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1 de fevereiro de 2020

A correia de transmissão do autoritarismo no Brasil de Bolsonaro!

Quem garante que os ataques verbais de Bolsonaro à imprensa e à sociedade civil não se concretizarão, aproximando o Planalto de líderes como Viktor Orban?
Cartaz de protesto contra Bolsonaro na Índia. Francis Mascarenhas - Agencia Reuters
Uma das discussões importantes entre os analistas da democracia brasileira atualmente consiste em saber se o presidente Jair Bolsonaro e seu Governo representam ou não um risco para a democracia brasileira. Na segunda-feira, o cientista político Celso Rocha de Barros, escreveu um importante artigo respondendo a articulistas que vêm defendendo a ideia de que o balanço que se pode fazer do primeiro ano de Governo Bolsonaro é o de que a democracia brasileira resistirá às bravatas autoritárias do atual presidente e aliados.
Para Rocha de Barros, as ameaças são reais e o fato de as instituições não terem desmoronado no primeiro ano de Governo não significa que elas não estejam em risco. Claudio Couto, mostrando como o teste permanente das instituições pode acabar esgarçando essa resistência, e Claudio Ferraz, apontando que as democracias se fragilizam em contextos de extrema polarização, também contribuíram para o debate.
Parece claro que não podemos simplesmente comemorar o fato de a democracia ter resistido a um presidente com perfil e discurso claramente autoritário em seu primeiro ano, como um sinal de que ela resistirá mais adiante.
Eu escrevi, em novembro, para o site da revista Piauí, um artigo alertando que o autoritarismo do século XXI vai minando a democracia aos poucos. Não acordamos um dia com tanques na rua e um regime autoritário, mas governantes eleitos democraticamente vão, ao longo de alguns anos, corroendo instituições de freios e contrapesos, até que elas perdem força e o autoritarismo se consolida. Os artigos que apontam a sobrevivência da democracia neste primeiro ano como sinal de que não teremos uma virada autoritária poderiam tranquilamente ter sido escritos ao final dos primeiros anos dos Governos —hoje claramente autoritários— na Nicarágua, Hungria, Venezuela, Polônia, Turquia e Índia.
Claro que também se deve ter cuidado para não se tocar de forma leviana o alarme do autoritarismo. O Brasil ainda tem instituições que têm funcionado como contrapesos importantes às inclinações autoritárias do Executivo. Congresso, Supremo Tribunal Federal, imprensa e sociedade civil têm conseguido reagir contra diversos ataques ao bom funcionamento da democracia.
Também não se pode fingir que as inclinações autoritárias presentes na sociedade e no Estado brasileiros surgiram com a eleição de Bolsonaro. As milícias que oprimem regiões inteiras do Rio e mataram Marielle Franco penetram o Estado bem antes de sonharem com o Planalto, a Constituição é obra de ficção para os jovens negros das periferias, ataques aos povos indígenas não são exatamente uma novidade na nossa história. Os exemplos são, infelizmente, infindáveis.
O que mudou? O que faz com que o momento atual represente um risco muito mais tangível de uma virada autoritária profunda no Brasil?
Há uma mudança clara na sociedade. Um defensor explícito da tortura, da ditadura e da homofobia não seria eleito em um Brasil relativamente recente. Algo mudou na tolerância da nossa sociedade com esses valores antidemocráticos. O autoritarismo latente na nossa história tornou-se novamente desavergonhado – talvez fruto da forte polarização como aponta Ferraz- e não há como negar que isso represente um terreno muito mais fértil para que ataques à democracia deixem marcas mais profundas em nossas instituições.
Além disso, parece haver na sociedade uma radicalização da tensão em torno de temas morais, com ênfase especial na questão de gênero. As reações violentas contra debates e manifestações a favor da pauta LGBT ou de direitos das mulheres tomam proporções impressionantes. Seja na bomba jogada no prédio da produtora do grupo Porta dos Fundos, seja nas ameaças recebidas por Felipe Neto por defender um quadrinho com beijo gay, seja na violência contra a antropóloga Debora Diniz, forçada a deixar o país, podemos perceber que a manifestação pública nesse tema gera um novo tipo de violência. Essa radicalização tem propiciado uma naturalização de violências contra defensores de uma visão de mundo menos conservadora.
Nada disso foi inventado por Bolsonaro. O que muda então? A presença de um chefe do Poder Executivo que foi eleito baseado justamente nos valores afirmados por essas violências altera a forma como as instituições brasileiras reagem a essas manifestações violentas.
A cada discurso que reforça uma visão autoritária por parte do Governo (do ministro emulando nazismo ao presidente dizendo que as pessoas de esquerda não merecem ser tratadas como pessoas normais), os setores mais violentos da sociedade vão se sentindo à vontade para avançar contra seus inimigos e as instituições vão, pouco a pouco se sentindo confortáveis para reforçar as violências ao invés de proteger a constituição.
O Governo anuncia que não haverá mais fiscalização, os grileiros e o crime organizado reagem imediatamente não apenas avançando no desmatamento, mas com ameaças e assassinatos de líderes indígenas e defensores do meio ambiente. E as instituições respondem não coagindo essas violências. O presidente diz que as ONGs são responsáveis pelos incêndios nas florestas causados por esses mesmo grileiros criminosos, as instituições reagem falseando investigações para acusar brigadistas que trabalhavam com ONGs —e até com polícia e bombeiros locais— para apagar o fogo.
O presidente e seu ministro escolhem a agenda do enfraquecimento da legislação para punir policiais que matam, a polícia do Rio reage com seu ano mais violento da história, com o número assustador de cinco pessoas mortas pela polícia por dia no Estado. O presidente diz que o jornalista Glenn Greenwald “talvez pegue uma cana aqui no Brasil”, as instituições reagem apresentando uma denúncia sem fundamento, em um dos mais graves atentados à liberdade de imprensa no país pós-88. O discurso presidencial estimula o ódio contra a esquerda, um grupo fascista reage jogando uma bomba no prédio do grupo Porta dos Fundos e Judiciário carioca responde censurando o especial de natal do grupo.
É esse mecanismo de alimentar a violência através do discurso e criar um ambiente para que as instituições corroborem essa violência ao invés de reprimi-la que marca a diferença do que vemos hoje com o autoritarismo latente do Brasil.
Neste primeiro ano de Governo, apesar de uma reação de apoio aos ventos autoritários por parte de instituições principalmente locais, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, parte relevante da imprensa e a sociedade civil têm conseguido impedir que o discurso de fato desmonte a democracia.
São inúmeros os exemplos em que essas instituições (em geral a soma de suas ações) têm conseguido barrar o autoritarismo. Ou seja, a discussão não é sobre se há ou não ameaça à democracia. Mas se essas instituições serão capazes de resistir a essa pressão —apontada por Claudio Couto— constante por tanto tempo. E é aí que as perspectivas são menos animadoras.
Bolsonaro indicará no mínimo dois ministros do STF até 2022 e mais dois caso seja reeleito. Com a atual forma do STF decidir, na qual decisões individuais são quase sempre mais importantes do que o voto do plenário, é difícil prever o que ministros comprometidos com os valores e ideias de Bolsonaro podem fazer com nossa democracia.
Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre não poderão ser reeleitos para as presidências das casas legislativas (a não ser que alterem a Constituição) e, a partir de 2021, Bolsonaro poderá tentar emplacar aliados mais próximos no comando das Casas. Quem garante que os ataques verbais de Bolsonaro à imprensa e à sociedade civil não se concretizarão nos próximos anos, aproximando seu Governo de seus pares no campo internacional como Viktor Orbán?
O risco à nossa democracia existe. O contexto global de crescimento de Governos autoritários exige que reconheçamos isso. No nosso caso, a correia de transmissão entre o discurso autoritário, passando pela violência de grupos sociais e a acolhida de instituições estatais, fica cada vez mais clara. A resistência à naturalização desse processo passa por denunciá-lo constantemente e evitar qualquer barganha para naturalizá-lo (“nenhum silêncio é inocente”, alertou Eliane Brum aqui no EL PAÍS).
Também é necessário compreender que há um campo de batalha política fundamental na defesa de um STF comprometido com a Constituição, de um Congresso que valorize a democracia e na preservação da imprensa livre e do espaço para a sociedade civil. A capitulação desses pilares pode transformar uma violência esparsa na nossa sociedade em uma violência diretamente direcionada para a manutenção de um grupo político no poder, com beneplácito das instituições. Se isso acontecer, não podemos ficar surpresos, os indícios que vemos aqui são muito parecidos com indícios que países hoje autoritários apresentaram depois de um ano de Governo.

Autor: Pedro Abramovay é mestre em direito constitucional pela UnB, doutor em ciência política pelo IESP-UERJ e diretor da Open Society Foundations para a América Latina e Caribe.

Pior do que a realidade em Bauru, é olhar para as eleições e não enxergar soluções!

Não ande atrás de mim, talvez eu não saiba liderar.
Não ande na minha frente, talvez eu não queira segui-lo.
Ande ao meu lado, para podermos caminhar juntos.
Provérbio Ute

A eleição municipal no próximo dia 15 de novembro está distante apenas oito meses, não mais do que duzentos e quarenta dias. Entretanto, em outros tempos, seria o suficiente para já sabermos em quem poderíamos votar ou ao menos quem seriam os protagonistas das eleições para o cargo de Prefeito.
A cidade de Bauru vive um drama sem fim há muitos anos, uns dizem vinte e cinco anos outros dizem que já são mais de trinta anos de apatia, fuga de empregos, gestões públicas ineficientes, corrupção e falta absoluta de crescimento sustentado de sua economia local.
A cidade que já foi o grande polo de desenvolvimento do Estado, com entroncamento ferroviário que pulsava forte e carregava consigo o crescimento do comércio e da própria cidade nas décadas de 50, 60 e 70, chegou a ser cogitada até como capital dos paulistas pelo controverso político Paulo Maluf.
Eram tempos de dinamismo, com a construção de avenidas, hospitais, universidades, empresas de grande porte e o afluxo de pessoas de várias partes do Estado e do país.
Mas como todo ciclo tem começo meio e fim, não foi diferente com Bauru, a cidade começou na década de 80 a perder empregos com a saída de grandes empresas para outras regiões do Estado e do país.
A privatização e o desmonte das ferrovias acertou a cidade em seu coração, aquilo trouxe tristeza para muitos e serviu como marco do fim de uma grande era na cidade e região.
Seguiram-se gestões públicas atabalhoadas que nunca conseguiram encontrar um “norte” para a cidade. Falta construir uma estação de tratamento de esgotos (A que está em construção, na verdade encontra-se parada e pode levar muitos anos até ser inaugurada), falta visão estadista, falta planejamento sério, faltam homens públicos que possuam coragem para romper com segmentos empresariais que não justificam seus poderes e atrapalham a cidade.
Mas como encontrar tudo isso num candidato? Esse é o grande dilema dos eleitores, que muitas vezes abandonam a luta antes do round final. Eleição não é loteria nem campeonato de futebol, eleição é coisa muito séria. Assim tem de ser compreendida na hora de analisar as propostas dos concorrentes ao cargo majoritário mais importante do município.
Entretanto, os eleitores muitas vezes reclamam com muita razão de que as opções apresentadas não são as melhores, na verdade eles sabem o que falam. Os partidos políticos pensam apenas e tão somente em “Poder”, não pensam na cidade, no povo e no futuro da região.
As escolhas erradas começam no seio dos partidos que possuem uma minoria dos eleitores da cidade. A maioria não tem estômago para aguentar reuniões partidárias, porém, indiscutível que elas sejam importantes. Nelas, nascem as candidaturas que vão buscar o cargo de prefeito e vereadores de nossa cidade.
Não podemos manter o que está no poder se não foi aprovado pela maioria em quatro anos de gestão. Não podemos sequer pensar em colocar alguém inferior a este, o que seria extremamente danoso a todos. É preciso pensar muito, escolher com muita seriedade e não dar chance de que voltemos ao passado nefasto de políticos que representam o atraso, a ignorância e a corrupção.
O futuro dos partidos políticos de Bauru está nas mãos de seus dirigentes e membros. Escolhas erradas vão elevar ainda mais o fosso profundo entre as cidades desenvolvidas que geram riquezas e empregos e Bauru, caso votem sem consciência nos futuros candidatos para a próxima eleição.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Muito mais do mesmo!

“A história é uma galeria de quadros em
que há poucos originais e muitas cópias"
Tocqueville

O governo Bolsonaro em sua campanha eleitoral prometeu muitas coisas, assim como qualquer candidato faria no lugar dele. Chamou a atenção entretanto, as promessas de austeridade na condução do país. Um ano depois assistimos a adoção de medidas que contrariam essas promessas realizadas e não cumpridas pelo atual presidente:
1º Vetou a divulgação dos gastos do cartão corporativo da presidencia da republica, algo que nem FHC, Lula ou Dilma fizeram, impedindo que a sociedade tenha acesso aos referidos gastos.Isso nos leva a crer que estes gastos são elevados e suas finalidades são discutíveis, caso contrário estariam abertos de forma transparente.
2º Permitiu viagens em aviões e helicópetos da FAB, até para casamento do filho Eduardo. Ministro e demais autoridades viajam as custas dos recursos do povo sem nenhum constrangimento. São milhões gastos pela FAB com o deslocamento até para festas ou resorts. "O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, transportou a mulher, Maria Eduarda de Seixas Corrêa, em maio para Paris"
3º Na virada deste ano os assessores de Bolsonaro manipularam os numeros dos gastos do governo com viagens. Disseram que Bolsoanro havia gasto R$ 8 milhões, quando na verdade, os gastos do governo foram de R$ 421 milhões. A máquina do bolsonarismo se alimenta e vive de mentiras, informações distorcidas e comparações imprecisas com governos passados.
4º Está pronto o Decreto Presidencial que se aprovado pelo Congresso autoriza o uso de terras indigenas para exploração de minério, cnstrução de usinas hidrelétricas, agricultura, pecuária, extrativismo e até turismo. Além de prejudicial aos indios em suas terras demarcadas, o projeto se aprovado trará danos irreversíveis ao meio ambiente, já parcialmente destruído. O motivo verdadeiro e que jamais será confirmado pelo governo? R: Favorecer grupos de latifundiários, exploradores, empresários dos segmentos envolvidos. Para isso ele foi eleito.
  No que tange a corrupção sua promessa era de “tolerância zero” para com a corrupção, crime e os privilégios. Entretanto mantém em seu ministério do turismo Marcelo Álvaro Antônio, indiciado e denunciado a Justiça no esquema das candidaturas laranjas.
6º Prometeu que as investigações não seriam barradas em seu governo e que a Justiça teria plena liberdade sem interferências políticas. Entretanto, o presidente acoberta o filho Flávio Bolsonaro e o seu amigo Fabrício Queiroz no caso das rachadinhas do gabinete do filho, contratação de funcionários fantasmas e na sua maioria milicianos.
7º Promessa de reduzir em 20% o volume da dívida por meio de privatizações, concessões, venda de propriedades imobiliárias da União e devolução de recursos em instituições financeiras oficiais que hoje são utilizados sem um benefício claro à população brasileira. A projeção mais recente do governo aponta que dívida bruta deve fechar 2019 em 77,3% do PIB, aumento em relação a 2018, que fechou em 76,5%.
8º Nossa meta é garantir, a cada brasileiro, uma renda igual ou superior ao que é atualmente pago pelo Bolsa Família.” Mentira! Nada foi implantado, o governo pretendia anunciar ainda em dezembro um novo Bolsa Família, o Bolsa Brasil, mas está sem dinheiro e os planos foram adiados.
9º Na Saúde prometeu a criação do Prontuário Eletrônico Nacional Interligado. "Os postos, ambulatórios e hospitais devem ser informatizados com todos os dados do atendimento, além de registrar o grau de satisfação do paciente ou do responsável". Nada foi feito, aliás, o ministério da saúde demorou um ano para fornecer a importante vacina tetra valente para as crianças recém-nascidas.
10º Apesar da esposa do presidente ter feito um discurso em libras na posse presidencial, apenas um dos sete compromissos assumidos pelo então candidato do PSL saiu do papel, segundo levantamento do Comitê Brasileiro de Organizações Representativas das Pessoas com Deficiência (CRPD).
Em resumo, as promessas mais importantes não foram cumpridas, muitas delas sequer estão em andamento ou aguardando aprovação no Congresso. O presidente perde tempo agredindo jornalistas e órgãos de imprensa, fazendo lives com assuntos que estão longe de interessar a nação. Sem contar os problemas causados pelos filhos que não atingiram o pleno desenvolvimento físico, emocional e intelectual.
Esquerda ou direita? Não! O país precisa de honestidade, trabalho e muita preocupação com sua gente. É preciso um presidente que dê valor a Educação, Saúde e Segurança ao mesmo tempo que reduza o índice do desemprego.


Autor: Rafael Moia Filho: Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Texto de Márcia Tiburi e Rubens Casara, Cult!

Em nossa cultura intelectual e jornalística surge uma nova forma retórica. Trata-se da arte de escrever para idiotas que, entre nós, tem feito muito sucesso. Pensávamos ter atingido o fundo do poço em termos de produção de idiotices para idiotas, mas proliferam subformas, subgêneros e subautores que sugerem a criação de uma nova ciência.
Estamos fazendo piada, mas quando se trata de pensar na forma assumida atualmente pela voz da razão temos que parar de rir e começar a pensar.
Artigos ruins e reacionários fazem parte de jornais e revistas desde sempre, mas a arte de escrever para idiotas vem se especializando ao longo do tempo e seus artistas passam da posição de retóricos de baixa categoria para príncipes dos meios de comunicação de massa. Atualmente, idiotas de direita tem mais espaço do que idiotas de esquerda na grande mídia. Mas isso não afeta em nada a forma com que se pode escrever para idiotas.
Diga-se, antes de tudo que o termo idiota aqui empregado guarda algo de seu velho uso psiquiátrico. Etimologicamente, idiota tem relação com aquele que vive fechado em si mesmo. Na psiquiatria, a idiotia era uma patologia gravíssima e que, em termos sociais, podemos dizer que continua sendo. Uma tipologia psicossocial entra em jogo na história, baseada em dois tipos ideais de idiotas: o idiota de raiz, dentre os quais se destaca a subcategoria do idiota representante do conhecimento paranoico, e o neo-idiota, com destaque para o idiota mercenário que lucra com a arte de escrever para idiotas.
Vejamos quem são:
1- Idiota de raiz é fruto de um determinismo: ele não pode deixar de ser idiota. Seja em razão da tradição em que está inserido ou de um déficit cognitivo, trata-se de um idiota autêntico. O Idiota de raiz divide-se em três subtipos:
1.1 Ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. Repete clichês introduzidos no cotidiano pelos meios de informação que ele conhece a televisão e os jornais de grande circulação, em que a informação é controlada. Sua formação é midiatizada, mas ele não sabe disso e se orgulha do que lhe permitem conhecer. No limite, o ignorante orgulhoso diz sou fascista, sem conhecer a experiência do fascismo clássico da década de 30 e o significado atual da palavra, assim como é capaz de defender sem razoabilidade algumas ideias sobre as quais ele nada sabe. Um exemplo muito atual: apesar da violência não ter diminuído nos países que reduziram a maioridade penal, a ignorância da qual se orgulha o idiota, o faz defender essa medida como solução para os mais variados problemas sociais. Ele se aproxima do burro mesmo enquanto imita o representante do conhecimento paranoico, apresentados a seguir.
1.2 Burro mesmo: não há muito que dizer. Mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. Por exemplo: o burro mesmo faz uma manifestação democrática para defender a volta da ditadura. Para bom entendedor, meia palavra.
1.3 Representante do conhecimento paranoico: tendo estudado ou sendo autodidata, o representante do conhecimento paranoico pode ser, sob certo aspecto, genial. Freud comparava, em sua forma, a paranoia a uma espécie de sistema filosófico. O paranoico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. Se duvidasse, ele poderia ser um filósofo. O conhecimento paranoico cria monstros que ele mesmo acredita combater a partir de suas certezas. O comunismo, o feminismo, a política de cotas ou qualquer política que possa produzir um deslocamento de sentido e colocar em dúvida suas certezas, ocupa o lugar de monstro para alguns paranoicos midiaticamente importantes.
Curioso é que o representante do conhecimento paranoico pode parecer alguém inteligente, mas seu afeto paranoico o impede de experimentar outras formas de ver o mundo, abortando a potência de inteligência, que nele é, a todo o momento, mortificada. Isso o aproxima do ignorante orgulhoso e do burro mesmo. Em termos vulgares e compreensíveis por todos: ele é a brochada da inteligência.
2 Neo-idiota: o neo-idiota poderia não ser um idiota, mas sua escolha, sua adesão à tendência dominante, o coloca nesse lugar. Não se pode esquecer que, além de cognitiva, a inteligência é uma categoria moral. O neo-idiota não é apenas um idiota, mas também um canalha em potencial. Há dois subtipos de neo-idiota:
2.1 Idiota mercenário quer ganhar dinheiro. Ele serve aos interesses dominantes, mas é um idiota como outro qualquer, porque não ganha tanto dinheiro assim quando vende a alma.
Nessa categoria, prevalece o mercenário sobre o idiota. Por isso, podemos falar de um idiota entre aspas. Ganha dinheiro falando idiotices para os idiotas que o lerão. Seu leitor padrão divide-se entre o burro mesmo e o idiota cool. Ele escreve aquilo que faz o burro mesmo pensar que é inteligente. O idiota cool, por sua vez, se sente legitimado pelo que lê. O que revela a responsabilidade do idiota mercenário no crescimento do pensamento autoritário na sociedade brasileira. Apresentar Homer Simpson ou qualquer outro exemplo de burro mesmo como modelo ideal de telespectador ou leitor é paradigmático nesse contexto.
2.2 Idiota cool lê o que escreve o idiota mercenário. Repete suas ideias na esperança de ser aceito socialmente. De ter um destaque como sujeito de ideias (prontas). Ele gosta de exibir sua leitura do jornal ou do blog e usa as ideias do articulista (do representante do conhecimento paranoico ou do idiota mercenário) para tornar-se cool. Ele segue a tendência dominante. Ao contrário do burro mesmo, nele sobressai o esforço para estar na moda. Como, diferentemente dos seus ídolos, ele não escreve em jornais ou blogs famosos, ele transforma o Facebook e outras redes sociais no seu palco.
Diante disso, temos os textos produzidos a partir da altamente falaciosa arte de escrever para idiotas. O sucesso que alcançam tais textos se deve a um conjunto de regras básicas. Identificamos dez, mas a capacidade para escrever idiotices tem se revelado engenhosa e não deve ser menosprezada:
1- Tratar como idiota todo mundo que não concorda com as idiotices defendidas. O texto é construído a partir do narcisismo infantil do articulista. O autor sobressai no texto, em detrimento do argumento. Assim ele reafirma sua própria imagem desqualificando a diferença e a inteligência para vender-se como inteligente.
2- Não deixar jamais que seu leitor se sinta um idiota. Sustentar idiotices com as quais o leitor (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) se identifique, o que faz com que o mesmo se sinta inteligente.
3- Abordar de forma sensacionalista qualquer tema. Qualquer assunto, seja socialmente relevante ou não, acaba sendo tratado de maneira espetacularizada.
4- Transformar temas desimportantes em instrumentos de ataque e desqualificação da diferença. Por exemplo, a depilação feminina já foi um assunto apresentado de modo enervante, excitante, demonizante e estigmatizante. Nesse caso, o preconceito de gênero escondeu a falta de assunto do articulista.
5- Distorcer fatos históricos adequando-os às hipóteses do escritor. Em uma espécie de perversão inquisitorial, o acontecimento acaba substituído pela versão distorcida que atende à intenção do autor do texto para idiotas.
6- Atacar alguém. Este é um dos aspectos mais importantes da arte de escrever para idiotas. A limitação argumentativa esconde-se em ataques pessoais. Cria-se um inimigo a ser combatido. O inimigo é o mais variado, mas sempre alguém que representa, na fantasia do escritor, o ideal contrário ao dos seus leitores (os idiotas: o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool).
7- Reduzir tudo a uma visão maniqueísta. Toda complexidade desaparece nos textos escritos para idiotas. O mundo é apresentado como uma luta entre o bem e o mal, o certo e o errado, o comunismo e o capitalismo ou Deus e o Diabo.
8- Desconsiderar distinções conceituais. Nos textos escritos para idiotas, conservadores são apresentados como liberais, comunistas são confundidos com anarquistas, etc.
9- Investir em clichês e ideias fixas. Clichês são pensamentos prontos e de fácil acesso. Sem o esforço de reflexão crítica, os clichês dão a sensação imediata de inteligência. Da mesma maneira, o recurso às ideias fixas é uma estratégia para garantir a atenção do leitor idiota (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) e reforçar as certezas em torno das hipóteses do escritor (nesse particular, Goebbels, o chefe da propaganda de Hitler, foi bem entendido).
10-Escrever mal. A pobreza vernacular e as limitações gramaticais são essências na arte de escrever para idiotas. O leitor idiota não pode ser surpreendido, pois pode se sentir ofendido com algo mais inteligente do que ele. Ele deve ser capaz de entender o texto ao ler algo que ele mesmo pensa ou que pode compreender. Deve ser adulado pela idiotice que já conhece ou que o escritor quer que ele conheça.
 (Para além do que foi identificado acima, fica a questão para quem deseja escrever para idiotas: como atingir a pobreza essencial na forma e no conteúdo que concerne a essa arte?)
A arte de escrever para idiotas constitui parte importante da retórica atual do poder. Saber é poder, falar/escrever é poder, e o idiota que fala e é ouvido, que escreve e é lido, tem poder. O empobrecimento do debate público se deve a essas cabeças de papelão, fato que é identificado tanto por pensadores conservadores quanto por progressistas.
O grande desafio, portanto, maior do que o confronto reducionista entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, entre machistas e feministas, parece ser o que envolve os que pensam e os que não pensam. Sem pensamento não há diálogo possível, nem emancipação em nível algum.
Se não houver limites para a idiotice, ao contrário da esperança que levou a escrever esse texto, resta isolar-se e estocar alimentos.

Autores: Márcia Tiburi e Rubens Casara, Cult

Governo Bolsonaro vai taxar as grandes… fortunas? Não, as grandes pobrezas!

Vivemos tempos duros, nos quais uma onda mundial tenta reverter as grandes reformas democráticas que tornaram o mundo menos desigual.
O presidente Jair Bolsonaro ao lado do filho, o senador Flávio Bolsonaro, em lançamento de seu partido, Aliança Pelo Brasil. Evaristo Sa (AFP)
O título desta coluna não tenta ser uma provocação, e sim a descrição de uma dura realidade. Vi a feliz frase sobre “taxar as grandes pobrezas” numa lúcida análise de Eliane Cantanhêde no jornal O Estado de S. Paulo. As reformas que o governo de extrema direita está realizando deveriam, de fato, ter começado com os olhos postos nas franjas mais frágeis da sociedade, e não ao contrário. Assim, em vez de ter começado, por exemplo, taxando as grandes fortunas, os grandes bancos, os grandes dividendos, as grandes heranças, os escandalosos privilégios dos políticos e das corporações, que levaram a política no mundo todo a se arrastar desprestigiada pelo chão, decidiram ampliar ainda mais as grandes pobrezas, cobrando imposto até sobre o seguro-desemprego. Esquecendo-se de que só uma política social assegura o exercício pleno da democracia, com a soberania do povo. O contrário conduz aos tempos sombrios da escravidão.
Sim, o governo Jair Bolsonaro está levando a cabo reformas que, começando pela previdenciária e continuando com mudanças trabalhistas —carteira verde-amarela ou taxar o seguro-desemprego—, castiga os grandes bolsões de pobreza e miséria que juntos representam a maioria dos 210 milhões de brasileiros. O novo projeto das aposentadorias deveria ter começado por levar em conta aqueles milhões de trabalhadores que durante toda uma vida realizaram os trabalhos mais duros, nas fábricas, no campo, em todos os setores menos remunerados. Justamente esses milhões que trabalharam duro durante mais de 30 anos e que, quando chegar sua vez de um justo descanso, terão que sobreviver com uma pensão de fome; eles que, ganhando um salário mínimo, não conseguiram economizar nem acumular capital, porque mal tinham como chegar ao fim do mês sem se endividar.
Ao contrário, quem já ao longo da vida goza de um trabalho bem remunerado chega à aposentadoria com um acúmulo de bens que dá e sobra para poder viver sem aposentadoria e com tranquilidade. Sim, são as grandes pobrezas que estão sendo castigadas e humilhadas para que os privilegiados de sempre possam continuar desfrutando e sem apertos na hora da aposentadoria.
A quem culpar por essa tragédia social em que os mais frágeis serão novamente os bodes expiatórios do capitalismo brutal que vai deixando rios de dor e injustiças pelo caminho? Ao governo ultraliberal de Bolsonaro? Não. Antes da sua chegada, uma esquerda distraída e culpada, que passou 13 anos no poder e com o consenso de até 80% da população em alguns momentos, teve a oportunidade de realizar essas mesmas reformas, mas com o coração voltado para os mais frágeis. Reformas com forte conteúdo social, começando pela base de uma pirâmide de trabalhadores que cada vez se amplia mais, enquanto continua enriquecendo as grandes fortunas que são a minoria da população.
Essa esquerda que neste momento só soube dizer não às reformas da ultradireita, sem apresentar alternativas sociais, não foi capaz de realizar as grandes reforma com forte conteúdo social. Nem a trabalhista nem a política nem a do Estado, ainda que tenha feito algumas mudanças na Previdência. E não porque faltasse a esses governos consenso popular ou força no Congresso, já que governou com os partidos mais fortes. Foi, entretanto, incapaz de instaurar governos social-democratas, de centro-esquerda, em vez de sair de braços dados com a grande direita do dinheiro. Ainda me lembro de ter escutado o então presidente Lula dizer numa reunião com banqueiros em São Paulo: “Vocês nunca antes tinham ganhado tanto como comigo”. Triste recorde que humilha os pobres que devem pagar juros absurdos para poder sobreviver.
Agora, quando essa direita tomou o poder e é ela que faz essas reformas com o coração posto naqueles que menos precisam delas, de pouco serve derramar lágrimas de carpideira. Já é tarde. A esquerda não terá mais força para suscitar um movimento de rebeldia. Perdeu o trem, adormecida que estava sobre os louros de um consenso impressionante, que não soube aproveitar.
Em um período semelhante de 14 anos, na Espanha, o governo socialista de Felipe González, com apoio do rei Juan Carlos, teve tempo de transformar um país arruinado, despedaçado após 40 anos de dura ditadura franquista. Encontraram um país que precisava ser reconstruído política, jurídica e socialmente após décadas de pobreza material e cultural, em que tinham sido abolidas todas as liberdades modernas e os direitos mais elementares. E o fizeram com as grandes reforma progressistas que devolveram ao país os direitos sindicais, de liberdade de expressão, de divórcio, de gênero e do aborto. Essas grandes reformas que colocam um país na rota da modernidade e que a esquerda brasileira não soube concluir quando tinha força para isso.
Vivemos tempos duros, nos quais uma onda mundial tenta reverter as grandes reformas democráticas que tornaram o mundo menos desigual e lhe permitiram viver os ares de uma democracia séria e segura, sem a qual não existem reformas possíveis. E nestes momentos quem mais sofrerá com essa tentativa de volta à escuridão política e social serão sem dúvida os párias de sempre, que, por sua vez, sustentam com seu trabalho as colunas do mundo.
Se os políticos de esquerda e de direita encasquetarem em não querer olhar para essas massas de trabalhadores que a sociedade do consumo abandonou na pobreza; se não forem capazes de abrir os olhos a essas tremendas injustiças sociais que aumentam com os problemas dos milhões de migrantes que percorrem o mundo como uma sombra e um alarme, então é possível que pela primeira vez o mundo, que sempre foi melhor em seu presente que em seu passado, porque as conquistas da ciência e a tecnologia lhe abriam espaços novos de liberdade, acabe nos fazendo suspirar pelo passado, numa grave miragem perversa.
O Brasil se reduz cada vez mais a essa nova trindade apresentada simbolicamente pelo novo partido criado por Bolsonaro, de Deus, violência e caça às bruxas comunistas, que já não existem mais porque, além de tudo, se aburguesaram. A esses milhões que se entregaram nas mãos de Bolsonaro agitando a bandeira de Jesus com a Bíblia na mão seria preciso recordar a dura passagem do evangelho em que Jesus grita: “Atam cargas pesadas e as colocam sobre os ombros dos mais fracos que sois incapazes de suportar” (Mt, 23, 4ss).
Que leiam, sim, os evangelhos, mas para entender que o cristianismo foi, em seus primórdios, revolucionário e em defesa dos mais necessitados. Que o profeta de Nazaré, perante as multidões famintas, necessitadas e sem poder que lhe seguiam, exclamou: “Tenho compaixão por esta gente”. E é essa compaixão por quem é abandonado no caminho por ser diferente é a única coisa que pode mais uma vez salvar este mundo atormentado e cada dia mais injusto. Quem se atreverá a apostar nessa utopia sem a qual a realidade nos levará ao inferno da violência e do desprezo pelos valores do único humanismo que pode nos salvar? Todo o resto são inúteis atalhos sem saída.
Cabe aqui um recado ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que justificou a alusão feita ao famigerado decreto AI-5 por temer protestos como o que sacodem o resto da América Latina. Ministro, troque o medo pela compaixão proposta por Nazaré. Deixe-se guiar pelas vozes e os sentimentos certos. Pode valorizar os mascarados agressivos dos protestos do Chile, ou prestar atenção na música do cantor Victor Jara que os jovens chilenos têm cantado durante os atos: “o direito de viver em paz”, buscando dignidade por um novo pacto social que corrija as mesmas injustiças de taxar a grande pobreza, herdada de Pinochet.

Autor: Juan Arias – El País.

Unificação da Irlanda, sonho possível!

“La vida es sueños. E los sueños sueños son (Calderón de La Barca, poeta espanhol)”.
Uma só Irlanda para todos os irlandeses foi um sonho que virou uma utopia frustrada. O povo irlandês passou vários séculos lutando, primeiro pela independência da sua ilha, depois pela unificação das duas partes em que fora dividida pelos ingleses. Nas últimas décadas teve de desistir, conformou-se com a tirania da realidade e das armas britânicas. Eis que, num momento sombrio em que os ingleses elegem um populista de direita, com tudo de negativo que essa ideologia carrega, abre-se uma fresta e a causa irlandesa, aparentemente perdida, começa a ganhar a forma de um sonho agora possível, embora de realização difícil e demorada.
Em tempos imemoriais, o povo irlandês era constituído por clãs, que raramente se uniam em quatro reinos, hostis uns aos outros. No século 12, sofreu a primeira invasão inglesa bem sucedida. No entanto, a ocupação da ilha pelo país vizinho não foi total, nem permanente. Somente quase 500 depois, a Inglaterra consolidou seu domínio, no reinado de Henrique VIII, que impôs a religião anglicana aos seus súditos. A maioria dos ingleses aceitou, mas os irlandeses desafiaram as ordens do rei, mantendo-se católicos.
A reação de Henrique foi tomar terras dos proprietários irlandeses e oferecê-las a nobres ingleses. Essa política foi ainda mais radical no governo da filha de Henrique, Elizabeth I, o que estimulou a aliança entre os clãs irlandeses. Eles promoveram a primeira revolta pela sua independência, por sinal, violentamente reprimida.
No governo republicano do ditador Cronwell, que derrubou a monarquia, em 1640, a situação ficou ainda desumana. Inconformados, os irlandeses rebelaram-se mais uma vez. Milhares deles foram massacrados, sendo vastas áreas tomadas aos católicos e entregues a protestantes ingleses, trazidos pela ditadura Cronwell.
Mas a monarquia voltou à Inglaterra e, durante os dois séculos seguintes, a resistência irlandesa continuou, limitada, porém, a protestos e ações esporádicas. No final do século XVII e início do XVIII, o Parlamento inglês exagerou o nível da opressão, retirando direitos políticos dos irlandeses e criando mais leis opressivas.
No período 1847-1848, abateu-se sobre a ilha a Grande Fome. Sua origem foi uma praga, que destruiu todas as plantações de batatas, alimento básico dos pobres, causando a morte de 800 mil deles e a imigração de milhões para os EUA.
Poucos protestantes, maioria nas classes rica e média, foram atingidos e se aproveitaram para comprar terras dos emigrados, a preços extremamente baixos. Nessa triste contingência, o governo inglês se omitiu, nada fez para proteger o povo irlandês.
Com isso, em 1900, 750 proprietários protestantes possuíam mais de 50% das terras cultiváveis. Os católicos, que se salvaram da fome devastadora, eram donos de 14%, em geral pequenas propriedades.
A formação do Eire
Em 1905, os nacionalistas irlandeses fundaram o partido Sinn Fein - com o objetivo de lutar pela independência da ilha. A ela se opôs a milícia “Voluntários do Ulster”, criada pelos unionistas.
A essas alturas na região do Ulster (hoje, Irlanda do Norte), o protestantismo se tornara maioria. Muitos trabalhadores escoceses e ingleses dessa religião haviam se fixado, atraídos pelos empregos oferecidos no processo de industrialização, que estava em marcha. Os conflitos entre protestantes unionistas (favoráveis à permanência no reino inglês) e os nacionalistas católicos (defensores da independência) se tornaram mais intensos. Em abril de 1916, no Levante da Páscoa, os nacionalistas decretaram a República da Irlanda. A repressão inglesa foi feroz, tendo executado os líderes revolucionários, depois de um julgamento rápido e de duvidosa legalidade.
Não pegou bem no povo. E, nas eleições de 1918, o Sinn Fein elegeu a maioria dos deputados da ilha no Parlamento da Inglaterra. Não demorou muito para que, em 1919, esse partido proclamasse a Independência da Irlanda e a formação de um governo, prontamente rejeitado pelas autoridades inglesas.
Nesse mesmo ano, foi fundado o IRA (Exército Republicano Irlandês), que lançou ações terroristas, emboscadas e explosões de bombas contra objetivos militares e políticos, em toda a Irlanda. Devido às dificuldades para a polícia inglesa enfrentar os rebeldes, o governo de Londres organizou uma força paramilitar, integrada por indivíduos violentos, muitos deles veteranos da 1ª Grande Guerra, desempregados, para colaborar na repressão. Formou-se assim o Black Tan, uma milícia de triste memória entre os irlandeses.
Na guerra sangrenta contra o IRA, o Black Tan destruiu lares, matou rebeldes e inocentes, mulheres e crianças, cometeu inúmeras atrocidades. Foi o autor do incêndio do centro da cidade de Cork, da cidade de Balbriggan e de muitas aldeias, provocando terror. E assim incentivando centenas de adesões à causa da independência.
Num dos episódios desta guerra civil, tendo o IRA fuzilado 14 agentes-secretos ingleses infiltrados em suas fileiras, as autoridades militares resolveram dar uma lição ao povo irlandês. Num domingo de novembro, um estádio estava lotado por torcedores assistindo um jogo de futebol gaélico. Subitamente, entraram carros de combate ingleses que despejaram tiros de metralhadora nos assistentes, matando quatorze pessoas e ferindo 65. E, ainda no mesmo dia, a polícia do governo espancou até a morte três rebeldes prisioneiros.
Esse atentado ficou na história com o nome de Domingo Sangrento de 1920. Pressionado por uma guerra que se tornava intolerável, por seu alto custo e má repercussão internacional, o governo inglês acabou por ceder. Em 1922, reconheceu a independência do Estado Livre da Irlanda (Eire, em idioma gaélico), ocupando 4/5 da ilha, que se tornou membro da Commonwealth (Comunidade Britânica de Nações) sob autoridade apenas formal do rei da Inglaterra.
Por outro lado, a região do Ulster, 1/5 da Irlanda, continuava parte da Inglaterra, com o nome de Irlanda do Norte.
Postergação histórica
Os líderes da luta pela independência foram forçados a aceitar a inócua subordinação ao rei da Inglaterra, considerando ser preferível a uma guerra, que já derramara sangue em excesso e provavelmente não teria chances de êxito.
Em 1949, com a retirada da Commonwealth e o fim do juramento de fidelidade ao rei inglês, uma das concessões do acordo de 1922 foram canceladas. Sobrava a outra, a partição da ilha. O IRA se opôs, queria a unificação das duas partes separadas num só país, a República da Irlanda. Tendo em vista esta reivindicação, o IRA passou a focar suas ações bélicas na Irlanda do Norte, contra a posição pró-status quo da população protestante. Acentuou-se então a rivalidade entre católicos e protestantes, estes apoiados pelo governo inglês e a polícia local. Com o tempo, a situação se estabilizou, com redução gradativa dos choques. Em fins de 1960, inícios dos anos 70, as coisas voltaram a pegar fogo numa campanha pelos direitos civis dos católicos, contra a discriminação que sofriam nos direitos de voto, de habitação e de emprego, pelo governo protestante e empresas locais. Os manifestantes eram atacados por grupos protestantes radicais, com ajuda da força policial. Rapidamente a violência dos dois lados cresceu e se espalhou.
Em janeiro de 1972, aconteceu novo domingo sangrento. Um batalhão de paraquedistas ingleses atirou contra civis católicos, matando 11 e ferindo outros. Todos estavam participando de uma marcha pacífica pelos direitos civis em Derry.
O exército inglês quis enganar a opinião pública, alegando que os mortos estavam armados. Uma cuidadosa investigação levou 38 anos, mas revelou que nenhuma das vítimas portava armas. No governo Thatcher (1979-1990), quando os rebeldes presos foram tratados no cárcere como criminosos comuns ou mesmo assassinados por setores da segurança, o IRA multiplicou sua ação. Promoveu atentados a bomba não mais só na Irlanda do Norte, também na própria Inglaterra.
Não dava mais para continuar. A opinião pública internacional condenava os métodos violentos das forças de segurança. A opinião pública em todo Reino Unido exigia o fim da guerra civil. Foi um primeiro-ministro trabalhista, Tony Blair, que, em 1998, mediou um acordo entre os unionistas pró-Reino Unido e os nacionalistas do Sinn Fein, estabelecendo eleições livres para a formação de um parlamento norte-Irlandês e um ministério com participação católica. E a Irlanda do Norte teria autonomia administrativa, embora permanecendo subordinada ao governo de Londres em questões fundamentais.
O IRA e os Voluntários do Ulster se obrigavam a entregar suas armas e interromper suas lutas. E assim se fez a paz.
Nos termos do chamado “Acordo da Boa Sexta-feira”, a partição da ilha seria mantida, com base no “princípio do consentimento”, respeitando a posição da maioria dos protestantes norte-irlandeses, que desejavam continuar no Reino Unido. Os representantes do Sinn Fein foram para casa, conformados, pois um aumento do número de católicos suficiente para dominar as eleições seria algo remoto e incerto. A unificação das Irlandas ficaria, quem sabe, para seus netos.
E um dia veio o Brexit
Mas os ventos ensaiaram uma mudança de direção, já em 2016. No referendo do Brexit, realizado em todo o Reino Unido, a maioria do eleitorado norte irlandês – 55% - votou para continuar na Europa, contra a maioria do eleitorado das regiões britânicas.
Várias tentativas para se chegar a um acordo que permitisse uma saída civilizada da União Europeia foram bloqueadas especialmente porque as duas Irlandas exigiam que as fronteiras entre elas continuassem abertas, por sérias razões econômicas e humanas. Com o Brexit parecia impossível – pois ambas integrariam entidades diferentes – na Irlanda do Norte, o Reino Unido, e na República da Irlanda, a União Europeia.
No entanto, nas dezenas de anos sem fronteiras entre as duas Irlandas, ambas integrantes da União Europeia, os dois povos se aproximaram. Através de relações comerciais livres de impostos, da prestação de serviços de habitantes de uma região a pessoas da outra, escolas frequentadas indiferentemente por estudantes do Norte e do Eire, de um sem número de outras atividades, dois povos estavam se tornando um único, com mútuos interesses econômicos e humanos que não queriam perder.
Para manterem as fronteiras abertas no Brexit, surgiram diversas soluções, entre elas, a unificação de toda a ilha na República da Irlanda, que ganha apoio crescente entre todos os irlandeses. No entanto, surgiu um obstáculo: o princípio do consentimento, que dava à maioria protestante o direito de decidir sobre o status da Irlanda do Norte.
Mas vieram as eleições parlamentares e, pela primeira vez na história da Irlanda do Norte, os nacionalistas, advogados da unificação, venceram os unionistas, pró-permanência no Reino Unido. O placar foi 9 deputados contra 8 dos adversários.
Michelle O´Neil, vice-líder do Sinn Fein, celebrou o resultado: “o gênio saiu da garrafa da unidade irlandesa e não vai voltar. Acredito que esta tendência irreversível estará se movimentando muito rapidamente (Irish Post, 25-10-2009)”.
Ele deve ter razão. Os norte-irlandeses já sentiram as vantagens da fronteira livre. Para eles, são tão importantes que, unidos ao governo do Eire, bloquearam várias propostas de acordo no Brexit por não garantirem a continuidade do livre trânsito de pessoas e bens entre as duas partes da ilha. O feroz conflito de religiões, que marcou a história da Irlanda durante séculos, abrandou-se de forma sensível, muito em função dos interesses comerciais e laços pessoais que uniram os irlandeses de toda a ilha, quando membros da União Europeia.
A vitória dos partidos adeptos da unificação, pela primeira vez na história, parece um sinal de que o feeling of belonging (sentimento de pertencer) à nação Irlanda ficou mais forte, superando o peso da identificação religiosa.
A vitória dos defensores da unificação no pleito de 2019 foi significativa, mas a margem de 9 x 8 ainda é muito apertada.
Maturação 
Vale como começo, mas é de se crer que será necessário um vasto trabalho para convencer a grande maioria dos norte-irlandeses da ideia de “uma só Irlanda”. Só assim se criará uma vox populi suficientemente forte para calar as objeções que surgirão.
Os líderes do Sinn Fein já falam num referendo, mas são realistas, sabem que não é para logo. Num discurso em Derry, Mary Lou Macdonald, líder do Sinn Fein apostrofou os chefes de governo do Reino Unido e do Eire: “que esta mensagem chegue alta e clara ao prédio do governo, em Dublin, e a Downing Street, 10 (sede do primeiro ministro inglês), que esta nova década seja aquela em que finalmente acabaremos com a partição e chegaremos à nova Irlanda unida”. Nessa ocasião, afirmou que o referendo sobre o assunto deveria ser convocado no prazo de cinco anos (Irish Times, 16 de novembro). Podemos prever que o governo de Boris Johnson não vai gostar nada e fará de tudo para afundar esse barco.
Há quem sustente ser dispensável o nihil obstat inglês. Diz Craig Murray, ex-embaixador da Inglaterra, no seu website: “é perfeitamente normal que Estados se tornem independentes sem a permissão do Estado do qual estão se separando”.
E ele cita: “o próprio governo inglês alegou precisamente esta posição diante da Corte Internacional de Justiça no caso de Kosovo (no julgamento da independência desta nação)”. Não se pode confiar totalmente no poder desse argumento. É de se pensar que o populista primeiro-ministro Boris Johnson é daqueles para quem nada vale quando não convém a seus interesses.

Autor: Luiz Eça – Correio da Cidadania.

O obscurantismo negacionista no Itamaraty - Parte I - Ernesto e os Extremos!

Vocês algum dia imaginaram ser esse lixo paranoico o tipo de leitura adotado e recomendado por um ministro das relações exteriores do nosso país (Print do Twitter de Ernesto Araujo.
Tudo no atual "governo" do Brasil é bizarro. De um ministro do meio ambiente cujo papel é obviamente o de acelerar a devastação ambiental a um ministro da educação que aposta no desmonte do ensino público, de um por um, até, claro, a bizarrice-mor que ocupa a presidência. Mas mesmo em meio a esse circo de horrores, uma figura se destaca, por ser o que melhor expressa o olavismo, o negacionismo climático e a ideologia anticiência em geral. Trata-se de Ernesto Araújo, ocupante do Ministério das Relações Exteriores, uma figura que abraça com força a paranoia das ditas teorias de conspiração e cuja posição sobre a questão climática já antecipamos aqui mesmo, em nosso blog.
A bizarrice do chanceler se espalha em tudo aquilo que ele resolve opinar a respeito. O nível de delírio é tão medonho que ele chega a afirmar que "a esquerda quer uma sociedade onde ninguém nasça, nenhum bebê, muito menos o menino Jesus". Mas como aqui a nossa praia é mudança climática (diferentemente do novo diretor do INPE), vamos nos deter à pérola do chanceler neste tema.
Também por intermédio do Twitter do ministro, fiquei sabendo que ele havia cometido um texto intitulado "Falsas aspas, falsos modelos", o que me motivou a responder também no Twitter, começando na mesma noite, mas se estendendo pelos dois dias seguintes. Resolvi, então, colocar aqui, de maneira sistematizada e melhor estruturada, a resposta ao delirante Ernesto. Vamos lá!
Imagino que a motivação do ministro para escrever tanta bobagem tenha sido a série de reportagens que se seguiram à declaração dele, negando o aquecimento global com base no fato de que "estava frio em Roma". Ou seja, era a velha confusão entre tempo e clima. Mas ao colocar por escrito, alegando que "não era bem aquilo que queria dizer", veremos que Ernesto só piorou a sua própria situação...
Como é que o ocupante do Itamaraty trata a questão dos eventos extremos de tempo? Afirmando que "qualquer fenômeno específico que pareça comprovar essa convicção [de que existe aquecimento global], como um recorde de calor em algum lugar, tende a ser amplamente reportado, ao passo que um fenômeno que pareça desmenti-la é rejeitado e não aparece com destaque na mídia".
Razão entre extremos mensais de calor e de frio, no mundo, desde 1880, com projeção para as próximas décadas. Fonte Coumou et al. (2013)
Para o chanceler, é como se extremos de calor estivessem sendo indevidamente usados para confirmar o aquecimento global, enquanto eventos frios estariam sendo ignorados. Isso faria sentido se a ocorrência de extremos de calor e frio fosse equivalente, como seria de se esperar num clima em equilíbrio. Acontece que todas as estatísticas demonstram que a frequência de extremos de calor é, hoje, bem maior do que a frequência de baixas temperaturas. Cinco vezes para ser mais preciso.
É o que demonstra o artigo de Coumou et al., de 2013, na revista científica Climatic Change. Aliás, como mostra a figura do artigo (que reproduzimos aqui), a partir dos anos 1980, a quebra de recordes de alta temperatura passou a ser mais de duas vezes mais frequente que a quebra de recordes de baixa. Hoje em dia, a proporção é de 5 para 1, podendo chegar a 10 para 1 até mesmo antes de 2030.
Mesmo que isoladamente nenhum evento de tempo seja necessariamente representativo, há, portanto, uma óbvia assimetria aqui. Usar uma onda de calor extremo de maneira ilustrativa para a tendência observada de aumento da frequência desse fenômeno é legítimo, especialmente se for feita a ressalva sobre a estatística de eventos. Já usar um episódio de frio cuja frequência é cada vez menor para tentar "refutar" o aquecimento global, aí sim, é uma manipulação flagrante. Trata-se de querer vender como regra aquilo que é, cada vez mais, exceção.
Na verdade, com noções elementares de estatística se torna fácil entender porque extremos como os recentes eventos de calor extremo na Europa e no Alaska devem se tornar cada vez mais frequentes, ao passo que recordes de frio vão ficando mais e mais raros. Com um pouquinho de esforço, talvez até o ministro seja capaz de absorver o conceito.
Considere a figura abaixo, que mostra uma distribuição de temperaturas para uma determinada região. Em geral, a maior parte dos registros acontece em torno da média para aquele período do ano, como mostrado na curva amarela. As frequências de eventos frios e quentes são proporcionais, respectivamente às áreas coloridas em azul e amarelo próximo às extremidades da curva.
Em outras palavras, temperaturas muito mais baixas que a média são relativamente raras, assim como temperaturas muito mais altas. Mas sem que haja uma mudança no clima, a estatística permanece a mesma e a frequência de eventos frios e quentes permanece equivalente.
 Mas o que acontece quando a própria temperatura média aumenta? A distribuição como um todo se desloca, como mostrado na curva vermelha. Nesse caso, a área em azul sob a curva, à esquerda, correspondente à frequência de extremos de frio, diminui. Em contrapartida, a área em amarelo, à direita, correspondente à frequência de extremos de calor, aumenta. A proporção entre as duas, que antes era de um para um, muda radicalmente. E o que também acontece é que a chance de quebra de recorde de calor se torna bem maior (área vermelha).
Para o chanceler, a atenção dada às ondas de calor (que além de mais frequentes estão cada vez mais perigosas e até mortíferas) teria o mero propósito de validar a "conspiração globalista". Também conforme o pensamento distorcido de Ernesto Araújo, a conspiração também deve estar escondendo recordes de frio. Mas como mostramos aqui, o único tipo de extremo que está tão frequente quanto as ondas de calor são os extremos de delírio conspiracionista do chanceler. Ou o extremismo político-ideológico a que ele é afiliado e que se traduz numa paranoia conspiracionista e anticiência.
Mas esse equívoco evidente é só o começo... Ernesto segue, aventurando-se a falar de Paleoclima, então imaginem o que vem por aí! Mas isso é papo para a Parte II da resposta ao ministro. Até lá!

Autor: Alexandre Araujo Costa é cientista do clima.

Ditadura e desigualdade!

Recentemente, pesquisadores e instituições com reconhecido trabalho no campo da economia têm lançado luz sobre a dimensão da desigualdade social no Brasil. Da lavra da Fundação Getúlio Vargas, (FGV) o estudo intitulado “A escalada da Desigualdade” revela que, na comparação mensal, a desigualdade social tem alta ininterrupta desde o segundo trimestre de 2015. Nem mesmo em 1989, o nosso pico histórico de desigualdade brasileira, houve um movimento de concentração de renda por tantos períodos consecutivos. No último trimestre de 2014 foi o período em que a concentração de renda alcançou seu mínimo histórico no país.
De lá para cá, foram 17 trimestres consecutivos de aprofundamento do abismo socioeconômico, o período mais longo de alta na concentração de renda dos brasileiros já contabilizada. E foi a população mais pobre quem teve a maior perda na renda domiciliar fruto do trabalho. O principal motivo para esses resultados, de acordo com a FGV, é o desemprego no país, resultado da crise econômica que corrói desde 2015 o poder de compra das famílias. Os dados mostram que a taxa de desemprego no país, que em 2014 era de cerca de 6,5%, chegou a 12% no segundo trimestre de 2019.
Já a tese de doutorado premiada do economista Pedro Ferreira de Souza, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vai mais fundo nas raízes da desigualdade. A pesquisa dele detalha a concentração de renda no Brasil no período de 1926 a 2013 e foi convertida no livro “Uma História de Desigualdade”, que já ganhou dois prêmios Jabuti – mais importante na literatura brasileira - nas categorias Livro do Ano e Humanidades.
O economista estabelece uma relação direta entre a desigualdade, democracia e ditadura na distribuição de riquezas. O estudo revela que a desigualdade brasileira caiu nos períodos democráticos, de 1945 a 1964, mas subiu durante as ditaduras, tanto no Estado Novo quanto no regime militar. Souza afirma no estudo que a democracia reduziu as desigualdades porque dá mais voz aos pobres, assim como considera que as ditaduras tenham levado a um crescimento da desigualdade já que reprimiram movimentos sociais, como os sindicatos. O que reforça a tese de que democracia e instituições estáveis são saudáveis para a economia.
A pesquisa indica, ainda, que programas de redistribuição de renda não são suficientes pra redução expressiva das desigualdades, apenas aproximaram as classes mais baixas da classe média. Com dados históricos da taxação da renda no Brasil, Souza conta que está aí a razão da evolução da renda dos mais ricos, com atenção especial ao 1% mais rico. Um problema que o Brasil precisa enfrentar: a regressividade do sistema tributário brasileiro, que penaliza os mais pobres e cobra menos dos mais ricos.
Daí a importância de nós priorizarmos a agenda social na Câmara. Na visão de alguns deputados, e eu me incluo nesse grupo, de nada adianta o Congresso aprovar reformas econômicas que vão exigir sacrifícios da população brasileira se não houver uma contrapartida social. É preciso que o parlamento dê demonstrações de sensibilidade social, que se traduzam em ações que justifiquem tantos cortes e minimizem as desigualdades sociais no país.
Recentemente, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, lançou a agenda legislativa para o desenvolvimento social. O objetivo é propor uma série de ações voltadas ao combate à pobreza e à redução das desigualdades. São cinco os eixos principais da agenda social: garantia de renda; inclusão produtiva; rede de proteção ao trabalhador; incentivo à governança responsável com uma lei de responsabilidade social; e promoção do acesso à água e ao saneamento.
O estado brasileiro, nos últimos 30 anos, criou um dos países que mais concentram renda na mão de poucos. Por isso, a ideia é de que os que possuem mais renda possam dar maior contribuição para redução das desigualdades. Entre as proposições também está a inclusão do Bolsa Família na Constituição Federal e um projeto de lei para criar um benefício específico voltado à primeira infância. O foco serão os primeiros cinco anos de vida, fase decisiva para o desenvolvimento cerebral. Esse incentivo deve beneficiar mais de 3 milhões de crianças.
Pra equilibrar a falta de ações sociais no Pacote Mais Brasil, do Ministério da Economia, a Câmara vai se dedicar às temáticas sociais. Como disse num artigo anterior, é preciso reduzir com urgência uma Uganda que existe aqui no Brasil. É o que diz outro estudo do economista Pedro Nery, segundo o qual os 20% mais pobres no nosso país que tem a mesma renda per capita de Uganda, um dos países mais pobres do mundo. Uma mazela que exige de nós, homens públicos, uma ação corajosa e efetiva porque país sem justiça social é um país que lega às gerações de brasileiros um presente sem direitos e um futuro sombrio e incerto.

Autor: Marcelo Ramos - Bacharel em Direito.