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10 de fevereiro de 2023

Intolerância religiosa é crime!

A intolerância religiosa no Brasil tem crescido de forma alarmante nos últimos anos. A data, 21 de janeiro, marca a morte Mãe Gilda da Oxum, vitimada em razão dos ataques criminosos proporcionados por fiéis da Igreja Universal. A certidão de óbito da Yalorixá foi atestada como infarto, mas, em verdade, Mãe Gilda foi assassinada pela intolerância religiosa. O crime foi cometido em 2020, em Salvador, Bahia. Não pode se repetir.

Religiosas e religiosos de todas as correntes, democratas e quaisquer pessoas contrárias ao fascismo e ao preconceito são chamados a não permitir esta barbárie em terras brasileiras - Foto Antonio Cruz da Agência Brasil.

O Fórum Inter-religioso e Ecumênico do RS recebeu, nesta terça-feira (7), uma denúncia grave de intolerância religiosa. O crime acontece a partir de meados de 2020, quando um Babalorixá passou a receber sistematicamente bilhetes agressivos. No início foram xingamentos, depois ameaças, que se transformaram em pichações agressivas. A seguir vieram ações como derrames de sal em portas e portões, ocorridas nas datas comemorativas de orixás e outras deidades, acompanhadas de ameaças ainda mais fortes, exigindo o término das atividades do terreiro de candomblé, um dos primeiros do estado. Acusam o terreiro de Candomblé, ou seja, um templo religioso, de ser “pura macumba”.

O início das agressões, em plena pandemia, coincidiu com denúncias sobre atividades religiosas do grupo. O templo é dirigido por um Babalorixá e sua esposa, ambos funcionários públicos, concursados. Os filhos do casal, já iniciados, e mais poucas pessoas professam sua crença, direito garantido por lei, apesar de receberem constantes provocações. Os agressores afirmam que “é uma vila alemã onde não acreditamos numa religião como esta que vocês falam”. Acusam o grupo religioso de “querer terminar com a colônia alemã”. Isto em terras brasileiras, em discurso supremacista, diferentes da maioria dos imigrantes alemães que ajudaram a construir e povoar o RS, que se reconhecem brasileiros com orgulho e amor ao país.

Chama atenção nas ameaças e agressões escritas e deixadas no templo religioso o caráter discriminatório. O babalorixá é xingado de “macumbeiro” e, por não possuírem descendência alemã, os praticantes são chamados de “nordestinos” ou “brasileiros”. É importante ressaltar que os termos são usados como xingamentos, pejorativos. Segundo os agressores, a região, zona rural próxima a Santa Cruz do Sul, é “lugar de alemães” e não de “brasileiros”, que deveriam ir para o nordeste. Sentem-se agredidos em sua branquitude pelos elementos que remetem à cultura negra.

As agressões chegaram, neste 2 de fevereiro corrente, à profanação dos objetos e rituais, como manuseio e pichação dos ocutás (pedras e metais que representam as deidades no mundo físico). No pilar que representa o axé do terreiro foi pichada a palavra fim, e as representações dos dois Orixás necessários ao início dos rituais, Ossain e Exu, foram também profanados.

Os religiosos estão assustados com a perseguição sofrida dentro da propriedade. Relatam serem seguidos, espionados, sentem presenças constantes quando se deslocam para colher plantas ou alimentos, que somente se esgueiram quando tentam se aproximar. Segundo a advogada Edoarda Scherer, apesar das ocorrências policiais já registradas, não houve prosseguimento e o crime de intolerância religiosa continua sem apuração ou investigação, apesar das fortes evidências da autoria.

A advogada, que integra a CREDEIR (Comissão Regional de Ecumenismo e Diálogo Religioso) da CNBB Sul III e do Grupo de Reflexão para Diálogo Ecumênico e Diálogo Religioso da CNBB, teme que a falta de providências crie nos agressores a certeza de impunidade, forçando os moradores a abandonarem a região por medo ou coloque em risco vida e integridade de quem ousa contrariar os criminosos.

Religiosas e religiosos de todas as correntes, democratas e quaisquer pessoas contrárias ao fascismo e ao preconceito são chamados a não permitir esta barbárie em terras brasileiras. A intolerância religiosa e o preconceito não podem somar mais vítimas aos já dizimados em 523 anos de opressão e sangue. A consciência de cada uma e cada um falará mais alto pedindo punição para estes criminosos e suas ideias tenebrosas.

Autora: Regina Abrahão - Publicado no Site Brasil de Fato.

A “guerra do lítio mineral” e o Império na América Latina!

     Área das reservas de lítio entre Argentina, Bolívia e Chile - Reprodução de Guia Minera

O lítio mineral é o chamado “ouro branco” do século XXI e tem mais de 60% de suas reservas entre Argentina, Bolívia e Chile. Desses três países, a Bolívia é hoje o mais forte economicamente. Em novembro de 2019 sofreu um golpe de Estado liderado pela direita paceña (do Departamento de La Paz), mais precisamente por Carlos Mesa (ex-presidente) e a extrema direita de Santa Cruz de la Sierra, liderada pelo governador do departamento, Luís Fernando Camacho (preso há mais de 30 dias por conspiração e golpe de Estado). Em outubro de 2020, após uma correta unidade indígena, camponesa, mineira, sindical e popular, o candidato do MAS-IPSP, Luis Alberto Arce Catacora, ganhou em primeiro turno com mais de 55,1% dos votos.

As bases para desenvolver uma economia nacional boliviana estão dadas. Mesmo o departamento rebelde, com oligarcas criminosos e racistas como Branko Marinkovic e o “El Facho Camacho” viu sua economia quintuplicar de tamanho na Era Evo Morales Ayma (2006-2019). Em nível nacional, os fundamentos são bons também. No ano de 2022 teve a mais baixa inflação da América do Sul (3,1%), crescimento do PIB em 4,31% anual (ia passar de 8%, mas houve locaute e sabotagem econômica por mais de 36 dias), saldo positivo da balança de comércio exterior, dívida pública controlada (e dentro da meta), dólar estável, além de um enorme investimento em alta tecnologia. Na grade curricular nacional de 2023, os níveis básico, fundamental e secundário vão ensinar robótica nas escolas.

                        Série Triângulo de Lítio, Chile - Foto Tom Hegen do Instagram

Já o lítio mineral está sob total controle da empresa estatal Yacimientos Del Litio Bolivia (YLB) em convênio com um conglomerado chinês CBC. O modelo é vertical, segundo o mandatário boliviano: “A diferença é que nossa empresa YLB estará presente em toda a cadeia produtiva, desde a extração, industrialização e comercialização de produtos”. Deste modo, a YLP reproduz o modelo da YPFB (a estatal petrolífera e demais produtos) nacionalizada e verticalizada em 1º de maio de 2006 e chama a atenção do Império dos EUA em sua sina de projetar poder e inviabilizar as sociedades latino-americanas.

O Comando Sul quer as riquezas da América Latina e começa pelo lítio

Uma militar estadunidense, mulher e general de quatro estrelas, Laura J. Richardson (vejam seu perfil em site oficial em português) está à frente do Comando Sul dos EUA desde o final de outubro de 2021. Vale ressaltar que este comando permanente é o encarregado pelas forças armadas combinadas dos Estados Unidos em projetar poder e “garantir a segurança hemisférica”. Fora o México (sob a ameaça do Comando Norte) e Porto Rico (a ilha invadida no final do século XIX e segue sendo Estado Associado, ou seja, colônia), todos os países da América Latina e do Caribe estão diretamente ameaçados por esses militares profissionais. Em outras palavras, o pesadelo de um desembarque de fuzileiros navais gringos passa por este alto comando.

Em 21 de janeiro de 2023, a general Richardson fez um pronunciamento para sua própria plateia, tentando ampliar a atenção do Império para o que antes da Revolução Cubana era considerada o “seu quintal”, conforme segue:

“Porque essa região importa. Pelos recursos naturais e minerais por exemplo. Tem o Triângulo do Lítio – Argentina, Bolívia e Chile – responsável por 60% das reservas mundiais desse minério que é essencial para a tecnologia na atualidade. Também tem as maiores reservas de petróleo cru e leve, descoberto na fronteira das Guianas cerca de um ano atrás. Venezuela também tem muitos recursos, incluindo enormes reservas de petróleo. Na América do Sul tem cobre, ouro. A China compra 36% de suas fontes de alimentos desta região. Tem a Amazônia, o pulmão do mundo. Nesta região concentra 31% dos recursos hídricos do planeta.”

A sinceridade na fala da militar segue dentro do jogo de poder global, e aponta o crescimento do comércio com a China como um grande problema:

“Tudo isso está fora dos gráficos mais imediatos, mas quando se fala de comércio internacional, é inacreditável o volume da região. Eu falei sobre todos os vínculos e laços que nós temos com o Hemisfério Ocidental. Mas vale ressaltar que a República Popular da China é o principal parceiro comercial da maioria dos países latino-americanos, sendo que os EUA ocupam a segunda posição em grande parte dos casos. Na verdade, nem na maioria dos casos (países), mas com alguns Estados. Entretanto, ao observar o crescimento do volume de negócios da China com a América Latina, saltando de USD 18 bilhões de dólares em 2002 para USD 450 bilhões no ano de 2022, e considerando que a previsão do volume de negócios entre latino-americanos e chineses deve atingir a USD 750 bilhões no futuro próximo, creio que temos muito para pensar.”

Tio Sam mapeando as rotas de comércio dos EUA para a América do Sul - Charge de Clifford Berryman 1913.

Vale observar que para o Departamento de Estado, a América Latina está na subsecretaria do Hemisfério Ocidental. Para os EUA, o primeiro adversário em nosso Continente é a projeção de poder econômico da China e, em segundo posto, a presença da Rússia. E como tal, a general Richardson lista três aliados principais da Rússia na região (Venezuela, Nicarágua e Cuba) e seis outros países que utilizam material militar russo. A “ideia genial” – a mesma que encantou o demitido general Arruda, comandante geral do Exército brasileiro por um brevíssimo tempo – era pedir que esses países façam uma doação de material bélico de padrão russo para a Ucrânia e, assim, os gringos forneceriam equipamento militar em substituição.

É o jogo “hemisférico”, outrora chamado de “pan-americanismo”, onde os EUA tentam implantar sua agenda em tomadores de decisão de instituições-chave da América Latina. Quando não conseguem governos muito aliados, entram pelas beiradas, como foi o caso da Operação Lava Jato, a cabeça de ponte da operação de Law fare que ainda atinge a Argentina e o Peru.

Entre a desestabilização e a justa luta social 

Os governos dos países componentes do Triângulo do Lítio podem ser classificados de “progressistas”, amigos da Palestina e propensos à integração latino-americana e, por consequência, ao multilateralismo. Isso basta para que os Estados Unidos “justifiquem” em sua política doméstica alguma medida para desestabilizar essas sociedades. Considerando que a administração Biden tem como inimigo doméstico a Trump e seus aliados, as movimentações geopolíticas se colocam mais delicadas. Ainda assim, dentro do Grande Jogo do Sistema Internacional, os estrategistas do Pentágono e do Departamento de Estado percebem a evidente perda de capacidade de influência sobre a América Latina.

Compreender que há uma ameaça imperialista não pode implicar em adesismo aos governos Alberto Fernández (Argentina), Luis Arce (Bolívia), Gavriel Boric (Chile) ou qualquer outro de maioria social-democrata em nosso Continente. A agenda doméstica e as lutas sociais por mais distribuição de renda, reconhecimento e poder de fato são bandeiras permanentes, independente de quem estiver no Poder Executivo. O mesmo se dá na agenda anti-imperialista e a defesa da soberania popular sobre os recursos estratégicos e suas respectivas cadeias produtivas. É preciso ter força social para enfrentar tanto o inimigo interno como as pretensões de Washington em comandar nossos destinos.

A dependência e o colonialismo são tão domésticos como externos, e superar a sina agro mineral exportadora são passos necessários para quebrar a hegemonia do capital especulativo composto por parasitas financeiros e empresários golpistas (sempre com forte presença sionista). Se retomarmos o ciclo virtuoso das empresas estatais estratégicas – ao mesmo tempo, tentando torná-las públicas e dotadas de democracia interna – podemos realmente virar o jogo contra a direita colonizada na América Latina.

Autor: Bruno Lima Rocha Beaklini – Publicado no site Brasil de Fato!

9 de fevereiro de 2023

Executivo de banco conta como se compram políticos, juízes e jornalistas!

O sociólogo Jessé Souza entrevistou representantes da alta classe média e da massa da classe média para escrever seu mais recente livro, “A Classe Média no Espelho”, em que traça um perfil do segmento da sociedade que, em grande parte, foi para as ruas protestar durante o governo Dilma Rousseff. O pretexto era o combate à corrupção, mas se sabe hoje que era uma falácia. A classe média nunca esteve preocupada com a corrupção — se estivesse, estaria protestando pela punição a Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro, flagrados em movimentação milionária atípica.

Um dos entrevistados por Jessé foi o CEO de um banco, cujo nome é preservado. O executivo conta como o banco compra políticos, juízes e até jornalistas, para manter um sistema corrupto de privilégios.

A entrevista está sendo publicada com autorização de Jessé Souza e de seu agente editorial:

Sérgio: o CEO de um banco explica como se compra o mundo

Sérgio não é um CEO qualquer. Muito inteligente, culto, leitor de psicanálise nas horas vagas – a mulher é psicóloga -, ele é dessas pessoas que têm prazer numa sinceridade desconcertante. Sérgio tinha plena consciência de quem era e do que fazia. Se no passado teve algum problema com isso, agora não deixava transparecer nenhum incômodo.

Desde a adolescência, ele era grande amigo de João Carlos. Filho de banqueiros, havia acumulado fortuna própria na década de 1990, durante o governo de FHC, administrando fundos de investimento estrangeiros que ganharam uma grana preta com as privatizações levadas a cabo no período. Segundo Sérgio, João Carlos começou como um hábil representante de bancos estrangeiros e abriu inúmeras portas de investimento para os parceiros por meio de suas relações nos meios financeiros paulistanos, bem como no poder político e no Poder Judiciário, tanto em Brasília como em São Paulo. Lucrou tanto se utilizando do dinheiro alheio que fundou o próprio banco.

Nessa época, Sérgio frequentava uma faculdade de Direito nos Estados Unidos. Depois passou um ano em Londres, estudando finanças e ciência política e, por indicação de amigos do pai, estagiando num escritório que lidava com o mercado financeiro. Morou também em Sevilha, na Espanha, onde descobriu sua área jurídica de predileção: o direito administrativo.

No início dos anos 2000, quando voltou ao Brasil depois de quatro anos de pós-graduação no exterior, com pouco mais de 30 anos, o amigo João Carlos já era um multimilionário por “esforço próprio” e apenas naquele ano tinha ganhado mais dinheiro do que o pai durante toda a vida. Como o negócio do banco – aliás, o de todos os bancos hoje em dia – dependia da intersecção entre Estado, João precisava de alguém de confiança para cuidar da parte jurídica, antes terceirizada em diversos escritórios. Sérgio recebeu então carta branca para montar sua equipe de trabalho. Hoje o departamento jurídico é o centro nervoso do banco, com tudo passando pelas mãos de Sérgio, e ocupa um andar inteiro de um prédio moderno, decorado com luxo e bom gosto.

Quando lhe perguntei qual era seu trabalho, Sérgio não titubeou.

O João é o gênio, sabe onde estão o dinheiro e as oportunidades, pensa nisso o tempo todo. Eu só faço comprar as pessoas necessárias para que as coisas aconteçam como ele quer. Não fui eu que inventei o mundo como ele é, só procuro sobreviver da melhor maneira possível. O mais importante no Direito é conhecer os meandros da linha cinzenta entre o legal e o ilegal. Meu trabalho é expandir ao máximo a margem da legalidade a serviço dos interesses do banco.

Como já existe toda uma legalidade paralela que cuida dos interesses do setor financeiro, meu trabalho é fazer com que o nosso banco fique com o melhor pedaço da torta. Nossa equipe tem mais de vinte advogados escolhidos a dedo e bem pagos. Mas eles fazem o ramerrão do trabalho jurídico. O dia a dia. Eu faço os contatos com juízes, políticos e jornalistas e cuido dos clientes estrangeiros. Com o serviço jurídico, no sentido tradicional, meu trabalho não tem nada a ver. É mais gestão de clientes, dar a eles o que querem, dizer o que querem ouvir, beber o que eles querem beber e ser discreto e sóbrio em tudo.

E o que eles querem?

Aqui em São Paulo o que move tudo é o dinheiro e todo mundo quer viver bem. As pessoas são compradas com dinheiro vivo e com depósitos em paraísos fiscais criados para isso. A gente sabe fazer bem feito. Sem deixar rastro. A cidade é toda comprada, não se iluda, toda licitação pública e todo negócio lucrativo, sem exceção, é repartido e negociado.

Todo mundo tem um preço. Até hoje não conheci quem não tivesse. E para todo negócio é necessário uma informação privilegiada aqui, um amigo no Banco Central ali, uma sentença comprada ali ou a influência de um ministro em Brasília acolá. Além da compra direta, em dinheiro vivo ou depósito no exterior, a gente tem que paparicar constantemente os caras. Uma forma eficaz são os presentes constantes, sem a expectativa imediata de contra favores. Isso gera simpatia. Às vezes você ganha até um “amigo”.

Todo mundo adora vinhos caros, e as mulheres desses caras adoram essas bolsas que custam 50, 60 mil reais. Se é alguém com conhecimentos técnicos, você pode promover seminários e palestras, e pagar muito além do que se paga nesse tipo de mercado. Para cada tipo de cliente e de gente existe um jeito mais conveniente de comprar sem parecer que está comprando. Não fazemos isso em troca de um serviço concreto. Isso é muito importante. O que construímos é um círculo de amigos. Temos uma lista grande de pessoas que simplesmente presenteamos no aniversário e em diversas outras ocasiões, ano após ano. Presentes bons e caros. Não economizamos nisso. Aí, quando você precisa, pode contar com a boa vontade do cara. Isso é o que chamo de criar relações de confiança.

E o pagamento direto por serviços específicos?

Obviamente isso também existe. Aí pagamos em paraísos fiscais por meio de transferências sucessivas entre dezenas de empresas de fachada, de tal modo que nem Sherlock Holmes consegue refazer o caminho original.

Hoje em dia existem meios ainda mais eficazes de eliminar riscos, mas este é nosso pulo do gato, e não posso lhe contar. Mas não fica rastro, posso assegurar. Esta, afinal, é a nossa mercadoria: a segurança no investimento. E, sendo um banco, tudo fica mais fácil. Não é só no caso do nosso banco: todos os bancos, inclusive os maiores, fazem a mesma coisa. A mina de ouro de qualquer banco comercial ou de investimento é o Banco Central. Ali só entra gente nossa. E o país é gerido a partir do Banco Central, que decide tudo de importante na economia. É lá que a zona cinzenta entre legalidade e ilegalidade define a vida de todos. Isso não aparece em nenhum jornal.

Podemos fazer qualquer tipo de especulação com o câmbio, como nos swaps cambiais, por exemplo. Se der errado, o Banco Central cobre o prejuízo. Não existe negócio melhor. Se der errado, o famoso Erário paga a conta. Quem controla toda a economia somos nós e a nosso favor, o Congresso nem apita sobre isso. Quando, muito eventualmente, decide sobre algo, apenas assina o que nós mandamos, essa é verdade que ninguém conhece porque não sai em nenhuma TV.

Claro que tudo é justificado como mecanismo de combate à inflação, e não para enriquecer os ricos. Para quem vê isso tudo funcionar a partir de dentro, como no meu caso, é até engraçado.

Essa é a estrutura legalizada pela opacidade do Banco Central e da dívida pública. Mas e os negócios ilegais mesmo?

Não existe negócio que não seja intermediado por um banco, seja legal ou ilegal. Essa história de operador e doleiro é coisa da Lava Jato e da imprensa para desviar a atenção da participação dos agentes financeiros. Os bancos são completamente blindados porque inventaram um meio infalível de distribuir dinheiro para quem já tem muito poder e dinheiro. Falam de todo mundo menos de nós, que comandamos tudo.

Para mim, aí é que está o poder real, o poder do dinheiro. Na verdade, são os bancos os operadores e os doleiros, e todo o dinheiro sai de bancos, seja dinheiro limpo – na realidade, sempre dinheiro que foi tornado limpo -, seja dinheiro sujo. A não ser que você fabrique dinheiro em casa. Aliás, parte do lucro dos bancos vem de lavar dinheiro e intermediar transações. Mas o grosso da grana vem do Banco Central, das remunerações de sobras de caixa – que são ilegais, mas sobre as quais ninguém diz nada – das operações de swap cambial, dos títulos da dívida – enfim, o Banco Central é nossa mãe. É tudo escancarado, mesmo com inflação zero e o país na ruína.

Nosso lucro é legal, ou seja, legalizado, já que somos intocáveis e ninguém se mete conosco. Boa parte dos juízes e ministros de tribunais superiores, como todo mundo no meio sabe, advogam por interposta pessoa, e nós somos os principais clientes de alguns e de quem paga melhor. São os bancos que pagam as eleições do Congresso quase inteiro. Aí você pode legalizar qualquer coisa, qualquer papel sujo que a gente mande ao Congresso os caras assinam. Nesse contexto, onde se pode tudo, as operações abertamente ilegais são uma parte menor dos lucros, mas obviamente existem.

Se ninguém imprime notas de dinheiro no quintal, é óbvio que todo o dinheiro, inclusive todo dinheiro sujo, vem dos bancos, que retiram parte do seu lucro real intermediando essas relações e lavando esse dinheiro. Os bancos controlam o que você vai fazer com o dinheiro e todo dinheiro pode ser rastreado.

Toda transferência bancária tem um chip e, se você quiser saber de onde o dinheiro vem, dá para saber. Inclusive nas transações internacionais. Se a transferência é em dólar, tudo passa por Nova York e recebe um número. Mas ninguém quer saber, essa é a verdade. Como os bancos mandam na imprensa, nos juízes e nos políticos, a intermediação de todo dinheiro ilegal jamais é denunciada, E se for denunciar, você é que acaba preso. Isso eu garanto.

Como funciona mandar dinheiro para propinas no exterior, por exemplo, para comprar gente em Angola, na companhia de petróleo?

Você liga para o presidente de um banco [e cita, testando minha reação, o nome do presidente de um grande banco) e pergunta qual a comissão dele para fazer remessa.

Assim, na cara de pau?”, pergunto. “E como você acha que funciona?”, indaga Sérgio, rindo e se divertindo com minha surpresa.

Lembra daquelas malas do Geddel? Como você acha que aquele dinheiro chegou naquele apartamento? Dinheiro não dá em árvore. Quem tem a possibilidade de fazer o dinheiro circular de um lugar para outro são os bancos, mais ninguém. Não há nenhum caso de corrupção em que o dinheiro não venha de um banco. Ou seja, os bancos são os intermediários, sempre. A imprensa nunca toca nisso porque é tabu. Afinal, a imprensa é nossa.

Como assim?

Vou lhe contar um caso. Assim que cheguei no banco, o João Carlos estava com problemas com um jornalista, metido a investidor, que publicava todo dia uma notinha chata sobre negócios nossos aqui em São Paulo. O João ofereceu milhões ao cara para apoiar projetos dele se aliviasse a pressão, mas o cara não aceitou. Foi um caso raro, pois era uma grana e tanto na época. O que fizemos? Compramos o jornal, um dos maiores do Brasil, e demitimos o fulano.

Agora decidimos o que sai ou não, pois somos os donos do jornal. Não precisamos pedir nada a ninguém. O jornal é literalmente nosso. Toda a imprensa hoje em dia é assim, de um modo ou de outro. Ou eles devem os olhos da cara aos bancos ou os bancos são os donos diretamente. Por isso não sai nada na imprensa contra os bancos. A imprensa é toda nossa: televisão, jornais, internet, o que você pensar.

E com os políticos e os juízes, como funciona?

Com os políticos você paga a eleição do cara e o que sobrar, se sobrar, porque toda eleição é mais cara do que se imagina de início, ele embolsa. Aí cobramos e montamos a agenda do cara. Ou então pagamos por serviço, como expliquei, normalmente uma parte em dinheiro vivo e outra em depósito sigiloso. Às vezes, num caso ou outro mais complicado, que precisa ser resolvido para os negócios andarem, você faz um depósito no exterior para vários ao mesmo tempo. A coisa funciona do mesmo modo em Brasília e em São Paulo, e com todos os partidos políticos. Aquilo que aquele maluco da Odebrecht fez, ao criar um departamento de propina, todo banco tem, é como os negócios andam, não tem outro jeito. Mas a gente não deixa rastro como fizeram esses malucos. Ninguém é “santo” [referindo-se à suposta alcunha de Alckmin na Odebrecht], pode acreditar.

E com o Poder Judiciário?

Com os juízes os presentes funcionam que é uma beleza. O cara termina incorporando ao salário – afinal, é a mania deles. A coisa que mais irrita um juiz é saber que um advogado ganha muito mais do que ele. Na verdade, quando o advogado é muito rico, pode ter certeza que também enfia a mão na merda. Como advogado, para enriquecer de verdade, você tem que saber comprar promotores e juízes, além de advogados de outras empresas, para que escolham o seu escritório quando houver necessidade. A Lava Jato está cheia disso. Cansei de ver um colega fodendo o outro para depois ficar com a conta da empresa. Talento muita gente tem, mas construir um círculo de poder e dinheiro e saber gerir isso, mesclando cuidado e ousadia, poucos sabem.

É por saberem disso que muitos juízes ficam putos com o dinheiro que os caras ganham. Sempre acham que merecem ganhar ainda mais do que os advogados mais bem pagos, porque os riscos maiores seriam deles, e não dos advogados. Mas a verdade, e todo mundo sabe, é que a maior punição que um juiz recebe é aposentadoria compulsória, e mesmo para chegar a isso tem que aprontar um monte e fazer muito mal feito.

E como vocês recompensam os juízes?

É um pouco diferente, porque os caras são muito vaidosos, alguns se acham intelectuais. Quando o cara é muito vaidoso, o melhor método é pagar uma palestra com 100, 200 ou 300 mil reais, e ainda faz o cara se convencer de que é por sua cultura jurídica. Ou fazemos seminários internacionais com grandes jornais e revistas comentando e fotografando – aí eles piram. Nesse meio, você tem que saber comprar a vaidade dos caras, fazer com que se sintam mais importantes do que são. Ou então compramos diretamente a sentença.

Você pergunta o preço da sentença e paga, assim, na cara de pau?

“Como você acha que funciona?”, retruca Sérgio, sempre se divertindo muito por estar dando aulas de sociologia prática da vida real.

Vou lhe contar um caso que vai fazer você entender como tudo funciona. O João queria abrir uma casa noturna em Florianópolis, só para se divertir. O diabo é que encasquetou de construir a boate num lugar que era área de proteção ambiental, o MP (Ministério Público] local encrencou e a história virou uma pendenga judicial. Aí tive que ir lá para acertar com o juiz. Quando deixei tudo combinado, o João mandou uma loura – que foi favorita dele durante um tempo e depois passou a trabalhar com a gente, dessas muito bonitas e de 1,80 de altura, como só tem no Sul – levar, numa bolsa grande dessas de marca, um milhão de reais, misturando reais e dólares.

A ordem do João foi mais ou menos assim: “Põe aquele vestido vermelho justinho da Armani que te dei, entrega a mala e faz o juiz feliz.” O fulano passou um fim de semana com a loura, ficou com o dinheiro e a mala, e o João construiu a boate bem onde queria. É assim que funciona com o Judiciário.

Mas não foi uma experiência agradável, vou confessar, já que a moça foi humilhada de um modo meio violento. Fomos ela e eu levar a mala com dinheiro vivo para o juiz. Começamos a discutir o modus operandi jurídico do caso com o juiz e mais dois auxiliares na própria sala do juiz, depois do expediente. Betina, era assim que a moça se chamava, era estudante de direito e de vez em quando arriscava um palpite sobre o caso. A certa altura o juiz se irritou e disse que ela não era advogada, mas puta, e estava ali para outro serviço. Na mesma hora, botou o pau para fora, na minha presença e de outros dois, e mandou a moça chupar.

Depois mandou que fizesse o mesmo com os dois funcionários. Em seguida entra um terceiro assistente, todos obviamente de confiança do juiz e de sua equipe “privada”. Ao ver a moça ainda de joelhos e já com o belo vestido meio rasgado, lança um olhar entre divertido e intrigado à cena, e então o juiz o interpela: “Quer também?” Ato contínuo, a moça cumpre pela quarta vez o mesmo ritual. Esse pessoal adora um abuso, quase tanto quanto dinheiro.

As mulheres sempre participam desse jogo?

Nem todo mundo gosta de misturar putaria e trabalho, mas se você for carente e cair nessa, está fodido. Aí fica na mão mesmo. E o diabo é que o que mais existe é gente carente afetivamente, que sem perceber cai nessa armadilha. Eu, por exemplo, não participo. Como tenho mulher parceira, não tenho este tipo de carência. Não digo que não tenha participado uma vez ou outra, nesses quase 20 anos em que trabalho aqui, mas não é a minha praia. Mas tem muitos que gostam. Os estrangeiros, por exemplo, adoram. Passei um ano em Londres trabalhando como estagiário na área jurídica do mercado financeiro e lá a putaria é mais pesada. Onde tem muito dinheiro tem muita putaria. Pesada mesmo, todo tipo de coisa que você for capaz de imaginar. Tipo alugar castelo do século XVII para um fim de semana com muita droga e muita festa para todo tipo de gosto.

Afinal, todas as máfias do mundo estão por lá, russos, árabes, africanos, brasileiros. Londres é uma grande lavanderia atrás da fachada da realeza. Comparados com eles, somos amadores. Mas, João sabe fazer esse jogo, não é nenhum amador. Por exemplo, para funcionar, não pode parecer putaria barata, e o João é um gênio nesse jogo.

Outro dia tivemos um cara, um norueguês, da companhia de petróleo deles. O cara sabe tudo de prospecção de petróleo. O João se encarregou pessoalmente de armar a festa. Ele tem uma ilha em Angra só para isso, com heliporto e um iate lindo. Tudo encoberto pela mata atlântica, privacidade total. É um fim de semana de sonho.

A gente tem de 15 a 20 mulheres lindas, que podemos chamar a qualquer hora, algumas ganham presentes caros todos os meses, outras a gente paga mesmo, e nenhuma delas você diria que é puta. São lindas, elegantes, sabem conversar, usam roupas caras, se comportam e não destoam em nenhum ambiente. Algumas você deve conhecer, aparecem na internet, mas isso eu não posso contar. O norueguês, por exemplo, ficou tão louco que queria levar uma delas para a Noruega.

O João aproveita e chama ainda um juiz, um político, um amigo do mercado ou um procurador mais chegado, chama também alguns daqui do banco mesmo, que sabem criar o ambiente mais relaxado e agradável possível, tudo para criar um clima de festa normal. O segredo é forjar “amizades”. As vezes montamos negócios inteiros com todos os interessados participando, mas sem parecer negócio, como se fossem amigos se divertindo. Você tem que saber misturar e montar para parecer diversão entre os “parça”, entende? Lá as meninas sabem fazer o trabalho do melhor modo possível. Tudo parece a coisa mais natural do mundo, como uma festa normal e animada entre conhecidos. Nisso de criar uma relação de confiança, o João é impagável. Eu só faço o me campo. O astro é ele.

E cabe a você comprar as pessoas para os negócios andarem?

Quem existe neste mundo que não é comprado de alguma forma? Comprar alguém bem comprado não envolve só dinheiro. Você tem que comprar uma relação de confiança. Sem isso, todo o dinheiro do mundo não conta. E isso é um talento. João costuma dizer que quem manda no Brasil, a elite, não soma mais do que 800 pessoas, e que ele e eu conhecemos cada uma delas. Dessas 800 pessoas, 600 estão em São Paulo, 100 em Brasília e 100 no resto do Brasil. Temos uma relação excelente com boa parte desse pessoal, e diria que, com pelo menos umas 100 dessas 800 pessoas, temos uma relação de confiança construída ao longo dos anos.

Um banco, como qualquer empresa, vive de oportunidades de negócios que a conjuntura econômica e política cria. Se você é realmente um bom empresário, não pode ficar apenas esperando que a oportunidade surja com a conjuntura, pois aí vai ter muitos rivais e concorrentes. Um bom empresário ou banqueiro é o que percebe a oportunidade quando ela aparece. Mas se você é muito bom, melhor que os outros, como no caso do João, então você tem que fazer com que a oportunidade aconteça só para você ou que você possa aproveitá-la antes dos outros. Este é o segredo do nosso negócio. Se deixa passar uma janela de oportunidade, você não é bom no que faz. Mas nós somos muito bons no que fazemos. Nós criamos a oportunidade de tal modo que ela caia no nosso colo. Para isso servem as relações de confiança cultivadas ao longo dos anos.

Autor: Publicado no Diário do Centro do Mundo - DCM.