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19 de setembro de 2026

Tempo perdido ou um futuro comprometido!

 

Um certo dia, um amigo jornalista me disse que os jovens não estavam lendo textos longos na internet. Hoje constatamos que eles não conseguem assistir vídeos longos. A geração Tik Tok agora está nos resumos de Inteligência Artificial (IA). Portanto, raramente encontramos jovens concentrados em ler textos, artigos ou livros longos.  

Os anos de 2009-2010 ficarão marcados pelo surgimento de crianças que quinze anos depois estão relacionadas com o fato de protagonizarem o maior descalabro global nos índices de leitura do Programa Internacional de Avaliação de EstudantesPISA 2025.   

Esse foi também o período em que começou a generalizar-se, por todo o mundo, a utilização de celulares inteligentes, e, em que a internet abandonou de vez a herança estática em que tinha vivido nas duas décadas anteriores, passando a ser móvel, com redes sociais e focada na informação em tempo real.

Coincidentemente nesta mesma época o iPhone da Apple e o sistema Android da Google, lançados originalmente em 2007 e 2008, começaram a estabelecer seu domínio global, terminando com os reinados dos celulares com teclados da Nokia e da Black Berry. Graças a essas mudanças tecnológicas, entraram em cena muitos dos elementos que hoje são onipresentes na nossa forma de olhar para o mundo e de se comunicar uns com os outros.

Em 2009, o Facebook ultrapassaria o My Space e se firmaria como a maior rede social do mundo. Momento em que introduzia no seu sistema, o botão de like.  Ou seja, estava inaugurado o caminho para levar os utilizadores a reagirem instantaneamente, com um simples gesto, sem terem de “gastar palavras” para explicar porque tinham apreciado uma publicação na rede social (mais tarde, com a introdução de um teclado de emojis no iOS em 2011, e outro no Android, em 2013, essa tarefa de exprimir uma emoção ou um estado de espírito passou a ser mais automática e imediata – mais uma vez “a poupar-nos à escrita” de procurar as palavras certas).

Se retornamos aos arquivos da época, nos deparamos com o fato de que foi nesse mesmo período que surgiu o WhatsApp e o “X”, que ganhou destaque mundial utilizando mensagens limitadas a 140 caracteres, mas suficientes para marcar a agenda midiática – e até, no final de 2010, para ter um papel importante nas revoltas populares que ficaram conhecidas como a Primavera Árabe.

Foi neste contexto e com estes destaques que nasceu a geração que hoje, segundo os resultados do PISA 2025, registrou as maiores quedas em todos os índices, mas em especial em leitura e em matemática (em ciência a queda não foi tão acentuada).

Os resultados desceram em todos os países, tanto nos mais ricos como nos mais pobres. Os especialistas em educação podem encontrar diferenças suscetíveis de terem sido influenciadas por diferentes sistemas de avaliação ou até de currículos. Essa é uma reflexão necessária e urgente. Que deve conduzir a um debate que precisa de ser feito sem viés ideológicos. Que deve ser também livre e independente das várias correntes de análise educacional. Prova disso é o fato de alguns dos piores resultados terem ocorrido em países que, por exemplo, seguiram quase cegamente certas diretrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE.

Mas o que estes resultados demonstram, de forma categórica, é algo que todos nós já sabíamos, mas que não queríamos ver: vivemos uma crise grave de atenção. No fundo, aquilo que os números do PISA confirmam é o que todos nós, sem exceção, sentimos tantas vezes: dificuldade em mantermo-nos concentrados em textos mais longos sem ceder ao impulso de olhar para a última notificação que caiu no celular.

O PISA no Brasil mais recente com resultados completos é o do ano de 2022; a edição seguinte está prevista para resultados posteriores. Em 2022, participaram 81 países e economias, e o Brasil foi representado por cerca de 10,8 mil estudantes de 15 anos. No quesito Leitura os estudantes brasileiros atingiram 410 pontos enquanto a média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE foi 469. Isso significa que a maior parte dos estudantes brasileiros avaliados não alcançou o nível básico de proficiência definido pelo PISA. Em leitura, cerca de 50% ficou abaixo desse nível.

São dados e fatos que deveriam ser levados a uma reflexão profunda de quem pensa, planeja e executa as ações no Ministério da Educação – MEC. São números e condutas que preocupam a curto e médio prazo, podendo comprometer gerações futuras.

 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.


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