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1 de fevereiro de 2026

Educar para não odiar.

  

Getty Image.

As redes sociais foram tomadas por influenciadores que pregam que as mulheres “que namoram não devem sair a noite” e que caso não façam o que são mandadas “devem apanhar”. Estas narrativas têm consequências reais.

O Dia Internacional da Educação, que se assinala a 24 de janeiro, obriga-nos a encarar uma realidade desconfortável: o autoritarismo, a misoginia e a violência tornaram-se traços de personalidade de muitos jovens rapazes. O consumo de conteúdos digitais extremos alimenta a intolerância, e a Educação deve travar esta tendência.

Existe hoje uma realidade que é caracterizada pela violência, mas que não surgiu do nada. As narrativas de ódio constroem-se em ecossistemas digitais pouco regulados e são amplificadas por influenciadores digitais com milhares de seguidores.

Os jovens são expostos todos os dias a discursos extremados que normalizam o ódio, legitimam a violência contra as mulheres e transformam a intolerância em identidade. A pandemia de Covid-19 é frequentemente identificada como um catalisador para o agravamento deste problema. As aulas online e o uso excessivo dos ecrãs potenciaram a transformação do digital numa dependência silenciosa.

As redes sociais foram tomadas por influenciadores que pregam que as mulheres “que namoram não devem sair a noite” e que caso não façam o que são mandadas “devem apanhar”. Estas narrativas têm consequências reais. Em Portugal, os crimes de incitamento ao ódio e à violência aumentaram mais de 200% nos últimos cinco anos, o que acompanha a tendência de 75% dos adolescentes consideram legítimos comportamentos de controlo, perseguição ou violência sexual e psicológica.

É verdade que este tipo de comportamento tem sido popularizado e viralizado nas redes sociais, mas é fora delas que o trabalho de combate a este tipo de ideologias misóginas deve começar: nas escolas.

O impacto destes conteúdos nas instituições de ensino é devastador: assiste-se a um revivalismo da “supremacia masculina” que desafia abertamente a autoridade de professoras e o direito das raparigas à segurança. Docentes por todo o mundo relatam que raparigas chegam a ser removidas de disciplinas por não suportarem a toxicidade e o assédio constante de colegas radicalizados por estas figuras. A “manosfera” deixou de ser uma subcultura marginal para se tornar uma ideologia mainstream que atinge rapazes, e mimetiza discursos que objetificam as mulheres e transformam o “nós contra elas” numa ferramenta de radicalização política.

É também preciso responsabilizar. A extrema-direita sequestrou a identidade masculina, transformando a misoginia numa ferramenta de mobilização política. Ao normalizar o autoritarismo e a agressão, este movimento empurrou discursos antes marginais para o centro do espaço público, alterando radicalmente as fronteiras do que é aceite. Esta instrumentalização do ódio visa converter o ressentimento em combustível para um projeto antidemocrático que procura restaurar uma supremacia masculina arcaica.

Então, é necessário agir. Perante esta “fábrica de ilusões” alimentada por algoritmos que viciam o cérebro, a Educação deve assumir-se como o antídoto fundamental. Não basta proibir; é urgente implementar ferramentas de literacia digital e uma abordagem escolar que ensine os jovens a desconstruir narrativas de ódio e a recuperar a empatia. Deve funcionar como uma verdadeira “vacina social” contra o extremismo antes que este se torne o único modo de estar de uma nova geração.

A Educação deve, portanto, desempenhar o seu papel no combate às narrativas de ódio, discriminatórias ou violentas. É preciso adotar uma estratégia que passe não só pela formação de jovens para o pensamento crítico, como pela capacitação de professores e revisão de conteúdos programáticos. Também a alfabetização midiática e informacional deve ser um foco central da educação dos nossos jovens. Ensinar a compreender como funcionam as plataformas digitais, os algoritmos e as estratégias de manipulação é absolutamente essencial para que saibam reconhecer desinformação, teorias da conspiração e discursos de ódio. Sem esta consciência crítica, os jovens tornam-se mais vulneráveis a narrativas extremistas e à normalização da violência no espaço digital.

Ainda assim, somos demasiado permissivos. Permitimos tudo. Normalizámos o ódio, o controlo e a violência em nome da liberdade e da indiferença. Fechamos os olhos enquanto rapazes aprendem a dominar em vez de respeitar e a odiar em vez de pensar. Se continuarmos a falhar na educação — na escola, em casa e no espaço público — não será o algoritmo o problema, mas a nossa escolha de não agir. Educar para não odiar já não é uma opção: é uma responsabilidade democrática. 

Autor: Pedro dos Santos – Ativista e Mestrando em Ciência Política – Publicado na Revista Visão - Portugal.

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