Arte de Carlos Lopes do Viomundo.
Tenho a
estranha mania de ler.
Entre
letras escritas com certa distância temporal consigo traçar algumas relações
oportunamente não muito precisas.
Digo,
oportunamente, porque a pretensa precisão de alguns argumentos estampados nos
debates sobre educação não só me cansa, mas chegam a me assustar. Não me
refiro, obviamente, ao que se costuma denominar “artigo de opinião” sobre
juros, violência, desenvolvimento e até religiosidade.
Mas
quando o tema é educação os debates florescem mais que do que as disputas por
algum conhecimento de estratégia futebolística em ano de Copa de Mundo. Na
quinta-feira, 6 de abril, o Estadão publicou o editorial Bagunça na educação. Confesso
que, não só me surpreendeu, como me irritou.
De cara,
o Estadão diz:
“Ao
suspender processo de implantação do novo ensino médio, o governo petista cede
ao esperneio dos inconformados e amplia a confusão num setor crucial para o desenvolvimento
do país”.
Para o
Estadão, a suspensão não passa de um artifício para adiar a necessidade de novo
ensino médio que, “ninguém pode dizer que fracassou, pois nem sequer está
plenamente em vigor”. Atualmente
há pesquisas em andamento que indicam diminuição de matrícula do NEM — sigla
pelo qual é conhecido o novo ensino médio –, e aumento de evasão escolar.
A própria
manifestação de estudantes de todo país em 15 de março aponta um contínuo
incômodo mediante a bagunça da reforma do ensino médio. O editorial reduz esses
indícios e manifestações como vozes de “ninguém”. O Estadão é taxativo:
“ninguém sequer pode dizer o que não está plenamente em vigor”.
Pois
seria importante o jornal conversar com jovens que terminam o NEM em 2023.
Entraram e sairão dessa etapa do ensino despreparados e desesperançosos. A
revogação do NEM é vista como absurdo com o argumento que “a educação estava
ainda submetida à realidade do século passado, num modelo condenado por quase
todos os especialistas como atrasado e insatisfatório”.
Mas não
foi no século XX que vimos o avanço vertiginoso da tecnologia e da comunicação
alargar fronteiras e criar tantas outras?!
Por que
usar século passado em vez de século XX?
Seria
para passar ao leitor a falsa impressão de que é algo mais velho, antigo, do
que é de fato?
Seria bem
mais prudente perguntar o que o século XX nos ensina para pensar o que queremos
para a segunda, terceira ou quarta década deste “novo século”. Até porque há
avanços e retrocessos como em qualquer curso da história da humanidade.
A volta
da poliomielite e de doenças já erradicadas no século XX é apenas é um exemplo.
Mas podemos apontar outros, como o renascer dos fundamentalismos de ordem
política ou religiosa e o avanço de tendências nazifascistas que tomam de assalto
o desejo de jovenzinhos dispostos a matar ou morrer para participar de um jogo
de conquistas típicas do afã do homem que faz, atento ao novo.
Para o
Estadão, o século XX deve ser apagado, cancelado seria o termo mais apropriado
para o novo jargão. Com ele,
a memória dos mortos, da poesia, da arte, da literatura, da música, das
ciências sociais e, mais especialmente, da filosofia. Aí,
apresentaremos ‘’itinerários’’ que jogam no lixo a tradição junto com entulhos
de construtoras e embalagens de fones de ouvido sem fio.
Mas, por
hora, quero me ater à afirmação de um “modelo de educação totalmente atrasado e
insatisfatório”, que, segundo o Estadão, é condenado por especialistas. Limitar
os processos educacionais a modelos ultrapassados ou novos me parece reducionismo
simplista.
Dois
pensadores podem servir de exemplo aqui, e por incrível que pareça, ambos do
século passado.
1. John
Dewey, filósofo e educador norte-americano, autor do artigo “Interesse e
esforço”. Nele, discute a importância do interesse e da experiência do
aluno como ponto de partida para a imersão do aluno no universo do conhecimento
seja ele científico, histórico ou artístico.
Escreve
Dewey: “os interesses não são nada senão atitudes a respeito de possíveis
experiências; não são conquistas; seu valor reside na força que proporcionam,
não no sucesso que representam”.
2.Hannah
Arendt, filósofa alemã, autora de coletânea de artigos publicada pela Editora
Perspectiva com título “Entre o passado e o Futuro.
“A Crise
da Educação” é um dos artigos desta obra.
Hannah
Arendt escreve:
“O papel
desempenhado pela educação em todas as utopias políticas mostra o quanto parece
natural iniciar um novo mundo com aqueles que são por nascimento e por natureza
novos.
No que
toca à política, isso implica novamente em grave equívoco: ao invés de
juntar-se a seus iguais, assumindo o risco de persuasão e correndo o risco do
fracasso, há a intervenção ditatorial, baseada na superioridade do adulto e a
tentativa de produzir o novo como se o novo já existisse… O que há é um
simulacro de educação, enquanto o objetivo real é a coerção sem o uso da
força”.
É
impossível discorrer sobre esses dois textos num artigo como o nosso sem
reduzir a importância e complexidade de ambos.
Fica o
convite para a leitura atenta deles.
O
fundamental aqui é ressaltar que os dois autores — de diferentes tradições e
formação filosóficas — já alertavam sobre o perigo de reducionismos quando o
tema é a crise da educação, como se pode conferir no trecho abaixo de Hannah
Arendt:
“Por que
Joãozinho não sabe ler?
Por que
os níveis escolares da escola americana média se acham atrasados em relações
aos padrões médios na totalidade dos países da Europa?
Não é por
ser este um país jovem que não alcançou ainda os padrões do velho mundo, mas, ao
contrário, é pelo o fato de ser o país mais avançado e moderno do mundo. E isso
verdadeiro em duplo sentido: em parte os problemas educacionais de uma
sociedade de massas são tão agudos, e em nenhum outro lugar as teorias mais
modernas no campo da pedagogia foram aceitas tão servil e indiscriminadamente.
Desse
modo, a crise na educação americana de um lado anuncia a bancarrota da educação
progressiva e, de outro, apresenta um problema imensamente difícil por ter
surgido sob condições de uma sociedade de massas e em respostas de suas
exigências”.
Enfim,
por que nossos alunos não sabem ler?
Suposta
modernização de inovações e métodos daria conta de operar esse milagre?!
Segundo o
editorial do Estadão, pandemia e a negligência do governo anterior no campo da
educação impedem as pessoas de vislumbrar o mérito do novo ensino médio: “Terra
arrasada não é uma boa maneira de fazer política pública”.
Aqui, sou
obrigada a concordar. De fato, terra arrasada não é uma boa maneira de fazer
política pública. Só que,
aparentemente, o Estadão se ‘’esqueceu’’ que o decreto que instituiu o novo
ensino médio é de dezembro de 2017, governo Michel Temer. Ou seja,
18 meses após o golpe travestido de impeachment que derrubou a presidenta Dilma
Rousseff, que, diga-se de passagem, o Estadão apoiou. O Brasil atravessava um
quadro de instabilidade econômica e política…
Terra
arrasada para um decreto que visava fazer política pública educacional. Terra
arrasada que continuou na implantação do NEM em 2021, governo Jair Bolsonaro,
cuja eleição em 2018 o Estadão apoiou. Em seu
editorial, o jornalão paulista completa: “Se há lei que se cumpra, sem o
prejuízo de ajustes e aprimoramentos posteriores”. Bem, aí,
só mesmo um milagre. Ou um decreto.
Desses
que encontrei em trecho da crônica Milagres (na íntegra, ao final) do livro
Linhas tortas, de Graciliano Ramos:
“De
qualquer modo desejamos um milagre de oito milhões de quilômetros para o Brasil
e outro maior para o resto do mundo. Democrático ou aristocrático? Quem sabe
lá? Uns querem um governo popular, outros apelam para os figurões.
Milagre
de natureza parlamentar ou de ordem técnica? …
E a
instrução, é bom não esquecer da instrução. Como estamos longe do tempo, em que
pela graça divina, sem professores, dicionários e outras maçadas, um sujeito
aprendia de um pé para a mão as línguas do mundo inteiro! A verdade é que hoje
seria muito bem recebido um milagre ou um decreto, que nos armasse depressa,
não apenas com as línguas, mas com todos os conhecimentos…”
Mas, como
diz o próprio Graciliano Ramos, o milagre gorou. Tomara
que a suspensão também gore. Não
podemos, claro, esperar sentados isso acontecer. Precisamos lutar pela
revogação do NEM antes que seja tarde.
Não se
faz política pública, conservando destroços em terra arrasada.
Autora:
Dalva Garcia – Professora de Filosofia da rede pública de São Paulo. Publicado
no Viomundo.