A guerra contra o Iran, que já se tornou um conflito regional, tem uma possibilidade real de se alastrar. O ataque mostra a convergência de interesses percebidos como vitais tanto para Israelenses quanto para os americanos. Os americanos querem destruir a infraestrutura energética da China, que precisa tanto do petróleo iraniano, quanto de uma presença real na região para seus interesses globais estratégicos.
Obstruir o acesso de energia a uma potência industrial é um golpe de morte. Foi estrangulando o acesso dos japoneses ao petróleo, que os americanos conseguiram o que procuravam: a entrada dos japoneses – e depois dos americanos – em uma guerra que redefiniria a ordem global inteiramente em favor dos interesses americanos. A semelhança entre as duas situações históricas mostra o perigo real em que estamos correndo hoje em dia.
Israel, por sua vez, quer acabar de vez com o único país da região que pode lhe oferecer uma resistência seria. Com o Iran abatido, Israel teria o caminho aberto ao projeto do “grande Israel”, submetendo todo o Oriente Médio aos seus interesses.
É neste encontro de interesses real que reside o perigo. Trump e Netanyahu são a prova mais cabal do declínio do Ocidente, que mandou no mundo nos últimos 2.500 anos desde a Grécia antiga e Roma. O assim chamado Ocidente – hoje a soma do que era a OTAN e Israel – retirava seu prestígio da sua moralidade percebida e reconhecida por quase todos como superior.
Os símbolos mais visíveis desse prestígio são a democracia, a imprensa livre (sic), a ciência, o Direito e a proteção à esfera individual. Todas elas criações do Ocidente. Enquanto a Europa e os EUA podiam se apresentar como materialização deste espírito, a dominação era antes de tudo cultural, possibilitada pela percepção do resto do mundo como inferior. O poderio militar funcionava como uma última espécie de intimidação final, quando o resto tivesse falhado.
O genocídio palestino, assistido, desvirtuado e negado tanto pela Europa quanto pelos Estados Unidos, enquanto o maior genocídio do século XXI contra um povo indefeso era perpetrado aos olhos de todos, quebrou qualquer possibilidade de manter a suposta “superioridade moral do Ocidente” intacta. Tudo que antes era “orgulho civilizatório” é agora símbolo de cinismo e mentira.
É isso que explica que o uso abusivo da força militar não seja força real, mas, sim, fraqueza de um domínio baseado unicamente na força e na violência, que não convence mais ninguém que representa valores universais. Desse modo, comandado por dois criminosos contumazes, o perigo de uma guerra total é real.
Autor: Jessé Souza - Escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os best-sellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA. Publicado no Site ICL Notícias.

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