O
sociólogo Jessé Souza entrevistou representantes da alta classe média e da
massa da classe média para escrever seu mais recente livro, “A Classe Média no
Espelho”, em que traça um perfil do segmento da sociedade que, em grande parte,
foi para as ruas protestar durante o governo Dilma Rousseff. O
pretexto era o combate à corrupção, mas se sabe hoje que era uma falácia. A
classe média nunca esteve preocupada com a corrupção — se estivesse, estaria
protestando pela punição a Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro, flagrados em
movimentação milionária atípica.
Um dos
entrevistados por Jessé foi o CEO de um banco, cujo nome é preservado. O
executivo conta como o banco compra políticos, juízes e até jornalistas, para
manter um sistema corrupto de privilégios.
A
entrevista está sendo publicada com autorização de Jessé Souza e de seu agente
editorial:
Sérgio: o
CEO de um banco explica como se compra o mundo
Sérgio
não é um CEO qualquer. Muito inteligente, culto, leitor de psicanálise nas
horas vagas – a mulher é psicóloga -, ele é dessas pessoas que têm prazer numa
sinceridade desconcertante. Sérgio tinha plena consciência de quem era e do que
fazia. Se no passado teve algum problema com isso, agora não deixava
transparecer nenhum incômodo.
Desde a
adolescência, ele era grande amigo de João Carlos. Filho de banqueiros, havia
acumulado fortuna própria na década de 1990, durante o governo de FHC,
administrando fundos de investimento estrangeiros que ganharam uma grana preta
com as privatizações levadas a cabo no período. Segundo
Sérgio, João Carlos começou como um hábil representante de bancos estrangeiros
e abriu inúmeras portas de investimento para os parceiros por meio de suas
relações nos meios financeiros paulistanos, bem como no poder político e no
Poder Judiciário, tanto em Brasília como em São Paulo. Lucrou tanto se
utilizando do dinheiro alheio que fundou o próprio banco.
Nessa
época, Sérgio frequentava uma faculdade de Direito nos Estados Unidos. Depois
passou um ano em Londres, estudando finanças e ciência política e, por
indicação de amigos do pai, estagiando num escritório que lidava com o mercado
financeiro. Morou também em Sevilha, na Espanha, onde descobriu sua área
jurídica de predileção: o direito administrativo.
No início
dos anos 2000, quando voltou ao Brasil depois de quatro anos de pós-graduação
no exterior, com pouco mais de 30 anos, o amigo João Carlos já era um
multimilionário por “esforço próprio” e apenas naquele ano tinha ganhado mais
dinheiro do que o pai durante toda a vida. Como o
negócio do banco – aliás, o de todos os bancos hoje em dia – dependia da
intersecção entre Estado, João precisava de alguém de confiança para cuidar da
parte jurídica, antes terceirizada em diversos escritórios. Sérgio recebeu
então carta branca para montar sua equipe de trabalho. Hoje o departamento
jurídico é o centro nervoso do banco, com tudo passando pelas mãos de Sérgio, e
ocupa um andar inteiro de um prédio moderno, decorado com luxo e bom gosto.
Quando
lhe perguntei qual era seu trabalho, Sérgio não titubeou.
O João é
o gênio, sabe onde estão o dinheiro e as oportunidades, pensa nisso o tempo
todo. Eu só faço comprar as pessoas necessárias para que as coisas aconteçam
como ele quer. Não fui eu que inventei o mundo como ele é, só procuro
sobreviver da melhor maneira possível. O mais importante no Direito é conhecer
os meandros da linha cinzenta entre o legal e o ilegal. Meu trabalho é expandir
ao máximo a margem da legalidade a serviço dos interesses do banco.
Como já
existe toda uma legalidade paralela que cuida dos interesses do setor
financeiro, meu trabalho é fazer com que o nosso banco fique com o melhor
pedaço da torta. Nossa equipe tem mais de vinte advogados escolhidos a dedo e
bem pagos. Mas eles fazem o ramerrão do trabalho jurídico. O dia a dia. Eu faço
os contatos com juízes, políticos e jornalistas e cuido dos clientes
estrangeiros. Com o serviço jurídico, no sentido tradicional, meu trabalho não
tem nada a ver. É mais gestão de clientes, dar a eles o que querem, dizer o que
querem ouvir, beber o que eles querem beber e ser discreto e sóbrio em tudo.
E o que
eles querem?
Aqui em
São Paulo o que move tudo é o dinheiro e todo mundo quer viver bem. As pessoas
são compradas com dinheiro vivo e com depósitos em paraísos fiscais criados
para isso. A gente sabe fazer bem feito. Sem deixar rastro. A cidade é
toda comprada, não se iluda, toda licitação pública e todo negócio lucrativo,
sem exceção, é repartido e negociado.
Todo
mundo tem um preço. Até hoje não conheci quem não tivesse. E para todo negócio
é necessário uma informação privilegiada aqui, um amigo no Banco Central ali,
uma sentença comprada ali ou a influência de um ministro em Brasília acolá. Além da
compra direta, em dinheiro vivo ou depósito no exterior, a gente tem que
paparicar constantemente os caras. Uma forma eficaz são os presentes
constantes, sem a expectativa imediata de contra favores. Isso gera simpatia. Às
vezes você ganha até um “amigo”.
Todo mundo
adora vinhos caros, e as mulheres desses caras adoram essas bolsas que custam
50, 60 mil reais. Se é alguém com conhecimentos técnicos, você pode promover
seminários e palestras, e pagar muito além do que se paga nesse tipo de
mercado. Para cada tipo de cliente e de gente existe um jeito mais conveniente
de comprar sem parecer que está comprando. Não
fazemos isso em troca de um serviço concreto. Isso é muito importante. O que
construímos é um círculo de amigos. Temos uma lista grande de pessoas que
simplesmente presenteamos no aniversário e em diversas outras ocasiões, ano
após ano. Presentes bons e caros. Não economizamos nisso. Aí, quando você
precisa, pode contar com a boa vontade do cara. Isso é o que chamo de criar
relações de confiança.
E o
pagamento direto por serviços específicos?
Obviamente
isso também existe. Aí pagamos em paraísos fiscais por meio de transferências
sucessivas entre dezenas de empresas de fachada, de tal modo que nem Sherlock
Holmes consegue refazer o caminho original.
Hoje em
dia existem meios ainda mais eficazes de eliminar riscos, mas este é nosso pulo
do gato, e não posso lhe contar. Mas não fica rastro, posso assegurar. Esta,
afinal, é a nossa mercadoria: a segurança no investimento. E, sendo um banco,
tudo fica mais fácil. Não é só no caso do nosso banco: todos os bancos,
inclusive os maiores, fazem a mesma coisa. A mina de
ouro de qualquer banco comercial ou de investimento é o Banco Central. Ali só
entra gente nossa. E o país é gerido a partir do Banco Central, que decide tudo
de importante na economia. É lá que a zona cinzenta entre legalidade e
ilegalidade define a vida de todos. Isso não aparece em nenhum jornal.
Podemos
fazer qualquer tipo de especulação com o câmbio, como nos swaps cambiais, por
exemplo. Se der errado, o Banco Central cobre o prejuízo. Não existe negócio
melhor. Se der errado, o famoso Erário paga a conta. Quem controla toda a
economia somos nós e a nosso favor, o Congresso nem apita sobre isso. Quando,
muito eventualmente, decide sobre algo, apenas assina o que nós mandamos, essa
é verdade que ninguém conhece porque não sai em nenhuma TV.
Claro que
tudo é justificado como mecanismo de combate à inflação, e não para enriquecer
os ricos. Para quem vê isso tudo funcionar a partir de dentro, como no meu
caso, é até engraçado.
Essa é a
estrutura legalizada pela opacidade do Banco Central e da dívida pública. Mas e
os negócios ilegais mesmo?
Não
existe negócio que não seja intermediado por um banco, seja legal ou ilegal.
Essa história de operador e doleiro é coisa da Lava Jato e da imprensa para
desviar a atenção da participação dos agentes financeiros. Os bancos são
completamente blindados porque inventaram um meio infalível de distribuir
dinheiro para quem já tem muito poder e dinheiro. Falam de todo mundo menos de
nós, que comandamos tudo.
Para mim,
aí é que está o poder real, o poder do dinheiro. Na verdade, são os bancos os
operadores e os doleiros, e todo o dinheiro sai de bancos, seja dinheiro limpo
– na realidade, sempre dinheiro que foi tornado limpo -, seja dinheiro sujo. A
não ser que você fabrique dinheiro em casa. Aliás,
parte do lucro dos bancos vem de lavar dinheiro e intermediar transações. Mas o
grosso da grana vem do Banco Central, das remunerações de sobras de caixa – que
são ilegais, mas sobre as quais ninguém diz nada – das operações de swap
cambial, dos títulos da dívida – enfim, o Banco Central é nossa mãe. É tudo
escancarado, mesmo com inflação zero e o país na ruína.
Nosso
lucro é legal, ou seja, legalizado, já que somos intocáveis e ninguém se mete
conosco. Boa parte dos juízes e ministros de tribunais superiores, como todo
mundo no meio sabe, advogam por interposta pessoa, e nós somos os principais
clientes de alguns e de quem paga melhor. São os bancos que pagam as eleições
do Congresso quase inteiro. Aí você pode legalizar qualquer coisa, qualquer
papel sujo que a gente mande ao Congresso os caras assinam. Nesse contexto,
onde se pode tudo, as operações abertamente ilegais são uma parte menor dos
lucros, mas obviamente existem.
Se
ninguém imprime notas de dinheiro no quintal, é óbvio que todo o dinheiro,
inclusive todo dinheiro sujo, vem dos bancos, que retiram parte do seu lucro
real intermediando essas relações e lavando esse dinheiro. Os bancos controlam
o que você vai fazer com o dinheiro e todo dinheiro pode ser rastreado.
Toda
transferência bancária tem um chip e, se você quiser saber de onde o dinheiro
vem, dá para saber. Inclusive nas transações internacionais. Se a transferência
é em dólar, tudo passa por Nova York e recebe um número. Mas ninguém quer
saber, essa é a verdade. Como os bancos mandam na imprensa, nos juízes e nos
políticos, a intermediação de todo dinheiro ilegal jamais é denunciada, E se
for denunciar, você é que acaba preso. Isso eu garanto.
Como
funciona mandar dinheiro para propinas no exterior, por exemplo, para comprar
gente em Angola, na companhia de petróleo?
Você liga
para o presidente de um banco [e cita, testando minha reação, o nome do
presidente de um grande banco) e pergunta qual a comissão dele para fazer
remessa.
Assim, na
cara de pau?”, pergunto. “E como você acha que funciona?”, indaga Sérgio, rindo
e se divertindo com minha surpresa.
Lembra
daquelas malas do Geddel? Como você acha que aquele dinheiro chegou naquele
apartamento? Dinheiro não dá em árvore. Quem tem a possibilidade de fazer o
dinheiro circular de um lugar para outro são os bancos, mais ninguém. Não há
nenhum caso de corrupção em que o dinheiro não venha de um banco. Ou seja, os
bancos são os intermediários, sempre. A imprensa nunca toca nisso porque é
tabu. Afinal, a imprensa é nossa.
Como
assim?
Vou lhe
contar um caso. Assim que cheguei no banco, o João Carlos estava com problemas
com um jornalista, metido a investidor, que publicava todo dia uma notinha
chata sobre negócios nossos aqui em São Paulo. O João ofereceu milhões ao
cara para apoiar projetos dele se aliviasse a pressão, mas o cara não
aceitou. Foi um caso raro, pois era uma grana e tanto na época. O que fizemos?
Compramos o jornal, um dos maiores do Brasil, e demitimos o fulano.
Agora
decidimos o que sai ou não, pois somos os donos do jornal. Não precisamos pedir
nada a ninguém. O jornal é literalmente nosso. Toda a imprensa hoje em dia é
assim, de um modo ou de outro. Ou eles devem os olhos da cara aos bancos ou os
bancos são os donos diretamente. Por isso não sai nada na imprensa contra os
bancos. A imprensa é toda nossa: televisão, jornais, internet, o que você
pensar.
E com os
políticos e os juízes, como funciona?
Com os
políticos você paga a eleição do cara e o que sobrar, se sobrar, porque toda
eleição é mais cara do que se imagina de início, ele embolsa. Aí cobramos e
montamos a agenda do cara. Ou então pagamos por serviço, como expliquei,
normalmente uma parte em dinheiro vivo e outra em depósito sigiloso. Às vezes,
num caso ou outro mais complicado, que precisa ser resolvido para os negócios
andarem, você faz um depósito no exterior para vários ao mesmo tempo. A coisa
funciona do mesmo modo em Brasília e em São Paulo, e com todos os partidos
políticos. Aquilo que aquele maluco da Odebrecht fez, ao criar um departamento
de propina, todo banco tem, é como os negócios andam, não tem outro jeito. Mas
a gente não deixa rastro como fizeram esses malucos. Ninguém é “santo”
[referindo-se à suposta alcunha de Alckmin na Odebrecht], pode acreditar.
E com o
Poder Judiciário?
Com os
juízes os presentes funcionam que é uma beleza. O cara termina incorporando ao
salário – afinal, é a mania deles. A coisa que mais irrita um juiz é saber que
um advogado ganha muito mais do que ele. Na verdade, quando o advogado é muito
rico, pode ter certeza que também enfia a mão na merda. Como advogado, para
enriquecer de verdade, você tem que saber comprar promotores e juízes, além de
advogados de outras empresas, para que escolham o seu escritório quando houver
necessidade. A Lava Jato está cheia disso. Cansei de ver um colega fodendo o
outro para depois ficar com a conta da empresa. Talento muita gente tem, mas
construir um círculo de poder e dinheiro e saber gerir isso, mesclando cuidado
e ousadia, poucos sabem.
É por
saberem disso que muitos juízes ficam putos com o dinheiro que os caras ganham.
Sempre acham que merecem ganhar ainda mais do que os advogados mais bem pagos,
porque os riscos maiores seriam deles, e não dos advogados. Mas a verdade, e
todo mundo sabe, é que a maior punição que um juiz recebe é aposentadoria
compulsória, e mesmo para chegar a isso tem que aprontar um monte e fazer muito
mal feito.
E como
vocês recompensam os juízes?
É um
pouco diferente, porque os caras são muito vaidosos, alguns se acham
intelectuais. Quando o cara é muito vaidoso, o melhor método é pagar uma
palestra com 100, 200 ou 300 mil reais, e ainda faz o cara se convencer de
que é por sua cultura jurídica. Ou fazemos seminários internacionais com
grandes jornais e revistas comentando e fotografando – aí eles piram. Nesse
meio, você tem que saber comprar a vaidade dos caras, fazer com que se sintam
mais importantes do que são. Ou então compramos diretamente a sentença.
Você
pergunta o preço da sentença e paga, assim, na cara de pau?
“Como
você acha que funciona?”, retruca Sérgio, sempre se divertindo muito por estar
dando aulas de sociologia prática da vida real.
Vou lhe
contar um caso que vai fazer você entender como tudo funciona. O João queria
abrir uma casa noturna em Florianópolis, só para se divertir. O diabo é que
encasquetou de construir a boate num lugar que era área de proteção ambiental,
o MP (Ministério Público] local encrencou e a história virou uma pendenga
judicial. Aí tive que ir lá para acertar com o juiz. Quando deixei tudo
combinado, o João mandou uma loura – que foi favorita dele durante um tempo e
depois passou a trabalhar com a gente, dessas muito bonitas e de 1,80 de
altura, como só tem no Sul – levar, numa bolsa grande dessas de marca, um
milhão de reais, misturando reais e dólares.
A ordem
do João foi mais ou menos assim: “Põe aquele vestido vermelho justinho da
Armani que te dei, entrega a mala e faz o juiz feliz.” O fulano passou um fim
de semana com a loura, ficou com o dinheiro e a mala, e o João construiu a
boate bem onde queria. É assim que funciona com o Judiciário.
Mas não
foi uma experiência agradável, vou confessar, já que a moça foi humilhada de um
modo meio violento. Fomos ela e eu levar a mala com dinheiro vivo para o juiz.
Começamos a discutir o modus operandi jurídico do caso com o juiz e mais dois
auxiliares na própria sala do juiz, depois do expediente. Betina,
era assim que a moça se chamava, era estudante de direito e de vez em quando
arriscava um palpite sobre o caso. A certa altura o juiz se irritou e disse que
ela não era advogada, mas puta, e estava ali para outro serviço. Na mesma hora,
botou o pau para fora, na minha presença e de outros dois, e mandou a moça
chupar.
Depois
mandou que fizesse o mesmo com os dois funcionários. Em seguida entra um
terceiro assistente, todos obviamente de confiança do juiz e de sua equipe
“privada”. Ao ver a moça ainda de joelhos e já com o belo vestido meio rasgado,
lança um olhar entre divertido e intrigado à cena, e então o juiz o interpela:
“Quer também?” Ato contínuo, a moça cumpre pela quarta vez o mesmo ritual. Esse
pessoal adora um abuso, quase tanto quanto dinheiro.
As
mulheres sempre participam desse jogo?
Nem todo
mundo gosta de misturar putaria e trabalho, mas se você for carente e cair
nessa, está fodido. Aí fica na mão mesmo. E o diabo é que o que mais existe é
gente carente afetivamente, que sem perceber cai nessa armadilha. Eu, por
exemplo, não participo. Como tenho mulher parceira, não tenho este tipo de
carência. Não digo que não tenha participado uma vez ou outra, nesses quase 20
anos em que trabalho aqui, mas não é a minha praia. Mas tem
muitos que gostam. Os estrangeiros, por exemplo, adoram. Passei um ano em
Londres trabalhando como estagiário na área jurídica do mercado financeiro e lá
a putaria é mais pesada. Onde tem muito dinheiro tem muita putaria. Pesada
mesmo, todo tipo de coisa que você for capaz de imaginar. Tipo alugar castelo
do século XVII para um fim de semana com muita droga e muita festa para todo
tipo de gosto.
Afinal,
todas as máfias do mundo estão por lá, russos, árabes, africanos,
brasileiros. Londres é uma grande lavanderia atrás da fachada da realeza.
Comparados com eles, somos amadores. Mas, João sabe
fazer esse jogo, não é nenhum amador. Por exemplo, para funcionar, não pode
parecer putaria barata, e o João é um gênio nesse jogo.
Outro dia
tivemos um cara, um norueguês, da companhia de petróleo deles. O cara sabe tudo
de prospecção de petróleo. O João se encarregou pessoalmente de armar a festa.
Ele tem uma ilha em Angra só para isso, com heliporto e um iate lindo. Tudo
encoberto pela mata atlântica, privacidade total. É um fim de semana de sonho.
A gente
tem de 15 a 20 mulheres lindas, que podemos chamar a qualquer hora, algumas
ganham presentes caros todos os meses, outras a gente paga mesmo, e nenhuma
delas você diria que é puta. São lindas, elegantes, sabem conversar, usam
roupas caras, se comportam e não destoam em nenhum ambiente. Algumas você deve
conhecer, aparecem na internet, mas isso eu não posso contar. O norueguês, por
exemplo, ficou tão louco que queria levar uma delas para a Noruega.
O João
aproveita e chama ainda um juiz, um político, um amigo do mercado ou um
procurador mais chegado, chama também alguns daqui do banco mesmo, que sabem
criar o ambiente mais relaxado e agradável possível, tudo para criar um clima
de festa normal. O segredo é forjar “amizades”. As vezes montamos negócios
inteiros com todos os interessados participando, mas sem parecer negócio,
como se fossem amigos se divertindo. Você tem
que saber misturar e montar para parecer diversão entre os “parça”, entende? Lá
as meninas sabem fazer o trabalho do melhor modo possível. Tudo parece a coisa
mais natural do mundo, como uma festa normal e animada entre conhecidos. Nisso
de criar uma relação de confiança, o João é impagável. Eu só faço o me
campo. O astro é ele.
E cabe a
você comprar as pessoas para os negócios andarem?
Quem
existe neste mundo que não é comprado de alguma forma? Comprar alguém bem
comprado não envolve só dinheiro. Você tem que comprar uma relação de
confiança. Sem isso, todo o dinheiro do mundo não conta. E isso é um talento. João
costuma dizer que quem manda no Brasil, a elite, não soma mais do que 800
pessoas, e que ele e eu conhecemos cada uma delas. Dessas 800 pessoas, 600
estão em São Paulo, 100 em Brasília e 100 no resto do Brasil. Temos uma relação
excelente com boa parte desse pessoal, e diria que, com pelo menos umas 100
dessas 800 pessoas, temos uma relação de confiança construída ao longo dos
anos.
Um banco,
como qualquer empresa, vive de oportunidades de negócios que a conjuntura
econômica e política cria. Se você é realmente um bom empresário, não pode
ficar apenas esperando que a oportunidade surja com a conjuntura, pois aí vai
ter muitos rivais e concorrentes. Um bom
empresário ou banqueiro é o que percebe a oportunidade quando ela aparece. Mas
se você é muito bom, melhor que os outros, como no caso do João, então você tem
que fazer com que a oportunidade aconteça só para você ou que você possa
aproveitá-la antes dos outros. Este é o
segredo do nosso negócio. Se deixa passar uma janela de oportunidade, você não
é bom no que faz. Mas nós somos muito bons no que fazemos. Nós criamos a
oportunidade de tal modo que ela caia no nosso colo. Para isso servem as
relações de confiança cultivadas ao longo dos anos.
Autor:
Publicado no Diário do Centro do Mundo - DCM.