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1 de julho de 2023

Um abraço, várias mensagens!

  

Naquele abraço está o reconhecimento da irmandade, do carinho e dos compromissos que nos definem como a parte que se soma ou que se opõem ao desenvolvimento do espírito e da emancipação humana - Ricardo Stuckert - PR.

Lula e o Papa Francisco, abraçados. Uma foto. Uma mensagem cifrada.

Dois homens adultos, cientes de que a vida é breve e de que a deles, como a de todos nós, desde o nascimento não cessa de se aproximar do fim.

Nos caminhos que se apresentaram, tanto pelas atitudes afirmativas como pela firmeza de dizer não, entre as possibilidades restritas e os deveres em aberto, aqueles senhores pouco a pouco se tornaram quem de fato são. E com isso ajudam a revelar quem de fato somos, nos nossos trajetos e em relação a eles. Da sucessão dos papéis reservados ou impostos àqueles senhores que se abraçam, no final destes tempos restarão mais do que algumas imagens e algumas memórias.

De suas vivências emana algo que por felicidade nos calhou de ver, e que agora nos cabe entender e fazer reverberar. Algo relacionado à importância das decisões autônomas e das ações conscientes em favor da renovação de esperanças associadas ao alvorecer da história humana, nestes dias quase esquecidas. Algo que vem do passado e se estende ao futuro pelas atitudes de tantos Sepés, Garibaldis, Josimos, Casaldaligas, Brunos, Dorotys, Marias e Marielles, que a corrente se perde, ainda que insista em apontar caminhos para o enfrentamento de nosso único e verdadeiro inimigo real.

Aquele inimigo que cresce entre os elementos que nos freiam, que nos afastam, que distorcem nossa visão a respeito da brevidade da luz que existe em todos os excluídos. Aquela luz que está presente no abraço de reconhecimento e empatia entre aqueles homens adultos que sabem quem são, o que fizeram e o que ainda lhes cabe fazer.

O inimigo está no desânimo, na apatia, no comodismo, na frouxidão, na indiferença, na ganância, na covardia e em tudo aquilo que, emergindo em nós, enevoa a percepção de que, com suas várias formas e com suas mil faces, o inimigo é legião. E é real. E se expressa nas posições assumidas por aqueles que hoje atacam o MST e a agroecologia, que defendem a guerra e o Marco Temporal, que sustentam a taxa de juros obscenos do Banco Central e a construção da ignorância alimentada pela reforma educacional. Aqueles que ontem queimavam livros, armavam golpes de estado, trabalhavam contra a ciência, insistindo em nos manter sob a insegurança do fascismo emergente. Aqueles que agora pretendem nos impedir de ler a mensagem contida naquele abraço de Lula e Francisco.

E ali está a verdade que precisamos encarar.

Na cristalização dos melhores e piores momentos, desde a infância até o hoje, ordenados em turbilhão de obras inacabadas, os homens e as mulheres podem escolher entre semear atitudes reveladoras da importância de seus compromissos para com os que lutaram e lutam a boa Luta, a que Lula e Francisco nos convocam, ou a negar e fugir da consciência de responsabilidades que nos separam dos animais.

Naquele abraço está o reconhecimento da irmandade, do carinho e dos compromissos que nos definem como a parte que se soma ou que se opõem ao desenvolvimento do espírito e da emancipação humana.

Naquele abraço se desenham o país, o planeta e a humanidade que podemos e devemos recuperar.

Autor: Leonardo Melgarejo – Publicado no Site Brasil de Fato.

A potência de uma educação crítica e transformadora!

Hariff Eleonora Barbosa - Depois de muita terapia, estudos e trocas, nasceu a Frente PSI, o meu negócio. Foto Privat.

Sempre fui uma criança inquieta, observadora e muito criativa, sendo a irmã mais nova entre meus seis irmãos. Nasci na periferia, e nunca tivemos uma situação econômica de muita escassez, tampouco de abundância. Lembro-me de discussões relacionadas à situação financeira, e, quando criança, eu tinha a impressão de que, se a palavra dinheiro fosse mencionada, o caos se faria presente. Por isso, acredito que a minha relação com o dinheiro não se iniciou de uma forma tão positiva.

Sendo a caçula, desfrutei dos benefícios dessa posição, mas era grande demais para espernear e pequena demais para interferir em qualquer decisão sobre aspectos financeiros que não pareciam bem. Entretanto, na minha autoimagem, julgava-me como uma criança madura e completamente capaz de palpitar sobre os que adultos diziam, por exemplo, dando dicas a minha mãe sobre como ela poderia guardar dinheiro. Sinto que a suposta responsabilidade escondia o impacto que as instabilidades financeiras tinham sobre mim, mas essa é outra história. 

Desde pequena eu me engajava em pequenas atividades para fazer um "dinheirinho". Sempre gostei de falar sobre o assunto e tinha como compromisso alcançar poder aquisitivo suficiente para que a pauta "dinheiro" recebesse outra significação em casa. Eu só não sabia quais seriam os caminhos até isso.

Por um longo período, achei que essa estabilidade fosse vir por meio de concursos públicos, porque essa foi a trajetória de alguns de meus familiares das gerações anteriores. Entretanto, meu percurso profissional tem seguido outra rota: o empreendedorismo. Sou graduada em Psicologia e sou empreendedora.

Vejam só! Estudei por toda a minha vida no ensino público da cidade de Ribeirão Preto, não gostava de estudar, mas fiz dois anos de um cursinho popular e fui aprovada pela Universidade de São Paulo (USP) no curso de Psicologia. Todos os meus planos foram se rearranjando a partir do que conheci na potência de uma educação crítica e transformadora.

Mundo acadêmico distante do real

Meu contexto familiar sempre prezou pelo serviço público e desconheceu em minúcia o percurso profissional pelo ensino superior público, o que foi se alterando em casa com a entrada de uma das minhas irmãs, Kézia Carolina Barbosa, no curso de Engenharia Agronômica na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul.

Com os estranhamentos diretos e indiretos de alguns familiares e conhecidos em relação à nossa escolha, reconheci que os sentidos associados à minha graduação eram completamente diferentes daqueles dos meus colegas. Eu vivia um conflito entre aproveitar ao máximo as oportunidades e ficar apenas no âmbito teórico num espaço tão plural e com poucas pessoas com quem eu me identificava.

Para mim o ambiente universitário significava uma abstração imensa e um distanciamento das carências reais que eu conhecia. Ainda assim, tentei aproveitar o convite para um olhar mais individual sobre as minhas experiências. Mas, assim, causei várias frustrações em mim mesma, aos docentes que me ofereceram oportunidades estritamente acadêmicas e aos colegas de realidades sociais diferentes que esperavam uma postura um pouco mais inconsequente e mais "leve".

Aos poucos, fui trilhando meu próprio percurso, mas sob muita invalidação pessoal. Só depois de formada percebi que estava em busca de espaços com cuja agenda eu me identificasse mais, nas diferentes atividades em que me engajei: voluntariado em cursinhos populares, Projeto Rondon, projeto brincar no HC - USP/RP, Salvaguarda, ONGs e, academicamente, o ingresso no laboratório de etnopsicanálise, coordenado pelo Prof. Dr. José Francisco Miguel Henriques Bairrão.

Trânsito entre dois mundos

O cenário era de um trânsito contínuo entre dois mundos que eu visitava diariamente, concreta e subjetivamente, mas nunca visualizava a junção entre o que os dois me sugeriram. Um lado suscitava em mim o desejo de aproveitar aquela fase universitária me preocupando apenas com as atividades acadêmicas e a diversão, sem grandes preocupações, e o outro, o senso de responsabilidade diante da injustiça social daqueles que não conheciam nem mesmo informações básicas sobre o ensino superior público.

Na realidade, nos meus atendimentos clínicos, vejo que esse é um panorama bem comum entre pessoas de origens sociais menos favorecidas que ingressam em universidades brasileiras renomadas. Há a vontade de repartir o quanto foi conquistado enquanto ainda se conquista as oportunidades desejadas. É um campo fértil para muitas desorganizações.

Ponte entre responsabilidade social e recursos financeiros

Quando estava se aproximando a conclusão do meu curso, em 2020, pensei muito sobre como associaria as minhas práticas e os conhecimentos em Psicologia mais significativos ao meu desejo de criar projetos com responsabilidade social. Entretanto, de longe, o desafio maior residiu na desmistificação de que o compromisso social só devesse ocorrer em detrimento do desenvolvimento financeiro. Eu acreditei por muito tempo que o dinheiro não pudesse fazer parte disso e que empreender significasse a reprodução do que me privou.

Depois de muita terapia, estudos e trocas, nasceu a Frente PSI, o meu negócio. Uma prestadora de serviços de Psicologia personalizáveis para estudantes, educadores e organizações educacionais de impacto social.

Além dos aspectos mais pessoais, a relação com o dinheiro fica um tanto demonizada nas ações sociais e até mesmo em campos da Psicologia ou outras áreas da saúde. Há muito o que se construir entre responsabilidade social e recursos financeiros.

Para pessoas de origens menos favorecidas que têm a possibilidade de se desenvolver academicamente, quando se compara a estabilidade psíquica e a financeira é um desafio harmonizar o desenvolvimento individual e coletivo.

Autora: Hariff Eleonora Barbosa, de 28 anos, natural de Ribeirão Preto- SP e psicóloga pela USP. Publicado no Site DW.

A reforma tributária necessária!

 

Arte Vecente - Instituto de Justiça Fiscal no Instagram ijfoficial

No artigo publicado no Viomundo em 24 de abril, comentei sobre o novo regime fiscal. Naquela data, ainda um esboço do projeto de lei que seria encaminhado ao congresso nacional. Muita coisa aconteceu desde então.

O projeto encaminhado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional não era exatamente o desejado pelos setores mais progressistas da sociedade, mas foi possível diante das pressões de setores empresariais, particularmente, do mercado financeiro e até mesmo do Banco Central.

Ainda assim, ele só foi aprovado na Câmara dos Deputados após diversas alterações inseridas pelo relator, deputado Claudio Cajado.

O projeto está agora no Senado para apreciação e votação. Há sinalizações do seu relator na Casa, Omar Aziz, que poderá ser modificado para melhor. Assim esperamos, pois a versão que saiu da Câmara dos Deputados restringiu o investimento público em áreas importantes, como a educação básica.

Seja qual for a versão final do chamado Novo Regime Fiscal, um dos pilares que o sustenta é o aumento da arrecadação, objetivo considerado bastante arrojado e ambicioso por analistas econômicos de diferentes visões.

Para atingir esse objetivo o governo Lula aposta na aprovação de uma reforma tributária no segundo semestre do ano que visa basicamente a simplificar a cobrança de impostos, substituindo cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

A transição para esse novo modelo vai demorar dez anos e não haverá redução da carga tributária. A proposta também cria o Imposto Seletivo Federal, que incidirá sobre bens e serviços cujo consumo se deseja desestimular, como cigarros e bebidas alcoólicas.

Outros pontos que devem constar na reforma tributária do governo são a volta da taxação dos dividendos distribuídos aos acionistas das empresas, suspensa em 1995 durante o governo FHC, e a redução a regressividade do sistema tributário brasileiro, ou seja, a redução da carga tributária dos mais pobres e aumentar a dos mais ricos por meio da criação de novas alíquotas para o IRPF, aumento de impostos sobre grandes heranças e cobrança de impostos sobre bens de luxo, como jet skis, lanchas e jatinhos.

Pasmem! Esses bens não são taxados em nosso país.

Além dessas medidas que foram prometidas por Lula durante a campanha eleitoral de 2022, o governo quer isentar a cobrança de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. As faixas de cobrança do IR estavam congeladas há oito anos e todos que ganhavam mais de R$ 1.904 já pagavam imposto, mas, a partir do próximo ano, pessoas com renda até R$ 2.640,00 não terão retenção do IRPF na fonte.

Nos meios empresariais, a avaliação é de que a reforma, ao simplificar a cadeia tributária com a criação do IBS fará com que as empresas gastem menos tempo e dinheiro, proporcionando mais competitividade principalmente às empresas exportadoras.

Por outro lado, a redução de impostos sobre o consumo de itens de consumo popular, uma das medidas para reduzir a regressividade do sistema tributário, poderá aumentar a demanda por esses itens, favorecendo assim o faturamento das empresas que os produzem e vendem.

Em suma, a reforma visa a dinamizar a economia, reduzir as injustiças tributárias e aumentar a arrecadação do governo para que ele possa cumprir suas promessas de campanha, principalmente em relação às políticas sociais e aos investimentos públicos necessários à retomada econômica.

As intenções e objetivos são muito nobres, entretanto, é certo que uma parcela do empresariado e dos super ricos pressionará os congressistas a não tocarem em seus interesses. Isso significa não aprovar medidas como a volta da cobrança de impostos sobre dividendos dos acionistas, o aumento da taxação de grandes heranças e das alíquotas do IRPF.

Em relação a essa última proposta, cabe mencionar que já tivemos alíquotas de imposto de renda superior a 40% sobre as faixas de renda mais elevadas. Atualmente, a alíquota máxima é de 27,5% e incide na faixa de renda acima de R$ 4.664,68. Ou seja, uma pessoa que recebe R$ 5 mil sofre uma mordida do Leão igual àquela que ganha o dobro, portanto, é mais penalizada.

Uma estrutura tributária mais justa deveria ter mais e maiores alíquotas incidindo sobre as faixas de renda mais altas e isentar da cobrança de impostos as faixas mais baixas. Sabemos que a disputa política no congresso brasileiro tende a favorecer os mais ricos, que têm lobbies muito bem articulados e remunerados. Para equilibrar essa disputa tão desigual, será preciso, primeiramente, esclarecer a população sobre a necessidade de uma reforma tributária justa.

Os movimentos sociais, os sindicatos, partidos progressistas e veículos de comunicação não empresarial têm importante papel a cumprir nesse sentido. Mais importante ainda é a mobilização dos setores populares para pressionar os parlamentares a aprovarem uma reforma tributária que realmente promova a sonhada justiça fiscal em nosso país.

Autora: Regina Camargos é economista e consultora. Publicado no Site Viomundo.