Nicolás Maduro, Donald Trump, navio anfíbio USS Iwo Jima navegando no mar do Caribe e o mapa da América do Sul ao fundo Foto Divulgação I Logan Goins Marinha dos EUA.
O direito
à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao
abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia dos EUA.
1.
Na última
semana de 2025, o sistema mundial entrou em estado de hipertensão caótica. Em
apenas sete dias, e quase simultaneamente, os Estados Unidos fecharam o cerco
marítimo e proibiram a circulação aérea sobre a Venezuela, sem que os dois
países estivessem em guerra. A China cercou a ilha de Taiwan e realizou um exercício
de guerra com fogo real, incluindo a interdição de alguns segmentos de seu
espaço aéreo, em resposta às ameaças militaristas do Japão.
A Ucrânia
atacou a casa do presidente russo Vladimir Putin, na região de Novgorod,
utilizando 91 drones e com apoio da inteligência inglesa e norte-americana. A
Rússia anunciou que seu novo sistema de mísseis Oreshnik – indefensáveis e com
capacidade nuclear – estava pronto para uso imediato, em resposta ao ataque da
Ucrânia, a poucos minutos de distância de Berlim, Paris e Londres. Os Estados
Unidos bombardearam o território da Nigéria e anunciaram novos ataques aéreos
em caso de necessidade, segundo seu arbítrio.
A Arábia
Saudita bombardeou o Iêmen, sem que houvesse declaração de guerra. Inglaterra e
França bombardearam o território da Síria sem aviso prévio. E por fim, os
Estados Unidos atacaram o território venezuelano e sequestraram seu presidente,
Nicolás Maduro. O mais impactante foi sem dúvida o rapto do presidente
venezuelano, seguido – como em outros ataques américanos – de um tweet de
Donald Trump, contendo ameaças e difundindo o medo que é uma peça essencial no
exercício do poder. Assim mesmo, o ataque em si não representa uma novidade nas
relações dos EUA com a América Latina, muito menos na história do “sistema inter estatal” inventado pelos europeus.
Os
defensores do Direito Internacional em geral falam muito pouco, ou omitem
diretamente uma de suas cláusulas fundamentais, a “cláusula de exclusão de
ilicitude”, que garantiu às Grandes Potências do sistema inter estatal (nunca
mais do que quatro ou cinco) o “direito” auto atribuído e a impunidade para de
atacar e invadir o território de outros países, sem respeitar o “direito à
soberania” considerado como a “pedra angular” do sistema de estados nacionais
consagrada pelos europeus através da chamada Paz de Westfália, assinada em
1648.
2.
A
Inglaterra e a França usaram e abusaram deste “direito à invasão” nos últimos
200 anos, e acabaram de bombardear a o território da Síria, sem nenhum tipo de
permissão internacional, por sua livre e exclusiva vontade. Os Estados Unidos
ingressaram neste pequeno clube dos países “com direito à invasão de
terceiros”, em meados do século XIX, quando se apropriaram dos territórios
mexicanos da Califórnia e do Texas, e iniciaram sua escalada imperial, após a
guerra contra a Espanha, em 1898, seguida pela conquista de Cuba, Filipinas,
República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Porto Rico – este segue até
hoje sob o domínio norte-americano.
Em 1942,
o geopolítico norte-americano Nicholas Spykman publicou uma obra fundamental1
para entender a estratégia internacional dos EUA depois da Segunda Guerra
Mundial. Nicholas Spykman sustenta teses e faz propostas geopolíticas que
reaparecem a cada momento por trás do discurso aparentemente errático e confuso
de Donald Trump e do seu Secretário de Estado, Marco Rubio.
Nicholas
Spykman considerava que o Caribe e o Golfo do México faziam parte de um mesmo
“mar interior” dos Estados Unidos, no qual México, Colômbia e Venezuela
deveriam estar sob dependência direta dos Estados Unidos, por razões de
segurança nacional, sem necessitar de nenhum tipo de justificativa doutrinária
ou ideológica. Quase a mesma ideia que reaparece textualmente na nova
“Estratégia de Segurança Nacional” dos Estados Unidos, divulgada pelo governo
de Donald Trump no início de dezembro de 2025.
O texto
da “nova estratégia” contém inconsistências e carrega a marca da pressa e da
colagem de várias posições que não são convergentes entre si. Mas não há dúvida
de que a parte dedicada ao Hemisfério Ocidental foi escrita e incluída de forma
apressada para justificar a ocupação militar americana do Caribe, e o seu
ataque futuro à Groenlândia que também fica dentro do chamado Hemisfério
Ocidental. E neste ponto não há que ter dúvidas: enquanto durar o governo de
Donald Trump, depois do ataque à Venezuela, o que se deve prever é um assédio
constante ao México, e um ataque com a proposta de submissão de Colômbia,
Nicarágua e Cuba – neste caso, com o objetivo de destruir a própria memória da
Revolução Cubana.
3.
Mas não é
provável que ocorra nenhuma intervenção militar no resto da América do Sul –
nem seria necessário, porque a maioria dos governos sul-americanos já está de
joelhos por vontade própria, aceitando a instalação de bases militares em seus
territórios que assegurem, no longo prazo, o cerco militar da massa
continental, e do Brasil em particular. Os demais países sul-americanos não têm
maior importância geopolítica e não representam nenhuma ameaça de fato para os
Estados Unidos, a despeito da presença econômica da China.
Apesar do
alvoroço em torno da questão hemisférica, amplificado pelo ataque à Venezuela,
o verdadeiro interesse e o objetivo central da Nova Estratégia de Segurança dos
Estados Unidos não é a América Latina, mas a conquista da Groenlândia, a
destruição da União Europeia, o esvaziamento da OTAN e a proposta de um novo modus
vivendi com a Rússia e a China. É possível que Donald Trump jamais tenha
lido Nicholas Spykman, nem conheça sua tese de que o domínio mundial dos EUA
dependerá de sua capacidade de construir um cerco militar em torno da “massa
continental” eurasiana.
Mas não
há dúvida de que este é um objetivo central da proposta de Donald Trump, de
incorporar a Groenlândia ao território norte-americano, completando o cerco
atômico da Rússia e da China pelo lado do Ártico, onde estaria a nova grande
fronteira geopolítica e geoeconômica do mundo. Com o avanço do degelo das
regiões polares, o Ártico aparece como importante “ponto de fuga” do sistema,
por onde se poderá escoar a energia criada pela intensificação da luta entre as
grandes potências. E onde deverão se multiplicar os novos espaços de competição
entre as grandes corporações do capitalismo global.
A
proposta de deslocamento ao norte da “fronteira russa” da disputa do poder
global explica em boa medida o ataque demolidor da “Nova Estratégia” de Donald
Trump contra a União Europeia, contra o formato atual da OTAN e contra todos os
valores cultivados pela “ética internacional” e pelo “universalismo” da cultura
europeia. O novo documento fala explicitamente em devolver a Europa à sua velha
condição de “mosaico” de pequenos Estados independentes e competitivos entre
si, de forma a facilitar sua tutela bilateral pelos Estados Unidos.
Muitos
analistas consideram que esse novo documento estratégico americano contém uma
proposta implícita de construção de uma nova “ordem mundial” multipolar e multi
civilizatória, sustentada por três grandes impérios ou “zonas de influência”,
que seriam comandados por Estados Unidos, China e Rússia. Alguns fatos
recentes, entretanto, e algumas outras realidades consolidadas parecem
contradizer esta tese e reforçar uma hipótese diametralmente oposta.
4.
Em
primeiro lugar, há que ter presente que os Estados Unidos ainda são a única
potência no mundo que possui e comanda uma infraestrutura militar global, com
capacidade de intervenção imediata em quase todas as latitudes.
Em cima
disso, o presidente Donald Trump acaba de anunciar para 2027 um aumento de 50%
do orçamento militar norte-americano, no valor de 1,5 trilhão de dólares. Faz
alguns meses Donald Trump já havia anunciado um programa de 830 bilhões de
dólares para a criação um sistema de defesa aérea “impenetrável”, que ele
chamou de Golden Dome, e um ambicioso projeto de modernização da Marinha
dos Estados Unidos, o Golden Fleet, que se propõe a construir uma nova
geração de navios de guerra integrando tecnologia de Inteligência artificial, lasers
e armas hipersônicas, para garantir a supremacia marítima dos Estados Unidos.
Além disso, no dia a dia da gestão de sua política externa, Donald Trump tem
feito questão de demonstrar um poder universal de arbitragem e intervenção
direta e instantânea em qualquer lugar do mundo, explicitando sua ingerência
externa nos assuntos políticos nacionais de vários países.
Um
conjunto de decisões que não apontam para um poder compartilhado; pelo
contrário, explicitam uma decisão clara de centralização do poder, e de cerco e
contenção da China e da Rússia. No máximo, um oligopólio tripolar com
dominância em última instancia dos Estados Unidos. Ou seja, ao contrário do que
muitos pensam, o projeto estratégico de Donald Trump que está em pleno curso,
representa uma aposta ainda mais radical na conquista unipolar de um império
militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem
final dos Estados Unidos, regras e arbítrio que poderão variar a cada momento,
segundo os interesses e a vontade circunstancial dos Estados Unidos.
Esse
projeto, entretanto, deverá provocar uma forte reação contrária da China e da
Rússia, e talvez da própria Europa, e deverá estimular a multiplicação das
potências atômicas ao redor do mundo. Além disso, no médio prazo, deve
incentivar o uso da força em todo e qualquer conflito ou disputa regional, uma
vez que a nova regra imposta pela potência dominante, é a da imposição da
vontade dos mais fortes, por cima de qualquer lei ou inibição ideológica. Um
caminho seguro, quase direto, na direção do caos.
Autor:
José Luís Fiori - Professor do Programa de Pós-graduação em Economia Política
Internacional da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Sobre a Guerra (Vozes,
2018). Publicado no Site Brasil 247.