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1 de fevereiro de 2020

Governo Bolsonaro vai taxar as grandes… fortunas? Não, as grandes pobrezas!

Vivemos tempos duros, nos quais uma onda mundial tenta reverter as grandes reformas democráticas que tornaram o mundo menos desigual.
O presidente Jair Bolsonaro ao lado do filho, o senador Flávio Bolsonaro, em lançamento de seu partido, Aliança Pelo Brasil. Evaristo Sa (AFP)
O título desta coluna não tenta ser uma provocação, e sim a descrição de uma dura realidade. Vi a feliz frase sobre “taxar as grandes pobrezas” numa lúcida análise de Eliane Cantanhêde no jornal O Estado de S. Paulo. As reformas que o governo de extrema direita está realizando deveriam, de fato, ter começado com os olhos postos nas franjas mais frágeis da sociedade, e não ao contrário. Assim, em vez de ter começado, por exemplo, taxando as grandes fortunas, os grandes bancos, os grandes dividendos, as grandes heranças, os escandalosos privilégios dos políticos e das corporações, que levaram a política no mundo todo a se arrastar desprestigiada pelo chão, decidiram ampliar ainda mais as grandes pobrezas, cobrando imposto até sobre o seguro-desemprego. Esquecendo-se de que só uma política social assegura o exercício pleno da democracia, com a soberania do povo. O contrário conduz aos tempos sombrios da escravidão.
Sim, o governo Jair Bolsonaro está levando a cabo reformas que, começando pela previdenciária e continuando com mudanças trabalhistas —carteira verde-amarela ou taxar o seguro-desemprego—, castiga os grandes bolsões de pobreza e miséria que juntos representam a maioria dos 210 milhões de brasileiros. O novo projeto das aposentadorias deveria ter começado por levar em conta aqueles milhões de trabalhadores que durante toda uma vida realizaram os trabalhos mais duros, nas fábricas, no campo, em todos os setores menos remunerados. Justamente esses milhões que trabalharam duro durante mais de 30 anos e que, quando chegar sua vez de um justo descanso, terão que sobreviver com uma pensão de fome; eles que, ganhando um salário mínimo, não conseguiram economizar nem acumular capital, porque mal tinham como chegar ao fim do mês sem se endividar.
Ao contrário, quem já ao longo da vida goza de um trabalho bem remunerado chega à aposentadoria com um acúmulo de bens que dá e sobra para poder viver sem aposentadoria e com tranquilidade. Sim, são as grandes pobrezas que estão sendo castigadas e humilhadas para que os privilegiados de sempre possam continuar desfrutando e sem apertos na hora da aposentadoria.
A quem culpar por essa tragédia social em que os mais frágeis serão novamente os bodes expiatórios do capitalismo brutal que vai deixando rios de dor e injustiças pelo caminho? Ao governo ultraliberal de Bolsonaro? Não. Antes da sua chegada, uma esquerda distraída e culpada, que passou 13 anos no poder e com o consenso de até 80% da população em alguns momentos, teve a oportunidade de realizar essas mesmas reformas, mas com o coração voltado para os mais frágeis. Reformas com forte conteúdo social, começando pela base de uma pirâmide de trabalhadores que cada vez se amplia mais, enquanto continua enriquecendo as grandes fortunas que são a minoria da população.
Essa esquerda que neste momento só soube dizer não às reformas da ultradireita, sem apresentar alternativas sociais, não foi capaz de realizar as grandes reforma com forte conteúdo social. Nem a trabalhista nem a política nem a do Estado, ainda que tenha feito algumas mudanças na Previdência. E não porque faltasse a esses governos consenso popular ou força no Congresso, já que governou com os partidos mais fortes. Foi, entretanto, incapaz de instaurar governos social-democratas, de centro-esquerda, em vez de sair de braços dados com a grande direita do dinheiro. Ainda me lembro de ter escutado o então presidente Lula dizer numa reunião com banqueiros em São Paulo: “Vocês nunca antes tinham ganhado tanto como comigo”. Triste recorde que humilha os pobres que devem pagar juros absurdos para poder sobreviver.
Agora, quando essa direita tomou o poder e é ela que faz essas reformas com o coração posto naqueles que menos precisam delas, de pouco serve derramar lágrimas de carpideira. Já é tarde. A esquerda não terá mais força para suscitar um movimento de rebeldia. Perdeu o trem, adormecida que estava sobre os louros de um consenso impressionante, que não soube aproveitar.
Em um período semelhante de 14 anos, na Espanha, o governo socialista de Felipe González, com apoio do rei Juan Carlos, teve tempo de transformar um país arruinado, despedaçado após 40 anos de dura ditadura franquista. Encontraram um país que precisava ser reconstruído política, jurídica e socialmente após décadas de pobreza material e cultural, em que tinham sido abolidas todas as liberdades modernas e os direitos mais elementares. E o fizeram com as grandes reforma progressistas que devolveram ao país os direitos sindicais, de liberdade de expressão, de divórcio, de gênero e do aborto. Essas grandes reformas que colocam um país na rota da modernidade e que a esquerda brasileira não soube concluir quando tinha força para isso.
Vivemos tempos duros, nos quais uma onda mundial tenta reverter as grandes reformas democráticas que tornaram o mundo menos desigual e lhe permitiram viver os ares de uma democracia séria e segura, sem a qual não existem reformas possíveis. E nestes momentos quem mais sofrerá com essa tentativa de volta à escuridão política e social serão sem dúvida os párias de sempre, que, por sua vez, sustentam com seu trabalho as colunas do mundo.
Se os políticos de esquerda e de direita encasquetarem em não querer olhar para essas massas de trabalhadores que a sociedade do consumo abandonou na pobreza; se não forem capazes de abrir os olhos a essas tremendas injustiças sociais que aumentam com os problemas dos milhões de migrantes que percorrem o mundo como uma sombra e um alarme, então é possível que pela primeira vez o mundo, que sempre foi melhor em seu presente que em seu passado, porque as conquistas da ciência e a tecnologia lhe abriam espaços novos de liberdade, acabe nos fazendo suspirar pelo passado, numa grave miragem perversa.
O Brasil se reduz cada vez mais a essa nova trindade apresentada simbolicamente pelo novo partido criado por Bolsonaro, de Deus, violência e caça às bruxas comunistas, que já não existem mais porque, além de tudo, se aburguesaram. A esses milhões que se entregaram nas mãos de Bolsonaro agitando a bandeira de Jesus com a Bíblia na mão seria preciso recordar a dura passagem do evangelho em que Jesus grita: “Atam cargas pesadas e as colocam sobre os ombros dos mais fracos que sois incapazes de suportar” (Mt, 23, 4ss).
Que leiam, sim, os evangelhos, mas para entender que o cristianismo foi, em seus primórdios, revolucionário e em defesa dos mais necessitados. Que o profeta de Nazaré, perante as multidões famintas, necessitadas e sem poder que lhe seguiam, exclamou: “Tenho compaixão por esta gente”. E é essa compaixão por quem é abandonado no caminho por ser diferente é a única coisa que pode mais uma vez salvar este mundo atormentado e cada dia mais injusto. Quem se atreverá a apostar nessa utopia sem a qual a realidade nos levará ao inferno da violência e do desprezo pelos valores do único humanismo que pode nos salvar? Todo o resto são inúteis atalhos sem saída.
Cabe aqui um recado ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que justificou a alusão feita ao famigerado decreto AI-5 por temer protestos como o que sacodem o resto da América Latina. Ministro, troque o medo pela compaixão proposta por Nazaré. Deixe-se guiar pelas vozes e os sentimentos certos. Pode valorizar os mascarados agressivos dos protestos do Chile, ou prestar atenção na música do cantor Victor Jara que os jovens chilenos têm cantado durante os atos: “o direito de viver em paz”, buscando dignidade por um novo pacto social que corrija as mesmas injustiças de taxar a grande pobreza, herdada de Pinochet.

Autor: Juan Arias – El País.

Unificação da Irlanda, sonho possível!

“La vida es sueños. E los sueños sueños son (Calderón de La Barca, poeta espanhol)”.
Uma só Irlanda para todos os irlandeses foi um sonho que virou uma utopia frustrada. O povo irlandês passou vários séculos lutando, primeiro pela independência da sua ilha, depois pela unificação das duas partes em que fora dividida pelos ingleses. Nas últimas décadas teve de desistir, conformou-se com a tirania da realidade e das armas britânicas. Eis que, num momento sombrio em que os ingleses elegem um populista de direita, com tudo de negativo que essa ideologia carrega, abre-se uma fresta e a causa irlandesa, aparentemente perdida, começa a ganhar a forma de um sonho agora possível, embora de realização difícil e demorada.
Em tempos imemoriais, o povo irlandês era constituído por clãs, que raramente se uniam em quatro reinos, hostis uns aos outros. No século 12, sofreu a primeira invasão inglesa bem sucedida. No entanto, a ocupação da ilha pelo país vizinho não foi total, nem permanente. Somente quase 500 depois, a Inglaterra consolidou seu domínio, no reinado de Henrique VIII, que impôs a religião anglicana aos seus súditos. A maioria dos ingleses aceitou, mas os irlandeses desafiaram as ordens do rei, mantendo-se católicos.
A reação de Henrique foi tomar terras dos proprietários irlandeses e oferecê-las a nobres ingleses. Essa política foi ainda mais radical no governo da filha de Henrique, Elizabeth I, o que estimulou a aliança entre os clãs irlandeses. Eles promoveram a primeira revolta pela sua independência, por sinal, violentamente reprimida.
No governo republicano do ditador Cronwell, que derrubou a monarquia, em 1640, a situação ficou ainda desumana. Inconformados, os irlandeses rebelaram-se mais uma vez. Milhares deles foram massacrados, sendo vastas áreas tomadas aos católicos e entregues a protestantes ingleses, trazidos pela ditadura Cronwell.
Mas a monarquia voltou à Inglaterra e, durante os dois séculos seguintes, a resistência irlandesa continuou, limitada, porém, a protestos e ações esporádicas. No final do século XVII e início do XVIII, o Parlamento inglês exagerou o nível da opressão, retirando direitos políticos dos irlandeses e criando mais leis opressivas.
No período 1847-1848, abateu-se sobre a ilha a Grande Fome. Sua origem foi uma praga, que destruiu todas as plantações de batatas, alimento básico dos pobres, causando a morte de 800 mil deles e a imigração de milhões para os EUA.
Poucos protestantes, maioria nas classes rica e média, foram atingidos e se aproveitaram para comprar terras dos emigrados, a preços extremamente baixos. Nessa triste contingência, o governo inglês se omitiu, nada fez para proteger o povo irlandês.
Com isso, em 1900, 750 proprietários protestantes possuíam mais de 50% das terras cultiváveis. Os católicos, que se salvaram da fome devastadora, eram donos de 14%, em geral pequenas propriedades.
A formação do Eire
Em 1905, os nacionalistas irlandeses fundaram o partido Sinn Fein - com o objetivo de lutar pela independência da ilha. A ela se opôs a milícia “Voluntários do Ulster”, criada pelos unionistas.
A essas alturas na região do Ulster (hoje, Irlanda do Norte), o protestantismo se tornara maioria. Muitos trabalhadores escoceses e ingleses dessa religião haviam se fixado, atraídos pelos empregos oferecidos no processo de industrialização, que estava em marcha. Os conflitos entre protestantes unionistas (favoráveis à permanência no reino inglês) e os nacionalistas católicos (defensores da independência) se tornaram mais intensos. Em abril de 1916, no Levante da Páscoa, os nacionalistas decretaram a República da Irlanda. A repressão inglesa foi feroz, tendo executado os líderes revolucionários, depois de um julgamento rápido e de duvidosa legalidade.
Não pegou bem no povo. E, nas eleições de 1918, o Sinn Fein elegeu a maioria dos deputados da ilha no Parlamento da Inglaterra. Não demorou muito para que, em 1919, esse partido proclamasse a Independência da Irlanda e a formação de um governo, prontamente rejeitado pelas autoridades inglesas.
Nesse mesmo ano, foi fundado o IRA (Exército Republicano Irlandês), que lançou ações terroristas, emboscadas e explosões de bombas contra objetivos militares e políticos, em toda a Irlanda. Devido às dificuldades para a polícia inglesa enfrentar os rebeldes, o governo de Londres organizou uma força paramilitar, integrada por indivíduos violentos, muitos deles veteranos da 1ª Grande Guerra, desempregados, para colaborar na repressão. Formou-se assim o Black Tan, uma milícia de triste memória entre os irlandeses.
Na guerra sangrenta contra o IRA, o Black Tan destruiu lares, matou rebeldes e inocentes, mulheres e crianças, cometeu inúmeras atrocidades. Foi o autor do incêndio do centro da cidade de Cork, da cidade de Balbriggan e de muitas aldeias, provocando terror. E assim incentivando centenas de adesões à causa da independência.
Num dos episódios desta guerra civil, tendo o IRA fuzilado 14 agentes-secretos ingleses infiltrados em suas fileiras, as autoridades militares resolveram dar uma lição ao povo irlandês. Num domingo de novembro, um estádio estava lotado por torcedores assistindo um jogo de futebol gaélico. Subitamente, entraram carros de combate ingleses que despejaram tiros de metralhadora nos assistentes, matando quatorze pessoas e ferindo 65. E, ainda no mesmo dia, a polícia do governo espancou até a morte três rebeldes prisioneiros.
Esse atentado ficou na história com o nome de Domingo Sangrento de 1920. Pressionado por uma guerra que se tornava intolerável, por seu alto custo e má repercussão internacional, o governo inglês acabou por ceder. Em 1922, reconheceu a independência do Estado Livre da Irlanda (Eire, em idioma gaélico), ocupando 4/5 da ilha, que se tornou membro da Commonwealth (Comunidade Britânica de Nações) sob autoridade apenas formal do rei da Inglaterra.
Por outro lado, a região do Ulster, 1/5 da Irlanda, continuava parte da Inglaterra, com o nome de Irlanda do Norte.
Postergação histórica
Os líderes da luta pela independência foram forçados a aceitar a inócua subordinação ao rei da Inglaterra, considerando ser preferível a uma guerra, que já derramara sangue em excesso e provavelmente não teria chances de êxito.
Em 1949, com a retirada da Commonwealth e o fim do juramento de fidelidade ao rei inglês, uma das concessões do acordo de 1922 foram canceladas. Sobrava a outra, a partição da ilha. O IRA se opôs, queria a unificação das duas partes separadas num só país, a República da Irlanda. Tendo em vista esta reivindicação, o IRA passou a focar suas ações bélicas na Irlanda do Norte, contra a posição pró-status quo da população protestante. Acentuou-se então a rivalidade entre católicos e protestantes, estes apoiados pelo governo inglês e a polícia local. Com o tempo, a situação se estabilizou, com redução gradativa dos choques. Em fins de 1960, inícios dos anos 70, as coisas voltaram a pegar fogo numa campanha pelos direitos civis dos católicos, contra a discriminação que sofriam nos direitos de voto, de habitação e de emprego, pelo governo protestante e empresas locais. Os manifestantes eram atacados por grupos protestantes radicais, com ajuda da força policial. Rapidamente a violência dos dois lados cresceu e se espalhou.
Em janeiro de 1972, aconteceu novo domingo sangrento. Um batalhão de paraquedistas ingleses atirou contra civis católicos, matando 11 e ferindo outros. Todos estavam participando de uma marcha pacífica pelos direitos civis em Derry.
O exército inglês quis enganar a opinião pública, alegando que os mortos estavam armados. Uma cuidadosa investigação levou 38 anos, mas revelou que nenhuma das vítimas portava armas. No governo Thatcher (1979-1990), quando os rebeldes presos foram tratados no cárcere como criminosos comuns ou mesmo assassinados por setores da segurança, o IRA multiplicou sua ação. Promoveu atentados a bomba não mais só na Irlanda do Norte, também na própria Inglaterra.
Não dava mais para continuar. A opinião pública internacional condenava os métodos violentos das forças de segurança. A opinião pública em todo Reino Unido exigia o fim da guerra civil. Foi um primeiro-ministro trabalhista, Tony Blair, que, em 1998, mediou um acordo entre os unionistas pró-Reino Unido e os nacionalistas do Sinn Fein, estabelecendo eleições livres para a formação de um parlamento norte-Irlandês e um ministério com participação católica. E a Irlanda do Norte teria autonomia administrativa, embora permanecendo subordinada ao governo de Londres em questões fundamentais.
O IRA e os Voluntários do Ulster se obrigavam a entregar suas armas e interromper suas lutas. E assim se fez a paz.
Nos termos do chamado “Acordo da Boa Sexta-feira”, a partição da ilha seria mantida, com base no “princípio do consentimento”, respeitando a posição da maioria dos protestantes norte-irlandeses, que desejavam continuar no Reino Unido. Os representantes do Sinn Fein foram para casa, conformados, pois um aumento do número de católicos suficiente para dominar as eleições seria algo remoto e incerto. A unificação das Irlandas ficaria, quem sabe, para seus netos.
E um dia veio o Brexit
Mas os ventos ensaiaram uma mudança de direção, já em 2016. No referendo do Brexit, realizado em todo o Reino Unido, a maioria do eleitorado norte irlandês – 55% - votou para continuar na Europa, contra a maioria do eleitorado das regiões britânicas.
Várias tentativas para se chegar a um acordo que permitisse uma saída civilizada da União Europeia foram bloqueadas especialmente porque as duas Irlandas exigiam que as fronteiras entre elas continuassem abertas, por sérias razões econômicas e humanas. Com o Brexit parecia impossível – pois ambas integrariam entidades diferentes – na Irlanda do Norte, o Reino Unido, e na República da Irlanda, a União Europeia.
No entanto, nas dezenas de anos sem fronteiras entre as duas Irlandas, ambas integrantes da União Europeia, os dois povos se aproximaram. Através de relações comerciais livres de impostos, da prestação de serviços de habitantes de uma região a pessoas da outra, escolas frequentadas indiferentemente por estudantes do Norte e do Eire, de um sem número de outras atividades, dois povos estavam se tornando um único, com mútuos interesses econômicos e humanos que não queriam perder.
Para manterem as fronteiras abertas no Brexit, surgiram diversas soluções, entre elas, a unificação de toda a ilha na República da Irlanda, que ganha apoio crescente entre todos os irlandeses. No entanto, surgiu um obstáculo: o princípio do consentimento, que dava à maioria protestante o direito de decidir sobre o status da Irlanda do Norte.
Mas vieram as eleições parlamentares e, pela primeira vez na história da Irlanda do Norte, os nacionalistas, advogados da unificação, venceram os unionistas, pró-permanência no Reino Unido. O placar foi 9 deputados contra 8 dos adversários.
Michelle O´Neil, vice-líder do Sinn Fein, celebrou o resultado: “o gênio saiu da garrafa da unidade irlandesa e não vai voltar. Acredito que esta tendência irreversível estará se movimentando muito rapidamente (Irish Post, 25-10-2009)”.
Ele deve ter razão. Os norte-irlandeses já sentiram as vantagens da fronteira livre. Para eles, são tão importantes que, unidos ao governo do Eire, bloquearam várias propostas de acordo no Brexit por não garantirem a continuidade do livre trânsito de pessoas e bens entre as duas partes da ilha. O feroz conflito de religiões, que marcou a história da Irlanda durante séculos, abrandou-se de forma sensível, muito em função dos interesses comerciais e laços pessoais que uniram os irlandeses de toda a ilha, quando membros da União Europeia.
A vitória dos partidos adeptos da unificação, pela primeira vez na história, parece um sinal de que o feeling of belonging (sentimento de pertencer) à nação Irlanda ficou mais forte, superando o peso da identificação religiosa.
A vitória dos defensores da unificação no pleito de 2019 foi significativa, mas a margem de 9 x 8 ainda é muito apertada.
Maturação 
Vale como começo, mas é de se crer que será necessário um vasto trabalho para convencer a grande maioria dos norte-irlandeses da ideia de “uma só Irlanda”. Só assim se criará uma vox populi suficientemente forte para calar as objeções que surgirão.
Os líderes do Sinn Fein já falam num referendo, mas são realistas, sabem que não é para logo. Num discurso em Derry, Mary Lou Macdonald, líder do Sinn Fein apostrofou os chefes de governo do Reino Unido e do Eire: “que esta mensagem chegue alta e clara ao prédio do governo, em Dublin, e a Downing Street, 10 (sede do primeiro ministro inglês), que esta nova década seja aquela em que finalmente acabaremos com a partição e chegaremos à nova Irlanda unida”. Nessa ocasião, afirmou que o referendo sobre o assunto deveria ser convocado no prazo de cinco anos (Irish Times, 16 de novembro). Podemos prever que o governo de Boris Johnson não vai gostar nada e fará de tudo para afundar esse barco.
Há quem sustente ser dispensável o nihil obstat inglês. Diz Craig Murray, ex-embaixador da Inglaterra, no seu website: “é perfeitamente normal que Estados se tornem independentes sem a permissão do Estado do qual estão se separando”.
E ele cita: “o próprio governo inglês alegou precisamente esta posição diante da Corte Internacional de Justiça no caso de Kosovo (no julgamento da independência desta nação)”. Não se pode confiar totalmente no poder desse argumento. É de se pensar que o populista primeiro-ministro Boris Johnson é daqueles para quem nada vale quando não convém a seus interesses.

Autor: Luiz Eça – Correio da Cidadania.

O obscurantismo negacionista no Itamaraty - Parte I - Ernesto e os Extremos!

Vocês algum dia imaginaram ser esse lixo paranoico o tipo de leitura adotado e recomendado por um ministro das relações exteriores do nosso país (Print do Twitter de Ernesto Araujo.
Tudo no atual "governo" do Brasil é bizarro. De um ministro do meio ambiente cujo papel é obviamente o de acelerar a devastação ambiental a um ministro da educação que aposta no desmonte do ensino público, de um por um, até, claro, a bizarrice-mor que ocupa a presidência. Mas mesmo em meio a esse circo de horrores, uma figura se destaca, por ser o que melhor expressa o olavismo, o negacionismo climático e a ideologia anticiência em geral. Trata-se de Ernesto Araújo, ocupante do Ministério das Relações Exteriores, uma figura que abraça com força a paranoia das ditas teorias de conspiração e cuja posição sobre a questão climática já antecipamos aqui mesmo, em nosso blog.
A bizarrice do chanceler se espalha em tudo aquilo que ele resolve opinar a respeito. O nível de delírio é tão medonho que ele chega a afirmar que "a esquerda quer uma sociedade onde ninguém nasça, nenhum bebê, muito menos o menino Jesus". Mas como aqui a nossa praia é mudança climática (diferentemente do novo diretor do INPE), vamos nos deter à pérola do chanceler neste tema.
Também por intermédio do Twitter do ministro, fiquei sabendo que ele havia cometido um texto intitulado "Falsas aspas, falsos modelos", o que me motivou a responder também no Twitter, começando na mesma noite, mas se estendendo pelos dois dias seguintes. Resolvi, então, colocar aqui, de maneira sistematizada e melhor estruturada, a resposta ao delirante Ernesto. Vamos lá!
Imagino que a motivação do ministro para escrever tanta bobagem tenha sido a série de reportagens que se seguiram à declaração dele, negando o aquecimento global com base no fato de que "estava frio em Roma". Ou seja, era a velha confusão entre tempo e clima. Mas ao colocar por escrito, alegando que "não era bem aquilo que queria dizer", veremos que Ernesto só piorou a sua própria situação...
Como é que o ocupante do Itamaraty trata a questão dos eventos extremos de tempo? Afirmando que "qualquer fenômeno específico que pareça comprovar essa convicção [de que existe aquecimento global], como um recorde de calor em algum lugar, tende a ser amplamente reportado, ao passo que um fenômeno que pareça desmenti-la é rejeitado e não aparece com destaque na mídia".
Razão entre extremos mensais de calor e de frio, no mundo, desde 1880, com projeção para as próximas décadas. Fonte Coumou et al. (2013)
Para o chanceler, é como se extremos de calor estivessem sendo indevidamente usados para confirmar o aquecimento global, enquanto eventos frios estariam sendo ignorados. Isso faria sentido se a ocorrência de extremos de calor e frio fosse equivalente, como seria de se esperar num clima em equilíbrio. Acontece que todas as estatísticas demonstram que a frequência de extremos de calor é, hoje, bem maior do que a frequência de baixas temperaturas. Cinco vezes para ser mais preciso.
É o que demonstra o artigo de Coumou et al., de 2013, na revista científica Climatic Change. Aliás, como mostra a figura do artigo (que reproduzimos aqui), a partir dos anos 1980, a quebra de recordes de alta temperatura passou a ser mais de duas vezes mais frequente que a quebra de recordes de baixa. Hoje em dia, a proporção é de 5 para 1, podendo chegar a 10 para 1 até mesmo antes de 2030.
Mesmo que isoladamente nenhum evento de tempo seja necessariamente representativo, há, portanto, uma óbvia assimetria aqui. Usar uma onda de calor extremo de maneira ilustrativa para a tendência observada de aumento da frequência desse fenômeno é legítimo, especialmente se for feita a ressalva sobre a estatística de eventos. Já usar um episódio de frio cuja frequência é cada vez menor para tentar "refutar" o aquecimento global, aí sim, é uma manipulação flagrante. Trata-se de querer vender como regra aquilo que é, cada vez mais, exceção.
Na verdade, com noções elementares de estatística se torna fácil entender porque extremos como os recentes eventos de calor extremo na Europa e no Alaska devem se tornar cada vez mais frequentes, ao passo que recordes de frio vão ficando mais e mais raros. Com um pouquinho de esforço, talvez até o ministro seja capaz de absorver o conceito.
Considere a figura abaixo, que mostra uma distribuição de temperaturas para uma determinada região. Em geral, a maior parte dos registros acontece em torno da média para aquele período do ano, como mostrado na curva amarela. As frequências de eventos frios e quentes são proporcionais, respectivamente às áreas coloridas em azul e amarelo próximo às extremidades da curva.
Em outras palavras, temperaturas muito mais baixas que a média são relativamente raras, assim como temperaturas muito mais altas. Mas sem que haja uma mudança no clima, a estatística permanece a mesma e a frequência de eventos frios e quentes permanece equivalente.
 Mas o que acontece quando a própria temperatura média aumenta? A distribuição como um todo se desloca, como mostrado na curva vermelha. Nesse caso, a área em azul sob a curva, à esquerda, correspondente à frequência de extremos de frio, diminui. Em contrapartida, a área em amarelo, à direita, correspondente à frequência de extremos de calor, aumenta. A proporção entre as duas, que antes era de um para um, muda radicalmente. E o que também acontece é que a chance de quebra de recorde de calor se torna bem maior (área vermelha).
Para o chanceler, a atenção dada às ondas de calor (que além de mais frequentes estão cada vez mais perigosas e até mortíferas) teria o mero propósito de validar a "conspiração globalista". Também conforme o pensamento distorcido de Ernesto Araújo, a conspiração também deve estar escondendo recordes de frio. Mas como mostramos aqui, o único tipo de extremo que está tão frequente quanto as ondas de calor são os extremos de delírio conspiracionista do chanceler. Ou o extremismo político-ideológico a que ele é afiliado e que se traduz numa paranoia conspiracionista e anticiência.
Mas esse equívoco evidente é só o começo... Ernesto segue, aventurando-se a falar de Paleoclima, então imaginem o que vem por aí! Mas isso é papo para a Parte II da resposta ao ministro. Até lá!

Autor: Alexandre Araujo Costa é cientista do clima.

Ditadura e desigualdade!

Recentemente, pesquisadores e instituições com reconhecido trabalho no campo da economia têm lançado luz sobre a dimensão da desigualdade social no Brasil. Da lavra da Fundação Getúlio Vargas, (FGV) o estudo intitulado “A escalada da Desigualdade” revela que, na comparação mensal, a desigualdade social tem alta ininterrupta desde o segundo trimestre de 2015. Nem mesmo em 1989, o nosso pico histórico de desigualdade brasileira, houve um movimento de concentração de renda por tantos períodos consecutivos. No último trimestre de 2014 foi o período em que a concentração de renda alcançou seu mínimo histórico no país.
De lá para cá, foram 17 trimestres consecutivos de aprofundamento do abismo socioeconômico, o período mais longo de alta na concentração de renda dos brasileiros já contabilizada. E foi a população mais pobre quem teve a maior perda na renda domiciliar fruto do trabalho. O principal motivo para esses resultados, de acordo com a FGV, é o desemprego no país, resultado da crise econômica que corrói desde 2015 o poder de compra das famílias. Os dados mostram que a taxa de desemprego no país, que em 2014 era de cerca de 6,5%, chegou a 12% no segundo trimestre de 2019.
Já a tese de doutorado premiada do economista Pedro Ferreira de Souza, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vai mais fundo nas raízes da desigualdade. A pesquisa dele detalha a concentração de renda no Brasil no período de 1926 a 2013 e foi convertida no livro “Uma História de Desigualdade”, que já ganhou dois prêmios Jabuti – mais importante na literatura brasileira - nas categorias Livro do Ano e Humanidades.
O economista estabelece uma relação direta entre a desigualdade, democracia e ditadura na distribuição de riquezas. O estudo revela que a desigualdade brasileira caiu nos períodos democráticos, de 1945 a 1964, mas subiu durante as ditaduras, tanto no Estado Novo quanto no regime militar. Souza afirma no estudo que a democracia reduziu as desigualdades porque dá mais voz aos pobres, assim como considera que as ditaduras tenham levado a um crescimento da desigualdade já que reprimiram movimentos sociais, como os sindicatos. O que reforça a tese de que democracia e instituições estáveis são saudáveis para a economia.
A pesquisa indica, ainda, que programas de redistribuição de renda não são suficientes pra redução expressiva das desigualdades, apenas aproximaram as classes mais baixas da classe média. Com dados históricos da taxação da renda no Brasil, Souza conta que está aí a razão da evolução da renda dos mais ricos, com atenção especial ao 1% mais rico. Um problema que o Brasil precisa enfrentar: a regressividade do sistema tributário brasileiro, que penaliza os mais pobres e cobra menos dos mais ricos.
Daí a importância de nós priorizarmos a agenda social na Câmara. Na visão de alguns deputados, e eu me incluo nesse grupo, de nada adianta o Congresso aprovar reformas econômicas que vão exigir sacrifícios da população brasileira se não houver uma contrapartida social. É preciso que o parlamento dê demonstrações de sensibilidade social, que se traduzam em ações que justifiquem tantos cortes e minimizem as desigualdades sociais no país.
Recentemente, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, lançou a agenda legislativa para o desenvolvimento social. O objetivo é propor uma série de ações voltadas ao combate à pobreza e à redução das desigualdades. São cinco os eixos principais da agenda social: garantia de renda; inclusão produtiva; rede de proteção ao trabalhador; incentivo à governança responsável com uma lei de responsabilidade social; e promoção do acesso à água e ao saneamento.
O estado brasileiro, nos últimos 30 anos, criou um dos países que mais concentram renda na mão de poucos. Por isso, a ideia é de que os que possuem mais renda possam dar maior contribuição para redução das desigualdades. Entre as proposições também está a inclusão do Bolsa Família na Constituição Federal e um projeto de lei para criar um benefício específico voltado à primeira infância. O foco serão os primeiros cinco anos de vida, fase decisiva para o desenvolvimento cerebral. Esse incentivo deve beneficiar mais de 3 milhões de crianças.
Pra equilibrar a falta de ações sociais no Pacote Mais Brasil, do Ministério da Economia, a Câmara vai se dedicar às temáticas sociais. Como disse num artigo anterior, é preciso reduzir com urgência uma Uganda que existe aqui no Brasil. É o que diz outro estudo do economista Pedro Nery, segundo o qual os 20% mais pobres no nosso país que tem a mesma renda per capita de Uganda, um dos países mais pobres do mundo. Uma mazela que exige de nós, homens públicos, uma ação corajosa e efetiva porque país sem justiça social é um país que lega às gerações de brasileiros um presente sem direitos e um futuro sombrio e incerto.

Autor: Marcelo Ramos - Bacharel em Direito.

8 de janeiro de 2020

"Salário-esposa" vai custar R$ 455 mil à Prefeitura de São Paulo em 2020...

O nome soa estranho em 2020. Em 1967, quando foi criado, talvez nem tanto. O chamado "salário-esposa" surgiu como um benefício a ser pago ao servidor público da cidade de São Paulo, homem, cuja mulher não trabalha. Existe até hoje e, em 2020, vai custar R$ 455 mil aos cofres públicos, conforme publicado no Diário Oficial do Município do dia 31 de dezembro de 2019. Em 2018, a estimativa é que cada funcionário cadastrado para receber o auxílio tenha ganhado o valor de R$ 3,39 mensais. Cerca de 10 mil funcionários recebem o "salário-esposa”.
É um valor pequeno se comparado ao orçamento total da capital paulista para o ano, de R$ 68,9 bilhões, mas pode ter impacto sob a perspectiva da administração pública. A implantação de equipamentos para prática de exercícios físicos em praças públicas, por exemplo, sai por volta de R$ 40 mil. Cobrir uma quadra esportiva em uma escola, R$ 100 mil.
O "salário-esposa" também é considerado anacrônico do ponto de vista social. "Foi criado com base em um desenho de família totalmente ultrapassado, com a presunção de que tem um homem que sustenta a casa e uma mulher totalmente dependente dele que não trabalha fora", diz a vereadora Soninha Francine (PPS-SP), autora de um projeto de lei, de 2018, para extinguir o benefício. "Vivemos em um país em que metade dos lares são chefiados por mulheres. Elas trabalham fora tanto quanto os homens. Lá atrás pode ter sido um jeito de dar uma garantia para uma mulher cujo trabalho, em casa, não era reconhecido”.
Ainda em 2018, a então vereadora Sâmia Bomfim (PSOL-SP), hoje deputada federal, também apresentou uma proposta para acabar com o "salário-esposa". Os dois projetos estão em tramitação na Câmara dos Vereadores de São Paulo. Soninha diz que pretende aproveitar a volta do recesso, em 31 de janeiro, quando ainda não há temas urgentes que possam passar na frente, para retomar a pauta.
"Há questionamentos sobre o PL, mas de ordem formal, pois, como seria a supressão de um benefício dos servidores públicos, teria de partir do executivo, não do legislativo, mas vamos tentar mesmo assim", explica.
Para conseguir o benefício, o funcionário precisa provar que mantém "vida comum" com a companheira há pelo menos cinco anos, além de apresentar certidão de casamento e uma declaração em que a mulher atesta não exercer atividade remunerada. Mulheres cujos maridos não trabalham não têm direito ao benefício.

Publicado pelo De Universa – Direitos da mulher.

Carga tributária banca a ineficiência do Estado brasileiro!

Uma nação que tenta prosperar a
base de impostos é como um homem
com os pés num balde tentando
levantar-se puxando a alça.
Winston Churchill 

A carga tributária brasileira é uma obscenidade que afronta nossa inteligência e derruba quaisquer argumentos ou teses econômicas. Mesmo com a economia andando de lado, feito caranguejo, a carga tributária atingiu o pico de 35.08% do PIB – Produto Interno Bruto em 2018 – o equivalente a R$ 2,39 trilhões.
Esse percentual sobe anualmente independentemente do governo ou partido que esteja no poder. A ganância do governo brasileiro ultrapassa barreiras ideológicas, porque na verdade os impostos servem apenas para manter a pesada e ineficiente máquina estatal.
Na média, em 2019, cada habitante recolheu o equivalente a R$ 11.494 em impostos. Cada brasileiro precisou trabalhar cerca de 128 dias para quitar os seus compromissos com o pagamento de tributos. Em contrapartida, o governo não fornece saúde, educação, segurança, saneamento básico nem habitação como forma de retribuir aos pesados tributos que pagamos.
A expansão do peso dos impostos para empresas e pessoas físicas em 2018 atingiu 1,33 ponto porcentual e bateu o recorde anterior, registrado em 2008, de 34,76% do PIB. O avanço é ainda mais impactante pelo fato de representar o maior salto dos últimos 17 anos. A série histórica é de 1947. Os dados foram extraídos de fontes oficiais, registrados nos balanços públicos.
Em 2019, com o governo Bolsonaro, nada mudou, seu ministro da fazenda Paulo Guedes ainda sonha com um novo imposto digital nos moldes da antiga CPMF. Quer ainda reduzir os abatimentos atuais do Imposto de Renda - Pessoa Física com saúde e educação.
De 2008 até 2015, a carga encolheu aproximadamente 1,92% do PIB. Esse quadro, porém, se inverteu a partir de 2016. De 2016 a 2018, houve um avanço dos impostos de 2,23% do PIB – sendo a maior parte no último ano. Segundo José Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), os resultados de 2016 e 2017 foram sustentados por fatores atípicos, como os recursos do programa de recursos no exterior e as receitas de royalties do petróleo, que foram puxadas pela trajetória expansiva do preço do petróleo no mercado internacional.
O número de servidores públicos federais (ativos+aposentados) era de 1.272.847 em dezembro de 2018. Se somarmos as três esferas do poder executivo (Municipal, Estadual e Federal) temos algo em torno de 12 milhões de servidores. Um número exorbitante, sem a mínima razão. Pois é essa máquina inchada e obsoleta que consome bilhões dos nossos impostos.
A despesa líquida com pessoal aumentou de R$ 137,45 bilhões em 2008 para R$ 304,61 bilhões em 2019. Se considerados os últimos 20 anos (1999 a 2018), são 172.661 funcionários públicos a mais no governo federal (aumento de 15,7%).
Esses números ajudam a explicar a sanha governista por impostos no país. Os Munícipios e os Estados somam-se ao governo federal na ineficiência e no volume de servidores que consomem mais de 50% do orçamento público. Eleição após eleição, discursos e mais discursos jamais precederam cortes eficazes nas despesas para que o governo pudesse aliviar a carga tributária. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

7 de janeiro de 2020

A mãe de todas as reformas!

Num estado democrático existem
duas classes de políticos:
Os suspeitos de corrupção
e os corruptos. David Zac

Entre os projetos, leis, e reformas estruturais guardadas com muito “zelo” pelos políticos brasileiros, estão: A discussão sobre a taxação das grandes fortunas e a Reforma Política. Ambas jamais serão realizadas por livre e espontânea vontade dos nossos parlamentares, exceto se houver duas condições a saber: 1ª – Pressão popular nas ruas. 2ª Eles fazem do jeito deles sem buscar atingir os objetivos que a sociedade gostaria.
Quanto a reforma política, ela decorre de uma série de medidas e alterações legais para transformar o sistema eleitoral e político a fim de corrigir falhas, desigualdades ou distorções promovidas ao longo do tempo. É objetivo também o combate a problemas existentes no meio político partidário eleitoral, como a corrupção.
Há muito tempo setores da sociedade civil pleiteiam um amplo debate sobre uma reforma política no Brasil, entretanto, sem pressão desses mesmos setores e da população, essas mudanças jamais acontecerão, visto que envolve Poder, Dinheiro e muita Influência que os políticos detêm e amam.
Entre as pautas principais, cabe destaque para a questão do financiamento de campanha. Atualmente, as candidaturas são financiadas por verbas públicas e privadas, ou seja, tanto o Estado quanto pessoas físicas e jurídicas podem contribuir para angariar fundos na campanha de um partido e de um determinado candidato.
O ideal diante de uma sociedade com desigualdades imensas seria que os partidos políticos financiassem às suas custas as suas campanhas eleitorais. Assim como o fazem as Entidades Assistenciais, as Escolas de Samba e demais setores da sociedade brasileira, fazendo rifas, churrascos, festas e jantares para angariar fundos. Não tem mais cabimento o povo brasileiro bancar as suas expensas os gastos desses políticos carreiristas. Afinal de contas, os médicos, engenheiros, jornalistas, e todos os demais profissionais custeiam suas carreiras da formação até o fim da vida, por que então temos de onerar nossos bolsos pagando para quem escolheu ser político?
Outro ponto polêmico é o que se refere às coligações partidárias. Muitos afirmam que elas são um problema, pois beneficiam pequenos partidos que, em tese, só existem para pleitear cargos em campanhas e gestões de partidos maiores, além de desigualarem o tempo de TV, haja vista que o tempo da campanha é distribuído para cada candidato pelo número de partidos existentes em sua coligação.
Dentre as propostas, citam-se: o fim das coligações, o que não é consenso; a distribuição do tempo de campanha na TV por candidato, e não por partido; o limite de partidos por coligação; entre outras.
Soma-se a esses temas a questão da proporcionalidade dos votos. Hoje, os deputados federais e estaduais, além dos vereadores, são eleitos por maior número de votos e também pelo voto de legenda. Assim, partidos que possuírem na soma final mais votos, têm direito a mais cadeiras, o que contribui para que candidatos menos votados sejam eleitos em detrimento de candidatos mais votados.
Existem várias propostas de mudança. Uma delas é o voto distrital, que dividiria os deputados por distrito e que seriam eleitos em cada um deles por maioria direta. Essa ideia critica o fato de que partidos e deputados com mais renda são mais facilmente eleitos, o que faz com representem somente as elites (e uma parcela reduzida da população de seus respectivos distritos). Outra ideia é o voto em lista, em que os eleitos votariam somente nas siglas e estas escolheriam os seus candidatos (o que seria feito antes das eleições).
O fim do voto secreto na câmara e no senado também é um ponto presente nos debates sobre reforma política. Em processos de cassação de mandatos, os parlamentares votam pela cassação ou não em uma lista secreta, o que, de um lado, defende o votante de pressões políticas internas, mas, de outro, evita a transparência para com a população. A proposta é acabar com o voto secreto em sessões de cassação de mandatos.
Existem deputados e senadores que estão há meio século na política, isso precisa acabar de uma vez. A reeleição de senadores deveria ser restringida a dois mandatos e os deputados estaduais e federais a três mandatos no máximo. Os vereadores deveriam passar a receber um salário mínimo ou o equivalente ao salário dos professores em cada munícipio.
Os deputados estaduais e federais assim como os senadores deveriam ter seus salários regulados pelo salário mínimo da seguinte forma: Dep. Estadual – 10 x Salário Mínimo (R$ 1.031,00) = R$ 10.310,00. Dep. Federal 20 x Salário Mínimo (R$ 1.031,00) = R$ 20.620,00. Senador – 30 x Salário Mínimo (R$ 1.031,00) = R$ 30.930,00.
Essas são algumas sugestões que poderiam entrar em uma ampla discussão, que tem que ter obrigatoriamente a presença da população. Sem os setores representativos da sociedade civil jamais haverá uma mudança nessa situação que nos envergonha, encarece e permite que a iniquidade seja perpetuada em nosso sistema legislativo.

Fontes consultadas: Site Brasil Escola; FGV DAPP; Toda Matéria

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

3 de janeiro de 2020

2019 - Sem retrospectivas - Um ano para se esquecer!

A utopia está lá no horizonte.
 Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos, ela se afasta dez passos.
Por mais que eu caminhe jamais a alcançarei.
A Utopia serve para que jamais
deixe de caminhar em sua direção.
Eduardo Galeano

Esta época do ano, temos nas emissoras de televisão os famosos programas que mostram as retrospectivas do ano que está terminando, e que servem apenas para nos lembrar de todas as desgraças que aconteceram ao longo do ano. São dezenas de mortes, eleições e eleitos que geralmente queremos esquecer, tragédias, muitas tragédias, acidentes, coisas que na verdade gostaríamos de nunca ter que lembrar.
Os diretores das emissoras imaginam que estão nos fazendo um imenso favor, quando na verdade, estão nos impingindo uma dose a mais de estricnina na veia.
No caso brasileiro, 2019 em particular, foi um ano pródigo em nos trazer notícias ruins a cada novo dia. Desde a morte prematura e difícil de aceitar do brilhante jornalista Ricardo Boechat em janeiro até o deslizamento de terras da Vale do Rio Doce em Brumadinho com a morte de 249 seres humanos, além do prejuízo incalculável para o meio ambiente.
Um ano daqueles que ficarão marcados como o Ano do Mau Agouro, no horóscopo chinês, se houvesse, deveria ter sido o ano do Verme peçonhento. Pesado, triste, com mudanças climáticas que prenunciam futuro sombrio para a humanidade ao mesmo tempo que desprezados por pseudos líderes mundiais.
Os eleitores foram pródigos em conseguir eleger políticos piores dos que os que estavam nos cargos em muitos países da Américo do Sul e na Europa, com a ascensão da direita e da extrema direita, em muitos casos permitindo o renascimento de movimentos fascistas. No caso do Brasil, do movimento Integralista.
A Hungria, Itália, somam-se ao Brasil e independente de ideologia partidária, elegeram políticos piores do que os que já estavam no poder. Até o antes tranquilo Chile, está pagando um preço altíssimo com revoltas, manifestações nas ruas e muitas mortes e prejuízos depois que o presidente Sebastián Piñera assumiu o poder e promulgou reformas e decretos extremamente prejudiciais a sociedade chilena.
A Bolívia, Venezuela, Equador e outros países da América do Sul vivem períodos turbulentos, com instabilidade econômica e tem em comum com o Brasil o imenso fosso que separa classes sociais. Com minoria milionária pagando pouco ou nenhum imposto e uma maioria na linha da miséria, intercaladas pela classe média que paga a maior parte dos impostos e fica exprimida entre os dois extremos.
 O meio ambiente é um segmento que quer esquecer 2019. No Brasil, nunca houve tantas queimadas e destruição de matas, por latifundiários em busca de terra para transformar em pastos, plantio e loteamentos como está ocorrendo em Alter do Chão – PA.
Tudo com a benção do governo Bolsonaro, que ceifou o Ibama e demais órgãos que poderiam controlar a situação. Em virtude dessa sanha por terras, índios estão sendo massacrados no norte do país sem que as forças policiais, exército e poder judiciário façam alguma coisa para protege-los da extinção.
Não temos consolo, ao contrário de anos anteriores quando dizíamos que o ano novo poderia trazer mudanças e novos ares, sabemos de antemão que 2020 será apenas e tão somente a continuação dos males causados por uma eleição equivocada de 38% dos eleitores. Haviam opções no primeiro turno, mas o país buscou as piores e levou para o segundo turno o antagonismo e o atraso em forma de luta ideológica estúpida e sem razão.
O Brasil virou pária dos EUA e o preço a ser faturado é algo que levará muitos anos para que possamos reaver. Nossa Nação se sujeitou a ser capacho e não liderança mundial. Deixamos de tentar o protagonismo para vivermos nos envergonhando perante o mundo moderno.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Um 2020 entre profetas das desventuras e profetas da esperança!

O mundo sofre hoje tentações de involução autoritária, mas, apesar de tudo, a democracia e os seus valores continuam avançando.
Cariocas e turistas aproveitam o último dia de 2019 para curtirem a praia de Copacabana, zona sul da cidade.T. Rêgo Agência Brasil
Quem na década de 1950 cunhou a expressão “profetas de desventura”, em contraposição aos profetas da esperança, algo que não pode ser mais atual, foi um dos Papas mais humanos e despojados, João XXIII, filho de camponeses pobres, o mais parecido ao hoje Papa Francisco. Foi na noite anterior à inauguração do Concílio Vaticano II, que pretendia renovar o rosto triste da Igreja de então, dominada pela retrógrada Cúria Romana, burguesa e afastada do evangelho. Aquela que tentou acusar o Papa de louco por ter tido a ideia de convocar todos os bispos do mundo a Roma para fazer um exame de consciência e tentar responder às ânsias de um mundo que pressionava por uma renovação que recolocasse a Igreja na pureza perdida do primeiro cristianismo.
Naquela véspera do Concílio, que se anunciava como uma grande batalha na Igreja entre conservadores e progressistas, o Papa João XXIII surpreendeu aos que esperavam um discurso solene perante um acontecimento que havia sacudido a opinião mundial, de todos os credos e de um modo especial dos agnósticos. Em vez de discutir teologia, disse aos mais de 3.000 bispos já presentes em Roma, vindos de todos os continentes, que estivessem atentos aos “profetas de desventuras”, e que assim o Papa ia dormir muito tranquilo aquela noite.
Às milhares de pessoas que lotavam a praça de São Pedro naquela noite de lua cheia ele disse: “Quando voltarem para suas casas, digam aos seus filhos pequenos que o Papa lhes mandou um beijo”. João XXIII sabia que aquele Concílio seria importante para o futuro dos pequenos.
Foi um Papa que nunca compactuou com o pessimismo, nem sequer naquele momento em que vários bispos não puderam ir ao concílio porque estavam detidos nas prisões soviéticas. Era capaz de não dar importância a nada, sabia relativizar tudo. Enquanto os Papas anteriores se sentiam imbuídos de uma missão sobrenatural e se sentiam representantes de Deus na terra, João XXIII chegava a se esquecer de que era Papa. Contou-me isso na época seu secretário, Loris Capovilla, que havia sido jornalista. Uma tarde, o pontífice lhe disse: “Vamos ter que consultar isto com o Papa”. Havia esquecido de que era ele mesmo.
Não era, entretanto, um Papa nem desavisado nem inocente. Sabia muito bem para que estava ali. Em seu testamento, recordando que seu antecessor Pio XII, o príncipe Eugenio Pacelli, antes de morrer havia concedido títulos nobiliários a meia família, João XXIII deixou escrito: “Nasci pobre e morro pobre”. E pediu perdão à sua família “por não poder lhes deixar nada em herança”. Viveu sempre em paz com todos, crentes e ateus. Para ele, os homens eram só irmãos, com seus acertos e suas quedas. No mesmo testamento, deixou uma frase célebre: “Não tenho que pedir perdão a ninguém, porque nunca me senti ofendido por ninguém”. Era um homem em paz consigo mesmo.
Sua simplicidade surpreendia até os líderes de outras religiões. Uma tarde, convidou o pastor da Igreja Luterana de Roma para tomar um café. Não o recebeu com a pompa de Papa. Relativizou seu trabalho. Confiou-lhe: “As pessoas acham que o Papa trabalha muito, o dia todo. Não é verdade. Fazem tudo por mim. Durante a tarde tenho muito pouco para fazer. Então me entretenho com esta luneta. Da janela vou distinguindo as torres das igrejas. Penso que ao redor de cada uma delas vivem famílias que sofrem e se esforçam para poder dar de comer a seus filhos. Então vou parando e rezo por elas”. E tomando a luneta, disse ao pastor protestante: “Olhe, casualmente, a primeira torre que vejo daqui é a da sua igreja. E assim, todas as tardes, vocês são os primeiros pelos quais rezo a Deus”. A história me foi contada por aquele mesmo pastor em uma entrevista. Ficara surpreso e admirado com a simplicidade do Papa católico.
Quando era jovem núncio apostólico na Bulgária, tinha o costume de deixar uma luz acesa em sua casa. E dizia que se algum necessitado passasse debaixo da sua janela poderia entrar. “Não vou perguntar em que Deus acredita, mas sim como posso ajudá-lo.” Era seu lema.
No livro de conversas Sobre o Céu e a Terra, do então cardeal Bergoglio de Buenos Aires (o hoje Papa Francisco) e do rabino Abraham Skorka, há uma página que evoca João XXIII. Bergoglio diz ao rabino que quando se encontra com alguém não lhe pergunta em que Deus acredita, mas sim se fez algo pelos outros. Dois Papas ecumênicos que para muitos parecem iconoclastas e hereges, mas que foram capazes de falarem ao coração de todos sem distinções de credos.
Dois Papas que, profetas eles da esperança, são contra os “profetas de desventuras”, porque sabem relativizar as coisas, sabem que, como dizia Jesus, até das pedras podem nascer filhos de Deus e que o pior dos pecados é a discriminação das pessoas, por suas ideias, pela cor de sua pele, por seu gênero ou sua condição social. E que quem menos faz pelo mundo são os profetas de desventuras, incapazes de ver que sem esperança a terra nos afundaria e perderia sentido. Que não é verdade que tudo é pior que antes, porque não é, e que não é com o pessimismo, e sim com um saudável realismo, que se pode continuar construindo o mundo.
Neste 2020, eu preferiria que, ao invés de apostarmos no pessimismo, que costuma ser estéril, apostássemos na esperança, que faz milagres. Isso significa sermos firmes e resistentes contra quem pretende nos impor os dogmas dos profetas das desventuras, em vez dos semeadores de esperanças. Resistentes contra governantes como Bolsonaro e suas hostes mais desesperadas, profetas de desventuras e a favor de profetas da esperança, como foi Marielle, que com sua alegria jovem e sua força vital enfrentou o pessimismo das milícias do Rio contra sua esperança de um mundo mais livre e de todos.
São governantes como Bolsonaro e suas hostes racistas que pretendem “desconstruir” em vez de “construir”; que dividem em vez de unir, que discriminam a todos os diferentes sem perceberem que assim se colocam eles mesmos como diferentes e se autocondenam ao ostracismo. De nada serve que Bolsonaro tente apostar no catastrofismo ético, em esterilizar a cultura, em ferir os valores sagrados da democracia e de suas liberdades, em continuar exaltando torturadores e ditaduras. Será um perdedor como acabam sendo todos os pessimistas empedernidos. Marielle, profeta da esperança, já ganhou a batalha contra ele.
O mundo sofre hoje tentações de involução autoritária, e começam a levantar a cabeça as bestas do nazismo e do fascismo que achávamos derrotados para sempre, mas, apesar de tudo, a democracia e os seus valores continuam avançando. Esta boa notícia nos deu neste fim de ano a jornalista e escritora Miriam Leitão em sua coluna d’O Globo ― e isso que ela, que já foi vítima da ditadura, teria motivos para estar na fila dos profetas das desventuras. Não, Miriam se alegra com esses dados significativos que ela tomou de Steven Pinker, professor de psicologia de Harvard e escritor de fama mundial. Se a chegada de Donald Trump, escreve, significou o início e um período assustador, apesar dele e de seus seguidores de sabor fascista na Turquia, Hungria e Rússia e agora em parte na Espanha com a ascensão do ultradireitista Vox, já com forte presença no Parlamento, o fato é que “o total de democracias está crescendo em todo mundo”. Em 2018, o número de países democráticos chegou a 99. Em 1978 eram apenas 40. E continuam aumentando.
Sim, entre sombras e tropeços, entre avanços e retrocessos, sem esquecer a lição demoníaca dos extermínios em massa de ambos os lados ideológicos, o mundo continua lutando por sua sobrevivência, oferecendo novas conquistas e ampliando os espaços de liberdade. Há apenas cem anos, a mulher não tinha direitos, era uma pura escrava do marido. A jovem Greta, 17 anos completados nesta quinta-feira, profeta da esperança em defesa do planeta, teria sido queimada na fogueira na Idade Média. Hoje é ouvida com respeito pelos grandes da Terra.
Há apenas 80 anos não existia o estatuto dos direitos das crianças, que eram vistas como objetos de seus pais. Hoje essa carta de direitos se estende até aos animais. Até ontem, ir fazer a guerra era visto como uma honra, e as famílias se orgulhavam das medalhas que seus filhos obtinham no campo de batalha, mesmo que lá deixassem a vida. Hoje não acredito que haja uma só mãe no mundo que se sinta feliz e orgulhosa de que seu filho vá morrer em uma guerra. O salto foi quântico. Leiam Escravidão (Globo Livros), o magnifico e aterrador livro de Laurentino Gomes, e verão o inferno que viveram milhões de africanos vendidos como escravos. Sua leitura dá arrepios. E isso foi ontem, e hoje é algo que vemos como um inferno, embora os descendentes daqueles escravos continuem pagando suas consequências. Mas nem tudo agora é igual. Ontem era algo natural. Hoje nos envergonha e escandaliza, lutamos contra aquela ignomínia. Ninguém mais acha normal.
Não chegamos ainda a uma democracia completa que defenda os direitos de todas as minorias, mas pelo menos sabemos distinguir entre liberdade e barbárie.
Os pessimistas continuam acreditando que não existe mais esperança. Os profetas das desventuras continuam anunciando o fim do mundo. Prefiro quem não perdeu a esperança de continuar abrindo sulcos na terra para plantar sonhos de liberdade. São eles os capazes até de arriscar suas vidas por defender a liberdade em vez de entregar as armas, que é o melhor presente que se pode oferecer aos profetas do niilismo.

Autor: Juan Arias – Publicado no El País.