Seguidores

1 de março de 2021

Volta às aulas!

Alunos e professores jamais se viram obrigados a ficar em casa por tão longo tempo. A Unesco informa que a pandemia afetou mais de 1,5 bilhão de estudantes em 188 países. Na América Latina, 160 milhões de alunos.
O sistema escolar não estava preparado para lidar com uma doença que exige isolamento social. A educação teve que se deslocar do universo presencial ao virtual. E recorrer a novas ferramentas tecnológicas que permitem o ensino à distância. O deslocamento afetou principalmente estudantes sem acesso às novas tecnologias. Para muitos jovens, o ensino remoto carece de incentivo, o que provoca evasão escolar. As adolescentes, por ficar em casa, se tornam mais vulneráveis à violência doméstica e à gravidez precoce. O ensino remoto reduz a interação entre professor e aluno. Para muitos estudantes, a casa era lugar de convivência familiar e descanso. E, muitas vezes, espaço reduzido, devido ao número de pessoas que a habitam. 

Assim, o ensino remoto nem sempre consegue atrair a atenção exigida. Isso se agrava quando se trata de alunos da educação infantil e do ensino fundamental, período da alfabetização. Dificulta a aquisição de habilidades básicas, como ler e escrever. Essa interrupção da aprendizagem também prejudica alunos em fase de conclusão do curso, ansiosos pela inserção no mercado de trabalho.
A desigualdade social influi fortemente no acesso às tecnologias de comunicação. No Brasil, apenas 57% da população possui computador capaz de rodar programas atuais. E 30% das moradias não têm acesso à internet, indispensável ao ensino remoto (IBGE/Pesquisa TIC Domicílio, 2018). Daí a importância de a escola disponibilizar videoaulas que, inclusive, deveriam ser transmitidas por emissoras de TV e acompanhadas de material impresso.
Não teremos mais a escola anterior à pandemia. Mas nossos sistemas de ensino são resistentes a mudanças. No entanto, a Covid-19 as impõe. O ensino remoto terá que ser incorporado. Isso favorece o protagonismo dos alunos no processo de aprendizagem. Deixam de ser meros alvos das lições do professor e passam a sujeitos da atividade escolar, responsáveis por organizar a agenda de estudos domésticos e planejar o tempo e o modo de abordar o currículo. Porém, a escola precisa levar em conta a situação familiar em que vivem e as condições de moradia. De certo modo, os alunos passam a ser parceiros do professor na elaboração da grade curricular e na prática pedagógica. O ensino se torna mais personalizado.
Mas nem tudo são luzes. Pesquisas indicam que quase 90% dos professores não tinham experiência de aula remota antes da pandemia. Agora, 82% dão aulas a partir de casa e admitem o aumento da carga horária de trabalho. E 84% opinam que o envolvimento dos alunos com o aprendizado se reduziu. A principal dificuldade é o acesso a computadores e à internet.
O sistema educacional não pode transferir para o aluno a responsabilidade de possuir computador e ter acesso à internet. Muitos vivem em situação de vulnerabilidade social. Cabe ao sistema assegurar condições adequadas a todos os estudantes para o desempenho das tarefas escolares.
É importante que a volta às aulas presenciais não ocorra por pressão do poder econômico. E, quando conveniente, nada de improviso. O protocolo deve resultar de amplo debate entre alunos, professores, funcionários, pais de alunos e autoridades sanitárias. A pandemia, em si, virou objeto de estudos. Precisa ser levada à sala de aula e suscitar pesquisas e reflexão sobre equilíbrio ambiental, zoonoses, dignidade, fragilidade da vida humana etc.
Uma vez superada pela vacinação, será melhor não encarar a pandemia como hiato em nossas vidas. E precisam ser considerados relevantes os efeitos emocionais, psicológicos e sociais provocados na vida dos alunos e professores, pois muitos foram afetados pela perda de parentes, vítimas da Covid-19, e o declínio da renda familiar.

Autor: Frei Betto é assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos").

Nenhum comentário: