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24 de novembro de 2024

Saudades do velho Briza!

  

Exibição do filme 'Brizola, anotações para uma história' - Leonardo Melgarejo.

Neste país é um desafio e tanto a tentativa de comentar um assunto por semana, sem perder o rumo do grande escândalo do momento.

Como escolher, por exemplo, o que seria relevante de tratar hoje, se antes de concluída avaliação daquele caso inédito, envolvendo o bolsonarista trapalhão kamikaze, que se explodiu em Brasília, e ainda durante as atividades de dimensão global, delineadas no encontro do G20 – com os avanços espetaculares ali anunciados – e de ver declaração oficial, tivemos a escandalosa confirmação do plano para assassinar (por agentes de elite da forças armadas nacionais, com participação de ministros de estado) o então presidente eleito e seu vice, com detalhamento de tocaia preparada para um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que na ocasião presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)?

 E o que pensar das manifestações associadas?

Como deixar passar sem alarde os argumentos de cumplicidade explícita trazidos à tona pela incontinência do filho zero-1 e do próprio Bolsonaro ou antecipados no início deste ano, pelo ex-vice presidente da República?

Eles são legião, eles têm acesso a armas de todo o tipo, e sem dúvida eles estão com medo.

Por isso, diante da certeza de que em tempos de normalidade não escaparão da justiça, eles tendem a se fazer mais e mais perigosos. E nós, dada a lentidão dos tão esperados e sempre protelados indiciamentos e prisões, ficamos amedrontados a tal ponto que, hoje, já somos quase cúmplices. Por baixo, na onda de apatia que nos arrasta, estamos contribuindo para o esvaziamento de conteúdos que deveriam levar milhões às ruas, em atividades de fortalecimento ao governo Lula que, do jeito que pode, está viabilizando a contenção do fascismo.

Assim, diante do empalidecimento das notícias positivas e observando que se reforçam - entre todos - os temores quanto ao que poderá acontecer a seguir, está difícil alinhavar aqui uma visão otimista sobre os acontecimentos. Afinal, os analistas políticos “de peso” estão anunciando que o golpe não acabou (por que o General Braga Neto ainda não foi preso?), que o governo Lula se enfraquece deixando passar oportunidades de ampliar forças e hesitando em reafirmar sua legitima autoridade. Por que Lula não anunciou, em meio àquele belo discurso no encerramento da cúpula do G20, as evidentes conexões entre o bloqueio parlamentar a seu governo e o fato de que seu envenenamento teria sido programado na casa de general candidato a vice-presidente e ex ministro de Bolsonaro?

Especula-se que “em breve” o Procurador Geral da República (PGR) finalmente oferecerá denúncia de crimes da cúpula golpista e que o mito, sendo quem é, derreterá arrastando para a cadeia a coluna vertebral do movimento antidemocrático. Mas também se especula que a tradição fascistoide das forças armadas será preservada, e que com isso, se não agora, em breve, o golpe virá. A limitação dos criminosos imputados a meia dúzia de bois de piranha, que aguentariam no osso confiando que em poucos anos estarão anistiados, garantiria isso.

Nesta moldura, sendo evidente que a sustentação do mecanismo exige a preservação do discurso, parece óbvio que o líder covarde terá que ser silenciado, transformado em mártir, o que nos faz temer por ele. Todos sabem que a imagem dele ajuda tanto quanto sua pessoa atrapalha. Como entre eles não há escrúpulo, será descartado.

Com esta perspectiva creio que, enquanto não for preso, Bolsonaro pai corre risco de morrer de forma esquisita, por acidente, bala ou veneno, como parece já ter ocorrido com Teori Zavascki, Adriano da Nóbrega, Gustavo Bebianno, e sabe-se lá que outros.

E com esta pulga na orelha, de olho na polarização que não para de se agravar no congresso e nas ruas, resta crer que a proteção da democracia, exige a prisão urgente, preventiva que seja, do triplo-i, e seus principais assessores.

É com essa interpretação da realidade, por saber que tanto a covardia como a coragem, contagiam, que precisamos, sem descuidar do que já vivemos, do que já sabemos, olhar para a frente e ir às ruas.

Fazer isso encarando o passado, mas sem se fixar nele, sem fugir das responsabilidades para com a necessidade de construir as alianças e compromissos que permitirão levar o país adiante, em apoio à emancipação humana, à justiça, à paz em vida.

Trago este ponto, com esperança de estar contribuindo para o que precisamos fazer, o filme Brizola, anotações para uma história. Assisti em pré-estreia esta semana (segunda-feira dia, 18), no Theatro São Pedro, e lá decidi que este seria o tema desta coluna que, como se vê, mudou de rumo sem abandonar os princípios.

O filme, mais uma obra da arte de Silvio Tendler, expõe a trajetória de vida que de um gaúcho que veio descalço, ainda guri, de Carazinho, e quase mudou o destino deste país. Fez muito e só não fez mais porque não ajudamos o bastante. Tendler nos mostra que Leonel passou a vida dando exemplos a respeito da importância de construir avanços, sempre, da forma possível e apesar das circunstâncias.

Por isso, mas não apenas por isso, acredito que aquele documentário ainda será utilizado como elemento de apoio à compreensão da realidade brasileira, naqueles tempos, nos dias atuais e inclusive em piores momentos que virão, se assim o permitirmos.

Nisso aquele filho do Bolsonaro tinha razão. Não se trata mais de “se”, mas sim de “quando” e “como” ocorrerá o enfrentamento. Por hora, e esperamos que assim continue, as definições se darão com respeito à constituição, no Judiciário. Mas se não formos às ruas, isto será permitido até quando?

Concluída a coluna desta semana, saiu (agora) a grande notícia, aquela que ofusca as demais: Bolsonaro e mais 36 acabam de ser indiciados pela Polícia Federal. Se a Procuradoria Geral da República (PGR) vai fazer sua parte e quando o fará, passa a ser o tema de amanhã. Hoje, cresce na alma dos brasileiros que acompanharam e entendem a luta de pessoas como Brizola, Arraes, Lula e tanto outros, um mesmo desejo: que estes golpistas sejam recolhidos e aguardem julgamento em cana, protegidos dos bandidos que os cercam e que agora já não precisam mais deles vivos.

Sem anistia. Todos para a rua!!!

Autor: Leonardo Melgarejo – Publicado no Site Brasil de Fato.

Toc, Toc, Toc…

Amparado por militares, Jair Bolsonaro pretendia dar um golpe para se manter no poder, é o que supõe investigação da PF - Foto Fernando Souza AFP.

A Polícia Federal finalmente bateu à porta da quadrilha de Bolsonaro. Mas o governo ainda terá que enfrentar o poder do agronegócio e do centrão.

Old kids on the golpe. Mais do que indiciar trinta e três pessoas, o relatório final da Polícia Federal, antecedido pela Operação Contragolpe, detalha aquilo que tínhamos a convicção, mas faltavam as provas: durante 36 dias, o capitão Jair Bolsonaro e os generais Braga Netto e Augusto Heleno, envolvendo mais de 35 militares, incluindo integrantes da força de elite chamados kids pretos, tentaram executar um golpe de Estado. O plano incluía desde a desmoralização das urnas eletrônicas ao assassinato do presidente e o vice eleitos, além de ministros do Supremo, utilizando o Palácio do Planalto e a estrutura do exército para a conspiração. Um golpe à moda antiga, ao estilo do mentor intelectual de Augusto Heleno, o general Sylvio Frota. E, talvez seguros pela tradicional impunidade militar, o golpe estava aí, a olhos vistos, como na reunião ministerial de julho, em que Augusto Heleno defendia que ocorresse antes do primeiro turno; ou nas movimentações da caserna, que se recusou a participar da transição; e nos acampamentos bolsonaristas, que deviam dar verniz popular. Como se não tivessem nada a ver com os indiciados fardados, os militares na ativa apenas lamentam que vai ser mais difícil impedir o corte de gastos. Assim como a direita, que entrou num modo silencioso, como se sequer conhecesse os envolvidos - vide o governador de São Paulo, que foi ministro e colega dos golpistas. O inquérito segue agora para a PGR e lá se cogita que seria apresentada uma única denúncia, reunindo o conjunto de crimes e investigações de Bolsonaro, como o roubo das joias e a fraude do cartão de vacinas. Enquanto isso, a consequência mais óbvia deve ser o fim do projeto de anistia no Congresso.  Neste ínterim, a Folha de São Paulo largou uma pérola: Lula é também responsável pela polarização porque seus apoiadores insistem na palavra de ordem “sem anistia”! Foi assim, normalizando os golpes e a extrema-direita, que chegamos até aqui, talvez o ponto de não retorno, onde o ‘Cidadão de bem’ deu lugar ao ‘patriota’ disposto a morrer, como alerta Isabela Kalil. 

.“O cara”, pero no mucho. Sem dúvidas, o ciclo do Brasil à frente do G20 foi fechado com chave de ouro. Isso pelo menos no plano diplomático, com Lula voltando a ser destaque na esfera internacional, depois dos reveses sofridos ao tentar apresentar-se como embaixador da paz num mundo cada vez mais conflituoso. O preço, é claro, foi condenar as guerras sem aprofundar o tema, nem debater méritos. A estratégia brasileira foi dar ênfase ao enfrentamento das desigualdades globais e buscar consensos no discurso, dando pouca atenção às repercussões práticas. O que ficou evidente na pauta ambiental, marcada pela tragicômica imagem de despedida de Joe Biden do cenário internacional em plena Floresta Amazônica, que rendeu mais memes do que medidas efetivas, e cuja implementação dependerá da boa vontade do futuro presidente, Donald Trump. Na prática, o grande mérito brasileiro foi o lançamento da Aliança contra a Fome e a Pobreza, que conseguiu a adesão de 82 países e 24 organizações internacionais, com Lula fazendo o desafeto argentino Javier Milei engolir a proposta para não ficar completamente isolado. Já outra pauta de destaque, a taxação dos super-ricos, foi respaldada pela primeira vez num foro internacional oficial, mas a proposta brasileira de criação de um imposto global de 2% sobre a fortuna dos bilionários não saiu do papel. Tudo isso fruto das contradições de ter um presidente progressista inserido num mundo cada vez mais com cara de extrema-direita. Ironicamente, enquanto o multilateralismo teve resultado mais simbólico que efetivo, o encontro bilateral com a China teve como resultado a assinatura de uma série de acordos de cooperação em diferentes áreas. E um deles, a parceria firmada com a empresa chinesa Space Sail, atinge diretamente a hegemonia da Starlink de Elon Musk na área das comunicações e redes de internet no Brasil.

De volta ao mesmo. Seja com Estados Unidos, Europa ou China, tem coisas na pauta comercial brasileira que não mudam. Como Lula fez questão de deixar claro no seu encontro com xi. O agronegócio continua a garantir a segurança alimentar chinesa”. Esse privilégio se expressa também no esquema de isenções fiscais concedidas ao empresariado brasileiro, onde 0,3% das empresas beneficiadas abocanham 50% do valor das isenções, o que corresponde a R$48 bilhões transferidos do Estado para as grandes corporações. Dentre as contempladas, além de 5 figuras conhecidas do bolsonarismo, destacam-se Syngenta, Yara, Seara, Rural Brasil, JBS, Fertipar, dentre outras gigantes do agronegócio. Ninguém lembra deles quando se fala em corte de gastos. Evidentemente, o efeito colateral dessa política é o aumento descomunal do número de queimadas na Amazônia que garante a expansão da fronteira agrícola, e que o Ministério do Meio Ambiente tenta combater sem sucesso. Enquanto isso, o Congresso aproveitou o G20 para tirar uma casquinha da pauta ambiental e impulsionar o capitalismo verde com a aprovação da regulamentação do mercado de carbono no Brasil. Mas, apesar desse aceno, a verdade é que Arthur Lira e seus amigos continuam olhando mais para o próprio umbigo que para o mundo. E, mais uma vez, a principal pauta da semana foram as emendas. Depois de todo rebuliço gerado pelas exigências do STF, a Câmara finalizou a votação do projeto que regulamenta as emendas. Na prática, pouca coisa mudou. 50% das emendas de comissão devem ser destinadas à saúde e reduziu-se de 10 para 8 o limite de emendas por bancada, retomando partes do texto original que haviam sido modificadas pelo Senado. De resto, não há possibilidade de bloqueio de recursos por parte do governo e não há mecanismos de identificação do deputado que indicou a emenda à comissão, ignorando o critério da transparência exigido pelo Supremo. A dúvida agora é saber se Lula sancionará integralmente a proposta e se o STF dará o caso por encerrado depois de mais um capítulo de intransigência da Câmara.

Autores: Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile. Publicado no Site Brasil de Fato.