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16 de janeiro de 2025

Pesquisa aponta que mais da metade dos brasileiros não lê livros!

  

Imagem: Freepik.

A 6ª edição da pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", do Instituto Pró-Livro, revela uma queda significativa no número de leitores no país, com uma perda de quase sete milhões de leitores nos últimos quatro anos. Durante esse período, os brasileiros abandonaram o hábito da leitura. A coordenadora da pesquisa, Zoara Failla, explica os fatores que contribuíram para essa queda.

Pela primeira vez, a proporção de não leitores, que chega a 53%, supera a de leitores, que é de 47% no País. 53% da população afirmou não ter lido nenhum livro, seja impresso ou digital, nos três meses anteriores à Sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do Instituto Pró-Livro. A perda foi de quase 7 milhões de leitores nos últimos quatro anos. O cenário é ainda mais preocupante quando se observa a leitura de livros inteiros: 73% dos brasileiros, 148 milhões, não completaram nenhuma leitura. Essa perda de consumidores de livros é registrada em todas as faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade, com exceção das crianças de 11 a 13 anos e das pessoas com 70 anos ou mais. Zoará Failla, coordenadora da pesquisa, explica os fatores que contribuíram para essa perda:  (Zoará Failla) "E foi identificado um aumento de mais de 30% de 2015 para cá, no uso do tempo livre na internet. (0:09) Por outro lado, uma queda na leitura de livros nesse momento de lazer.  Já era baixa, 24%, e caiu para 20%. Mas um dado que preocupa é também, mais uma vez, na faixa etária de 5 a 10 anos, 43% das crianças estão usando esse tempo em videogames." Os estados com os maiores índices de leitores são: Santa Catarina, com 64%, seguido por Paraná e Ceará, ambos com 54%. A Região Sul é a única onde a maioria da população ainda mantém o hábito da leitura. Em relação aos locais preferidos para ler, a pesquisa revela que, embora 85% dos leitores leiam em casa, as escolas têm se tornado espaços cada vez menos voltados para a leitura, com a participação das salas de aula caindo para 19%. Zoará Failla comenta os impactos na educação:  Pandemia, quando as crianças ficaram sem aulas presenciais, tiveram aulas remotas, muitas tiveram dificuldades de acompanhar por não ter acesso à internet e é um momento muito importante para formação leitora e as práticas leitoras presenciais com o professor são fundamentais para correção, para estímulo, para criar situações mais mobilizadoras e aí tanto a alfabetização quanto o letramento, o letramento literário. O Senado tem discutido alguns projetos de lei voltados para o incentivo à leitura. Um desses projetos propõe a criação da Política Nacional de Leitura e Escrita, cujo objetivo é fortalecer as bibliotecas públicas e valorizar o trabalho dos bibliotecários. Além disso, tem a proposta que cria a Política Nacional do Livro, que fixa um preço único pelo período de um ano a partir do lançamento ou importação de uma obra.

Autora: Júlia Lopes – Publicado no Site do Rádio Senado.

15 de janeiro de 2025

Amantes da Democracia!

Os brasileiros comemoraram o Globo de Ouro dado a Fernanda Torres, eleita a melhor atriz de filme dramático por sua atuação em "Ainda Estou Aqui". Sobraram buzinaços na madrugada das metrópoles, como se fosse uma vitória da seleção na Copa do Mundo. Carecemos de heróis e quando algum desponta temos mesmo é que festejar. Sem precisar levantar cadeira, Datena no SBT sentenciou que a artista "Tomou o lugar de Bolsonaro, se tornou um mito!"

Se o homem é "mito", tenho lá minhas suspeições. Quanto a Fernandinha, as estatísticas comprovam: foram 310 mil consultas à biografia da eleita no Wikipédia, e mais de 3 milhões de espectadores que viram sua performance nas telas. Quem não assistiu, correu para ver a maior bilheteria do cinema nacional pós-pandemia.
A direita procurou amenizar a conquista. Houve quem adjetivasse Fernanda de "nepobaby" - uma criança favorecida pelos pais famosos e com influência nos meios teatrais e televisivos. O nepotismo na dramaturgia, criado como ofensa, não produziu efeitos negativos. A unanimidade do país reconhece o talento da atriz, assim como o mundo. Não é o primeiro prêmio que Fernanda Torres ganhou em nível internacional. Há quase 40 anos, o júri de Cannes presidido por Sidney Pollack já a havia consagrado com uma estatueta pelo seu desempenho no filme "Eu sei que vou te amar", de Arnaldo Jabor.

A imprensa global, de fato, foi apanhada de surpresa. Nenhum cronista especializado poderia supor que Fernanda ganhasse de pesos-pesados de Hollywood - incluindo Kate Winslet, Nicole Kidman e Angelina Jolie.

Fernanda já havia destacado que a produção pode ajudar a nação a superar a polarização política recente. O filme não é sobre a esquerda ou a guerrilha contra a ditadura. É sobre uma família. Todo mundo tem uma família com pai, mãe e irmãos. Na primeira página do romance "Ana Karenina", Tolstói abre dizendo que todas as famílias são iguais. Só se diferenciam nas tragédias.

É evidente que existe na narrativa uma outra dimensão, a do momento histórico. "Ainda Estou Aqui" relembra, para quem viveu a ditadura. Mostra para os que nasceram após a redemocratização, os horrores de um Estado de exceção. Em regimes autoritários ninguém está livre do arbítrio. A história da persistência de Eunice em denunciar a morte do marido contada de forma não panfletária, emociona e ensina. No momento, o país está investigando uma tentativa de golpe ocorrida há apenas dois anos. O plano articulado previa o assassinato do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

A democracia é o melhor dos regimes, mas precisa ser amada. Como uma amante, mais que a matriz como quer o Lula. Ainda na terça-feira, Mark Zuckerberg, presidente da Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp), anunciou o fim do programa da checagem de fato e a redução de filtros que automaticamente retiram certos conteúdos das plataformas digitais. A decisão é muito boa para os negócios da Meta. Quanto mais polêmicas provoquem as mensagens divulgadas, mais cliques, mais publicidade e mais dinheiro. Significa, permitir que não haja censura prévia a discursos racistas, misóginos, fascistas, contra o direito das minorias, das mulheres. Contra a democracia amada.

A liberdade de expressão é um direito fundamental. Espalhar nas redes sociais que vacina desenvolve Aids, em plena pandemia, não é direito de ninguém.

Defendem os expoentes do Vale do Silício que a invenção de Gutenberg com os tipos moveis, proporcionou a maior circulação de ideias e, dois séculos depois, aconteceu a Revolução Industrial. Como lembra Yuval Harari, nesse período o continente europeu foi infestado de mentiras e teses conspiratórias que incentivaram as piores guerras religiosas e caças às bruxas.

Autor: Zarcillo Barbosa – Jornalista, Articulista do Jornal da Cidade de Bauru.

A produção de conhecimento sob a lógica do mercado!

  

Pesquisadores de humanas enfrentam mais dificuldades, já que conhecimento produzido não é alvo de corporações. Foto - Marcello Casal Jr - Agência Brasil.

"Não sei mensurar o preço da minha produção científica." Frase que muito ouvi de meus colegas das ciências humanas, em um país onde a profissão de cientista não é formalmente reconhecida. Esse estranhamento resulta das ciências com as quais trabalhamos, que não são mercadorias; talvez um dia sejam, mas serão invisíveis.

Embora eu não seja atleta, fui inserido em uma competição contra amigos, colegas e desconhecidos, pessoas que talvez nunca encontre. Esta competição é excludente, adoecedor, contraditória e constantemente me faz questionar a escolha por ser pesquisador, numa época em que o número de publicações e citações tornou-se uma valiosa vitrine no "mercado" científico.

Nesses momentos de estranhamento, entendo a frustração dos cientistas brasileiros. Sou um deles. Não gostaria de competir com um amigo, mas este é o mecanismo que rege nosso trabalho: produza, publique ou pereça.

Contradições

Em 2024, duas iniciativas do governo federal me fizeram questionar se estão atentos à ciência nacional. Em julho, o Ministério da Educação lançou o Programa de Repatriação de Talentos, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para atrair de volta pesquisadores brasileiros atuantes no exterior.

Em outubro, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou, pelo Ofício Circular nº 46/2024, uma nova metodologia que substituirá o Qualis-periódicos por uma classificação centrada na qualidade dos artigos científicos e no número de citações.

É de se pensar que essas duas ações podem ser conflitantes. Primeiro, foram necessários 10 anos para que houvesse um reajuste nas bolsas de mestrado e doutorado pela Capes e pelo CNPq, induzindo muitos pesquisadores a buscar oportunidades fora do país. Em seguida, priorizar a qualidade dos artigos e o número de citações como critério levanta a questão: como um jovem pesquisador sem financiamento para divulgação de seu trabalho pode obter a visibilidade necessária para que sua pesquisa seja citada entre seus pares?

Na área de ciências humanas, essa situação se agrava, porque o conhecimento produzido pelos mestrandos e doutorandos não é alvo de grandes corporações. As pesquisas possuem funções sociais fundamentais para a literatura de cada eixo, mas não têm preço, pois não são matéria-prima para serem transformadas em mercadorias.

Bolsas servem para sobrevivência

Assistindo a um documentário sobre universidades chinesas, vi uma aula de geografia com apresentação de pesquisas de futuros professores. A lousa digital e touchscreen permitia zoom na região do planeta usando o Google Earth. Pensei: "Quando conseguiremos usar essa tecnologia nas escolas e universidades públicas do Brasil?"

Isso tem um preço. No entanto, muitos cientistas brasileiros não possuem sequer um computador para trabalhar em casa. As bolsas de mestrado e doutorado servem apenas para a mera sobrevivência, sem reajuste anual, enquanto os salários de muitos cargos políticos são constantemente aumentados.

Minha visão se alinha com a de especialistas e políticos que afirmam que um sinônimo de soberania nacional é o investimento massivo em ciência e educação. Resta saber: quando isso se tornará realidade?

Autor: Everton Fargoni – Publicado no site DW.

Regalias tornam juízes casta privilegiada no Brasil!

  

Sociedade paga caro por Judiciário com excesso de privilégios e movido por interesses, escreve Alexander Busch. Na foto, a sede do STF, em Brasília. Foto Antonio Augusto- SCO/STF.

Bruno Carazza é jornalista, advogado e economista. Em seu mais recente livro, chamado O país dos privilégios, ele descreve meticulosamente como, nos 36 anos de democracia brasileira, juízes e promotores públicos ascenderam a uma elite de funcionários públicos com salários altíssimos e privilégios como os da corte portuguesa na época colonial.

Carazza sabe do que está falando. Ele mesmo trabalhou para o Estado. Hoje, ele diz que a mentalidade de autosserviço do Judiciário não está apenas prejudicando a reputação da Justiça, mas também a da democracia como um todo.

Pois, por um lado, o Supremo Tribunal Federal provou recentemente ser um garantidor da democracia. Tanto durante as tentativas do ex-presidente Jair Bolsonaro de questionar o resultado das eleições de 2022 quanto quando seus apoiadores invadiram a Praça dos Três Poderes após a eleição perdida, o STF desempenhou um papel importante na defesa do Estado de Direito.

Mas nepotismo e favorecimentos tornam o Supremo alvo de críticas.

Vantagens difíceis de justificar

Os privilégios e as vantagens são difíceis de serem justificados. Por exemplo, os juízes e promotores que atuam no serviço público têm 60 dias de férias por ano, o dobro dos trabalhadores brasileiros. Os magistrados explicam isso com uma carga de trabalho extraordinária. No entanto, o estresse não impede que a maioria dos 30 mil juízes e promotores públicos venda grande parte de suas férias. Em vez de tirar as folgas, eles continuam a trabalhar e recebem o pagamento das férias, mais o salário normal – tudo isento de impostos.

Os juízes recebem subsídios para moradia, alimentação, transporte, vestuário, despesas com funeral e tratamento odontológico. No Rio de Janeiro, até três filhos ou dependentes de servidores do TJ-RJ recebem uma ajuda de custo para pagar a matrícula e gastos com uniforme ou material escolar.

A proliferação de privilégios ocorre mesmo com um excelente salário de juízes no Brasil.

É que a remuneração máxima para um funcionário público é limitada por lei ao salário do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, de acordo com o chamado teto constitucional do funcionalismo público, ninguém pode ganhar mais do que um ministro do Supremo. Atualmente, esse teto equivale a algo em torno de R$ 40 mil por mês. Com uma renda média no Brasil de cerca de R$ 2,5 mil, é um belo salário.

Mas não parece ser suficiente para os magistrados. Por isso, eles inventam constantemente novos subsídios especiais isentos de impostos. O resultado: 93% dos juízes e promotores públicos ganharam mais do que um ministro do STF em 2023, de acordo com Carazza.

Descumprir essa norma constitucional ganhou roupagem legal, por meio de resoluções do Conselho Nacional de Justiça e decisões judiciais às vezes proferidas pelos próprios tribunais. Verbas extras podem ser recebidas de forma retroativa e não entram na conta do teto. O problema é que, mesmo com esse aval da Justiça, esse acúmulo de privilégios é extremamente questionável, além de moralmente condenável.

Resistência

Os juízes e promotores públicos resistem obstinadamente se alguém tentar vigiar seus ganhos – seus negócios são lucrativos demais para que sejam expostos.

É isso que Bruno Brandão, da Transparência Internacional, está vivenciando no Brasil. A organização não governamental, cuja sede global fica em Berlim, está representada no Brasil desde 2014. A partir de fevereiro, será dirigida pela primeira vez por uma mulher brasileira, Maíra Martini.

Os investigadores de corrupção conhecem a árdua luta do Judiciário por experiência própria. Dizem que, repetidamente, os tribunais de todos os níveis tentam atrapalhar o trabalho da organização. "Nossos honorários advocatícios [despesas] constituem uma parte grande e crescente de nosso orçamento", diz Brandão.

Inicialmente, os juízes de Brasília apoiaram as investigações anticorrupção das autoridades no caso da Lava Jato. Mas, depois, ministros do Supremo também começaram a aparecer em delações, como supostos beneficiários de empresários corruptos. Quando, de repente, eles próprios se tornaram alvo das investigações, os processos passaram a sofrer forte resistência. E logo o STF anulou as sentenças – com argumentos frágeis e apesar das sólidas provas e confissões de todos os envolvidos.

A elite do Judiciário brasileiro, que estudou nas mesmas três universidades e pertence aos mesmos grupos, se conhece. Todos sabem quais cônjuges, filhos ou parentes dos ministros do Supremo estão atuando como advogados em escritórios de advocacia cujos casos estão sendo julgados nas instâncias superiores do Judiciário. Assim, dificilmente é possível provar que o juiz é corrupto, mas sua família se beneficia das sentenças.

Sociedade paga o preço

"O problema é que ninguém controla os juízes", diz Brandão, da Transparência Internacional. Os conselhos criados especificamente para monitorar os juízes se transformaram em grupos de interesse da elite judicial.

A sociedade brasileira está pagando um preço alto pelo sistema judiciário descontrolado, com excesso de privilégios e movido por interesses: no Índice de Corrupção 2023 publicado pela Transparência Internacional, o Brasil ocupa a 104ª posição entre 180 países – e a tendência é de queda. Isso é significativamente pior do que países emergentes comparáveis, como China (76), África do Sul (83) ou Índia (93), que são conhecidos por sua corrupção.

Os privilégios não constituem um tema a ser abordado, na visão dos ministros do Supremo brasileiro. Não há necessidade de um código de conduta para seus membros, como nos EUA, explicou recentemente o ministro Alexandre de Moraes, do STF. "Os ministros do Supremo já se pautam pela conduta ética que a Constituição determina."

Mas há razões para duvidar disso.

Autor: Alexander Busch é correspondente de América do Sul. Ele trabalha para o Handelsblatt e o jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil. Artigo publicado no Site DW.