Seguidores

1 de setembro de 2019

Sem esperança nas três esferas de poder!

O mundo é um lugar perigoso de se viver,
não por causa daqueles que fazem o mal,
mas sim por causa daqueles que observam
e deixam o mal acontecer. Albert Einstein

O Poder Executivo está presente em três instâncias de poder a saber – Municipal, Estadual e Federal. O eleitor escolhe nas urnas quem são os seus Prefeitos, Governadore se o Presidente da República a cada quatro anos.
Todos tem sua importância na democracia do país, o prefeito está ao lado da maioria dos moradores nas pequenas e médias cidades do país, podem ser vistos nas ruas com um grau de facilidade que os demais não possuem em relação aos eleitores.
Enquanto os governadores e o presidente da república ficam normalmente muito distantes do fácil acesso dos cidadãos brasileiros.
Outro dia olhei para o horizonte e pensei: Como estou neste quesito em relação as escolhas que me governam neste momento. Na minha cidade o Prefeito é Clodoaldo Gazzeta – PSD (2017-2020). O governador de SP é João Dória Jr – PSDB (2019 – 2022) e o atual presidnete Jair Bolsonaro – PSL (2019-2022).
Não precisei me esforçar para chegar a triste conclusão de que estou vivendo e sendo governado por quem eu não votei, não acredito e não tenho esperança alguma de que venham a fazer uma gestão minimamente decente.
Em que pese o prefeito estar com seu mandato a dezesseis meses do final e os demais estarem com apenas oito meses de gestão, a minha avaliação quanto aos três é péssima.
Vou me ater ao prefeito que já governou por 32 meses até o momento, deixando as avaliações do governador e presidente para outra oportunidade quando ambos tiverem cumprido ao menos 50% do mandato para o qual foram eleitos.
A cidade de Bauru possui quase quatrocentos mil habitantes, polo comercial e universitário de uma região com quase um milhão de pessoas. O prefeito está fazendo uma gestão sofrível, sem criatividade, ousadia e inteligência. Peca em todos os critérios de avaliações que possamos fazer, sem ter nota alta em nenhum quesito.
Em sua posse herdou uma obra gigantesca da construção da Estação de Tratamento de Esgotos – ETE, com orçamento de R$ 129 milhões doados a fundo perdido pelo govenro federal (Dilma Rousseff). A obra já consumiu milhões, está praticamente parada, sem que tivesse havido o acompanhamento do Poder Executivo e da Autarquia responsável – DAE. A obra que havia sido prometida pelo govenro anterior (Deputado Federal Rodrigo Agostinho – PSB) para 2016.
Hoje, agosto de 2019, o munícipe não tem ideia de quando será inaugurada este obra vital para a cidade. Aliás, uma boa parte nem acredita que a obra será concluída.
Não houve avanço nem obras de mobilidade urbana, deixa a desejar completamente a gestão no que tange a administração financeira, estando o munícipio com uma divida próxima de R$ 350 milhões. Sem que haja arrecadação suficiente e algum plano de absorção desta divida a média e longo prazo.
Um prefeito que nunca foi gestor público, completamente despreparado e sem conseguir demonstra a quem quer que seja, vontade, motivação e estimulo para enfrentar as tarefas decorrentes do cargo. Olha nos dias atuais para o Palácio das Cerejeiras, Palácio dos Bandeirantes ou Palácio do Planalto é ter vertigem e medo do futuro.

Autor: Rafael Moia Filho - Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública

Preconceito e ignorância no andar de cima!

Estava me recuperando de uma cirurgia, quando tive a oportunidade de conversar com uma pessoa que vive em Bauru – SP, é prestador de serviços, tem ensino superior completo e vive com a sua mãe e um filho.
As estórias relatadas são muito dificeis de serem assimiladas por pessoas normais que amam o próximo e são tementes a Deus, independentemente da religião professada. Estas pessoas que possuem recursos financeiros, sendo ricas ou não, demonstram um profundo preconceito para com pessoas humildes que embora honestas e trabalhadoras, vivem numa outra realidade social, não menos importante e digna.
Algumas pessoas não conseguem disfarçar sua intolerância para com menos favorecidos economicamente, aqueles que por culpa de um sistema econômico e político cruel e perverso não tiveram acesso às boas escolas, não puderam ter alimentos fartos à mesa, nem a bons empregos ou a chamada “boa vida”.
Muitas destas mesmas pessoas estão próximas daquilo que denominamos ser uma “boa vida”. Tiveram acesso à educação de qualidade, embora não se possa provar que aproveitaram dela com maestria e inteligência.
São pessoas vazias, sem conteúdo e que de vez em quando sem o menor esforço entregam seus pensamentos e revelam sua personalidade torpe e ignóbil.
Odeiam pobres, odeiam emergentes (novos ricos), odeiam políticos que não sejam da elite tradicional do país, amam a si mesmo, não cultuam nada que não seja fashion ou moda em Nova York ou Paris.
Me recordo da artista Danusa Leão quando ela deixou claro este pensamento ao pronunciar a frase:” ir à Nova York ver os musicais da Broadway já teve graça, mas, por R$ 50,00 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então, qual é a graça?”
Infelizmente essas pessoas pensam que agir dessa forma é normal. Não veem as pessoas mais simples, trabalhadoras e honestas como iguais. Acho que realmente essas pessoas não são iguais, por que são muito superiores.
Perante a sociedade estes seres inomináveis agem como se fossem benevolentes, sociáveis e amáveis com o próximo. Alguns fazem até caridade e acham que o gesto isolado os levará a um patamar maior quando partirem.
Por motivos óbvios vou omitir o nome e a profissão do rapaz que viveu na pele estas situações desagradáveis e impensáveis ao longo dos últimos anos:
    1.   Já tive uma cliente na Zona Sul, que ordenou a sua empregada que jogasse o copo fora após eu ter tomado água no mesmo.
    2. Numa outra residência na mesma região, ele foi impedido de tocar o interfone, a patroa ordenou que eu mandasse mensagem via celular para a empregada, que então abriria o portão da área de serviço.
    3. Ele já ouviu várias vezes proprietários de casas dizerem que “pobres” são orgulhosos...
   4. Outro dia, estava fazendo o serviço numa residência, quando percebeu que o dono da casa estava precisando de auxilio, imediatamente, ofereceu seus préstimos, no que o proprietário virou e respondeu:
_ Não vou aceitar ajuda de um mero prestador de serviços.
    5. Uma ocasião, o proprietário da residência pediu para que eu ficasse quieto, por que um trabalhador não entendia sobre o que era Meio Ambiente... (Sendo que o rapaz é formado e tem curso superior).
    6. Na época em que estava cursando a Faculdade, um cliente perguntou se estava fazendo o curso superior para ser graduado como “Prestador de Serviços” diplomado...
São alguns pequenos exemplos que ilustram como vive e pensam aqueles com quem convivemos nas igrejas, no comércio, nas ruas, enfim na nossa vida cotidiana dentro da cidade de Bauru. São estas pessoas preconceituosas que votam e que muitas vezes estão no poder ou muito próxima dele para decidir pelo conjunto da nossa sociedade.
Estes são os exemplos mais leves, poupei o texto das coisas mais tristes e sem sentido, quando pensamos que vivemos entre seres humanos. Não estou generalizando, porém, serve o alerta para uma profunda reflexão, antes que seja tarde.

Autor: Rafael Moia Filho - Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública

O regresso à Grécia!

Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu.
Um rapaz grego, há meio século, cansado da falta de trabalho e do caos que o rodeavam em seu país natal, conseguiu escapar para a Suécia. Enfrentou ali a difícil vida do imigrante. Sobrevivendo como podia, aprendeu o idioma – e tão bem que descobriu uma vocação de escritor e começou a escrever em sueco. Teve bastante sucesso. Tanto que pôde ganhar a vida escrevendo romances e ensaios. Casou-se com uma sueca, com quem teve filhos e netos. Comprou um apartamento, depois uma casinha de verão e um pequeno apartamento onde se encerrava de manhã e de tarde para ler e escrever.
Theodor já tinha feito 70 e tantos anos quando um dia, de repente, vivenciou algo que nunca até então havia conhecido: um bloqueio intelectual. Olhava o rolo de sua pequena máquina portátil e tinha a mente em branco, sem uma única ideia sobre a qual redigir. Saiu para caminhar à beira do oceano, algo que sempre o apaziguava. Mas desta vez não funcionou; dias, semanas, meses esteve assim, sem nada a dizer, oprimido pela paralisia e a constipação intelectuais. Gunilla, sua mulher, inquieta, propôs uma viagem. Por que não à Grécia, sua terra natal? Do fundo de sua desmoralização, ele aceitou.
Chegaram a Atenas de avião. Ali alugaram um carro e se lançaram à estrada, rumo ao Peloponeso, onde se encontrava aquele vilarejo diminuto, Molaoi, onde Theodor havia nascido. Lá estava, empoeirado, eterno e efusivo. Alguns parentes centenários continuavam ali, intangíveis, como as oliveiras, as amendoeiras, as cabras, os gatos e as trepadeiras. Reconheceram-no na rua. A escolinha foi alertada. Os professores lhe organizaram uma homenagem que aconteceu ao anoitecer, quando uma leve brisa substituía o calor sufocante do dia, sob uma lua redonda como um queijo. Quando as crianças cantaram para ele, Theodor sentiu que duas grandes lágrimas deslizavam por sua velha face.
Na manhã seguinte, na antiga pensão onde o casal se hospedava, Theodor se levantou logo cedo, como sempre havia feito na Suécia. Preparou sua maquininha portátil e, sentindo que todo o corpo tremia, começou a escrever. Com a mesma insegurança e o terror de se equivocar em cada palavra, como havia feito em cada manhã nesse meio século de vida sueca. Mas desta vez não escrevia em sua língua adotada, e sim em grego. Sem deixar de tremer, cada vez mais morto de medo, as palavras fluíam, enchiam as páginas e ele sentia uma excitação extraordinária, a mesma que vivenciou lá, no fundo dos tempos, quando escreveu sua primeira história sueca.
O livro escrito em grego por Theodor Kallifatides – o primeiro de sua história de escritor – acaba de ser traduzido ao espanhol por Selma Ancira (Galaxia Gutemberg) e se chama Otra Vida por Vivir (outra vida por viver). Comoveu-me profundamente. Pela história que conta e que acabo de resumir sucintamente, mas também pela naturalidade e a destreza que emprega ao contar, como se se tratasse de algo perfeitamente natural, e não o cataclismo psicológico que deve ter sido, para esse quase octogenário, redescobrir a língua de sua infância, a língua esquecida, substituída pela do imigrante, que, após aquele bloqueio traumático, redescobre o grego e ao mesmo tempo recupera uma vocação que acreditava estar perdendo. É um livro muito belo, o de uma verdadeira morte e ressurreição espiritual, um milagre contado com a tranquila naturalidade com que se descreve um fato trivial e cotidiano.
Talvez a tremenda impressão que tive lendo-o se deva a que, ao contrário de Theodor Kallifatides, não há na minha vida o que há na sua, essa aldeia, Molaoi, perdida nas entranhas do Peloponeso, onde tudo começou, o lugar de onde partem suas lembranças. Eu não sei onde começam as minhas. Certamente não em Arequipa, onde nasci, porque minha mãe e meus avós me tiraram de lá quando tinha apenas um ano, antes do início das minhas recordações. Estas foram de Cochabamba, mas no casarão da rua Ladislao Cabrera, lá na Bolívia, todas as memórias da minha família bíblica eram de Arequipa, e eu as herdei sem tê-las vivido. Em Cochabamba aprendi a ler, o melhor que me aconteceu, mas creio que só comecei a viver de verdade em Piura, que desapareceu sob uma modernidade que enterrou essa pequena cidade rodeada de areais, onde os burrinhos eram chamados de “piajenos” e as crianças, de “churres”, e onde aprendi que as cegonhas não traziam os bebês de Paris. Fui morar em Lima aos onze anos, e muitos anos se passaram antes que deixasse de detestar essa cidade que me distanciou de meus avós e meus tios.
Sempre pensei que ser um cidadão do mundo era o melhor que podia acontecer a uma pessoa, e continuo pensando assim. Que as fronteiras são a fonte dos piores preconceitos, que elas criam inimizades entre os povos e provocam as estúpidas guerras. E que, por isso, é preciso tentar afiná-las pouco a pouco, até que desapareçam totalmente. Isso está ocorrendo, sem dúvida, e essa é uma das boas coisas da globalização, embora haja também algumas ruins, como o aumento, até extremos vertiginosos, da desigualdade econômica entre as pessoas.
Mas é verdade que a língua primeira, aquela em que você aprende a dar nome à família e às coisas deste mundo, é uma verdadeira pátria, que depois, com a azáfama da vida moderna, às vezes vai se perdendo, confundindo-se com outras, e isso é provavelmente a prova mais difícil que os imigrantes têm de enfrentar, essa maré humana que cresce a cada dia, à medida que se amplia o abismo entre os países prósperos e os miseráveis, a de aprender a viver em outra língua, isto é, em outra maneira de entender o mundo e expressar a experiência, as crenças, as pequenas e grandes circunstâncias da vida cotidiana.
Theodor Kallifatides conta tudo isso como se fosse fácil, como se tal reconstrução linguística fosse alcançada de uma maneira natural, e não significasse algo dificílimo de conseguir, algo que está fora do alcance de uma enorme maioria de imigrantes, que jamais conseguem se integrar no seu novo país como ele conseguiu. Mas ele também conta como, ainda nos casos mais bem-sucedidos, como o seu, persiste sempre, sepultada possivelmente no recôndito mais profundo e secreto da personalidade, aquela raiz, aquele ponto de partida feito de paisagem, memória, língua, família, que, de repente, torna-se exigência peremptória, uma nostalgia que exige suas prerrogativas. Eu me lembro, em minha juventude em Miraflores, de um velhinho polonês que vendia peles e havia sobrevivido aos campos de extermínio nazistas. Dizia detestar a Polônia porque, segundo ele, os poloneses haviam cruzado os braços quando aquilo ocorria, mas, sempre que conversávamos, ele voltava à Polônia, à sua família, ao vilarejo onde passara a infância, à cidade onde seu pai e seu avô também tinham comercializado peles. Às vezes seus olhos marejavam recordando essa terra que dizia detestar.
Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu. Esse é um sentimento saudável, cálido, necessário, e assim nos mostra Otra Vida por Vivir, um livro sem pretensões que é, no entanto, profundamente otimista e humano, pois descreve outra cara da imigração e apresenta o amor ao que nos é próprio sem uma gota de patriotismo em excesso nem sentimentalismo.

Autor: Mario Vargas Llosa – El País

O que é pior neste governo?

Todo governo passa. Mas a repulsa à ciência, o obscurantismo desse governo poderá custar muito caro ao Brasil!
Muitas características fazem, do governo atual, ímpar. Gosta de romper com políticas de Estado consolidadas há décadas, por exemplo. Tem dificuldades de lidar com os limites constitucionais impostos ao Poder Executivo. Não se envergonha de nepotismo e tem orgulho de ser obscurantista. Mas, quando passar — e todo governo passa — uma destas características poderá custar muito, muito caro ao Brasil. É o obscurantismo. Ou, em outras palavras, a repulsa à ciência.
A repulsa à ciência aparece de muitas formas. Quando ministros põem em dúvida aquilo que é consenso entre cientistas, como as mudanças climáticas, é um caso. Ou, então, quando o governo enxerga ideologia em números do IBGE, do INPE, certamente outros exemplos virão. De uma forma mais ampla, porém, esta recusa da ciência põe em perigo o futuro econômico do Brasil. De duas formas.
A era digital, na qual entramos, é em essência a era da matemática. Os dois braços de avanços tecnológicos nos quais estamos mergulhando — em biotecnologia e em inteligência artificial — têm por pedestal uma matemática muito sofisticada. É a matemática do DNA e a matemática por trás dos softwares capazes de aprender. Não bastasse, a conclusão de que vivemos um tempo de violentas mudanças climáticas, se baseia em modelos matemáticos.
Nunca o Brasil precisou tanto de gente que conhece em profundidade matemática. E isso ocorre justamente quando temos um presidente da República que encontra, nos números, ideologia.
É em cima de conhecimento matemático que produziremos o PIB do futuro. É com base nele que temos a oportunidade de deixar de ser um exportador de commodities e cérebros para nos tornarmos cultivadores de cérebros e exportadores de tecnologia. Nunca foi tão importante pegar instituições como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), as melhores universidades federais, estaduais e as PUCs e botar, nelas, todo gás. Concentrar nelas o melhor investimento. Jamais foi tão relevante pegar experimentos como as Olimpíadas da Matemática e expandi-los, para que possamos descobrir desde cedo as melhores cabeças entre os brasileiros mais pobres, para que possamos — enquanto melhoramos o ensino público — pescar essa garotada e já dar ensino de excelência para eles desde cedo. Precisamos de qualidade em quantidade.
É a recusa dos números em plena era dos números que faz este governo olhar para a Amazônia e nela enxergar terra para pasto, para soja e minas diversas. Não vê a biodiversidade, a riqueza genética, a indústria farmacêutica do futuro, os bilhões e trilhões em patentes. Não se toca dos ciclos das chuvas, ignora que inteligência artificial em conjunto com edição genética permite produzir muito mais com muito menos terra.
Ao invés de promover o encontro entre iniciativa privada e professores universitários, de quebrar o preconceito da academia brasileira com o capitalismo do século 21, o governo estimula o ódio à educação. Quando podia estar criando formas de estimular a geração de patentes e eliminar a burocracia para seu registro, tornar pesquisadores os grandes propulsores da nova riqueza nacional, o Planalto obscurantista os torna inimigos e, em estudantes, enxerga idiotas úteis.
O Vale do Silício existe por causa da Universidade de Stanford. Boston é um hub tecnológico por conta de Harvard e MIT, e Austin está chegando por causa da Universidade do Texas. A China investiu em formar matemáticos e hoje briga com os EUA. A Coreia do Sul também. Quantos anos mais perderemos?
Em tempo: senhor presidente, diferentemente do que o senhor sugeriu e sua máquina de memes espalha, jamais fiz qualquer palestra para o governo federal. Muito menos pago pelo PT.

Autor: Pedro Doria – Jornal O Estado de SP

16 de agosto de 2019

São inocentes os rompantes linguísticos de Bolsonaro?

Conhecemos muito bem o perigo contido na linguagem, que nunca é inocente, porque também revela o abismo do nosso interior.
Protesto por recursos para a educação e contra Bolsonaro em São Paulo, nesta terça-feira. AMANDA PEROBELLI REUTERS
Existe o perigo de considerar as explosões verbais do presidente Jair Bolsonaro, sejam as escatológicas e de mau gosto sexual ou as mais ideológicas, como um tanto caricaturais e inofensivas. Não basta alegar que o presidente é "politicamente incorreto" à la Trump ou que isso é apenas algo natural e espontâneo nele. Pode acabar sendo mais grave e perigoso. Desde o surgimento da psicanálise, e depois de Freud e Lacan, conhecemos muito bem o perigo contido na linguagem, que nunca é inocente, porque também revela o abismo do nosso interior.
O Brasil está começando a sofrer o perigo da linguagem com a chegada ao poder do capitão reformado ultradireitista Bolsonaro. Nada seria pior do que tomar suas bravatas e loucuras linguísticas como algo sem importância a que deveríamos nos acostumar. Pode ser trágico.
Aonde a linguagem pode levar, às vezes abertamente suja e outras vezes escondida na ambiguidade, é algo que a Humanidade já experimentou ao longo da história com os maiores ditadores, e que sempre acabou em tragédia. Quando, dias atrás, um jornalista lhe perguntou sobre como ajudar a melhorar o meio ambiente — uma questão que o presidente despreza, chegando a negar a evidências de sua gravidade —, Bolsonaro respondeu que “é só você deixar de comer menos [sic] um pouquinho. Quando se fala em poluição ambiental, é só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também, tá certo?”
Houve quem achasse graça. Esquecemos que algo assim aconteceu, por exemplo, com Mussolini, na Itália. Quando iniciou sua revolução fascista, ele se divertia revelando alguns de seus gostos sexuais, como o de que preferia fazer amor "com camponesas sujas e peludas". Sabemos hoje como acabaram aqueles gostos escatológicos do Duce.
O perigo da linguagem de Bolsonaro reside não apenas no que alguns chamam de vazio intelectual, de pequenez de visão ou de falta de leitura. Pode se tornar algo mais sério, já que pode ser a idiossincrasia da personagem. Não é que tente parecer engraçado e espontâneo. Sua personalidade começa a ser vista como pequena de horizontes e com convicções autoritárias que, hoje vemos, eram típicas dos grandes ditadores, e que em muitas ocasiões foram o resultado de um complexo de inferioridade que os levou a superar com os excessos ditatoriais que conhecemos. Assim, por exemplo, com Mussolini, com Hitler ou com o Caudilho Franco, que sofria como soldado de pequena estatura e voz esganiçada e feminina.
Em Bolsonaro, talvez mais do que suas gracinhas escatológicas e fálicas, o que pode acabar sendo ainda grave são suas ideias autoritárias que parece querer impor a um país como o Brasil, que vive em democracia, com uma Constituição laica e moderna e com liberdade de credo e expressão. Um exemplo do perigo da linguagem bolsonarista, mesmo quando pode parecer inocente, mas que acaba colocando muros à verdadeira liberdade, foram suas palavras, na semana passada, durante a Marcha para Jesus, em Brasília.
O presidente disse que os brasileiros estão cansados de ouvir da "esquerdalha nojenta" defender que o "Estado é laico". E acrescentou: “Mas eu, Jonnie Bravo, sou cristão… respeitamos todas as religiões e quem não é cristão. Mas a maioria dos brasileiros é cristão e ponto final. O Brasil é um só povo, uma só raça e um só coração. É uma bandeira e meia: Brasil e Israel”.
À primeira vista, podem parecer palavras sem especial periculosidade, até mesmo de elogio ao Brasil. Não eram. Havia nessas palavras um ódio profundo à liberdade política. Não há motivo para a esquerda ser "repugnante" só porque ele não gosta dela. É uma opção tão legítima quanto a liberal ou a de direita. Quando ele e os seus "respeitam todas as religiões, e quem não é cristão", e acrescenta, incomodado: "e ponto final", está revelando uma espécie de concessão aos não-cristãos. Equivale a dizer que serão simplesmente suportados. E quando acrescenta que o Brasil é um só povo, uma só raça e um único coração, pode até parecer uma frase bonita. Não é. Tem entranhado o seu desejo, como o de todos os políticos autoritários, de querer plasmar o país ao seu gosto e semelhança. E para quem isso não cair bem, que aguente ou vá embora.
A verdade é que, sob o prisma dos valores democráticos, o Brasil é um e muitos ao mesmo tempo. Reduzi-lo a um e sob o prisma do presidente é apequená-lo. Porque a riqueza deste país é a de ser plural. Não existe só o Brasil sonhado por Bolsonaro. Existe também o anônimo, pelo qual não parece interessar-se, que detesta a liturgia da violência e das armas, o que quer viver em paz suas crenças políticas e religiosas ou seu ateísmo.
Nem é verdade que existe apenas uma raça no Brasil, sem mencionar que a palavra "raça" há muito tempo foi abolida como pejorativa para definir os humanos. Existem diferentes etnias, pessoas com diferentes cores de pele, com visões distintas e enriquecedoras do mundo. E não é verdade que o Brasil seja um só coração que bate em uníssono no querer e pensar com quem o governa, que foi o sonho de todos os ditadores. Existem tantos corações quanto brasileiros. Com diferentes pulsações diante da vida, com valores que os distinguem e enriquecem. E menos ainda existe um país com "uma bandeira e meia", a do Brasil e a de Israel. Por que a de Israel, por mais importante que seja, deve ser também a bandeira do Brasil? E por que não a da China, ou a da Índia ou a do Quênia? A bandeira deste país é um arco-íris de cores e símbolos de riqueza, paz e diálogo e não há por que ser confundida ou fundida com a de outro país, mas respeitar a todos.
Esse querer padronizar um país sob o molde de seus governantes sempre foi o sonho de todos os impérios autoritários e populistas. E a receita de Bolsonaro, de um Brasil com um só coração e uma só raça, me faz recordar o slogan criado na Espanha durante a ditadura do general Franco, o de Una, Grande e Livre. Na verdade, não era nenhuma das três coisas. Não era una porque havia então duas Espanhas em confronto ideológico que produziu mais de um milhão de mortos. Tampouco era grande. Ficou 40 anos isolada do mundo, empobrecido material e intelectualmente. E menos ainda livre, como prova a censura imposta à liberdade de imprensa e até mesmo às artes e à literatura, com a lista de livros proibidos e os espanhóis que tinham de ir à França para poder ver um filme sem censura.
Para que a Espanha voltasse a ser una e plural ao mesmo tempo, livre de censuras, torturas e execuções daqueles que sonhavam com uma Espanha plural e democrática, foi preciso esperar 40 anos e a morte do ditador. Só então o país pôde abrir suas janelas para o mundo e recuperar a pluralidade de suas riquezas espirituais. Só então perdeu o medo de pensar em liberdade, para ser não uma Espanha monolítica, asfixiada pelos estreitos slogans autoritários, mas plural e sem medo de respirar e amar com seu coração e seus pulmões, e não com os do ditador.
Os slogans de quem despreza os valores da liberdade e da pluralidade de ideias costumam estar impregnados da exaltação da violência e da ignorância. Como o do general espanhol José Millán-Astray, criador do mito de Franco, a quem se atribuiu a terrível frase: "Viva a morte, abaixo a inteligência!" Tenho certeza de que o Brasil continua preferindo gritar: viva a vida e viva a inteligência! já que só assim será capaz de seguir respirando sem ser sufocado por lemas de morte e desprezo pela razão.

Autor – Juan Arias – El País

As ondas!

A dificuldade não está nas novas ideias,
mas sim em escapar as antigas.
John Maynard Keynes

A política no Brasil vive de ondas que contém otimismo exagerado, mentiras, omissões de fatos, intenções e fatalmente envolvem desde o eleitor até o mais simples brasileiro em sonhos e promessas não realizadas.
Não se discute a política como deveria e é feito em vários países onde existe o sistema democrático. A disputa é sobre nomes isolados, como se estes não fossem usar partidos para trocas de favores, cargos e muito poder numa corrupção desenfreada.
A primeira onda ocorreu após a ditadura militar (1964 – 1985) com a movimentação que foi fruto das Diretas Já. A emenda Dante de Oliveira foi rejeitada na Câmara e acabou cedendo espaço para a realização das eleições indiretas, onde Tancredo Neves – MDB venceu Paulo Maluf.   
A onda propriamente dita começou com a vitória de Tancredo Neves, um político experiente, exímio articular, porém, sem nenhuma grande passagem pelo Poder Executivo que pudesse dar ao povo brasileiro a certeza de um grande governo pós ditadura. Sua grave doença pegou a todos desprevenidos e provocou uma onda messiânica que tomou ruas, igrejas em todos os cantos do país.
Com sua morte no dia 21 de abril de 1985, a esperança morreu junto e no lugar dela assume José Sarney, em quem ninguém nunca confiou e estavam certos. Seu governo foi desastroso. 
Em 1989, aconteceu enfim a tão sonhada eleição direta para a presidência da república. No primeiro turno vinte e dois candidatos disputaram as eleições. Coube aos eleitores escolherem Lula e Collor para a disputa do segundo turno. Começava a segunda onda naquele momento, com as pessoas enaltecendo o então desconhecido Fernando Collor de Melo. Foi eleito e em questão de minutos após sua posse o sonho se desfez quando ele tirou o dinheiro de todos inclusive da poupança. Foi cassado através de um processo de Impeachment.
A terceira onda veio em 1995 com a eleição de FHC do PSDB-SP, trazendo consigo o Plano Real, que era seu maior aliado e carro chefe. Enquanto a inflação esteve baixa e sem crises, voou em céu de brigadeiro, vencendo a reeleição que ele próprio criou às custas de R$ 200 mil cada deputado. Se perdeu na arrogância achando que seu partido teria vinte anos de poder.
A quarta onda veio com o então sindicalista Lula em 2002, levando ao poder pela primeira vez um homem simples, semialfabetizado, com origens eminentemente populares. Teve medidas de impacto junto a população das classes C, D e E. Porém, sucumbiu a corrupção e acabou preso na Operação Lava Jato.
A eleição de Dilma Rousseff e após seu impeachment com a posse de Michel Temer, seu vice não causou onda alguma, pelo contrário, teve repercussões que derrubaram a economia de forma avassaladora.
A quinta onda ressurgiu com a eleição de um sujeito que foi mandado embora do exército, foi vereador do RJ e depois deputado federal por 28 anos sem nenhum grande projeto. Entretanto esse então desconhecido Capital Jair Bolsonaro, surfou na onda do ódio ao PT. Venceu as eleições com 38% dos votos, porém, ainda não entendeu que esse momento passou e que desde sua posse em janeiro deveria estar governando para o país inteiro.  
Preso a questões ideológicas que lhe tomam tempo e causam desgaste desnecessário, quando na verdade deveria estar implantando projetos para recuperar a economia, alavancar o emprego e melhorar a saúde pública e a educação. Essa talvez seja a pior onda criada pelos eleitores que votaram com o fígado ao invés de usarem o cérebro. Em pouco tempo, muito já perceberam a ineficácia do projeto de governo de Bolsonaro.
Essa onda de extrema direita pode levar o país para um estágio nunca antes visto e vivido no Brasil. Animosidade interna, agressividade que provoca o afastamento de países importantes do ponto de vista político e comercial. Governa para uma minoria e tenta manter um discurso raso, nulo e ignorante pensando apenas em manter estes mesmos 38% que o elegeram em 2018.
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

9 de agosto de 2019

O Novo Iluminismo: Como a civilização resolverá os desafios contemporâneos!

Da sobrevivência pré-histórica às leis que regem o mundo contemporâneo: como evoluímos para criar ideias e estruturas tão complexas? Quais caminhos nosso cérebro tomou até chegarmos a sociedades capazes de prevenir e conter possíveis desordens em nossos sistemas? Steven Pinker se propõe a explicar tudo isso. A mais recente obra do psicólogo canadense, que acaba de chegar ao Brasil, é mais do que uma aula sobre a história do pensamento.
O livro O Novo Iluminismo reúne dados da psicologia, história, comunicação, neurociência, economia e muitos outros campos (muitos mesmos) para esclarecer como criamos nossa civilização – e o que precisa ser retomado se não quisermos perder o que construímos.
Pinker, conhecido (e até criticado) por seu suposto otimismo, mostra lados nem tão positivos assim. O psicólogo aponta crenças, tendências e padrões humanos primitivos que prosseguem até os dias atuais.
Para ele, o mundo não é cor-de-rosa, o ser humano não é pura bondade e a natureza é sim caótica. O otimismo de Pinker surge a partir da capacidade que o ser humano tem de modificar estes quadros desordenados.
O otimismo surge quando ele aborda as ferramentas que criamos para barrarmos a violência e o sofrimento – para aprendermos a dialogar mesmo em um mundo onde as antigas aldeias, tão pequenas, se tornaram globais. A leitura da obra é densa, mas fluida. São diversos os dados apresentados ao longo dos capítulos e a costura destas informações pode assustar o leitor. Mas, não se assuste.
É justamente a habilidade de Pinker de interligar tantas áreas que o torna um dos pensadores de maior influência do nosso tempo. Escolhemos, para compartilhar com vocês, um trecho-chave da obra. Neste excerto inédito, Steven Pinker resume como nossa civilização foi construída (ou como a construímos).
O psicólogo vai da alimentação paleolítica à Revolução Industrial, sem deixar de passar pela influência do Iluminismo, é claro, até chegar aos desafios da convivência na nossa Era da Informação.
São algumas páginas capazes de nos “iluminar” sobre quem fomos, quem somos e onde vivemos. Confira abaixo. Mas, antes, curta nossa página e assista à conversa entre Pinker e Bill Gates sobre o livro (legendas em inglês). 

Autor: Steven Pinker - Fronteiras do Pensamento 

Confira cinco maldades da reforma de Bolsonaro que 370 deputados aprovaram!

Deputados traem os trabalhadores e as trabalhadoras e aprovam duras regras para concessão de aposentadoria.
Edson Rimonatto
A tentativa de colocar uma pá de cal no direito de uma vida digna após anos de trabalho foi dada na noite de terça-feira (6) por 370 deputados federais que aprovaram em segundo turno o texto da reforma da Previdência. Mas, a luta não acabou e é possível reverter a decisão com muita organização e luta. Para ser aprovada, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 006/2019 de Jair Bolsonaro (PSL/RJ) precisa ser aprovada em duas votações no Senado.
“E no dia 13 de agosto, vamos ocupar as ruas e as redes para protestar contra esta reforma e alertar os senadores sobre os prejuízos que as mudanças que Bolsonaro quer fazer representam para a classe trabalhadora”, diz o presidente da CUT, Vagner Freitas, se referindo ao Dia Nacional de Mobilizações, Paralisações e Greves, que está sendo organizando pelas principais centrais sindicais do país e pelos movimentos sociais.
A PEC impõe duras regras que dificultam a aposentadoria, reduzem os valores dos benefícios, aumentam o tempo de contribuição e deixam órfãos e viúvas com menos de um salário mínimo de pensão por morte, entre outras maldades para com o trabalhador e a trabalhadora.
O Portal CUT listou cinco itens que mais vão impactar negativamente na vida de milhões de trabalhadores, entre eles o fim da aposentadoria por tempo de contribuição e a obrigatoriedade de idade mínima de 62 anos para as mulheres e 65 para os homens terem direito a um benefício menor – 60% da média de todos os salários.
Pensão por morte
Atualmente, o valor da pensão equivale a 100% do benefício que o segurado que morreu recebia ou teria direito.
A reforma reduz esse valor para 50% mais 10% por dependente. Como a esposa ou o órfão são considerados dependentes, recebem 60% do valor.
Se a viúva tiver um filho com menos de 21 anos receberá 70%, dois filhos, 80%, três filhos, 90%, quatro filho, 100%. Ela perderá 10% a cada filho que completar 22 anos até chegar nos 60% que receberá enquanto viver.
E para piorar, se a viúva ou dependente tiver outra fonte de renda formal, por menor que seja, poderá receber benefício de menos de um salário mínimo.
Aposentadoria por invalidez
Atualmente todo trabalhador que contribuir com o INSS tem direito a 100% do valor da aposentadoria em caso de doença contraída – decorrente ou não – da sua atividade profissional, tenha sofrido um acidente no trabalho ou fora dele.
A reforma diz que se um trabalhador sofreu um acidente fora do trabalho ou contraiu uma doença que não tenha relação com a sua atividade, ele terá direito a apenas 60% do valor da aposentadoria por invalidez, acrescido de 2% para cada ano que exceder 20 anos de contribuição, no caso de homem e 15 anos, se for mulher.
Só terá direito a 100% do benefício se o acidente ocorreu no local de trabalho ou a doença foi contraída devido a atividade profissional.
Aposentadoria especial
Atualmente, o trabalhador que comprovar exposição a agentes nocivos à saúde, como produtos químicos ou calor e ruído, de forma contínua e ininterrupta, tem direito de se aposentar com 15, 20 ou 25 anos de contribuição, dependendo do enquadramento de periculosidade da profissão. O valor do benefício é integral.
A reforma, apesar de manter os tempos mínimos de contribuição exigidos atualmente, cria três idades mínimas: 55,58 e 60 anos, que variam de acordo com o grau de risco ao trabalhador. Ela acaba com o benefício integral da aposentadoria especial e equipara homens e mulheres nas mesmas regras.
Fim da aposentadoria por tempo de contribuição
Atualmente, é possível se aposentar por tempo de contribuição com renda integral depois de contribuir durante 30 anos (mulher) e 35 anos (homem), desde que a soma da idade e do período contribuído resulte em 86 pontos (mulher) ou 96 (homem).
Pelas regras atuais também é possível se aposentar por idade, aos 60 anos (mulher) e 65 anos (homem), com 15 anos de contribuição. Neste caso incide o fator previdenciário ou a formula 86/96.
A reforma acaba com a aposentadoria por tempo de contribuição e impõe uma idade mínima de 62 anos para as mulheres e 65 para os homens.  Uma trabalhadora terá de comprovar 15 anos de tempo mínimo de contribuição e o trabalhador, 20 anos.
Para receber uma aposentadoria integral, mulheres precisarão contribuir por 35 anos e homens, por 40 anos.
Cálculo da renda / Média salarial
O cálculo dos benefícios proposto pela reforma é desvantajoso se considerado o tempo de contribuição necessário para obter a aposentadoria com valor integral da média salarial. Atualmente, são levadas em conta as contribuições feitas a partir de julho de 1994. O cálculo é feito em cima de 80% das maiores contribuições – as 20% menores são descartadas. Com isso, a média é maior e, portanto, melhora o valor do benefício.
Hoje, um trabalhador e uma trabalhadora que comprovarem 15 anos de contribuição recebem 85% dos maiores salários, sendo 70% de início, e mais 1% por cada ano trabalhado.
A reforma muda o cálculo para a média de todas as contribuições desde julho de 1994. O resultado será a redução na renda de beneficiários que tiverem variações salariais ao longo do tempo. O trabalhador vai receber apenas 60% da média geral de 20 anos que contribuiu com a Previdência e 2% a mais por cada ano que ultrapasse os 20 anos.
Hoje, com 20 anos de contribuição esse trabalhador recebe 90% do valor do seu benefício. Com a reforma, vai receber 60%.
Já a trabalhadora vai receber apenas 60% da média geral dos 15 anos que contribuiu com a Previdência e 2% a mais por cada ano que ultrapasse esse período. Hoje, com 15 anos de contribuição as mulheres recebem 85% do valor do benefício. Com a reforma, vai receber 60%.

Autores: Marize Muniz e Rosely Rocha

8 de agosto de 2019

Uma competição desleal!

A dificuldade não está nas novas ideias,
mas sim em escapar as antigas.
John Maynard Keynes

Isso já aconteceu no começo do século XX, quando os maquinários da época da revolução industrial inglesa começaram a se tornarem obsoletos. Poucas décadas após o início daquele século e eles desapareceram praticamente. Os cavalos de tração deram espaço e lugar aos veículos motorizados.
Hoje, mais de um século depois os trabalhadores de diversos segmentos têm razões de sobra para se preocuparem com a evolução tecnológica e nova onda com a Inteligência Artificial e a Robótica avançando celeremente sobre vários segmentos e não apenas os industriais. O automotivo, por exemplo, já tem em funcionamento a algum tempo robôs na confecção dos automóveis, caminhões e máquinas agrícolas.
O avanço agora com a utilização de robôs que conseguem ler, falar e até escrever e, pasmem – calcular, transformam completamente o papel dos seres humanos, antes, o fator mais importante na produção. Essas transformações começaram a ser preconizadas desde a década de 80, como por exemplo, o vencedor do Prêmio Nobel Wassily Leontief que em 1983 já alertava sobre a diminuição da importância do homem na produção.
Assim como os animais deixaram de ser utilizados na indústria no começo do século XX, agora é a vez dos humanos serem substituídos pelos robôs de alta tecnologia e eficiência.
Se no século XIX, os trabalhadores se preocupavam com a crescente utilização das máquinas nas indústrias. Na Inglaterra William Leadbeater, operário inglês dizia que: “Essas máquinas... são ladrões que vão roubar milhares de empregos”.
Nos Estados Unidos entre 1969 e 2009 o valor real dos salários dos trabalhadores em tempo integral caíram em média 14% (Quatorze por cento). Na Alemanha e no Japão, os salários estão estagnados na maioria das ocupações há anos, mesmo com o contínuo crescimento da produtividade. A razão é simples: oferta de mão de obra está se tornando cada vez maior. Avanços tecnológicos estão colocando os habitantes da terra em competição direta com bilhões de trabalhadores por todo o mundo, além da competição com as máquinas em si.
No Brasil, pouco se discute essa modernização, estamos ainda vivendo sob a égide da CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas elaborada na década de 40. Desatualizada, completamente sem sentido nos padrões atuais onde a modernização tecnológica rompeu espaços e colocou novas formas de trabalho em busca da produtividade.
São muitos os exemplos, os múltiplos aplicativos (que vem do inglês application) que inundam o mundo atualmente usados através dos celulares para alimentação, delivery, transporte, etc. Os espaços de trabalho conjunto CoWorking que é uma nova forma de pensar o ambiente de trabalho. Seguindo as tendências do freelancing e das startups, os coworkings reúnem diariamente milhares de pessoas a fim de trabalhar em um ambiente inspirador.
Essa união de pessoas permite que mais e mais escritórios se espalhem pelo país. No Brasil, contam-se mais de 100 espaços. No mundo todo, estima-se que já existam mais de 4.000 espaços em funcionamento.
Em breve veremos a nossa relação com os Bancos deixar de existir na forma atual, passando a ser exercida praticamente de forma virtual. O celular que entrou no país timidamente em 1991, com muitas pessoas torcendo o nariz, acreditando que aquilo era modismo, hoje é ferramenta imprescindível para todos.
É preciso que o país saia das discussões ideológicas infrutíferas e passe urgentemente a trabalhar com o futuro, que já estacionou sua nave ao lado de fora do nosso mundo. O futuro é ontem, a modernização já começou e está a passos largos, se o Brasil demorar muito ficará como sempre a reboque da utilização da IA – Inteligência artificial enquanto o presidente brinca com o abastecimento ou não de navios iranianos nos portos brasileiros. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

6 de agosto de 2019

A linha tênue que nos separa de um novo regime de excessão!

"A democracia sobrevive quando
a inteligência do sistema compensa
a mediocridade dos atores"
Daniel Inneraty

Apesar de estarmos próximos de completar 30 anos da primeira eleição após o regime militar com sua ditadura de 21 anos (1964-1985), com o retorno a normalidade democrática do país, com eleições livres e liberdade plena de expressão. Vivemos neste ano de 2019 uma situação que nos remete (principalmente para quem viveu) ao ano de 1964.
Discussões sobre esquerda e direita, muita falação sobre comunismo, um regime que o brasileiro desconhece por completo em sua república. Intervenções do presidente demitindo quem o contrarie, censura a entidades, institutos e pessoas. Enfim, algo que preocupa e destoa para um país onde boa parte da população dizia ter medo de uma guinada que levasse o país a uma situação como a da vizinha Venezuela.
O presidente eleito sem praticamente nenhuma participação em debates televisivos, utilizando-se de insinuações e agressões com o uso de fake News nas redes sociais, só teve êxito em boa parte pelo ódio que uma parcela considerável da população nutre pelo PT.
Diante de algumas falas que remetem aos tempos de ditadura militar, corroboradas pela massiva indicação de militares da reserva para postos diversos da administração federal paira no ar a sensação de nuvens negras rondando o céu do Brasil.
Em Manaus, antes de uma visita do presidente, policiais interviram numa reunião onde se planejavam protestos contra o governo federal. Em SP, uma reunião de mulheres do Partido PSOL, foi invadida por alguns policiais militares que questionavam o objetivo daquela reunião ordeira, normal e permitida para qualquer partido político.
Não bastasse isso, no estádio de futebol quando muitas pessoas xingavam o presidente mesmo ausente do local, policiais militares prenderam aleatoriamente um jovem, bateram, machucaram o rapaz sem que houvesse quaisquer crimes cometidos. A delegada interpelada pelo jovem disse: Estamos cumprindo o Estatuto do torcedor. Como? A Constituição Federal que nos garante o direito de livre expressão foi rebaixado diante do estatuto do torcedor pela delgada?
Que país é esse cujo presidente não aceita dados e números vindos do INPE, IBGE ou quaisquer outros órgãos estatais? Onde o presidente assume publicamente que vai colocar o filho como embaixador mesmo sem estudo e carreira diplomática por mero capricho e nepotismo.
Um país que o presidente afronta os organismos ambientais e cientistas renomados afirmando não haver desmatamentos quando o índice em 2019 salta aos olhos de todos. Um país onde o presidente desrespeita irmãos nordestinos com “brincadeiras” que passam longe de serem engraçadas. Afrontando negros, homossexuais e até pessoas orientais.
Um país assim, não pode mesmo viver em paz sem temer que nos subterrâneos do poder estejam tramando um novo golpe militar. Por que não? A história muitas vezes se repete, neste caso para pior, muito pior.
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

1 de agosto de 2019

“História não é bula de remédio"

Foi dado, então, um pontapé inicial, e fundamental, para a disciplina que chamaríamos, anos mais tarde, e com grande naturalidade, de “História do Brasil”, como se as narrativas nela contidas houvessem nascido prontas ou sido resultado de um ato exclusivo de vontade ou do assim chamado destino. Sabemos, porém, que na imensa maioria das vezes ocorre justamente o oposto: momentos inaugurais procuram destacar uma dada narrativa temporal em detrimento de outras, criar uma verdadeira batalha retórica — inventando rituais de memória e qualificando seus próprios modelos de autênticos (e os demais de falsos) —, elevar alguns eventos e obliterar outros, endossar certas interpretações e desautorizar o resto. Episódios como esse são, portanto, bons para iluminar os artifícios políticos da cena e seus bastidores. Ou seja, ajudam a entender como, quando e por que, em determinados momentos, a história vira objeto de disputa política. 
No caso, a intenção do concurso era criar apenas uma história, e que fosse (por suposto) europeia em seu argumento, imperial na justificativa e centralizada em torno dos eventos que ocorreram no Rio de Janeiro. Desbancando Salvador, o Rio se tornara capital do Brasil desde 1763, e agora precisava exercer sua centralidade política e histórica. Além do mais, o estabelecimento necessitava confirmar sua origem palaciana, bem como justificar a composição do quadro de sócios, basicamente pertencentes às elites agrárias locais. 
Dessa maneira, nada mais adequado que a construção de uma história oficial que concretizasse o que, àquela altura, parecia artificial e, além do mais, recente; um Estado independente nas Américas, mas cujo projeto conservador levou à formação de um Império (regido por um monarca português) e não de uma República. Ademais, era preciso enaltecer um processo de emancipação que ia gerando muita desconfiança e conferir-lhe legitimidade. Afinal, diferentemente de seus vizinhos latino-americanos, o chefe de Estado no Brasil era um monarca, descendente direto de três casas reais europeias das mais tradicionais: os Bragança, os Bourbon e os Habsburgo. Mas a singularidade da competição também ficou associada a seu resultado e à divulgação do nome do vencedor. 
O primeiro lugar, nessa disputa histórica, foi para um estrangeiro — o conhecido naturalista bávaro Karl von Martius (1794-1868), cientista de iliba da importância que, no entanto, era novato no que dizia respeito à história em geral e àquela do Brasil em particular —, o qual advogou a tese de que o país se definia por sua mistura, sem igual, de gentes e povos. Escrevia ele: “Devia ser um ponto capital para o historiador reflexivo mostrar como no desenvolvimento sucessivo do Brasil se acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento das três raças humanas, que nesse país são colocadas uma ao lado da outra, de uma maneira desconhecida na história antiga, e que devem servir-se mutuamente de meio e fim”. Utilizando a metáfora de um caudaloso rio, correspondente à herança portuguesa que acabaria por “limpar” e “absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica”, representava o país a partir da singularidade e dimensão da mestiçagem de povos por aqui existentes. 
A essa altura, porém, e depois de tantos séculos de vigência de um sistema violento como o escravocrata — que pressupunha a propriedade de uma pessoa por outra e criava uma forte hierarquia entre brancos que detinham o mando e negros que deveriam obedecer mas não raro se revoltavam —, era no mínimo complicado simplesmente exaltar a harmonia. Além do mais, indígenas continuavam sendo dizimados no litoral e no interior do país, suas terras seguiam sendo invadidas e suas culturas, desrespeitadas. 
Nem por isso o Império abriu mão de selecionar um projeto que fazia as pazes com o passado e com o presente do Brasil, e que, em lugar de introduzir dados históricos, que mostrariam a crueldade do cotidiano vigente no país, apresentou uma nação cuja “felicidade” era medida pela capacidade de vincular diversas nações e culturas, acomodando-as de forma unívoca. Um texto, enfim, que apelava para a “natureza” edênica e tropical do Brasil, essa sim acima de qualquer suspeita ou contestação.
Martius, que em 1832 havia publicado um ensaio chamado “O estado do direito entre os autóctones no Brasil”, condenando os indígenas ao desaparecimento, agora optava por definir o país por meio da redentora metáfora fluvial. Três longos rios resumiriam a nação: um grande e caudaloso, formado pelas populações brancas; outro um pouco menor, nutrido pelos indígenas; e ainda outro, mais diminuto, alimentado pelos negros. Na ânsia de escrever seu projeto, o naturalista parece não ter tido tempo (ou interesse), porém, de se informar, de maneira equânime, sobre a história dos três povos que originavam a jovem nação autônoma. O item que tratava do “rio branco” era o mais completo, alvissareiro e volumoso. Os demais pareciam quase figurativos, demonstrando visível falta de conhecimento. “Falta” esta que na verdade era “excesso”, pois dava conta do que interessava para valer: contar uma história pátria — a europeia — e mostrar como ela se imporia, “naturalmente” e sem conflitos, às demais.
Ali estavam, pois, os três povos formadores do Brasil; todos juntos, mas (também) diferentes e separados. Mistura não era (e nunca foi) sinônimo de igualdade. Aliás, por meio dela confirmava-se uma hierarquia “inquestionável” e que, nesse exemplo, e conforme revelava o artigo, apoiava-se num passado imemorial e perdido no tempo. Essa era, ainda, uma ótima maneira de “inventar” uma história não só particular (uma monarquia tropical e mestiçada) como também muito otimista: a água que corria representava o futuro desse país constituído por um grande rio caudaloso no qual desaguavam os demais pequenos afluentes. 
É possível dizer que começava a ganhar força então a ladainha das três raças formadoras da nação, que continuaria encontrando ampla ressonância no Brasil, pelo tempo afora. Vários autores repetiriam, com pequenas variações, o mesmo argumento. Sílvio Romero em Introdução à história da literatura brasileira (1882), Oliveira Viana em Raça e assimilação (1932), Artur Ramos em Os horizontes místicos do negro da Bahia (1932). De forma, dessa vez, irônica e crítica, mas mostrando a regularidade da narrativa, o modernista Mário de Andrade em Macunaíma (1928) retoma a fórmula na conhecida passagem alegórica em que o herói e seus dois irmãos resolvem se banhar na água encantada que se acumulara na pegada do “pezão do Sumé”, e saem dela cada qual com uma cor: um branco, um negro e outro da “cor do bronze novo”. 
Foi sobretudo Gilberto Freyre quem tratou, ele sim, de consolidar e difundir esse tipo de interpretação, não só em seu clássico Casa-grande & senzala (1933) como, anos depois, em livros sobre o luso tropicalismo, caso de O mundo que o português criou (1940). Assim, se foi o antropólogo Artur Ramos (1903-49) quem cunhou o termo “democracia racial” e o endereçou ao Brasil, coube a Freyre o papel de grande divulgador da expressão, até mesmo para além de nossas fronteiras. 
A tese de Freyre teve tal ressonância internacional que acabou batendo nas portas da Unesco. No final dos anos 1940, a instituição ainda andava sob o impacto da abertura dos campos de concentração nazistas, que levaram à descoberta das práticas de genocídio e da violência estatal, bem como alertaram sobre as consequências do racismo durante a Segunda Guerra Mundial. Também tinha ciência da situação do apartheid na África do Sul e da política de ódios que se formava no contexto da Guerra Fria. Animada, então, pelas teses do antropólogo de Recife, e tendo a certeza de que o Brasil representava um exemplo de harmonia racial para o mundo, a organização financiou, na década de 1950, uma grande pesquisa com a intenção de comprovar a inexistência de discriminação racial e étnica no país. Porém, o resultado foi, no mínimo, paradoxal. Enquanto as investigações realizadas pelos norte-americanos Donald Pierson (1900-1995) e Charles Wagley (1913-1991), na Região Nordeste, buscavam corroborar os pressupostos de Freyre, já o grupo de São Paulo, liderado por Florestan Fernandes (1920-1995), concluía exatamente o oposto. Para o sociólogo paulista, o maior legado do sistema escravocrata, aqui vigente por mais de três séculos, não seria uma mestiçagem a unificar a nação, mas antes a consolidação de uma profunda e entranhada desigualdade social. 
Nas palavras de Florestan Fernandes, o brasileiro teria “uma espécie de preconceito reativo: o preconceito contra o preconceito”, uma vez que preferia negar a reconhecer e atuar. Foi também Fernandes quem chamou a já velhusca história das três raças de “mito da democracia racial”, revalidando, ao mesmo tempo, a força de tal narrativa e as falácias de sua formulação. O golpe de misericórdia foi dado pelo ativismo negro, que, a partir do fim da década de 1970, mostrou a perversão desse tipo de discurso oficial, o qual tinha a potencialidade de driblar a força dos movimentos sociais que lutavam por real igualdade e inclusão. Mas, apesar dos esforços, mais de um século depois a imagem da mistura das águas continuava a ter impacto no Brasil e soava como realidade!

Autora: Historiadora Lilia Schwarcz – Fronteiras do Pensamento