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14 de janeiro de 2026

Quem vota? A influência da IA e do algoritmo

 

A obsessão pelas sondagens transformou as campanhas num exercício de contenção. As tracking polls funcionam como um eletrocardiograma eleitoral: qualquer flutuação provoca correções imediatas, silêncios estratégicos, mudanças de tom ou campanhas de ataque pessoal ao adversário.

As campanhas presidenciais em curso, com eleições marcadas para 18 de janeiro, estão a revelar algo que vai muito além da disputa entre candidatos. Revelam uma transformação silenciosa — e inquietante — da política democrática: a substituição progressiva do debate político por métricas, gráficos e reações instantâneas. Nunca se mediu tanto a opinião pública. Nunca se falou tão pouco do que realmente importa.

Hoje, a campanha presidencial é conduzida por sondagens permanentes, tracking polls quase diárias e leituras algorítmicas do comportamento eleitoral. Estes instrumentos, que deveriam servir para compreender a sociedade, passaram a ditar a estratégia política. Não se trata apenas de saber o que os eleitores pensam; trata-se de decidir o que pode ou não ser dito, quando deve ser dito e — sobretudo — o que deve ser evitado.

É a agenda do algoritmo a marcar a agenda política e, sobretudo a influenciar a agenda da opinião pública o que se traduz numa clara influência do sentido de voto de cada um.

É neste cenário que a campanha de António José Seguro se tornou, para mim, politicamente relevante. Não porque ignore os dados — ninguém o faz hoje — mas porque parece recusar submeter totalmente o discurso presidencial à lógica da reação permanente aos números. Num ambiente onde cada décima percentual gera ansiedade estratégica, essa opção não é trivial: é uma escolha política.

A obsessão pelas sondagens transformou as campanhas num exercício de contenção. As tracking polls funcionam como um eletrocardiograma eleitoral: qualquer flutuação provoca correções imediatas, silêncios estratégicos, mudanças de tom ou campanhas de ataque pessoal ao adversário. A consequência é uma política cada vez mais reativa, defensiva e pobre em visão. Governa-se — ou faz-se campanha — com medo de errar no gráfico seguinte e em função do lugar que se ocupa na última tracking poll.

Esta lógica é reforçada pelo algoritmo. As redes sociais não são neutras: premiam o ataque, a simplificação e a emoção rápida e penalizam a reflexão e o pensamento estratégico. Não é por acaso que a campanha se degradou, em vários momentos, em ataques pessoais, insinuações e leituras maliciosas do passado. O ataque tornou-se uma ferramenta eficaz porque o algoritmo o amplifica.

Também aqui a campanha de António José Seguro se destaca, não por estar acima da crítica, mas por não fazer do ataque pessoal o seu motor político. Num tempo em que a agressividade rende visibilidade, esta contenção parece quase um anacronismo. Mas talvez seja precisamente isso que nos deve fazer pensar. A eleição presidencial não deveria ser um concurso de desgaste pessoal, mas uma escolha sobre autoridade institucional, independência e sentido de Estado.

O problema maior é que esta combinação — números e ataques — tem um efeito devastador: afasta do debate os grandes temas estruturantes. Enquanto se discute quem sobe ou desce nas sondagens e quem atacou quem, uma reflexão séria sobre o papel de Portugal no mundo que está a emergir, permanece, praticamente, ausente

Vivemos uma transição global profunda. A ordem internacional está a tornar-se multipolar. África assume uma centralidade demográfica, econômica e geopolítica crescente. E, ainda assim, a campanha presidencial portuguesa quase ignora esta realidade.

É particularmente sintomático o silêncio em torno da CPLP. Portugal dispõe aqui de um ativo estratégico raro: uma comunidade política e linguística que o liga profundamente a África num momento decisivo da história global.

Pensar a CPLP como plataforma de cooperação política, diplomática e econômica — e Portugal como ponte entre a Europa e África — deveria ser uma questão central numa campanha presidencial. O facto de surgir apenas de forma marginal diz muito sobre o empobrecimento do debate e sobre o receio de sair da zona de conforto eleitoral.

Ao tentar recentrar o discurso em valores institucionais, visão de longo prazo e responsabilidade histórica — mesmo quando isso não rende pontos imediatos — a campanha de António José Seguro acaba por cumprir uma função que ultrapassa a sua própria ambição eleitoral: expõe os limites da política governada pelo algoritmo.

As eleições de 18 de janeiro decidirão quem ocupará o Palácio de Belém. Mas decidirão também se aceitamos definitivamente uma Presidência moldada por sondagens, tracking polls e métricas digitais, ou se ainda valorizamos a coragem de contrariar os números quando o interesse do País o exige.

Num tempo em que os dados parecem mandar mais do que as ideias, talvez esta seja a verdadeira clivagem desta eleição. E talvez seja isso — mais do que qualquer ataque ou tendência — que merecia estar no centro da campanha. 

Autora: Manuela Niza Ribeiro – Publicado no Site Visão – Portugal.

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