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1 de abril de 2024

Violência policial: No Brasil, todo ano é 1964. Todo dia é primeiro de abril!

 

Estudantes sendo levados por policiais após protesto durante os anos de repressão da Ditadura Militar. Foto Fundo Correio da Manhã - Arquivo Nacional.

Morte de inocentes patrocinadas pelo estado não se encerraram com a redemocratização do país. A violência policial é um elo entre crimes ocorridos há quase 60 anos.

Na primeira delas, estudantes secundaristas protestam por melhorias nas instalações insalubres de um restaurante estudantil, quando o local é subitamente invadido por policiais militares armados com cassetetes, pistolas e submetralhadoras. 

Um aparato totalmente desnecessário, pois os jovens estavam indefesos, tinham a sua disposição apenas alguns talheres, pratos e um punhado de comida estragada. Os policiais sabem disso e, mesmo assim, avançam para cima dos estudantes, agredindo-os.

Tiros são ouvidos e agora seis estudantes estão no chão. Ensanguentados. 

Um deles não apresenta qualquer reação. Está morto! Seus companheiros, desesperados, formam um cordão de isolamento ao seu redor para impedir que os policiais desapareçam com o seu corpo. O jovem assassinado é carregado nos braços dos estudantes pelas ruas da cidade até a Santa Casa de Misericórdia.

Mais tarde, os policiais alegam que o secundarista morreu em confronto com agentes da lei, Relatos de testemunhas contradizem essa versão e o laudo pericial aponta que o jovem foi executado com um tiro à queima-roupa. Execução!

Estudantes protestam contra o assassinato de Edson Lima, em 1968, durante a Ditadura Militar. Foto Fundo Correio da Manhã - Arquivo Nacional.

Na segunda história, os moradores de uma favela, em sua maioria jovens e crianças, protestam contra os sucessivos episódios de violência policial na região. Policiais militares estão no local. A turba multa revoltosa está diretamente sob a mira de seus fuzis. Os moradores estão desarmados, os policiais sabem e isso não importa. 

A população encara os fuzis e ofendem os policiais que os ameaçam. A tensão aumenta e, então, tiros são ouvidos! 

Um soldado da polícia militar dispara repetidas vezes contra os moradores. Alguns correm, outros se escondem. Os brados coletivos dão lugar a um grito solitário. Um jovem corre implorando por ajuda. Corre por alguns poucos metros e cai. 

Uma poça de sangue se forma entre o seu corpo e o asfalto. Há um ferimento enorme em suas costas. É um tiro de fuzil. Alguns moradores correm para ajudá-lo, enquanto outros, indignados, avançam contra os policiais, agora com pedras e garrafas. O jovem é carregado nos braços dos próprios moradores até o hospital mais próximo, mas não resiste aos ferimentos. É um tiro de fuzil. 

O jovem assassinado retornava da casa de sua avó, nem do protesto ele participava. Naquele mesmo dia, a polícia militar divulga que todos os disparos foram realizados em uma troca de tiros com criminosos e que o jovem morto tinha envolvimento com o crime organizado. A versão dos policiais foi imediatamente desmontada por testemunhas e posteriormente pela perícia.

Essas são as duas histórias. Ambas são reais. Ambas aconteceram no Rio de Janeiro. Os dois jovens assassinados existiram, tinham nome, família, sonhos, um futuro. O primeiro deles se chamava Edson Luiz de Lima e tinha apenas 18 anos, o segundo era Johnatha de Oliveira Lima, de 19 anos. Edson era paraense, filho de uma família muito pobre, veio para o Rio sozinho em busca de melhores condições de vida. Chegou a morar nas ruas da cidade e conciliava os seus estudos com o emprego de faxineiro. Johnatha vivia com sua mãe, Ana Paula Oliveira, e uma irmã na favela de Manguinhos, Zona Norte da cidade, era torcedor do Flamengo e sonhava em seguir carreira como sargento do exército Brasileiro.

Duas vidas distintas que foram encerradas de forma parecida. Duas histórias semelhantes separadas apenas pelo tempo. E isso nos diz muito sobre o país em que vivemos. Edson foi assassinado em março de 1968, durante a Ditadura Militar. Johnatha foi morto em maio de 2014, sob a égide de um governo democraticamente eleito. Há, entre as histórias, uma distância de mais de 40 anos! E ainda assim a morte de Johnatha, sua estrutura, repete o assassinato de Edison. A polícia ainda mata como nos tempos da ditadura. 

Sabemos que Edson não foi o primeiro e que Johnatha não foi o último, sabemos que há, entre eles dois, um sem-número de casos semelhantes, de histórias, de vidas que foram encerradas de forma violenta pela ação direta do braço armado do estado.

Histórias que seguem a mesma estrutura: o assassinato é apenas a primeira de uma longa cadeia de agressões, de violências que se propagam até para além dos limites dos corpos físicos de suas vítimas. Até a memória dos mortos é violada! 

Protesto contra a morte de Johnatha, ocorrida em 2014. Foto Tomaz Silva - Agência Brasil

É comum que sejam são difamados, criminalizados para que o seu assassinato seja considerado justo, para que seja aplaudido e não condenado. Lembram do que aconteceu com Marielle, DG, Maria Eduarda, Thiago Flausino, Claudia Ferreira…?

E aqui há um detalhe crucial, quanto mais pretos, quanto mais pobres, mais fácil será encontrar uma desculpa para o extermínio. Dependendo, nem isso será necessário. De fato, na maioria dos casos basta dizer que “houve confronto”.

Essa estrutura se repete com a anuência de boa parte da imprensa, da sociedade, da classe política e do judiciário. Todos eles, cada qual a sua própria maneira, contribui para o azeitamento dessa verdadeira máquina de extermínio. Desse modelo cujos contornos foram desenhados ainda durante a Ditadura Militar e seguiram incólumes ao longo de todos esses anos.

Repito, morte de Johnatha, sua estrutura, repete o assassinato de Edison.

O ano é 2024, mês de março. Ana Paula Oliveira, mãe de Johnatha, chora desesperada ao saber do resultado do julgamento do soldado Alessandro Marcelino de Souza, o policial militar que atirou nas costas do seu filho, dez anos antes. O veredito? Homicídio culposo, isto é, quando não há intenção de matar. A sentença garante a impunidade do policial que ainda responde por um triplo homicídio.

Nessa mesma semana, como parte de sua agenda de conciliação com a caserna, o presidente Lula determinou que o governo federal não patrocinará ou encabeçará qualquer ato político relacionado ao golpe militar de 1964. Isso significa que não ocorrerão os tradicionais atos em memória das vítimas da Ditadura Militar e nem o lançamento de programas que joguem luz sobre os crimes do regime. 

Na prática, a atitude do presidente reforça o pacto de anistia que garantiu a impunidade dos militares após a derrocada da ditadura. 0 anos se passaram e ainda não tivemos justiça por Johnatha de Oliveira Lima, quase 60 anos se passaram e ainda não tivemos justiça por Edson Luiz de Lima.

Até nesse aspecto as histórias se aproximam! A injustiça é a lei e isso não é coincidência. A anistia normaliza a máquina de extermínio que ceifa a vida de jovens pobres e negros como Johnatha de Oliveira Lima. A sentença de 2024 e o silêncio sobre 1964 garantem a impunidade da máquina e de seus agentes. Ela seguirá fazendo o que sempre fez, fazendo aquilo que foi designada para fazer. Estamos vendo isso na Bahia, estamos vendo isso em São Paulo.

A máquina desenhada pelos militares, suas polícias, segue incólume. Provavelmente a história de Edson, de Johnatha e tantos outros se repetiu no dia de hoje.

No Brasil todo ano é 1964 e todo dia é primeiro de abril.

Autor: Orlando Calheiros – Publicado no Site IntercePT Brasil.

Lendas seriam fakes news do passado?

  

A linda flor do maracujá tem cinco anteras em amarelo, três estigmas em verde e os filamentos em roxo.

Sempre me encantei com a “passion fruit” ou “fruta da paixão”, que em latim é “passiflora”, e no português se chama Maracujá. O nome vem do tupi “mara kuya” que significa alimento ou fruto a servir na cuia. O tupi era a língua predominante no Brasil nos séculos 16 e 17.

O termo “fruto da paixão” foi cunhado pelos jesuítas, pois acharam sua flor muito parecida com a coroa de Cristo. Claro que depois desta semelhança esparramada entre os fiéis, surgiram lendas e descrições. Uma delas, diz que a planta surgiu ao pé da cruz e o sangue de Jesus caiu e tingiu as suas flores que eram brancas. Fica difícil fundamentar esta lenda, pois o maracujá é uma fruta da parte tropical da América do Sul e não tem origem e nem crescia na época e hoje na região do Oriente Médio.

Para a outra lenda do maracujá, paralela à contada anteriormente, precisa-se recordar alguns aspectos da biologia das flores. Provavelmente no século 17, a flor do maracujá foi assim apresentada para o Paulo V (1605-1621) em Roma, que se encantou e ajoelhou-se frente a ela, descrevendo-a como uma revelação divina.

Pela explicação, a flor do maracujá e suas pétalas representaria na natureza, o cálice sagrado. Ela tem ainda cinco anteras amarelas que são as partes da flor para conter o pólen. Cada antera na flor do maracujá seria correspondente a uma das chagas de Cristo.

A flor do maracujá também tem três estigmas que recebem o pólen de outras plantas para iniciar a germinação. Geralmente os estigmas têm uma superfície papilosa recoberta por um líquido pegajoso para a fixação do pólen.  Os três estigmas da flor de maracujá corresponderiam aos cravos na cruz.

Os filamentos ao redor e acima das pétalas formariam a estrutura semelhante a coroa de espinhos sobre a cabeça, enquanto a cor roxa da flor seria o sangue derramado de Jesus. Daí surgiu o nome flor ou fruto da paixão, ou seja, da paixão de Cristo, tanto no latim como no inglês: “passionais fructum” e “passion fruit”.

Bem-te-vi?

Diz a lenda que quando Herodes determinou a eliminação de todas as crianças no reino para que Jesus não sobrevivesse, pois teria sido anunciado que ele iria nascer naquela determinada época. Os seus pais fugiram para um lugar mais distante e seguro. Nesta trajetória de fuga, um pássaro ficava gritando “bem te vi”, como a denunciar a presença do menino Jesus para os soldados durante aquela perseguição implacável.

Até hoje tem pessoas que não gostam do bem-te-vi, considerando-o traidor ou maldoso por denunciar a localização de Maria e José aos homens de Herodes, mas este animal nunca existiu no Oriente Médio, ela é uma ave típica da América Latina. Isto representa mais uma invenção popular infundada.

Reflexão final

As lendas são infundadas, mas tem quem acredita. Quanto mais conhecimento, menos crendices infundadas. A ciência e a cultura são as ferramentas mais eficientes para que uma sociedade desenvolvida tome suas decisões bem fundamentadas e conscientes. Talvez as lendas tenham sido, antigamente, o que hoje chamamos de “fake news”. Reflitamos.

Autor: Professor Alberto Consolaro – Publicado no JC de Bauru.

Os dados mostram que o Brasil anda para trás celeremente!

 

Depois de ficarmos nove anos semi paralisados com os seguintes problemas: 2014-2016 (golpe para tirar a Dilma), 2016-2018 (Desgoverno Temer) e entre 2019-2022 (Desgoverno do improdutivo e vagabundo Bolsonaro), o país reelege Lula para seu terceiro mandato à frente das coisas do Brasil.

Mesmo que ele fosse multiplicado por dez, ou tivesse dez anos de gestão, dificilmente conseguiria sanar todos os problemas da nação, que são muitos (saneamento básico, habitação popular, saúde pública, educação, modernização e reestruturação do parque industrial, infraestrutura, etc).

Entretanto, dentre estes problemas graves cujas soluções demandam tempo, recursos e muito vontade política, dentro de um cenário caótico onde o Congresso nacional é dominado por amebas da direita e extrema direita bolsonarista, salta aos olhos a Educação.

Neste dia 22 de março de 2024, foram divulgados os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) sobre Educação de 2023, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrando que o Brasil ainda tem 9,3 milhões de analfabetos. Desse grupo, 8,3 milhões têm mais de 40 anos.

No levantamento, o IBGE pergunta aos entrevistados se eles conseguem escrever um bilhete simples. Quem responde “não” é considerado analfabeto. Esse grupo representa 5,4% da população brasileira, uma taxa que é um pouco menor do que no ano anterior, quando foi registrado 5,6% de pessoas que não sabiam ler ou escrever. O Nordeste, porém, é a região que ainda tem mais pessoas analfabetas proporcionalmente. São 11,2% contra 2,8 do Sul ou 2,9 do Sudeste.

Como imaginar desenvolvimento? Como sonhar com empregos de alta tecnologia nos tempos de Inteligência Artificial? Como ter eleitores aptos a elegerem seus representantes se 5,6% da população é analfabeta? O presidente Lula deveria formar um comitê de especialistas em Educação, formular projetos que possam ser implantados com celeridade tentando recuperar o tempo perdido por governantes medíocres no sentido de alfabetizar essas pessoas.

Em paralelo, é preciso sair deste limbo em que nos encontramos no que tange a educação desde o infantil ao superior. Reestruturação, modernização, apoio tecnológico, incentivo aos professores, ensino profissionalizante e com foco naquilo que o país necessita.

Não bastassem os números terríveis que envolvem o analfabetismo, ainda temos uma parcela de 19,8% dos jovens de 15 a 29 anos no Brasil que não estudam nem trabalham. A famosa geração Nem Nem.

Como sonhar com um país desenvolvido que possa se tornar uma potência econômica diante de dados tão desastrosos? Andando pelas empresas, comércio ou indústria a queixa mais ouvida pelos proprietários são os impostos elevados, em segundo lugar o fato de que os jovens não param nos empregos, mesmo nos locais em que os salários são compensatórios.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.