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21 de outubro de 2026

Escrevendo à esmo pelas beiradas da vida!

 

Como disse um dia o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov, agraciado com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais. “Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente”.

A literatura entrou cedo em minha vida, por meio da leitura de centenas de livros, revistas e jornais. Um hábito que perdura até os dias atuais. Depois de trabalhar por trinta e oito anos consecutivos, me aposentei do escritório e, em casa, comecei a adentrar de corpo e alma na literatura de uma forma completa.

Um ano depois veio o primeiro livro; cheguei a pensar que ele seria filho único de pai solteiro. Entretanto, um ano depois veio o segundo livro, me deixando com a sensação de quero mais. Começava então um período de mudança no meu estilo e no que eu iria desenvolver dali para frente em termos de produção literária.

Depois de um hiato de cinco anos ou de um breve tempo para refletir, repensar e me reposicionar, veio o terceiro livro. Este período sabático foi positivo; este novo livro me fez adentrar no campo da política, história e questões socioeconômicas do nosso imenso país.

Para minha sorte, "De Sarney a Temer" – nossa incipiente democracia teve seu lançamento na Bienal do Livro de São Paulo em 2018. Obteve boa aceitação e alcançou uma segunda edição.  

Nos anos seguintes, 2019, 2020, 2021, 2022, 2023, 2024 e 2025, lancei os demais livros, completando dez lançamentos até o momento.

Para minha felicidade, no meio dessa trajetória literária, fui agraciado com o aceite para ser membro da Academia Bauruense de Letras na cidade de Bauru. Fiquei com a cadeira de número 33 – cujo patrono é o poeta Mário Lago.

Continuo escrevendo à esmo, sem compromisso com a chegada, sem a pretensão de encontrar respostas definitivas para perguntas que talvez nem tenham sido formuladas corretamente.

Escrevo porque a vida, às vezes, transborda por dentro, e as palavras são uma maneira de impedir que tudo isso se perca no silêncio.

Escrevo nas beiradas da estrada da vida, onde quase ninguém olha, onde os holofotes não alcançam, onde os aplausos não chegam e as grandes manchetes não se interessam pelo que acontece. É ali que encontro histórias, personagens, dores, esperanças e contradições. É ali que a humanidade se revela sem maquiagem.

Nas beiradas estão os esquecidos, os inconformados, os que envelhecem sem perceber que o mundo mudou depressa demais. Estão os que trabalham a vida inteira e pouco conseguem acumular, os que carregam sonhos adiados, os que aprenderam a sorrir para esconder as próprias feridas. Estão também aqueles que, apesar de tudo, ainda oferecem a mão, repartem o pão e acreditam que a bondade não se tornou uma espécie em extinção.

Observar a vida é descobrir que nem sempre o centro das coisas é o lugar onde a verdade se encontra. Muitas vezes, é nas margens que a realidade se apresenta com maior nitidez.

Vivemos tempos curiosos. Nunca tivemos tanta informação à disposição e, paradoxalmente, parece cada vez mais difícil compreender o mundo. A tecnologia encurtou distâncias, mas não necessariamente aproximou as pessoas. Podemos conversar com alguém do outro lado do planeta enquanto ignoramos a tristeza de quem está sentado ao nosso lado.  

 Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

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