Seguidores

1 de janeiro de 2020

Diplomacia da camaradagem!

Quase todas as decisões adotadas pelo presidente Jair Bolsonaro na condução da política externa deram em nada ou impuseram severos prejuízos, sejam os de ordem econômica, sejam os danos à imagem do Brasil no exterior.
O fiasco da diplomacia brasileira observado neste ano era totalmente previsível porque o presidente da República erra no básico e não emite qualquer sinal de que está disposto a aprender com seus erros. Jair Bolsonaro crê que a relação entre as nações se estabelece por meio da afinidade pessoal e ideológica entre chefes de Estado, e não pela concertação dos interesses em jogo em uma complexa trama comercial e geopolítica. Ou seja, o presidente Bolsonaro trata o que é um mero facilitador na aproximação entre lideranças internacionais como princípio orientador de suas ações.
A opção pelo alinhamento praticamente automático ao presidente norte-americano, Donald Trump, parece ser a linha mestra da política externa do governo Bolsonaro. Na visão do presidente, isso implicaria resultados que nenhum outro governo antes dele conseguiu produzir, como o ingresso do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a abertura do comércio entre os dois países. De fato, Donald Trump apoiou a entrada do Brasil no chamado “clube dos ricos”, mas tratou-se de um apoio vago, sem a definição de prazo ou condições para que o pleito do País fosse de fato analisado. Na verdade, Trump optou por dar preferência aos interesses argentinos no âmbito da OCDE, em detrimento dos brasileiros.
Quanto ao comércio entre Brasil e Estados Unidos, a “proximidade” que haveria entre Bolsonaro e seu contraparte norte-americano também não parece estar ajudando. A carne bovina brasileira continua sob embargo e, em novo revés imposto ao País, Donald Trump decidiu retomar a aplicação de tarifas sobre o aço e o alumínio provenientes do Brasil e da Argentina, sob a alegação de que os dois países estariam praticando uma “deliberada desvalorização de suas moedas a fim de prejudicar as empresas e os trabalhadores dos Estados Unidos”. Sem atinar para a dimensão do problema, Jair Bolsonaro está disposto a resolver a crise com um telefonema. “Se for o caso, falo com Trump, tenho canal aberto”, disse o presidente.
Bolsonaro também tem trabalhado duro para minar a posição de liderança do Brasil na América Latina. Evidente que as dimensões do País, de sua população e a pujança da economia brasileira são os fatores que pesam, e muito, na relação com os vizinhos. Mas o País teria muito mais a ganhar caso Jair Bolsonaro pusesse os interesses do Estado acima de suas predileções. Na Argentina, por exemplo, o presidente brasileiro manifestou apoio à reeleição de Mauricio Macri, que foi derrotado pelo peronista Alberto Fernández. A relação entre Bolsonaro e Fernández já começou estremecida, a bem da verdade por erros que foram cometidos em ambos os lados da fronteira.
No Uruguai, o presidente Jair Bolsonaro apostou na vitória de Luiz Lacalle Pou, que saiu vitorioso do pleito, mas não sem antes recusar o apoio do presidente brasileiro, tido como “tóxico” em razão de suas posições extremadas.
O ano diplomático também foi marcado pelo amplo apoio dado pelo presidente Jair Bolsonaro à recondução do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, outro líder internacional de quem o presidente brasileiro se julga próximo. Jair Bolsonaro chegou a prometer a mudança do local da embaixada do Brasil em Israel, de Tel-Aviv para Jerusalém, o que traria sérios abalos na relação comercial entre o País e as nações árabes.
A nota positiva na condução da diplomacia brasileira neste ano foi a recente mudança da visão do presidente Bolsonaro em relação à China, cedendo ao pragmatismo. Já não era sem tempo o despertar, dada a vibrante relação comercial com nosso principal parceiro.
A afinidade pessoal entre chefes de Estado ajuda muito na fluidez das relações entre as nações. Entretanto, este jamais deve ser o fio condutor da política externa de um país. Os riscos de uma “diplomacia da camaradagem” são muito maiores do que os eventuais benefícios que a proximidade entre os líderes, seja real ou imaginária, pode trazer. 

Autor: Notas & Informações, O Estado de S. Paulo.

Otimista no Brasil - Profissão extinta!

De todas as presunções ridículas da humanidade,
nada ultrapassa as críticas feitas aos hábitos dos
pobres por aqueles que têm casa,
estão aquecidos e alimentados.
H. Melville

Ser otimista no Brasil no que tange a tudo que envolve políticos é uma profissão extinta, completamente impossível de se entender. Há 520 anos que sabemos da nossa extensão territorial vasta, das belezas naturais, dos inúmeros recursos minerais e seu povo amável. Porém, isso tudo se perde quando começa o envolvimento dos políticos nas três estâncias (Municipal, Estadual e Federal) do poder executivo e dos poderes legislativos (Câmaras municipais, Assembleias legislativas e Congresso Nacional.
No legislativo, os políticos eleitos pelo povo legislam em causa própria ou na melhor das hipóteses visando atender seus financiadores de campanhas eleitorais. Quando fazem ou conduzem reformas enviadas pelo executivo eles conseguem deturpar projetos e ainda por cima piorá-los em suas essências.
Sem contar que custam bilhões de reais ao ano aos cofres públicos com salários aviltantes acrescidos de benefícios imorais em relação aos auferidos pelos trabalhadores brasileiros. Possuem sessenta dias de férias e folgam em todos os feriados nacionais, quando não estão viajando pelo país ou exterior as nossas custas.
No comando das leis e da constituição federal temos um poder judiciário iníquo a sociedade brasileira. O Judiciário atende aos interesses dos poderes legislativo e executivo em detrimento do povo brasileiro. A morosidade com que julgam os processos que envolvem políticos, envolvidos com corrupção é o retrato da devassidão que enoja e desestimula a sociedade. Tudo que beneficia o cidadão leva anos nas gavetas do STF, enquanto a soltura de políticos corruptos é quase instantânea.
Para completar, temos o Poder Executivo em suas três instâncias, onde elegemos prefeitos para mais de cinco mil cidades, governadores para 27 Estados e um Distrito Federal, além de um presidente da república. Somados, custam muito caro pelo retorno que trazem ao país. Envolvidos com corrupção, desperdício e ausência de vontade de fazer o certo, eles são figuras que não cumprem promessas de campanha, atrasando o progresso e comprometendo o futuro da nação.
Ao todo são 35 partidos políticos consumindo milhões de recursos públicos, sem que o país avance em educação de qualidade, saúde pública decente, segurança pública, habitação popular e saneamento básico. A cada ano ficamos ainda mais afastados do primeiro mundo nestes quesitos e em tantos outros que são medidos pela ONU e outros organismos.
Nosso Índice de Desenvolvimento Humano – IDH é ridículo, mostrando que nossa gestão pública é nefasta aos interesses da sociedade brasileira. O atual presidente é um exemplo disso, na medida que protege alguns segmentos da sociedade (Latifundiários, banqueiros, militares, empresários e grandes conglomerados) em detrimento do povo mais pobre e menos assistido.
Nossa economia é atrasada, inconstante e dependente de uma série de fatores atrelados aos políticos e a vontade do mercado financeiro especulador. O nosso parque industrial está sucateado e completamente defasado tecnologicamente em relação as grandes potências mundiais.
Somos uma Nação cuja carga tributária se equivale a dos países mais desenvolvidos, porém, nossos governantes nos devolvem pouco ou quase nada de retorno destes tributos.
Como ser otimista num país que:
    a)   Queima suas matas e florestas para transformá-la em pastos!
    b)  Permite através de penas brandas o crescimento da violência contra a mulher num ritmo alucinante!
   c)   Onde crianças ficam fora das escolas ou saem delas antes do final do ciclo completo (Ensino Médio)! O analfabetismo é enorme.
   d)   Não recicla seu lixo na quantidade aceitável e mantem lixões, sem que toneladas de lixo sejam tratadas e transformadas em energia ou algo lucrativo e limpo!
    e)   Permite a destruição da fauna e da sua flora!
    f)    Cujos governantes não cumprem as próprias leis!
   g)   Os cidadãos dirigem sem CNH, usam motocicleta sem capacetes, colocam vidas em risco no trânsito por dirigirem alcoolizados!
   h)   Tem a máxima adotada de querer levar vantagem em tudo!

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Banalização da maldade!

Costumes de uma sociedade tolerante são condenados. Já se pediu até a censura.
Era 6 de setembro de 2018. Na esquina da Rua Batista de Oliveira com Halfeld, em Juiz de Fora, a população carregava nos ombros o segundo colocado nas pesquisas eleitorais para a Presidência, candidato peculiar, sem partido, sem dinheiro, com discurso homofóbico, misógino, xenófobo, personagens de programas populares, por conta das declarações incomuns e bombásticas.
Apesar de escoltado por agentes da Polícia Federal, um desempregado, Adélio Bispo de Oliveira, dizendo-se a mando de Deus, seguiu o cortejo com uma faca de cozinha na mão embrulhada num jornal. A confusão era enorme. Em torno do candidato, ecoavam gritos de “mito”. 
Muitos filmavam e tiravam fotos daquele até meses antes desconhecido e irrelevante no cenário político, deputado federal que se tornava uma celebridade por conta do discurso agressivo e anacrônico, que surpreendentemente enaltecia a tortura dos tempos da ditadura e dizia que os militares mataram pouco.
Adélio tentou por trás. Não conseguiu. Deu a volta. Ficou de frente. O relógio marcava 15h40. Deu uma estocada rápida, certeira. A vítima gritou, inclinou-se, desabou. E mudou a história do País. Como se cortasse a artéria do ódio e da insanidade que circulavam entre grossas paredes e jorraram como um poço de petróleo descoberto. 
Então, o leitor para aqui e começa: Ele é petralha, de esquerda, preferia o roubo do PT? Assim, o debate se mantém na chapa fina da guerra ideológica. Não sou petralha, sou de esquerda, e também considero escandaloso o que se faz na Petrobrás, JBS, Odebrecht e tantas outras, num Estado gerador de propina, por conta da dependência do setor privado a ele.
Em 6 de setembro, o efeito foi imediato: quem estava na dúvida, ganhou certezas, quem queria um Brasil diferente, encontrou seu voto, quem não acreditava nas instituições, achava todas elas corruptas, vestiu a camisa. A facada lesionou a veia mesentérica superior, o intestino grosso e delgado. A vítima perdeu quase a metade do seu sangue. Se fosse centímetros mais à esquerda, morria. O Brasil perdeu o bom senso.
O roteiro era perfeito demais para ser verdade. Surgiram dúvidas. Um vídeo, A Facada no Mito, viralizou. Muitos se lembraram do atentado contra o também verborrágico e também em campanha (para deputado federal) jornalista Carlos Lacerda, em 5 de agosto de 1954, na Rua Tonelero, Rio de Janeiro, um crítico agressivo e contumaz, mais letrado, do presidente Getúlio Vargas. Lacerda sobreviveu. Assim como a polarização. Seu ajudante, major Vaz, não. 
Outra vítima foi o próprio Getúlio, que se matou 19 dias depois. Na investigação, os culpados apontavam para gente do Palácio do Catete, especialmente o chefe da sua segurança, Gregório Fortunato, e o filho (sempre eles) Lutero Vargas. 
O gesto dramático de Getúlio manteve aliados políticos no poder por um tempo. Juscelino Kubitschek debelou duas tentativas de golpe. João Goulart não teve a mesma sorte. O atentado em 1954 reverberou por dez anos, até culminar numa impiedosa ditadura cívico-militar.
A facada nos trouxe de volta a cultura dos tempos de chumbo, que a maioria abomina. Um artificial patriotismo é exaltado. Brasil Acima de Tudo tem uma levada fascista, que considera que o Estado é superior ao cidadão (Deutschland über alles). Costumes de uma sociedade progressista e tolerante são condenados. Já se pediu até a censura. Alimenta-se um discurso de ódio inédito na nossa história, praticado por assessores palacianos. 
Imprensa, mídia, movimentos sociais, ideias de igualdade de gênero, casamento do mesmo sexo, o contraditório e o futuro foram atacados. Madeireiros colocaram fogo na Amazônia. Governantes culparam ONGs. Culparam o Green Peace por um vazamento de óleo. Garimpeiros invadem reservas indígenas e o meio ambiente. Lideranças são mortas. A mulher do presidente francês, destratada. Perguntou-se a um descendente de asiáticos: “Tudo tão pequeno por aí?”.
“Você tem uma cara de homossexual terrível”, foi dito a um jornalista. A adolescente ambientalista virou pirralha, e Paulo Freire, energúmeno. A grosseria se estendeu para o presidente da OAB, cujo pai é desaparecido político, o trabalho infantil, nordestinos, chamados pejorativamente de paraíbas. O presidente disse que não tinha fome no País, defendeu um filtro na Ancine, criticou a jornalista Miriam Leitão. Sobrou até para o Inpe, cientistas, veganos. Incentivou o turismo sexual. Tudo isso durante o mandato. “O Brasil não pode ser um país do mundo gay, temos famílias, pô.” 
Em seu governo, universidades viraram plantações extensivas de maconha, Fernanda Montenegro, sórdida e mentirosa, o País foi o único que obstruiu o acordo da conferência sobre o clima, COP25, o prefeito de Nova York foi chamado de “toupeira”, a monarquia foi enaltecida, o Dia da Consciência Negra, criticado, os ditadores Stroessner (“um homem de visão”) e Pinochet, elogiados, o novo governo argentino, debochado, o Holocausto contra os judeus, perdoado, e o AI-5 foi chamado de volta. Danem-se os escrúpulos.
Recentemente, um mineiro e um paraense foram vistos em lugares públicos com suásticas nos braços. No domingo, o aposentado Adel Abdo foi preso em flagrante depois de disparar três vezes com um revólver calibre 22 no contador Rafael Dias, seu vizinho. Segundo testemunhas, teria dito: “Viado tinha que morrer”. O feminicídio vira epidêmico.
“Este é um governo absolutamente agressivo, que cria um clima horroroso no País. Tudo que é ligado à ciência e à arte está sendo demonizado. Artistas, cientistas e professores sofrem um bombardeio diário de mentiras, de assassinatos de reputações. O grupo que está no poder quer calar as vozes dissonantes”, disse Marcelo Adnet, humorista vítima de seguidores do presidente, à Folha de S. Paulo.
O Brasil vive sob ataque, precisava de um homem equilibrado, agregador, que respeitasse as diferenças e defendesse as instituições. Ganhamos o inverso. Numa facada que ainda jorrará muita bílis.

Autor: Marcelo Rubens Paiva – Escritor, dramaturgo, roteirista, há anos trabalha na imprensa como cronista do mundo contemporâneo, de olhos atentos a política, cultura, neuroses urbanas de hoje e do passado. Artigo publicado no jornal Estadão.

Sem consciência científico-social, restam-nos as tragédias coletivas!

O uso indiscriminado de herbicidas durante a Guerra do Vietnam mostra que cinco décadas não foram suficientes para apagar o imenso desastre ambiental, bem como a catástrofe humana que se instalou naquela região.

Chama atenção a velocidade da liberação dos registros dos “fitossanitários” ou “defensivos agrícolas” esse ano no país. Fonte: Google
No livro “Um Discurso sobre as Ciências”, de autoria do professor Boaventura de Souza Santos, o qual dispensa qualquer tipo de apresentação, sobressai-se o seguinte tópico interessante e instigante: todo conhecimento científico-natural é científico-social. Lembrei-me imediatamente dos negacionistas, os quais poderiam muito bem se inserir, alguns deles é claro, na categoria dos ignorantes especializados, expressão utilizada pelo professor Boaventura em seu livro, a qual faço uso aqui. Mas não pretendo me ater nem aos terraplanistas e nem àqueles que negam qualquer alteração climática em curso decorrente da ação humana.
De acordo com uma matéria publicada semana passada no Jornal Nexo, até o início de março desse ano, ao menos 58 produtos relacionados aos agrotóxicos tiveram sua liberação formalizada mediante publicação no Diário Oficial da União. A tomar pela velocidade da permissão dos novos registros, os novos pedidos de liberação devem estar de vento em popa.
A ideia aqui não é polarizar e nem criminalizar a discussão em torno do uso dessas substâncias, sendo algumas destas inclusive necessárias, pelo menos até o momento. Por outro lado, a liberação e o uso indiscriminado, em especial daquelas substâncias reconhecidamente tóxicas ou ainda daquelas que carecem de mais estudos, são incompatíveis com a sustentabilidade ambiental e social da agricultura.

O legado tóxico deixado no Vietnam ainda não expirou. Fonte: Google
Passados mais de 50 anos da Guerra do Vietnam, diversos estudos de cunho científico-social tentam medir, entender e compreender as consequências nefastas da estupidez humana pelas milhares de toneladas de herbicidas na verdade um arco-íris destes, dentre os quais o mais conhecido fora o agente laranja  ̶  pulverizados sobre as florestas e plantações do lado sul daquele país. Essa fora a estratégia adotada para destruir a folhagem que os guerrilheiros usavam como cobertura, bem como as colheitas que os alimentavam.
O agente laranja, o qual era armazenado em tambores cuja identificação era feita por faixas laranja, era na verdade uma mistura de dois herbicidas, o 2,4-D e o 2,4,5-T. Esse agente desfolhante continha além dessa mistura, traços de dioxina, um subproduto da fabricação do 2,4,5-T. As dioxinas são poluentes orgânicos persistentes cuja toxicidade para os seres vivos é altíssima, mesmo que em baixíssimas concentrações. Além da população local, muitos soldados americanos, hoje veteranos daquela guerra, também não ficaram imunes aos efeitos tóxicos desse agente. Naquela ocasião, como quase sempre ocorre, a cortina de fumaça ideológica serviu para tentar mascarar os interesses escusos. De tempos em tempos esse artifício volta à tona, convencendo, incrivelmente, milhares de pessoas.

Sem consciência científico-social, sobram-nos tragédias coletivas. Fonte: Google
O fato é que mais de cinco décadas não foram suficientes para apagar o imenso desastre ambiental, bem como a catástrofe humana que se instalou naquela região, tanto nos aspectos relacionados à saúde, quanto econômicos, como socioculturais. Parece até que a política da precaução passa a vigorar, apenas, depois desses eventos cujas consequências são dramáticas. 
Parece até que só após eventos como esse se passa a presumir que possíveis defeitos congênitos e doenças como câncer podem de alguma forma guardar relação com tais substâncias, independentemente de serem misturas ou não, como é o caso do agente laranja. Em algumas ocasiões, chega-se às conclusões que eventualmente podem servir de base para possíveis indenizações.
Porém, normalmente tais indenizações compensatórias “beneficiam” apenas as gerações subsequentes, porque as atingidas, muitas vezes, já sucumbiram diante do mal sobre o qual ousaram lhe atribuir culpa. Após ocasiões como essa, fala-se até em remediação ambiental. Imagina só quanta ousadia e petulância a favor do meio ambiente!
Ao que parece, as últimas décadas de estudos científicos, em especial aqueles de caráter epidemiológico, reforçaram, “apenas”, o campo das evidências. Se para os negacionistas, os fatos não servem, quem dirá as evidências. E dessa forma, todo o nosso conhecimento científico-natural desvencilha-se do científico-social.
Quem sabe no decorrer de mais cinco décadas, com evidências mais robustas a respeito dos produtos liberados recentemente, adotem-se esses “termos esquisitões” como precaução, remediação ambiental e indenizações, como se faz com o agente laranja. Quem sabe!
Quem sabe até lá essa turma do sanatório geral já não tirou o seu bloco da rua. Quem sabe!

Autor: Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás. Artigo publicado no site Nossa Ciência.

O cérebro nos impede de ver a força dos argumentos que nos contradizem!

Cientistas observam uma área cerebral que poderia explicar por que nos fazemos de surdos a outras opiniões.

Apoiador de Trump com gorro do slogan de campanha do presidente dos EUA.MARK MAKELA (AFP)
Se um amigo lhe dissesse que acaba de ver um elefante rosa voando, você não acreditaria. Elefantes não são rosa e não voam, por isso você precisa de algo além de uma suposta testemunha para mudar sua ideia sobre como o mundo funciona. O cérebro em princípio rejeita informações que contradizem o que você já sabe, e assim ele funciona bem, porque na esmagadora maioria dos casos ele tem razão. Mas o que ocorre quando o argumento é bom – não um elefante voador – e pelo menos deveríamos levá-lo em conta, embora nos contradiga? “Para mim tanto faz”, responderia o cérebro.
“Por que desenvolvemos um cérebro que descarta informações perfeitamente válidas quando elas não se ajustam à sua visão do mundo? Isto pode parecer um design ruim, que pode levar a muitos erros de julgamento. Então, por que não se corrigiu esta falha no transcurso da evolução humana?”, pergunta-se a neurocientista Tali Sharot em A Mente Influente (Rocco). Para tratar de responder a estas perguntas, Sharot, do University College de Londres, realizou uma série de experimentos que mostrariam, a se confirmarem, como o cérebro se nega a abrir a porta quando quem bate é uma opinião que o contradiz, por mais convincente que seja.
Nestes experimentos, os participantes participavam de um jogo tipo Acerte o Preço, envolvendo o valor de vários imóveis. Era-lhes mostrado um preço, e tinham que decidir se custava mais ou menos, e, depois, decidir quanto apostavam na sua resposta: entre 1 e 60 centavos. Desta maneira, podia-se medir a segurança das suas decisões. Então, se mostrava aos participantes o valor que seus colegas de jogo haviam apostado, e a pessoa tinha a opção de mudar a quantia apostada, mas não o sentido da aposta. Para os cientistas, não foi uma surpresa o que eles observaram: quando o outro participante lhes dava a razão, aumentavam a aposta. E se o outro estava muito seguro, aumentavam-na muito mais. Ou seja, levavam em conta a força da convicção do companheiro quando concordavam.
Mas, quando o colega apostava o contrário, isso não tinha tanta influência, e quase nunca o valor apostado diminuía. O mais interessante é o que ocorria quando o companheiro opinava o contrário, e além disso apostava muito nessa opção, ou seja, quando sua convicção transmitia muita força. Nesse caso, continuava sem ter muita influência: tanto fazia a intensidade da aposta. “Descobrimos que, quando as pessoas não estão de acordo, seus cérebros não conseguem registrar a força da opinião da outra pessoa, o que lhes dá menos razões para mudar de opinião”, resume Andreas Kappes, pesquisador da Universidade da City de Londres e coautor deste estudo, publicado na Nature Neuroscience. “Nossas conclusões sugerem que nem sequer os argumentos mais elaborados do outro lado convencerão as pessoas mais polarizadas, porque o desacordo será suficiente para rechaçá-lo”, assegura Kappes. E acrescenta: “O fato de não observar a qualidade do argumento oposto torna menos prováveis as mudanças na mente”.
Estes cientistas deram um passo à frente no entendimento deste viés de confirmação, que Sharot, diretora do Laboratório do Cérebro Afetivo do University College de Londres, define assim: “Procurar e interpretar dados de uma maneira que fortaleça nossas opiniões pré-estabelecidas”. Sharot e sua equipe realizaram estes experimentos observando a atividade do cérebro dos participantes mediante ressonância magnética. E puseram o foco em uma região muito concreta, o córtex pré-frontal medial posterior, uma área que se ativa ao esquadrinhar a confiança ou a qualidade da evidência que nos apresenta e depois nos leva a mudar nossas crenças e opiniões de acordo com a qualidade dessas provas. Se um médico confiante me sugere que eu deveria começar um tratamento, então o córtex pré-frontal medial posterior rastreia a confiança do médico e me leva a ajustar minha opinião de acordo com isso: minha crença de que devo me tratar aumenta, explica Kappes.
Pergunta sem resposta
Ao observar a atividade cerebral durante o experimento, os cientistas viram que, quando as pessoas estavam de acordo, essa região do cérebro estudava o nível de confiança da outra pessoa, o que levava a ajustar suas crenças de acordo com a confiança do outro. “Entretanto, quando as pessoas não estavam de acordo, o cérebro não fazia isso, dando às pessoas poucas razões para mudar de opinião”, resume Kappes. Por que isto ocorre? “Nossas conclusões não oferecem uma resposta a essa pergunta, só oferecem um mecanismo que subjaz à relutância das pessoas em mudar de opinião”, responde este psicólogo social. Sharot publicou um estudo há poucos meses mostrando que as pessoas deixam de fazer buscas na Internet quando os primeiros resultados proporcionam a informação desejada, outra forma de viés de confirmação digital. “A tendência comportamental a descartar a informação discrepante tem implicações significativas para os indivíduos e a sociedade, porque pode gerar polarização e facilitar a manutenção de crenças falsas”, afirma a cientista.
“Este estudo é um bom primeiro passo para estudar os mecanismos do viés de confirmação, porque encontram uma correlação com as diferenças nesta região do cérebro, mas isto continua sem explicar essa discrepância entre nossa opinião e a evidência que nos contradiz”, opina a neurocientista Susana Martínez-Conde, especialista nestes autoenganos da mente. “Continuamos sem saber o mecanismo neural; o fato de encontrar atividade associada não dá uma explicação, qualquer comportamento vai estar baseado no cérebro, o estranho seria que não se observasse diferença”, afirma a diretora do laboratório de Neurociência Integrada da Universidade do Estado de Nova York. Ela acredita que é possível encontrar uma resposta no cérebro, “talvez não com estas ferramentas atuais, mas em nível teórico o mecanismo neural tem uma resposta física que devemos poder observar”.
Mas Martínez-Conde é otimista sobre o que mostram estes experimentos. “Os resultados não são tão alarmantes: as opiniões negativas influem, embora muito menos, embora não tenham o mesmo peso, mas sim as consideramos minimamente. É um começo”, diz. Ao desenvolver seu argumento, Martínez-Conde concorda com a ideia expressa por Tali Sharot em seu livro: “Os números e as estatísticas são necessários e maravilhosos para descobrir a verdade, mas não são suficientes para mudar as crenças, e são praticamente inúteis para motivar a ação”. A melhor forma de abordar este viés de confirmação é expor os argumentos envoltos em uma narrativa que implique que se está de acordo. Como se no experimento você tivesse votado igual, porque é assim que os argumentos alheios são escutados. “Na hora de tentar alcançar um consenso, procuremos um ponto de partida em que estejamos de acordo, e a partir daí será mais fácil moderar as opiniões de outros”, sugere Martínez-Conde.
Trump e as estações teimosas
“Escutamos o que queremos ouvir, e descartamos o que não queremos: não damos o mesmo peso às opiniões que nos contradizem”, afirma Susana Martínez-Conde sobre os resultados do estudo publicado na Nature Neuroscience, e do qual ela não participou. Mas acrescenta: “O problema do viés de confirmação é bastante mais amplo e profundo que algumas posturas ideológicas”. Para ilustrá-lo, recorre a um experimento de seu colega Matthew Schneps, que trabalhou na resistência em mudar as próprias ideias errôneas com relação a conceitos de astronomia básica. Grande parte dos graduados por Harvard acreditava que as estações ocorrem pela proximidade com o Sol, e não pela inclinação da Terra. Schneps descobriu que, embora o erro fosse corrigido sem que os participantes opusessem resistência, ao cabo de algum tempo voltavam à sua explicação equivocada inicial. “Acredito que há alguns períodos críticos nos quais a solidez das sinapses transforma alguns circuitos quase em algo imutável”, diz Martínez-Conde. “Por isso temos que procurar novas ferramentas”, acrescenta, “porque, como fizemos até agora, não está funcionando”.
Mas alguns pesquisadores da Universidade de Londres descobriram um caso em que estamos dispostos a aceitar dados que nos contradizem: quando esses dados respaldam o que queremos acreditar. Quando em agosto de 2016 perguntavam a futuros eleitores de Donald Trump quem eles achavam que ganharia a eleição presidencial, a maioria apostava em Hillary Clinton, com quase tanta convicção quanto os eleitores democratas. Quando se mostrava a eles uma pesquisa com Clinton à frente, sua aposta não mudava muito. Mas, quando apresentados a uma pesquisa que dava Trump como ganhador, então os republicanos se dispunham a inverter sua opinião. Embora achassem que a democrata ganharia, torciam pelo republicano, por isso seus cérebros recebiam de braços abertos um dado nesse sentido.

Autor: Javier Salas – Publicado no Diário El País.

19 de dezembro de 2019

Tem economistas usando óculos azuis ao analisar nossa economia!

"A democracia sobrevive quando a inteligência
 do sistema compensa a mediocridade dos atores"
Daniel Inneraty

Desde a posse do atual presidente em janeiro de 2019, lemos e ouvimos profecias sobre a melhora da economia do país, que está em crise desde que Aécio Neves do PSDB perdeu a eleição e não aceitou a derrota em 2014. Agora todos sabem que a preocupação dele era ter imunidade do cargo para aguentar as denuncias de corrupção contra sua pessoa e familiares diretos.
Voltando a economia, diziam que após as aprovações das reformas estruturais urgentes e imprescindíveis tudo voltaria ao normal, haveria crescimento e desenvolvimento do país.
A Reforma Trabalhista foi aprovada em novembro de 2018, portanto, antes da posse do atual presidente. Este ano, a duras penas o governo conseguiu “comprar” o voto (aceitação) dos parlamentares da Câmara e Senado para poder enfim aprovar a Reforma da Previdência. Aquela que retira direitos dos aposentados, trabalhadores com carteira assinada e pensionistas. Mas não acaba com a desigualdade entre os servidores públicos e os demais. Não mexe com os militares nem com os políticos. Sequer resolve o problema dos devedores e sonegadores da previdência social que juntos devem bilhões de reais aos cofres do erário.
Toda vez que análises são feitas pelo governo ou pelos chamados “economistas chapa branca” que usam óculos azuis em plena crise, o futuro será maravilhoso. Entretanto, ele nunca chega para a classe média e demais classes sociais.
O povão aguarda as mudanças, pois o preço do gás de cozinha está nas alturas (Botijão de 13 quilos vendido a R$ 77,00 em Bauru, os combustíveis subiram mais do que nunca (Etanol passa de R$ 4,00 em vários Estados), junto com a carne bovina (aumento de 18%), frango, carne suina, feijão (alta de 30%), trigo e demais insumos básicos.
Tudo subiu na nossa economia, menos o salário do povo, o mínimo continua a passos de tartaruga manca, e os demais salários controlados pelos empresários permanecem baixos. Vitória para quem queria um governo com esse perfil no poder.
Os preços dos planos de saúde sobem acima da inflação numa constante, assim como os preços dos remédios nas prateleiras das farmácias. Os laboratórios cada vez mais ricos recebem seus quinhões pelo apoio financeiro que deram nas campanhas dos políticos. Nunca lucraram tanto com a dor e sofrimento do povo brasileiro.
Mais do que eles somente os eternos bilionários – os banqueiros, estes além de lucrarem muito, não perdem nunca. É tiro certo, com ou sem crise, com qualquer governo de qualquer ideologia, eles ganham sempre.
Este atual governo com Guedes a frente da economia tem a característica de trabalhar dobrado pela recuperação dos ganhos dos empresários, “tão sofridos”, obrigados por anos a cumprirem leis e regras que protegiam os trabalhadores, onde já se viu uma coisa dessas?
As reformas e a desoneração aliadas a refis para quitação de dividas em 300 parcelas são fatos. O trabalhador, o aposentado, os desempregados nunca estiveram na preocupação deste atual governo. Retirar direitos para aumentar garantias de lucros e vida tranquila aos grandes grupos financeiros e empresariais é o objetivo primeiro e único de Bolsonaro e Guedes.

15 de dezembro de 2019

Sociedade global à deriva!

Foto Pixabay
Já faz quatro anos que 195 nações estão comprometidas a unir esforços para reduzir ou ao menos conter o avanço da temperatura média global. Passados 96 meses, na 25ª Conferência do Clima da ONU (COP25), em andamento em Madri, nos deparamos com uma realidade nada otimista. Todos os relatórios divulgados nas últimas semanas demonstram que não tivemos avanços em relação às metas do Acordo de Paris. Em muitos aspectos – senão todos – estamos ainda piores do que antes de o acordo começar a ser discutido.
Os impactos desta negligência mundial são visíveis nos quatro cantos do planeta em incêndios de difícil contenção, longos períodos de seca, enchentes, nevascas severas, furacões e processos de desertificação – um retrato negativo para os próximos anos, já que eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes. Enquanto isso, na maior conferência do mundo sobre a temática, quem ganha voz é a ativista ambiental sueca Greta Thunberg, de 16 anos, ocupando o espaço deixado pelos líderes das principais potências do mundo, que poderiam tomar decisões e atuar em mudanças de forma efetiva, mas parecem que ainda não entenderam a urgência do assunto.
A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris representa um risco, principalmente pela influência sobre outras nações, como países árabes e a Polônia, que têm uma economia fortemente baseada na exploração de combustíveis fósseis. A turbulência político-econômica que afeta países da América do Sul, como Chile e Brasil, impossibilitou a vinda da COP para o continente. A carência de compromissos com o clima dificulta a adoção de medidas arrojadas que migrem para tecnologias ecológicas mais eficientes. Se não concentrarmos esforços agora, aumentamos a dificuldade para o futuro.
Foto Pixabay
A tendência é de que o mercado global compreenda a necessidade e busque iniciativas que usem energia limpa. Enquanto isso, no Brasil e em diversos países do mundo, continuamos a carbonizar nossa matriz energética, não investimos fortemente no segmento e contamos com uma agricultura fortemente convencional.
Precisamos de ações efetivas – públicas e privadas – para conservar o patrimônio natural que nos resta. O bom funcionamento dos ecossistemas será nossa maior proteção contra os eventos climáticos extremos, assegurando condições para o desenvolvimento socioeconômico e para o bem-estar da população. É preciso defender a implantação de Soluções baseadas na Natureza como alternativa para a adaptação das cidades diante da crise climática.
É evidente também que necessitamos mais ambição para cumprir as metas do Acordo de Paris e impedir o caos climático. O ano de 2019 deve ficar entre os três anos mais quentes da história, enquanto a última década foi a mais quente já registrada. E a tendência é de que os ponteiros dos termômetros só aumentem. A ONU alerta para “perspectivas sombrias”. Mesmo que todos os países cumpram sua parte no Acordo de Paris, o planeta esquentaria cerca de 2 graus Celsius. Até o momento, já esquentou 1 grau e os eventos climáticos extremos estão causando sérios impactos. Na tendência atual, estamos rumando para um aumento de 3 a 5 graus, o que seria desastroso.
A janela de oportunidades para reverter este cenário está fechando. Temos apenas um ano para finalizar as regras do Acordo de Paris e ampliá-lo, já que as metas que estão na mesa são insuficientes. A responsabilidade pela segurança e pela qualidade de vida das pessoas nos próximos anos e das gerações futuras estão nas mãos dos diplomatas e tomadores de decisão presentes na COP25, que negociam em nome de seus países e de toda a humanidade. Sem um consenso entre as nações, qualquer tomada de decisão parece longe de acontecer. É a sociedade global à deriva.

Autor: André Ferretti é gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. Participa da COP pela 15ª vez.

12 de dezembro de 2019

A destruição da razão como projeto!

Pode-se imaginar para onde se dirige um país que se comprometeu com a idiotice total. As consequências do desprezo ao conhecimento e ao senso comum serão fatais, não só na Amazônia, escreve Philip Lichterbeck.
Cada assassinato de um indígena no Brasil diz algo sobre a relação esquizofrênica do país consigo mesmo. Muitos brasileiros não querem saber sobre as raízes indígenas de seu país e não querem ouvir a mensagem dos primeiros brasileiros sobre paz, respeito e preservação da natureza. É uma mensagem sensata. Mas a extrema direita do Brasil a odeia. Por trás disso há um profundo desprezo pela ciência, pela razão e pelo senso comum. Desprezo este que está se espalhando cada vez mais pelo Brasil. E com consequências mortais.
No sábado passado, duas lideranças indígenas da etnia Guajajara foram assassinadas no Maranhão. Um mês antes, fora morto a tiros no mesmo estado o "guardião da floresta" Paulo Paulino Guajajara, conhecido como "Lobo Mau". Em 2019, o número de mortes de líderes indígenas já é o maior em 11 anos.
Responsável pelos assassinatos é a máfia dos desmatadores, grileiros, latifundiários e garimpeiros. Ela toma conta de forma insidiosa da Amazônia. Qualquer um que viaje pelo Norte do país hoje em dia reconhecerá os sinais por todas as partes. O maior tesouro do Brasil está sendo destruído sistematicamente.
Mas em vez de combatida, essa máfia é encorajada pelo governo brasileiro, em especial pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele chamou desmatadores ilegais numa Terra Indígena de "pessoas do bem que trabalham". Parece que Salles até coopera com os criminosos. A Folha de S. Paulo publicou uma matéria sobre a recepção que Salles deu a vários infratores ambientais do Acre. Depois suspendeu a fiscalização na reserva Chico Mendes.
As consequências dessa política são claras: o desmatamento ilegal na Amazônia cresceu neste ano 30% e bate um novo recorde. Nas Terras Indígenas, a alta no desmatamento é de até 74%. Como se isso já não fosse suficiente destruição, a Funai quer suspender a supervisão de dez Terras Indígenas com povos isolados. Seria uma espécie de sentença de morte para os últimos povos isolados do Brasil.
A destruição da Amazônia, de sua história e sua cultura é um dos principais projetos do atual governo. Ficará como sua vergonhosa herança para as gerações futuras. O governo alega que está interessado no desenvolvimento econômico. Mas está cientificamente provado que uma Amazônia intacta é economicamente muito mais valiosa. Sua destruição terá consequências ecológicas, sociais e econômicas catastróficas para o Brasil.
Torna-se claro que o Brasil caiu nas mãos de ideólogos perigosos. São fanáticos dos quais, em outros tempos, se riria sonoramente. Agora eles estão tentando moldar o Brasil de acordo com suas ideias lunáticas do período pré-iluminista. O novo presidente da Funarte acha que o rock leva ao aborto e ao satanismo. Segundo ele, os Beatles surgiram para implantar o comunismo.
O homem que provavelmente vai liderar a Fundação Palmares afirma que não há racismo no Brasil. A escravidão, diz ele, era "benéfica para os descendentes". A ministra da Família, Damares Alves, recomenda a abstinência como o melhor remédio contra a gravidez na adolescência. Isso pode ser tecnicamente correto, mas não é uma política de Saúde responsável e decidida com base na realidade: isso é fundamentalismo religioso ao estilo iraniano.
Por último, mas não menos importante, Olavo de Carvalho agora pôde apresentar sua versão da história do Brasil no canal estatal TV Escola. Carvalho é um teórico da conspiração e extremista de direita, poderia encarnar muito bem um professor louco num filme de Hollywood. Agora ele é a estrela orientadora intelectual do governo brasileiro. Não Voltaire, Rousseau, Kant ou, para mencionar um pensador humanista excepcional brasileiro, Leandro Karnal: mas sim Olavo de Carvalho, com suas baixarias. Pode-se imaginar para onde se dirige um país que se comprometeu com a idiotice total.
O efeito do desprezo à iluminação, ao conhecimento e à razão é um discurso público cada vez mais baixo e ridículo. Além disso, tem consequências fatais, não só na Amazônia. Um exemplo simples: por antipatia pessoal o presidente mandou desativar quase todos os radares fixos no país. O efeito: os acidentes graves cresceram no país, e as rodovias têm alta de acidentes com vítimas pela primeira vez desde 2011. Qualquer pessoa mais ou menos inteligente poderia ter previsto isso.
A política agrícola é igualmente brutal e antimoderna. Não se concentra num cultivo sustentável de alimentos com cada vez menos pesticidas, mas sim em cada vez mais agrotóxicos. Só neste ano 467 pesticidas foram aprovados, um novo recorde. Segundo o Greenpeace, desses produtos, 22 contêm ingredientes ativos que têm seu uso proibido na União Europeia; 25 constam na lista dos produtos extremamente ou altamente tóxicos à saúde humana. Ironicamente, uma das últimas levas de novos registros colocou mais 57 produtos no mercado no dia 3 de outubro, quando se comemora o Dia Nacional da Abelha. Somente entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, foram registradas as mortes de 500 milhões desses polinizadores por conta do uso de agrotóxicos.
Os agrotóxicos contaminam os rios do Brasil, como o São Francisco. E, claro, envenenam também a população. Entre 2007 e 2014, foram registradas quase 2 mil mortes por intoxicação agrícola. É cientificamente comprovado que, mesmo em pequenas doses, os inseticidas causam sérios problemas, principalmente em crianças, como alteração no QI, déficit de atenção, hiperatividade, autismo e transtornos psiquiátricos. Uma política sensata orientada para o bem-estar da população faria, portanto, tudo para limitar a utilização de pesticidas. Em vez disso, o governo expande seu uso para satisfazer os interesses lucrativos das indústrias agrícolas e químicas.
Outro exemplo dessa política fanaticamente cega: o Excludente de Ilicitude em Operações de Garantia da Lei e da Ordem que o presidente tanto deseja. Ele corresponde na prática a uma licença para matar, como qualquer estudioso da área de segurança iria confirmar. Parece que no Rio o excludente já está em vigor. Em 2019, a polícia do estado matou tantas pessoas como não matava desde quando começaram as estatísticas, em 1998. Muitas vezes os mortos não são criminosos, mas crianças como a menina Ágatha, de oito anos.
De certa forma, é então consequente que o novo partido do presidente, Aliança pelo Brasil, se apresente com um logo feito de pistolas e balas. Não livros que ensinam, mas balas que matam. Por exemplo, os primeiros e sábios habitantes do Brasil.

Autor: Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Áustria. 

8 de dezembro de 2019

A mamata na ALERJ nunca acabou!

Ideologias nos separam, sonhos e aflição nos unem.
Eugene Lonesco

Nas eleições ocorridas em 2018, além das Fake News, chamou muito a nossa atenção as frases de efeito,normalmente mentirosas, utilizadas ao longo das campanhas eleitorais. Uma delas “Fiquem tranquilos, agora a mamata acabou”. Essa frase dita em referência aos governos anteriores foi dita pelo pessoal da campanha de Jair Bolsonaro.
Infelizmente isso não aconteceu, nem nunca acontecerá na esfera federal onde os cartões corporativos, os aviões da FAB e tantas mordomias em viagens ao exterior são usadas sem transparência e sem a menor consideração ao erário e a sociedade brasileira.
Nos Estados o modus operandis é o mesmo, gastos nababescos, receitas em queda e o povo pagando a conta pela má gestão e pela corrupção desenfreada que há 500 anos assola o país.
Entretanto, essa corrupção, essa má conduta, não é exclusiva do Poder Executivo nem do Judiciário, mas também do Poder legislativo, justamente aquele cujos representantes são eleitos para entre outras coisas fiscalizarem o Poder Executivo.
No Estado do RJ a Assembleia Legislativa – ALERJ é um exemplo clássico de desmandos, mordomias, nepotismo e corrupção sem fim. Local onde a mamata nunca acabou nem se pretende acabar.
A mídia descobriu entre os muitos funcionários fantasmas um caso que exemplifica a imoralidade daquela casa de leis do povo do Rio de Janeiro, envergonhando a todos, trazendo revolta num país de 12 milhões de desempregados e outros milhões de subempregados com salários abaixo da linha da pobreza.
A servidora da ALERJ, Marli Regina de S. Costa com salários de R$ 23.375,93 (Vinte e três mil, trezentos e setenta e cinco reais e noventa e três centavos) é esposa do Ex-Deputado José Nader Jr e vive em Orlando na Flórida – EUA. Onde tem residência fixa e desfruta de uma vida alegre, saudável e confortável.
Ela deveria bater o ponto diariamente no gabinete do Deputado Tiago Pampolha – PDT-RJ. Mas nem o deputado nem ninguém no gabinete sabe explicar esta situação criminosa de fraude com os recursos públicos.
Além disso, seus cunhados Rubem Carlos Nader e Luiz Fernando Nader recebem da mesma ALERJ salários de R$ 23.314,31 (Vinte e três mil, trezentos e quatorze reais e trinta e um centavos) para assessorar o Deputado Renato Cozzolino – PRP-RJ. Entretanto, Luiz trabalha numa empresa familiar em Barra Mansa, que dista 100 km da ALERJ.
Assim, percebemos o porquê do pavor de Flávio Bolsonaro do PSL-RJ quando veio à tona os casos envolvendo Fabrício Queiroz e os funcionários contratados que na verdade nunca pisavam no gabinete, mas eram obrigados a praticar a rachadinha (Partilha do salário com Queiroz ou Flávio). O caso está sendo apurado, aliás, já deveria ter sido completamente apurado, não fosse o poder do seu pai presidente e as estratégias junto ao nefasto STF.
A ALERJ possui setenta deputados eleitos a cada quatro anos pelo sofrido eleitor do Estado do RJ, estes possuem 5.000 servidores a disposição, um número obsceno que chega a setenta e um servidores por deputado.
A mamata nunca acabou nem nunca vai acabar enquanto não houver Justiça, enquanto a impunidade triunfar e os corruptos derem as ordens levando vantagem em todos os negócios que puserem suas mãos sorrateiras e ordinárias.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

7 de dezembro de 2019

Mensagem de Boas Festas e Feliz 2020!

O ano de 2019 está chegando ao seu final, embora em muitos momentos tenha nos deixado a impressão de que nunca teria começado. Seu adeus, portanto, é mais de alegria do que tristeza, não pelo que ele nos deixou, mas sim, pela esperança sempre renovável de que o ano seguinte seja melhor.
Tarefa que seria fácil para 2020, afinal de contas, seu antecessor foi tão inconstante, fraco e com tantas más notícias, tragédias e um ambiente político desastroso, que 2020 deveria ser melhor. Em tese sim, porém, o componente político continuará conturbado em mais um ano de eleições, desta vez municipais.
Restam poucos dias para que um novo período de 365 dias se aproxime e a ele chamemos de 2020. Para o Blog Falando Um Monte 2019 foi excelente, com recorde de acessos ao longo do ano, o que não é pouco, muito ao contrário, significa bastante para quem um dia começou a postar seus textos e achava que aquilo não iria a lugar algum.
Hoje, ao olhar para o Blog vejo que ele se consolidou e teve em média 22.600 acessos por mês, atingindo a expressiva marca de 930 mil acessos desde sua abertura ao público 11 anos atrás. O Blog tem uma enorme visualização no exterior, cerca de 87% dos acessos são do exterior e 13% no Brasil. Destes acessos fora do Brasil os EUA correspondem a 36% do total de visualizações realizadas.
A fé na humanidade nos leva a ter esperança que o ano novo seja um período que traga muitas alegrias e saúde para que possamos enfrentar as adversidades e superar os obstáculos que com certeza aparecerão em nossas vidas.
Que haja sempre mais compreensão e boa vontade, que as pessoas possam efetivamente ser mais gentis umas com as outras, praticando o que é justo, com sinceridade e educação. Se assim for, será um lindo ano para a grande maioria.
O Blog Falando um Monte agradece pelas inúmeras visitas, pela leitura e colaborações de outros autores, pelo respeito das pessoas que passam por aqui em busca de informação, conhecimento e prazer pela leitura de assuntos do nosso cotidiano.
No encerramento de mais um ano de existência do Blog e de vida do autor quero agradecer de coração a todos que acessaram o Falando um Monte e para aqueles amigos do Twitter e do Whats App que de forma generosa e despretensiosa sempre deram uma força enorme repassando os links dos textos aos seus amigos, formando uma corrente generosa e amiga do Blog.
Feliz Natal e um Feliz 2020 a todos vocês, amigos e seus familiares, que Deus seja generoso em sua infinita bondade para com todos, provendo-os de tudo que possam precisar, mas acima de tudo, de muita paz, saúde e felicidade.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.


Um conto de Natal!

Aquela criança sentada na soleira, tristonha e sem perspectiva alguma, era o reflexo da noite escura que dominava o horizonte naquela pobre cidade do interior do Brasil. O frio característico das noites de Natal europeu era substituído pelo clima tropical quente e abafado que sufocava a todos em suas casas.
A criança olhava para o céu escuro como se quisesse encontrar uma luminosa estrela cadente ou como querendo avistar algo além das árvores intransponíveis que faziam a guarda oficial da sua cidade. A noite apenas estava começando, os sonhos daquela pobre criança movimentavam suas fantasias e lhe traziam à mente um tempo de felicidade e alegria que jamais haviam saído de seus melhores sonhos.

Os pais, trabalhadores humildes do campo nada podiam fazer e sequer ousavam prometer algo que sabiam ser impossível de cumprir. Nenhum tio afortunado, nenhum padrinho na cidade, nada com que pudesse sonhar naquela noite especial de Natal.

Então, por que sonhar na soleira do alpendre de madeira desgastado pela corrosão do tempo? Isso ninguém poderia responder por aquela criança. Nas ruas um tímido movimento de pessoas apressadas, querendo chegar com seus pacotes pequenos, geralmente alimentos para a ceia que estava por vir. Poucas surpresas, nenhuma loucura e muito cansaço apenas naquelas pernas e braços que carregavam as últimas compras do ano.

Um misto de alivio e comiseração confundia os corações daquela gente nos minutos que antecediam o Natal. O aniversário de Jesus era o motivo da festa, o aniversariante estava ali no meio de todos e sua presença aquecia o corpo surrado daquelas pobres almas sofridas.

A criança triste, cansada e sonolenta não conseguia mais suportar o peso de seu pobre corpo mirrado, suas pálpebras pendiam para baixo de forma suave, mas constante. O sono era o alimento para seus sonhos e fantasias, acordar seria muito mais difícil do que necessariamente dormir. Ao fechar os olhos esqueceria a pobreza, as dificuldades financeiras de seus pais, os desencantos e tantos desencontros que a vida já havia lhe reservado naqueles poucos anos de vida.

Ser pobre á algo com que ele e todos seus vizinhos aceitavam, resignados, entendiam, porém o que incomodava era a falta de quaisquer perspectivas para o futuro. Sonhos eram apenas e tão somente sonhos para aquele garoto mirrado da periferia daquela pequena cidade.

Mas como que por milagre um carro parou na porta de sua casa, não era ninguém conhecido, não era alguém que seus pais aguardavam, até por que a família não esperava por ninguém àquela hora, aliás, não tinham amizades com ninguém que tivesse um carro tão bonito como aquele parado misteriosamente a frente do seu portão.

Do carro desceram duas crianças bem vestidas com alguns pacotes nas mãos e os entregaram ao casal que os atendeu, disseram que se tratava de uma ajuda e que os brinquedos eram para o garoto que sempre estava sentado naquela porta, como se assim esperasse ganhar um presente a qualquer momento.

Em seguida, chamada por seus pais, as crianças entraram naquele lindo automóvel e foram distribuir mais felicidades e sonhos para outras famílias vizinhas. Os olhos do menino brilharam mais do que a última estrela do céu naquela noite quente. Por alguns instantes, por um momento fugaz ele percebeu que havia esperança, que havia motivos para acreditar em Deus, em Papai Noel ou simplesmente na magia do natal.
Arte: SlidePlayer

Autor: Rafael Moia Filho - Escritor, Blogger e Gestor Público.