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1 de novembro de 2022

As maldades de Paulo Guedes: as feitas e as que podem vir com a reeleição!

Discute-se agora, com ar de surpresa, o vazamento de propostas do Ministério da Economia com medidas que podem impactar o orçamento da classe média, dos assalariados e dos aposentados e pensionistas, mas isso não apenas é do conhecimento público há muito tempo, como parte dessas medidas já foi incorporada nas Emendas à Constituição 103/19, da reforma da Previdência, e da Emenda Constitucional (EC) 109/21, conhecida como PEC Emergencial.

Paulo Guedes defende desvinculação do reajuste do salário mínimo e das aposentadorias da inflação. Foto Marcos Corrêa - PR.

Primeiro, vejamos o que já foi aprovado em nível Constitucional – EC 103 e 109 – cuja implementação depende apenas do envio ao Congresso Nacional das medidas provisórias ou dos projetos de lei, para dar cumprimento às determinações constitucionais. Registre-se que parte delas já está sendo cumprida, como a cobrança de contribuições confiscatórias sobre remunerações e proventos, no caso dos servidores públicos, duramente atingidos pela EC 103/19, enquanto outras proposições legislativas já estão prontas no Ministério da Economia e só não foram enviadas ao Poder Legislativo ainda porque estamos em ano eleitoral e isto poderia prejudicar a candidatura de reeleição do Presidente Bolsonaro, por isso estão guardadas a sete chaves.

Além da cobrança imediata de contribuições mais elevadas, em vigor desde março de 2020, na Emenda Constitucional nº 103, da reforma da Previdência, foi autorizado que os governos federal, estadual e municipal – além do aumento da idade mínima, do tempo de contribuição e do valor da contribuição dos filiados aos Regimes Geral de Previdência Social (INSS) e do Regime Próprio de Previdência Social (Servidores Públicos) – cobrem contribuição de aposentados e pensionistas do Serviço Público sobre o valor de R$ 5.875,00, atualmente isento de contribuição, mediante a redução do limite de isenção de um teto do INSS (R$ 7.087,00) para um salário mínimo (R$ 1.212,00), bastando para tanto que declare que o Regime Próprio dos Servidores gasta mais com aposentadorias e pensões do que arrecada do governo e desses contribuintes, e que as receitas presentes ou futuras serão insuficientes para honrar as despesas previstas, o chamado déficit atuarial. Está autorizado ainda que, caso essa nova tributação sobre os aposentados e pensionistas, por meio da redução do limite de isenção, não seja suficiente para zerar o déficit financeiro desses regimes, os governos deverão instituir contribuição extraordinária, sem limite definido, sendo esta cobrada de todos – ativos, aposentados e pensionistas – do serviço público.

Esses excessos de tributação, verdadeiro confisco, proibido pela Constituição por regra que é cláusula pétrea, acham-se sob exame do Supremo Tribunal Federal, que no último dia 16 de setembro iniciou o julgamento de 12 Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs).

O relator, ministro Roberto Barroso, porém, considerou em seu voto que o déficit no setor é incontestável, com piora significativa nos últimos anos, e o pagamento de aposentadorias e pensões consome fatia relevante do Produto Interno Bruto (PIB) e do orçamento estatal, deixando poucos recursos para setores como saúde e educação.

Ressaltou em seu voto a necessidade da autocontenção judicial, reconhecendo a validade da EC 103, aprovada pela maioria de três quintos de cada Casa do Congresso Nacional, e que o “princípio da solidariedade” justificaria o aumento de contribuição. Sobre a progressividade das alíquotas entendeu que a medida não caracteriza confisco, já que busca efetivar o princípio da capacidade contributiva. E afirmou que a mera previsão constitucional da possibilidade de criar a contribuição extraordinária não ofende, a priori, cláusula pétrea, mas pode vir a ser objeto de exame a lei que a institua.

Quanto a esses pontos, o ministro Edson Fachin divergiu do Relator e julgou parcialmente procedente o pedido para declarar a inconstitucionalidade do art. 1º da EC nº 103/2019, na parte alteradora dos parágrafos 1º-A, 1º-B e 1º-C do art. 149 da Constituição Federal. O julgamento foi interrompido pelo pedido de vistas do Min. Ricardo Lewandowski. Caso o STF confirme a constitucionalidade da EC 103, ou não aprecie o pedido de declaração de inconstitucionalidade, estará aberto o caminho para mais esse arrocho tributário.

Na Emenda Constitucional nº 109, resultante da PEC 186/2019, conhecida como “PEC Emergencial”, ficou determinado (art. 4º) que o Presidente da República deveria encaminhar ao Congresso Nacional, em até 6 (seis) meses após a promulgação da Emenda Constitucional (ela foi promulgada em 15 de março de 2021) plano de redução/eliminação gradual de incentivos fiscais, ao longo de oito anos, de modo a não ultrapassarem 2% do PIB, com redução de pelo menos dez por cento no primeiro ano de sua implementação. E, ainda, prevê que Lei complementar tratará de “critérios objetivos, metas de desempenho e procedimentos para a concessão e a alteração de incentivo ou benefício de natureza tributária, financeira ou creditícia para pessoas jurídicas do qual decorra diminuição de receita ou aumento de despesa”, “regras para a avaliação periódica obrigatória dos impactos econômico-sociais dos incentivos ou benefícios” e “redução gradual de incentivos fiscais federais de natureza tributária, sem prejuízo do plano emergencial”.

Em setembro de 2021, o Executivo enviou ao Congresso o PL nº 3.203/2021, que “dispõe sobre o plano de redução gradual de incentivos e benefícios federais de natureza tributária e o encerramento de benefícios fiscais, nos termos do disposto no art. 4º da Emenda Constitucional nº 109, de 15 de março de 2021”, prevendo a não renovação de 7 benefícios fiscais que findam em 2022, 4 que findam em 2023, 8 que findam em 2024 e 1 que tem o prazo final previsto para 2025. Prevê, ainda, a revogação de benefício da redução de 70% no IRRF sobre as remessas na aquisição de obras estrangeiras, a redução do valor de estimativas de renúncia decorrente do benefício de redução do IPI na importação de autopeças e a revogação de diversos benefícios fiscais cuja revogação já consta do texto do Projeto de Lei nº 2.337, de 2021 (reforma do Imposto sobre a Renda), que envolve, entre outras, a tributação sobre juros e dividendos.

Mas, como já foi noticiado pela mídia, acha-se sobre a mesa do ministro a proposta de eliminação das deduções do gasto com educação e saúde, bem como as deduções assegurada aos idosos e deficientes. O artigo 4º da EC 109 cita explicitamente todas as deduções que ficam preservadas e entre elas não estão aqueles asseguradas em razão da idade e de deficiência nem as deduções com educação e saúde dos contribuintes pessoas físicas.

Quanto à eliminação da correção do salário-mínimo, bem como dos benefícios previdenciários e assistenciais, assim como a desvinculação do desses benefícios do salário-mínimo, isso já conhecido dos brasileiros, pois desde 2019 o governo Bolsonaro defende isso. Quem não se lembra das três PECs do plano de emergência fiscal (PECs 186, 187 e 188), enviadas ao Senado em 2019, sob o grande guarda-chuva do chamado “três D” – Desvinculação, Desindexação e Desobrigação – que tinha por finalidade adotar o orçamento de base zero, ou seja, não haveria nenhuma despesa obrigatória e todos os anos o governo e o Congresso Nacional decidiriam onde aplicar os recursos arrecadados da sociedade, sem garantia de gasto mínimo com educação, saúde, ciência ou tecnologia ou qualquer outra política pública. Nos termos daquelas propostas, no caso da ocorrência de déficit público, ficaria vedada a “adoção de medida que implique reajuste de despesa obrigatória acima da variação da inflação, observada a preservação do poder aquisitivo referida no inciso IV do caput do art. 7º da Constituição Federal”. Assim, para contar o volume da despesa previdenciária ou assistencial, o Executivo poderia, até mesmo, ignorar a garantia da preservação do valor real das aposentadorias e pensões.

Registre-se, ainda, que o Ministério da Economia não ficou nada satisfeito com o resultado da reforma da Previdência nem com a não aprovação das PECs do pacote “três D”. É preciso lembrar, ainda, que quando essas propostas foram enviadas ao Congresso o Centrão ainda não fazia parte da base do governo Bolsonaro. Por isto, alguns pontos dessas reformas, entre eles a privatização da Previdência, mediante a mudança do regime de repartição para o de capitalização, não foram aprovados. Entretanto, se Bolsonaro for reeleito, agora com uma base robusta, irá dar prioridade à reforma administrativa, a uma nova reforma da Previdência, com foco na sua privatização, promoverá a desvinculação dos critérios de reajuste dos benefícios previdenciários em relação à inflação passada e ao INPC e ao reajuste do salário-mínimo, e ressuscitará as PECs da Desvinculação, da Desindexação e da Desobrigação, além de implementar, de imediato, as pendências das Emendas Constitucionais 103 e 109.

Autores: Antônio Augusto de Queiroz - Jornalista, analista e consultor político, mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV. Ex-diretor de Documentação do Diap, é sócio-diretor das empresas “Consillium Soluções Institucionais e Governamentais” e “Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas”.

Luiz Alberto dos Santos – Advogado, doutor em ciências sociais, mestre em administração, consultor legislativo do Senado Federal e sócio da Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas, foi subchefe de análise e acompanhamento de políticas governamentais da Casa Civil da Presidência (2013-2014). Publicado no Site Congresso em Foco.

Por que a corrupção do governo Bolsonaro não comove!

Dizer que vota em Bolsonaro porque é contra a corrupção não faz sentido e eu vou te provar. 

Manifestação contra Bolsonaro em meio à alta dos combustíveis e após as denúncias de corrupção no MEC. Foto de Ricardo Stuckert - Instituto Lula.

Antes de mais nada, precisamos repassar, mesmo que de forma rápida, uma história que o brasileiro parece ter esquecido: na eleição de 2018 tivemos uma sucessão de fatores que culminaram no crescimento da popularidade de Bolsonaro e alguns desses fatores eram realmente nobres e justificáveis. É possível entender que algumas pessoas tenham feito essa escolha naquele momento, por conta dos erros cometidos por governos da época e anteriores a ele, aliados a uma governança impossível de se sustentar, com o ex-deputado cassado Eduardo Cunha comandando o Congresso, a falta de experiência política de Dilma Rousseff, casos de corrupção sistêmica apontados pela Lava Jato e uma crise global em 2015/2016 que muitos esquecem de citar. Era o fim de uma era de crescimento que chegou a colocar o país na posição de sexta maior economia mundial.

É necessário que fique claro que a crise de 2015/2016 existiu, mas não havia interesse em focar nisso e sim na derrocada da então presidente Dilma Rousseff. Logo, vamos deixar explícito aqui o que realmente aconteceu e que não exime o governo petista dos erros.

O preço das commodities estava caindo desde 2012. O que estava ruim, piorou com a queda do preço do barril de petróleo, que passou de mais de US$100.00 em 2014 para menos de US$50.00 em 2015, caindo abaixo da casa dos US$ 30.00 no início de 2016. O índice do preço dos alimentos da Food and Agriculture Organization (FAO) desceu um nível abaixo do alcançado em 2009 e essa queda dos preços da comida e da energia seriam ótimos se o Brasil fosse realmente desenvolvido, mas sabemos que não é o caso. Isso porque o Brasil, assim como os demais países emergentes e em desenvolvimento, depende das receitas originadas pela exportação e viu sua balança comercial cair e seus problemas se agravarem.

A Rússia e a África do Sul, destaques em desenvolvimento até aquele momento, começaram a despencar. Junto com eles, os países do BRICS desmoronaram e o chamado “Sul Global” que vinha liderando o crescimento mundial perdeu fôlego. Até mesmo a China chegou a interromper um período de 40 anos do maior crescimento da história. Todos os países exportadores de petróleo e a empresas petrolíferas entraram em crise.

Agora imaginem: uma crise global atingindo um país que vinha em amplo crescimento e com uma população que começava a ter acesso a coisas que nunca sonhou, começa a perder o poder de compra; vê seus gestores cometendo erros graves e associados a escândalos de corrupção; um presidente da Câmara dos Deputados comandando uma votação de um impeachment a fim de colocar justamente o vice-presidente, de seu partido, para assumir a presidência; uma presidenta que resolveu não interferir em processo algum de investigação e um juiz midiático que aceitaria, num futuro não tão distante, ser ministro do governo que ele mesmo ajudou a eleger. Era o desastre anunciado.

Pois bem. Dito isso, precisamos falar do discurso adotado pelos eleitores do atual presidente, que se baseia em argumentos rasos, para não dizer único do: “Não voto em ladrão.” O que, para mim, não faz nenhum sentido já que desvincular a imagem de Jair Messias Bolsonaro da Lava Jato é um ERRO. O presidente fazia parte do PP (Partido Progressistas), que teve justamente o MAIOR número de condenados na Lava Jato. Nesse período, ele recebeu em sua conta o valor de R$ 200 mil diretamente da JBS. O que ele fez? Devolveu o dinheiro ao partido e recebeu IMEDIATAMENTE a mesma quantia com o discurso de ter origem no Fundo Partidário. Além disso, em 2020, a JBS admitiu ter repassado R$ 9 milhões a Wassef, advogado da família Bolsonaro, o que gerou abertura de inquérito na Polícia Federal. Pela lógica dos eleitores de Bolsonaro de não votarem em ladrão, o discurso é, no mínimo, sem sentido, já que está claro que Bolsonaro sabia do esquema e colheu os frutos dele. O nome disso é incoerência ou hipocrisia, como queiram chamar.

O que grande parte da população não consegue enxergar é que o governo do PT não empurrou para debaixo dos panos a corrupção, não interferiu nas investigações, não trocou o procurador-geral quando teve a chance e nem movimentou a diretoria da Polícia Federal ou pressionou o ministro da Justiça, como aconteceu com Moro, que chegou a pedir demissão do cargo. Aqui está a diferença que mudou meu voto.

Não sejamos a pessoa que acredita em contos de fadas. Nos dois governos tivemos corrupção, mas o que os difere é a conduta de cada um dos chefes do Executivo perante os casos. Em um, tivemos o maior escândalo de corrupção investigado da história e, no outro, o maior acobertamento de corrupção da história. No Índice de Percepção de Corrupção, que analisa 180 países, neste ano, o Brasil caiu duas posições, ficando com 38 pontos, a terceira pior nota da série histórica. Isso não é por acaso. O melhor dos mundos seria não precisar contar com nenhuma das alternativas que temos no segundo turno destas eleições, mas não temos essa opção. E neste momento é preciso posicionar-se e deixar claro o que não dá mais para aceitar no Brasil.

A grande comoção a favor de Bolsonaro, justificada em 2018, não existe mais. Sobraram duas vertentes de apoiadores do atual presidente: a primeira é a dos desinformados e pessoas que sofreram uma verdadeira lavagem cerebral e se descolaram completamente da realidade. A segunda conta com as mesmas pessoas que lutaram vestidos com a bandeira do país contra a “corrupção do PT”, mas no fundo, não era a bandeira e sim uma cortina que escondia a misoginia, o racismo, o preconceito e o incômodo com o pobre ocupando o assento ao lado no avião. Dentro desse segundo agrupamento, ainda se camuflam os frustrados, que por sua própria incompetência profissional e acadêmica, viram no apoio ao atual presidente uma chance de ao menos parecer inteligente e politizado, além de eleger o PT como culpado de sua própria incompetência.

Mas, mais uma vez, é preciso esclarecer algumas características desses grupos e vamos dissecar cada um dos dois tipos de eleitores. Dentro da primeira categoria de eleitores de Bolsonaro agregamos especialmente os fanáticos religiosos e os adeptos das “teorias da conspiração” criados por verdadeiros lunáticos que abastecem de fake news essa cadeia de pessoas com níveis diversos de psicopatia. Na área religiosa – e aqui peço licença aqueles que tratam a religião com o devido respeito e importância -, impregnaram as pessoas com uma tese maniqueísta do bem contra o mal, dizendo falsamente que existe uma luta espiritual em que o Diabo está vencendo e o trabalho dele se manifesta em coisas como estupro de bebês com dias de vida, tráfico humano para o Suriname, destruição da família, sexualização de crianças, criação de banheiro unissex, destruição das igrejas e tomada dos lares dos cristãos.

É a teocratização do poder público, usando de base um fundamentalismo evangélico que faz doações como a do Fabiano Campos Zettel, no valor de R$5 milhões, sendo R$3 milhões para a campanha de Bolsonaro e R$2 milhões para a de Tarcísio Freitas. Esses eleitores não fogem muito da versão dos eleitores que fizeram frente ao boicote à vacinação, usando como argumento que a COVID-19 fazia parte de um acordo global para a China dominar o mundo. Esses, nem haloperidol, utilizado como antipsicótico, resolve. Agora, eu te pergunto: qual a chance de você reverter um voto desse grupo? Nenhuma! Não perca seu tempo.

No grupo de extremistas, encontramos as pessoas que julgam o comportamento dos eleitores dos demais candidatos. Eu nasci e cresci em Araçatuba, uma cidade no interior de São Paulo completamente dominada pelo agronegócio e famílias tradicionais de fazendeiros, sendo a maior parte dos moradores bem tradicionalistas. No entanto, a realidade era escancarada na madrugada em meio à rua Silva Jardim, onde eu morei por 12 anos, no centro da cidade.

Os defensores da “família tradicional brasileira” eram os mesmos que frequentavam uma esquina em que os travestis ficavam aguardando para fazer programa. Apesar de se ancorarem no discurso de que a esquerda tem um projeto de destruição da família, e resumirem quem tem uma vertente política diferente como pervertidos, o que eu via desde aquela época eram carros importados e camionetes com homens casados, pais de família, parando para que os travestis entrassem para prestar seus serviços. E a questão aqui não está em fazer juízo de valor, porque cada um sabe a melhor forma de expressar o amor e todas elas são válidas, se ambas as partes estiverem felizes. A questão aqui é outra. É o hábito das pessoas que acusam de serem justamente as que praticam; os que julgam são aqueles que guardam dentro de si o sentimento e reprimem as ações que motivam seu próprio julgamento. A psicologia explica como teoria da projeção: você acusa o outro daquilo que você carrega dentro de si.

É rigorosamente o mesmo caso dos defensores da tradicional família. Apenas no meu círculo de amizade, se eu selecionar dez eleitores de Bolsonaro que defendem a família, ao menos sete eu sei que já traíram suas esposas. E, para eles, é natural isso, tendo em vista que o próprio presidente, que defende a mesma família tradicional, já passou por três casamentos e, mesmo casado, não se furta de fazer abordagens de cunho sexual por onde passa. Como eu disse, essa é a realidade da hipocrisia bolsonarista.

Na segunda categoria de eleitores, aqueles que se ampararam no discurso da “luta contra a corrupção” em 2018, não restou muita coisa porque não é mais possível sustentar esse discurso de forma racional. Eles apenas escondem a realidade, que é ser justamente o que predomina na população elitizada (ou a parte que pensa ser da elite) do Brasil: tradicionalistas, misóginos, racistas, preconceituosos e frustrados.
A primeira coisa que precisa ser dita, mesmo de forma generalista e resumida, é: só existe processo se houver também o apontamento de indícios por meio de investigação. Só é possível que haja condenação se o processo for acatado pelo magistrado após recomendação do Ministério Público. Esses são os trâmites normais em casos envolvendo a administração pública, com ministros e demais membros do governo.

No caso do presidente da República, o artigo 86, inciso 4, da Constituição diz: “O Presidente da República, na vigência do seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.”

Trocando em miúdos, só quem tira o presidente é o Congresso Nacional. Então, por que mesmo com tantos pedidos de impeachment contra Bolsonaro, nenhum evoluiu? A resposta é simples: ORÇAMENTO SECRETO.

E muita gente fala sobre esse assunto, mas você sabe de fato o que esse orçamento significa? Já existe a garantia de R$ 38,8 bilhões destinados a emendas para que os parlamentares possam destinar os recursos sem sequer dizer para onde será disponibilizado. Para que você entenda de forma prática o que isso pode gerar, vamos ao exemplo do Ministério do Desenvolvimento Regional e a mala com R$ 1,3 milhão em espécie. O MDR tinha como ministro o Sr. Rogério Marinho, que acabou de ser eleito senador pelo Rio Grande do Norte.

Dentro da pasta, a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba), que tem como gestores os apadrinhados do presidente da Câmara, o Deputado Arthur Lira (PP-AL) e do chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), o fluxo do recurso funciona assim: o parlamentar destina o recurso para uma determinada região e com uma execução específica – sem precisar sequer deixar pública a informação -, a distribuição é feita pelo Ministério correspondente (no caso o MDR). A Codevasf, então, efetua uma “licitação” e contrata a empresa para execução dos serviços. Rápido e sem nenhuma transparência. Para se ter ideia dos números, a CODEVASF tinha destinação de R$ R$610 milhões por ano e, em 2022, atingiu R$1,2 bilhão de verbas originadas por emendas.

Agora, eu te pergunto: qual era o partido de Bolsonaro antes de 2018? Qual é o partido de Ciro Nogueira? Qual é o partido do Arthur Lira? Qual é partido que teve o maior número de parlamentares condenados na Lava Jato? A resposta é a mesma: PP. E se você sentiu falta da citação do partido do senador eleito Rogério Marinho, que foi o elo da distribuição do recurso que gerou a mala de R$1,3 milhão em espécie, eu te digo: PL, que é o partido atual do presidente Jair Messias Bolsonaro.

Então, se você é contra o PT porque “não aceita corrupção”, você está escolhendo o caminho errado. Arrume outra desculpa, busque explicação em outra coisa. Saia dessa caixa de realidade paralela que você criou e assuma que você é misógino, racista, homofóbico, preconceituoso e ou frustrado.

Com apenas UM exemplo, como esse do Ministério do Desenvolvimento Regional, é possível derrubar a tese dos eleitores que afirmam que “não votam em bandido” para justificar a escolha de Bolsonaro no próximo dia 30. Agora, imaginem se além desse exemplo, eu fosse descrever os demais esquemas como: pedido de U$1 de propina por vacina no Ministério da Saúde, cheques na conta da primeira-dama, venda de dívidas de R$3 bilhões do Banco do Brasil para o BTG por R$300 mil, sigilo de 100 anos em gastos do cartão corporativo, 51 imóveis comprados com dinheiro vivo como parte do pagamento, apagão de dados do monitoramento da pandemia, corrupção no Ministério da Educação com transporte de dinheiro programado para ser feito dentro de pneus de camionetes. Mas algumas dessas informações não chegam até você e sabe por quê? Quando você procura no Google “corrupção no MEC”, olhem o resultado:

O primeiro resultado dessa pesquisa é um anúncio PAGO pela campanha eleitoral de Jair Messias Bolsonaro, dizendo “o maior caso de corrupção – 42 bilhões de reais de prejuízo”, apontando o processo ligado à Petrobras. Para encobrir o escândalo do MEC, a campanha de Bolsonaro patrocina publicação sobre outro assunto ligado ao PT. Quem não deve nada e tem como pauta de campanha a ausência de corrupção em seu governo, precisa camuflar informações com anúncio patrocinado?

Para piorar, com o resultado das eleições para deputados e senadores, caso Bolsonaro seja reeleito, absolutamente nenhum presidente na história do país terá tido tanto poder como ele terá. Como autor do projeto do Orçamento Secreto e com a Câmara e o Senado em suas mãos, a situação será ainda mais preocupante. Nenhuma unanimidade é saudável. Sem fiscalização, contrapontos e uma oposição relevante, nosso país estará nas mãos daqueles que mais roubaram do nosso país de fato, como o caso do PP, PL e demais partidos da base do governo e que já mostraram, como no caso da Codevasf, do que são capazes. Juntando isso com as manobras para evitar qualquer tipo de investigação, como fizeram com a transferência de órgãos de fiscalização como o Coaf, que salvou o Flávio Bolsonaro, teremos a maior farra da história se consolidando.

Se nada disso ainda for o suficiente, ainda podemos citar as questões morais e a quantidade de pessoas que encararam a ascendência de Bolsonaro como uma espécie de licença para dizer o que vem à cabeça e agir de forma inescrupulosa. A partir das falas do atual presidente, as pessoas começaram a se achar no direito de se referir a pretos como preguiçosos, aos mortos pela covid-19 em tom de piada, aos empregados registrados e servidores públicos como se fossem parasitas, à comunidade LGBTQI+ como destruidores da família e depravados e, o mais grave, verdadeiros psicopatas como Roberto Jefferson se acham no direito de atirar em policiais que simplesmente estavam exercendo a sua função, assim como tivemos casos de violência contra eleitores de outros partidos, contra a imprensa, e até enfermeiros durante a pandemia, que pediam melhores condições de trabalho. Será que as pessoas têm memória curta ou seletiva?

Obviamente, apesar de ter resumido os eleitores do atual presidente em dois grupos, existem pessoas boas que estão fazendo essa escolha. São pessoas que têm pouco acesso à informação, defendem questões pessoais de seu próprio interesse, que realmente acreditam em algo diferente ou possuem algum tipo de trauma em relação às gestões passadas. Mas não nos enganemos, essa é a minoria, pois a grande parte dos eleitores de Bolsonaro realmente pertencem aos dois grupos que dei destaque neste artigo.

Não há o que se discutir ou passar a mão na cabeça dos responsáveis pelo que houve no passado. O que está em jogo agora é a corrupção institucional, a ausência de investigações, as manipulações de órgãos e instituições cruciais para a manutenção do funcionamento da máquina pública com transparência. Se você realmente é contra a corrupção, você não vota em Bolsonaro. Se vota, busque outro argumento.

Autor: Roberto Camilo É publicitário, empresário, com especializações no IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, London College Of Communication e Leland Stanford Junior University.