Minha filha e eu fomos duas das 760 mil pessoas que estiveram na Bienal Internacional do Livro em São Paulo. Um deleite e uma aventura aquela tarde, em programa de sábado chuvoso, com direito a vivenciar o alagamento na capital e um trânsito mais caótico do que o já existente naquele conglomerado urbano irracional. Livros, livros, livros. Um mar de livros para navegar ideias, sonhos, amores e (des)ilusões. Da palestra de Itamar Vieira Júnior à conversa de intelectuais da negritude com Djamila Ribeiro, passando pela natureza ambiental da obra da imortal Miriam Leitão, vimos e convivemos com muita coisa. Além dos famosos, vi muita gente jovem circulando por corredores abarrotados, e enormes, infindáveis filas. Sim, filas para adentrar stands de venda, não apenas para comprar ou tietar algum escritor famoso ou de predileção. Apenas para chegar às prateleiras e aos balcões das editoras onde os livros estavam expostos à venda. Insanidade atual, pelo jeito, e me descubro mais um louco no meio de milhares que lá estavam. Um profissional eu não conhecia: o funcionário indicador de fim de fila com uma placa na mão para orientar o público.
O desafio foi o de controlar o desejo de mais e mais livros. O leitor é, antes de tudo, um consumidor. O trânsito de malas pelo espaço dizia-me que muitos visitantes viam de longe, haviam passado por hotéis, daí a necessidade de carregar roupas e itens pessoais. Mais um engano. As malas, muitas malas, eram as ferramentas de transporte das dezenas de livros que cada qual ali estava adquirindo. Eu com minha singela mochila de congresso, com amplo espaço para a dezena adquirida, já me colocava como grande adquirente da obra literária. Críticas infundadas dirão que se compram livros apenas com a certeza de que serão lidos. Livro é vida, e vida é incerta. Logo, livros não carregam em si a certeza da leitura, mas, sim, o de despertar a curiosidade para seu conteúdo, o folhear inocente por páginas desenhadas com o íntimo de outrem. Umberto Eco é ecoado aqui para dizer que livros em uma biblioteca são como itens de um menu de restaurante. Não estão lá para serem todos escolhidos, mas para atender a alguma necessidade quando assim for. O escritor dizia que mais importante do que uma biblioteca de livros lidos é uma de livros não lidos, revelando a dimensão do quanto ainda podemos expandir a dimensão do que percorre em nosso cérebro, consciência e imaginação. Livros são necessários, eis uma das três certezas universais.
Na próxima semana o planeta estará passando pelo equinócio, em que o dia terá a mesma duração da noite, doze horas para cada período. Ou seja, adentraremos a primavera aqui nas meridionais terras e mares do planeta, deixando o outono para os demais humanos da outra metade setentrional. Novamente, passaremos pelas efemérides consagradas desde que os ancestrais olharam para os céus e viram as mudanças na movimentação da lua, do sol e das demais estrelas. O Dia da Árvore seria o mais significativo e necessário delas, não tivéssemos cada vez menos áreas verdes no insólito meio urbano em que vivemos. Ainda mais quando chove em abundância, como o do sábado da Bienal, os espécimes arbóreos são sumariamente removidos, as primeiras vítimas, sem nada colocado no lugar. Uma semente gera uma planta, e o asfalto, apenas buracos. Sim, convém esclarecer que o papel dos livros não vem do desflorestamento, uma vez que todas as árvores usadas para obter a celulose são de florestas replantadas. Li e estudei bem isso, ainda que, agora, essa informação esteja disponível na ponta dos dedos acessando nuvens cibernéticas armazenadas em datacenters que gastam uma enormidade de água e energia para funcionar.
Autor: Professor Adilson Roberto Gonçalves – Publicado no Blog dos Três Parágrafos.
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