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9 de janeiro de 2023

"Extrema direita assumiu o seu atestado de óbito"

  

Exatamente uma semana após a posse de Lula, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram, aos milhares, as sedes dos três Poderes em Brasília, destruindo tudo que encontravam pela frente. Rapidamente, foram divulgadas imagens que mostravam membros da Polícia Militar do Distrito Federal assistindo impassivelmente aos atos de vandalismo.

A intenção era colocar em xeque a eleição do PT à Presidência, movimento que foi insuflado nos últimos meses constantemente por Bolsonaro, que deixou o Brasil em dezembro para não ter que passar a faixa a Lula. No entanto, para o cientista político Christian Lynch, o tiro saiu pela culatra.

Em entrevista à DW Brasil, o professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), diz que os atos de terrorismo e vandalismo praticamente acabaram com qualquer tolerância do sistema político brasileiro a figuras da extrema direita, como o próprio Bolsonaro, que incentivaram os atos.

"Ele não está tão interessado no eleitorado, do ponto de vista da liderança. O eleitorado dele só serve se for pra tentar impedir uma prisão ou negociar a impunidade dele. Neste domingo, isso acabou", diz Lynch. Para o cientista político, as próprias forças de segurança ficaram em uma sinuca de bico após o bolsonarismo ter assumido abertamente a destruição da ordem institucional. "As forças serão obrigadas a embarcar no discurso da ordem, que é do atual governo", afirma.

DW Brasil: Há uma semana, correram boatos em Brasília entre os membros do PL, partido de Jair Bolsonaro, de que o ex-presidente seria preso ou ficaria inelegível devido à quebra do sigilo telefônico de bolsonaristas por parte do ministro do STF Alexandre de Moraes. Com os atos deste domingo, essa possibilidade se tornou ainda mais real?

Christian Lynch: Hoje, a extrema direita assumiu o seu atestado de óbito. O governo Bolsonaro foi um governo eleito meio que por acaso, naquela confusão de 2018. Queriam alguém antissistema, mas não sabiam quem seria essa pessoa. Bolsonaro nunca foi líder de nada, nunca foi corajoso de nada, pilotou uma manada de extremistas que foi criada no ódio ao sistema que foi incentivado pela Lava Jato e pelo apoio da imprensa à operação.

Durante a Presidência, ele achou que foi ungido por Deus, que tinha chegado lá como um eleito de Jesus Cristo. Como é possível um incompetente que ficou 30 anos vivendo de lacração no Congresso, sem aprovar um projeto, chegar à Presidência? Se ele fosse inteligente, saberia que é produto de circunstâncias – mas Bolsonaro não é inteligente, ele achou que foi colocado lá por Jesus Cristo. Então, ele transformou o governo dele numa reprodução do que eram os seus gabinetes nos mandatos de vereador e deputado.

Ele imaginava que podia fazer todas as atrocidades, porque tinha sido ungido por Deus. Então, ele ia ser reeleito. Em nenhum momento ele pensou que não seria reeleito. E, de repente, não foi. Aí, ele caiu prostrado, depois entrou em pânico. E começou a imaginar a fuga. Aí ele fugiu pra Disneylândia, porque ele sabe que vai sobrar para ele. E agora está tentando arrumar cidadania italiana pra ficar num lugar onde não possa ser extraditado.

E, nesse cenário, como fica o eleitorado de Bolsonaro?

Ele não está tão interessado no eleitorado, do ponto de vista da liderança. O eleitorado dele só serve se for pra tentar impedir uma prisão ou negociar a impunidade dele. Neste domingo, isso acabou.

O que aconteceu, depois que ele deixou o poder, foi o nicho de mercado eleitoral: existe aqui um modelo de negócio que é dele. Que ele ensinou para a família dele e para outros políticos: se você falar que quer golpe, sair dando tiro, se elege. Que preto é feio, que gay tem que morrer, aí você se elege.

E, após os atos terroristas, esse mercado eleitoral vai continuar existindo? O que será de Nikolas Ferreira, Bia Kicis, Carla Zambelli entre outros fiéis seguidores do Bolsonaro?

Isso é um mercado. Existe esse mercado eleitoral. Existe uma demanda, aparece uma oferta. O mercado eleitoral é igual o tráfico de drogas: se tem uma demanda de viciado, sempre vai ter quem venda a droga. Quando a polícia chega em cima, eles dizem que não são golpistas. Aí, eles vão embora, e no dia seguinte eles estão vendendo a "droga" do golpe novamente.

Estava ocorrendo uma leniência com isso. O [presidente da Câmara] Arthur Lira (PP-AL) também sabe que tem esse pessoal, e ele aguentava esse pessoal. O Lira foi beneficiado do aluguel do governo Bolsonaro para o Centrão, e se aproveitava disso. Agora que mudou o dono do poder, todo mundo se adapta. Mas elegeram esse pessoal [do Bolsonaro]. Num primeiro momento, havia uma tendência de se ter leniência. Agora, essa leniência acabou. Essas pessoas não vão conseguir presidir comissões no Congresso, não haverá tolerância de Lira, de Pacheco [presidente do Senado], dos chefes de partidos.

E o eleitorado dessa extrema direita no Brasil, como fica?

Vai ter uns 10%, 15%. Isso vai existir. Mas a tolerância do sistema político vai ter acabado, porque vai ser insuportável. Agora, poderá ser dito pro Alto Comando do Exército que eles não têm mais como tolerar isso. Essa imbecilidade que aconteceu criou justificativa pra repressão total desse pessoal. Essa confusão começou em 2013. A confusão das Jornadas de Junho abriu as portas para tudo que veio depois. E a que veio neste domingo está fechando as portas e vai recriar as condições de estabilidade do sistema político.

O ciclo se fechou, vai-se comemorar, neste ano, dez anos do que ocorreu em 2013, com a esquerda no poder. Tudo bem, não é a mesma esquerda daquela época, a de hoje é mais ao centro. Mas é à esquerda.

Toda aquela confusão foi para a direita assumida entrar no poder. A direita entrar é normal. Mas a Lava Jato destruiu a legitimidade do sistema e criou a possibilidade de um Bolsonaro chegar. E ele era muito mais a extrema direita do que se imaginava. Uma hora, esse movimento para a direita iam refluir, e, assim como o Bolsonaro foi mais para a direita, o movimento de refluir voltou para a esquerda.

O STF teve que devolver os direitos políticos do Lula porque o Lula era a única figura que podia livrar o Brasil do Bolsonaro. Mas o Lula também virou o símbolo do sistema político brasileiro. Nos últimos dias do governo Bolsonaro, a [ministra do STF] Rosa Weber acabou com o orçamento secreto. Gilmar Mendes deu possibilidade de se colocar o Bolsa Família fora do Teto. O próprio STF, que foi responsável pelo desequilíbrio político causado pela Lava Jato, foi o responsável por desfazer o que tinha criado.

Teve uma revolução branca pra tirar e impedir o Lula de voltar, mas ela saiu do controle, e quem volta pra colocar o sistema aprumado foi o próprio Lula.

Mas e as Forças Armadas e de segurança, que agiram com omissão nos atos deste domingo? Eles não vão poder continuar apoiando, mesmo que silenciosamente, esse tipo de movimento golpista?

Eles entraram pelo cano. Você tem a Polícia Militar do Distrito Federal. Certamente, o Ibaneis Rocha [governador do Distrito Federal] é um oportunista, um sujeito que quer roubar dos dois lados. Ele viu que o país está dividido entre a legalidade e a ilegalidade, mas ele não tem compromisso com a legalidade, o negócio dele é agradar o eleitorado.

Então, ele teve essa posição: de um lado, ele é bolsonarista; de outro, ele não é. Ele chamou o [ex-ministro da Justiça de Bolsonaro] Anderson Torres de volta [para a secretaria de Segurança], porque Brasília tem essa coisa de voto bolsonarista. 

Foi preciso decretar a Intervenção Federal, e o Ibaneis, covardemente, já tentou exonerar o Torres, que sequer foi nomeado, para não sofrer intervenção. O Lula decretou a intervenção na segurança; é o tipo de intervenção limitada que não inclui o governador, mas o pânico que isso criou no Ibaneis é visível.

Aí temos as Forças Armadas. Elas têm essa história: o Bolsonaro é o diabo para transformar soldados e policiais militares em clientela pessoal dele – e flertando com a possibilidade de que essa simpatia eleitoral se tornasse golpista. E por isso o Lula, ao nomear o José Múcio Monteiro para o Ministério da Defesa, deu carta branca a ele, enrolando os próprios militares.

Neste domingo, houve uma demonstração cabal e insofismável de subversão da ordem. Era impossível haver mais evidente e escrachada demonstração de subversão da ordem pública. Os próprios militares não têm mais como se subtraírem do papel constitucional deles. O Lula decretou a Intervenção Federal como defensor da República. Os papéis se inverteram, houve um curto-circuito.

Como foi essa inversão?

O bolsonarismo, de discurso da ordem, se tornou obviamente defensor do golpe, da subversão, da destruição da ordem institucional. Não tem mais como fingir que isso não aconteceu. As forças serão obrigadas a embarcar no discurso de ordem. Ou seja, a esquerda está com o discurso da ordem, com o discurso que era da direita; e a direita com o discurso da subversão.

Isso enfraquece completamente o discurso bolsonarista. Essa história de o Múcio, de ter que segurar os acampamentos na porta dos quartéis porque seriam manifestações democráticas, isso acabou. Não tem mais condição política para isso.

Autor: Fábio Corrêa – Publicado no Site DW.

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