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1 de fevereiro de 2026

O menino que gritava lobo se ferrou.

  

Adultos trabalham com limites Crédito Reprodução. 

Esta semana participei de duas reuniões em que se discutiu parte do que nos cabe na grande crise em que estamos afundando, bem como suas interfaces com as últimas travessuras do presidente Donald Trump e com algumas reações à estas, por parte de adultos do chamado primeiro mundo. Tudo se relaciona, como veremos a seguir.

O fundamento aqui assumido é de que em todas as situações pautadas pela racionalidade, as pessoas farão o seu melhor com base nas informações a que tiverem acesso. Isso significa aceitar que o sucesso de planos que persigam qualquer objetivo dependerá da qualidade e suficiência dos pressupostos e parâmetros adotados para definição da realidade onde eles (os planos) serão executados. Não é o modo operacional do Trump, mas corresponde à modelos decisórios de otimização condicionada, onde a adoção de limites realistas se presta a impedir ilusões de rumo e expectativas fantasiosas. Como naquela história onde Garrincha teria alertado ao técnico Feola, durante a copa de 1958, que os planos da seleção brasileira precisariam levar em conta a autonomia da seleção russa.  No outro limite, ilustrativo da confiança infantil em soluções mágicas, podemos lembrar daquela turma que colocava os celulares na cabeça, para convocar apoio extraterrestre à tentativa de golpe de estado.

E isso nos traz àquela pessoa que, dispensando os limites de racionalidade e da coerência, vem espalhando o medo e destruindo a credibilidade de seu país e de tudo que ele mesmo possa vir a dizer, fazer ou prometer. Como na fábula daquele “menino que gritava lobo”, para enganar os outros, e que terminou se ferrando por isso, o Trump, depois dos tarifaços, da Magnitsky, do resort em Gaza, do sequestro do presidente e do roubo de petróleo venezuelano, após de dizer que vai tomar conta da Groenlândia, de ameaçar o Irã e a União Europeia, fez aquele discurso tatibitati em Davos, onde enfatizou que não se importa com a opinião dos outros, e que não liga para isso. Para ele, só o que vale é a “sua moral” e o mundo que trate de se acomodar e de se submeter a isso.

Mas como na fábula do lobo, a reiteração do descaso e do deboche para com os demais, está provocando reações que sem dúvida terão implicações sobre o comportamento de todos. Inicialmente, e desconsiderando a subalternidade de alguns, tivemos as reações da Colômbia e do Brasil, que agora se fazem reforçadas por manifestações como a do governador da Califórnia e pela Presidente da Comissão Europeia. Do primeiro escutamos que o Donald Trump é uma bola de demolição que está fazendo o mundo de bobo, ao agir como um tiranossauro rex ao qual você reage ou se submete (“se acasala”) por medo de ser devorado. Já Ursula von der Leyen afirmou que o choque político imposto por aquele antigo aliado está causando uma ruptura que deve ser vista como oportunidade para a união. E foi adiante, declarando que está na hora de “construir uma Europa independente”. A seguir, a Espanha passou a defender a criação de um exército comum, para defesa dos interesses da União Europeia. Não parece ser algo bom, mas é indicativo de estão surgindo propostas de mudanças e reposicionamentos internacionais, que apontam no sentido de um multilateralismo favorável ao projeto de expansão chinesa.

Neste sentido é possível esperar de parte dos países ameaçados, outras reações de antagonismo às ameaças do império norte americano. Algo coerente com a linha de argumentação defendida pelo primeiro ministro do Canadá, para quem se faz urgente identificar/reconhecer oportunidades nas fraturas e avançar, com a consciência de que “nostalgia não é uma estratégia”.

Naturalmente tudo isso tem a ver com as riquezas da América do Sul e Caribe.  Para nós, se relaciona especialmente à gula norte-americana e seu olho grande sobre as riquezas do Brasil, onde o império conta com a ajuda de lideranças entreguistas.

Enfim, os perigos são reais, mas o lobo pode ser contido. Até porque inclusive dentro dos Estados Unidos, onde a rejeição a Trump já alcança 56%, emerge a consciência de precisamos retomar a noção de limites, recuperando a e valorizando uma outra ideologia sobre as possibilidades de vida em comum.

E é disso que se trata. A realidade está impondo novos parâmetros e restrições às possibilidades de vida até aqui consideradas pelos adultos. Ok, aqueles golpistas infantilizados que juraram fidelidade à bandeira norte americana e que parecem não entender o que o desespero dos europeus, em relação aos desejos fascistas do Trump, revela sobre o nosso futuro, precisam ser contidos, retirados dos postos de relevância social que ocupam nos poderes republicanos, e reeducados.

Se trata de choque de ideologias e de modelos comportamentais. A sociedade precisa ter acesso a informações que permitam optar de forma consciente, entre aqueles valores defendidos por lideranças interessadas em proteger instituições como o Banco Master, por usuários da pratica de negociação de imóveis em dinheiro vivo, e por gente capaz de esconder fortunas em sacos de lixo dentro do armário, em oposição àqueles outros pretendidos em um projeto de nação includente e minimamente soberana.

E com isso chegamos às duas reuniões a que me referi no início do texto.

Numa delas (reunião virtual do Movimento Ciência Cidadã, com a presença e animação do professor Luiz Marques), o tema foi o caos planetário, o negacionismo climático, a incompreensão dos fenômenos associados e a recusa de consideração às alternativas remanescentes. Por falta de espaço para desenvolver o debate, recomendo o livro (Ecocídio, por uma (agri)cultura da vida) que deu base às discussões, das quais trago apenas dois pontos: (1) o imperialismo capitalista precisa ser barrado em defesa da vida. As causas podem ser resumidas em uma frase: “a sobrevivência é a utopia do século 21” e sua defesa dependerá do sucesso de uma ideologia que congregue todas as forças e esperanças que a humanidade possa vir a acessar; (2) no Brasil o agronegócio é o maior inimigo da vida.

Aqui, considere-se que o sistema energético e o sistema alimentar globalizados, que atuam como sumidouro da capacidade regenerativa do planeta, se articulam no Brasil através do agronegócio.

A alienação social a respeito das implicações do desflorestamento, da degradação dos solos e da biosfera pela escala dos monocultivos e pecuárias intensivas e desumanas, alimentados pelo financiamento público, pela isenção de impostos e perdão de dívidas, envolvendo mecanismos de corrupção, suborno e exportação de commodities, que determinam a poluição de solos, águas, corpos e mentes, a serviço do agro pop, estão a exigir mais do que uma revolução, para serem controlados. É preciso destruir este modelo que (a partir de todas suas dimensões e conexões) contribui enormemente para a aceleração do aquecimento global. E isso exige uma nova ideologia, alimentadora de processos amistosos em relação à natureza, à ciência, à arte, à cultura e ao modo de vida dos povos, em defesa da vida.

Figura 1 – Anomalias de temperatura na média anual global (terrestre e marítima combinadas) entre janeiro de 2010 e dezembro de 2024, com aquecimentos registrados em relação à média do período de base 1901-2000 e com uma taxa de aquecimento de 0,36 oC por década. Fonte: NOAA, Climate at a Glance Global Time Series.

Examinando as curvas de crescimento da temperatura e as zonas de sacrifício mais propensas ao caos, resulta óbvio que a barbárie começará nas grandes cidades. Em São Paulo, seguramente pela falta de água. Em Porto Alegre, talvez pelo seu excesso. O fato é que em cada ecossistema existirão elementos chave, fomentadores de laços de retroalimentação do caos (para usar outra expressão de Luiz Marques), que tenderão a explodir -inicialmente – nas áreas de concentração urbana, de forma agravada sobre aqueles países e populações já marginalizadas.

Isto indica que ao fim desta década a pilhagem internacional, exercida pela lei da força bruta e com apoio da subserviência abjeta, se não vier a ser contida, será usada para transferir, desde as regiões capturadas até o centro do império, tudo aquilo que vier a ser necessário para retardar o avanço de uma realidade mad-max, entre eles.

Neste sentido, a nova era colonial será terrível. Os europeus já perceberam isso e as eleições de 2026, em toda a América Latina se colocam como decisivas e provável ponto de ruptura, para a sociedade que conhecemos.

E assim chegamos àquela outra reunião mencionada ao início deste texto.

Nesta semana (20/01/26) ocorreu a mais recente reunião preparatória da Convergência Socioambiental, atividade integrante da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela soberania dos povos, prevista para 26 a 29 de março (ver https://antifas2026.org/ ).

Com programação voltada à recuperação e ao fortalecimento de uma ideologia alinhada àquela noção de defesa da vida, esta conferência se coloca como atividade coletiva, conexa aos fóruns da resistência e aos fóruns sociais mundiais. Ela se orienta à sustentação de uma utopia a ser buscada a partir da reconstrução de forças direcionadas ao enfrentamento daquela globalização subordinada ao capital, que ameaça as possibilidades de vida neste planeta. É muito? Com certeza. Mas é um bom passo, um esperançar, um recomeço.

Não se trata, portanto, tão somente de recuperar mecanismos que permitam a contenção dos grupos antidemocráticos, com a eleição de Lula e senadores responsáveis, como já referido tantas vezes. Está em jogo a renovação de uma utopia generosa, com capacidade de animar o espírito humano, e que haverá de aproveitar este momento de rupturas, para enfrentar o medo e o caos, com dignidade. Neste rumo, precisamos trabalhar pela recuperação da lucidez coletiva, garantindo a eleição de muitos senadores, deputados e governadores comprometidos com a defesa da vida, e eleger Lula no primeiro turno.  

E precisamos fazer isso cientes de que em eventual segundo turno teremos que enfrentar, de forma explicita (e não apenas disfarçada em tsunamis do mundo digital) o escancaramento de corrupções e chuvas localizadas de dinheiro ou quem sabe até ações diretas, por parte do império e seus serviçais. E precisamos ir além, ajudando na preparação de corações e mentes para enfrentamento do que virá logo a seguir, diante de reações negativas à necessária reorientação das políticas públicas e de medidas orientadas à manutenção da civilidade, nas grandes metrópoles deste país.

Finalizando: qualquer perspectiva de sucesso diante dos desafios que estão sendo desenhados para o fim desta década reclama nosso apoio a todas as formas de ativismo includente, bem como nosso engajamento solidário aos projetos daqueles grupos que já fazem sua parte, no interesse de todos. A Reforma Agrária Popular, as lutas ambientalistas, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e a 1ª Conferência Internacional Antifascista, se colocam como alguns exemplos entre tantas outras iniciativas que estão aí, emergentes ou já consolidadas, a serviço de uma ideologia mais adequada às necessidades que a vida imporá a todos que aqui permanecerem. 

Autor: Leonardo Melgarejo - Engenheiro Agrônomo, MSC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo. Publicado no Site Brasil de Fato.

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