"É a volta do cipó de aroeira/ no lombo de quem mandou dar", como cantaria Geraldo Vandré em outros tempos.
Há o tempo do champanhe… e o tempo da Justiça. Demorou, mas que agora paguem pelo que ficou barato na história pelo menos desde 1964.“É a volta do cipó de aroeira/ No lombo de quem mandou dar”, canta Vandré na vitrola.
Enfim, o Brasil colocou o ex-presidente Bolsonaro na prisão por causa da trama golpista. Generais, acredite, também seguiram o mesmo destino. Desconfiava que apenas os lambaris seriam condenados. Qual o quê. Errei feio, ainda bem.
No sextou do ICL Notícias 2ª Edição, celebramos os avanços da política e da história, não com champanhe, porém com jurubeba. É um modo irônico de abraçar o nacional popular. Além de tirar uma buena onda com os bacanas.
Por isso, aproveito aqui o espaço crônico para exaltar a bebida oficial do nosso programa. Deixo também uma espécie de bula da enologia selvagem para quem ainda desconhece o caráter especial deste vigoroso licor dos deuses da Caatinga.
Se no vinho metido está a verdade (In Vino Veritas), In Jurubeba Fabulari, ou seja, na jurubeba está o poder de fabular, imaginar histórias, fazer viagens quixotescas e praticar a arte picaresca.
Meu “Sideways” particular tem como destino Aratu, na Bahia. Aqui encontramos a origem do vinho macerado da Solanum paniculatum, a rica fruta conhecida vulgarmente como jurubeba, a pinot noir de quem nasceu para beber de verdade, não para cheirar a rolha e degustar como uma freira.
Mal você abre a tampinha de lata reciclada – é mais ecológico, a cortiça vive uma crise na Europa — e já percebe se tratar de um vinho compacto, com um bloco de aromas em leque perfumando o ambiente, mesmo o pior dos pés-sujos da Lapa de Baixo.
De perfil aromático limpo e complexo – este enólogo também não trabalha com amadeirados e quetais —, o Jurubeba Leão do Norte guarda a essência de extratos de cravo, canela, quássia, boldo e genciana. O tanino de caráter rijo junta-se ao caramelo de milho e dá tintas finais à uma coloração entre o rubi e frutas negras do semiárido -com halo aquoso ainda em formação.
Repare no sabor fugidio do jatobá e da flor de muçambê, com florais de mulungu e pau d´arco ao longe. No todo, o equilíbrio chama a atenção. E de que mais precisamos, amigo da esbórnia, do que este suposto equilíbrio no momento da volta ao lar doce lar?!
O vinho de jurubeba harmoniza bem com a gastronomia de sustança. Pratos sugeridos: mocotó, mão de vaca, chambaril, buchada de bode e caprinos no geral, javali, teju etc.
Podemos aplicar a jurubeba o mesmo impressionismo paradoxal que o renomado crítico Robert Parker usou para definir o Romanée-Conti: “Aromas celestiais e surreais…”. Seja lá que diabo ele quis dizer com essa xaropada de adjetivos.
Saúde! Porque se os outros vinhos ajudam o coração, a jurubeba é reconhecido na medicina popular como um fortificante da cintura para baixo. Afrodisíaco no último.
Até a próxima visita às adegas e aos alambiques mais roots do país. Mande também a sua sugestão de nossos melhores licores.
Obrigado pela leitura. Até a próxima sexta. E fica o Gil e o Jorge Ben girando com o disco clássico da dupla: “Juru juru juru juru juru jurubeba/ Beba beba beba beba beba beba juru Jurubeba”.
Autor: Xico Sá - Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Abril e Comunique-se. É autor de Big Jato (Companhia das Letras) e A Falta (Planeta), entre outros livros. O colunista nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife.

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