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1 de março de 2026

Atenção: não estamos seguras em lugar nenhum!

O assédio atravessa espaços públicos, privados e institucionais, e só a rede de apoio e a mobilização coletiva quebram o isolamento que sustenta a impunidade. Freepik.

A violência deixa marcas que seguem no corpo e na mente da vítima, enquanto instituições ainda hesitam em responsabilizar homens poderosos.

Uma jovem de 18 anos viveu um dia horror no dia 14 de janeiro passado, ao acompanhar os pais em uma viagem para o litoral de Santa Catarina. Os três estavam hospedados na casa de um amigo localizada na Praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú. O anfitrião, se aproveitando da confiança que a família depositava nele, convidou a moça para acompanhá-lo num banho de mar, durante o qual ela teria sido tocada de forma inapropriada e indesejada.

Para se aproximar da moça, o até então "amigo" de seus pais teria alegado estar com frio e apontado para um casal próximo: "Deve ser por isso que eles estão abraçados". Em seguida, ele a teria virado de costas e pressionado seu corpo contra o dele, enquanto afirmava que a achava "muito bonita" e tocava suas nádegas.

A jovem imediatamente tentou se desvencilhar do assédio e, antes de conseguir se soltar, ainda ouviu um "conselho" em tom de ameaça: "Você é muito sincera, deveria ser menos sincera com as pessoas. Isso pode te prejudicar". Quantas de nós já ouvimos algo parecido? Quantas já sentiram, em segundos, o corpo entrar em alerta — e a mente tentar calcular o risco de reagir?

Este caso ganhou os holofotes nacionais não apenas pela violência em si, tão comum e até hoje subnotificada, mas por quem foi apontado como acusado de importunação sexual: o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Marcos Buzzi.

A despeito da tentativa de intimidação, a jovem contou o ocorrido aos pais e prestou depoimento formal. Procurou a Polícia Civil e também levou o relato ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), acompanhada da mãe — uma advogada conhecida, respeitada e com trânsito no meio jurídico. Coragem e suporte que a maioria das mulheres não tem quando precisa enfrentar homens poderosos — especialmente quando eles são autoridades. Essa assimetria aparece até nos gestos institucionais mais básicos: no STJ, oito dos 29 ministros votantes foram contra a abertura da sindicância contra o colega, a despeito da gravidade da denúncia.

O processo corre em segredo. Nos bastidores, comenta-se a possibilidade de uma punição administrativa: a aposentadoria compulsória, sem perda de proventos. Já a apuração criminal, remetida ao Supremo Tribunal Federal (STF), pode resultar em condenação por importunação sexual, com pena de um a cinco anos e perda da aposentadoria.

Em sessão secreta no STJ, o ministro negou as acusações. No dia seguinte, foi internado e apresentou atestado médico ao tribunal. A jovem, por sua vez, vem sendo acompanhada por médicos desde o dia do episódio, com relatos de impacto emocional — como dificuldade para dormir. Algo que costuma ser ignorado: o assédio não termina quando a cena acaba.

No Brasil, denúncias de importunação sexual se acumulam diariamente, e nem sempre recebem atenção compatível ao dano que representa para vítima. Em média, 54 novos casos são registrados por dia, de acordo com dados do CNJ. E não é só na rua que costumam acontecer. Durante a pandemia de Covid-19, pesquisa do Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que, para muitas mulheres, o lugar que deveria ser abrigo também é risco: uma parcela expressiva das vítimas relatou que a violência ocorreu dentro de casa.

Temo, de verdade, que não exista um lugar totalmente seguro para nós. Mas existe algo que pode — e precisa — crescer: a nossa mobilização e rede de apoio às vítimas. Se você sofreu assédio, não se culpe. Conte para alguém em quem confia. Se puder, registre. Procure apoio psicológico e jurídico. E, se uma mulher ao seu lado revelar uma violência, faça o mais importante: acredite, acolha e acompanhe. A impunidade se alimenta do isolamento.

E cantemos juntas com Sued Nunes, na sua inspiradora canção: "Povoada! Quem falou que eu ando só? Nessa terra, nesse chão de meu Deus, sou uma, mas não sou só". 

Autora: Adriana Vasconcelos – Publicado no Site Congresso em Foco.

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