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24 de novembro de 2024

Toc, Toc, Toc…

Amparado por militares, Jair Bolsonaro pretendia dar um golpe para se manter no poder, é o que supõe investigação da PF - Foto Fernando Souza AFP.

A Polícia Federal finalmente bateu à porta da quadrilha de Bolsonaro. Mas o governo ainda terá que enfrentar o poder do agronegócio e do centrão.

Old kids on the golpe. Mais do que indiciar trinta e três pessoas, o relatório final da Polícia Federal, antecedido pela Operação Contragolpe, detalha aquilo que tínhamos a convicção, mas faltavam as provas: durante 36 dias, o capitão Jair Bolsonaro e os generais Braga Netto e Augusto Heleno, envolvendo mais de 35 militares, incluindo integrantes da força de elite chamados kids pretos, tentaram executar um golpe de Estado. O plano incluía desde a desmoralização das urnas eletrônicas ao assassinato do presidente e o vice eleitos, além de ministros do Supremo, utilizando o Palácio do Planalto e a estrutura do exército para a conspiração. Um golpe à moda antiga, ao estilo do mentor intelectual de Augusto Heleno, o general Sylvio Frota. E, talvez seguros pela tradicional impunidade militar, o golpe estava aí, a olhos vistos, como na reunião ministerial de julho, em que Augusto Heleno defendia que ocorresse antes do primeiro turno; ou nas movimentações da caserna, que se recusou a participar da transição; e nos acampamentos bolsonaristas, que deviam dar verniz popular. Como se não tivessem nada a ver com os indiciados fardados, os militares na ativa apenas lamentam que vai ser mais difícil impedir o corte de gastos. Assim como a direita, que entrou num modo silencioso, como se sequer conhecesse os envolvidos - vide o governador de São Paulo, que foi ministro e colega dos golpistas. O inquérito segue agora para a PGR e lá se cogita que seria apresentada uma única denúncia, reunindo o conjunto de crimes e investigações de Bolsonaro, como o roubo das joias e a fraude do cartão de vacinas. Enquanto isso, a consequência mais óbvia deve ser o fim do projeto de anistia no Congresso.  Neste ínterim, a Folha de São Paulo largou uma pérola: Lula é também responsável pela polarização porque seus apoiadores insistem na palavra de ordem “sem anistia”! Foi assim, normalizando os golpes e a extrema-direita, que chegamos até aqui, talvez o ponto de não retorno, onde o ‘Cidadão de bem’ deu lugar ao ‘patriota’ disposto a morrer, como alerta Isabela Kalil. 

.“O cara”, pero no mucho. Sem dúvidas, o ciclo do Brasil à frente do G20 foi fechado com chave de ouro. Isso pelo menos no plano diplomático, com Lula voltando a ser destaque na esfera internacional, depois dos reveses sofridos ao tentar apresentar-se como embaixador da paz num mundo cada vez mais conflituoso. O preço, é claro, foi condenar as guerras sem aprofundar o tema, nem debater méritos. A estratégia brasileira foi dar ênfase ao enfrentamento das desigualdades globais e buscar consensos no discurso, dando pouca atenção às repercussões práticas. O que ficou evidente na pauta ambiental, marcada pela tragicômica imagem de despedida de Joe Biden do cenário internacional em plena Floresta Amazônica, que rendeu mais memes do que medidas efetivas, e cuja implementação dependerá da boa vontade do futuro presidente, Donald Trump. Na prática, o grande mérito brasileiro foi o lançamento da Aliança contra a Fome e a Pobreza, que conseguiu a adesão de 82 países e 24 organizações internacionais, com Lula fazendo o desafeto argentino Javier Milei engolir a proposta para não ficar completamente isolado. Já outra pauta de destaque, a taxação dos super-ricos, foi respaldada pela primeira vez num foro internacional oficial, mas a proposta brasileira de criação de um imposto global de 2% sobre a fortuna dos bilionários não saiu do papel. Tudo isso fruto das contradições de ter um presidente progressista inserido num mundo cada vez mais com cara de extrema-direita. Ironicamente, enquanto o multilateralismo teve resultado mais simbólico que efetivo, o encontro bilateral com a China teve como resultado a assinatura de uma série de acordos de cooperação em diferentes áreas. E um deles, a parceria firmada com a empresa chinesa Space Sail, atinge diretamente a hegemonia da Starlink de Elon Musk na área das comunicações e redes de internet no Brasil.

De volta ao mesmo. Seja com Estados Unidos, Europa ou China, tem coisas na pauta comercial brasileira que não mudam. Como Lula fez questão de deixar claro no seu encontro com xi. O agronegócio continua a garantir a segurança alimentar chinesa”. Esse privilégio se expressa também no esquema de isenções fiscais concedidas ao empresariado brasileiro, onde 0,3% das empresas beneficiadas abocanham 50% do valor das isenções, o que corresponde a R$48 bilhões transferidos do Estado para as grandes corporações. Dentre as contempladas, além de 5 figuras conhecidas do bolsonarismo, destacam-se Syngenta, Yara, Seara, Rural Brasil, JBS, Fertipar, dentre outras gigantes do agronegócio. Ninguém lembra deles quando se fala em corte de gastos. Evidentemente, o efeito colateral dessa política é o aumento descomunal do número de queimadas na Amazônia que garante a expansão da fronteira agrícola, e que o Ministério do Meio Ambiente tenta combater sem sucesso. Enquanto isso, o Congresso aproveitou o G20 para tirar uma casquinha da pauta ambiental e impulsionar o capitalismo verde com a aprovação da regulamentação do mercado de carbono no Brasil. Mas, apesar desse aceno, a verdade é que Arthur Lira e seus amigos continuam olhando mais para o próprio umbigo que para o mundo. E, mais uma vez, a principal pauta da semana foram as emendas. Depois de todo rebuliço gerado pelas exigências do STF, a Câmara finalizou a votação do projeto que regulamenta as emendas. Na prática, pouca coisa mudou. 50% das emendas de comissão devem ser destinadas à saúde e reduziu-se de 10 para 8 o limite de emendas por bancada, retomando partes do texto original que haviam sido modificadas pelo Senado. De resto, não há possibilidade de bloqueio de recursos por parte do governo e não há mecanismos de identificação do deputado que indicou a emenda à comissão, ignorando o critério da transparência exigido pelo Supremo. A dúvida agora é saber se Lula sancionará integralmente a proposta e se o STF dará o caso por encerrado depois de mais um capítulo de intransigência da Câmara.

Autores: Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile. Publicado no Site Brasil de Fato.

19 de novembro de 2024

A lógica da dominação capitalista simbólica!

É necessário estudarmos as modificações que aconteceram a partir da dominação simbólica do capitalismo nos EUA. Afinal, foram do solo americano que vieram as estratégias de dominação política nos últimos cem anos pelo menos.

Começando com a transformação do cidadão em consumidor, criação do Estado social, o caminho para a nova extrema direita mundial e, por fim, o ideário identitário neoliberal que o Partido Democrata abraçou desde 1990. Isso foi criado nos EUA antes de ser disseminado pelo mundo inteiro.

O grande império americano, colocou de lado a dominação política e militar em favor da influência econômica e cultural, logo após o término da segunda guerra mundial. Desenvolvendo durante séculos o imperialismo para dentro, recebendo estrangeiros, comprando ou conquistando países ao redor, como o México.

No final do século XIX, com a Revolução Industrial, os Estados Unidos passaram de uma economia predominantemente agrícola para uma das mais industrializadas do mundo. Fatores que contribuíram:

Inovação tecnológica: A invenção de novas tecnologias e a melhoria das infraestruturas (ferrovias, eletricidade, etc.).

Exploração de recursos naturais: Os EUA tinham vastos recursos naturais, o que possibilitou uma rápida industrialização.

Concentração de capital: Grandes corporações começaram a dominar setores como ferro, petróleo, e aço, com magnatas como John D. Rockefeller e Andrew Carnegie. Isso levou os EUA a se tornarem a maior economia industrial do mundo, com uma grande influência nas práticas capitalistas globais.

A partir do século XX, com o crescimento de grandes bancos e instituições financeiras, os EUA consolidaram sua posição como líder no sistema financeiro global. O dólar se tornou a moeda de reserva internacional, e o Federal Reserve, o banco central dos EUA, assumiu um papel fundamental na regulação da economia mundial.

Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA lideraram a criação de instituições financeiras internacionais, como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, que ajudaram a estabelecer a ordem econômica capitalista global. A ascensão do neoliberalismo nos anos 1980, com políticas de privatização, desregulamentação e liberalização do comércio, reforçou ainda mais o domínio do capitalismo baseado no modelo econômico dos EUA.

O domínio do capitalismo dos EUA também foi apoiado por seu poderio militar e geopolítico. Após 1945, os EUA se tornaram a principal potência militar e política do mundo. A Guerra Fria e a luta contra o socialismo e o comunismo (representado pela URSS) ajudaram a expandir o sistema capitalista para várias regiões do mundo, através de intervenções militares, apoio a regimes autoritários e políticas econômicas orientadas para o livre mercado.

O Plano Marshall, por exemplo, foi uma forma dos americanos ajudarem a reconstruir a Europa após a guerra, incentivando a adoção de práticas capitalistas e criando mercados para suas indústrias.

Além do domínio econômico e militar, os EUA também exerceram um grande impacto através do seu soft power, ou seja, sua influência cultural. A indústria do entretenimento, incluindo o cinema de Hollywood, a música (como o rock, o jazz e, posteriormente, o hip-hop), a moda e a tecnologia, contribuiu para a difusão de valores capitalistas em todo o mundo.

A ideia do "sonho americano", que sugere que qualquer pessoa pode alcançar o sucesso por meio de trabalho árduo e inovação, tornou-se um símbolo da promessa capitalista.

Nos últimos 40 anos, com o avanço da globalização, o capitalismo dos EUA se expandiu ainda mais, promovendo a liberalização do comércio e a interconexão dos mercados financeiros. As empresas multinacionais dos EUA, como Apple, Microsoft, Google, Amazon, e outras, dominaram setores globais como tecnologia, internet, e-commerce e mídia.

Essas empresas não apenas lideraram a inovação, mas também moldaram o modo de vida global, criando uma economia cada vez mais interdependente e centrada nas grandes corporações, muitas das quais têm uma influência maior do que muitos governos.

Embora os EUA tenham sido uma potência dominante do capitalismo global, o sistema tem enfrentado crescentes críticas, especialmente após a crise financeira de 2008. A crescente desigualdade econômica, a desindustrialização e a crítica ao modelo de capitalismo neoliberal têm gerado debates sobre a sustentabilidade do modelo econômico baseado nas grandes corporações, no consumismo e no mercado financeiro desregulamentado.

Além disso, com o surgimento de novas potências econômicas, como a China, o domínio dos EUA tem sido questionado, e há um crescente debate sobre os futuros paradigmas econômicos globais.

O domínio do capitalismo dos EUA foi uma construção histórica e multifacetada, envolvendo fatores econômicos, políticos, militares e culturais. No entanto, em um mundo cada vez mais multipolar e interconectado, o papel dos EUA no capitalismo global está sendo desafiado, embora ainda mantenham uma posição de liderança significativa em muitas áreas. O futuro do capitalismo, portanto, dependerá das respostas a questões como desigualdade, sustentabilidade e as dinâmicas do poder global.

Esse suposto declínio do império americanos passa diretamente pelo dólar e a sua importância para os americanos. Rússia, China e Índia, começam a fazer grandes negócios de importação e exportação com suas próprias moedas, derrubando e muito a circulação da moeda americana nas grandes transações de petróleo, gás e outros negócios. É o começo de uma enorme dor de cabeça para os Ianques.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.