Seguidores

1 de fevereiro de 2026

Marcelo Zero: A privatização imperial da ONU.

  

A privatização Imperial da ONU.

Apesar do fator catastrófico e desestabilizante chamado Trump, é evidente que o Brasil deve procurar manter boas relações com os EUA. Afinal, relações diplomáticas são mantidas entre Estados, entre países; não entre governos específicos. Mas o Brasil não pode renunciar a seus próprios interesses ou, pior, prejudicá-los, simplesmente para atender a desejos e ambições de outros governantes, que podem ser nocivos à ordem mundial.

Esse me parece o caso do convite feito por Trump ao Brasil para participar do seu “Board of Peace” (Conselho da Paz). Embora tal Conselho tivesse sido anunciado, inicialmente, para fazer parte, numa segunda etapa, do plano de paz em Gaza, seu escopo e seus objetivos vão muito além de Gaza.

Na realidade, o texto constitutivo do referido Conselho não menciona, uma única vez sequer, a questão de Gaza.

A Carta Constitutiva do Conselho define seus objetivos da seguinte forma:

CAPÍTULO I – OBJETIVOS E FUNÇÕES

O Conselho da Paz é uma organização internacional que busca promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e assegurar uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos. O Conselho da Paz deverá desempenhar funções de consolidação da paz em conformidade com o direito internacional e conforme aprovado por esta Carta, incluindo o desenvolvimento e a disseminação de melhores práticas que possam ser aplicadas por todas as nações e comunidades que buscam a paz.

Fica claro, portanto, que o Conselho da Paz pretende ser uma organização internacional permanente, a qual deverá atuar em todo planeta, em qualquer área que venha a ser considerada em conflito ou ameaçada de sofrer conflitos. Apesar disso, o Conselho seria, por assim dizer, um clube de países selecionados por Trump; não uma instituição verdadeiramente multilateral.

Assim, o artigo 2 do seu texto constitutivo tem a seguinte redação:

Artigo 2.1: Estados Membros

A participação no Conselho de Paz é limitada aos Estados convidados pelo Presidente (leia- se Trump) e inicia-se após a notificação de que o Estado consentiu em ficar vinculado a esta Carta, de acordo com o Capítulo XI. A Somália, com certeza, não será convidada. Dos mais de 190 países do mundo, apenas 60 foram selecionados por Trump.

Além disso, há uma distinção clara entre os membros do Conselho, conforme a sua disposição ou não de pagar US$ 1 bilhão para Trump. Com efeito, a alínea (c) do parágrafo 2.2 do texto constitutivo está redigida da seguinte forma:

(c) Cada Estado Membro cumprirá um mandato de no máximo três anos a partir da entrada em vigor desta Carta, sujeito a renovação pelo Presidente. O mandato de três anos não se aplicará aos Estados Membros que contribuírem com mais de US$ 1.000.000.000 em fundos em espécie para o Conselho de Paz no primeiro ano de entrada em vigor da Carta.

Ou seja, quem pagar torna-se membro permanente. Quem não conseguir pagar é membro por 3 anos, podendo ser reintroduzido ao “clube” pela vontade do Presidente (Trump). Com respeito às tomadas de decisão, a coisa piora. E muito. De fato, a alínea (e) do artigo 3.1 do texto constitutivo do Conselho afirma o seguinte:

(e) As decisões serão tomadas por maioria dos Estados Membros presentes e votantes, sujeitas à aprovação do Presidente, que poderá também votar na sua qualidade de Presidente em caso de empate. Ou seja, o Presidente do Conselho (Trump) teria o poder unilateral e exclusivo de vetar quaisquer decisões que venham a ser tomadas pelo seu “clube”. No Conselho de Segurança da ONU, já muito criticado por isso, cinco países têm direito ao veto: EUA, Reino Unido, França, China e Rússia.

O Brasil luta, há muito tempo, para que esse Conselho, que reflete, de forma arcaica, a realidade geopolítica do pós Segunda Guerra Mundial, seja consideravelmente ampliado e revisto. Imagina entrar para uma organização internacional que pretende ser uma espécie de sucedâneo do Conselho de Segurança da ONU, na qual apenas um país (os EUA) tem direito a vetar quaisquer decisões.

Não bastasse, pelo texto divulgado, o Presidente do Conselho (Trump) designará, de forma pessoal, o seu sucessor. Nada de eleições. O texto constitutivo do Conselho também estipula que não serão admitidas quaisquer reservas às suas cláusulas. É, portanto, um acordo “tudo ou nada”. Desse modo, não há espaços para negociar a adesão ao Conselho com certas condicionalidades.

A bem da verdade, com sua proposta do Conselho de Paz, está tentando construir uma estrutura paralela à ONU e ao seu Conselho de Segurança. O próprio Trump deixou isso claro quando afirmou, em 20 de janeiro de 2026 que “as Nações Unidas nunca me ajudaram” e que a criação do “Conselho da Paz” “poderia” substituir a ONU.

A maior parte dos especialistas em direito internacional público afirma que Trump tenta, de fato, transformar a organização em uma alternativa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde somente ele deteria o poder de veto, avaliação com a qual, evidentemente, concordo, após analisar sua carta constitutiva. O Conselho da Paz de Trump seria uma espécie de “ONU pessoal de Trump”, resultado de uma privatização imperial das funções que essa instituição e seu Conselho de Segurança deveriam exercer.

Por conseguinte, o Conselho de Paz de Trump é o exato oposto do que poderia ser uma verdadeira instituição multilateral, aderente aos princípios do direito internacional público. O Brasil, que é um decidido defensor do multilateralismo, da multipolaridade e da paz não pode aderir a esse disparate unilateralista, o qual só tornará a ordem mundial mais instável e conflituosa.

Ruim com a ONU; pior sem a ONU. E muito pior ainda com o Conselho da “Paz” de Trump. 

Autor: Marcelo Zero – Publicado no site VioMundo.

Educar para não odiar.

  

Getty Image.

As redes sociais foram tomadas por influenciadores que pregam que as mulheres “que namoram não devem sair a noite” e que caso não façam o que são mandadas “devem apanhar”. Estas narrativas têm consequências reais.

O Dia Internacional da Educação, que se assinala a 24 de janeiro, obriga-nos a encarar uma realidade desconfortável: o autoritarismo, a misoginia e a violência tornaram-se traços de personalidade de muitos jovens rapazes. O consumo de conteúdos digitais extremos alimenta a intolerância, e a Educação deve travar esta tendência.

Existe hoje uma realidade que é caracterizada pela violência, mas que não surgiu do nada. As narrativas de ódio constroem-se em ecossistemas digitais pouco regulados e são amplificadas por influenciadores digitais com milhares de seguidores.

Os jovens são expostos todos os dias a discursos extremados que normalizam o ódio, legitimam a violência contra as mulheres e transformam a intolerância em identidade. A pandemia de Covid-19 é frequentemente identificada como um catalisador para o agravamento deste problema. As aulas online e o uso excessivo dos ecrãs potenciaram a transformação do digital numa dependência silenciosa.

As redes sociais foram tomadas por influenciadores que pregam que as mulheres “que namoram não devem sair a noite” e que caso não façam o que são mandadas “devem apanhar”. Estas narrativas têm consequências reais. Em Portugal, os crimes de incitamento ao ódio e à violência aumentaram mais de 200% nos últimos cinco anos, o que acompanha a tendência de 75% dos adolescentes consideram legítimos comportamentos de controlo, perseguição ou violência sexual e psicológica.

É verdade que este tipo de comportamento tem sido popularizado e viralizado nas redes sociais, mas é fora delas que o trabalho de combate a este tipo de ideologias misóginas deve começar: nas escolas.

O impacto destes conteúdos nas instituições de ensino é devastador: assiste-se a um revivalismo da “supremacia masculina” que desafia abertamente a autoridade de professoras e o direito das raparigas à segurança. Docentes por todo o mundo relatam que raparigas chegam a ser removidas de disciplinas por não suportarem a toxicidade e o assédio constante de colegas radicalizados por estas figuras. A “manosfera” deixou de ser uma subcultura marginal para se tornar uma ideologia mainstream que atinge rapazes, e mimetiza discursos que objetificam as mulheres e transformam o “nós contra elas” numa ferramenta de radicalização política.

É também preciso responsabilizar. A extrema-direita sequestrou a identidade masculina, transformando a misoginia numa ferramenta de mobilização política. Ao normalizar o autoritarismo e a agressão, este movimento empurrou discursos antes marginais para o centro do espaço público, alterando radicalmente as fronteiras do que é aceite. Esta instrumentalização do ódio visa converter o ressentimento em combustível para um projeto antidemocrático que procura restaurar uma supremacia masculina arcaica.

Então, é necessário agir. Perante esta “fábrica de ilusões” alimentada por algoritmos que viciam o cérebro, a Educação deve assumir-se como o antídoto fundamental. Não basta proibir; é urgente implementar ferramentas de literacia digital e uma abordagem escolar que ensine os jovens a desconstruir narrativas de ódio e a recuperar a empatia. Deve funcionar como uma verdadeira “vacina social” contra o extremismo antes que este se torne o único modo de estar de uma nova geração.

A Educação deve, portanto, desempenhar o seu papel no combate às narrativas de ódio, discriminatórias ou violentas. É preciso adotar uma estratégia que passe não só pela formação de jovens para o pensamento crítico, como pela capacitação de professores e revisão de conteúdos programáticos. Também a alfabetização midiática e informacional deve ser um foco central da educação dos nossos jovens. Ensinar a compreender como funcionam as plataformas digitais, os algoritmos e as estratégias de manipulação é absolutamente essencial para que saibam reconhecer desinformação, teorias da conspiração e discursos de ódio. Sem esta consciência crítica, os jovens tornam-se mais vulneráveis a narrativas extremistas e à normalização da violência no espaço digital.

Ainda assim, somos demasiado permissivos. Permitimos tudo. Normalizámos o ódio, o controlo e a violência em nome da liberdade e da indiferença. Fechamos os olhos enquanto rapazes aprendem a dominar em vez de respeitar e a odiar em vez de pensar. Se continuarmos a falhar na educação — na escola, em casa e no espaço público — não será o algoritmo o problema, mas a nossa escolha de não agir. Educar para não odiar já não é uma opção: é uma responsabilidade democrática. 

Autor: Pedro dos Santos – Ativista e Mestrando em Ciência Política – Publicado na Revista Visão - Portugal.

Globo e a arte de destruir reputações

  

Ailton Aquino - Reprodução. 

A vítima agora é Ailton Aquino, diretor do Banco Central. Funcionário de carreira, negro - uma minoria ainda no serviço público.

Não se imagine que esses períodos de linchamento, na mídia, visem apenas personagens conhecidos. Quando a carniça é jogada no picadeiro, há uma disputa que não poupa ninguém.

Ailton Aquino é diretor do Banco Central. Funcionário de carreira, negro – uma minoria ainda no serviço público – ascendeu ao cargo de Diretor de Fiscalização sem padrinhos.

Foi fuzilado pelo O Globo, na reportagem “Diretor do BC pediu a presidente do BRB que comprasse carteiras fraudadas do Master”

A delação se baseia, obviamente, em perícias realizadas pela Polícia Federal no celular de Paulo Henrique Costa, presidente do BRB. Ele é acusado de ter pedido ao presidente que adquirisse os créditos para ajudar o Master a resolver seus problemas de liquidez.

Segundo a reportagem – de Malu Gaspar – as mensagens de Aquino foram apresentadas aos conselheiros do BRB em reunião do conselho, de 25 de março de 2025. A mesma que aprovou a oferta de compra de 58% das ações do Master por R$ 2 bilhões. E foi utilizada como instrumento de pressão para a aprovação da operação.

Segundo a matéria, “nos meses seguintes, a oferta do BRB seria reduzida a 22% do Master, mas mesmo assim o BC vetou a operação”. Mas como assim. Esse “mesmo assim” foi introduzido em uma frase colocada logo após a denúncias de que o diretor de Fiscalização estava pressionando o BRB a entrar no Master. Significa que “mesmo assim”, o BC não topou. E onde entra Aquino nisso?

O BC soltou uma nota informando que coube ao próprio Aquino o encaminhamento de denúncias contra o Master ao Ministério Público Federal. Na nota, informa-se que ele abriu mão do seu sigilo bancário e dos registros das conversas que realizou com o ex Presidente do BRB.

Pouco vai adiantar. Nos próximos meses, será olhado com desconfiança pelos vizinhos, pelos pais dos colegas de seus filhos na escola. Sempre que for a um restaurante, ou a qualquer local público, será apontado como a pessoa que agiu como cúmplice do Master. 

Autor: Luis Nassif – Publicado no Site GGN.

Dores e alegrias

Um argumento histriônico leva a imposição da opinião, não a sua aceitação ou compreensão. O atropelo argumentativo se repete, ou quando é iniciado com falsas premissas - os famosos sofismas -, ou com pressupostos frágeis e aceitáveis apenas dentro de condições limitadas. Por exemplo, o colega começou uma discussão supostamente cultural com a expressão "a alma pertence a Deus". Sim, uso a maiúscula, pois assim regula a norma culta por se referir a nome próprio, não porque coloco um deus acima de outro, inexistentes que todos são. Daí a primeira barreira da conversa, ou melhor, a primeira e a segunda, uma vez que a expressão pressupõe a existência de duas coisas, um deus e uma alma, que sabemos serem criações humanas. Belas e intrincadas, mas puras criações de nossas mentes. A discussão poderia enveredar pelas premissas existenciais, mas, com a imposição da frase inicial, afirmativa, fica impossível a continuidade à luz da filosofia, não da religião. Somos o que sabemos, por isso a ignorância é uma bênção para a felicidade. Dói menos.

As dores das perdas requerem estratégias para amenizar seu impacto ao mesmo tempo em que tragam algum conforto e consciência de nossa efemeridade, sem perder o senso pela justiça e pela memória. Um cachorro é assassinado por imbecis catarinenses e a comoção se instala, ainda que muitos outros animais de quatro patas sejam maltratados por animais de duas, autointitulados racionais (https://adria-vamosfalar.blogspot.com/2026/01/orelha-nina.html). As dores humanas também são dignas de registro. Vânia Figueiredo era escritora, poeta de mão cheia e de outros predicados literários. Era a presidente da Seção Campinas da União Brasileira dos Trovadores, quando fui convidado a dela participar. Era início da pandemia, o começo da interação foi todo virtual e vim a conhecê-la anos depois quando fomos homenageados pela Câmara Municipal em evento na Academia Campinense de Letras. Único contato físico que tivemos. Adquiri livros dela e outros ela me enviou por cortesia para que eu os lesse e lhe alimentasse com minhas impressões. Não deu tempo. 

Nem só de dores há que se falar. Alegria, adentre o recinto! Quatro indicações para o Oscar! "O Agente Secreto" se consolida como um grande filme, de certa forma superando até o enorme sucesso de "Ainda Estou Aqui". Duas histórias distintas, ambientadas no mesmo trágico momento histórico. O do ano passado baseado em fatos reais, o de agora na realidade de fatos conhecidos. Completando as indicações de brasileiros deste ano, temos Adolpho Veloso indicado ao prêmio de melhor fotografia por "Sonhos de Trem". E as premiações culturais continuam, não apenas para esses filmes, mas também para o documentário "Apocalipse nos Trópicos", de Petra Costa, no BAFTA, o equivalente britânico do Oscar. Da mesma forma de sempre, os detratores do filme e de nossa história continuam na empreitada difamatória dessas obras. São os mesmos que defendem um "bem" que existe apenas em suas ocas cabecinhas, que causam muito mal à maioria das pessoas. No transcurso da história vimos que prepondera a colaboração sobre a competição, mas os prêmios culturais acabam por ser importantes para dimensionar a nós mesmos o que somos e, conhecendo-nos, deixarmos de doer. 

Autor: Professor Adilson Roberto Gonçalves – Publicado no Blog dos Três Parágrafos.