Eu vou tentar, de vez em quando, usar este espaço para falar um pouco mais de mim. Já fiz isso quando escrevi sobre a Dave Matthews Band. Ainda vou fazer quando falar da minha mãe e da paixão dela por Elton John, ou do meu tio Roberto, personagem recorrente destas linhas e responsável por abrir minha cabeça para muitos sons e muitos filmes.
Mas hoje eu preciso falar do meu pai.
E talvez este seja um dos textos mais difíceis em termos de emoção que já escrevi. Os Beatles entraram na minha vida através dele. Eu escrevo estas linhas com um nó na garganta porque meu pai é uma das pessoas mais importantes da minha vida. E quando a gente fala de quem ama, às vezes as palavras ficam mais difíceis de encontrar. Meu pai sempre gostou dos Beatles.
As minhas primeiras lembranças deles acontecem dentro do carro. Na época dos toca-fitas e aqui talvez eu precise explicar para os mais novos que, antes do streaming, da playlist e até dos CDs, era assim que muita gente ouvia música enquanto dirigia.
Eu lembro das fitas girando. Lembro das músicas tocando. E lembro especialmente das canções do Revólver. Por algum motivo, aquelas músicas me passavam uma sensação diferente. Havia algo acolhedor nelas. Hoje eu percebo que talvez não fossem as músicas. Talvez fosse o fato de ouvi-las ao lado dele. Era como se cada faixa construísse uma memória. Como se cada refrão fosse um lugar seguro.
Meu pai teve a sorte de assistir ao Paul McCartney ao vivo ainda na primeira passagem dele pelo Brasil, no Maracanã, quando Linda McCartney ainda fazia parte da banda. Durante anos ouvi histórias daquele show.
Depois vieram os discos. Depois vieram os vídeos. Depois vieram as conversas. E, naturalmente, veio o meu primeiro CD dos Beatles. O Revólver. Presente dele. Não poderia ter sido outro. Os Beatles sempre estiveram presentes nas nossas conversas. E algumas músicas acabaram ganhando significados que vão muito além do que seus autores imaginaram.
Minha música favorita do John Lennon sempre foi “Instant Karma”.
Não porque eu ache que seja a melhor composição dele. Mas porque ela me leva para um lugar específico. Eu consigo ver meu pai dentro do apartamento dele. Consigo ouvir a música tocando. Consigo ouvir ele cantando “We all shine on…” em voz alta. Aquela cena ficou guardada dentro de mim. E eu nunca quis tirá-la de lá. Meu pai é daqueles que ainda para e assisti vídeos de música. Daqueles que gostam de ouvir uma canção e depois conversar sobre ela.
Foi com ele que ouvi “My Sweet Lord” do George Harrison pela primeira vez.
E eu lembro do jeito como ele falava daquela música. Como se ela fosse mais do que uma canção. Como se fosse uma oração. Muitas pessoas dividem paixões com os pais. Eu dividi duas. Os Beatles e o Corinthians. E talvez isso explique muita coisa sobre quem eu sou. Existe ainda uma lembrança que volta para mim toda vez que penso nisso. Meu pai me levou ao meu primeiro show internacional. Oasis. Turnê do Be Here Now.
Eu era jovem e aquilo parecia gigantesco. Hoje eu sei que aquele momento era muito maior do que eu imaginava. Porque não era apenas um show. Era eu e ele. Debaixo da chuva. Eu cantando todas músicas e ele observando. Dividindo um momento que jamais voltaria a acontecer daquela forma. Eu lembro de olhar para ele. E lembro dele olhando para mim. Por alguns instantes não existia mais ninguém. Não existia a multidão. Não existia a cidade. Existíamos apenas nós dois e aquelas músicas.
E tudo isso começou com os Beatles. Por isso, se eu puder deixar uma mensagem depois deste texto, ela é simples:
Volte aos artistas que alguém importante apresentou para você.
Volte aos discos que seu pai ou sua mãe ouviam.
Volte às músicas que seu tio colocava para tocar.
Volte aos álbuns que marcaram conversas, viagens e momentos.
Porque essas músicas carregam pessoas dentro delas. Hoje meu pai mora longe. Não estamos na mesma cidade. Mas enquanto escrevo este texto ouvindo Beatles, é como se estivéssemos na mesma sala. É como se o tempo diminuísse. É como se a distância desaparecesse por alguns minutos. E talvez essa seja uma das maiores provas de amor que a música pode nos dar. Ela nos permite reencontrar quem amamos.
Mesmo quando essas pessoas estão longe. E, por isso, eu termino com um pedido. Façam isso enquanto as pessoas estão aqui.
Enquanto elas podem ouvir.
Enquanto elas podem sorrir.
Enquanto vocês ainda podem dividir a música juntos.
Daqui a alguns dias vou encontrar meu pai novamente.
E tenho quase certeza de que os Beatles vão tocar em algum momento. Como sempre tocaram.
Autor: Rodrigo Moia – Especialista em Marketing – Publicado no Medium.com





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