Um argumento histriônico leva a imposição da opinião, não a sua aceitação ou compreensão. O atropelo argumentativo se repete, ou quando é iniciado com falsas premissas - os famosos sofismas -, ou com pressupostos frágeis e aceitáveis apenas dentro de condições limitadas. Por exemplo, o colega começou uma discussão supostamente cultural com a expressão "a alma pertence a Deus". Sim, uso a maiúscula, pois assim regula a norma culta por se referir a nome próprio, não porque coloco um deus acima de outro, inexistentes que todos são. Daí a primeira barreira da conversa, ou melhor, a primeira e a segunda, uma vez que a expressão pressupõe a existência de duas coisas, um deus e uma alma, que sabemos serem criações humanas. Belas e intrincadas, mas puras criações de nossas mentes. A discussão poderia enveredar pelas premissas existenciais, mas, com a imposição da frase inicial, afirmativa, fica impossível a continuidade à luz da filosofia, não da religião. Somos o que sabemos, por isso a ignorância é uma bênção para a felicidade. Dói menos.
As dores das perdas requerem estratégias para amenizar seu impacto ao mesmo tempo em que tragam algum conforto e consciência de nossa efemeridade, sem perder o senso pela justiça e pela memória. Um cachorro é assassinado por imbecis catarinenses e a comoção se instala, ainda que muitos outros animais de quatro patas sejam maltratados por animais de duas, autointitulados racionais (https://adria-vamosfalar.blogspot.com/2026/01/orelha-nina.html). As dores humanas também são dignas de registro. Vânia Figueiredo era escritora, poeta de mão cheia e de outros predicados literários. Era a presidente da Seção Campinas da União Brasileira dos Trovadores, quando fui convidado a dela participar. Era início da pandemia, o começo da interação foi todo virtual e vim a conhecê-la anos depois quando fomos homenageados pela Câmara Municipal em evento na Academia Campinense de Letras. Único contato físico que tivemos. Adquiri livros dela e outros ela me enviou por cortesia para que eu os lesse e lhe alimentasse com minhas impressões. Não deu tempo.
Nem só de dores há que se falar. Alegria, adentre o recinto! Quatro indicações para o Oscar! "O Agente Secreto" se consolida como um grande filme, de certa forma superando até o enorme sucesso de "Ainda Estou Aqui". Duas histórias distintas, ambientadas no mesmo trágico momento histórico. O do ano passado baseado em fatos reais, o de agora na realidade de fatos conhecidos. Completando as indicações de brasileiros deste ano, temos Adolpho Veloso indicado ao prêmio de melhor fotografia por "Sonhos de Trem". E as premiações culturais continuam, não apenas para esses filmes, mas também para o documentário "Apocalipse nos Trópicos", de Petra Costa, no BAFTA, o equivalente britânico do Oscar. Da mesma forma de sempre, os detratores do filme e de nossa história continuam na empreitada difamatória dessas obras. São os mesmos que defendem um "bem" que existe apenas em suas ocas cabecinhas, que causam muito mal à maioria das pessoas. No transcurso da história vimos que prepondera a colaboração sobre a competição, mas os prêmios culturais acabam por ser importantes para dimensionar a nós mesmos o que somos e, conhecendo-nos, deixarmos de doer.
Autor: Professor Adilson Roberto Gonçalves – Publicado no Blog dos Três Parágrafos.
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