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5 de junho de 2020

Vidas negras importam? O racismo mata todos os dias!

Arte: Congresso em Foco
Ontem dormi tarde depois de uma longa conversa com uma menina de 12 anos. Ela tem acompanhado com bastante interesse os protestos e discussões sobre racismo que vêm acontecendo nos últimos dias nos Estados Unidos, após o assassinato de George Floyd. Sua identificação com a causa negra é tal, que a única vez em que ela me pediu pra sair de casa nos últimos 80 dias foi pra ir a um protesto “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam), caso aconteça algum na cidade onde moramos.
Ela tem avó negra e avô português por parte do pai, e avô com ascendência negra e índia e avó com ascendência branca por parte da mãe. O seu dilema era sobre se afirmar como negra e correr o risco de não ser aceita por “não ser negra o suficiente” e, com isso, não queria ofender (foi essa a palavra que usou) ninguém do movimento negro. Caso se afirmasse como branca, estaria desrespeitando a sua ancestralidade e a memória da avó paterna.
u me vi no lugar dela porque tenho convivido ao longo dos últimos anos com os mais diferentes grupos. E se em um não sou suficientemente branca, no outro não sou suficientemente negra. Num não sou de direita o bastante e noutro não sou de esquerda o bastante. Num não sou pobre o suficiente, noutro não tenho dinheiro suficiente. Num não sou feminista o suficiente e noutro sou considerada extremista. Não, não é uma crise de identidade e nem vivo em cima do muro. Eu realmente participo de grupos em que as pessoas têm visões de mundo radicalmente distintas. E é mais ou menos como me enxergam, dependendo do grupo em que estou.
Num desse grupos, uma observação minha sobre a não representatividade e a não diversidade em uma live chamada “Do trabalhador”, que tinha como tema “Defesa da Democracia por um Projeto Nacional” e como protagonistas quatro homens brancos, enveredou para uma interessante discussão sobre a relevância versus a inconveniência das pautas identitárias no processo político-partidário, com ênfase na questão do racismo.
Quando criança e jovem, eu não tinha qualquer consciência de como eram raras as pessoas negras nas escolas particulares e católicas em que estudei - e que quando elas estavam lá, geralmente eram bolsistas. Trinta anos depois, tenho consciência de que o cenário na escola particular em que minha filha estuda é praticamente o mesmo e é uma das escolas mais inclusivas da rede particular de onde moramos.
Cresci tendo em casa empregadas negras e empregados negros que eram consideradas “da família” e levavam pra casa as roupas velhas e a comida que sobrava. Lembro como se fosse hoje de meu pai, mestiço, irritar-se com alguma dessas pessoas dizendo que “negro quando não caga na entrada, caga na saída”. Lembro de quando era jovem e minha tia avó, também mestiça, católica praticante e Filha de Maria, dizer ao ver um negro na televisão que “era tão feio que ela não acreditava que deus tivesse criado gente assim” e do meu espanto só em pensar que pudesse existir um Deus assim. Lembro-me da minha mãe dizendo não tão sutilmente que meu primeiro marido era “feio” para mim, como sinônimo de não ser branco e de que uma de suas primeiras frases quando segurou minha filha no colo foi “ainda bem que ela nasceu com o cabelo bom”.
Cresci ouvindo – e até certa idade rindo – de piadas com pessoas negras, com transtorno mental, obesas, idosas, pobres, gays, lésbicas, prostitutas, mulheres, mulheres loiras, portugueses, crianças etc.
Mulher de classe média baixa, de pele relativamente clara e sem nunca ter tido grandes perrengues na vida por conta dessas características, eu já achei que feminismo era exagero, que respeitar inflexão de gênero em um documento oficial de uma conferência estadual de cultura - quando eu estava na comissão organizadora - era frescura.
Já me incomodei com pessoas pobres pedindo dinheiro nos sinais e não via grande problema em ter pouquíssimas pessoas negras estudando comigo na faculdade. Não enxergava nada de errado em uma mesa enorme de abertura de um evento para falar de defesa de direitos formada só por homens brancos. Já considerei normal que existissem escolas exclusivas para pessoas “especiais”. Já reproduzi em algum momento o discurso de que as pessoas que recebiam bolsa família ficavam “acomodadas”. Em meu favor, quero dizer que me redimi de tudo isto há um tempo.
Foi convivendo com a diversidade e a riqueza de causas das pautas identitárias que aprendi a reconhecer o racismo, o machismo, a homofobia, o capacitismo, a psicofobia, a gordofobia, a xenofobia, a aporofobia e todas as outras formas de discriminação que ainda residem em mim. Foi assim que eu saí do “not all” (mas nem todo mundo é), pra reconhecer que há sim, entranhados em mim tantos preconceitos, que de alguns deles eu sei que ainda nem me dei conta. Essa desconstrução é um processo diário e passa pelo reconhecimento de que somos todos produtos de uma sociedade racista, que via de regra nega que o é. Esse reconhecimento costuma doer, porque arranha nossa autoimagem, principalmente no início.
O Brasil vive hoje uma gravíssima crise de saúde e uma grave crise econômica, agravadas pela crise política causada por um anti-presidente que se elegeu destilando ódio a todos os grupos socialmente e economicamente vulneráveis. Eleito com a promessa de “acabar com o politicamente correto”, como se isso fosse moda ou tendência e não um conjunto de escolhas e atitudes que partem do reconhecimento da discriminação, à qual grande parte das pessoas foi e continua sendo submetida.
Em 3 de junho de 2020, o general vice-presidente Hamilton Mourão, que integra e corrobora as ações desse desgoverno genocida, publicou um artigo tão reacionário quanto ele próprio onde manipula a verdade e ao mesmo tempo em que credita mentirosamente à imprensa o insuflamento da crise entre o Executivo e Legislativo e o Judiciário, tacha de baderna os protestos antirracistas e pela democracia. Nega a existência do racismo no País.
Em 2019, a polícia nos EUA matou 1.099 pessoas. Destas, 259 eram negras. Em 2019, a polícia no Brasil matou 5.804 pessoas. Destas, 4.533 eram negras.
No mesmo dia em que Mourão disse que o racismo não era um problema, o Brasil recebeu aturdido a notícia de que na cidade do Recife, uma criança negra de cinco anos fora morta na véspera pela negligência da “patroa” de sua mãe. Sarí Corte Real havia mandado a mãe de Miguel passear com os cachorros e, enquanto uma manicure lhe fazia as unhas, impacientou-se com a criança e deixou-a sozinha no elevador para ir procurar a mãe.
Miguel caiu do nono andar direto para a morte. Sarí, que a princípio não teve seu nome revelado pela polícia, cujo delegado responsável chamou a situação de “fatalidade”, pagou 20 mil reais de fiança e voltou pra casa. E se a mãe de Miguel, que dormia no trabalho e em plena pandemia não teve o direito de cuidar do seu filho, tivesse feito o mesmo com o filho da “patroa”?
Se já não estivesse convencida de que o racismo mata, como matou Miguel e, da importância de que as gerações seguintes àquela menina que mencionei lá no primeiro parágrafo não tenham nenhuma dúvida quanto à sua identidade e pertencimento, para mim só essa declaração do general seria suficiente para evidenciar que a pauta do antirracismo é central na construção de qualquer projeto que se pretenda democrático para o Brasil.
#VidasNegrasImportam

Autora: Karine Oliveira é ativista em direitos humanos e gestora social no Instituto Soma Brasil. Atua nas áreas de participação e incidência cidadã, educação para a cidadania, direito à cidade e monitoramento da gestão pública. Publicado no Site Congresso em Foco.

2 de junho de 2020

Discursos vazios!

“Pessoas que são boas em arranjar desculpas
raramente são boas em qualquer outra coisa.”
Benjamin Franklin

Ao ler ou ouvir os discursos enfadonhos de Donald Trump, Jair Bolsonaro, Stefan Lofven (Suécia) e Viktor Orbán (Hungria), todos eleitos por segmentos de direita em seus respectivos países, percebemos algumas coisas em comum: Falta de argumentação e a insistência em culpar a esquerda pelos problemas que eles não conseguem resolver em seus próprios países em suas respectivas administrações.
Donald Trump tratou a pandemia nos EUA em fevereiro/20, como se fosse um simples surto de gripe, isso acabou produzindo mais de cem mil americanos mortos e uma crise sanitária sem precedentes naquele país. Para piorar ainda mais sua situação, um policial branco na cidade de Minneapolis no Estado americano de Minnesota matou um negro inocente sufocando-o com o joelho.
Nem o risco da pandemia segurou o povo americano que saiu as ruas para protestar contra o racismo, a violência dos policiais brancos contra os negros e acabou transformando o ato isolado em uma grande manifestação contra o governo americano de Trump.
Em seu discurso, Trump finge que nada está acontecendo e culpa a esquerda, fala sobre mortes no comunismo, desanda a falar bobagens sobre o socialismo, de forma enfadonha e sem sentido, diante de cem mil mortos por absoluta falta de sua liderança frente a pandemia do Coronavírus.
Aqui no Brasil, sofremos com a verborragia inútil, chula e sem argumentação decente de Jair Bolsonaro, um inculto que usa da estratégia de culpar a esquerda que não está no poder há vários anos, ou eleger inimigos nos outros dois poderes da república – Judiciários e Legislativo, para atenuar sua incompetência à frente do país.
O povo em ambos os casos está farto dessa discussão ideológica rasteira que não leva ao desenvolvimento dos países, não promove a volta do emprego, não resolve problemas da saúde ou educação. Uma conversa enfadonha que até pode ser aceita na campanha eleitoral, porém, jamais no cotidiano de uma administração de um país.
Jair Bolsonaro é muito pior do que os citados políticos de direita, que ao menos tem experiência, formação universitária e conteúdo político. Sua obsessão em salvaguardar os filhos dos crimes cometidos, de proteger aliados que sonegam impostos, falsificam e deturpam informações com Fake News é notória, chegando ao ponto de interferir na Polícia Federal para poder obter informações privilegiadas que possam dar vantagens a defesa ou aos advogados de seus filhos, amigos e demais familiares investigados.
O país, que já estava estagnado desde as eleições de 2014, patinando nestes seis anos, com desemprego altíssimo, saúde pública e educação precárias afunda ainda mais com os efeitos da pandemia da covid-19.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

1 de junho de 2020

O Brasil de volta à idade das trevas!

Governo não é técnico e Estado não é laico. Positivismo, tão fundamental na criação da República Federativa do Brasil, também se foi. Abandonado por seu líder máximo, país voltou para a Idade Média, lamenta Thomas Milz.
Tempos de pestes sempre trouxeram um ar lunático, com todos buscando um culpado pela praga. Na Alemanha, se reúnem atualmente em praças públicas negacionistas de todas as causas, ativistas anti-vacina, da extrema direita e extrema esquerda, e juntos se manifestam contra a conspiração viral de Bill Gates e George Soros. Ainda bem que representam uma minoria. E que a Alemanha – por enquanto – tem um governo baseado na razão e na ciência, e não em likes das redes sociais ou vídeos de youtubers.
Chama a atenção o fato de que países governados por mulheres passaram com mais facilidade pela pandemia, a ver: Alemanha, Finlândia, Noruega e Nova Zelândia. A alemã Angela Merkel é física, a finlandesa Sanna Marin formada em Administração, a norueguesa Erna Solberg é sociológica, cientista política e ainda economista, enquanto a neozelandesa Jacinda Ardern é bacharel em comunicação política.
Por outro lado, os três países com mais casos de coronavírus – Estados Unidos, Rússia e Brasil – são liderados por homens de egos tão inflados que desprezam a ciência e os conselhos das vozes da razão. Magnata, Czar e Messias: todos se achando invencíveis devido a um vírus, que causaria uma "gripezinha". E estão pagando o preço da prepotência, por terem abandonado o caminho da ciência em favor de ideias obscurantistas, que misturam superstição com uma dose de pseudo-religiosidade. Minto. São os cidadãos desses países que estão pagando o preço, em milhares de mortes.
"O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque", disse o presidente do Brasil. Para isso, promoveu um dia de oração contra o vírus, medida muito superior ao isolamento social feito nos países governados por mulheres. Depois da tentativa das orações, veio o remédio milagroso, revelado pelo Messias (é óbvio que o messias deve apresentar o milagre, para justificar seu nome): a cloroquina, um medicamento sem eficácia comprovada, como o próprio presidente admite. Mas, "pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado", segundo Jair Bolsonaro. Orem e, depois, morram como heróis, bravos brasileiros!
Havia a falsa esperança (e promessa) de um governo técnico, sem ideologia. Mas na área de saúde, onde mais se precisa de liderança técnica, os ministros técnicos foram dispensados por terem feito uma gestão meramente técnica. E por não terem defendido as ideias messiânicas do presidente.
Há no mundo três líderes defendendo o uso da cloroquina:
1. O magnata Donald Trump, que, depois de aconselhar as pessoas a tomarem uma injeção de desinfetante contra o vírus, agora disse tomar cloroquina como profilaxia.
2. O maquinista de metro Nicolás Maduro, líder da Venezuela, que já disse que seu falecido tutor Hugo Chávez lhe aparece em forma de passarinho. Se tal acontecimento se realizou depois de ele ter tomado a cloroquina, não se sabe.
3. O capitão reformado Jair Messias Bolsonaro, que, como deputado, liderou o projeto para aprovar a fosfoetanolamina sintética, a chamada "pílula do câncer". O produto, ainda sem a eficácia comprovada, foi barrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O Ministério da Saúde está agora interinamente nas mãos de um general com vasta experiência em logística, mas sem experiência na área de saúde. Foi ele que, finalmente, seguiu o desejo do presidente de incluir a cloroquina e seu derivado hidroxicloroquina no protocolo de tratamento para pacientes com sintomas de coronavírus. Mesmo admitindo que não há comprovação da eficácia. Fica a dica do presidente: "Quem é de direita toma cloroquina, quem é esquerda, tubaína".
Seria cômico se não fosse trágico. Mas, para ser sincero, já estava claro desde o começo que não se podia esperar muita coisa desse governo, muito menos políticas sérias baseadas na ciência e na razão.
Há, no entanto, uma grande decepção com a ala militar do governo. Esperava-se dela segurar as loucuras da ala ideológica. Afinal, há uma longa tradição científica dos militares brasileiros. Houve uma época em que eles lideraram a marcha da modernidade, hasteando a bandeira do positivismo, do lema "Ordem e progresso". Defenderam a ideia de que o conhecimento científico deveria ser a base da sociedade e não as orações e remédios milagrosos. O Brasil voltou para a Idade das Trevas.

Autor: Thomas Milz tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina, jornalista e fotógrafo do Bayerischer Rundfunk, agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. 

A Sexta Feira da Vergonha!

Achei curioso é que nenhum diretor, gerente, caixa, funcionário do Banco do Brasil se preocupou com o desclassificado posto Ipiranga da Economia dizer que o BB é puro estrume.
Quando criança, os adultos nos mandavam para fora da sala, porque não devíamos ouvir conversa de gente grande. A expressão era: tem gente descalça. Pois a reunião de 22 de abril dos ministros brasileiros, devia ter sido poupada a menores de 100 anos. Jamais vi tanta sem-vergonhice junta, tanta grossura exposta, conversa de boteco, total descalabro.
Se houve a Noite de São Bartolomeu, se houve Baile da Ilha Fiscal, também aconteceu a Farra dos Guardanapos, houve igualmente a Sexta-Feira dos Sem-vergonhas. Ali só faltaram Waldemar da Costa Neto e Roberto Jefferson, medalhas de ouro das indecências. 
Mario Souto Maior, folclorista pernambucano da mesma estirpe de Câmara Cascudo, celebrado até por Gilberto Freire, poderia processar o governo por direitos autorais, uma vez que todos os palavrões constantes de seu ótimo Dicionário do Palavrão e Termos Afins (tenho a edição da Guararapes, Recife 1980) foram ditos e repetidos pelo presidente. Desde o usual, sonoro, FDP ao modesto e quase ignorado prexeca, órgão sexual feminino em Goiás.
Souto Maior definiria aquele bando de ministros (porque é um bando, aglomerado, quadrilha, gangue) como Filhos-de-Guarda-Noturno, para não dizer FDP, uma vez que segundo Jan, filho de Mário, o pai nunca disse um palavrão. Difícil escrever sobre palavrões sem poder nomeá-los explicitamente para não parecer mal-educado.
O que acharam as mães se é que eles têm - filhas, tias, avós, mulheres e irmãs daquela máfia de desclassificados? Falta de pudor, diriam, de compostura, respeito, vergonha na cara, pura grosseria, achincalhe, rusticidade, enfim, a maior alarvaria, se me entendem Enfim, Mario Souto maior definiria aquele conjunto de ministros como um bando de Cheira-fundo que ele definia como “chaleira, capacho, pessoa sem personalidade”.
O sinônimo é pior: “Cheira-rabo”. para não dizer outra coisa. É o que se viu.  Achei curioso é que nenhum diretor, gerente, caixa, funcionário do Banco do Brasil se preocupou com o desclassificado posto Ipiranga da Economia dizer que o BB é puro estrume. O Supremo então fez como se não fosse com ele. Todos aceitaram serem chamados de vagabundos. O que há minha gente? Todo mundo dopado? 

Autor: Ignácio de Loyola Brandão – Estado de S. Paulo

A mentira racista tem consequências

Donald Trump, com um exemplar do 'The New York Post' enquanto fala com os jornalistas sobre a nova ordem que afeta as redes sociais, na quinta-feira, na Casa Branca. JONATHAN ERNST - REUTERS 
Como a história do fascismo demonstra, questionar as mentiras racistas e a violência política é de suma importância para a sobrevivência da democracia.
“Quando começam os saques, começam os tiros. Obrigado”. O Twitter assinalou que esse tuíte “glorifica a violência”. O autor de uma mensagem tão totalitária não era um fascista qualquer, mas ninguém menos que o presidente norte-americano, Donald Trump.
Nada disso é novo em se tratando de Trump, mas marca uma diferença em relação ao Twitter, que dias antes havia apontado que um tuíte presidencial dizia mentiras. Não é novidade que Trump, um populista de extrema direita, minta ou ameace manifestantes que protestam em diferentes partes dos Estados Unidos contra a execução policial de um negro indefeso, já que o presidente se dedica a elogiar ou promover ações racistas e repressivas de vários grupos terroristas de direita e neonazistas. No dia anterior, o caudilho da Casa Branca reproduziu no Twitter uma mensagem de um seguidor, “um cowboy de Trump”, que dizia que “o único democrata bom é um democrata morto”.
Jornalistas presos ao vivo, assassinatos de minorias pela polícia e o aumento da miséria e do racismo no contexto de uma crise global. Os Estados Unidos estão se tornando a Alemanha da República de Weimar? Os paralelos com o tempo em que a democracia alemã foi destruída por dentro pelo fascismo são reais, mas não podem nos confundir. A democracia dos EUA ainda pode se defender desses ataques.
A ofensiva de Trump contra as redes sociais se soma aos ataques recorrentes à imprensa independente, que o caudilho define como “inimigos do povo”, que são moeda corrente, mas é claro que estamos vendo uma aproximação do populismo de Trump do universo mental do fascismo.
Como é possível que a Casa Branca promova e provoque atos de racismo tão próximos da modalidade dos fascistas? Do ponto de vista histórico, podemos ver que estamos diante de um novo capítulo na história do fascismo e do populismo, duas ideologias políticas diferentes que agora compartilham um objetivo: promover o racismo sem evitar a violência política. Ao contrário do fascismo, em sua história o populismo (de Juan Domingo Perón a Hugo Chávez e Silvio Berlusconi) foi uma concepção autoritária da democracia que, a partir de 1945, reformulou o legado do fascismo para recombiná-lo com diferentes procedimentos democráticos. Após a derrota do fascismo, o populismo emergiu como uma forma de pós-fascismo que reformula o fascismo em função de uma era democrática. Em outras palavras: populismo é fascismo adaptado à democracia. Historicamente, o populismo rejeitou a centralidade do racismo e da violência na política, mas os novos populistas novamente tornam a fazer da violência e da discriminação um eixo central de seu modo de agir.
Nesse contexto, não é surpreendente que nos Estados Unidos pessoas ideologicamente alinhadas com Trump possam se envolver em atos de violência política e atos racistas. Essas formas de violência política ocorrem fora da esfera do Governo e do líder norte-americano. Mas Trump é responsável moral e eticamente por promover um clima de violência racista e de ataques à mídia, em particular por meio das redes sociais.
O resultado é um clima de violência fomentado em nome de mentiras racistas disfarçadas de verdades. A história nos ensina até que ponto as mentiras fascistas e racistas tiveram consequências horrendas. Sabemos o que aconteceu quando a mentira fascista se tornou realidade. Se o fascismo alemão triunfou, não foi apenas pelas pessoas que apoiaram as políticas racistas de Hitler, mas também pelas pessoas que simplesmente não se importaram com o fato de o racismo ser um elemento característico do nacional-socialismo. A principal diferença entre aquele momento e este é a considerável condenação que as mentiras racistas do presidente recebem e o impacto que elas têm em amplos setores da sociedade norte-americana que resistem a elas.
Ao contrário da época ditatorial de Hitler e Mussolini, quando a liberdade de imprensa foi eliminada, hoje a imprensa independente continua trabalhando nos Estados Unidos. Sua tarefa é essencial para a democracia. Acusar a mídia de mentir, de ser pouco confiável, pressupõe a ideia de que a única fonte de verdade é o líder. Numa época em que o presidente norte-americano demoniza os jornalistas e as minorias, a imprensa independente continua informando sobre as mentiras e o racismo, e dando força aos fatos. A essa defesa da democracia se soma agora o Twitter e isso incomoda Trump, e muito, como também a seus acólitos pós-fascistas do Vox na Espanha e sequazes muito próximos do totalitário presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, o Trump dos Trópicos que quer destruir a democracia em seu país.
Como a história do fascismo demonstra, pôr em questão as mentiras racistas e a violência política é de suma importância para a sobrevivência da democracia. Tanto nos Estados Unidos como na Espanha e no Brasil, as mentiras racistas e a glorificação da violência constituem ataques sérios contra a democracia. O que fazem é minar a confiança nas instituições democráticas, tal como fizeram os fascistas. Hoje sabemos que é preciso defender a democracia de modo bem ativo porque as instituições e tradições democráticas não são tão fortes como muitos acreditam. As mentiras, a glorificação da violência e do racismo, com efeito, podem destruir a democracia.

Autor: Federico Finchelstein é catedrático de História na New School of Social Research, em Nova York. Este artigo foi preparado pela Agenda Pública para o EL PAÍS.

25 de maio de 2020

Um mentiroso contumaz!

“Nunca se mente tanto como antes das eleições,
durante uma guerra e depois de uma caçada"
Otto Von Bismarck.

A divulgação do vídeo da reunião ministerial ocorrida em 22 de abril evidencia com clareza a intenção de interferência na Polícia Federal, algo que nem Michel Temer, um presidente corrupto com sete processos nas costas tentou durante seu curto mandato. A vontade do presidente de ter um aparato pessoal de informação para poder obstruir ou se antecipar as investigações que envolvem seus 19 familiares ficou clara no decorrer da reunião.
 A sociedade pode ter acesso ao vídeo da reunião graças a liberação por decisão de Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal. Trazendo novas evidências conclusivas sobre o que já se suspeitava: o presidente Jair Bolsonaro mente.
Depois do vídeo, a versão presidencial de que queria interferir na sua segurança pessoal, e não na superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro, torna-se completamente inverossímil.
Como demonstrou reportagem da TV Globo, menos de um mês antes da reunião ,Bolsonaro havia promovido o responsável por sua segurança e o substituído pelo então número dois na função.
No vídeo, o presidente fala textualmente: “Já tentei trocar gente de segurança no Rio, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda (...) porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele. Se não puder trocar o chefe dele, troca o ministro. E ponto final. Não estamos para brincadeira”.
Tudo o que ocorreu depois da reunião se encaixa na narrativa do ex-juiz Sergio Moro. Não há dúvidas de que o presidente trata da PF, um órgão de Estado, quando promete ir até o fim para fazer valer a sua vontade antes que a sua família seja atingida. Querendo transformar desde antes das eleições a PF no quintal de sua moradia no Condomínio Vivendas da Barra.
No restante, a reunião entra para os anais da história como um dos episódios mais execráveis do exercício do poder presidencial nos 130 anos da República no Brasil.
O linguajar chulo, deplorável, inconsistente com quem ocupa o maior cargo no país, deixa claro, nos rompantes autoritários e nas exibições de incapacidade gerencial diante de uma crise monstruosa, que Jair Bolsonaro rebaixa a presidência e humilha a quem representa, colocada pelos constituintes de 1988 no pináculo do edifício democrático. A democracia que o elegeu é a mesma que tem sido vilipendiada por seus atos e suas falas.
As ofensas desferidas a governadores e prefeitos, o perverso e criminoso discurso do ignóbil à frente da pasta da Educação pedindo cadeia para ministros do STF, que qualifica de vagabundos.
As palavras incoerentes e sem nexo da Ministra dos Direitos Humanos contra mandatários estaduais e municipais clamando por prisão, demonstra que estes não são ministros, mas se parecem com seguidores nefastos de uma seita.
Um elemento a mais aparece no vídeo. Bolsonaro afirma que tem acesso a um dispositivo de inteligência particular. Ora, nada no ordenamento constitucional, nem nos princípios que norteiam as sociedades democráticas, autoriza o chefe de Estado a dispor de um aparelho pessoal de bisbilhotagem.
Se estivéssemos vivendo num país sério com todas as Instituições democráticas funcionando com total independência, a (PGR) Procuradoria Geral da República deveria por obrigação aprofundar a investigação acerca da conduta de Bolsonaro que, além de cercar-se de assessores insanos, autoritários e incapazes, pode ter cometido crimes. Que a PGR se mostre à altura do cargo que ocupa.
Ressalve-se as ameaças infames feitas pelo general Augusto Heleno, do GSI, a respeito de uma eventual apreensão do celular presidencial poderia ter “consequências imprevisíveis”. Dados a baixeza e o desvario mostrados numa reunião formal, assusta de fato imaginar o que Bolsonaro diz em particular para seus seguidores (Ministros e assessores).

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

24 de maio de 2020

Meu amigo Anézio!

Não há silêncio que não termine.
Pablo Neruda

O avô dos meus filhos, pai da minha mulher, meu amigo, nos deixou essa semana e levou consigo muitas estórias, sua experiência de oitenta e seis anos de vida, todas as suas convicções e nossas conversas de tantos anos naquelas cadeiras na área da frente da sua casa.
Deixou para trás, nosso carinho, nosso profundo respeito por sua vida proba, honesta, repleta de muita retidão.
Choraram os seus seis filhos, esposa, dezenas de netos e até bisnetos, alguns que nunca tiveram a chance de ouvi-lo contar uma de suas muitas estórias, dos tempos de crianças na fazenda, ou de quando ainda jovem trabalhava nas Casas Leone.
Suas muitas estórias do tempo de bancário no Banco Itaú sediado em Bariri, quando ainda sem a tecnologia atual, sem os computadores, faziam todo o fechamento diário na ponta do lápis e das calculadoras.
Perdi muito mais que um sogro, algo que todos que se casam normalmente tem em suas famílias, perdi um grande amigo, sincero, sempre honesto em suas opiniões. Com a certeza que mesmo quando não concordava com algumas das minhas opiniões, em silencio a respeitava.
 Se existe uma certeza na vida, é a de que um dia iremos embora, ontem foi um destes dias, triste, cinzento, frio e sem a alegria do meu amigo Anésio. Seu semblante calmo, nos confortou de certa maneira, deixando claro que ele estava indo embora da forma como sempre verbalizou – sem sofrimento, sem ter ficado entravado numa cama por muito tempo antes do adeus.
Saudade fica, as vezes dói no peito, porém, mantém viva a memória para as coisas boas da vida, momentos bons que tivemos ao longo da nossa amizade de quase 30 anos.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

21 de maio de 2020

Mortes que poderíam te sido evitadas pelo Estado!

“A ignorância é a maior enfermidade
do gênero humano.” Marco Túlio Cícero.

Com uma frequência assustadora assistimos o noticiário divulgar quase que diariamente a ocorrência mortes por bala perdida na cidade do Rio de Janeiro. Não que não aconteça em outras cidades e Estados brasileiros, mas a frequência na cidade maravilhosa impressiona e entristece.
Em 2019, a região metropolitana do estado do Rio de Janeiro registrou 7365 tiroteios e disparos de arma de fogo, uma média de 20 tiroteios por dia, que deixaram 2876 baleados. Deste total, houve 168 casos de bala perdida, em que 189 pessoas foram atingidas, das quais 53 morreram.
As informações foram divulgadas através da plataforma Fogo Cruzado, laboratório de dados sobre violência armada que registra, desde 2015, a incidência de tiroteios no Rio de Janeiro e em Recife.
Segundo o levantamento anual, o número de vítimas de bala perdida na região metropolitana do Rio diminuiu 16% no ano passado, mas o número de mortos aumentou 23%, se comparado a 2018, que registrou 225 vítimas de bala perdida, das quais 43 morreram. No total, foram 186 casos de bala perdida registrados.
Infelizmente na maioria dos casos as investigações não levam as prisões dos responsáveis, sejam criminosos ou policiais. Um pequeno exemplo são estes seis casos abaixo:
Jenifer Gomes, de 11 anos: 9 meses depois, a polícia afirma que ainda investiga o caso;
Kauan Peixoto, de 12 anos: passados 8 meses, não há conclusões;
Kauã Rozário, de 11 anos: 7 meses depois, o estado não tem uma explicação;
Kauê dos Santos, de 12 anos: 2 meses depois, o inquérito foi concluído, mas MP e Polícia não informaram o desfecho;
Ágatha Félix, de 8 anos; 2 meses depois, o caso ainda não tem solução;
Ketellen Gomes, 5 anos: um suspeito de dar o disparo foi preso e investigações continuam.
Nesta semana, mais um caso abalou o RJ, o menino de 14 anos João Pedro estava em sua casa, quando foi alvejado e morto. A violência foi tanta, que nas paredes da casa onde vivia foram contadas mais de setenta marcas de tiros.
A imprensa naturaliza a morte e não dá nome ao que acontece a cada 23 minutos neste país. Isso se chama: Genocídio. O que ocorreu em uma operação que subia uma comunidade na semana passada e matou várias pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, é genocídio. A desumanização se reflete em números frios. "A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e? Fogo! Para não ter erro", como disse o governador do Rio de Janeiro, como promessa de campanha...
Nenhuma autoridade enfrenta esta situação que ocorre diariamente, as ações policiais muitas vezes temerárias, não demonstram eficiência na prisão ou extermínio de quadrilhas do crime organizado. Morrem centenas de inocentes, em sua maioria crianças dentro de seus quintais, porém, não são apresentadas nas mesmas operações resultados com prisões e até mortes de criminosos.
Desconhecemos se a polícia civil e militar do RJ, opera com base em inteligência nas suas operações de busca e apreensão. Levando em conta o terreno em que estas são deflagradas, áreas normalmente com elevado número de habitantes por m².
Sendo assim, os morros do RJ, se transformam num Afeganistão onde o morador e seus familiares temem os criminosos e as ações policiais contra estes. Não há segurança, não há paz, não há como viver.
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/21/policia-civil-ouve-piloto-de-helicoptero-que-socorrou-joao-pedro.ghtml

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Tempos modernos?

“Viver entre uma multidão de valores,
normas e estilos de vida em competição,
sem uma garantia firme e confiável de
estarmos certos é perigoso e
cobra um alto preço psicológico”.
Zygmunt Bauman

Ao pensar sobre todas as coisas que estamos vivenciando nestes tempos de pandemia, de restrições ao ir e vir, de muitas tristezas, poucos abraços e nenhuma compaixão além das infrutíferas promessas de um tempo melhor após a próxima esquina do tempo, me lembrei de uma linda canção do cantor e compositor Lulu Santos, chamada Tempos modernos. Ela diz mais ou menos isso:
Eu vejo a vida melhor no futuro, eu vejo isso por cima de um muro
De hipocrisia que insiste em nos rodear, eu vejo a vida mais clara e farta. Repleta de toda satisfação, que se tem direito do firmamento ao chão.
Eu quero crer no amor numa boa, que isso valha pra qualquer pessoa, que realizar a força que tem uma paixão. Eu vejo um novo começo de era. De gente fina, elegante e sincera com habilidade
Pra dizer mais sim do que não, não, não. Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir
Não há tempo que volte, amor, vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir.
A canção foi escrita e gravada em 1982, ainda no Século XX quando vivíamos diante de uma série de suposições sobre como seria a virada do milênio e o Século XXI.
Havia, e eu vivenciei nesse período, uma expectativa de muita modernidade, parte dela aconteceu, principalmente na informática e nas tecnologias de ponta que utilizamos neste novo século.
Porém, a humanidade não mudou como pensávamos que fosse acontecer, não houve uma grande mudança nas relações humanas, nem nas relações entre as nações, apesar do encurtamento das distâncias via globalização. Ao menos nos primeiros 20 anos do século.
O mundo caminha da mesma forma e o planeta sofre ainda mais com poluição, esgotamento de fontes de energia, extração de minérios e demais riquezas sendo feitas sem controle ambiental.
O mundo ainda assiste de forma primitiva a ocorrência de doenças que não possuem cura, nem medicamentos para atenuar o sofrimento de milhões. A fome ainda persiste e mata severamente nossos irmãos na África e em outros continentes.
Hoje o tempo voa, escorre pelas mãos, disse Lulu com sabedoria. Sentimos o tempo passar de forma inexorável com uma rapidez antes não percebida. Entretanto, não convivemos com gente fina, elegante e sincera com habilidade para dizer mais sim do que não. Pelo contrário, a intolerância é absurda atualmente, a incompreensão é gigante, ainda temos racismo assolando povos ao redor do planeta. Ainda temos homofobia e outros crimes praticados por gente com poder aquisitivo que acessaram boas escolas e são de uma classe que deveria ter a obrigação de serem éticos.
    Ao contrário do que muitos estão pregando em mensagens nas redes sociais, no WhatsApp, o mundo não necessariamente será melhor após a passagem da pandemia do novo coronavírus. Pelas atitudes que vemos no Brasil, com casos de corrupção, aproveitamento de situações para lucrar (álcool Gel, por exemplo), difícil acreditar em tempos melhores, em tempos modernos, mas fácil enfrentarmos tempos muito mais difíceis e confusos.

Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

17 de maio de 2020

Vivemos várias crises dentro de uma crise!

"Cada um só porque fala, julga
também saber usar da linguagem"
Goethe

A pandemia mundial do novo coronavírus trouxe para os brasileiros uma série de crises dentro da própria crise do Coronavírus, o que já não era pouco diante da sua letalidade. Temos no Brasil um presidente que não tem capacidade, discernimento e inteligência para entender o país, o mundo, e nementendimento da importância do cargo que ocupa.
Sendo assim, temos dentro da crise da pandemia as crises da economia, saúde (sucateada ao longo dos últimos 30 anos), administrativa, existencial, moral e mundial.
A crise da saúde é a mais grave obviamente, na medida que até o momento já ceifou a vida de mais de dezesseis mil pessoas no Brasil, com mais de duzentos e trinta e três mil infectados. Isso sem contarmos dois fatores importantes que são a baixa testagem em todo país e a subnotificação de casos e óbitos. O que pode segundo especialistas, elevar os números (Infectados e óbitos) para até cinco vezes mais dos números informados.
A gravidade é maior na medida que o presidente se nega a acreditar na letalidade do vírus, brinca, faz piadas e com isso não permite que o governo federal auxilie os Estados e Munícipios no combate eficaz a pandemia. Os recursos oriundos do orçamento do Ministério da Saúde para compra de medicamentos, equipamentos como respiradores e demais insumos ficam retidos e causam ainda mais problemas a saúde pública.
No período da pandemia, Bolsonaro trocou de ministro da pasta da saúde duas vezes, prejudicando a manutenção de um trabalho que vinha sendo desenvolvido a duras penas pelos responsáveis a frente do ministério.
Em decorrência da fraqueza de projetos e propostas do governo para a economia em quinze meses de governo, a pandemia veio a somar ainda mais problemas agravando sobremaneira a crise econômica do país. Culpar a pandemia neste caso é injusto, afinal de contas, exceto a malfadada reforma da previdência nada mais foi realizado por Paulo Guedes ou Bolsonaro neste período de sua gestão. Antes da pandemia o desemprego era altíssimo sem que nada tivesse sido feito para reduzi-lo.
A crise administrativa é fruto da mesma incompetência de Bolsonaro para equacionar o que quer que seja, sem que estejam presentes a ideologia política e o fisiologismo que lhe é peculiar. Ao se aliar ao chamado Centrão, grupamento político nefasto que esteve presente em governos anteriores sempre buscando cargos, verbas e corrupção, demonstra que o governo não quer modernidade e mudanças na estrutura carcomida do governo federal.
A crise moral decorre das obscenidades desferidas pelo presidente Bolsonaro. Não passamos um dia sequer sem ouvir ou ler absurdos proferidos por uma pessoa incapaz de nos demonstrar serenidade, inteligência e capacidade para ocupar tão importante cargo. Sua vocação é o ódio e isso é propagado aos quatro cantos do nosso sofrido país.
Com tudo isso, a imagem do nosso país no exterior de degrada e faz com que passemos vergonha diante de nossos irmãos no exterior. As notícias nos grandes jornais e revistas dos países do primeiro mundo aliadas as mensagens de brasileiros, que estão vivendo na Europa, América do Norte, Ásia e Oceania corroboram com essa péssima imagem que o Brasil adquiriu.
Culpa de um governo que desfaz da ciência, não aceita outra ideologia que não a de extrema direita, que cultua valores inaceitáveis aos olhos da humanidade como nazismo, ditaduras militares e até de torturadores. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

16 de maio de 2020

O negacionismo do BolsoOlavismo!

“O fanatismo é um estado d’alma,
em que a paixão do crente  
se converte em alucinações.”
Leoni Kaseff.

O mesmo grupo que nega a existência do caos climático, que insiste na tese do terraplanismo, também nega a pandemia provocada pelo novo coronavírus no planeta.
Mesmo com números reais que dão conta até o dia 14 de maio da ordem de 4.442.163 (Quatro milhões, quatrocentos e quarenta e dois mil e cento e sessenta e três infectados) com 302.418 (trezentos e dois mil, quatrocentos e dezoito) mortos no mundo inteiro, existe pessoas que dizem não acreditar na pandemia. Preferindo imputar a teorias conspiratórias que não merecem sequer serem analisadas.
A Fundação Alexandre de Gusmão, conhecida no meio diplomático pela sigla Funag, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, realizou um seminário via internet sobre a conjuntura internacional no pós-coronavírus. 
Entre os debatedores estavam José Carlos Sepúlveda, discípulo de Plínio Correia de Oliveira e comentarista do canal bolsonarista Terça Livre; Leandro Ruschel, do site Conexão Política; e Silvio Grimaldo, editor do Brasil Sem Medo, o jornal oficial de Olavo de Carvalho.
Durante 105 minutos do debate, o ministro de segunda classe Roberto Goidanich, atual presidente da Funag, ouve generosas doses do que se poderia esperar: mentiras, teorias da conspiração e pouco caso com os 12.400 mortos oficiais pela covid-19 que o Brasil contava àquela altura. Hoje já são mais de 14.817 mortes em todo país.
"O superdimensionamento da crise do coronavírus é baseado em modelos matemáticos futuros, semelhantes aos usados para espalhar o caos climático", bradou Sepúlveda, um português radicado no Brasil desde a década de 1970 que foi protegido do fundador da Tradição, Família e Propriedade, a TFP, braço ultrarreacionário do catolicismo. "[Diziam que] veríamos mortos nas ruas", zombou.
"A ciência nunca vai poder decidir o que é melhor para nós mesmos. Pedem mil provas da eficácia da hidroxicloroquina, mas nenhuma do isolamento social", concordou Ruschel, um dublê de economista que passa o dia defendendo Bolsonaro no Twitter.
Um misto de negação á ciência, ideologia barata e politicagem rasteira levam estas pessoas a propagar insanidades que não passam de bizarrices infundadas. O pior é saber que um dos incentivadores é justamente o atual Ministro das Relações Exteriores do Brasil – Ernesto Araújo.
É notório que aos olhos da comunidade científica, dos países do chamado primeiro mundo, dos intelectuais e dos cidadãos de bem de todo mundo o Brasil anda para trás a passos largos, afastando-se da verdade, da modernidade e da relação sadia com países sérios no mundo contemporâneo.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger, Graduado em Gestão Publica.

15 de maio de 2020

E se Bolsonaro não passar de uma grande ‘Fake News’?

Tudo ao redor do presidente parece ser uma invenção, uma mentira, uma miragem, porque, se fosse verdade, seria uma tragédia.
Um militar fala ao ouvido de Bolsonaro - Joédson Alves - EFE
O presidente Jair Bolsonaro havia anunciado que no sábado passado faria um churrasco para qualquer admirador seu que quisesse aparecer. A notícia foi vista como uma provocação contra as normas de isolamento por causa da pandemia do coronavírus. Na manhã do último sábado, ele se retratou e disse que tudo não passou de Fake News. E tachou de “idiotas” os jornalistas que haviam acreditado na sua palavra.
Naquela mesma manhã, o Brasil recebia a triste notícia de ter superado os 10.000 mortos pela epidemia, e o Congresso decretou três dias de luto nacional. Bolsonaro não proferiu nenhuma palavra de pêsames às vítimas. O que são 10.000 mortos para ele?
O problema não é se aquela bravata do presidente de organizar um churrasco para uma multidão enquanto a população sofria a lei da quarentena era uma brincadeira de mau gosto, uma provocação macabra, ou uma Fake News. O que ocorre é que o presidente parece todo ele, mais do que uma realidade, uma grande Fake News.
Não faz muito, ele mesmo questionou o resultado das eleições que lhe deram 57 milhões de votos e a vitória. Talvez tivesse razão: que a própria eleição foi uma Fake News, produzida pelos robôs que ele soube dirigir tão bem durante a campanha. Talvez seja verdade que foram falsificadas e, portanto, na verdade ele não existiria hoje como presidente.
Tudo é tão irreal ao redor do ultra autoritário populista que mais parece uma história de ficção que uma realidade. Parecem Fake News boa parte de seus ministros vindos de outro planeta. Parece Fake News sua política externa desastrada, sua ideia de escola sem partido, baseada nos ensinamentos da Bíblia. Parece Fake News sua política ambiental de destruição da Amazônia e extermínio dos nativos, que assombra e atemoriza o mundo. Parece Fake News seu rechaço aos direitos humanos mais elementares.
Tudo ao redor do presidente – que os psicólogos temem se tratar de um caso psiquiátrico – parece ser uma invenção, uma mentira, uma miragem, porque, se fosse verdade, seria uma tragédia.
Quer algo mais fake que essa novela de que seus filhos governam com ele e usam apelidos de polícia secreta, como 01, 02, 03 e agora está chegando o garoto 04, que JÁ aprendeu a escrever nas redes que o coronavírus é só uma gripezinha? Que se gaba de ter “comido” todas as garotas do condomínio onde vive em Rio? Era fake.
Quer algo mais Fake News que o que seus filhos formarem uma dinastia, mesmo sem participarem de nada. Quer algo mais fake que alguns deles serem suspeitos de envolvimento em mutretas de corrupção, com um pai cuja bandeira era justamente exterminar os corruptos? Terem usado assessores fantasmas? Gente das perigosas milícias do Rio? Que tenham enriquecido com a história das rachadinhas e ganhado milhões vendendo chocolates? Tudo fake. E o assassinato de Marielle? Tudo irreal, inventado. Uma malícia grosseira de seus inimigos.
Pode haver algo mais fake que um homem bravo como o presidente, atleta, esportista, um homem completo, apaixonado pelas armas e pela brincadeira de tiro ao alvo, ser capaz de cair em pranto na frente dos seus ministros? Por Deus!
Tem que ser Fake News essa história de que o presidente de extrema direita é um apaixonado pela tortura e tem saudades da ditadura, já que ele queria só era limpar a escória do comunismo no Brasil. Por isso se desiludiu quando a ditadura perdeu tempo torturando, pois para ele teria sido mais rápido eliminá-los. Pôs até um limite mínimo de quantos deveriam ter sido sacrificados, 30.000 comunistas. É que era pedir muito? Fake com certeza. O presidente é terno. Basta ver a delicadeza com que acaricia as armas e a paciência com que ensinava uma menina em seus braços a imitar com sua mão inocente o gesto de disparar um revólver.
Só pode ser Fake News a facada que sofreu durante a campanha eleitoral, que poderia ter tido como mandante, segundo ele, alguém da esquerda que quis eliminá-lo das eleições. Quem, afinal, iria se preocupar em tirar a vida de um candidato que só buscava o bem da nação, para o que era necessário pôr os esquerdistas de joelhos? Tudo fake.
Dizem que no fundo, na intimidade, o presidente é doce e acolhedor. Um santo cheio de empatia. A única coisa que, aparentemente, o tira de si e o transforma em alguém violento são esses gays que crescem como cogumelos. O que não suporta são as mulheres feias. Não servem, diz, nem para serem estupradas. Os gays, dizem alguns em voz baixa, metem medo no presidente que se sente macho-alfa. Os negros são para ele outra grande preocupação. Deve se perguntar por que não os eliminaram antes da libertação dos escravos. Seu Brasil é branco. E os direitos humanos? Mas será que devem existir direitos? Para que servem os diferentes? Para ele, somos uma manada sob um só pastor, que sabe o que cada um necessita e o que nos faz mal. Mas não se preocupem, é só Fake News.
Quem disse que o presidente não respeita as outras instituições do Estado? Tudo fake. O que ele não suporta é que os outros poderes pretendam ser independentes. Então para que serve o presidente? Quem melhor que ele sabe do que seus fiéis devotos necessitam? As leis que precisam ser aprovadas, as condenações que os tribunais devem impor? E o Supremo, com sua mania de querer interpretar a Constituição? O presidente já disse com todas as letras: “A Constituição sou eu”. Para que mais complicações? É algo que Moro, seu ex-ministro-estrela da Justiça, não tinha entendido. Se ele é a lei, por que a Polícia deve lhe esconder segredos? Até aí se podia chegar. Não podem existir segredos para ele, que é quem manda. O Brasil é dele.
Tudo isso não pode ser senão uma grande Fake News. É que ainda não entenderam a que veio o capitão de reserva que vive coroado por generais como se fossem anjos, querubins e serafins que o protegem em seu governo. Eles são sua milícia celestial. Mas e se também isso fosse fake, já que os militares têm outras hierarquias além das celestiais? Sabem que podem mandar nele se quiserem. Talvez só esperem o momento melhor. E isso não será fake.
Fake ou não, louco ou são, o presidente que ri da epidemia e despreza tudo o que cheire a liberdade de expressão, embora ele a use e dela abuse diariamente, precisa ser vigiado como se faz com as crianças quando deixadas sozinhas em casa, brincando de acender fósforos. Crianças e loucos são perigosos porque um dia podem acabar incendiando a casa.
Melhor apeá-lo de seu perigoso pedestal e devolvê-lo à escola para que aprenda que a vida real, não a das Fake News, é muito diferente. Para que aprenda a riqueza das diferenças, o respeito pelas ideias alheias, a força da democracia e das liberdades. E para que aprenda os horrores e as baixezas, que já conhecemos da história, em que a humanidade cai quando se esquece que precisa viver em harmonia e em liberdade, respeitando-se mutuamente, ou então voltaremos aos infernos que já conhecemos, cuja mera lembrança não só nos horroriza como também nos julga e nos condena. E isso não é Fake News. É uma realidade que o Brasil não merece viver.

Autor: Juan Arias – El País

8 de maio de 2020

Bolsonaro – Por que não haverá Impeachment?

“Política é a arte de conciliar os interesses próprios, 
fingindo conciliar o dos outros”. Menotti Del Picchia

O ex-deputado federal que obteve um desempenho medíocre durante vinte e oito anos, passando por vários partidos, inclusive o mais corrupto da Lava Jato – Partido Popular – PP, ganhou o apelido de “Mito” do qual nunca fez jus e aventurou-se na campanha eleitoral para presidência onde foi eleito.
Assim como na sua passagem pela Câmara, não fez nada em 15 meses de gestão, nem irá fazer até o final de seu mandato, não promoveu mudanças nem implantou nada de novo para a economia, saúde, educação ou segurança pública.
Entretanto, suas ações concentram-se em dar tranquilidade ao mercado financeiro, aos grandes empresários e conglomerado financeiros, além dos exploradores do meio ambiente. Estes, que estavam com dificuldades diante das leis em governos passados, começam a respirar no atual governo. Estão vendo o fim da demarcação de terras indígenas, a fiscalização do Ibama, Incra, Inpe amolecendo diante de suas ações predatórias nas matas, floresta amazônica e toda região norte e centro oeste.
 A elite nacional que sempre odiou o PT e qualquer partido de esquerda, usando da desculpa esfarrapada de corrupção, quando na verdade, tinham em mente apenas o preconceito para com os menos favorecidos, que estavam sendo ajudados nos governos do PSDB e PT. Ver alguém pobre em Shoppings, Aeroportos ou em Miami é muito complicado para esta escoria elitista do nosso país.
Particularmente em SP, que desde os tempos dos bandeirantes acumularam riquezas às custas da escravidão e depois com o processo de industrialização pagando salários miseráveis enquanto enriqueciam e aplicavam suas fortunas no exterior. Sempre tiveram privilégios e mamaram nas gordas tetas dos nossos governos, em especial os Usineiros, Banqueiros, grandes empresários e os latifundiários. 
Essa gente mantém uma subalternidade nojenta pelo colonizador, pelos poderes externos, não á toa, em seguida a posse de Bolsonaro, começaram a estampar em seus avatares das redes sociais bandeirinhas dos EUA.
Por estes motivos e muitos outros, não haverá escândalo que derrube este governo, não haverá denúncias de corrupção, favorecimento a grupos milicianos, grileiros, latifundiários, que possa levar este governo ao Impeachment. E a razão é simples, ele não vai mexer com o bolso nem com os negócios dessa gente, portanto, estará seguro.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

7 de maio de 2020

O Aldir e a sombrinha!

Aldir Blanc e João Bosco escreveram a música tema da reação à ditadura que, segundo o Bolsonaro, nunca existiu!
O Jaguar sabia da nossa admiração por ele e organizou uma excursão à Zona Norte. Objetivo: conhecer o Aldir Blanc. Ele nos recebeu em sua casa na rua Garibaldi, Tijuca. Me lembro que uma das peças da casa era ocupada por uma mesa de sinuca profissional, o que me pareceu adequado, assim como a sua barba de profeta. Aldir era um lacônico notório e, como eu não sou de falar muito, o Jaguar tinha previsto que nosso encontro seria uma troca de silêncios. Não foi, conversamos. Fomos conversando no caminho da casa ao bar da dona Maria, na esquina, onde nos esperavam pastéis de bacalhau inesquecíveis e o compositor Moacyr Luz, parceiro do Aldir em muitas músicas, com seu violão. A noite acabou na Casa da Mãe Joana, que eu não sei se ainda existe, com show do Walter Alfaiate e canja do Aldir no tamborim, igualmente inesquecíveis. O grande letrista, grande cronista e grande cara também era bom no tamborim!
Aldir Blanc e João Bosco escreveram a música tema da reação à ditadura que, segundo o Bolsonaro, nunca existiu, e da campanha pelas eleições diretas e a redemocratização do País. O Bêbado e a Equilibrista fala da volta sonhada do exílio do irmão do Henfil e da dor das viúvas de vítimas da repressão, como a companheira do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelo regime militar. Quem hoje carrega faixas pedindo outra intervenção militar como a de 64 não sabe como foi sabe, mas não se importa ou sabe e aprova com entusiasmo. 
O quase hino do Aldir e do João Bosco também falava da esperança que subsistia nos tempos negros, a “esperança equilibrista” que andava na corda bamba “de sombrinha” ameaçando cair. Quem poderia imaginar que, depois de tudo que passamos e padecemos, na certeza de que, acontecesse o que acontecesse, ditadura nunca mais, estaríamos de novo carregando uma sombrinha metafórica numa corda bamboleante, sem saber o que nos espera no próximo passo? Os generais de fatiota que hoje ocupam o governo nos asseguram que não vem golpe. Não vem porque já veio, e nem precisaram de tanques na rua. Entraram no poder pela porta principal, atendendo a convites.
De qualquer maneira, não solte essa sombrinha. 

Autor: Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo.