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9 de setembro de 2026

Quando o púlpito vira palanque — e o TSE fica no "amém".

  

Imagem: Fernando Redondo. 

O Brasil não corre perigo porque evangélicos participam da política. Isso é conversa de quem acha que o voto se conquista no "nós contra eles" e se perde no "nós contra Deus" — como se o cidadão fosse um rebanho sem pastor e sem opinião própria. O país corre perigo, isso sim, quando qualquer religião — qualquer uma, tá? — resolve transformar fé em cabide de emprego, igreja em comitê eleitoral e orientação espiritual em cédula de voto com carimbo divino. E o pior: muitos ainda aplaudem. A Constituição protege simultaneamente duas coisas que não são contraditórias: a liberdade religiosa e o Estado laico. O pastor pode ter candidato, o padre pode ter opinião política, o fiel pode votar em quem quiser. O que uma democracia não pode naturalizar é a utilização sistemática da autoridade religiosa para fazer o eleitor acreditar que escolher determinado candidato é escolher Deus — e rejeitá-lo, portanto, seria rejeitar a própria fé.

O fenômeno merece atenção redobrada em 2026 porque já não estamos falando apenas de políticos que visitam igrejas em busca de votos. Isso é tão velho quanto a República. O que é novo — e preocupante — é a relação cada vez mais organizada entre lideranças religiosas, partidos, candidaturas, meios de comunicação e estruturas capazes de alcançar milhões de pessoas. Não é mais "pastor abençoa candidato". É franquia eleitoral. É modelo de negócio. É preciso, porém, precisão. Partidos políticos não são propriedade de instituições religiosas. Quem diz isso não sabe o que diz ou sabe e mente. O que pode existir — e deve ser investigado — é influência política, histórica ou organizacional de determinadas lideranças religiosas sobre legendas e candidaturas. Confundir influência com propriedade apenas facilitaria a defesa de quem queremos fiscalizar. E, de quebra, alimentaria a narrativa persecutória que esses mesmos líderes adoram usar.

A cena política recente ajuda a compreender o tamanho dessa aproximação. Em pleno 7 de setembro, a menos de um mês das eleições, Tarcísio de Freitas participou de culto da Igreja Mundial do Poder de Deus ao lado de Flávio Bolsonaro. Houve oração, referências à missão divina e manifestação de proximidade do líder religioso com os candidatos. As reportagens não apontam pedido explícito de voto naquele evento — o que, convenhamos, seria um tiro no pé em termos eleitorais, e ninguém ali comete esse tipo de erro. É justamente essa zona cinzenta que merece atenção: não é necessário transformar cada culto frequentado por político em ilícito eleitoral, mas também seria ingenuidade fingir que a exposição de candidatos diante de milhares de fiéis não possui valor político. A legislação eleitoral brasileira enfrenta apenas parcialmente essa realidade. O próprio TSE registra que "abuso de poder religioso" não existe como categoria autônoma de ilícito eleitoral. Os excessos precisam ser enquadrados em figuras já existentes, como abuso de poder econômico ou político e uso indevido dos meios de comunicação. É como tentar enfiar um elefante numa lata de sardinha. Dá, se você desossar o elefante. Mas aí não é mais elefante.

A jurisprudência reconhece que declarações públicas de apoio feitas por líderes religiosos estão, em princípio, protegidas pelas liberdades de manifestação e religião. Mas o mesmo TSE alerta para situações em que a ascendência espiritual sobre os fiéis é empregada para impulsionar candidaturas e interferir na liberdade de escolha do eleitor. Como se prova isso? Como se mensura "ascendência espiritual"? A corte prefere o conforto da ambiguidade. E ambiguidade, no direito eleitoral, geralmente beneficia quem tem mais poder. É aí que mora uma das maiores contradições do sistema. Uma empresa não pode simplesmente colocar sua estrutura econômica a serviço de uma candidatura sem enfrentar as regras eleitorais. Recursos e estruturas utilizados para desequilibrar uma disputa podem caracterizar abuso de poder. Em 2026, o próprio TSE voltou a afirmar que a eleição deve ocorrer em condições de igualdade, sem utilização indevida de poder econômico, estruturas empresariais, meios de comunicação ou outras vantagens capazes de interferir na escolha do eleitor.

Uma organização religiosa gigantesca, entretanto, pode reunir milhares de pessoas, possuir canais de comunicação, lideranças locais e enorme capacidade de mobilização. Enquanto o político sem estrutura precisa se virar com o horário eleitoral gratuito, o abençoado da vez tem um palanque de 365 dias, 24 horas por dia, com direito a testemunho, milagre e a promessa de que "Deus está com ele". Determinar exatamente quando a legítima manifestação religiosa termina e começa uma estrutura eleitoral paralela continua sendo um desafio jurídico enorme. O problema não é nem o desafio. É a vontade — ou a falta dela — de enfrentá-lo.

Por isso, chamar a Justiça Eleitoral de "omissa" talvez seja pouco. O que temos é uma lacuna normativa e uma jurisprudência cautelosa diante do conflito entre liberdade religiosa e liberdade do voto. A cautela é compreensível; a passividade, não. Não se pode criminalizar sermões nem policiar convicções religiosas, mas tampouco se pode permitir que a proteção constitucional ao culto seja transformada em imunidade eleitoral. Fé merece liberdade. Candidatura merece fiscalização. A primeira não é escudo da segunda.

Também precisamos rejeitar uma perversão particularmente perigosa desse processo: a ideia de que determinado campo político possui procuração divina. Democracia pressupõe alternância. O candidato vence hoje e pode perder amanhã. Governadores, prefeitos, deputados e presidentes são empregados temporários da República. Quando um político passa a ser apresentado não apenas como escolha eleitoral, mas como representante de uma missão determinada por Deus, o adversário deixa de ser apenas adversário e passa a ser tratado como inimigo da fé. Nesse momento, a política deixa de discutir políticas públicas e começa a disputar salvação e condenação. É a sacralização do poder pelo avesso: a religião que se torna a própria política. E aí todo mundo perde.

O púlpito tem enorme importância social. Pode ensinar solidariedade, responsabilidade, respeito, justiça e compromisso com os mais vulneráveis. Pode inclusive estimular participação política. Formar cidadãos é muito diferente de fabricar eleitores. Uma igreja que ensina seu fiel a pensar fortalece a democracia; uma estrutura que lhe entrega candidato pronto e acrescenta chancela divina à escolha precisa, no mínimo, ser submetida ao mesmo escrutínio que exigimos de qualquer outra força organizada. Porque a regra vale para todos, ou não vale para ninguém.

A Justiça Eleitoral terá uma responsabilidade enorme nesta eleição. Não para decidir o que um pastor pode acreditar, nem para determinar em quem um evangélico deve votar. Exatamente o contrário: para garantir que ninguém tenha sua liberdade política reduzida pela exploração eleitoral de sua fé. Que o voto continue sendo escolha livre, e não cumprimento de missão. Que o púlpito continue sendo lugar de reflexão, e não de cabo eleitoral. Que o fiel possa ser fiel — e cidadão — sem que uma coisa anule a outra.

Estado laico não é Estado contra Deus. É o Estado que impede que alguém fale eleitoralmente em nome do Senhor para governar todos os demais. E se alguém acha isso "perseguição", bem-vindo ao clube dos que confundem privilégio com direito. O direito à fé todos têm. O privilégio de usá-la como arma política não. E esse privilégio, meus caros, precisa acabar. 

Autor: Fernando Redondo - Jornalismo Independente.

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