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15 de julho de 2024

Ângela Carrato: Por que diante de tantas provas dos crimes de Bolsonaro, a mídia finge que não está acontecendo nada?

Esta foi uma semana terrível para Bolsonaro.

Revelações de que comandou o esquema de roubo de joias sauditas que pertencem ao acervo da Presidência da República e, tão ou mais grave, que ele e seu grupo espionaram integrantes dos Três Poderes, o colocaram mais próximo da cadeia. Era para a mídia corporativa brasileira ter dado o maior destaque para tais assuntos, a exemplo do que fez a mídia internacional. No caso das joias, Bolsonaro vinha negando qualquer ação envolvendo relógios, colares, anéis e estatuetas que afanou e depois, atabalhoadamente, tentou devolver.

Quanto à espionagem, nem seus aliados de primeira hora, como os presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, escaparam dela. O esquema montado pelo ex-capitão e sua turma espionou também ministros do STF, empresários, advogados e jornalistas. Literalmente ninguém estava seguro e com privacidade garantida durante os quatro anos em que esteve no poder. Detalhe: nesta espionagem, foi utilizada tecnologia israelense. O que explica aquelas inúmeras viagens, sem aparente motivo, de filhos e assessores de Bolsonaro a Israel. Explica ainda o “carinho” desta família para com um estado que comete genocídio contra o povo palestino.

As ações de Bolsonaro envolvendo o roubo das joias só vieram a público, porque o ministro do STF, Alexandre de Moraes, retirou o sigilo do inquérito que lhe foi encaminhado pela Polícia Federal. Se dependesse da mídia corporativa brasileira, ela daria a notícia, como deu, de forma discreta, e nada mais. Um assunto como esse, envolvendo militares de alta patente, como o tenente-coronel Mauro Cid, e seu pai, o general Lourena Cid, viagens aos Estados Unidos, uso de aviões da FAB e até de uma agência do governo brasileiro, a Apex, não mereceu sequer uma reportagem investigativa!

As joias que Bolsonaro roubou valem mais de R$ 6 milhões. Na tentativa de encobrir o crime, ele contou com assessores militares e civis, deixando nítido como transformou a presidência da República em uma espécie de escritório para os seus interesses. O caso da espionagem é pior ainda. Ele só veio a público em função da operação deflagrada, na quinta-feira (11), pela Polícia Federal. Se dependesse da mídia corporativa brasileira, você, caro leitor ou leitora, não ficaria sabendo de nada.

Já imaginou se tivesse sido o contrário? Se o governo Dilma ou Lula tivessem espionado os demais Poderes da República e a própria mídia? A mídia corporativa brasileira gastou centenas de edições de jornais e revistas para denunciar um tríplex que nunca pertenceu a Lula e para tentar convencer o respeitável público que deixar algumas roupas e comprar dois pedalinhos era prova de que Lula e sua então esposa, dona Marisa, eram os verdadeiros proprietários de um sítio supostamente recebido como propina.

O Jornal Nacional, da TV Globo, fez inúmeras chamadas extraordinárias para as ações da Operação Lava Jato. Não há como esquecer aquela imagem de um cano enferrujado, num fundo vermelho, do qual jorravam notas de R$ 100 para denunciar corrupção na Petrobras e atribui-la a Lula e ao PT, sem que nada fosse provado e sem que a família Marinho tenha pedido desculpas aos injustamente acusados e ao público.

Lula foi preso e permaneceu 580 dias na cadeia, e não lhe foi dado, sequer, o direito de se pronunciar sobre o assunto. Não é estranho que essa mesma mídia, diante de evidências e provas as mais diversas de que Bolsonaro cometeu crimes, finja que não está acontecendo nada?

A título de exemplo, basta observar as manchetes dos principais jornais durante a última semana ou mesmo o noticiário da televisão e do rádio. O escândalo da espionagem feito pela Agência Brasileira de Informação (Abin) por determinação de Bolsonaro não está presente, mesmo com todo o caráter explosivo que possui. Era para ter merecido manchetes e explicações detalhadas de como acontecia, mas ficou confinado a notinhas de pé de página ou a notícias que sequer mencionavam o nome de Bolsonaro.

É importante lembrar que esse esquema além de monitorar ilegalmente autoridades, também produzia notícias falsas, as fake news, apontando para uma relação estreita com o chamado “Gabinete do ódio”, comandado por Carlos, um dos filhos de Bolsonaro. Por que a mídia corporativa brasileira esconde os crimes de Bolsonaro e família?

Ao contrário do que alguns possam imaginar, essa não é uma pergunta cuja resposta seja difícil. Essa mídia busca preservar Bolsonaro na tentativa de ainda usá-lo contra Lula nas eleições deste ano e em 2026, mesmo ele estando inelegível até 2030. Além disso, é importante lembrar que essa mídia é parte do golpe que derrubou Dilma Rousseff, em 2016, prendeu Lula sem crime, em 2018 e garantiu a eleição de um ser abjeto como o ex-capitão.

Às vésperas da eleição de 2018, por exemplo, o jornal Estado de S. Paulo, em editorial, não afirmou que era muito difícil escolher entre Fernando Haddad, um professor, com várias pós-graduações, ex-ministro da Educação, um humanista, e Bolsonaro?

A mídia corporativa sabia quem era Bolsonaro. Conhecia seu histórico de péssimo militar, seus negócios escusos envolvendo “rachadinhas” e milicianos, suas posições fascistas em defesa da tortura, contra mulheres, negros e o segmento LGBTQIA+. Parte da classe dominante brasileira, a mídia corporativa empoderou a mentirosa Operação Lava Jato, foi decisiva para derrubar Dilma e para a prisão, sem crime, de Lula e acreditava que, depois de tudo isso, o ex-presidente estaria politicamente liquidado.

A vitória de Lula para um terceiro mandato desconcertou essa turma, mas não fez com que desistisse de seus propósitos. Lula não tem tido um minuto de tranquilidade desde que tomou posse, tendo que enfrentar e driblar uma extrema-direita feroz no Congresso Nacional e à frente do Banco Central, ambas apoiadas e elogiadas pelos proprietários de O Globo, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. A aposta desta mídia é de que o terceiro governo Lula naufragaria, diante da impossibilidade de viabilizar os compromissos que assumiu em campanha. Como está acontecendo o contrário e a popularidade de Lula volta a subir, ela vê Bolsonaro como um aliado no combate ao adversário comum.

Tentar esconder o roubo das joias e a espionagem significa poupá-lo das críticas e da avaliação negativa da população e mesmo entre os seus seguidores. Se parte dos bolsonaristas se assemelha ao gado, nada os faz mudar de opinião, a maioria não é assim e sabe distinguir o certo do errado. Daí a importância de a mídia corporativa esconder os crimes de Bolsonaro, fazendo uma espécie de parceria com as redes sociais da extrema-direita que enganam seus usuários ao colocar o ex-presidente como “vítima de perseguição política”.

É na mídia corporativa que os bolsonaristas raiz podem confirmar as informações que recebem. Se lá não encontram nada sobre os crimes de Bolsonaro, a conclusão a que chegam é de que ele realmente seja vítima de injustiça. Desnecessário dizer que o “gado” não se informa pela mídia independente. Mesmo Bolsonaro estando inelegível até 2030, a mídia corporativa brasileira acredita que ele possa ser útil para eleger prefeitos e vereadores esse ano contra os candidatos apoiados por Lula e, sobretudo, enfrentar o próprio Lula em 2026. Para desespero dessa mídia, Lula já anunciou que se houver risco de a extrema-direita voltar ao poder, poderá disputar a reeleição.

Se a semana que passou foi terrível para Bolsonaro, os próximos dias podem se transformar em pesadelo se vier a público o conteúdo de um áudio em que ele, o então diretor-geral da Abin, Alexandre Ramagem (PL), e o então ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, articulam para brindar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no caso das “rachadinhas”. O áudio, além de atingir diretamente Bolsonaro e seu filho, pode ser fatal para a candidatura de Ramagem, que pretende disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro.

Está nas mãos do procurador-geral da República, Paulo Gonet, decidir se o processo contra Bolsonaro e demais envolvidos no caso das joias será aberto imediatamente, aguardará o término de outras investigações ou será arquivado. O arquivamento, pela quantidade de provas, se tornaria um escândalo do qual Gonet não se livraria jamais. Quem o conhece acredita que possivelmente ele opte por aguardar o término de outros inquéritos dos quais Bolsonaro é alvo – falsificação de carteira de vacinas e atentado contra o estado democrático – para juntar tudo num mesmo processo.

Pode demorar um pouco ainda, mas Bolsonaro não sairá ileso dos crimes que cometeu. Até lá, continuará sangrando e vendo seus seguidores minguarem. Já a máscara da mídia corporativa caiu completamente.

Sua verdadeira face ficou à mostra. Ela está a serviço de todo aquele que garantir os privilégios de seus proprietários, pouco importando que sejam extremistas de direita, fascistas e criminosos como Bolsonaro, sua família e sua turma.

Autora: Ângela Carrato é Jornalista. Professora da UFMG. Membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Publicado no Site VioMundo.

11 de julho de 2024

Dossiê revela método de curso de extrema direita criado por Eduardo Bolsonaro!

  

Foto Zeca Ribeiro - Câmara dos Deputados.

Guerra cultural, doutrinação, globalismo, família, armas, ideologia woke são alguns dos tópicos tratados no curso Formação Conservadora, criado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os jornalistas Andrea Dip e Niklas Franzen se matricularam no curso para entender a metodologia e o público alcançado pela formação. O resultado é apresentado em um dossiê da Fundação Heinrich Böll, lançado nesta quinta-feira (11).

Estratégias como esta são parte do movimento ultradireitista que se fortalece pelo mundo e ameaça a democracia em pontos estratégicos do planeta, um deles é o Brasil.

A apresentação do curso destaca o objetivo de formar líderes conservadores para a chamada “guerra cultural”. O lema do projeto é: "Há uma guerra em andamento, e o Brasil precisa de você". O curso é 100% online, com conteúdo de áudio e vídeo e custa R$ 598,80. A meta, segundo a plataforma, é “retomar todo o espaço que foi ocupado pela esquerda: política, universidades, escolas, comunidades locais”. Entre os participantes, muitos membros parecem ter mais de 50 anos, além de serem mais homens do que mulheres.

O curso captura e deturpa a História desde a criação do universo até a ditadura militar no Brasil, passa por um revisionismo da geopolítica, da ciência e das teorias de gênero e feministas, tenta tornar o racismo uma pauta menor, aponta a comunidade LGBT+ como ameaça, entende a cultura e a arte como ferramentas apropriadas pela esquerda para doutrinação de mentes e a educação formal como uma ameaça à família”, analisam os jornalistas autores do dossiê.

Eduardo apresenta-se como alguém articulado com a direita mundial, próximo do primeiro-ministro da Hungria Viktor Orbán; de Marine Le Pen (França); de Javier Milei (Argentina) e de Donald Trump (EUA). “Os conceitos e valores disseminados pelo curso de Eduardo Bolsonaro reverberam e tornam palatáveis ao público brasileiro o pensamento da extrema direita mundial. Não à toa, ele é convidado a falar em congressos internacionais importantes como o CPAC [Conservative Political Action Conference],” destaca o relatório.

Ideologia woke - Guerra cultural é um dos conceitos centrais do curso, inclusive com menções às ideias sobre hegemonia cultural de Antonio Gramsci, marxista, escritor e um dos cofundadores do Partido Comunista Italiano. O dossiê destaca, no entanto, que as referências ao pensador italiano se fazem por meio de Olavo de Carvalho, filósofo autodeclarado, considerado líder do pensamento da extrema direita no Brasil. “A esquerda largou as armas e foi para cima dos livros”, diz Eduardo.

O deputado define a esquerda como “muito bem articulada”, que usa “estruturas poderosas” para manipular a população. Em alguns momentos, o curso joga com a ideia de que as pessoas podem se tornar socialistas sem perceber, por influência cultural. Para Eduardo, essa é “uma guerra de longo prazo”. Um dos convidados deste módulo é Mário Frias, que foi secretário da Cultura do governo de Jair Bolsonaro. “Ele diz: ‘O que eles [da esquerda] construíram ao longo dos 30 anos foi no coração. Foram corações e mentes que eles dominaram, não é algo simples para virar’”.

Os jornalistas destacam que esta é uma narrativa central da propaganda ultradireitista no mundo: a ideia de que a ideologia woke “domina grande parte das sociedades ocidentais e isso torna a resistência conservadora necessária”. O termo em inglês “tornou-se sinônimo de políticas liberais ou de esquerda, que defendem temas como igualdade racial e social, feminismo, o movimento LGBTQIA+, o uso de pronomes de gênero neutro, o multiculturalismo, a vacinação, o ativismo ecológico e o direito ao aborto.”

Fundamentos e reação - No tópico globalismo, o influenciador de direita Fernando Conrado é o convidado. Segundo o dossiê, ele oferece cursos sobre temas como capitalismo e crescimento pessoal em sua plataforma paga. O pressuposto básico neste tema é que “existe uma pequena elite ‘globalista’ que deseja impor seu modo de vida e pensamento à maioria da população. Segundo Conrado, o ‘globalismo’ é a implantação de políticas no nível internacional ‘com o fim de acabar com as peculiaridades de cada povo’”.

O relatório também mostra que a defesa da família, de características “heteronormativa, biologizante, composta por mãe biológica, pai biológico e seus filhos”, é central nos módulos do curso, “em conformidade com os valores da extrema direita internacional”. A senadora Damares Alves é a convidada deste bloco. A fala da ex-ministra de Direitos Humanos demonstra que “a campanha de desinformação” em torno da “ideologia de gênero que perseguiu professores, pesquisadores e ativistas” segue forte.

As redes sociais são apontadas como principal canal para reação contracultural da direita brasileira, com a participação do youtuber bolsonarista Fernando Lisboa. “É literalmente uma aula bastante didática sobre como utilizar e polemizar nas principais plataformas, passando por cada uma delas.” O deputado, de acordo com o dossiê, menciona repetidamente o “Brasil Paralelo” - plataforma de streaming, também chamada de “Netflix da direita”.

“A gente não vai ter sucesso no curto prazo, nosso maior sucesso vai ser no meio, longo prazo e sempre começando pelas nossas casas, educar nossos filhos, olhando o que eles estão aprendendo na escola, lendo o livro dele”, diz Eduardo.

Autor: Matéria publicada pelo Site Brasil 247.

9 de julho de 2024

Fundamentalismo bolsonarista!

 

Desde que submergiu do baixo clero da Câmara dos Deputados em Brasília em 2017, se aventurando a ser presidente da república, depois de 27 anos como deputado federal sem ter nenhum projeto significante para a sociedade, Jair Bolsonaro virou o Mito dos conservadores, evangélicos, caminhoneiros, policiais militares, milicianos, soldados de baixa patente do exército e idosos.

Para manter esse grupo unido em seu projeto, era preciso comunicação e isso foi feito via aplicativos como WhatsApp e Telegram, além do uso massivo das redes sociais. Mas, o que e como falar com essa enorme população? Seus aliados e os filhos incentivaram-no a disseminar fake news contra seus adversários, o PT, à esquerda, Dilma e Lula, mesmo que estes não estivessem concorrendo à eleição em 2018.

Tudo isso deu certo e era importante, porém, era necessário que ele defendesse alguns pontos importantes para seus admiradores, como por exemplo: Liberação de armas indiscriminadamente; Redução do Estado; Ódio à esquerda e à fé cristã.

Para poder passar ao povo incauto e desinformado uma imagem de homem cristão, ele se transformou de católico, que foi a vida inteira, em evangélico, banhado nas águas do Rio Jordão por um pastor amigo. Com isso, arregimentou dezenas de pastores das grandes igrejas evangélicas, em particular das pentecostais.

Isso garantiu a ele não somente votos na eleição, mas a devoção que o levou a ser chamado de “Mito” por essa gente que não sabe o que significa mito. Mesmo com quatro anos sem ter realizado nada pelo país, nem pelos evangélicos ou muito menos para a classe média, a adoração permaneceu após o seu desastroso mandato.

Nem a falta de vacinas, ou a aquisição atrasada das mesmas, que matou quase 700 mil brasileiros, mudaram a adoração ao político canhestro de extrema direita, adorador de torturadores como Cel. Ustra. A explicação para essa lavagem cerebral coletiva de boa parte dos brasileiros, em especial os mais idosos, é algo quase impossível de ser feita.

Porém, a mistura de armas de fogo com fé religiosa exacerbada levou pessoas a romperem com amigos e familiares, algo que se mantém até os dias atuais. Levou rádios, emissoras de TV e jornais a mentirem aos seus ouvintes e leitores. E tudo isso por alguém que nada realizou por eles ou pela nação.

Para quem pesquisa, lê e acredita nos livros e na história nada mudou, o ex-militar expulso do exército por mau comportamento, ex-vereador e deputado federal incipiente, improdutivo e omisso do Rio de Janeiro, ex-presidente (2019-2022), nunca os enganou. Sabiam que aquele sujeito era uma farsa, seu pseudo amor à pátria, família e Deus eram mentiras para obtenção de votos, nada mais do que isso.

Porém, coadjuvado por vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, governadores e pastores charlatães, esse político mesquinho, fraco, ignorante e sem legado, se mantém vivo graças às Fake News que eles disseminam e aos púlpitos de igrejas que ainda são mantidos por pastores envolvidos com politicagem, bandidagem e crimes.

Esse fundamentalismo pseudorreligioso lembra muito as décadas de 30 e 40 na Itália de Mussolini e na Alemanha de Adolf. Se os eleitores não saírem dessa pasmaceira, se livrando dessa lavagem cerebral a que foram submetidos, poderemos em breve ter a mesma situação dos países que permitiram que a religião se misturasse às armas e ao ódio que os levou ao terrorismo.

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.