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20 de agosto de 2026

Vorcaro e Flávio Bolsonaro resumem 50 anos da Lei de Gérson

 

Banqueiro do Brasilinvest está na origem, mas é o caso do Master que melhor ilustra a ideia de "levar vantagem em tudo".

Sou chegado em uma efeméride. Principalmente quando o assunto da data é algo tão afetivo quanto um velho comercial de tv da nossa juventude.

A Lei de Gérson acabou de completar 50 anos neste 2026. Viva? Nada disso.

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!” Era uma simples propaganda de cigarros, lembra? porém virou a síntese do caráter do brasileiro e rendeu infinitos simpósios nas universidades e nos botecos.

No cinquentenário da lei informal que mais funciona no dia a dia do país, o seu maior representante é o banqueiro bandido Daniel Vorcaro, óbvio. Seguido, naturalmente, por toda a turma que levava vantagem da vantagem, como o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência.

O filho 01 de Jair levou do dono do Master pelo menos R$ 61 milhões, conforme confissão em telefonema revelado pelo Intercept Brasil. A grana seria para a realização do filme “Dark Horse”. Quase cem dias depois do estouro da notícia, Flávio nada explicou direito sobre a mutreta.

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?” E ficou por isso mesmo. A Polícia Federal e o ministro STF André Mendonça (relator do inquérito sobre o caso no STF) nada fizeram para mover a história.

Em 50 anos da lei dos espertos, só o próprio ex-atleta que batiza a regra foi prejudicado.

Em campo, Gérson era o cérebro da Seleção Brasileira tricampeã do mundo de 1970.

Combativo, leal e capaz de dribles e lançamentos espetaculares, o meio-campista nunca usou de artimanhas ou malandragens para passar a perna nos adversários ou ludibriar os colegas de equipe. Sempre foi um exemplo de ética no meio esportivo.

Por causa de um anúncio publicitário, porém, seu nome virou batismo de uma lei que nem está no papel, mas representa tudo que nós entendemos como “jeitinho brasileiro”.

A Lei de Gérson surgiu em 1976, depois da campanha da agência Caio Domingues & Associados para a marca Vila Rica. No comercial de televisão, o craque exaltava as qualidades do produto: “É gostoso, suave e não irrita a garganta. Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro?”

Até aí, tudo bem. O que pegou mesmo foi a mensagem final, quando ele, com um sorriso maroto, olha para a câmera e diz: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”

Em poucos dias de exibição, os brasileiros repetiam aquele slogan em várias situações do cotidiano, sempre no sentido de tirar proveito — assim a lei informal é mantida até agora. O atleta já havia se aposentado quando gravou a propaganda. Foi escolhido por ser realmente um fumante de prestígio. O torcedor estava habituado a vê-lo com cigarro em fotos antes das partidas e até em intervalos de jogos.

A frase interpretada pelo jogador era repetida nos botecos pés-sujos e nos restaurantes de luxo, mas o uso da expressão Lei de Gerson só pegou nos anos 1980, quando o repórter Maurício Dias, da revista semanal “Isto É” a utilizou em uma entrevista com o psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa.

Para o publicitário Eduardo Domingues, diretor da agência responsável pelo anúncio, o sentido antiético só ganhou força mesmo em 1981, quando a revista Exame deu o título “Lei de Gérson” a uma reportagem sobre a quebradeira do banco Brasilinvest, do empresário Mario Garnero.

A mesma agência ainda tentou reduzir o efeito negativo com um novo comercial. “Levar vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente”, explicava o reclame. Tarde demais. A lei que não saiu das nossas casas legislativas — e sequer foi escrita em algum lugar — já estava consolidada na sociedade brasileira.

O “Canhotinha de Ouro” jamais pensou que a sua atuação fora de campo pudesse render tanta polêmica.

“Eu fiz uma propaganda, fui um artista ali, como tantos outros. A ideia foi essa, a de levar vantagem em tudo porque esse cigarro era mais barato que os outros. Todo cigarro é igual, não é? Mas esse aqui é melhor porque é mais barato”, disse. “Aí eles pegaram essa vantagem como se fosse pernada nos outros, passar os outros para trás. É a lei do Gérson. Lei do cacete, porra. Não tenho nada com isso aí.”

Na sua carreira no futebol, Gérson de Oliveira Nunes, nascido em Niterói (RJ) em 1941, jogou pelo Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense. Comentarista esportivo, passou pelas rádios Globo e Bandeirantes, além dos canais de TV CNT/Gazeta e Band.

No momento, o craque está na Super Rádio Tupi (Rio) e mantém o “Canhotinha 70”, um canal no YouTube. 

Autor: Xico Sá - Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Abril e Comunique-se. Participou de programas como Notícias MTV, Cartão Verde (Cultura), Redação SporTV, Papo de Segunda (GNT) e Amor & Sexo (Globo). É autor de Big Jato (Companhia das Letras) e A Falta (Planeta), entre outros livros. O colunista nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife.

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