Há uma modalidade de jornalismo muito confortável em tempos de escândalo: chega depois do Gaeco. A polícia bate à porta, aparecem mandados, prisões, celulares apreendidos, dinheiro vivo e fotografias de agentes entrando e saindo de prédios públicos. Aí começa a valentia retrospectiva. Publica-se o que já virou ocorrência, reproduz-se a nota oficial, contam-se os presos e, encerrado o expediente, todos podem dormir com a consciência profissional devidamente higienizada.
Investigar antes é mais trabalhoso.
Seguir contratos, sociedades, fundos de investimento, balanços, modelagens econômico-financeiras e relações empresariais exige uma inconveniência adicional: estudar. E é justamente por isso que a discussão sobre a Operação Cavalo de Troia não pode terminar na porta da Prefeitura de Bauru.
Faço aqui uma provocação especialmente ao economista bauruense que dispõe de espaço privilegiado na imprensa local. Onde estava a análise econômica de uma concessão estimada em R$ 5,26 bilhões por 30 anos? Convenhamos: para comentar inflação, Selic, dólar, Bolsa e as decisões tomadas a quatrocentos quilômetros daqui nunca faltam especialistas. Mas havia diante do nariz de Bauru um negócio de cinco bilhões de reais envolvendo um serviço essencial, modelagem econômico-financeira, concessão de três décadas e uma empresa com uma história societária que já passou pelo mercado financeiro — e parece que ninguém achou particularmente interessante seguir o dinheiro.
Talvez R$ 5,26 bilhões sejam uma quantia pequena demais para despertar a curiosidade econômica local.
E então chegamos ao BTG Pactual.
Antes que algum apressado transforme este artigo naquilo que ela não diz, fica registrado: não há, até aqui, evidência pública que coloque o BTG Pactual como participante ou investigado na Operação Cavalo de Troia, nem que demonstre sua participação na concorrência de Bauru. O banco aparece nesta história por outra razão, documentalmente verificável: sua relação empresarial histórica com a Estre.
Em 2011, o BTG anunciou oficialmente sua entrada no capital da Estre. Não era segredo, denúncia ou interceptação telefônica. Era negócio. O banco enxergava no gerenciamento de resíduos e no saneamento ambiental oportunidades de crescimento, consolidação e expansão. Wilson Quintella Filho comandava a Estre e saudou a chegada do investidor. Anos depois, a trajetória empresarial voltaria a aproximar Quintella de fundos ligados ao BTG em outros ativos do setor. Essa história importa porque revela algo que a cobertura policial, sozinha, jamais explicará: lixo também é ativo econômico.
E aqui começa a história verdadeiramente adulta. A montanha de sacos que o caminhão recolhe na porta de nossas casas pode parecer apenas um problema urbano. Para o mercado, entretanto, resíduos significam transporte, transbordo, tratamento, aterro, reciclagem, aproveitamento energético, tecnologia, contratos e, sobretudo, fluxos de receita projetáveis por décadas.
O lixo fede.
O fluxo de caixa, curiosamente, não. É por isso que reduzir o escândalo de Bauru a personagens presos, conversas comprometedoras ou dinheiro encontrado durante buscas seria cometer um erro jornalístico monumental. Esses elementos são relevantes e precisam ser investigados. Mas existe uma pergunta anterior a todos eles:
O que, afinal, valia tanto dinheiro? A resposta começa em R$ 5.259.651.116,06.
Era esse o valor estimado pela Prefeitura para a concessão dos serviços integrados de manejo dos resíduos sólidos urbanos. Trinta anos. Uma geração inteira de bauruenses atravessaria o contrato.
Agora observemos o que o Gaeco afirma investigar. A hipótese da Operação Cavalo de Troia não se resume à possibilidade de alguém ter aparecido no final de uma licitação carregando uma proposta favorecida. A suspeita é muito mais sofisticada: interesses privados teriam conseguido influência dentro da própria estrutura administrativa responsável pela construção da concessão.
Se isso for comprovado — e esse “se” é indispensável num Estado de Direito — estaremos diante de algo muito mais grave do que a caricatura clássica da licitação fraudada. Não seria simplesmente alguém entrando numa disputa preparada pelo poder público.
Seria a possibilidade de o interessado participar, direta ou indiretamente, da construção do próprio terreno em que depois ocorreria a disputa. É a diferença entre ganhar o jogo e ajudar a desenhar o campo. E então a expressão “Cavalo de Troia” deixa de ser apenas um nome engenhoso inventado por promotores.
Passa a descrever uma hipótese de captura da modelagem administrativa. Há uma ironia quase literária nisso tudo. Bauru discutia modernização do lixo enquanto talvez devesse ter discutido primeiro a modernização dos seus mecanismos de controle. Porque compliance que só descobre o problema depois que o Gaeco acorda cedo e toca a campainha não é exatamente compliance.
É arqueologia administrativa.
Também é preciso abandonar uma simplificação tentadora: dizer que “o BTG está por trás de Bauru”. Não temos evidência disso. E este jornalista não precisa inventar uma conspiração para produzir uma acusação politicamente devastadora.
A história verdadeira já é suficientemente incômoda.
O que a trajetória da Estre demonstra é como o setor de resíduos foi incorporado há muito tempo à lógica das grandes operações de capital. O investimento histórico do BTG na companhia ajuda a documentar essa transformação. Não prova qualquer participação do banco no episódio bauruense. Mostra algo estruturalmente mais interessante: o lixo deixou de ser simplesmente uma despesa municipal e passou a integrar uma indústria disputada por grandes empresas e investidores.
Portanto, talvez a pergunta que a imprensa local devesse ter feito antes de o Ministério Público fazê-la por outros caminhos fosse muito simples: quem ganharia dinheiro com os próximos trinta anos do lixo de Bauru?
Depois viria a segunda: quanto?
A terceira: quem desenhou o negócio?
A quarta: quem conferiu o desenho?
E finalmente aquela pergunta desagradável que costuma separar jornalismo de assessoria de imprensa: quem estava fiscalizando tudo isso enquanto acontecia?
Não se trata de demonizar investimento privado. Capital privado não é sinônimo de corrupção, concessão não é sinônimo de negociata e banco não é organização criminosa por definição. Essa bobagem ideológica só serviria para facilitar a defesa de quem precisa responder às perguntas sérias.
O problema é outro. Quando o poder público transforma um serviço essencial em uma concessão de R$ 5,26 bilhões, não está apenas contratando caminhões para recolher sacos pretos nas calçadas. Está criando um ativo econômico de trinta anos. E se a hipótese do Gaeco estiver correta, a grande questão de Bauru será descobrir se esse ativo foi desenhado exclusivamente segundo o interesse público ou se interesses privados conseguiram participar da sua construção por dentro da máquina municipal.
É aí que dinheiro, política e lixo finalmente aparecem na mesma fotografia. O Cavalo de Troia pode até ter sido construído com resíduos. Mas o que havia dentro dele valia bilhões. E talvez seja exatamente por isso que, daqui para frente, contar os presos seja a parte mais fácil da reportagem.
Difícil será seguir o dinheiro.
Autor: Fernando Redondo - Jornalismo Independente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário