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17 de maio de 2023

Seminário de atingidos de Brumadinho, lança livro que denuncia acordo entre Vale e Zema!

                           O crime da Vale continua nos matando - Foto Lucas Sharif Mídia Ninja

Dia 13 de maio foi um dia marcante para as lutas contra a mineração predatória em nosso estado. Com a participação de mais de quatrocentas lideranças e pessoas vítimas do crime da Vale e do Estado – quilombolas, reinados, congados, folia de reis, artistas –, véspera do dia das mães, aconteceu no Auditório da Faculdade de Medicina, da UFMG, em BH, o lançamento do livro “O preço de um crime socioambiental”, de Marina Oliveira.

O seminário de lançamento foi um momento comovente. Houveram muitos depoimentos de vítimas sobreviventes do crime, como da professora Andresa, de Mário Campos, por exemplo, que em lágrimas denunciou:

“Amanhã é dia das mães. A mineradora Vale continua nos matando, pois retirou de mim o direito de ouvir meu filho Bruno me chamar de mãe, pois ele foi sepultado vivo junto com outras 271 pessoas na mina do Córrego do Feijão. A Vale roubou de mim o direito de ser avó, matou a continuidade da minha família”.

O senhor Antônio Cambão, quilombola da Comunidade de Marinhos, de Brumadinho, que, quase sem conseguir falar, lançou palavras de fogo apontando para um painel com as fotografias das 272 vítimas que foram sacrificadas pela Vale no altar da idolatria do mercado.

“A maioria destas 272 pessoas que estão com seus rostos aqui neste painel, todas assassinadas pela Vale, vinha me pedir a bênção quando eu chegava na rodoviária de Brumadinho, toda semana. A Vale roubou deles o direito de me pedir a bênção e roubou o meu direito de abençoá-los”.

Eliana Marques, da Comunidade de Cachoeira do Choro, em Curvelo, também em lágrimas, mas de cabeça erguida, denunciou com firmeza. “O crime da Vale continua nos matando, pois é um crime continuado que se reproduz todos os dias. Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já demonstrou que a maioria do povo das comunidades atingidas está com metais pesados no próprio sangue. Só na minha comunidade mais de dez pessoas já suicidaram, porque não suportaram a violência brutal deste crime que matou 272 pessoas instantaneamente, sacrificou o rio Paraopeba, matando peixes e todos os seres vivos da bacia do Paraopeba. E continua disseminando depressão e morte nas nossas comunidades. O acordão que o governador Zema, o Tribunal de (In)Justiça de Minas Gerais (TJMG), Ministério Público Estadual (MP MG) e Federal (MPF) e Defensoria Pública de Minas (DPE-MG) assinaram com a Vale S/A foi mais um crime brutal que pavimentou o caminho para outros crimes, tal como a reeleição do Zema e a construção de um rodo minério na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Crime em cima de crime. Basta! Exigimos reparação integral.”

Durante o seminário também se denunciou o corte do orçamento das Assistências Técnicas “Independentes” (ATIs). Com o corte, pretendem impedir que as organizações de assessoria técnica mobilizem pessoas e as comunidades violentadas para lutas coletivas concretas, pelos seus direitos.

A Defensoria Pública da União (DPU) está de parabéns por ter se retirado do acordão e não o ter assinado. Assim, não se tornou cúmplice da injustiça que se reproduz. No mesmo modus operandi, sem participação ativa e com poder de decisão dos atingidos, agora se confabula outro acordão sobre o crime da Vale/Samarco/BHP na bacia do rio Doce.

Marina Oliveira Mesmo depois do rompimento da barragem em Mariana eu não consegui entender a complexidade do que significava. Florian Kopp Adveniat. 

Assista ao vídeo do seminário: https://www.youtube.com/watch?v=SLPPiof5x1Q.

E para adquirir o livro, acesse a página da editora. 

Autor: Gilvander Moreira é frei e padre da Ordem dos Carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; professor de teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica).

Minha filha é um caso sério, doutor: as lições de psicanálise de Rita Lee!

Rita é a prova viva (sim, porque se alguém realizou o sonho de ser imortal, foi ela) do que Freud disse sobre os artistas e escritores serem os verdadeiros mestres dos psicanalistas - Reprodução Redes Sociais.

Adolescente e jovem dos anos 70/80, eu me deleitava com “Ando meio desligado”, dos Mutantes. Achava o grupo incrível, mas principalmente a voz vibrante da vocalista. No colégio e em casa, diziam que eu era “meio desligada”, logo, me senti contemplada pela canção.  E claro, a adolescência é pura mutação, então “Os Mutantes” eram meus gurus. Quando Rita saiu do grupo, eu simplesmente desinvesti minha devoção a ele, só queria saber o que ela faria.

Para minha alegria, não tardou muito a chegar até nós, que amávamos sua arte, sua produção com o grupo Tutti Fruti, “Ovelha Negra” e “Esse tal de Roque Enrow”.  Eu tinha então 18 anos e não me escapou em nada o que essas letras traziam de radicalidade. Parecia-me uma ousada colocação em cheque de todas as formas de vínculo afetivo. Sim, em “Ovelha Negra”, tinha sua expulsão dos Mutantes, que pediram para ela “sumir”, mas tinha também o sentimento de inadequação que todos nós carregamos, principalmente em nossos laços de filiação. Foi alentador, poder ouvir “...não adianta chamar, quando alguém está perdido, procurando se encontrar”. O ideal que fazem de nós e ao qual jamais conseguimos responder, só mesmo a Rita para, em poucas frases poéticas, mostrá-lo como algo de estapafúrdio, colocando em relevo a maravilhosa excentricidade que faz de cada um de nós criaturas únicas.

Transformar o que de nós sempre apareceu no discurso dos nossos outros como um déficit, em um tesouro que carregamos em nossas subjetividades, é tarefa para artista de primeira grandeza, e este era o caso de Rita. Ela não precisava ter tido um pai que lhe dissesse que ela era a ovelha negra da família (parece que ele ficou surpreso com a canção, não entendeu), ela sabia o que era uma filiação, um vínculo, e principalmente, que o trabalho e o amor são movidos pela mesma energia em cada um de nós. Também não lhe escapava que “o melhor de cada casa” (expressão do poeta espanhol Antonio Machado em Las malas companias) podiam ser as ovelhas negras, as desviantes.

A primeira vez que ouvi “Esse tal de Roque Enrow” fiquei siderada, impressionada com o realismo da letra. A mãe perplexa e angustiada com a perda do controle sobre sua menina, e que busca a escuta do doutor para suportar essa mutação, é a mãe de todas as mulheres (e homens também, claro, mães não deixam por menos). Já de saída vem a queixa “Ela nem vem mais pra casa, doutor, ela odeia os meus vestidos”, que é grandiosa por sua carga de verdade. Lembro de ter dito à colega de aula que estava comigo ouvindo a Rita: “Acho que esse tal de Roquenrow é a nossa saída das saias da mãe, é nosso ‘basta!’, é a gente indo garimpar o próprio caminho”. Não esqueci, pois minha colega escreveu, para que fosse uma espécie de compromisso nosso. Eu tinha então 18 anos e era apaixonada por literatura, gostava de Freud, mas não pensava em um dia me tornar psicanalista. Só que, na verdade, eu já havia tido com Rita as minhas primeiras lições.

Também foi magistral, o que ela nos entregou, no início dos anos 80, com “Cor de rosa choque”, o primeiro texto que me mostrava o feminino como uma invenção poética e ética, de uma maneira bem diferente dos discursos feministas que eu conhecia até então.

Eu poderia discorrer aqui durante muitas páginas sobre o que Rita nos deu, com sua travessia por este mundo, no qual ela fez tanta diferença. Dada a brevidade do espaço, me contentarei em contar-lhes ainda que anos depois, durante minha formação de psicanalista, me deparei com a noção do “tornar-se mulher”. Sim, Freud disse isso em 1933, bem antes de Simone de Beauvoir (1949): “ninguém nasce mulher, torna-se”.

Ensinaram-me que isso passava pela necessária saída do território feminino da mãe para ir em busca de seu próprio território, inventar-se. Achei isso incrível, mas não me surpreendi, minha mestra Rita já havia me transmitido muito tempo antes, com Esse tal de Roquenrow. Também quanto à singularidade constitutiva do nosso psiquismo, confesso que até me entediava ficar ouvindo aquilo tudo, pois eu era uma “Ovelha negra” de carteirinha há muitos anos.

Enfim, Rita é a prova viva (sim, porque se alguém realizou o sonho de ser imortal, foi ela) do que Freud disse sobre os artistas e escritores serem os verdadeiros mestres dos psicanalistas. Além disso, sua música corrobora o que Lacan também disse, um dia, a respeito dos escritores: “...a prática da letra converge com o uso do inconsciente”.  

Obrigada Rita, por ter me ensinado tanto a gostar de escutar ovelhas negras e filhas perdidas. Não há nada que me interesse mais do que um “caso sério”. Valeu!

Autora: Rosane Pereira é psicanalista e escritora, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre - APPOA, e Presidente da Associação Projeto Gradiva - atendimento clínico psicanalítico para mulheres em situação de violência.

10 de maio de 2023

Uma utopia inalcançável!

O Brasil enfrenta problemas com a baixa qualidade de seu sistema educacional, que não se resume a remuneração de seus profissionais, mas da necessidade de uma modernização em todo sistema, desde o ensino infantil até o superior. Uma infraestrutura não satisfatória, aquém das necessidades que os setores produtivos necessitam, muito mais do que privatizar alguns portos e aeroportos é preciso que nossos governantes reconheçam a importância do desenvolvimento do sistema ferroviário, colocado de lado desde a década de sessenta e sucateado durante as gestões de FHC- PSDB.

Atuar no sentido de atenuar as diferenças regionais acentuadas e a alta concentração de renda. Além disso, a corrupção política e a violência no Brasil são muito grandes, exigindo políticas mais eficazes no campo social, que ainda não foram implementadas. Aliás, nos últimos seis anos o país perdeu o pouco que havia conseguido avançar em termos de políticas sociais. Nossa elite financeira odeia de forma definitiva tudo aquilo que venha a beneficiar os mais pobres, os trabalhadores, os excluídos e os que vivem à margem da nossa sociedade.  

Embora alguns especialistas afirmem que o Brasil pode ser um grande protagonista global em 2030, caso comece a levar sustentabilidade mais a sério, isso ficou ainda mais difícil, senão impossível, diante das políticas nefastas do governo Bolsonaro (2019-2022) em relação ao Meio Ambiente.

O Brasil teria chances de se tornar uma grande potência até o final de 2030, desde que levasse a sério a questão fundamental do crescimento das práticas sociais, ambientais e de governança (ESG) na agenda global.

Isto porque notamos que cresce atualmente no Brasil uma ideologia muito arcaica, que é a ideia de que o país pode se desenvolver superando a dependência dos demais países desenvolvidos fazendo o que sempre fez, e isso tem sido percebido por muitos estudiosos da nossa economia externa.

O Brasil tem uma vocação agrícola natural e ela parte de uma concepção teórica, que acredita ter um benefício muito bom para todos os países que participam do comércio mundial, já que existem as vantagens comparativas. 

Cada país se especializa no produto em que tem mais habilidade e disponibilidade de recursos para produzir. No mercado mundial, todos os países vão trocando produtos que produzem com mais talento e com mais habilidade, e assim todos vão ganhando a partir dessa teoria liberal. 

Isso seria muito bom se fosse empregado de fato. Todos os países sairiam ganhando, na prática, contudo não é bem assim que funciona. Como pode um país se desenvolver tendo uma pauta de produção e exportação primária exportadora centrada nas chamadas commodities, sem uma política de proteção do Estado para seu mercado interno? 

Para países dependentes e subdesenvolvidos que têm sua estrutura produtiva centrada em mercadorias agrárias e produtos primários, o crescimento sempre irá depender de outros países, ou seja, quando você olha para a economia dos países desenvolvidos, nitidamente se percebe que houve investimento em industrialização e tecnologias de ponta. 

Em nosso país, vivemos uma altíssima dependência da ciência e tecnologia de outros países desenvolvidos. Não tendo uma diversificação em nossa economia, tornamo-nos pobres, subdesenvolvidos, com altíssimo nível de pobreza, miséria e desigualdade, falta de acesso à água potável e saneamento básico, altíssimo índice de desemprego, salários baixíssimos, entre milhares de outros problemas. O governo Bolsonaro, na contramão dos países desenvolvidos, corta verbas para ciência, educação e desenvolvimento, e torra com emendas parlamentares a fundo perdido.

Nosso parque industrial nunca foi tratado como prioridade no planejamento dos nossos governos, talvez o último a pensar em desenvolvimento industrial tenha sido JK (1956 – 1961), o que por si demonstra o descaso dos nossos governantes para com a nossa produção industrial. Assim como a ciência e a tecnologia nunca receberam o apoio e os recursos necessários para o desenvolvimento e as pesquisas tão fundamentais para o setor.

Um país que tem sua economia diversificada fica menos sujeito às oscilações e crises do mercado mundial. Um grande exemplo disso é a Venezuela. Sua economia depende basicamente do petróleo e, num país que depende única e exclusivamente de uma única fonte, você já sabe no que pode dar, né?! É só olhar como está aquele país nesse momento. 

Obviamente que, com a crise da pandemia do coronavírus, muitos países entraram na chamada emergência econômica, mas a história da Venezuela é um caso à parte para se compreender. Simplesmente entenda que, se o preço do petróleo está alto, a economia vai muito bem, no entanto, se o preço do petróleo baixar, automaticamente entrará menos dólares no país e consequentemente existirá menos dinheiro para importar os produtos necessários para a subsistência do povo venezuelano, que, por consequência, tenderá a crescer a inflação e o país entrará numa situação de desaceleração ou até mesmo de crise, como foi o que vimos em 2015. 

Por que ainda não somos um país de primeiro mundo?

Um bom exemplo sobre nosso país hoje é que somos autossuficientes em petróleo, porém importamos derivados do mesmo, como a gasolina, o diesel, o querosene, entre outras coisas. A única forma de evitarmos depender desse sistema que nos mantém na borda do capitalismo escravista seria uma política de industrialização nacional protecionista. Isso garantiria que o petróleo extraído no Brasil fosse processado a partir da indústria petroquímica dentro do nosso país. Assim, poderíamos desenvolver os demais derivados, que teriam valores ainda mais acessíveis para nossa população e que também poderíamos exportá-los dentro da nossa economia diversificada. Mas o assunto aqui não é sustentabilidade, pois, se fosse, essa pauta seria mais delicada e provavelmente não falaríamos de petróleo e sim de outras fontes limpas de energia.

Existe também na cabeça dos brasileiros uma ideia de que o agronegócio é o que move nosso país. Entretanto, se pararmos para analisar, claramente veremos que isso não passa de uma ilusão que foi contada no passado e que a quantidade de empregos gerados pelo chamado agronegócio é extremamente baixa. Sem falar que esse agronegócio não gera nada para o país em termos de desenvolvimento científico técnico, agricultura produtiva, geração de patentes, entre outras coisas. 

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

PS: Trecho do meu novo livro “Brasil, o sonho de uma eterna utopia”