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13 de julho de 2026

Os disfarces de Tarcísio

  

Crédito Pablo Jacob - Governo do Estado de SP.

A realidade começa a desmontar o personagem que Tarcísio de Freitas tentou construir. Depois de privatizar tudo o que encontrou pela frente, parece que agora, às vésperas da eleição, o governador Tarcísio de Freitas percebeu que talvez esse não tenha sido um bom negócio. Na “inauguração” da estação Washington Luís da Linha Ouro do monotrilho, disse que mudou de opinião sobre a operação privada do transporte sobre trilhos e elogiou o Metrô por sua competência. Uma empresa pública, vejam só. Recuou também na concessão de mais um lote de parques.

Na mobilidade, Tarcísio foi além. Compartilhou com quem quisesse ouvir que tem preocupação com a existência de poucas concessionárias, que dividem o sistema entre si. Uma mudança e tanto de postura. Talvez motivada por alguma pesquisa de opinião que tenha mostrado a insatisfação dos milhares de passageiros que utilizam o sistema todos os dias e sentem na pele a piora do serviço nas linhas privatizadas.

A preocupação de Tarcísio é tardia e, até aqui, seletiva. Não se estendeu à Sabesp, que foi entregue ao único participante do leilão, após alterações no Edital que “desestimularam” a participação de concorrentes, e opera com resultados desastrosos na distribuição da água e na coleta e tratamento de esgoto para mais de 30 milhões de pessoas.

Entregou de mão beijada o controle dos grandes mananciais da Região Metropolitana de São Paulo, ao autorizar a venda da Emae, que, entre outras atribuições, gerencia as represas Billings e Guarapiranga e opera o sistema metropolitano de macrodrenagem.

Aliás, foi a privatização da Emae, também no governo Tarcísio, que resultou em um escândalo envolvendo Nelson Tanure e o Banco Master, que dilapidaram seu caixa em um ano de gestão, adquirindo R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, do conglomerado do Banco Master, colocando a antiga estatal em situação de insolvência e entregando a Emae para a mesma empresa que adquiriu a Sabesp. Sobre isso pouco se fala também.

Na verdade, Tarcísio de Freitas precisa disfarçar e faz isso de forma permanente. Vende-se como político ponderado para seus apoiadores na Faria Lima, mas traz enraizado em si o extremismo da direita. Ou alguém se esqueceu da satisfação ao usar o boné do MAGA (Make America Great Again), do apoio às sanções comerciais e políticas contra o Brasil feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e dos ataques ao STF?

Tarcísio vinha apostando na pseudo eficiência do “mercado” para justificar negócios suspeitos com o patrimônio público. Tentou passar uma imagem de moderação e eficiência ao público, mas incentivou a violência policial, não obteve resultados no combate ao crime e a sensação de insegurança só aumenta. Prometeu tecnologia e inteligência na segurança pública, mas entregou apenas truculência indiscriminada nas ruas, policiais mal remunerados abandonando a farda, além do aumento da criminalidade e da violência contra a população.

Tarcísio é um embuste disfarçado, porque precisa da força política da extrema direita para se manter à tona, da simpatia do grande capital para financiar suas ambições e da mídia corporativa para firmar sua pretensa imagem de eficiência e moderação, em contraste com o bolsonarismo raiz. Mas precisa também dos votos que estão além do campo da extrema direita, principalmente em São Paulo, se quiser seguir como governador. Para isso, precisa fingir bom mocismo e vestir muitas fantasias para ficar longe dos fiascos de seu governo.

Como tratei em meu artigo anterior neste Brasil 247, as linhas de transporte sobre trilhos concedidas aos operadores privados causam repetidos problemas aos usuários. E não estamos falando somente da superlotação e do aumento do tempo perdido nos deslocamentos. Há registros de acidentes gravíssimos, que já deixaram mortos e feridos.

O governo não só deixou de exercer a sua obrigação de fiscalizar, como manteve regulamentos frouxos e contratos mal formulados com as concessionárias, em especial a Motiva, que opera as Linhas 8 e 9 da CPTM e as linhas 5-Lilás e 4-Amarela do Metrô.

Problemas de outra ordem se avolumam nas concessões estaduais, como reequilíbrios contratuais danosos ao erário, tarifas elevadas e serviços de baixa qualidade, além da instalação indiscriminada de pedágios free flow, disfarçados agora pelo marketing governamental com o bordão “pedágios eletrônicos que poupam o seu tempo”.

Esse conjunto deve assombrar as pesquisas de opinião do governo e constituem uma ameaça à reeleição de Tarcísio. A combinação dos graves problemas da Sabesp, o péssimo desempenho de boa parte das concessões e entregas parciais e açodadas de obras ainda em andamento, motivadas apenas pelo calendário eleitoral revelam uma gestão de baixa eficiência e eficácia.

A realidade começa a desmontar o personagem que Tarcísio de Freitas tentou construir. E o desafio para se manter de pé não é simples. Como amenizar a experiência cotidiana de quem enfrenta panes no transporte tem acesso restrito à água, convive com mais pedágios, vê a violência crescer e acompanha sucessivos questionamentos sobre contratos e privatizações?

A propaganda pode até maquiar um governo por algum tempo, mas não muda os fatos. E, na política, chega um momento em que os fatos vencem o marketing. Se Tarcísio agora procura se distanciar das consequências das próprias escolhas, é porque percebe que elas deixaram de ser ativo eleitoral para se transformar em passivo político.

Autor: Mário Maurici - Jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha, ex-vice-presidente da EBC e ex-presidente da Ceagesp. Publicado no Site Brasil 247.

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