos brasileiros – infelizmente não todos – entende que é a proteção da vida e da saúde das pessoas a maior de todas as prioridades neste momento. Estamos debruçados em números e projeções assustadores, que mostram a escalada da pandemia que já ultrapassou os 3,5 milhões de infectados e já matou ao menos 250 mil pessoas no mundo. No Brasil, já ultrapassamos a marca dos 100 mil infectados e dos 7 mil mortos nos números oficiais que, sabemos, estão subestimados em função da baixa taxa de testagem da população. Mesmo com toda essa tragédia humana, a pandemia ainda está longe de estar controlada e nós no Brasil estamos longe de entender toda a extensão do seu impacto sobre a população e sobre a economia do País.
Medidas emergenciais foram adotas nas áreas da saúde e da economia. Discussões políticas acaloradas fizeram parte do noticiário dos últimos meses. A ignorância e o descaso dominaram a pauta em alguns momentos. Esses passarão para a nossa história de forma vergonhosa. Mas a verdade é que, na medida em que outros países do mundo começam a adotar medidas de flexibilização do isolamento social e se preparam para um novo normal, levantam-se as dúvidas quanto ao futuro e à capacidade de recuperação das economias após essa brusca interrupção. Percebe-se que as incertezas em relação à recuperação não estão vinculadas apenas à intensidade da crise, mas também à natureza das medidas adotadas durante os momentos mais agudos e à efetividade das ações de retomada. No Brasil não será diferente.
Um exemplo é o plano de ajuda aos Estados e municípios. Colocado em contexto, responde à necessidade urgente de aumento de gastos com saúde que os entes subnacionais enfrentam como linha de frente no combate à pandemia. A situação se agrava com a queda de arrecadação vinculada à interrupção da atividade econômica. Entes subnacionais não emitem dívida e estão, portanto, limitados às suas receitas e às transferências da União. Se alguma dessas despenca, tudo desaba. Ainda mais no desequilíbrio que já viviam. Priorizar vidas neste momento significa ajudar esses entes a ultrapassarem esse momento. O projeto aprovado na Câmara ia muito além, prometendo o céu e contratando uma conta não necessariamente vinculada às necessidades impostas pela pandemia.
Felizmente, o projeto que foi aprovado no último sábado pelo Senado corrige boa parte desse arroubo de generosidade. A proposta define um limite de R$ 60 bilhões para o auxílio financeiro direto, contribuindo para que o socorro não gere leniência na gestão da arrecadação local. Além disso, inclui-se como contrapartida o congelamento dos salários dos servidores públicos – exceção feita a profissionais de saúde, de segurança e das Forças Armadas – até o final de 2021. Ao também restringir reestruturações de carreira, contratação de pessoal (exceto para repor vagas abertas) e interromper por um ano e meio a contagem de tempo para concessão de anuênios, quinquênios, etc., o Senado conseguiu bloquear a canalização desses recursos para o financiamento de aumentos das despesas de pessoal no setor público. Ao excluir a segurança desse dispositivo, boa parte da economia ficou de fora, mas ainda é melhor do que só o congelamento. Outra grande conquista é que essas limitações atingem os três poderes e não somente o Executivo. A não ser que haja as conhecidas e históricas reações corporativistas no Judiciário, teremos um pouco mais de controle desses gastos pela primeira vez em décadas.
Mas a verdade é que, ao mesmo tempo em que mantemos a proteção da vida e da saúde dos brasileiros no topo das prioridades e intensificamos o combate à pandemia, temos de pensar no dia de amanhã e já começar a construí-lo. É chegada a hora de começarmos a pensar em um plano nacional de retomada que parta dos conceitos corretos e faça a transição entre o enfrentamento da crise e a gestão do futuro. Não me refiro aqui a obras públicas mirabolantes, listadas a partir de um delírio nacionalista e nostálgico. Falo de um plano de retomada que leve em conta as diversas dimensões desta crise: o monitoramento da curva de contaminação e as necessárias ações de saúde; os motores de crescimento da economia (crédito, confiança, ambiente de negócios); a aceleração do processo de digitalização dos serviços públicos e a retomada da agenda de reformas, única garantia possível de manutenção de nossa solvência e dos patamares baixos de juros e, portanto, da recuperação de nossa capacidade de crescimento. Um plano assim se constrói com liderança e coesão e passa necessariamente pela recuperação dos laços federativos esgarçados por embates políticos. Passa também por uma grande coalizão entre Executivo, Legislativo e Judiciário e por capacidade de formulação de medidas de retomada que combinem responsabilidade, competência e consistência. Afinal, apesar de você, amanhã há de ser outro dia.

Autora: Ana Carla Abrão, O Estado de S. Paulo é economista e sócia da consultoria Oliver Wyman. o artigo reflete exclusivamente a opinião da colunista.

Morre Aldir Blanc, compositor da trilha sonora da luta contra ditadura, por covid-19

Escritor e compositor teve algumas de suas maiores composições imortalizadas pela voz de Elis Regina, como “O bêbado e a equilibrista”. Morreu aos 73 anos, no Rio de Janeiro

O escritor, compositor e músico Aldir Blanc, em uma livraria da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, em uma imagem de arquivo, em 2006. Alaor Filho - AE
Aldir Blanc, compositor e escritor brasileiro, morreu na madrugada desta segunda-feira, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, na Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, vítima do novo coronavírus. Ele tinha 73 anos e estava internado na UTI desde o dia 15, onde foi diagnosticado com a covid-19, além de sintomas de infecção urinária e pneumonia. Blanc deixou seu nome eternizado na música brasileira com canções feitas em parceria com João Bosco, como O Bêbado e a Equilibrista, sucesso na voz de Elis Regina.
Blanc deu entrada no Hospital Municipal Miguel Couto com o quadro de infecção urinária e pneumonia no dia 10 de abril. Contam os amigos mais próximos que na quinta-feira estava bem, e na sexta foi levado de ambulância ao hospital. Sem recursos para manter seu pai internado, a filha de Aldir, Isabel, pediu doações através de uma página no Facebook para transferência de hospital e tratamento do artista. Mary Blanc, sua esposa, também foi diagnosticada com o coronavírus, mas tem quadro estável.
Nascido Aldir Blanc Mendes, no Rio de Janeiro em 2 de setembro de 1946, ingressou no curso de medicina aos 20 anos e se especializou em psiquiatria, mas deixou a profissão em 1973 para se dedicar exclusivamente à música. Àquela altura, já havia feito sucesso com Amigo é pra essas coisas, parceria com Silvio da Silva Jr. e vice-campeã do Festival Universitário em 1970, fato que fez Blanc se juntar a Ivan Lins, Gonzaguinha e outros para fundar o Movimento Artístico Universitário. Um ano depois, Ela, composição sua com César Costa Filho, foi gravada por Elis Regina. E, em 1972, pela primeira vez a célebre cantora escolhe uma música escrita por Blanc e João Bosco para seu disco, que iniciaria a trajetória de sucesso do trio: Bala com Bala.
A partir dali, Elis passou a receber as novidades de Blanc e Bosco em primeira mão. Depois de O Mestre-sala dos mares e Dois pra lá, dois pra cá, a dupla de compositores assinou sua música mais famosa em 1978. A inspiração veio no Natal de 77, a partir da morte de Charles Chaplin naquele dia. “Caía a tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto / me lembrou Carlitos” são os versos que abrem a canção, em memória ao personagem mais famoso de Chaplin. O viaduto faz referência ao Elevado Paulo de Frontim, no Rio de Janeiro, que ruiu em 1972, dois anos após sua conclusão, matando 29 pessoas.
Ainda na letra, o verso “choram Marias e Clarices”, em referência às viúvas de Manuel Fiel e Vladimir Herzog, brasileiros mortos nos porões do Governo militar, marcou a posição política da música em tempos de ditadura. O “Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil” pede a anistia do sociólogo Herbert José de Sousa, irmão do cartunista e exilado do país desde 1971. Gravada por Elis Regina em 78 e por João Bosco em 79, a intitulada O Bêbado e a Equilibrista se tornou o hino informal da Lei da Anistia de 79, responsável por trazer de volta alguns dos brasileiros exilados pelos militares.
Blanc e Bosco se separaram em 1982, de acordo com os dois, sem brigas. O reencontro viria somente em 2002, para regravar O Bêbado e a Equilibrista. Durante a separação, Aldir trabalhou com outros músicos, como o violonista Guinga, Moacyr Luz e Cristovão Bastos. Aristas, escritores e amigos homenagearam o compositor na manhã desta segunda. “Bosco e Blanc cunharam grandes pérolas e eternizaram momentos importantes na história da nossa música”, escreveu Samuel Rosa, vocalista do Skank, em seu Instagram. Na mesma rede social, João Bosco deixou uma mensagem simples de luto nos stories. “A poesia acorda triste com a partida de mais uma caneta que nos inspirou a sonhar”, postou Emicida no Twitter.
Biógrafo de Blanc (Aldir Blanc - Resposta ao Tempo, 2013), Luiz Fernando Vianna descreveu os últimos anos do artista como uma “reclusão quase permanente”. Segundo ele, consequência de uma “fobia social” que desenvolveu a partir de um grave acidente de carro, em 1991, que limitou os movimentos de sua perna esquerda. Tinha diabetes e, há mais de dez anos, raramente fumava ou bebia. Vianna conta que Aldir nunca saiu do Brasil, mas viajava na sua obsessão por livros dos mais diversos assuntos.
Aldir Blanc deixa duas filhas do primeiro casamento, Mariana e Isabel, e mais duas de criação do segundo, Tatiana e Patrícia. Também deixa cinco netos e um bisneto. E também um legado na história da música brasileira, para quem “sabe que o show de todo artista tem que continuar”.

Autor: Diogo Magri – El País

4 de maio de 2020

Bolsonaro ameaçou fechar o Congresso e o STF!

Enfrentamos hoje no Brasil três crises perturbadoras ao mesmo tempo: a crise sanitária provocada pela pandemia do Coronavírus, a crise econômica que já jogou na rua perto de 20 mil pessoas desempregadas e ameaça milhares de empresas que podem fechar as portas antes do fim deste ano e uma crise política provocada pelo estranho modo de governar do atual presidente da República que, pelas redes sociais, apoia manifestações que desqualificam os outros dois poderes da República: o Legislativo e o Judiciário.
O esquema de poder instalado no Palácio do Planalto estimula atos populares contra as instituições que compõem os Poderes da República com a presença do Presidente. No domingo passado, num desses atos, o chefe do Governo, da rampa do Palácio do Planalto, ao se dirigir a um grupo de pressão política contra o Poder Judiciário, disse: “Chegamos ao limite”. Se o comandante em chefe chegou ao limite está perto de transbordar.
E se transbordar deve acontecer alguma coisa: Se Sua Excelência não puder impor sua vontade pela força, poderá deixar o Palácio e seguir novo rumo.
Segundo o jornal “O Estado de São Paulo”, edição de hoje, “incitado por um ato que reuniu manifestantes, ontem, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro fez uso das redes sociais para renovar o esgarçamento das relações do Executivo com o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF)”. Segundo o jornal paulista o presidente declarou que as Forças Armadas estão ao lado do seu governo. Bolsonaro pediu a Deus “que não tenhamos problema nesta semana”.
De que problemas falou o presidente? Como supremo comandante das Forças Armadas será que o capitão-mito Bolsonaro comandará, nesta semana, um movimento armado para fechar a Câmara Federal, o Senado e o Supremo Tribunal Federal e instalar no Brasil uma ditadura familiar para governar o País com os filhos e os amigos? Alguém acredita que as Forças Armadas, comprometidas com a democracia, apoiarão um golpe insano pretendido por um político que está no poder sem projeto de governo e sem rumo definido?
O cientista político João Batista Domingues Filho, professor na Universidade Federal de Uberlândia costuma dizer que “toda loucura tem método”. Parece ser verdade. Logo, o capitão-mito pode sonhar com uma ditadura como a que Hugo Chaves instituiu na Venezuela, mas dificilmente este sonho será concretizado no Brasil.
Esta semana poderá ser agitada, mas as Forças Armadas continuam a merecer a confiança do povo brasileiro como suportes da democracia.

Autor: Ivan Santos – Jornalista, Escritor e dono do Blog Uberlândia Hoje.

Ausência de governo!

           “A mente de um fanático é como a pupila do olho:
quanto mais luz incide sobre ela, mais se irá contrair.”
Oliver Wendell Holmes.

Tem sido recorrente desde a posse do atual presidente seus arroubos autoritários contra a mídia (em especial a Rede Globo, Folha de S. Paulo, Estadão e os jornalistas em geral que cobrem diariamente o Palácio do Planalto), contra o STF (principalmente quando este cumpre seu papel institucional em defesa da constituição e barra qualquer ato de governo), e o Congresso Nacional (composto em sua maioria por parlamentares aliados ou de ideologia de direita, políticos fisiologistas, demagogos que vivem em busca de cargos e poder).
Difícil entender que um ex-deputado que esteve na mesma Câmara por 28 anos não consiga ou não queira compreender a situação em que se encontra, o cenário lhe era totalmente favorável, não foram os citados acima quem mudaram, mas sim, o desempenho frustrante de um presidente eleito para mudar muitas coisas e que na verdade patina na sua verborragia inconsequente e as vezes chula.
Seus apoiadores sectários incitados nas redes sociais pelo próprio presidente, por seus filhos ou pelo chamado gabinete do ódio, se acostumaram a sair as ruas sempre que algo que o presidente queria não deu certo, quer seja por inconstitucionalidade ou até por ser inaceitável perante o parlamento. Essa horda de apoiadores pratica então, atos que vão desde a violência contra jornalistas, opositores até o pedido de golpe militar, intervenção, volta do AI5 ou fechamento de Congresso e STF.
A liberdade de expressão é um direito, mas todos podem ser responsabilizados se atentarem contra preceitos também constitucionais. Dessa forma, com idas e vindas e correção de desvios por força da Lei, vive-se na democracia, em liberdade e aperfeiçoamento constante.
O que tem feito o presidente é algo diferente e mais grave, pelo cargo que ocupa. Tem pregado a sedição, com ameaças claras à ordem constituída. Vai muito além da irresponsável militância que exerce contra o isolamento social, e leva seguidores a fazerem o mesmo, preocupado exclusivamente com seu projeto eleitoral, que teme ser prejudicado caso demore a retomada da economia devido à epidemia do coronavírus. Junta-se a um grupo de autocratas bizarros e coloca o Brasil na companhia isolada de Bielorrússia, Turcomenistão e Nicarágua. Não se preocupa com a marcha sem recuo da Covid-19 que ultrapassou sete mil mortos e mais de cem mil contaminados no Brasil.
Neste domingo 03 de maio, o presidente volta a vociferar na frente de sua plateia, pequena em relação ao povo brasileiro, mas que carrega nas veias o fascismo e o sectarismo bolsonarista raiz, ele soltou um pouco enigmático “não queremos negociar nada”. “Queremos a independência verdadeira dos Três Poderes (...). Chega de interferência. Não vamos admitir mais interferência”, avisou o presidente, aproximando-se de um chavismo de direita — todos os poderes nas mãos do Executivo, com Judiciário e Legislativo no papel de figurantes. O que é inaceitável.
Os inimigos para o bolsonarismo crescem a cada nova manifestação, passando por Rodrigo Maia, David Alcolumbre, João Dória, Witzel, e neste domingo o mais recente inimigo declarado passou a ser o ex-herói Sérgio Moro. Não há lógica, não há inteligência, apenas a contínua força motriz de um homem querendo governar como se estivesse num regime militar. Podendo editar medidas e decretos a revelia da sociedade, vetando ou censurando a tudo e a todos na mídia e na sociedade, assim protegendo a si e aos seus filhos e aliados.
Sem perceber, ou quem sabe propositadamente, o presidente em seu discurso canhestro rasgou o próprio juramento que fez na posse, conforme o artigo 78 da Carta: “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro (....)”. Na política e na saúde, ele vai em sentido contrário. O presidente aceitou as regras constitucionais para se eleger deputado federal e presidente da República. Agora quer virar a mesa, o que é inconcebível.
Pior que as atitudes dele, somente aqueles que o apoiam incondicionalmente sem se atentarem para o caminho de trevas para onde estão caminhando.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

1 de maio de 2020

E daí, Presidente Morte?

Não significamos nada para este senhor Jair. Ele tem por nós desdém, desprezo, desapego, desinteresse. Acima de tudo, desamor.
Quando ouvi o presidente exclamar “E daí?” diante das mortes provocadas pelo covid 19, tive ânsia de vômito. Em seguida, pensei: é um monstro. Um homem sem aquilo que minha mãe chamava de misericórdia. Na mesma hora, me veio a ordem do governador geral da Polônia, em janeiro de 1942, pouco antes da reunião em Wannsee, Berlim, que determinou a aceleração da Solução Final (nem Bolso nem o chancelar Arruda acreditam nela), destinada a exterminar todos os judeus, todos os inimigos do nazismo. O resultado, 6 milhões de mortos em fornos crematórios, fuzilamentos, e tudo o mais.
Sabemos hoje alguns nomes daqueles que comandaram a operação. Inesquecíveis Himmler, Heydrich, Adolf Eichmann e Josef Mengele, este chamado de o Doutor Morte, pela frieza com que executou as mais perversas “pesquisas” em nome da ciência.
E daí? Daí que me veio acachapante sensação, que não foi de repulsa ante a frieza e a indiferença com os milhões de habitantes do Brasil. Não foi de raiva, nem de ódio. Foi de uma tristeza imensa diante de tal desumanidade e desrespeito à dor alheia, à dor de uma nação. Não significamos nada para este senhor Jair. Ele tem por nós desdém, desprezo, desapego, desinteresse. Acima de tudo, desamor. Fiquei deprimido. Não sou ninguém, minha família nada é, meus amigos nada são, nenhum brasileiro tem qualquer significado, nenhum ser humano tem direito à vida. Nosso presidente não liga um pingo para nós, para nossas existências. Nem pelas vidas daqueles que votaram nele. Porque, se as mortes continuarem nessa progressão, onde vão parar? Se é que vão.
Expressão tão sórdida, me provocou sensação de asco. No mesmo momento, tive um retorno, memória afetiva (afetiva não é bem o termo aqui), que me fez mal, acabrunhou-me. Reação igual de mal estar tive em 1987, quando, em Berlim, como um dos convidados do DAAD para os 750 anos da cidade, decidi percorrer uma exposição chamada Topografia do Terror.
Em determinado espaço da cidade, estavam alguns edifícios que lembravam a zona do terror nazista, a Gestapo, a SS, a Direção de Segurança do Terceiro Reich. Um espaço relativamente (hoje é um memorial) pequeno onde se reunia a mortífera concentração de poder e terror do nazismo, a Prinz-Albecht-Strasse (hoje Niederkirchenstrasse), a Wilhelmstrasse e a Anhalterstrasse. Dali, emanavam as ordens de morte, horror, torturas, prisões, assassinatos, lugar que faria a delícia do famigerado Ustra, ícone do Messias. Dali, saíam as ordens que levaram milhões e milhões de judeus, ciganos, homossexuais, inimigos políticos para a morte em campos de concentração. Esse horror é conhecido.
Havia também o prédio, o Tiergarten 4, onde se procedia o Projeto T4 para Eutanásias, ou seja, a eliminação de loucos, deficientes físicos, seres inúteis, tuberculosos, não convenientes a raça ariana. Como os idosos hoje, aqui. Quem estudou a história, há de se lembrar da Hans Frank e sua frase célebre. Em reunião na mansão de Wannseee, lago ameno na periferia de Berlim, em janeiro de 1942, quando se acertaram os ponteiros para a Solução Final, ou seja, a morte de todos os judeus, Frank acentuou: “Cavalheiros, devo lhes pedir que se armem contra quaisquer sentimentos de compaixão”. Havia então, na Polônia, 3,5 milhões de judeus. Frank disse: “Não podemos atirar nesses 3,5 milhões, não podemos envenená-los, mas devemos ser capazes de tomar medidas que, de alguma forma, levem ao sucesso no extermínio absoluto”.
Assim, a morte de seis milhões de pessoas foi executada sem compaixão. Neste momento, no Brasil, enquanto hostes humanas – milhares e milhares de médicos, enfermeiros e voluntários – lutam, arriscando a própria vida, para defender a vida, o presidente, condena o isolamento e diz: “E daí?” “É humano esse homem? É isso um homem?”, como perguntou Primo Levi, em um de seus livros mais pungentes. E daí? Daí que nem eu, nem mais de 210 milhões de brasileiros queremos morrer de covid 19. Se sobrevivermos, vamos nos lembrar sempre de você, Jair, como o Presidente Morte.

Autor: Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2020

As reportagens do GGN sobre Bolsonaro e o caso Marielle!

Mas as derrapadas iniciais do JN, e o recuo apressado, mais a blindagem da mídia, em função das tais reformas prometidas, enterraram provisoriamente o caso.
No dia 28/10/2019, matéria do Jornal Nacional divulgava depoimento do porteiro do Condomínio Vivendas da Barra, de que o motorista Élcio de Queiroz entrara no dia 14/03/2018 com autorização da casa 58, de Jair Bolsonaro. No condomínio, encontrou-se com Ronnie Lessa e saíram de lá para algum tempo depois executar a vereadora Marielle Franco.
Naquela noite, Bolsonaro reagiu com uma live colérica, ameaçando cassar a concessão da Globo. Na manhã seguinte, seu filho Carlos, mostrou o sistema de telefonia do condomínio no momento da chegada do carro de Élcio, com o porteiro chamando a casa de Ronnie Lessa.
No mesmo dia, a Globo recuou da posição inicial. Nos dias seguintes, o GGN passou a investigar o caso e trouxe um conjunto sólido de indícios, reforçando as suspeitas sobre os Bolsonaro.
Mas as derrapadas iniciais do JN, e o recuo apressado, mais a blindagem da mídia, em função das tais reformas prometidas, enterraram provisoriamente o caso.
Aqui, uma sequência de reportagens, que podem ser encontradas no amplo levantamento que o GGN fez sobre Bolsonaro e que pode ser encontrado no link https://jornalggn.com.br/xadrez-de-bolsonaro/
Em 30/10/2019 mostrava a intenção de Bolsonaro de buscar o poder total, a pusilanimidade das instituições e o papel da mídia, tentando criar um clima de otimismo na economia, em cima de indicadores ridículos.
Criminalistas denunciavam desvio de competência de Moro, ao colocar a PF para intimidar o porteiro e faze-lo recuar da denúncia.
No mesmo dia falamos do recuo da Globo, depois da denúncia do Jornal Nacional ter sido rebatida por Bolsonaro. O próprio JN, na denúncia, aceitou a falsa explicação de que, por estar em Brasília no dia do encontro dos assassinos de Marielle no condomínio, não poderia ter atendido a ligação do porteiro.
Em 31/10/2019 trouxemos informações exclusivas sobre o sistema de telefonia do condomínio. Ele permite a transferência de chamadas para celulares. A informação desmontava o álibi dos Bolsonaro, mas foi ignorada pela mídia.
Naquele dia, vários partidos políticos denunciaram a interferência indevida de Sérgio Moro, mandando a Policia Federal pressionar o porteiro para mudar seu depoimento.
No mesmo dia, denunciamos o risco de entrar em estado de exceção, com a atitude do Procurador Geral da República Augusto Aras e do Ministro da Justiça Sérgio Moro de mandar pressionar o porteiro do condomínio para que voltasse atrás em seu testemunho. Na época, bolsonarismo e lavajatismo estavam juntos.
No dia 01/11/2019 copiamos a tela do sistema da portaria e propusemos um mutirão de reportagem: os leitores ajudarem a achar o sistema de telefonia que estava na tela do computador.
No dia 02/11/2019 destacamos mais uma informação relevante, que passou em branco na mídia: Bolsonaro admitiu ter pegado uma das provas centrais (o sistema de telefonia) no próprio condomínio.
No dia 04/11/2019 outra informação relevante, levantada pela Piauí, que não teve desdobramentos: uma perícia da Polícia Civil que supostamente comprovaria que a voz do porteiro, divulgada por Carlos Bolsonaro, não era a mesma do porteiro que recebeu o visitante.
No dia 05/11/2019, um blog do Rio de Janeiro publicou o demonstrativo de receitas e despesas do condomínio Vivendas da Barra. Nele, o pagamento pelo aluguel do sistema de telefonia. Uma rápida pesquisa confirmou que o sistema permitia transferir ligações para celulares.
Em 10/11/2019, reportagem da revista Piauí, com peritos afirmam que registros de ligações no condomínio, mostrados por Carlos Bolsonaro, foram editados.
No 11/11/2019 as dúvidas de peritos sobre a edição dos arquivos do sistema de telefonia.
No dia 13.11.2019, um tuite da jornalista Thais Bilenky, no dia da morte de Marielle, informava que Bolsonaro tinha viagem marcada para o Rio. O tuite foi antes do assassinato.
No mesmo dia, juntamos as peças para desenvolver a teoria mais lógica para explicar o jogo de despistes dos Bolsonaro em relação ao dia 14.03.2018 (dia do assassinato de Marielle).
No dia 14.11.2019 escrevemos sobre a incrível apatia da mídia, de não focar nos pontos centrais que desvendariam a trama dos Bolsonaro.
No dia 15.11.2019 mostramos que Bolsonaro tinha viagem marcada para o Rio no dia 14 (da morte de Marielle). Mas alegou mal estar e viajou no dia 15, pela manhã. Apresentamos uma teoria do fato para tentar entender os desacertos de anunciar viagem e recuar.
No dia 17.11.2019 mostramos, com exclusividade, o escorregão de Carlos Bolsonaro, comprovando que estava no condomínio no mesmo momento em que lá se reuniam os dois assassinos de Marielle.

Autor: Luis Nassif - Site GGN

26 de abril de 2020

Chega de politicagem de politiqueiros da esquerda ou da direita

Estou perplexo com os acontecimentos políticos recentes ocorridos no Brasil. Não é fácil entender como um deputado que militou 28 anos na Câmara Federal, após eleger-se presidente da República não entendeu qual foi a delegação que lhe deram mais de 57 milhões de eleitores. Não entendeu porque depois da posse ainda não organizou um plano de ação e prefere brigar com moinhos de vento numa luta tresloucada contra supostos comunistas e inimigos.
O presidente Mito assumiu o cargo sem oposição que o impeça de governar. O principal partido da Oposição, o PT, saiu derrotado e desmoralizado das urnas em 2018 e seus representantes estão mudos no Congresso e na sociedade. O presidente não tem adversários no Congresso. Talvez por isto agride com palavras grosseiras os líderes de todos os partidos e já se desentendeu até com o partido que lhe ofereceu a legenda para conquistar o cargo, o PSL. Hipoteticamente o Mito-Presidente se apresenta como representante de uma Nova Política e nesta condição, critica com palavras grosseiras e qualificativos depreciativos, todos os líderes políticos do País. Só ele e o grupo que o segue nas redes sociais são honestos e patriotas.
O Mito-Presidente montou uma estrutura administrativa com executivos de boa qualidade na maioria dos Ministérios, mas certamente não conhece o Provérbio Bíblico que diz: “quem planta vento colhe tempestade”. O líder da Nova Política, que tanto vento tem plantado, começou a colher tempestades. Uma dela tem o nome de Sérgio Moro, que deixou o governo atirando. Amanhã poderá ser Paulo Guedes e Tereza Cristina, da Agricultura. Ambos bem qualificados.
O presidente precisa entender que há no Brasil, neste momento de crise de Coronavírus, perto de 20 milhões de desempregados, 25 milhões de pessoas desalentadas e milhares de empresas que podem fechar as portas e provocar mais desempregos. Não é tempo de comprar brigas políticas por causa de uma eleição marcada para 2022. A eleição está longe.
O presidente da República precisa assumir agora o comando de ações para desatar nós cegos. Chega de politicagem de politiqueiros da politiquice da politicalha. Não precisamos de políticas da esquerda nem da direita. Precisamos de políticos que assumam responsabilidade no Brasil e enfrentem problemas sociais maiúsculos com firmeza e seriedade. Brasil acima de tudo! Deus acima de todos!

Autor: Jornalista e Escritor Ivan Santos – Blog Uberlândia Hoje!

23 de abril de 2020

Tem gente no Brasil que ainda acredita!

Passou da hora de muitos
experimentarem aquela estranha
sensação do uso do
raciocínio em nosso país.
Fernando Pinho

O presidente Bolsonaro na ânsia de conseguir uma base aliada, algo impossível em quinze meses de gestão, diante da sua postura aliada a ausência de diálogo com o Congresso, o levou a provar de seu próprio veneno.
Desde sua campanha dizia que não iria praticar a “velha política” fazendo troca de cargos ou cedendo cargos em troca de apoio. Pois, está agora desmentindo a si mesmo, quando procura partidos políticos para fazer justamente a velha política tão surrada e criticada no país.
Para o vice-líder do PSL na Câmara, Junior Bozzella (SP), o governo conseguiu fazer uma “aliança com o Centrão” em referência ao nome da sigla que Bolsonaro pretende criar, Aliança pelo Brasil. Na visão dele, o alinhamento com os partidos do grupo é o ato derradeiro para o presidente. “É um ato de desespero, uma flagrante demonstração da sua incompetência, da sua incapacidade política e demonstra que as suas reservas morais foram, todas elas, jogadas na lata do lixo”, disse Bozzella, para quem o presidente não é capaz de sustentar as próprias posições.
Outro ex-aliado do presidente, o deputado Julian Lemos (PSL-PB) disse que as conversas com o Centrão se devem à “inabilidade política, petulância e arrogância” do governo. Segundo ele, o presidente perdeu sua essência e se desmoralizou.
Na visão do senador Major Olímpio (PSL-SP), a aproximação com o Centrão é frontalmente contrária a toda a narrativa de campanha de Bolsonaro, o que tem enfurecido o eleitorado bolsonarista. Olímpio considera que o movimento do presidente representa um tropeço no próprio discurso.
O ápice dessa conduta do presidente foi procurar por Roberto Jefferson que em 2005 ficou popularmente conhecido ao ser interrogado pela CPMI dos Correios para investigar irregularidades e fraudes na estatal. Ele é uma figurinha carimbada da política brasileira há anos.
Jefferson foi deputado de 1983 a 2005 (quando teve o mandato cassado). Uma característica do ex-deputado foi estar sempre na base aliada do Governo Federal. Esteve com Sarney e principalmente ao lado de Collor. Em 1992 foi o principal defensor de Fernando Collor, tanto no plenário, quanto nos meios de comunicação.
Em 1993, na base aliada de Itamar Franco, teve seu nome citado na CPI do Orçamento. Ele foi incluído numa lista de 37 deputados que cometiam fraudes no orçamento da União junto a prefeitos e empreiteiras responsáveis por obras em todo o país. Jefferson foi absolvido no início do processo, que terminou com 18 deputados cassados. Denúncias afirmam que ele supostamente teria embolsado sozinho R$ 470 mil.
Como de praxe, Roberto Jefferson se manteve aliado do Governo com a posse de Fernando Henrique Cardoso em 1995. Em 1997 votou a favor do projeto que permitiria a reeleição de cargos executivos no País. Muitos deputados da base aliada chegaram a afirmar que houve compra de votos para a aprovação. O caso não foi comprovado, mas também sequer foi investigado. A reeleição foi aprovada e o então presidente, FHC, foi reeleito.
Ainda em 1997, Jefferson, buscando mais um mandato de deputado, omitiu na declaração de bens ao Tribunal Regional Eleitoral a posse de dois apartamentos em Cabo Frio. Cerca de R$ 90 mil cada um.
Em 1990, Roberto Jefferson não declarou ao TER uma casa que possui até hoje em Petrópolis. Eleito mais uma vez em 1994, continuou sem declarar o imóvel, que só foi comunicado na eleição de 1998, no valor de R$ 82.276,73.
Em 2005, mesmo ano de sua cassação, Jefferson teve sua aposentadoria publicada no Diário Oficial. O ex-deputado recebe R$ 18.477 dos cofres públicos.
Roberto Jefferson foi condenado a 10 anos de reclusão, mas teve pena reduzida a 7 anos por ter sido o delator do caso. No dia de sua prisão, a apresentadora do SBT Brasil, Raquel Sheherazade, pediu medalha de Honra ao Mérito ao ex-deputado pelos "bons serviços prestados ao Brasil".
Esse detalhamento mais amplo sobre Roberto Jefferson visa mostrar quem é Bolsonaro na verdade, como ele pensa de verdade e não as mentiras que conta aos xiitas que o procuram na porta do palácio do planalto. Fazer acordo com Centrão e Jefferson demonstra a verdadeira face do ex-deputado que militou em muitos partidos, alguns deles como PP – Partido Popular, um dos mais corruptos sem nunca ter denunciado nada.

 Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

21 de abril de 2020

Preparar-se para a guerra!

Os últimos dias mostraram com precisão a tese de Freud que o poder molda sujeitos, fazendo-os a sua imagem e semelhança. Ou alguém esperava ver, em meio à pandemia pessoas fazendo buzinaço em frente ao hospital?
Presidente Jair Bolsonaro fala com a imprensa na saída do Palácio da Alvorada nesta segunda, 20/04/20. Ueslei Marcelino - Ag Reuters
Em 1939, pouco antes de Hitler atacar a Polônia e iniciar a Segunda Guerra, Freud lança seu último livro, Moisés e a religião monoteísta. Neste livro que trata da constituição de identidades coletivas através de identificações a lideranças, há uma ideia surpreendente, sintetizada em uma pequena frase: “Moisés criou o povo judeu”. Ou seja, não se tratava de afirmar que a liderança era a expressão dos traços de seu povo. Na verdade, o quadro estava de cabeça para baixo. 
Aquele que ocupava o lugar do poder e prometia uma grande transformação acabava por constituir o povo, por definir os traços prevalentes de sua identidade coletiva. Ou seja, havia uma força produtiva do poder, não apenas uma força coercitiva. Da representação do poder, vinha uma força de identificação que moldava paulatinamente os sujeitos a ela submetidos, que os transformava em seus afetos, em sua estrutura psíquica, em suas ações. O poder molda os que a ele se assujeitam.
Freud não conheceu o Brasil, nem nunca ouvi falar de Jair Bolsonaro. Mas é certo que os últimos dias mostraram com precisão sua tese de que o poder molda sujeitos, fazendo-os a sua imagem e semelhança. Todos estão a perceber essa mutação na qual expressões de desprezo, indiferença e violência antes inimagináveis de serem feitas a céu aberto e na frente de todos se tornam manifestações cotidianas, em uma espiral em direção ao abismo que parece não ter fim. Ou alguém realmente esperava ver, em meio a uma pandemia, pessoas a manifestar na Avenida Paulista dançando com um caixão, fazendo buzinaço em frente a hospital, zombando abertamente da dor e do desespero de milhares de pessoas infectadas e lutando pela vida em situações hospitalares precárias? Como se fosse o caso de expressar, da forma a mais aberta e brutal, a indiferença em relação aos 2500 corpos mortos até agora, ao menos se confiarmos nos números subnotificados. Como se fosse o caso de repetir os “deslizes”, as “derrapadas”, ou melhor, os traços de caráter de quem ocupa o poder.
Alguns podem dizer que isto sempre esteve aí, na indiferença das classes mais altas ao destino e as chacinas perpetradas contra as classes vulneráveis. Mas o pior erro é não perceber as placas tectônicas se movendo por estar com os olhos submersos na lógica repetitiva do “sempre foi assim”. Não, há algo novo a acontecer. Pois não se trata apenas da conhecida máquina necropolítica do estado brasileiro. Trata-se da explosão de rituais públicos de auto sacrifício e de violência. Trata-se de uma dinâmica “suicidária”. Erra quem acredita que essas hordas envoltas na bandeira nacional “não sabem do perigo que correm”, são “burras”, como se fosse simplesmente o caso de procurar explicar claramente o que é uma pandemia para todos voltarem para casa.
Diante do fascismo, Adorno e Horkheimer disseram um dia que nada mais estúpido do que tentar ser inteligente. Nossa pretensa supremacia intelectual ainda irá nos matar. Ela nos faz não ver como, no fundo, há uma parte da população brasileira que deseja isto e se dispôs a jogar roleta russa com todos e com elas mesmas. É este desejo que deve ser compreendido. Pois esta será sua forma de se sacrificar por um ideal, mesmo que este ideal não prometa nada mais do que o próprio sacrifício, nada além de um movimento permanente em direção à catástrofe.
Neste sentido, estamos a observar uma mutação impressionante. Mesmo sendo o pior governo do globo terrestre diante da pandemia (comparado apenas a Bielorrússia, ao Turcomenistão, e ao renegado que governa a Nicarágua), o apoio a Bolsonaro não cai. Ele muda paulatinamente. Setores da classe alta vão abandonando-o enquanto ele compensa com adesões nas classes populares, repetindo um movimento que vimos inicialmente com o lulismo. Dificilmente, este número mudará. Ele nem subirá, nem cairá. Mas a qualidade deste apoio mudará. Ele deixará de ser simples apoio para ser identificação profunda e aguerrida. Ao final, teremos um país com 30% de camisas negras dispostos a tudo, pois acreditam estar em um processo revolucionário de ressureição nacional. Este processo não tem mais retorno.
Não será a primeira vez na história que uma dinâmica de afetos e crenças desta natureza ganhou corpo. Esta implosão aberta de qualquer princípio elementar de solidariedade, esse desprezo com os que morrem, esse culto do próprio suicídio como prova de “coragem”, essa violência cada vez mais autorizada até a formação aberta de milícias populares, esta crença em uma revolução nacional redentora, isto tudo tem nome. Costuma responder pura e simplesmente por “fascismo”.
Movimentos desta natureza sempre se aproveitam da fraqueza de seus adversários. Enquanto Bolsonaro moldava uma parte da sociedade a sua imagem e semelhança, havia sempre os especialistas em questões palacianas florentinas capazes de identificar as intrigas que iriam “paralisa-lo”, os erros que indicariam que “acabou para você”. Até pouco tempo, Bolsonaro foi descrito como uma “rainha da Inglaterra”. Isto até ele mandar embora seu ministro da Saúde sem que nenhum cataclismo anunciado realmente ocorresse. Não, não há nada que irá pará-lo, nenhum recuo ocorrerá. Um projeto dessa natureza só é parado de forma brutal. Mas esta brutalidade necessária não está na consciência dos atores políticos atuais.
Poderíamos ter começado mobilizações contínuas pelo impeachment há um mês. Mais uma vez, analistas finos diziam que não era a hora, que isto só fortaleceria o discurso persecutório do Governo. Como se o Governo precisasse de nós para alimentar seu próprio discurso persecutório e mobilizar suas hostes. Não, agora eles denunciam um “plano” para derrubar Bolsonaro, sendo que a oposição sequer conseguiu colocar um pedido de impeachment em marcha, sequer permitiu a maioria de gritar por seu nome. No máximo, suas lideranças endossaram um pedido de “renúncia”. 
Faltou pedir “por favor” a Bolsonaro para que ele caísse em si e se afastasse de bom grado. Como dizia Maquiavel, a audácia é qualidade fundamental diante da fortuna. Mas o único ator que demonstra audácia a altura da situação é o próprio Governo. Em breve teremos uma tentativa de golpe vendida como “contragolpe preventivo”, sem que a oposição tenha feito nada mais do que abaixo-assinados, petições e cartas públicas. A última a acreditar em uma democracia parlamentar que simplesmente não existe mais.
Acrescente ao quadro, o cálculo macabro que o Governo conseguiu impor a parcelas da população. Para elas, trata-se de escolher entre a bolsa ou a vida, entre a morte econômica certa e a morte física provável. Nesse cálculo, o certo acaba por vencer o provável, ainda mais diante de setores da população submetidos ao extermínio, ao desaparecimento, a chacina. Este é o grão de racionalidade da situação apresentada por Bolsonaro. Ela só se sustenta porque a terceira opção está interditada, a saber, nem a bolsa, nem a vida, mas os dois.
Diante disto, que a sociedade constitua redes de autodefesa contra o pior que está por vir. Há duas semanas, pessoas que batiam panela em suas casas contra o governo foram vítimas de disparos de balas de espingarda de chumbo. Em manifestações pró-governo, cidadãos e cidadãs oposicionistas foram violentamente agredidos. Quantas semanas ainda faltam para começar os linchamentos e as balas reais?

Autor: Vladmir Safatle – Publicado no El País.

20 de abril de 2020

O coronavírus saiu de um laboratório? A ciência responde às teorias da conspiração!

Donald Trump endossa a versão de que o patógeno tem origem em um centro de pesquisa chinês, como já acontecera em 2004.
A virologista Shi Zhengli libera um morcego de uma caverna chinesa depois de lhe tirar sangue, em 2004. Instituto de Virologia de Wuhan
Laboratórios chineses de alta segurança deixaram escapar coronavírus em outras ocasiões. Em 18 de maio de 2004, a Organização Mundial da Saúde expressou sua “preocupação” depois que dois cientistas do Instituto Nacional de Virologia de Pequim foram infectados com o vírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS), um coronavírus ―irmão do atual― que apareceu em 2002 e matou quase 800 pessoas. Nesse vazamento de 2004, o primeiro pesquisador foi infectado no final de março, mas a ditadura chinesa ocultou o surto até 22 de abril. O presidente dos EUA, Donald Trump, está agora dando asas à teoria de que o novo coronavírus também é um vazamento, desta vez do Instituto de Virologia de Wuhan, onde há anos são feitas pesquisas com vírus similares de morcegos.
O geneticista Rasmus Nielsen explica ao EL PAÍS o que significa a palavra “similar”. Eles se parecem um com o outro “mais ou menos como uma pessoa com um porco”, resume Nielsen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, ao falar sobre o novo coronavírus ―denominado SARS-CoV-2― e o vírus do morcego RaTG13, pesquisado oficialmente no Instituto de Virologia de Wuhan. “O SARS-CoV-2 não é uma cepa de RaTG13 que escapou do laboratório”, arrematou em sua conta no Twitter.
O virologista australiano Edward Holmes esquadrinhou o genoma do novo coronavírus, seu manual de instruções para infectar células humanas com tanto sucesso. “Não há nenhuma evidência de que o SARS-CoV-2 tenha se originado em um laboratório em Wuhan”, disse Holmes, da Universidade de Sydney, em um comunicado urgente divulgado nesta quinta-feira em meio ao crescimento explosivo da teoria da conspiração nos EUA. Em 17 de março, a equipe de Holmes já havia publicado um estudo genético do vírus na revista Nature Medicine que “mostra claramente que o SARS-CoV-2 não é um constructo de laboratório nem um vírus manipulado propositadamente”. As técnicas de modificação genética dos vírus deixam vestígios. E no novo coronavírus não há traços dessas pegadas dos cientistas.
No Instituto de Virologia de Wuhan trabalha Shi Zhengli, que os próprios colegas chamam de Batwoman. A virologista identificou dezenas de vírus similares ao da SARS em amostras de sangue, saliva e fezes de morcegos de cavernas chinesas. Em 30 de dezembro de 2019, Zhengli recebeu uma ligação do diretor de seu instituto para que investigasse um vírus desconhecido que havia cansado pneumonia em duas pessoas hospitalizadas em Wuhan, segundo ela mesma contou há um mês à revista Scientific American. “Largue tudo o que está fazendo e se dedique a isto agora mesmo”, lhe disse o chefe, de acordo com seu relato. Ao ver que eram coronavírus, ela mesma se perguntou se poderiam ter escapado de seu laboratório.
Dois pesquisadores trabalham no Instituto de Virologia de Wuhan, em uma imagem captada em 2017. Shepherd Hou - EFE
No início da pandemia em Wuhan, Shi Zhengli foi acusada nas redes sociais chinesas de ser “a mãe do diabo”, segundo o jornal South China Morning Post. “Juro por minha vida que o vírus não tem nada a ver com o laboratório”, escreveu ela em 2 de fevereiro na rede chinesa WeChat.
Nesta quinta-feira, a Fox News, um canal de televisão norte-americano muito ligado a Trump, ressuscitou a teoria de que o paciente zero teria sido um cientista do Instituto de Virologia de Wuhan que simplesmente estava estudando uma cepa com origem em morcegos. As fontes citadas pela Fox News, todas anônimas, reconhecem que é apenas uma teoria e afirmam que há uma investigação aberta. Trump evitou nesta quinta-feira rejeitar a hipótese da conspiração. “Vamos ver”, declarou. “Cada vez se escuta mais e mais essa história.” Na terça-feira, o jornal The Washington Post publicou que a Embaixada dos EUA em Pequim havia alertado em 2018 para a suposta falta de segurança do Instituto de Virologia de Wuhan e que ali poderia ter início uma pandemia semelhante ao surto da SARS.
O zoólogo norte-americano Peter Daszak trabalha há anos em estreita colaboração com a virologista chinesa Shi Zhengli. Daszak preside a EcoHealth Alliance, uma organização internacional dedicada a investigar doenças que emergem da vida selvagem e ameaçam a humanidade. Em outubro de 2015, os dois analisaram o sangue de 218 habitantes de quatro cidadezinhas da província chinesa de Yunnan, moradores próximos de cavernas com morcegos. Seis das pessoas, quase 3% do total, tinham anticorpos contra os coronavírus similares ao SARS procedentes dos animais. Para Daszak, não faz sentido pensa em um vazamento de laboratório. “Esses saltos [dos vírus e animais para humanos] acontecem todos os dias”, escreveu ele em sua conta no Twitter.
"Vimos que 3% da população rural no Sudeste Asiático possui anticorpos contra o coronavírus de morcego. Isso significa que todos os anos entre um e sete milhões de pessoas são expostas a coronavírus relacionados à SARS no. É completamente ilógico pensar que não foi isso que levou ao atual surto ", acrescentou Daszak.
“Não houve acidente no laboratório!”, insistiu. “Entrar em cavernas de morcegos e caçá-los para comê-los, refugiar-se do clima do Sudeste Asiático em uma dessas cavernas ou morar perto de uma delas são coisas que acontecem todos os dias. E é assim que se propagam os vírus”, conclui Daszak, que debocha da necessidade de recorrer a explicações improváveis. Em 2003, recorda com ironia, o astrofísico britânico Chandra Wickramasinghe propôs uma teoria alternativa sobre a origem do vírus da SARS na revista médica The Lancet: poderia ter vindo do espaço.

Autor: Manuel Ansede – Publicado no El País