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1 de outubro de 2026

A Era do Escárnio.

 

De costas, Donald Trump, acompanhado pela primeira-dama Melania Trump e o Coelhinho da Páscoa, durante a Páscoa na Casa Branca.

Da promessa descumprida da OTAN a Gorbachev ao avanço da extrema-direita na Europa, as raízes históricas que consolidaram a transição para a Era do Escárnio.Eric Hobsbawm (1917-2012) é, para muitos, o mais importante historiador marxista da segunda metade do século XX. Autor de obra densa e solidamente documentada, ficou mais conhecido por sua famosa trilogia “das Eras”, publicada entre 1962 e 1987, na qual analisa em profundidade o que ele caracterizou como o “longo século XIX”.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Em à “Era das Revoluções (1789-1984)” analisa o impacto das grandes revoluções burguesas: a Francesa e a revolução industrial Inglesa. Seu livro seguinte, “A Era do Capital (1848-1875)” examina o triunfo global do capitalismo e a consolidação da cultura burguesa. A trilogia se encerra com “A Era do Imperialismo (1875-1914)”, focada sobre os anos de expansão planetária do capitalismo que antecederam a primeira Guerra Mundial. 

A trilogia ganhou, em 1994, o seu D’Artagnan com a publicação de “A Era dos Extremos (1914-1991)”, em que Hobsbawm contrapõe ao “longo” século XIX a ideia de um “breve” século XX, marcado pela generalização das guerras e pela ascensão e queda do império soviético. A contribuição de Hobsbawm, além de seu impressionante tour de force documental, também está em nos lembrar que a periodização na história não está subordinada ao calendário. Há séculos (como décadas) longos e breves. A década de 50, no Brasil é, para mim, um caso claro de década longa. Mas isso fica para outra vez.

Entre o estudo da história e a tentativa de acompanhar as notícias do momento de transição que temos o privilégio e o horror de vivenciar, me ocorre pensar que para os historiadores que pretendam se dedicar, daqui a algumas décadas ou séculos, ao período em que vivemos, ela poderia ser caracterizada como a Era do Escárnio. Claro que isso supõe que em décadas ou séculos ainda existam historiadores e outros espécimes humanos, ou seja, que tenhamos sobrevivido ao “dilema de Tucídides”.  Aqui cabe dizer que o fato de ser Xi Jinping a alertar o mundo ocidental e seu curioso – mas não inesperado – líder para o conceito do historiador grego do século V a.C. não configura exatamente um escárnio. É apenas uma fina ironia, mais afim à milenar cultura chinesa do que ao bárbaro Ocidente.

Me ocorre que, se Hobsbawn tem razão na ideia de que a derrocada do império soviético marca o fim do breve século XX, então o primeiro marco da Era do Escárnio seria a conversa entre Mikhail Gorbachev e James Baker, então secretário de Estado dos EUA, em uma reunião no Kremlin em 9 de fevereiro de 1990. 

Documentos com sigilo recentemente levantado indicam que nessa conversa, Baker teria garantido verbalmente a Gorbachev que, se este concordasse com a reunificação alemã, a OTAN não se moveria “nem uma polegada para o Leste”. Segundo os mesmos documentos, essa “garantia” foi reiterada nos dias seguintes por Helmut Kohl, Chanceler (primeiro-ministro) da Alemanha e por Douglas Hurd, Ministro de Relações Exteriores britânico. Que Mikhail Gorbachev tenha aceitado um acordo verbal – ou segundo algumas versões não o tenha sequer exigido – num tema de tal magnitude, ajuda a entender que ele tenha passado, nestes pouco mais de trinta anos, de estadista celebrado mundialmente a uma figura tratada com desprezo ou comiseração por políticos e historiadores. 

Certamente estará na sua conta o desastre que se abateu na Federação Russa, durante todo o período do alcóolatra e corrupto Boris Yeltsin, após sua reação à decisão de Clinton de dar a partida à estratégia de asfixia da Rússia pela incorporação dos distintos países da Europa Oriental à OTAN. Entre parêntesis: antes que alguém levante suspeitas de que esta leitura está eivada de simpatias por Putin, recomenda-se a leitura do artigo de Henry Kissinger, insuspeito de esquerdismo ou de simpatia pela KGB, publicado no Washington Post em 5 de março de 2014, com o título de How the Ukraine crisis ends.  

Voltando à possível tarefa de deixar para os historiadores do futuro algumas pistas para a compreensão da lógica da Era do Escárnio, vários capítulos seriam dedicados a Trump, seu melhor exemplo até agora. Mas a indiscutível estatura do Donald como personagem-síntese do escárnio não deve relegar ao esquecimento a contribuição daquele personagem, menor hoje e que será menor ainda no futuro, o micro chanceler Merz, que está entregando a Alemanha ao neonazismo depois de ter formulado o brilhante e inesquecível agradecimento a Israel “por estar fazendo o trabalho sujo para nós”. Em Gaza.

Nas próximas colunas vamos nos dedicar a essa tarefa de elencar lembretes para o futuro. Mas, confesse, leitor. Ao pensar em Trump, Merz ou Bolsonaro, a ideia de uma Era do Escárnio não faz sentido? Do sujeito que ficou famoso fazendo as massas televisivas gozarem ao som de “Você está despedido!” até o que empolgou quase metade da população brasileira com “E daí? Eu não sou coveiro!”, temos ou não elementos para investigar a hipótese de um curioso Zeitgeist? 

Obs. Até a próxima coluna saberemos se o Brasil conseguirá sobreviver por mais quatro anos ao império do Escárnio ou se o Zeitgeist se imporá pela força do império e das big techs.

Autor:  Carlos Ferreira Martins é Professor Titular Sênior do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos. Publicado no Site Opera Mundi.

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