Seguidores

2 de março de 2020

Brasil será a sexta economia mais prejudicada por perdas da natureza nas próximas décadas!

Relatório do WWF revela pela primeira vez quais países terão suas economias mais afetadas nos próximos 30 anos se o mundo não agir com urgência para lidar com a crise ambiental global.
Foto –  Evren Ozdemir por Pixabay
O estudo Global Futures, que calculou o custo econômico do declínio da natureza em 140 países, da Índia ao Brasil, mostra que, se o mundo continuar fazendo negócios da forma como sempre fez (business as usual), os EUA sofrerão as maiores perdas do PIB anual em termos absolutos, com US$ 83 bilhões varridos de sua economia por ano até 2050 – uma quantia equivalente a todo o PIB anual da Guatemala.  Isso se deve em grande parte aos danos esperados em suas infraestruturas costeiras e terras agrícolas, e devido ao aumento das inundações e erosão como resultado das perdas de defesas costeiras naturais, como recifes de coral e manguezais.
 Danos ocasionados na Zona Costeira são a principal causa dos prejuízos à economia brasileira, que ocupa o sexto lugar no ranking, com perdas de US$ 14 bilhões (ou R$ 60 bilhões no câmbio atual) ao ano até 2050. A destruição da zona costeira irá gerar perdas anuais de US$ 12,382 bilhões (ou R$ 53.243 no câmbio atual), seguida por produção florestal (US$ 1,326 bi ou R$ 5.702 bilhões), polinização (US$ 1,013 bi ou R$ 4.356 bilhões), água doce (US$ 0,69 bi ou R$ 2,967 bilhões) e produção pesqueira (US$ 0,108 bi ou R$ 464 milhões). A Zona Costeira brasileira, que abriga cerca de 60% da população do país, possui grande vulnerabilidade frente às mudanças climáticas. O aumento do nível do mar e das erosões costeiras, as frequentes e intensas as perdas de bens e pessoas são os aspectos mais visíveis que impactam nas perdas econômicas. Já a produção florestal tem perda da produtividade causada pela mudança das condições climáticas alteradas pelo desmatamento e uso do solo. No último ano o Brasil teve uma taxa de 9.762 km² de desmatamento e as emissões por uso de solo responderam por 44% de toda a emissão do País.
A polinização é outro aspecto apontado pelo estudo. No Brasil cerca de 32 alimentos dependem exclusivamente de polinizadores (BPBES/REPPIB) e com as alterações climáticas este ciclo de produção fica altamente comprometido. Outros elementos como água doce e produção pesqueira também serão afetados à medida que a mudança e intensidade de chuvas alteram o ciclo hidrológico do sistema, impactando na segurança para as comunidades costeiras, na mudança de seu habitat e na reprodução dos peixes além de contar com grandes períodos de estiagem.
Foto – Goumbik por Pixabay
No caso específico das commodities agrícolas, são previstas perdas anuais na cultura de cana (US$ 8 milhões ou R$ 34,4 milhões) e na pecuária (US$ 51 milhões ou R$ 219,3 milhões) caso o atual modelo intensivo em carbono persista.  Por outro lado, a mudança para modelos mais limpos e sustentáveis permitiria ganhos anuais de US$ 87 milhões ou R$ 374,1 milhões para a cana, e US$ 4 milhões ou R$ 17,2 milhões para a pecuária.  Para a indústria alimentícia, a perda é de US$ 460 milhões ou R$ 1.978 bilhão no cenário de um modelo econômico que desconsidera os serviços ecossistêmicos como atualmente, enquanto a indústria em geral perderia US$ 2,2 bilhões ou R$ 9,46 bilhões.  Já uma economia de baixo carbono geraria ganho de US$ 1,5 bilhão ou R$ 6,45 bilhões para a indústria em geral e de US$ 459 ou R$ 1.974 bilhão para a indústria alimentícia. O setor de serviços perde nos dois cenários, porém em proporções totalmente diferentes: US$ 9,3 bilhões (ou quase R$ 40 bilhões/ano) se a economia permanecer como está e US$ 1,6 bilhão (R$ 6,9 bilhões) em uma economia que mantenha os serviços ecossistêmicos.
Outras regiões em desenvolvimento também serão seriamente impactadas, com a África Oriental e Ocidental, a Ásia Central e partes da América do Sul sendo particularmente afetadas devido à perda de seus serviços ecossistêmicos que afeta seus níveis de produção, o comércio e os preços dos alimentos. De acordo com o relatório, os três países que mais devem perder PIB em termos percentuais são Madagascar, Togo e Vietnã, que até 2050 deverão ver quedas de 4,2%, 3,4% e 2,8% ao ano, respectivamente.
O estudo Global Futures prevê perdas globais anuais até 2050 de:
US$ 327 bilhões em proteções danificadas contra inundações, tempestades e erosão devido a mudanças na vegetação ao longo da costa e aumento do nível do mar
US$ 128 bilhões com a perda de armazenamento de carbono que protege contra as mudanças climáticas
US$ 15 bilhões em habitats perdidos para abelhas e outros insetos polinizadores
US$ 19 bilhões provenientes da redução da disponibilidade de água para a agricultura
US$ 7,5 bilhões de florestas perdidas e serviços de ecossistemas florestais
O estudo também prevê aumentos de preços globais nos próximos 30 anos para as principais commodities, já que o setor agrícola global será o mais atingido pelo declínio dos serviços ecossistêmicos da natureza, como escassez de água e a diminuição de abelhas e outros insetos polinizadores. Em última análise, isso poderá levar a um aumento dos preços dos alimentos para os consumidores em todo o mundo, com implicações para a segurança alimentar em muitas regiões.
Os aumentos de preços previstos até 2030 para as principais commodities incluem:
Madeira + 8% - Algodão + 6% - Sementes oleaginosas + 4% - Frutas e verduras + 3%
“Este estudo inovador mostra como a natureza perdida não apenas terá um enorme impacto na vida e nos meios de subsistência humanos, mas também será catastrófica para nossa prosperidade futura. Pessoas de todo o mundo já estão sentindo o impacto do aumento dos preços dos alimentos, secas, escassez de mercadorias, inundações extremas e erosão costeira. No entanto, para a próxima geração, as coisas serão muito piores, com trilhões varridos das economias mundiais até 2050”, disse Marco Lambertini, diretor geral da WWF Internacional.
Foto –  Jose Antonio Alba por Pixabay
“O mais alarmante é que essas são estimativas conservadoras pois, atualmente, apenas alguns dos muitos benefícios que a natureza nos fornece podem ser modelados. Também não é possível levar em consideração os efeitos multiplicadores de riscos dos pontos de inflexão ambiental, além dos quais os habitats mudam rápida e irreversivelmente, levando à súbita perda catastrófica dos serviços da natureza. Se todas essas questões fossem levadas em consideração, os números seriam ainda mais graves.”
Alexandre Prado, diretor de Economia Verde do WWF-Brasil afirma que “o estudo aponta que economia e conservação têm estreita relação e que é necessário dar ênfase e escala a modos de produção e consumo mais sustentáveis. Os serviços ecossistêmicos não são somente a garantia de nossa sobrevivência em nosso planeta, mas também da geração de oportunidades econômicas e da qualidade de vida para as sociedades humanas”.
“O mundo perde muito em não agir, principalmente pelo aumento do nível do mar e demais eventos extremos nas costas, mas também pela perda de produtividade agrícola e florestal e o menor volume de água doce disponível. Outro ponto é que as perdas serão muito desiguais: os países-ilha, por exemplo, serão varridos do mapa. Só vamos conseguir manter o crescimento econômico e a prosperidade global em um cenário de conservação”, ressalta Prado.
O estudo Global Futures usou uma nova modelagem econômica e ambiental para avaliar qual seria o impacto macroeconômico se o mundo persistisse no business as usual, incluindo mudanças generalizadas e não direcionadas no uso da terra, aumento contínuo nas emissões de gases de efeito estufa e perda adicional de recursos naturais.
Em um cenário em que o uso da terra é cuidadosamente gerenciado para evitar novas perdas de áreas importantes para a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, que o estudo chama de cenário de ‘Conservação Global’, os resultados econômicos seriam dramaticamente melhores. O PIB global aumentaria 0,02% ao ano, gerando um ganho líquido de US$ 490 bilhões por ano acima do cálculo da economia como sempre.
Esse método pioneiro de análise foi criado por meio de uma parceria entre o WWF, o Projeto Global de Análise de Comércio da Universidade de Purdue e o Projeto Capital Natural, co-fundador pela Universidade de Minnesota. Steve Polasky, co-fundador do Projeto Capital Natural, afirma que: “as economias do mundo, as empresas e nosso próprio bem-estar dependem da natureza. Mas, desde mudanças climáticas, condições climáticas extremas e inundações, até falta de água, erosão do solo e extinções de espécies, as evidências mostram que nosso planeta está mudando mais rapidamente do que em qualquer outro momento da história. A maneira como alimentamos, abastecemos e financiamos a nós mesmos está destruindo os sistemas de apoio à vida dos quais dependemos, arriscando a devastação econômica global.”
Foto – Molly Allen por Pixabay
homas Hertel, diretor executivo do Projeto Global de Comércio e Análise, entende que: “a ciência e a economia são claras. Não podemos mais ignorar o forte argumento econômico de restaurar a natureza. A inação nos custará muito mais do que ações para proteger as contribuições da natureza para a economia. Para garantir um futuro global positivo, precisamos alcançar padrões mais sustentáveis de produção e de uso da terra, e reformar os sistemas econômico e financeiro para incentivar a tomada de decisão baseada na natureza.” Lambertini disse: “A boa notícia é que esses resultados desastrosos podem ser evitados se ao invés de continuarmos no modelo antigo de fazermos negócios os governos agirem urgentemente para deter a perda de natureza e enfrentar a nossa emergência planetária. Não precisamos nada menos que um novo acordo para a natureza e as pessoas, tão abrangente, ambicioso e científico como o acordo climático global acordado em Paris em 2015.”
Os números incluídos no estudo Global Futures referem-se ao impacto econômico projetado de formas específicas de perda de natureza, mas não incluem todas as diferentes maneiras pelas quais a degradação ambiental afetará as economias globais entre agora e 2050. O impacto total, quando todos esses fatores sejam em consideração, deverá ser muito maior.
Países mais afetados em termos de perda real do PIB nacional anual (bilhões) em um cenário business as usual até 2050:
1) Estados Unidos da América (- US $ 83) - 2) Japão (- US$ 80) - 3) Reino Unido (- US$ 21) - 4) Índia (- US$ 20) - 5) Austrália (- US$ 20) - 6) Brasil (- US$ 14) - 7) Coréia do Sul (- US$ 10) - 8) Noruega (- US$ 9) - 9) Espanha (- US$ 9) - 10) França (- US$ 8)
Países mais afetados em termos de% de perda do PIB nacional anual em um cenário business as usual até 2050:
1) Madagáscar (-4,2%) - 2) Togo (-3,37%) - 3) Vietnã (-2,84%) - 4) Moçambique (-2,69%) - 5) Uruguai (-2,54%) - 6) Sri Lanka (-2,48%) - 7) Cingapura (-2,31%) - 8) Nova Zelândia (-2,29%) - 9) Omã (-2,25%) - 10) Portugal (-1,95%)

Autor: Aviv Comunicação – Neo Mondo.

Diga-me o que te preocupa e te direi quem és!

A ira destrutiva dos partidos populistas de direita encobre as questões sociais determinantes do nosso tempo e se desvia de qualquer problema urgente que exija um pensamento construtivo.
Enrique Flores
“A ira tem um objetivo limitado e graves fraquezas”, disse Toni Morrison, ganhadora do prêmio Nobel, em sua conferência War on Error (A Guerra contra o Erro), em 2004. “Sufoca o entendimento e substitui a ação construtiva por um teatro sem sentido”. Talvez a única coisa boa do desastre da Turíngia (a manobra fraudulenta que permitiu eleger o primeiro-ministro com os votos da formação de extrema direita Alternativa para a Alemanha) seja que, finalmente, ficou evidenciada a ira manipuladora que há anos o partido radical disfarça de preocupação compassiva. Acabou o carnaval retórico que representou na cena pública apoiado por auxiliares oportunistas dispostos a dar crédito e tempo de antena ao seu discurso mentiroso como se fosse realmente necessário.
A única coisa que sempre existiu foi uma ira antidemocrática que queria utilizar as práticas democráticas; um dogma liberal que pretendia abusar da abertura liberal para destruir aquilo de que se servia. Na Turíngia perverteu-se um procedimento democrático apenas pelo prazer pornográfico de zombar da democracia. A Alternativa para a Alemanha (como seus gêmeos nacionalistas de direita da Espanha ou da França) não tem nada a ver com reivindicações de conteúdo, com questões concretas, e muito menos com as preocupações ou necessidades dos cidadãos e cidadãs. Não quer realizar nada nem representar ninguém. Assim como seu candidato a primeiro-ministro nada mais era do que um candidato de mentira cuja função era desviar a atenção de intenções destruidoras, o clichê da proximidade com o povo nada mais é do que uma falácia para desviar a atenção da profunda indiferença pelos cidadãos e cidadãs. Para os populistas de direita em todo o mundo, o “povo” é apenas um código para a mecânica que determina quem não deve fazer parte de nada, quem deve receber menos proteção e ser menos visível, e as crenças, as famílias e os problemas de quem deve ter menos valor.
A questão nunca foi a cidadania e suas preocupações. O jogo retórico de preocupação serve apenas ao partido Alternativa para a Alemanha (leia-se Vox, Liga Norte italiana ou Agrupamento Nacional francês) para estigmatizar aqueles sobre os quais se deve projetar o medo ou o ódio. A única coisa que a velha nova direita sempre quis foi suscitar emoções para apontar contra os outros; um perpétuo um móvel racista que assim que se esvazia o ódio que alimenta e canaliza, volta a intensificá-lo. Esse teatro sem sentido, que um público entre ingênuo e divertido tolerou demasiado tempo enquanto se reduzia a importância de todo ato sistemático de desprezo, qualificando-o de “superação de um tabu” e se despolitizava cada ato terrorista ditando que se tratava da ação de um “lobo solitário”, faz tempo que deixou de ter graça.
Quem classifica os seres humanos individualmente ou em grupos, quem acredita que pode revalorizar o medo de alguns e subestimar a dor de outros, não é social nem próximo do povo, mas associal e alheio à realidade. Não existe a necessidade importante dos trabalhadores marginalizados economicamente nem a necessidade insignificante dos muçulmanos marginalizados culturalmente ou das mulheres. Quem acredita que é possível continuar separando os trabalhadores marginalizados, por um lado, e todos os que não têm inibição em colar o desrespeitoso rótulo de “minorias” (emigrantes, muçulmanos, mulheres), por outro, faz muito do que não entra em uma fábrica ou em um hospital e deixou de perguntar quem constrói os carros e os trens em que viajamos, quem atende e cuida dos nossos pais e de nós. Reconhecer a diversidade social não é uma questão de moral; é uma questão de contato com a realidade. A crítica ao racismo e ao sexismo, o compromisso com os direitos das mulheres ou dos e das emigrantes não são debates de luxo e nem uma atitude elitista e superficial. São tarefas fundamentais de todos nós que vivemos em uma sociedade democrática.
A ira tem sérias fraquezas, afirma Toni Morrison, e talvez isso seja o pior: que a ira destrutiva dos partidos populistas de direita encobre as questões sociais determinantes do nosso tempo, precisamente aquelas preocupações e necessidades que constituem uma verdadeira razão de descontentamento social e nostalgia política. O que é nocivo em um partido como a Alternativa para a Alemanha não é apenas sua visão revisionista da história, seu nacionalismo neotribal, sua ignorância sobre o que significa o Estado de Direito, mas seu desvio de qualquer problema realmente urgente que exija um pensamento construtivo.
Faz tempo que nas democracias do presente não existe uma única questão social, mas questões no plural. A dinâmica da igualdade e da desigualdade se abre como um leque. Aí estão as infraestruturas deterioradas que aprofundam a fratura social e cultural entre o leste e o oeste, o norte e o sul, o campo e a cidade; a questão crítica da habitação, que desloca cada vez mais pessoas, reduzindo a possibilidade de participação; a maneira pela qual a digitalização e a inteligência artificial estão reestruturando não apenas o mundo do trabalho, mas toda a nossa vida. Tudo isso afeta a questão de quais postos de trabalho podem ser eliminados e quais tarefas e decisões podem ser delegadas às máquinas capazes de aprender, mas também de quais desigualdades se reproduzem em função dos dados com os quais essas máquinas são alimentadas. E algo não menos importante: além das inovações tecnológicas, a mudança climática exige uma profunda transformação na nossa maneira agrícola e industrial de produzir, na maneira como transportamos os bens e as mercadorias, nas estruturas e hábitos que determinam nosso dia a dia, e a quem os custos sociais de tudo isso são imputados: aos países do sul global, expostos de qualquer maneira aos maiores deslocamentos devido à mudança climática, ou àqueles que as provocam. Das muitas perdas do sentido da realidade da Alternativa para a Alemanha, uma das maiores é que, enquanto se queixa da emigração chamando-a de carga, se empenha em negar suas causas ecológicas. Portanto, em vez de imitar sua ira para tentar recuperar os votos perdidos e participar de um teatro sem sentido, os partidos voláteis (não apenas os alemães) deveriam atender às questões ditadas pela realidade.

Autora: Carolin Emcke é jornalista, escritora e filósofa, autora de Contra el Odio (Taurus) – Publicado no El País.

Nunca um presidente foi tão vulgar com uma mulher. Espere o efeito bumerangue!

O ataque de Bolsonaro à repórter Patrícia Campos Mello vai ajudá-lo a definhar a partir de agora num Brasil onde 52% do eleitorado é feminino e que não vai mais voltar atrás em sua luta pelas mulheres.
O presidente Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, no último dia 4 de fevereiro. Adriano Machado - Reuters (Reuters)
Os covardes machistas podem fingir que não são covardes machistas, mas em algum momento eles se revelam. E não há momento mais oportuno para os atores públicos do Brasil mostrarem que não o são, longe de serem coniventes com a baixaria empreendida pelo presidente Jair Bolsonaro contra a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, na manhã desta terça-feira. Num país em que 52% do eleitorado é feminino, deputados e senadores deveriam ficar alertas. Eles têm a grande oportunidade de mostrar que não vão deixar a vulgaridade assumir o Brasil, rasgando todo e qualquer senso de decência do Estado em relação a uma mulher, deixando que se propague uma mentira orquestrada dentro do Congresso. Deixem de lado o fato de Patrícia ser jornalista. Ela é mulher. Poderia ser uma economista, uma copeira, uma faxineira, uma jogadora de futebol. Ela foi exposta com insinuações sexuais por um presidente, como nunca o Brasil viu. Ele não está na mesa de bar com amigos, está na frente das televisões dizendo que Patrícia queria “dar um furo a qualquer preço”, sugerindo sexo em troca de informação, o que é o mesmo que chamar uma mulher de prostituta. Só uma cabeça pervertida pode se sentir tão à vontade para dizê-lo em alto e bom som.
Nunca na democracia um chefe de Estado havia caído tão baixo apelando à vulgaridade para falsear a realidade. Quiçá no mundo. Nem Donald Trump chegou a tanto. O Congresso tem as provas à mão para admitir que Hans River do Rio Nascimento mentiu na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI). Parte dessas mentiras a insinuação asquerosa de Bolsonaro, pai de uma filha de 9 anos, que Patrícia faltou com a ética para ter uma informação. De qual referência parte Bolsonaro? Todo mundo sabia do que ele era capaz, desde que ele xingou uma repórter em abril de 2014. Mas editou a si próprio para fazer sua campanha e venceu. Legitimamente.
Desde então, empreende uma guerra grosseira, agressiva e mentirosa contra a realidade para esquivar-se de suas próprias capivaras. A morte de Adriano da Nóbrega, que convenientemente morreu nas mãos da polícia da Bahia, governada pelo Partido dos Trabalhadores, foi um presente no colo de Bolsonaro que agora se tornou o maior defensor de presos assassinos, embora repetisse sempre que “direitos humanos era para humanos direitos”, e seja um dos que faz coro ao jargão “bandido bom é bandido morto”. De onde vem essa mudança?
Os homens públicos deste país, empresários e agentes da Justiça vão deixar que o que já se construiu em termos de sociedade vá para o ralo? Em nome de quê? Senhores deputados e senadores, vocês podem ter um papel tremendamente decisivo neste início de 2020. Pelas suas filhas, pelas suas mães, pelas suas eleitoras, pelas suas irmãs. Não desprezem a construção que mulheres têm feito até aqui por um país mais decente e menos violento. A violência das palavras de um chefe de Estado reverbera em todas as esquinas e rincões do Brasil. Já se matam uma mulher a cada duas horas aqui, um estupro acontece a cada 11 minutos. Tenham decência, coragem, de estancar esta sangria desatada que abriu as portas para uma perversidade gratuita. Vocês foram eleitos para que o Brasil fosse um país melhor, mais próspero, mais respeitado, mais ético. Não há melhora onde uma mentira é naturalizada na Casa em que vocês representam cada brasileira. Não há prosperidade num país onde se quer estabelecer o medo como forma de governo. Não há respeito por um país que fecha os olhos e silencia diante dos disparates que estamos assistindo. Isso também é corrupção. Corromper seu papel público em nome do poder.
Bolsonaro se cercou de ministros sem filtro, como Paulo Guedes ou Abraham Weintraub, e nos vemos agora tentando medir quais declarações foram mais ou menos canalhas que outras. O primeiro ano já havia sido execrável e neste 2020 ele dobrou a aposta. Brasil perverso. Estamos perto do dia 8 de março. Isso vai ter impacto. Foi assim que começaram grandes manifestações femininas pelo mundo. O presidente está dando farto material para as campanhas de seus adversários e dos inúmeros inimigos que está fazendo. Sabendo-se que é incorrigível e que está cego pelo poder, vai tropeçar em suas próprias palavras.

Autora: Carla Jiménez – Publicado no El País.

Retorno a Berlim!

Há 28 anos a cidade ainda estava em ruínas, especialmente no Leste, e agora cresce e se reconstrói de maneira frenética. É um formidável centro de cultura, paraíso da música, dos museus e do teatro.
Fernando Vicente
Para o poeta José Emilio Pacheco, o olfato dizia se os livros eram bons ou ruins. Estive em uma livraria nos Estados Unidos com ele; cheirava as estantes e o nariz ordenava o que devia comprar ou rejeitar. Comigo acontece com as cidades o que a ele acontecia com os livros; basta chegar a um aeroporto ou a uma estação e imediatamente sei se a cidade me aceita ou me resiste. Em relação a Berlim, soube instantaneamente que poderia viver lá a vida toda e que também meu esqueleto descansaria feliz em terra berlinense. Estive lá durante todo o ano de 1992 e agora voltei apenas por três dias, também ao Wissenschaftskolleg, para ouvir um novo fellow, meu amigo Efraín Kristal, que escreverá um livro sobre Borges. Ele nos explica com luxo de detalhes o que já fez e, sem dúvida, será um ensaio cheio de revelações e surpresas.
Embora os 28 anos tenham mudado o aspecto da cidade –então ainda estava em ruínas, especialmente no Leste, e agora cresce e se reconstrói de maneira frenética–, continua sendo o paraíso da música, dos museus e do teatro: um formidável centro de cultura. Quase três décadas atrás, passear por Unter den Linden em direção à Ilha dos Museus era andar entre ruínas; agora reapareceram os palácios e as óperas, e mansões suntuosas e às vezes feias, como a Embaixada da Rússia, que ocupa um imenso quarteirão inteiro. Então, o arquiteto italiano Renzo Piano tinha inventado a ressurreição da Potsdamer Platz; lembro-me de que trouxe mergulhadores russos, que trabalhavam submersos na água e voltavam à Rússia de avião para passar os fins de semana com as famílias. Agora a Potsdamer Platz brilha na noite com seus belos e gigantescos edifícios iluminados, um dos quais é o famoso Museu do Cinema e outro é o Teatro Marlene Dietrich, a quem os berlinenses perdoaram, pelo visto, que durante a guerra tenha cantado para os soldados norte-americanos...
Não sei se existem muitos centros no mundo como o Wissenschaftskolleg, mas, de qualquer forma, deveriam abundar. É um centro público que convida todos os anos entre trinta e quarenta pesquisadores de diferentes países e disciplinas, durante um semestre ou um ano, para concluírem uma investigação ou um livro. A única obrigação que têm é fazer uma exposição para os outros bolsistas sobre o que pensam fazer e depois almoçar duas ou três vezes por semana com os outros pesquisadores. No ano que passei lá, o personagem mais misterioso era um romeno; havia sido professor universitário nos tempos de Ceaucescu. Deu um curso marxista contra a religião, mas, como nos explicou, secretamente se converteu ao que depreciava em suas aulas e agora era especialista em anjos, ou seja, angeólogo. Ele nos fez uma exposição notável sobre a miríade de anjos –e todas as suas variantes e números– que povoam o paraíso. O que nunca pudemos saber é se ele realmente acreditava no que contava. Vinte e oito anos depois, me dizem que ninguém ainda conseguiu descobrir; isso sim, o romeno em questão foi desde então nada menos que ministro das Relações Exteriores de seu país. Está muito claro que, acredite neles ou não, os anjos agradecidos acreditam nele.
Outro fellow, com o qual me encontrava todas as manhãs na academia, não era menos extraordinário. Tinha sido aceito em Oxford, onde esperava se dedicar ao Egito. Mas o arabista que era seu professor o convenceu a se dedicar ao Sudão, um país do qual a universidade acabara de adquirir documentos muito antigos. Assim o fez. E se tornou, a julgar pela bela exposição que nos deu, um extraordinário especialista naquele país. Conhecia sua história, sua geografia, as variantes de sua língua. Mas nunca havia pisado no país fundamentalista ao qual tinha dedicado a vida, nem o pisaria, pois era judeu e, ainda por cima, israelense. Havia dedicado toda sua ciência e toda sua vida a um país em que jamais colocaria os pés. E não há dúvida de que o amava de todo o coração. Falava entusiasmado sobre os sudaneses que, disfarçados e tomando mil precauções, viajavam para se reunir às escondidas com ele na Europa.
Assim que entrei no Kolleg, descobri Eva, que nos dava aulas de alemão ao amanhecer. Pensei aterrorizado se iria me perguntar se ainda me lembrava de cor do poema de Goethe que, nos dias de euforia, costumava recitar aos gritos. Mas não o fez, felizmente. E também estava lá, como vindo do fundo dos séculos, aquele que dirigia a instituição quando estive nela: Wolf Lepenies. Passou muitos anos no Instituto de Altos Estudos de Princeton e agora voltou a Berlim como fellow da instituição que dirigiu durante vários anos com mão de mestre. Filósofo, ensaísta, poliglota, Lepenies nos deslumbrava toda vez que abria a boca e principalmente quando propunha algum brinde: fazia isso citando alguma ideia, verso ou frase que tivesse a ver com o assunto. Os anos não passaram por ele; continua sendo o mesmo de então, ao menos em simpatia e verbo. Ele me apresenta o romancista deste ano, o búlgaro Georgi Gospodinov, e a nova diretora do Kolleg, a historiadora Barbara Stollberg-Rilinger.
Uma coisa que me impressiona é que todos os fellows deste ano me parecem muito jovens; dizem-me que há, entre eles, vários músicos e um médico que dirige um grande hospital nos Estados Unidos. Lembro que entre nós havia um coreógrafo que ensinava exercícios de relaxamento à noite. A instituição distribuía ingressos para concertos, óperas e apresentações de teatro. Eu adorava principalmente os espetáculos montados em Berlim Oriental por jovens que armavam seus palcos entre as ruínas e que eram, em geral, imigrantes dos países do Leste. Sua presença era um indício da pujança e da versatilidade da vida cultural da velha capital alemã, que já então recuperava, no campo da cultura, sua condição de aberta ao mundo, de cidade multicultural e multilíngue.
Graças a Wolf Lepenies pude estudar e fichar muitos desenhos e gravuras de George Grosz, dispersos em museus e galerias de Berlim. Ainda devem estar, em alguma maleta esquecida, as muitas fichas daquele ensaio que nunca escrevi sobre o virulento desenhista e pintor que, acredito, encarnou melhor do que ninguém os anos conturbados de Weimar. Trabalhei muito nele e até fui visitar um de seus filhos nos Estados Unidos, um músico de jazz que me mostrou cartas e até um álbum de família de Grosz. De repente, nesta viagem, senti uma vontade irresistível de retomar aquele projeto, esquecido desde então. Pobre Grosz: salvou-se por milagre se ser morto pelos nazistas, enfurecidos com as ferozes caricaturas que fazia deles. Foram ao seu apartamento em Berlim e ele os recebeu amavelmente, fazendo-se passar pelo mordomo do pintor e aproveitando a confusão para fugir pela janela. Nos Estados Unidos, o terrível Grosz suavizou-se e perdeu o ódio e a fúria que o faziam pintar. Tornou-se bom e suas pinturas perderam a pugnacidade e a virulência de antanho. Voltou a Berlim somente em 1945. E, naquela noite, festejado pelos amigos, bebeu sem limites; quando voltou ao apartamento que lhe tinham emprestado, caiu na escada e o zelador o encontrou morto na manhã seguinte, no porão, por conta dos golpes que sofreu.
Grunewald, o bosque de Berlim onde fica o Wissenschaftskolleg, não mudou tanto quanto o resto da cidade. Lá estão os lagos, as árvores, agora nuas por causa do inverno, os bandos de melros que resistem ao frio e, é claro, os corredores que enfrentam os ventos atrozes e as geadas. Caminhei muitas vezes por esse bosque naquele ano e fui dando forma àquele enxame de fichas que me permitiram lembrar e descrever a campanha eleitoral que, durante três anos, me afastou da minha máquina de escrever e dos livros, minha verdadeira vocação. Voltei a ela e por isso sempre tive uma enorme gratidão por aquele ano berlinense. Esta rápida viagem, trinta anos depois, é um bom momento para lembrar isso.

Autor: Mario Vargas Llosa – Publicado no El País, 2020.

Você sabe o que é sucesso e felicidade?

Para ter sucesso não precisa estudar nas melhores escolas, muito menos ter QI de gênio ou maior que 150. Os brasileiros que querem fazer graduação no Exterior e as escolas que os preparam por aqui sabem que o processo e critérios de seleção são totalmente diferentes por lá do que os daqui.
As universidades lá fora é que escolhem os alunos e não adianta ter notas altas ou falar bem a língua deles. O que importa é ser competente emocional, afetivo, social e solidário, ser compatível com os novos tempos. Envolvimento social e preocupação ambiental planetária é fundamental nos quesitos exigidos!
Por que no Exterior?
1º). Queda de qualidade das universidades brasileiras nas listas de classificação, como na avaliação da "QS World University Rankings" de 2020 e da "Times Higher Education", na qual a instituição mais bem posicionada na América Latina é a Pontifícia Universidade do Chile, entre o 251-300º lugar.
2º). A vontade de migrar e mudar de vida estimulada pelos pais em função da atual situação social e política.
Gênios
Estudou-se muito a vida das pessoas com QI altos. Para a grande maioria destes gênios, faltou o sucesso, que está muito ligado à ideia de felicidade. Felicidade é ter a plena coerência entre o que você pensa com aquilo que você faz! Os incoerentes dificilmente são felizes, apesar de disfarçarem.
Sucesso é o reconhecimento no meio em que vive, incluindo-se o lado profissional, de tal forma que se tenha uma vida digna e tranquila a ponto de dizer: sou feliz! Os competitivos quase sempre são incoerentes, mas por gentileza, não confunda competitividade com competência, apesar de ser muito comum esta confusão. O competente nunca é predatório como é o competitivo!
A satisfação pessoal passa também por aquilo que se conveniou chamar de sucesso. O inglês Malcolm Gladwell pesquisou o sucesso no livro Fora de Série ("Outliers"), da Sextante. Para ele o sucesso está atrelado a muita dedicação, treinamento, abdicação e trabalho. Ninguém nasceu para ser feliz! Você nasceu e até pode ser feliz, mas vai ter que dar uma raladinha antes! Vai ter que trabalhar, investir, treinar e planejar: sucesso antes do trabalho apenas no dicionário!
Sucesso
Não se deixem enganar, um vencedor com sucesso teve 10 mil horas de treinamento, mas exclusivamente o trabalho não resolve, precisamos da confluência de fatores como:
1. Habilidade, inteligência e cultura. A maioria dos gênios não é feliz.
2. Muito trabalho e treinamento.
3. Persistência e tenacidade, mesmo na adversidade.
4. Apoio familiar, amigos ou de uma instituição. Ninguém tem sucesso sozinho!
5. Habilidade social para detectar e aproveitar as circunstâncias favoráveis, preparando-se para as oportunidades.
6. Sorte: será sempre necessária, mas sozinha não surtirá efeito.
Por fim
Reflitamos sobre o sucesso e a felicidade que buscamos!

Autor: Alberto Consolaro – Professor titular da USP – Bauru – Publicado no JC – Bauru.

A farsa do século!

Nestes seus dois anos de governo, Trump nunca deixou de surpreender com posturas normalmente injustas, absurdas e, em geral, ilegais. Desta vez ele foi muito além do que se poderia prever de negativo.
O “acordo do século” não passa de uma farsa trágica, criada para atender unilateralmente a Israel, de forma escandalosa, violando sem pudor leis internacionais, disposições das convenções de Genebra e decisões do Conselho de Segurança da ONU.
Apesar do seu ambicioso rótulo, não é nem será sequer um acordo. Os seus elaboradores jamais ouviram os palestinos. Sabiam que suas propostas encontrariam franca rejeição, como de fato aconteceu.
Razões não faltavam, longe de atender aos palestinos, as medidas propostas foram feitas sob medida para agradar Israel.
Se aprovadas, o sonho de um Estado palestino independente e viável viraria um pesadelo: seu território, reduzido em mais de 30%, mediante a anexação por Telavive da maioria quase total dos assentamentos israelenses e do vale do Rio Jordão. O novo país seria uma constelação de enclaves não-contíguos, separados entre si pelos assentamentos e acessados através de estradas e túneis, sob controle do exército de Israel.
Em troca, o governo judaico cederia aos palestinos alguns bocados do deserto de Negev. Com os assentamentos fechando suas fronteiras, o novo Estado ficaria enclausurado no estado de Israel, sem fronteiras com outras nações. Os palestinos também não poderiam ter nem aeroportos, nem portos, devendo seu espaço aéreo e águas costeiras ficarem controlados pelas forças armadas israelenses. Que teriam direito de destruir qualquer instalação palestina que Telavive considerasse um risco para a segurança do país sionista.
Ao contrário de um Estado autêntico, o dos palestinos não teria um exército: rigorosamente proibido. Armas só para a polícia, assim mesmo depois de sua aprovação pelo regime judaico. E, ainda tem mais: proibição do Estado dos palestinos firmar acordos de segurança com qualquer outro país ou entidade, sem o nihil obstat de Israel. Em suma, os palestinos não teriam propriamente um Estado, mas algo semelhante a uma colônia.
E o que é particularmente cínico, para chegar a esse objetivo desastroso, a Autoridade Palestina teria de satisfazer condições humilhantes: reconhecer Israel como o estado nacional do povo judeu (quando todos os islamitas pedem um estado igualitário); retirar todas as ações na Corte Criminal Internacional e na Corte Internacional de Justiça contra os assentamentos e as brutalidades do exército israelense, algumas em estágio avançado; desarmar e desmobilizar o Hamas e outros grupos similares; destituir o Hamas do governo de Gaza, para o qual fora democraticamente eleito; interromper o fornecimento de alimentação às famílias de terroristas presos; prender e interrogar quem ousar se opor à ocupação israelense.
Em troca, o governo, ora exercido por Netanyahu, comprometia-se a não criar novos assentamentos durante quatro anos, prazo que os palestino teriam para acertar com Israel todos os detalhes da nova ordem. Findo esse prazo sem acordo, The Donald lavava as mãos, deixando os israelenses livres para anexarem tudo o que quiserem, marcando um adeus definitivo á ideia de um Estado palestino. Os outros pontos básicos, em que o pseudo-acordo do século privilegiou os israelenses e prejudicou os palestinos, focam o status de Jerusalém e o retorno dos refugiados.
Jerusalém, segundo o morador da Casa Branca, é e deve permanecer a capital indivisa do Estado de Israel. Que os palestinos se esqueçam de vir a ter Jerusalém Oriental como sua capital. Para esse fim, o presidente estadunidense generosamente permite que escolham algum dos subúrbios de Jerusalém.
Os refugiados que foram expulsos de suas casas e propriedades agrícolas durante as guerras de 1948 e 1967, jamais poderiam voltar. “São famílias que viveram lá durante duas gerações e foram desalojadas em favor de famílias que reclamam o país porque seus ancestrais viveram lá há oito gerações atrás (Craig Murray, 04-02-2020).
Como era esperado, os líderes palestinos e quase todos os líderes das demais nações árabes condenaram as ideias de Trump de forma veemente. O Egito e os países do Golfo, que enviaram embaixadores à apresentação do plano tinham, aparentemente, as aprovado. Mas, cerca de uma semana depois, corrigiram sua posição: na reunião da Liga Árabe, todos os membros manifestaram sua rejeição de maneira clara.
O rei Salman, da Arábia Saudita, grande aliado dos EUA, foi radical, afirmando que ficaria sempre ao lado do povo palestino e só aprovaria um plano de paz que eles aceitassem. A Liga Muçulmana, que abrange 57 países islâmicos inclusive não-árabes, em reunião em Jedá: “apelou a todos os estados membros para que não se engajassem nesse plano (a obra de Trump) ou cooperassem, de qualquer maneira com a administração dos EUA na sua implementação (AFP - 01-02-2020”).
A Europa, como sempre que estão em jogo interesses fundamentais norte-americanos, não ousou criticar o plano. Glorificou a preocupação de Trump em procurar uma solução para a crise palestina. Quanto ao conteúdo, iriam estudar profundamente o seu conteúdo. Macron também se pronunciou assim, no entanto, informou que um acordo na questão palestina precisaria respeitar as leis internacionais.
O que é ambíguo: para a opinião pública, o acordo do século passa ao largo das leis, já para os sábios juristas do departamento de Estado dos EUA, isso não é verdade. De que lado Macron está, só o futuro dirá. Como se esperava, Boris Johnson, como vassalo de The Donald, bateu bumbo pela iniciativa do chefe.
Somente a Alemanha foi econômica nas apreciações pessoais e firme na sua posição de somente apoiar soluções aceitas pelos palestinos. Na arquitetura do seu plano, o morador da Casa Branca passou por cima de um aglomerado de leis internacionais e recomendações da ONU. Amit Gilutz, do B´Tselen, entidade israelense de direitos humanos, foi contundente em sua crítica: “os assentamentos de Israel de um modo geral, o roubo das terras e recursos dos palestinos e a violência inerente à imposição da lei militar sobre um povo marginalizado indefinidamente, tudo isso contraria as leis internacionais”. Yuval Shany, professor de leis internacionais na Universidade Hebreia de Jerusalém afirmou que o plano de Trump não tornaria a Palestina um Estado viável. E concluiu: “Portanto, ele falha por não implementar o direito dos palestinos à autodeterminação, sob a lei internacional.”
Lembro que os assentamentos são considerados ilegais por violarem princípios da lei internacional que proíbem as nações de expandirem seus territórios pela força militar.
Sua anexação a Israel também é visada pela Quarta Convenção de Genebra, que proíbe explicitamente os Estados ocupantes de transferirem seus civis para os territórios ocupados. Há 20 anos, a Corte Internacional de Justiça condenou os assentamentos judaicos e, em 2017, o mesmo fez o Conselho de Segurança da ONU, por 15 x 1, taxando-os de “uma flagrante violação das leis internacionais” e ordenando que o governo de Israel interrompesse a fundação de novos assentamentos – o que não foi cumprido. Para Kevin Jon Heller, professor de leis internacionais na Universidade de Amsterdam, a planejada anexação do Vale do Jordão, se for implementada, será considerada violação da lei internacional, pois “significa roubo de terras. Pura e simplesmente (al Jazeera, 02-02-2020)”. Tendo Jerusalém Oriental sido tomada pelo exército de Israel durante a guerra de 1967, sua anexação também se enquadra no mesmo ilícito criminal aqui indicado.
A pseudossolução trumpniana deixaria o cotidiano do novo Estado e dos seus habitantes palestinos à mercê de Israel, através do controle exercido sobre todo o território em questão. Isso seria apartheid. Definido como “um regime institucionalizado de opressão sistemática e dominação de um grupo racial por outro”, o apartheid é criminalizado pelo Estatuto da Corte Criminal Internacional.
Mutaz Qafisheh, professor de leis internacionais na Universidade de Hebron, diz: “o plano apresenta uma prescrição de apartheid, discriminação racial e dominação colonial (al Jazeera, 02-02-2020)”. Que, para The Donald, a lei da selva está acima do direito internacional, isso não é novidade para ninguém. Discute-se qual a razão que o levou a escolher este momento, a apenas um mês das eleições judaicas.
Para a maioria dos analistas, seria uma forma de valorizar Netanyahu, sabidamente coautor do plano, e por tabela ajudar a conquistar para Bibi a aprovação e os votos do povo de Israel.
Pesquisas recentes mostram que cerca de 50% dos israelenses ficaram encantados com o plano. No entanto, 46% dos israelenses judeus e 68% dos israelenses árabes acham que se trata de uma interferência norte-americana em favor de Netanyahu (pesquisa do Instituto Democrático DE Israel).
Nas primeiras pesquisas depois da revelação de Trump, a diferença entre a coligação de Netanyahu e os adversários do partido Azul e Branco continuava praticamente a mesma, com Benny Gantz entre 1 e 3% na frente. Para os palestinos, quem vencer importa pouco, os dois se comprometeram com a farsa do século.
Acredita-se que, diante da rejeição palestina, nada mudará, até que Israel comece a anexar assentamentos, como aliás Netanyahu teria anunciado para breve, conforme voz corrente na imprensa americana. É difícil imaginar como os palestinos reagirão. Certamente, alguns ineficazes disparos de mísseis partirão de Gaza, provocando os costumeiros bombardeios da força aérea israelense.
Os palestinos prometeram levar sua causa ao Conselho de Segurança da ONU. Não dá para garantir que terão apoio europeu. Aposto que os países do bloco entrarão com um “deixa disso”, insistindo em conversações entre palestinos e parças de Netanyahu, para se buscar uma solução que agrade a todos. A qual jamais será encontrada, enquanto as reuniões irão minguando até seu fim, amargo porque não darão em nada.
E tudo continuará como antes. Há alternativas, claro. A mais otimista seria a União Europeia ficar do lado das leis e dos palestinos, condenando o plano Trump como ilegal. Seja como for, Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, deverá levar a questão para a Assembleia Geral da ONU, onde os ventos têm ultimamente soprado a seu favor. Pouco adiantará. Decisões nesta instância não tem poder mandatório.
Certo que os EUA ficariam isolados, mas o presidente dos EUA nem se toca. O que o preocupa são suas chances de convencer os eleitores norte-americanos de que seu plano fake é a nona maravilha do mundo (dizem que ele se acha a oitava). E assim impulsionar sua candidatura à reeleição. Seu plano não fora concebido para conseguir resolver problemas do Oriente Médio, mas para conseguir mais votos de crédulos e evangélicos desavisados; enormes doações e o engajamento entusiásticos de bilionários judeu-americanos para influenciar jornais e revistas, emissoras de TV e de Rádio, além de congressistas dos dois partidos.
Num cenário em que a discussão internacional dos problemas da Palestina está se desvanecendo, a última opção que os palestinos deveriam adotar seria o apelo ao terrorismo ou a ataques maciços de mísseis lançados pelo Hizbollah e o Hamas. Desse jeito, perderiam o apoio da opinião pública internacional, hoje tendendo para o seu lado. Parece ser mais efetivo o uso da desobediência civil, da paralisação dos serviços públicos e do fechamento das estradas com manifestações maciças.
A esperada reação violenta dos ultradireitistas que governam Israel poderia animar a comunidade internacional a intervir de maneira concreta. Seja o que os palestinos pretendam fazer, o recomendável é esperar por novembro, pelas eleições dos Estados Unidos. Um democrata pode ganhar e a justiça começar a prevalecer na Palestina.

Autor: Luiz Eça - Publicado no Correio da Cidadania

Falácia liberal!

Armínio apenas nos fornece mais uma comprovação de que divergência entre "liberais" e "milicianos" toscos do atual governo são apenas formais. De método e comportamento.
Com inteiro apoio à essência da agenda criminosa que garante à manutenção da desigualdade social crescente em nosso país, a partir da proletarização acelerada de uma classe média alienada pela lavagem cerebral que lhe é imposta de forma incessante pela mídia reacionária. Uma classe média, que por conta disso sofre, mas bate palmas e mitifica o agente principal da opressão de classe a que é submetida.
Por que Armínio ocupa tanto espaço midiático? Ora, ora, porque mergulha em duas vertentes incontestáveis de reflexão.
A pimeira, que os "incondicionais" do lulopragmatismo defendem por conta de uma "governabilidade possível", é que (até por confissão do próprio Lula), nunca os banqueiros (principal praga do regime capitalista) "lucraram tanto" na história republicana quanto em seu governo. Nunca os maganos do vértice da pirâmide populacional se beneficiaram tanto com isenções tributárias inadmissíveis, para além de absoluta intocabilidade nos privilégios que a legislação de impostos lhe fornece.
A segunda, e essa nos diz respeito diretamente, é que as pautas identitárias, "inclusivas", para além do que possam ser fundamentais quando ligadas a uma leitura totalizante da conjuntura; quando operadas a partir de uma perspectiva de luta de classes, anticapitalista, e não apenas de alcançar vagas consentidas no atual regime, são o para-choque ideal para a consciência podre dos ditos "liberais" se fantasiarem de "democratas".
Lamentavelmente, se a primeira vertente é consequência de uma incontestável traição de classe, com a chegada de Lula ao Planalto e a entrega de nossa macroeconomia a Henrique Meirelles e Palocci, a segunda é algo que a esquerda pós-moderna transformou em eixo de ação prioritária, com seu sectário, individualista e antissocial "lugar de fala". A entrevista de Armínio traz, portanto, esse lado positivo. Revela o caráter mentiroso dos liberais ao se afirmarem antiautoritários e nos obriga a refletir sobre a covardia ideológica dos que, no campo da esquerda, por razões eleitoreiras ou por simples acomodação, deitam e rolam na tarefa de transformar partidos revolucionários de esquerda em verdadeiras ONGs setoriais.
Ou revertemos essa lógica rapidamente ou o pântano que teremos que atravessar será longo demais.

Autor: Milton Temer é jornalista e ex-deputado federal.

Precisamos saber quem está no poder!

O silenciamento da pessoa-chave para elucidar crimes, que podem estar ligados ao clã Bolsonaro, aprofunda a pergunta mais perigosa da República.

Homem caminha em frente a um mural de Marielle Franco, no Rio de Janeiro.
Na semana em que completou 700 dias que Marielle Franco foi assassinada, a notícia não é a elucidação do crime – e, sim, o assassinato da pessoa-chave para elucidar o crime. A execução de Marielle, uma vereadora do Rio de Janeiro e uma ativista dos direitos humanos, assinalou o momento em que um limite foi superado no Brasil. O não esclarecimento até hoje, quase dois anos depois, de quem foi o mandante e por que ela foi morta aponta a crescente e cada vez mais perigosa incapacidade das instituições de proteger a democracia no país. O silenciamento de Adriano da Nóbrega, premeditado ou não, no domingo, 9/2, mostra que o Brasil é um país em que os limites entre lei e crime foram borrados num nível sem precedentes. Não sabemos quem está no Governo. E precisamos saber.
A maioria já conhece os fatos. Mas é preciso reafirmá-los. Adriano da Nóbrega poderia esclarecer o esquema de “rachadinha”, desvio dos salários de servidores, no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, hoje senador e filho do presidente Jair Bolsonaro. Poderia esclarecer qual é a profundidade das relações da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro. Poderia ajudar a esclarecer o assassinato de Marielle Franco.
Poderia, mas não pode mais. Foi morto numa suposta troca de tiros durante uma operação conjunta da Polícia Militar da Bahia e da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Dezenas de policiais treinados foram supostamente incapazes de prender, numa casa isolada, uma pessoa considerada essencial para a elucidação de crimes que assombram a República. Foram capazes apenas de matá-lo. Segundo o advogado do morto, Paulo Emílio Catta Preta, Adriano teria afirmado dias antes que, caso fosse encontrado pela polícia, seria eliminado como “queima de arquivo”. Quando foi assassinado, estava escondido na casa de um vereador do PSL, num sítio no município de Esplanada, na Bahia. O PSL até há pouco era o partido do presidente e também de seu primogênito.
Quem era Adriano da Nóbrega?
Ex-capitão do BOPE, elite da polícia militar carioca, Adriano estava foragido havia um ano, suspeito de chefiar a milícia de Rio das Pedras, a mais antiga do Rio, e também o Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel. Formado por policiais e ex-policiais civis e militares, o Escritório do Crime está relacionado pelas investigações à execução de Marielle Franco. Adriano já havia sido preso três vezes, por homicídio e tentativas de homicídio, e liberado. Sua mulher e sua mãe trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro até novembro de 2018.
Adriano era próximo de Fabrício Queiroz, suspeito de comandar o esquema da rachadinha para Flávio Bolsonaro e de envolvimento com a milícia de Rio das Pedras. Queiroz, por sua vez, era não só funcionário, mas amigo pessoal de Jair Bolsonaro desde os anos 1980. Também era policial militar aposentado. Um cheque de Queiroz, no valor de 24 mil reais, foi depositado na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
O homem que foi morto era publicamente respaldado pela família Bolsonaro no exercício de seus mandatos como parlamentares. Como deputado, Flávio deu ao então policial a Medalha de Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Naquele momento, 2005, Adriano cumpria prisão pelo assassinato de um guardador de carros que havia denunciado policiais. Era a segunda vez que o filho mais velho do presidente homenageava o PM. Também em 2005, Jair Bolsonaro, então deputado federal, fez um discurso na Câmara dos Deputados, defendendo Adriano e protestando contra a sua condenação por homicídio. Segundo o Ministério Público do Rio, as contas de Adriano foram usadas por Queiroz para transferir o dinheiro do esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro.
Os dois acusados pelo assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes são o policial reformado Ronnie Lessa, que teria dado os tiros, e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, que teria dirigido o carro. Ambos são suspeitos de pertencer ao Escritório do Crime, que seria chefiado por Adriano da Nóbrega. Ronnie Lessa, por sua vez, vivia no mesmo condomínio de Jair Bolsonaro, na Barra da Tijuca.
Neste mapa de coincidências e suspeições, Adriano da Nóbrega era a pessoa capaz de juntar os pontos e preencher as lacunas. Mas está morto.
O que não é possível
Todas as coincidências podem ser apenas coincidências. É possível que a família Bolsonaro seja apenas ingênua ao escolher amigos e colaboradores. É possível que Flávio Bolsonaro estivesse apenas distraído demais para notar o que, suspeita-se, estava acontecendo no seu gabinete sob o comando de seu amigo Queiroz. É possível que Bolsonaro não tivesse tido relações com este vizinho chamado Ronnie Lessa. É possível que o grupo de policiais da Bahia e do Rio que foram prender Adriano sejam apenas incompetentes. É possível que essa quantidade de policiais militares e ex-policiais suspeitos de crimes seja apenas ocasional e não revele nada sobre o que a instituição Polícia Militar se tornou.
O que não é possível é continuarmos sem saber se há ou não envolvimento de Bolsonaro e seu clã com criminosos. Se há ou não envolvimento de Bolsonaro e seu clã com as milícias. Se houve ou não o esquema de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro. O que não é possível é 700 dias depois do assassinato de Marielle Franco o Brasil – e o mundo – não saber quem mandou matá-la. E por quê.
Nada é normal no Brasil de hoje
Há um esforço para tratar o que hoje vive o Brasil como normalidade. Como se houvesse apenas anomalias que pudessem ser corrigidas no curso do processo eleitoral e sob a vigilância de instituições robustas. Como se o que está em curso fosse do jogo da democracia. Não há, porém, nada de normal no que acontece hoje no Brasil.
Há forte desconfiança de que Adriano da Nóbrega foi executado para não poder contar o que sabia. Ainda que tenha sido incompetência da polícia, como achar que é normal uma parte significativa da população brasileira ter certeza de que as PMs trabalham para si mesmas ou para interesses que não são os da população nem da justiça? Como achar normal que esta rede de suspeitos sejam policiais ou ex-policiais? Como achar normal conviver com o poder das milícias, que são formadas por integrantes das forças de segurança formais dos estados? E como achar normal o DNA de milicianos marcarem atos e fatos do presidente da República, de um senador da República que é filho do presidente e de outros familiares do clã? Este Brasil não nasceu agora, mas só hoje temos um presidente e uma família presidencial envolvida em tantas coincidências criminosas, que produzem cada vez mais sangue e parecem estar cada vez mais longe de serem esclarecidas.
Bolsonaro e as instituições
A trajetória de Jair Bolsonaro pode ser contada pela ação e também pela inação das instituições brasileiras. Se o então capitão tivesse sido condenado pelo Superior Tribunal Militar, em vez de absolvido, por planejar colocar bombas em unidades militares para protestar contra os baixos salários, o país seria diferente hoje? Se o então deputado federal Jair Bolsonaro tivesse sido julgado e condenado por cada declaração racista e de incitação à violência que pronunciou durante seus quase 30 anos de Congresso, o Brasil seria diferente hoje? Se o então parlamentar Jair Bolsonaro tivesse respondido na Justiça e sido cassado pelos seus pares por homenagear um torturador durante o impeachment de Dilma Rousseff, o Brasil seria diferente hoje?
O exercício do “e se” vale apenas como isso mesmo, um exercício para iluminar melhor o que aconteceu de fato. Ou não aconteceu de fato. O que está diante de nós, hoje, é o que fazer diante desta realidade agora. Não que país seria o Brasil, mas sim que país será o Brasil caso não descobrirmos por que não podemos descobrir quem mandou matar Marielle Franco.
A pergunta mais perigosa
A aparente impossibilidade de elucidar a morte de Marielle, que já provocou alarmantes declarações de autoridades públicas no passado recente, nos lança em perguntas cada vez mais perigosas. As perguntas perigosas costumam ser as mais importantes.
Sabemos há muito que há um poder paralelo no Brasil. Um poder do crime que, em diferentes momentos, teve e tem ramificações na estrutura do Estado. As milícias cariocas, herdeiras dos esquadrões da morte formados por policiais, são o exemplo mais bem acabado desta distopia que virou realidade. E também de sua evolução ainda mais perversa, ao confundirem-se nas últimas décadas com o próprio Estado, na medida em que são agentes do Estado usando a estrutura do Estado para controlar as comunidades, lucrar com esse domínio e executar quem se opõe ao seu poder. Começaram a atuar com a desculpa de proteger as favelas e periferias do tráfico de drogas. E se tornaram ainda piores do que o tráfico. Em alguns casos são sócias dos traficantes, na maioria dos casos mais poderosas.
Como o cidadão pode se contrapor a um poder que controla ao mesmo tempo o crime e as forças de repressão ao crime, a usurpação dos serviços públicos e os próprios serviços públicos, um poder que comercializa até mesmo lotes de votos numa eleição, como fazem algumas milícias? As muitas comunidades que hoje são reféns das milícias no Rio podem contar como é viver sob o jugo da lei que corrompe a lei, da polícia que é bandida.
O que Adriano da Nóbrega poderia esclarecer é se este poder já deixou de ser paralelo. Se chegamos a um ponto em que um e outro são o mesmo também no Planalto. Poderia, mas não pode mais. E nós, que (ainda) estamos vivos, o que podemos? E, mais importante, o que faremos?

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Brasil, Construtor de Ruínas, Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, meus desacontecimentos, e do romance Uma Duas.

Porque os ignóbeis da atual república odeiam os livros?

Caros leitores permita-me dizer que a missão dos livres pensadores nesse mundo foi e sempre será enfaticamente de impulsionar ou incentivar uma sociedade, a alcançar determinados conhecimentos através do desenvolvimento da cultura e dos meios científicos concomitantemente abraçados à pesquisa e a observação de seres vivos juntamente do meio onde todos habitam. Os livros, por exemplo, são as melhores formas de compreender determinados costumes linguísticos e diversos comportamentos através da literatura e das diversas ciências já desenvolvidas até o momento. Tem o seu papel fundamental e transformador que enriquece toda uma população e traz avanços a toda sociedade. Mas também não é de hoje que aqueles que detêm o poder autoritário como tem sido demonstrado na atual governança do Brasil o descaso e a perseguição do conhecimento, da educação e de autores que conduziram tantos progressos e embelezaram a nossa cultura popular através dos livros.
Citando caso análogo, no cristianismo ocidental em tempos de inquisição queimaram milhares de livros, estabelecendo-se uma lista de obras proibidas, o famoso (INDEX) “Librorum Prohibitorum”. Em tradução livre o Índice dos Livros Proibidos, uma lista de publicações consideradas heréticas, anticlericais e desaprovadas pela Igreja Católica. Os nazistas também fizeram encenações noturnas de fogueiras literárias. Obras de autores como Stefan Zweig, Thomas Mann, Sigmund Freud, foram algumas das proeminências literárias perseguidas na época. Eram incineradas, com desfiles e palavras de ordem. O Stalinismo da antiga União Soviética retirou das escolas clássicos russos não ajustados com o pensamento do partido da época. É de se perceber que todo homem/mulher alinhado a ditadura enxerga perigo nas bibliotecas em razão de que querem pessoas alienadas, estúpidas, de fácil lavagem cerebral.
Indivíduos ligados ao extremismo detestam leitores e escritores livres porque os críticos são perigosos para os Estados autoritários. Querem fazer com todos nós brasileiros uma organização distópica envolto na ditadura do senso-comum, submetendo a um absoluto condicionamento psicológico transformando em uma sociedade de castas subversivas. Por isso pense bem e faça muitas leituras, os livros são registros eternos e vai dizer bem o autor Pe. Antônio Vieira “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”.

Autor: Thales Aguiar é jornalista e escritor.