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27 de outubro de 2026

Os oligarcas sofrem uma grande derrota - O Brasil se recusa a ser intimidado.

Quantas pessoas nos Estados Unidos têm noção do tamanho do Brasil? A nação mais populosa da América do Sul conta com mais de 200 milhões de habitantes, o que torna a eleição presidencial de ontem um evento de grande importância. Mas, para além de sua dimensão, o pleito de ontem foi marcante também por servir como um prenúncio para o restante do mundo.

Tratou-se de uma disputa entre a esquerda progressista de Luiz Inácio Lula da Silva — o atual presidente — e a extrema direita revanchista de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que se encontra preso por sua tentativa de anular a última eleição presidencial brasileira. A direita global dava a vitória como certa, e até mesmo os mercados de apostas eleitorais indicavam que Bolsonaro venceria. Por isso, a vitória de Lula foi uma surpresa.

Tendo sido alvo de manipulação psicológica (*gaslighting*) por parte da extrema direita, parte da mídia internacional pareceu ter dificuldade em assimilar o resultado. Eis a manchete do *Financial Times* no momento em que escrevo este texto: “Votação acirrada”? Lula venceu com uma vantagem de 3 pontos percentuais — o dobro da margem obtida por Donald Trump em 2024. E ele o fez apesar dos esforços da direita, tanto no Brasil quanto em outros lugares, para manipular o pleito contra ele.

O horário de votação foi estendido em duas horas, uma vez que interrupções generalizadas no transporte público dificultaram o deslocamento dos eleitores da classe trabalhadora até os locais de votação. A campanha de Lula alegou que tais interrupções foram orquestradas por prefeitos alinhados a Bolsonaro — uma acusação claramente corroborada por evidências em algumas cidades e, de modo geral, plausível diante do histórico político recente; especificamente, a tentativa de Bolsonaro pai de anular a última eleição presidencial.

E a extrema direita brasileira não esteve sozinha em sua aparente tentativa de manipular a eleição em favor de Bolsonaro. Empresas de redes sociais sediadas nos Estados Unidos — a Meta, em particular — também pareceram interferir no processo, pendendo a balança a favor de um dos lados. Após o primeiro turno da votação, a Reuters informou que funcionários da Meta reconheceram, em comunicações internas, que as contas do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva no Instagram foram alvo de restrições durante as eleições no país — informação divulgada na sexta-feira pelo jornal Folha de S.Paulo, com base em mensagens às quais o veículo teve acesso.

Segundo a reportagem, as mensagens também revelaram que a plataforma recomendou o perfil do senador Flávio Bolsonaro — adversário de Lula —, bem como seu canal no WhatsApp. Além disso, em um artigo intitulado “Meta substitui Musk como vilão tecnológico para Lula nas eleições brasileiras”, a Bloomberg relatou que

Lula — que, nos últimos dias, reuniu mais de 10 milhões de apoiadores em um canal no WhatsApp chamado “Exército do Lula” — alegou ter sofrido interrupções em sua conta, restrições em publicações no Instagram e um engajamento desigual com o público. Sua campanha afirmou, ainda, que a Meta AI — ferramenta de inteligência artificial generativa da empresa — recusa solicitações para criar imagens relacionadas a Lula, ao mesmo tempo em que gera material de campanha favorável ao seu oponente.

A Meta alegou que tais incidentes refletiam “problemas técnicos não relacionados entre si” — uma justificativa que seria mais crível se todos esses supostos problemas técnicos não tivessem inclinado o campo de disputa na mesma direção. Será mera coincidência que, nos Estados Unidos, a Meta tenha suspendido a conta “No Kings Day” no Instagram justamente durante os protestos daquele dia? Posteriormente, a empresa alegou que a medida não teve relação com política, tratando-se de um erro decorrente de seus sistemas automatizados de segurança, que detectaram um possível aumento no tráfego de bots.

Mais uma vez, é curioso como os problemas técnicos da Meta parecem sempre inclinar o cenário político na mesma direção. É possível provar que a Meta tentou, deliberadamente, reconduzir os Bolsonaro ao poder? Não — pelo menos, não por enquanto. Mas não estamos em um tribunal: estamos apenas tentando entender o que aconteceu. E as pessoas que aparecem nesta foto não têm direito à presunção de inocência ou de boas intenções:

Embora as negativas da Meta careçam de plausibilidade, não é possível provar que Mark Zuckerberg tenha tentado, de forma deliberada, entregar o Brasil nas mãos de um autoritário de direita. No entanto, não há dúvida de que Elon Musk interveio, de forma intencional e contundente, a favor de Vladimir Putin em seus esforços para conquistar a Ucrânia. Musk continua mudando sua versão sobre o ocorrido — primeiro, negou qualquer envolvimento, alegando que a ordem partiu da Casa Branca; agora, afirma que a Ucrânia violou seus termos de serviço. Mas essa farsa é totalmente implausível, visto que Musk já deixou claro, há muito tempo, que, nesta guerra, suas simpatias estão com a Rússia.

Portanto, celebremos o povo brasileiro, que se recusou a ser intimidado por Bolsonaro, pelos oligarcas americanos e por Trump — o qual, em 2025, impôs tarifas elevadas ao Brasil pelo simples fato de o país ter levado a julgamento um traidor e insurrecionista (Bolsonaro pai). Esperemos que, em pouco mais de uma semana, os americanos demonstrem a mesma lucidez e votem pela democracia." 

Autor: Paul Krugman - Prêmio Nobel de economia.

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