Haaland disputa bola e humilha a defesa brasileira em Brasil x Noruega. Fonte: Buda Mendes Getty Images Via Fifa.
Não somos mais o país do futebol? A pergunta ecoa pelas ruas tristes e silenciosas, pelos bares esvaziados e pelas salas de estar onde a cerveja esquentou antes mesmo do apito final. O que aconteceu conosco?
Quiseram as deusas do futebol que perdêssemos num domingo, bem no fim de tarde. O sol se punha sobre Nova Jersey, tingindo o céu de um laranja melancólico, enquanto nós, aqui no Brasil, assistíamos anestesiados à repetição de um roteiro sádico. Vagávamos em busca de culpados por um jejum que já dura décadas. Logo num domingo. Anunciava-se, de forma implacável, uma segunda-feira nublada, triste, trágica. Uma segunda-feira de trabalho árduo para a maior parte do povo brasileiro, que, mais uma vez, voltaria à labuta sem título, sem feriado, sem o grito de campeão entalado na garganta. Mais uma vez derrotados pelos europeus. O relógio marcava o fim de uma era, ou talvez a confirmação de que a nossa era já terminou há muito tempo.
Não somos mais o país do futebol? A pergunta ecoa pelas ruas tristes e silenciosas, pelos bares esvaziados e pelas salas de estar onde a cerveja esquentou antes mesmo do apito final. O que aconteceu conosco? A Noruega, um país cuja tradição no esporte mal preenche uma página, impôs-nos um doloroso 2 a 1, selando a nossa pior campanha desde 1990. Caímos nas oitavas de final. Um vexame com requintes de crueldade, onde um gigante loiro chamado Haaland nos lembrou, com dois golpes fatais, de que a força e a eficiência nórdica atropelaram o nosso propalado talento. Desde 2002, quando Cafu ergueu a taça em Yokohama, não conseguimos passar por um adversário europeu em fases eliminatórias. França, Holanda, Alemanha, Bélgica, Croácia e, agora, a Noruega. O Velho Continente tornou-se um muro intransponível para o nosso futebol que, outrora, encantava o mundo.
Acreditamos na cantilena tecnicista do Mister. Ah, o Mister! Carlo Ancelotti chegou com a pompa de um salvador, o rei dos clubes europeus que desceria ao nosso trópico para nos ensinar a jogar bola. Mas por que raios o chamamos de Mister? Por que tal empáfia diante de uma campanha tão patética? A submissão a um jargão importado reflete a nossa própria crise de identidade. Entregamos a alma da Seleção a um estrangeiro na esperança de que ele nos devolvesse a nós mesmos. O resultado foi um time que teve meros 32% de posse de bola contra a Noruega. O Brasil, o país do drible, do toque, do gingado, reduzido a assistir o adversário trocar passes. O Mister morreu abraçado aos seus veteranos, incapaz de dar um padrão de jogo a uma seleção que só engasgou e nunca encantou coletivamente nesta Copa.
O pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães no primeiro tempo, batido a meia altura, sem convicção, foi o prenúncio do desastre. Onde estava Vini Jr., o nosso craque, o homem destinado a assumir a responsabilidade? “O Ancelotti que escolhe”, foi a resposta protocolar. A burocracia tática anulou a ousadia. Quando Neymar entrou, aos 21 minutos da etapa final, parecia o fantasma de um passado supostamente glorioso tentando assombrar o presente. Fez o seu gol de pênalti nos acréscimos, mas era tarde. Como disse Casagrande, o comportamento do craque tornou-se a cereja podre de um bolo azedo. Um time sem alma, sem fibra, engolido pela própria soberba e pela falta de planejamento.
Em 2030, completaremos 28 anos sem erguer a taça da Copa do Mundo. É o mesmo hiato amargo que separa a primeira edição, em 1930, da glória inaugural de Pelé e Garrincha em 1958. Mas, naquelas décadas, construíamos uma identidade. Hoje, parecemos desconstruí-la. A derrota para a Noruega é o reflexo de um futebol elitizado, distante do povo, gerido por cartolas (e jogadores “bets”) que pedem “ciclo completo” e “confiança total” em meio ao caos e à farra das finanças.
As deusas do futebol são implacáveis com a arrogância. Elas nos cobraram a fatura num domingo à tarde, deixando-nos com a ressaca de uma paixão mal resolvida. A segunda-feira chegou, o despertador tocou, e o brasileiro, o verdadeiro herói dessa história, levantou-se para mais um dia de luta. Sem a taça, sem a ilusão, restando apenas a pergunta que teima em não calar: quando, afinal, voltaremos a ser nós mesmos? Ou melhor, o que somos para além do “país do futebol”?
Autor: Lindener Pareto Jr. - Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP. Curador e Supervisor Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Autor de "Crônico e Anacrônico: Publicado no Site ICL Notícias.

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